AVENTURAS DE UM DISEUR

MÃOS DADAS : UM DVD DE POESIA LUSÓFONA           

                                                      

                                                           Lauro Moreira                             

Capa do DVD

Capa do DVD

Não sou poeta, hélas! não escrevo versos – é certo que já escrevi, quando muito jovem, mas o respeito pela Poesia foi sempre tão grande que desisti logo de a continuar maltratando… Passei a ser então apenas um leitor encantado e assíduo, além de um ledor exibido, um diseur que não perdia, e até hoje não perde, a oportunidade de interpretar poemas alheios, desde que tenham, ao menos ao meu juízo, a imprescindível qualidade literária.

Ao longo da vida, sobretudo a partir da adolescência, quando comecei a fazer teatro em peças colegiais e mais tarde em grupos amadores no Rio de Janeiro, dediquei-me à tarefa de divulgar a obra de grandes criadores da poesia em língua portuguesa, não só do Brasil como de todo o mundo lusófono, através de apresentações em colégios, academias, universidades, casas minhas e de amigos, etc. Aos dezenove anos e inspirando-me numa apresentação análoga de Paulo Autran, decidi realizar um recital solo no Rio de Janeiro (com direito a uma estreia off-Broadway em Goiânia, Anápolis e Itaberaí, durante as férias de fim de ano em Goiás), com poemas de Gonçalves Dias (o longo Y Juca-Pirama na íntegra), Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Mário de Andrade, Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Drummond, entre outros de igual quilate. Foi para mim uma epopeia: duas horas de um espetáculo dividido em três atos, tudo devidamente decorado e ensaiado. Mas a acolhida do público compensou o esforço e incentivou-me a seguir por esse caminho…

Ingressando, depois de concluir a Faculdade de Direito da PUC-Rio, na Carreira Diplomática, passei a unir realmente o útil ao agradável, divulgando no exterior – sempre que as tarefas específicas dos Postos me permitiam – através de palestras e recitais, o que de melhor havia na poesia lusófona, em um sem número de apresentações na Argentina (meu primeiro posto), Estados Unidos, Espanha, Marrocos e finalmente Portugal, além de Cabo Verde, Angola, Santo Tomé e Príncipe e Guiné Bissau. Os espetáculos, individuais ou acompanhado de colegas e amigos de posto que eu acabava quase que docemente constrangendo a participar, eram, quando necessário, bilingues, com os textos recitados em português e em seguida no idioma local. No caso de Barcelona, por exemplo, em que chegamos a criar um grupo de jograis formado por funcionários do Consulado do Brasil, dizíamos os poemas em português, castelhano e catalão.

Mais um Recital em Lisboa, no Centro Cultural de Malaposta (Odivelas)

Mais um Recital em Lisboa, no Centro Cultural de Malaposta (Odivelas)

Um caso muito curioso, no entanto, ocorreu bem mais tarde, quando lancei no Brasil o meu primeiro CD, um álbum duplo intitulado Mãos Dadas, reunindo obras de 28 poetas de todos os países de língua portuguesa (sete à época, 1997, já que o Timor Leste não era ainda um país independente). Fiz uma apresentação inaugural no Rio, a convite da Academia Brasileira de Letras, seguida de turnê (ou como dizem nossos amigos portugueses, de uma digressão) por algumas capitais, incluindo São Paulo e Brasília, e cidades do interior do país, além de Lisboa e Cabo Verde. Com uma generosa cobertura da midia, o recital acabou gerando um interesse surpreendente, a ponto de esgotar a edição inicial de três mil exemplares do CD. E certo dia, um cidadão rumeno residente em São Paulo telefona para meu gabinete no Itamaraty em Brasília, para saber onde poderia adquirir exemplares do disco, pois tinha a intensão de levá-los para Bucareste e presentear alguns amigos e instituiçõe culturais. Uns três meses depois, recebo com grande surpresa uma carta da Rádio Nacional da Romênia, comunicando que meu CD estava sendo utilizado em um programa transmitido em língua portuguesa. Mais surpreendente ainda foi quando, anos depois, a Embaixadora da Romênia em Brasília, ao sermos apresentados, confessou que aprendera o Português ouvindo sobretudo o tal programa e os poemas de meu disco.

Recital na Embaixada de Portugal em Brasília

Recital na Embaixada de Portugal em Brasília

Mas a estória não acaba aqui: certo dia, logo depois da mencionada carta que me fora enviada pela Rádio, recebo diretamente uma comunicação do Museu de Literatura da Romênia, convidando-me a fazer um recital em Bucareste. Em seguida, entra em ação o nosso atuante Embaixador brasileiro naquele posto e ex-Ministro da Cultura do Governo Itamar Franco, meu amigo Jerônimo Moscardo, insistindo para que eu atendesse ao convite – o que me parecia impossível, por falta de tempo e de oferecimento de transporte… Até que um dia, como Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty, viajei oficialmente a Paris para a reunião da Assembleia Geral da UNESCO, e uma vez concluída a missão, comprei os bilhetes meu e de minha mulher e viajamos para Bucareste. O que então se passou foi algo de fato surpreendente e absolutamente inédito em minha vida de “diseur”. Com o apoio de três instrumentistas do Conservatório local de música, convidados por nosso Embaixador Moscardo, que promoveu inclusive a tradução dos poemas para o Rumeno e as cópias distribuídas ao público no final da sessão, apresentei um recital de grandes poetas da lusofonia para uma numerosa e atenta plateia que superlotava o salão – e que, com as raras exceções de alguns professores universitários e dos Embaixadores do Brasil e Portugal, nada falavam Português… Fiquei muito impressionado com o que vi e vivi naquela noite, quando a força da poesia acabou criando um momento de absoluta magia. Ainda hoje, revejo às vezes a gravação do recital realizada pela televisão rumena, e não deixo de me admirar.

Recital em Lisboa (2013) com a apresentação de Älma Lusitana, de Alberto Araújo

Recital em Lisboa (2013) com a apresentação de Älma Lusitana, de Alberto Araújo

Anos mais tarde, em 2004, lancei-me em nova aventura discográfica, preparando um CD com poemas de Manuel Bandeira, na voz do próprio Poeta, gravados certa noite em minha casa no Rio de Janeiro, em um antigo gravador doméstico. Bandeira era um amigo querido, que havia sido inclusive padrinho de meu primeiro casamento, com a poeta Marly de Oliveira. A incrível história dessa gravação orginal e seu lançamento em CD 36 anos depois (!) já foi contada neste Quincasblog, no post intitulado Falemos um pouco de Poesia: Manuel Bandeira, o Poeta em Botafogo, publicado em setembro de 2014, o que me dispensa de repetí-la agora para os meus generosos leitores, a não ser para recordar que participei pessoalmente do projeto, interpretando 26 outros poemas em homenagem ao autor de Pasárgada.   Dois anos mais tarde, voltei aos estúdios para gravar um álbum duplo com 120 poemas dessa Poeta admirável que foi Marly de Oliveira. Esses últimos CDs, à semelhança do Mãos Dadas, foram também apresentados em dezenas de recitais no Brasil, Portugal e outros países lusófonos.

Recital na Academia Brasileira de Letras, com a obra de Marly de Oliveira

Recital na Academia Brasileira de Letras, com a obra de Marly de Oliveira

Por outro lado, sempre tive uma certa resistência à ideia e convites para gravar DVDs de poesia, por acreditar que a palavra poética foi feita para ser lida ou ouvida, e que os eventuais movimentos de câmera, os cortes, as variações de planos acabavam por distrair o espectador, desviando sua atenção do essencial, que é o verso, o poema. Quem acabou me convencendo de que não era bem assim foi meu amigo, poeta e cineasta Alberto Araújo, ao propor-me uma experiência bem sucedida de gravar com ele um DVD, quando eu vivia ainda no Marrocos e ele acompanhava, em 2003, uma turnê do nosso Grupo Solo Brasil, com o espetáculo Uma Viagem através da Música do Brasil que eu havia criado para mostrar a plateias estrangeiras o que há de melhor em nossa música. Pouco tempo depois de retornar ao país, meu amigo me surpreende com um DVD a que ele deu o título de Lauro Moreira: Tecendo Palavras. Vi, ouvi e confesso que me convenci de que, com sensibilidade e conhecimento do realizador, os movimentos de câmera, os cortes pouco usuais e as mudanças de planos podem até mesmo contribuir de modo importante para que o espectador possa deixar-se envolver ainda mais pelas palavras, pelo poema. Vários poemas desse DVD foram colocados no You Tube e tem sido bastante visitados.

Com a querida amiga e grande atriz Denise Stoklos, após recital no SESC/São Paulo

Com a querida amiga e grande atriz Denise Stoklos, após recital no SESC/São Paulo

Mas tanto eu quanto meu amigo Alberto Araújo (que escreveu e dirigiu recentemente o longa-metragem Vazio Coração, com Murilo Rosa, Lima Duarte, Beth Mendes, Othon Bastos, entre outros), estávamos convencidos de que aquela experiência marroquina deveria ser complementada e consolidada com a realização de um segundo DVD, mais abrangente e contando com mais recursos técnicos. E assim nasceu o projeto, também intitulado Mãos Dadas, inicialmente gravado em minha casa em Brasília há algum tempo, mas só recentemente concluído, com os adendos que sempre julguei fundamentais, referentes à vida e obra de cada um dos 19 poetas lusófonos ali selecionados. Tenho para mim que se trata talvez do primeiro DVD do gênero lançado no Brasil.

Com a pianista Moema Craveiro Campos, no recital Uma Geografia Poético- Musical do Brasil, apresentado em Portugal, Brasil e Cabo-Verde

Com a pianista Moema Craveiro Campos, no recital Uma Geografia Poético- Musical do Brasil, apresentado em Portugal, Brasil e Cabo-Verde

E assim, lá vou eu seguindo sem descanso essa agradável missão que o destino me impôs de divulgar por onde tenho passado a rica e diversificada Poesia feita no Brasil e nos demais países de Língua Portuguesa. Neste momento, por exemplo, encontro-me em mais uma de minhas temporadas em Portugal, onde volto a realizar alguns recitais em Lisboa e outras cidades.

Finalmente, e para que os leitores amigos deste Quincasblog possam melhor conhecer a natureza e o resultado deste trabalho, decidi que a partir de hoje, e ao final de cada matéria aqui publicada, independente do tema tratado, incluirei, para visita dos interessados, os links no You Tube de dois poetas constantes deste último DVD, que reúne obras de alguns dos nomes mais significativos da Língua, começando pelo Classicismo de Camões, passando pelo Arcadismo de Gonzaga, pelo Romantismo de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves, e chegando ao Século XX com Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Drummond, Bandeira, o caboverdeano Jorge Barbosa, Vinicius, João Cabral e Marly de Oliveira, entre outros. E tudo isso devidamente contextualizado por imagens e breves comentários crítico-biográficos que escrevi sobre cada um dos poetas interpretados.

Com a amiga e pianista Sonia Maria Vieira, participante do Recital Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo, na ABL.

Com a amiga e pianista Sonia Maria Vieira, participante do Recital Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo, na ABL.

Sarau em Lisboa, com o amigo e grande violeiro Roberto Correa (2010)

Sarau em Lisboa, com o amigo e grande violeiro Roberto Correa (2010)

Não sei se meus parcos leitores concordam, mas acho que assim o Quincasblog ficará mais completo e talvez mais agradável de se visitar, pois ao lado de minha pobre palavra escrita, poderão relembrar a beleza de versos imperecíveis. E para concluir, creio oportuno acrescentar uma breve reflexão que está incluída na capa interna do mencionado DVD, sobre o delicado tema da interpretação de textos poéticos.

Convido-os, pois, a visitar os links abaixo, para verem e ouvirem hoje um pouco de Camões e Tomás Antônio Gonzaga:

Capa interna do DVD

Capa interna do DVD

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A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

     

                                          ou

                A GRATA LONGEVIDADE DOS MANOÉIS

Lauro Moreira

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Escrevo este post aqui de Lisboa, minha cidade cada vez mais do coração, para comentar com os leitores deste nosso Quincasblog, que o mundo perdeu ante-ontem não apenas um de seus grandes criadores, mas um dos artistas mais originais, e por isso mesmo, mais polêmicos de seu tempo. Original e polêmico como seu conterrâneo e contemporâneo Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira enriqueceu ao longo de mais de um século o panorama cultural português e marcou indelevelmente a cinematografia mundial. E como Pessoa, e como Camões, tardou muito a ser reconhecido em sua própria terra, só o sendo a partir do instante em que se consagrou em terras alheias, sobretudo em França. Já tinha mais de 70 anos e vários filmes, quando apresentou em Paris o seu Amor de Perdição, transcrição literal do romance de Camilo Castelo Branco. Com o imenso sucesso de público e sobretudo de crítica, começou finalmente a ser reconhecido em Portugal. Caso bem parecido com o do nosso Villa-Lobos…

Manoel de Oliveira morreu aos 106 anos. E aqui já abro um curto parêntese: não sei bem porque, mas tenho a ligeira impressão de que em geral os  Manuéis (tal como os Manoéis) tendem a durar muito e sabem aproveitar o tempo para esparzir talento e sabedoria neste mundo mofino. Vejamos: em novembro passado foi-se-nos, aos 97 anos, o Manoel dos passarinhos e das coisas simples e inefáveis, o nosso Poeta do Pantanal, Manoel de Barros; o outro imenso Manuel (Bandeira do Brasil, segundo Drummond), meu inesquecível amigo e padrinho de casamento, Poeta que tocou e toca fundo a corda mais sensível da alma brasileira, morreu jovem aos 82 anos, e com apenas um pulmão desde os vinte e poucos; mais um Manuel, é o Vaqueiro Manuel, que foi não apenas personagem de Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim), mas um ser vivente de carne e osso, figura lendária que tudo sabia da vida e do Sertão das Minas Gerais, e que só entregou os pontos aos 93 anos de labuta. Pois é isso, meus caros leitores, os meus Manuéis gostam, graças a Deus, de ficar para semente, e nós é que lucramos.

Duas frases recolhidas de declarações recentes de Manoel Cândido Pinto de Oliveira: Parece que Deus se esqueceu de mim e A morte é um descanso. Porém, mais que essa idade provecta –  que fazia dele o mais idoso cineasta em atividade no mundo, com o primeiro filme realizado ainda na fase do cinema mudo, em 1931, (Douro – Faina Fluvial) e o último em 2014 (O Velho do Restelo), apresentado por ele em Cannes, em agosto passado – espanta-nos sua incrível vitalidade , que o levou a realizar mais de 60 filmes, 32 deles em longa-metragem. E olhem que houve longas pausas impostas por obstáculos criados pelo Estado Novo, como entre 1942 e 1956 e entre 1965 e 1972. Entretanto, como se estivesse a recuperar o tempo perdido, produziu praticamente um filme por ano a partir de 1979. Como via o cinema como um aliado inseparável da literatura e do teatro, valeu-se de grandes nomes da literatura lusófona e universal, seja em adaptações – por vezes absolutamente literais, palavra por palavra, como em Amor de Perdição ou em Le Soulier de Satin, de Claudel – seja como inspiração (Eça de Queiróz,  Agustina Bessa-Luis, Flaubert, Dostoievski, Dante, Nietzsche, Camões, Cervantes) e lançou mão  de importantes nomes da cena portuguesa e estrangeira, como Luis Miguel Cintra, Leonor Silveira, Maria de Medeiros, Miguel Guilherme, Ricardo Trêpa, Lima Duarte (no papel do Pe. Antônio Vieira em Palavra e Utopia), Irene Papas, Michel Piccoli, John Malkovich, Marisa Paredes, Catherine Deneuve… A simples menção a essa plêiade de autores e atores evidencia a abrangência da obra de Oliveira e o alcance universal de suas reflexões.

Alceu de Amoroso Lima, nosso Tristão de Athayde, ao comentar o aparecimento surpreendente e desconcertante de Clarice Lispector na cena literária brasileira, afirmou que os escritores em geral escreviam  na clave de dó, enquanto Clarice o fazia na clave de fá… Ou seja, a leitura de seu texto exigia uma adaptação do leitor a essa nova forma de expressão. Assim, a meu ver, acontece com a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira – o que explica a resistência de boa parte do público. O cinema para ele nada tem a ver com passa-tempo, diversão ou coisa que o valha. A câmera é o seu instrumento de pensar e sentir o mundo, de refletir sobre os mistérios da vida e da morte, é o seu ágon da tragédia grega, onde ele, proto-agonista, lutador principal, debate as relações conflituosas com o destino. Todos os meus filmes mostram que, de facto, todos os homens entram em agonia no momento em que chegam ao mundo. Sou um grande lutador contra a morte. Passei a vida a observar a agonia, cada vez com mais experiência, com cada vez mais vontade de mostrá-la. Mas a morte acaba por chegar”, disse, em 1993. E tudo isso, através de uma estética e uma visão extremamente pessoais, com planos fixos e longuíssimos, personagens normalmente estáticos, exprimindo-se em empostação e postura não naturais, mas cênicas, teatrais, sublinhado tudo por uma música cuidadosamente selecionada e adrede composta, e em películas com duração de horas e horas. Em artigo publicado ontem no Diário de Notícias, o intelectual, ex-Ministro da Cultura e meu amigo José António Pinto Ribeiro, escreve com muita justeza que “Como acontece com todos os grandes mestres do cinema mundial, a obra de Oliveira é pessoal e, assim, ao mesmo tempo integradora e alheia a correntes e tendências, a modas e a classificações e apresenta-se, de forma quase sempre inesperada, muito à frente do seu tempo no que significa e no que intenta profetizar: enuncia sempre um olhar específico sobre a existência e sobre a criação artística.” Por outro lado, é o próprio realizador, em entrevista aos Cahiers de Cinéma, que reconhece “a influência de Buñel, Dreyer e de outros no meu cinema. Desde logo, o meu primeiro filme foi influenciado por Chaplin. Mas eu nunca tentei escondê-lo. É a minha cultura, a minha concepção da arte”.

A partida definitiva de uma pessoa com 106 anos de vida não pode naturalmente surpreender a ninguém, mas sempre entristece ver o apagar-se de uma chama que até há poucos dias ainda brilhava a ponto de acalentar planos para futuras criações, entre elas, a anunciada filmagem de um conto de Machado de Assis (A Igreja do Diabo). Portanto, fiquei triste ao tomar conhecimento dessa despedida, e diria mesmo que até surpreso, já que este Manoel me parecia realmente imorrível… Fiquei sabendo da notícia num almoço com os amigos portugueses Miguel Anacoreta e Mário Máximo, intelectuais atuantes e grandes incentivadores da Lusofonia. E, logo em seguida, comecei a recordar em silêncio as poucas vezes em que tive a oportunidade de estar pessoalmente com o nosso cineasta que acabava de partir. Poucas, porém marcantes para mim.

A primeira foi há exatos trinta anos, ou seja, em 1985, quando ambos éramos bastante mais jovens… Eu servia na Embaixada em Washington e fui ao Kennedy Center assistir, a convite do American Film Institute, à apresentação do filme Le Soulier de Satin, com a presença do realizador. O primeiro grande espanto: só o filme, sem contar os debates a seguir, duraria sete horas! Para ser mais preciso: seis horas e cinquenta minutos. Como cinéfilo desde a adolescência, só me lembrava de ter visto um filme mais longo, o Guerra e Humanidade  (ou A Condição Humana), o magnífico painel pacifista de Masaki Kobayashi (1959), com nove horas de duração, embora dividido em três partes, apresentado nos tempos gloriosos do extinto (claro!) Cine Paissandú, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Só que eram três sessões, em três dias consecutivos, para se ver o filme completo. Agora, não, iríamos ver o Le Soulier de Satin (O Sapato de Cetim) em um só dia, começando pelas dez da  manhã, saindo às treze, no intervalo para o almoço, e retomando às 15hs para enfrentar as quase quatro horas finais. Segundo surpreso, ao menos para mim, até então um ignorante completo em matéria de Manoel de Oliveira: o filme é rigorosamente a apresentação, em um pequeno palco de um pequeno teatro, da longuíssima peça de Paul Claudel, drama amoroso que se passa durante o Século de Ouro espanhol, com cenários de papel e os atores estáticos. Segundo anotações de João  Bénard da Costa, professor, crítico, programador e diretor por muitos anos da Cinemateca Portuguesa, falecido em 2009: «Quase sete horas de duração, planos geralmente longuíssimos, no limite material da duração do “magasin”, câmara normalmente imóvel, impondo um único ponto de vista sobre personagens que, também normalmente, estão estáticas e se falam sem se olhar e sem olhar para a câmara, fixando um algures indefinido e insituado; uma extensíssima sucessão de “recitativos” ou “ariais” em que uma só personagem (tantas vezes) se espraia em falas de intensa e tensa duração, um filme de um cineasta português, quase integralmente falado em francês e em que se descortina mal a possibilidade de qualquer artifício (dobragem ou legendagem) “traduzir” essa língua; um texto ideológico e esteticamente avesso a qualquer moda ou gosto dominante, são estas as aparências exteriores do “opus magnum” do cinema português».

Paul Claudel, escritor e diplomata francês, que serviu inclusive no Rio de Janeiro em 1916, irmão da excelente e infeliz escultora Camille Claudel, era um católico fervoroso, que se converteu um dia no interior de uma Igreja, ao ter “de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável.”  E acrescenta:  Acreditei com tal força, com tal adesão de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acasos de uma vida agitada, não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, tocá-la de leve que fosse.” Antes disso, em uma Ode a Dante, havia escrito:

“É humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la,

E é idiota a vanglória da carcaça de que somos inquilinos desconfortáveis.”  

Abri novo parêntese para essas citações porque tenho para mim que o também  homem de fé Manoel de Oliveira identificou-se de certo modo com esse espírito claudeliano. Ao final da apresentação do filme no Kennedy Center, respondendo a perguntas do público, o cineasta fez uma afirmação que me deixou boquiaberto, afirmação que só vim a compreender melhor ao conhecer  depois outras obras suas, e que poderia ser resumida no conceito de que  cinema é apenas teatro filmado. Mais tarde (1993), ele diria: “O cinema é um fantasma da vida que não nos deixa senão uma coisa sensível, concreta: as emoções”. E ainda: “Os rituais são muito importantes. Sem eles, a vida seria indecifrável. O cinema não filma senão isso, um conjunto de signos, de convenções. A vida é um enigma, não é legível. São os rituais que nos permitem lê-la”.

A segunda vez que vi Manoel de Oliveira  foi  já em Lisboa, em 2008, quando exercia o cargo de Embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. Após assistir a uma sessão de homenagem a Luis Miguel Cintra (por coincidência o mais constante ator dos filmes de Oliveira), estava na calçada em frente ao Instituto Camões, à Avenida da Liberdade, quando vejo aproximar-se dois senhores que desciam a rua, um deles sacudindo  airosamente uma bengala que lhe servia talvez para espantar mosquitos, caminhando lépido, a passos firmes, e conversando com animação. Quando passam por mim, dou-me conta de que se tratava do homem que acabava de celebrar seu centenário de vida, e que mal teve tempo para as homenagens que os amigos de sua adorada cidade do Porto queriam prestar-lhe, já que estava inteiramente envolvido em mais uma de suas produções anuais…Foi uma visão rápida, mas que me ficou naturalmente gravada na memória.

Em 2010 aposentei-me na Carreira Diplomática e retornei ao Brasil. Mas já no ano seguinte voltava a Lisboa para a primeira de várias temporadas, que espero poder repetir sempre que possível. Chegamos por coincidência no dia da abertura da segunda edição do FestIn, o Festival Itinerante de Cinema da Língua Portuguesa, a cuja criação em 2009/2010, havíamos emprestado o apoio da Missão do Brasil junto à CPLP. Naquela noite seria apresentado o novo filme de Manoel de Oliveira, O Estranho Caso de Angélica, antecedido de uma especial homenagem ao realizador, cujo nome passaria doravante a designar a sala principal do tradicional Cine São Jorje, sede do Festival. A primeira surpresa foi a de que estávamos, com as respectivas esposas, hospedados no mesmo hotel, de modo que nos encontramos na recepção minutos antes de nos dirigirmos ao evento. A segunda, que nem posso chamar de surpresa, foi a maneira fluente e descontraída com que pronunciou suas palavras de agradecimento, em meio a uma multidão entusiasmada que se apertava no espaçoso saguão do São Jorge. O filme, escrito e realizado por esse jovem homenageado de 103 anos, havia sido também escolhido para a abertura do segmento Un certain regard no Festival de Cannes de 2010. Foi essa a terceira e última vez que vi Manoel de Oliveira, ou seja, 26 anos após aquele encontro em Washington. E é bom não esquecer que depois de O Estranho Caso de Angélica, nosso amigo realizou ainda o longa O Gebo e a Sombra (2012) adaptado de uma peça de Raul Brandão, e o curta O Velho do Restelo, apresentado em Veneza e em mais uma dezena de Festivais de cinema mundo afora, e onde, segundo a sinopse, “Oliveira reúne num banco de praça do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela”.

VOANDO NO PASSADO          

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O campeåo do automobilismo

O campeåo do automobilismo

        Mas para que os queridos amigos e amigas do Quincasblog possam ter, se já não tem, um conhecimento adicional e  bastante surpreendente da vida incrível desse nosso personagem, deliciem-se com o que os jornais portugueses publicaram ontem sobre sua época de juventude:

Trapezista voador, piloto acrobático, campeão de salto à vara, galã sedutor… Muito antes da fama de realizador, já era conhecido por razões um tanto alheias à Sétima Arte. Nas revistas da época, por exemplo, a sua imagem de marca é a de um jovem de porte atlético e muito bem parecido, posando vestido com o fato que na altura era utilizado pelos praticantes de atletismo. E era tão bem parecido que, em 1929, a sua fotogenia já enchia páginas da revista “O Cinéfilo” e fazia suspirar os corações das jovens casadoiras.

De facto foi o desporto a primeira grande paixão de Manoel de Oliveira, que a ele se dedicou por inteiro quando tinha 20 anos. Mesmo mais tarde há imagens dele, de capacete de borracha, ao volante de um “Ford V8” de 3000 c.c, com o qual acabara de vencer, em 1937, o Circuito Internacional do Estoril.

No ano seguinte voltou às corridas de automóveis, desta vez no Brasil, tendo vencido o circuito da Gávea, no Rio de Janeiro”.

        Não é fantástico tudo isto?                     

Sempre o caso do profeta em sua terra...

Sempre o caso do profeta em sua terra…

                                 THE END

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DUAS ESTRELAS QUE SE APAGAM

                     Duas estrelas que se apagam

                                                                   Lauro Moreira

 

       O final do mês de janeiro deste 2015 foi triste para o Brasil, especialmente para a arte e a cultura. Em dois dias consecutivos, 27 e 28, morreram duas figuras admiradas pelos brasileiros, especialmente por aqueles que as conhecíamos de mais perto. Duas mulheres que marcaram sua passagem pela vida, marcando a vida de muitos que a conheceram. Embora eu não tivesse privado mais longamente com ambas, tive a sorte de conhecê-las em determinado momento e de conviver um pouco com cada uma delas. A primeira se chamava Vanja Orico, cantora, atriz e cineasta, e a segunda, Susana Moraes, atriz, cineasta e ativista cultural. Ambas filhas de escritores e diplomatas de carreira, ambas vítimas em certo momento da repressão da ditadura militar implantada no país em 1964. Ambas sucumbiram ao câncer.

 

 

Vanja, cantora

Vanja, cantora

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Vanja, a atriz

Vanja, a atriz

A PRIMEIRA ESTRELA

 

Sobre a primeira, os jornais do dia noticiaram que “a cantora, atriz e cineasta Vanja Orico, nome artístico de Evangelina Orico, morreu nesta quarta-feira, 28, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, vítima de complicações decorrentes de câncer no intestino. Ela também sofria de mal de Alzheimer e estava internada no Hospital Copa D’Or, em Copacabana (zona sul), desde o dia 11.  Vanja, filha do escritor Osvaldo Orico (1900-1981), tornou-se famosa em 1953, quando cantou “Mulher Rendeira” no filme “O Cangaceiro”, premiado no Festival de Cannes e sucesso mundial. Depois atuou em outros filmes do chamado Ciclo do Cangaço, passando a ser considerada musa do gênero. Além de “O Cangaceiro”, participou de “Lampião, o rei do cangaço” (1964), “Cangaceiros de Lampião” (1967) e “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro” (1972). O início de sua carreira ocorreu quando Vanja morava na Itália. Ela foi descoberta pelos cineastas Alberto Lattuada e Federico Fellini quando atuava em Roma no show chamado Macumba, patrocinado pela RAI (Rádio e TV Italiana), em 1952.”

              Caberia apenas acrescentar que seu pai, o paraense Osvaldo Orico, foi membro da Academia Brasileira de Letras desde os 36 anos, e que como diplomata, serviu em postos como Santiago, Buenos Aires, Beirute e Haia. Ou seja, como filha de diplomata, vivendo boa parte de sua adolescência e juventude no exterior, Vanja começa a exercitar seu talento de cantora junto a plateias estrangeiras, o que explica sua descoberta por Fellini e Lattuada, descoberta que a levou a atuar, aos vinte anos, no filme Luci del Varietá (Mulheres e Luzes) dirigido por ambos em 1950, e no qual ela canta o tema folclórico Meu limão, meu limoeiro. Mas a participação que lhe deu maior destaque em toda sua longa e prolífica vida no cinema, onde atuou em mais de vinte filmes, foi sem dúvida em O Cangaceiro (1953), produzido pela famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiróz, e que veio ser um dos maiores sucessos do cinema brasileiro até hoje.

        Vim a conhecer Vanja Orico pessoalmente nos anos de 1990, na Espanha, em circunstâncias curiosas, e nosso convívio, embora extremamente agradável, não chegou a ultrapassar o prazo de uma semana. Na época, entre início de 91 e fins de 94, eu ocupava o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona, cidade também de meus encantos (ao lado de Lisboa) e que vivia seus melhores momentos, preparando-se, remodelando-se e se reurbanizando para a apresentação dos Jogos Olímpicos de 92 – um estrondoso sucesso. Logo que assumi o posto, tratei de valer-me dessas circunstâncias muito especiais, gestando um ambicioso programa de divulgação cultural do Brasil. Para começar, fundamos o Clube da Música Brasileira de Barcelona, instituição que atraíu logo a atenção dos catalães e atuou, com grande dinamismo, ao longo de vários anos, mesmo após minha saída do posto.

        Ao cabo de pouco tempo, no entanto, fui me dando conta de que o interesse e o entusiasmo do público local pela música brasileira não escondia uma dose considerável de desconhecimento, evidenciado numa confusão de gêneros, épocas e estilos diferentes. Isso levou-me a escrever um espetáculo intitulado Un Viaje através de la Música de Brasil, em que procurava traçar um largo panorama de nossa música, de seus primódios no século dezenove ao final do século vinte. Ao longo de nove blocos cronológicos, eram então apresentadas algumas das melhores e mais representativas canções de cada época – antecedido cada bloco de uma breve narração, em que se contextualizava e se explicava brevemente cada uma dessas várias etapas. Ou seja, tratava-se de um show sui-generis, onde se ouvia a melhor música do Brasil e se aprendia muito sobre ela e o país que a produzia. Para apresentar o espetáculo, tive a sorte de contar com uma cantora e alguns músicos brasileiros de qualidade que já viviam em Barcelona. Com eles criamos o Grupo Som Brasil (que na língua catalã significa Somos Brasil), e ao longo de dois anos nos apresentamos com grande sucesso em 22 cidades da região, além de Barcelona. Apresso-me a acrescentar, para não gerar uma possível confusão por parte de muita gente e em muitos países, que esse Som Brasil foi, sim, a primeira encarnação, digamos, do extraordinário Grupo SOLO BRASIL (outro trocadilho), que vim a criar mais tarde, em fins de 1999, quando exercia a direção do Departamento Cultural do Itamaraty. O SOLO BRASIL continua vivo, após tantos anos e tanto sucesso logrado em 20 países de quatro continentes, e em mais de 40 cidades brasileiras, com um CD gravado ao vivo em 2003 no Brasil e um DVD filmado no Teatro da Trindade de Lisboa, em uma das 19 apresentações do grupo em Portugal, em dezembro de 2009.

         Deixemos porém para outro momento o relato da bela trajetória do SOLO BRASIL, projeto de que permito orgulhar bastante, confesso. Mas afinal por que essa longa introdução para falarmos de nosso pranteado personagem de hoje, Vanja Orico? Apenas porque certo dia em Barcelona, em 1993, recebi um telefonema seu de Paris, onde residia com o marido, o engenheiro francês Adolfo Rosenthal, e que ao ouvir falar dessa efervecência cultural do Consulado do Brasil na Catalunha, consultava-me sobre a possibilidade de organizarmos um espetáculo com sua participação. Gostei da ideia e pusémo-nos a trabalhar na montagem do show, contando para isso com o já experimentado Grupo Som Brasil.

        Ao levar a cantora em visita à Rádio Nacional de Espanha, logo de sua chegada a Barcelona, não me surpreendeu o fato de que a emissora contasse em sua discoteca com exemplares de vários de seus long-plays gravados na Europa e no Brasil. É bom lembrar que por esse tempo no Brasil só os menos jovens como eu, digamos, conheciam e se lembravam da atriz de O Cangaceiro, e poucos sabiam de sua fama em outros países, sobretudo na Europa. No espetáculo que me coube dirigir, a pedido da própria intérprete, em que ela apresentava várias peças de seu repertório, ficou para sempre em minha lembrança, e na do público que lotava o Teatro Casal del Metge, e na da própria Vanja, o momento em que ela entrava no palco pela primeira vez: eu havia tido a feliz ideia de fazer projetar no telão ao fundo uma sequência de O Cangaceiro, justamente aquela em que o Capitão Galdino, o chefe, está com todo seu bando, incluindo as mulheres, em torno de uma fogueira ao ar livre, numa noite de descontração. A certa altura, a jovem interpretada por Vanja Orico, magoada pela rejeição de seu homem, que a trocara por outra, começa a cantar em tom plangente a toada Sodade, meu bem, sodade. Nesse exato momento, a própria Vanja Orico entra em cena e continua a canção ao vivo, acompanhada agora pelos músicos no palco, enquanto as imagens da tela vão se desvanecendo. Pura emoção : da tela ao palco mediavam 40 anos… O show contagiou a todos, inclusive a intérprete, e o sucesso foi enorme.

          Nunca mais voltei a ver minha cantora. E sua partida agora me despertou para esses momentos de um passado que, embora fugaz, ficaram e ficarão para sempre em minha memória afetiva.

 

 A SEGUNDA ESTRELA       

Susana Moraes, atriz

Susana Moraes, atriz

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       A segunda estrela que se apagou, como disse, foi Susana Moraes, atriz e cineasta, com quem tive um convívio menos breve, em circunstâncias muito diferentes, mas igualmente agradável. Nos anos da ditadura militar, a mão pesada da censura, através da famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) alcançava duramente o teatro, o cinema, a televisão, a literatura, a imprensa, a música. Os protestos generalizados acabaram fazendo com que, no Governo do General Figueiredo, fosse criado o Conselho Superior de Censura (CSC), com vistas a reduzir o poder dos censores e abrir um caminho auxiliar para uma pretendida abertura política, “lenta e gradual”, como queria o Governo.

        Nos anos de 86 e 87, já com a democracia restaurada, e ocupando eu a Chefia da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty em Brasília, fui designado representante do Ministério junto a esse Conselho Superior, que funcionava no âmbito do Ministério da Justiça. Cheguei mesmo, em um certo período, a presidi-lo, e tive como colegas algumas figuras de relevo de várias áreas da sociedade civil – como o poeta e acadêmico Ledo Ivo, a atriz e então Deputada Beth Mendes, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, meu amigo dos tempos do Serviço Militar, o ator Carlos Miranda, companheiro dos tempos do Festival de Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno – representando órgãos como o Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal da Educação, o Instituto Nacional de Artes Cênicas, a EMBRAFILME, a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, etc. Foi nessa época, 1987, que o Conselho Superior de Censura começou a trabalhar, junto aos Constituintes eleitos para a elaborar a Constituição de 88, no projeto de transformação do órgão em Conselho da Liberdade de Criação e Expressão. E foi também nessa época que conheci minha colega de Conselho e depois minha amiga Susana Moraes, representante da área de cinema.

          O Conselho se reunia regularmente em Brasília, contando sempre com o entusiasmo de seus membros na benemérita missão de atenuar e depois extinguir a censura prévia no país, o que se conseguiu justamente através da entrada em vigor da nova Carta Magna. Meu convívio com essa mulher bonita, simpática, inteligente, culta e rebelde, limitou-se a pouco mais que esses contatos regulares em Brasília e, posteriormente, a um ou outro encontro fortuito e em ocasiões diversas, sobretudo no Rio de Janeiro. Mas era sempre um enorme prazer estar com ela, com essa filha primogênita e querida do poetinha e grande poeta Vinicius de Moraes. Dito isso, gostaria de concluir essas lembranças com duas tocantes notas de pesar divulgadas no dia do desaparecimento de minha amiga, uma por sua companheira ao longo de vinte e seis anos, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, e a segunda por sua família de sangue:

 “Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária, e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida”,

 “Perdemos nossa matriarca, que como filha primogênita adorada de Vinicius e idolatrada por todos da família, se fez de guia para nos ajudar a suportar e cuidar com responsabilidade da obra do poeta. Linda, culta, inteligente, forte, Susana era nosso esteio, e nos deixa o melhor dos legados, um amor inesquecível e um grande exemplo de mulher”.

 

      

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Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.200 vezes em 2014. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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UM AMIGO DE INFÂNCIA

HUMBERTO DE CAMPOS

 


Amigas e Amigos do QUINCASBLOG,

Gostaria de desejar-lhes um Natal muito feliz e um 2015 de paz e prosperidade.

O modesto presente que o Quincasblog lhes oferece hoje, ademais desses votos de felicidade, é o texto de uma crônica muito tocante, uma bela passagem do livro “Memórias”, de Humberto de Campos. 

Não supreende a mais ninguém a crescente perda de memória do Brasil em relação ao seu próprio passado, especialmente ao seu passado cultural. Já falamos disso em outros momentos, ou seja, de nossa mentalidade de adolescente, que acredita piamente que o mundo começou no dia em que ele nasceu… Figuras que deixaram marcas profundas em nossa vida política, cultural, artística, social,etc. e que décadas depois passam a viver apenas no limbo de nosso absurda desmemória. Falta de cultura, de amadurecimento, de respeito? Talvez. Mas a mim parece-me consequência de algo mais profundo, de algo que tentei analisar na crônica aqui publicada em agosto de 2013, intitulada “Quem é o Brasil: o Brasil somos nós?”, que o leitor poderá voltar a consultar, caso o tema lhe interesse.

No campo literário, poderíamos citar  uma lista infindável de nomes que não deveriam jamais ter sido esquecidos, ou que pelo menos deveriam ser de vez em quando lembrados. Como o grande romancista José Lins do Rego, como Lúcio Cardoso, Cornélio Pena, e como o jornalista, político, poeta, contista e excelente memorialista Humberto de Campos, para mencionar apenas uns poucos. 

Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, Maranhão, hoje Humberto de Campos, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro em 5 de dezembro de 1934, após longa e penosa enfermidade. De família pobre, autodidata, fez do jornalismo o seu ganha-pão e o veículo de sua criaçao literária. Foi também deputado federal por algum tempo. Publicou dezenas de livros, alguns dos quais cheguei a ler na adolescência, na biblioteca de meu avô em Goiás. Ficaram-me especialmente gravadas certas passagens de seus dois livros de memórias, entre as quais essa que agora trago como lembrança de Natal aos queridos e generosos leitores deste Quincasblog. Bom proveito!

Um abraço muito cordial

Lauro Moreira

UM AMIGO DE INFÂNCIA

Humberto de Campos

No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal, a tinta e a barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo. Entrava eu no banheiro tosco, próximo ao poço, quando os meus olhos descobriram no chão, no interstício das pedras grosseiras que o calçavam, uma castanha de caju que acabava de rebentar, inchada, no desejo vegetal de ser árvore. Dobrado sobre si mesmo, o caule parecia mais um verme, um caramujo a carregar a sua casca, do que uma planta em eclosão. A castanha guardava, ainda, as duas primeiras folhas unidas e avermelhadas, as quais eram como duas jóias flexíveis que tentassem fugir do seu cofre.

– Mamãe, olhe o que eu achei! – gritei, contente, sustendo na concha das mãos curtas e ásperas o mostrengo que ainda sonhava com o sol e com a vida.

– Planta, meu filho… Vai plantar… Planta no fundo do quintal, longe da cerca…

Precipito-me, feliz, com a minha castanha viva. A trinta ou quarenta metros da casa, estaco. Faço com as mãos uma pequena cova, enterro aí o projeto de árvore, cerco-o de pedaços de tijolo e telha. Rego-o. Protejo-o contra a fome dos pintos e a irreverência das galinhas. Todas as manhãs, ao lavar o rosto, é sobre ele que tomba a água dessa ablução alegre. Acompanho com afeto a multiplicação das suas folhas tenras. Vejo-as mudar de cor, na evolução natural da clorofila. E cada uma, estirada e limpa, é como uma língua verde e móbil, a agradecer-me o cuidado que lhe dispenso, o carinho que lhe voto, a água gostosa que lhe dou.

O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente, elegante, graciosa. Quando eu completo doze anos, ele já me sustenta nos seus primeiros galhos. Mais uns meses e vou subindo, experimentando a sua resistência. Ele se balança comigo como um gigante jovem que embalasse nos braços o seu irmãos de leite. Até que, um dia, seguro da sua rijeza hercúlea, não o deixo mais. Promovo-o a mastro do meu navio e, todas as tardes, lhe subo ao galho mais empinado, onde, com o braço esquerdo cingindo o caule forte, de pé, solto, alto e sonoro, o canto melancólico da “Chegança”, que é, por esse tempo, a festa popular mais famosa de Parnaíba:

Assobe, assobe, gajeiro,

Naquele tope real…

Para ver se tu avistas,

Otolina,

Areias de Portugal!

Mão direita aberta sobre os olhos, como quem devassa o horizonte equóreo, mas devassando, na verdade, apenas os quintas vizinhos, as vacas do curral de Dona Páscoa e os jumentos do sr. Antônio Santeiro, eu próprio respondo, com minha voz gritada, que a ventania arrasta para longe, rasgando-a, como uma camisa de som, nas palmas dos coqueiros e nas estacas das cercas velhas, enfeitadas de melão-são-caetano:

Alvíssaras meu capitão,

Meu capitão-general!

Que avistei terras de Espanha.

Otolina,

Areias de Portugal!

A memória fresca, e límpida, reproduz, uma a uma, fielmente, todas as passagens épicas, todas as canções melancólicas e singelas da velha lenda marítima com que o majestoso mulato Benedito Guariba, uma vez por ano, à frente dos seus caboclos improvisados em marujos portugueses, alvoroça as ruas arenosas de Parnaíba. O vento forte, vindo das bandas da Amarração, dá-me a impressão de brisa do oceano largo. O meu camisão branco, de menino da roça, paneja, estalando, como uma bandeira solta. O cajueiro novo, oscilando comigo, dá-me a sensação de um mastro erguido rolando diante de mim, na curva do horizonte, onde o céu e o mar se beijam e misturam, as terras claras de Espanha, e areias de Portugal.

Pouco a pouco, a noite vem descendo. Um véu de cinza envolve docemente os coqueiros dos quintais próximos. Os bezerros de Dona Páscoa berram com mais tristeza. As vacas, apartadas deles, respondem com mais saudade. Os jumentos do sr. Antônio Santeiro zurram as cinco vogais e o estribilho “ípsilon”, marcando sonoramente as seis horas. Os do sr. Antonio do Monte, ao longe, conferem e confirmam o zurro, o focinho para o alto, olhando o milho de ouro das primeiras estrelas. E eu, gajeiro de uma nau ancorada na terra, desço tristemente do folhudo mastro do meu cajueiro, sonhando com o oceano alto, invejando a vida tormentosa dos marinheiros perdidos, que não tinham, pelo menos, a obrigação de estudar, à luz de um lampião de querosene, a lição do dia seguinte…

Aos treze anos da minha idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica. Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como pequeninas unhas de crianças com frio.

– Adeus, meu cajueiro! Até à volta!

Ele não diz nada, e eu me vou embora.

Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde agitado em despedida. E estou em S. Luís, homem-menino, lutando pela vida, erijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe: “Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças…”

Há, se bem me lembro, uns versos de Kipling, em que o Oceano, o Vento e a Floresta palestram e blasfemam. E o mais desgraçado dos três é a Floresta, porque, enquanto as ondas e as rajadas percorrem terras e costas, ela, agrilhoada ao solo com as raízes das árvores, braceja, grita, esgrime com os galhos furiosos, e não pode fugir, nem viajar… Recebendo a carta de minha mãe, choro, sozinho. Choro, pela delicadeza da sua idéia. E choro, sobretudo, com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele, para me não afastar nunca, jamais, da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz?

Volto, porém. O meu cajueiro estende, agora, os braços, na ânsia cristã de dar sombra a tudo. A resina corre-lhe do tronco, mas ele se embala, contente, à música dos mesmos ventos amigos. Os seus galhos mais baixos formam cadeiras que oferece às crianças. Tem flores para os insetos faiscantes e frutos de ouro pálido para as pipiras cinzentas. É um cajueiro moço, e robusto. Está em toda a força e em toda a glória ingênua da sua existência vegetal.

Um ano mais, e parto novamente. Outra despedida; outro adeus mais surdo, e mais triste:

-Adeus, meu cajueiro!

O mundo toma-me nos seus braços titânicos, arrepiados de espinhos. Diverte-se comigo como a filha do rei de Brobdingnag com a fragilidade do capitão Guliver. O monstro maltrata-me, fere-me, tortura-me. E eu, quase morto, regresso a Parnaíba, volto a ver minha casa, e a rever o meu amigo.

– Meu cajueiro, aqui estou!

Mas ele não me conhece mais. Eu estou homem; ele está velho. A enfermidade cava-me o rosto, altera-me a fisionomia, modifica-me o tom da voz. Ele está imenso e escuro. Os seus galhos abraçam coqueiros, afogam laranjeiras que noivam, ou ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas, aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono… Quero abraçá-lo, e já não posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo, mergulhado na lama, ressona um porco… Ao perfume suave da flor, ao cheiro agreste do fruto, sucederam, em baixo, a vasa e a podridão!

– Adeus, meu cajueiro!

(Memórias, 1933.)

                              

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APENAS UM ERRO DE CABRAL…

DA SÉRIE MEUS ENCONTROS (I)

 

JOÃO GUIMARÃES ROSA

JOÃO GUIMARÃES ROSA

                             

                               GUIMARÃES ROSA

Há anos tenho guardado comigo uma longa matéria publicada numa edição do velho e saudoso JB, Jornal do Brasil, datada de 14 de fevereiro de 1987, que trata de uma correspondência trocada entre o então Cônsul-Adjunto do Brasil em Hamburgo, João Guimarães Rosa e J. Cabral, seu colega em Frankfurt. São três cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial – a que Churchill, com razão, considerava apenas consequência e continuação da Primeira, de 1914.

A correspondência fora iniciada pelo Cônsul em Frankfurt, J.Cabral, em tom jocoso, que abria com o seguinte parágrafo:

“Frankfurt, Novembro 12, 1940

 Meu caro Cônsul Rosa,

Tenho reparado que diversos Colegas deixam de remeter com regularidade um relatório mensal sobre a vida alegre que levam, neste belo país, desobedecendo assim ao que está claramente preceituado no artigo 1º da Consolidação da Boa Amizade. A fim de sanar tão grave irregularidade, comunico aos colegas que, doravante, punirei severamente aos funcionários faltosos, enviando-lhes uma carta anônima de desaforos.” 

        Nos parágrafos seguintes, e sempre com muito espírito, o missivista passa a falar das agruras provocadas pela guerra, mencionando inclusive que “ante-ontem à noite caíram aqui três bombas, abrindo três enormes crateras num terreno baldio, as quais serão aproveitadas para a plantação de couve gigante.” E concluía: “Aguardo com interesse seu relatório. Abraços do a) Cabral.

        A carta-resposta do criador de Diadorim ficou famosa, por razões que logo veremos, e atualmente já se pode encontrá-la até na internet. Aliás, sabemos que hoje quase tudo está nada rede, embora os erros costumem ser aí maiores que os acertos. Chega a ser quase impossível, meu caro leitor deste Quincasblog, encontrar por exemplo, um poema com mais de duas estrofes transcritas corretamente. Ontem mesmo encontrei em um blog brasileiro especializado em poesia um famoso poema do cabo-verdeano Jorge Barbosa, de minha especial predileção, com nada menos de 39 erros, incluindo até dois versos inexistentes no original! Erros que serão recolhidos inadvertidamente por eventuais leitores e repassados a outros tantos interessados. Nome do poema: Você, Brasil, que já interpretei várias vêzes em meus recitais, em Cabo Verde, em Portugal e no Brasil.

Outro exemplo: na semana passada, aqui em Lisboa, onde me encontro no momento, recebi de um amigo, respeitado intelectual português, um e-mail com um poema-piada, pretensamente erótico e jocosamente  atribuído a Carlos Drummond de Andrade. Uma brincadeira que circula pela internet e que, confesso, me divertiu muito por seu final inesperado. Ri tanto que resolvi ingenuamente dar uma melhorada no texto para ficar mais crível (ou credível, como se diz por aqui) e em seguida mandá-lo a vários amigos no Brasil. Moral da história: a maioria se divertiu, alguns puseram em dúvida a autoria drummondiana e outros, infelizmente, levaram a coisa a sério e delicadamente me alertaram para o fato de que o poeta de Itabira jamais escrevera aquela bobagem…

Mas voltemos ao início, ou seja, à referida matéria publicada no JB em 1987, que ocupava quase uma página do jornal, tinha por título ROSA E CABRAL, CORDIALMENTE, e informava aos leitores o seguinte:

“Nomeado em 1938 cônsul adjunto do Brasil na Alemanha, Guimarães Rosa testemunhou in loco o progressivo estremecimento das relações diplomáticas entre os dois países, que culminaria no rompimento em 1942. Nesse meio tempo, Rosa manteve uma série de correspondências com amigos diversos, como Paulo Dantas, e com tradutores de suas obras. Um dos destinatários das curiosas cartas de Rosa era um jovem pernambucano de 20 anos que se tornaria um dos maiores poetas brasileiros e também ingressaria na carreira diplomática: João Cabral de Melo Neto. A seguir, três cartas trocadas entre Rosa e Cabral, uma delas totalmente redigida com palavras iniciadas por “c”.

Pois bem, meus amigos e minhas amigas do Quincasblog, a propósito dessa informação de poucas linhas, publicada num dos melhores jornais do país daquela época, e ilustrada por uma caricatura de cada um dos dois correspondentes, recordemos apenas que:

  • Em 1942 Guimarães Rosa não havia ainda publicado nenhum livro (Sagarana, sua primeira obra, foi editado em 1946, ou seja, oito anos depois de sua ida para Hamburgo), o que torna difícil imaginá-lo a manter “uma série de correspondências com os tradutores de suas obras”. Que obras? Que tradutores? Para que línguas?
  • Um dos destinatários das cartas de Rosa seria, segundo a notícia, “um jovem pernambucano de 20 anos, que viria a ser um grande poeta e também ingressaria na Carreira Diplomática: João Cabral de Melo Neto”. Acontece que naquele ano de 1942 João Cabral, (que nascera em 1920) ainda vivia no Recife e havia acabado de publicar seu primeiro livro (Pedra do Sono; o segundo, O Engenheiro, sairia em 1945). Em novembro daquele ano, ou seja, na mesma época das famosas cartas trocadas na Alemanha, mudou-se para o Rio, e somente em 1945 fez concurso para o Itamaraty. Como poderia ser então o Cônsul do Brasil em Frankfurt em 1942, além de correspondente do Rosa, que ele seguramente só viria a conhecer anos mais tarde?
  • Pode haver uma barriga jornalística maior? E o pior é que esse erro crasso foi reproduzido e espalhado em alguns blogs de literatura no Brasil. Felizmente o engano está sendo aos poucos sanado, graças sobretudo a estudos como o admirável Guimarães Rosa Diplomata, da querida amiga Embaixadora Heloísa Vilhena, que, muito além de explicar o equívoco, destaca a importantíssima atuação do diplomata e sua mulher, Aracy Moebius, no apoio a judeus perseguidos pelo nazismo naquele período.

Por outro lado, valeria recordar, João Cabral de Melo Neto só foi para o exterior em 1947, designado Cônsul-Adjunto em Barcelona, onde, depois de publicar um elogiado ensaio sobre Joan Miró, acabou exercendo  forte influência cultural sobre um grupo de jovens escritores e artistas plásticos, conhecido como Dau al Set (Dado no Sete), formado por nomes que vieram depois a ser dos mais importantes da cultura e da arte catalãs no século vinte, como os pintores Antoni Tàpies e Modest Cuixart, e o poeta Joan Brossa. Por feliz coincidência, ao ocupar o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona nos anos de 1991/94, tive a satisfação de conhecer pessoalmente essas três  grandes figuras. E algo que me surpreendeu foi que todos eles se referiam com apreço ao João Cabral daqueles anos quarenta, desconhecendo no entanto o fato de que o nosso poeta voltara a viver algum tempo em Barcelona vinte anos depois, já como Cônsul-Geral…

Mas, afinal, que J. Cabral era esse das cartas escritas em 1940 e dadas a público tanto tempo depois,  na verdade exatos vinte anos depois da morte de Guimarães Rosa, em novembro de 1967? (Dou-me conta disso neste momento). Resposta: o signatário J.Cabral era o diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, nosso Cônsul em Frankfurt em novembro de 1940.

Abaixo, o texto integral da famosa carta-resposta de JGR a Jorge Cabral, um exemplo incrível de humor e malabarismo verbal, bem como fotos da matéria publicada pelo Jornal do Brasil, onde se pode ver o texto das três cartas trocadas

 

CARTA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA AO COLEGA J. CABRAL

Consul caro colega Cabral,

.

Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem consular.

Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?…crês?…crédulo!…considera:…”cobra come cobra!…” coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes… contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!…

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreensão calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis…)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea:

Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos…

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso…). Cacos cápsulas contra-aéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!…) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)

Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!… Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficos contornos carnes cubiçáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?…Cáspite

Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:

CANTADA

Caso contigo, Carmela

Caso cumpras condição

Cobrarei casa, comida,

Cama, cavalo, canção

Carinho, cobres, cachaça,

Carnaval camaradão

Cassino (com conta certa)

Cerveja, coleira e cão,

Chevrolé cinco cilindros

Canja e consideração,

Calista, cabelereiro

Cinema, calefação,

Chá, café, confeitaria,

Chocolate, chimarrão

Casemira – cinco cortes

Cada compra, comissão,

Conforto, comodidades,

Cachimbo, calma,… caixão,

Convem-te, cara Carmela?

Cherubim!…Consolação!…

(caso contrário, cabaças!

Casarei com Conceição.)

Caso contigo, Carmela,

Correndo com coração!…

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.

João Guimarães Rosa

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UMA NOITE MUITO ESPECIAL

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (199

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (1996)

UMA NOITE MUITO ESPECIAL EM SANT CUGAT – BARCELONA

                                                                               Ora, direis, ouvir estrelas!

                                                                                                               O. Bilac

 Lauro Moreira

 

CAPA DO LIVRO

CAPA DO LIVRO

 

Em nossa última conversa aqui no Quincasblog, que acabou merecendo comentários generosos de vários leitores, falamos sobre uma certa noite mágica num apartamento da Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, e que teve como protagonista o nosso bardo Manuel, Bandeira do Brasil, no longínquo ano de 1968. Longínquo, sim, pois não nos esqueçamos de que sessenta por cento dos 200 milhões de brasileiros de hoje não eram sequer nascidos naquele ano agitado que incendiou Paris e boa parte do mundo…

Pois bem, hoje vamos falar de uma outra noite, igualmente mágica e por isso também inesquecível para mim, para minha mulher, Liana, e para o reduzido grupo de pessoas que tivemos o privilégio de vivê-la. Não foi no Rio de Janeiro, mas nos arredores de Barcelona, em Sant Cugat, no verão de 1994, mais precisamente em 11/12 de julho, ou seja, vinte e sete anos depois da noite mágica de Botafogo. Mas, comecemos da capo, pois acho que vale a pena contar-lhes com algum detalhe o que sucedeu naquele encontro único e surpreendente em casa do Cônsul-Geral do México em Barcelona, meu colega da diplomacia, poeta (hoje também pintor celebrado) e amigo fraterno, Edmundo Font.

Eu já vivia em Barcelona com a família desde janeiro de 1991, removido pelo Itamaraty para ocupar o posto de Cônsul-Geral naquela cidade de que tanto gostava antes mesmo de conhecer, e que vivia então em graça e plenitude, concluindo ao cabo de oito anos as obras fantásticas de infraestrutura e reurbanização, que a preparavam não apenas para os Jogos Olímpicos de 92, mas para o século seguinte. Aliás, os leitores mais assíduos deste Quincasblog certamente se lembrarão de uma crônica que postei aqui em outubro do ano passado, com o título de Barcelona e Rio de Janeiro, onde incluí um link para um vídeo inesquecível (Transformació d´una Ciutat) sobre essas mesmas obras. Quem não viu, sugiro que o faça agora, porque é absolutamente imperdível. Acesse o site www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

Alguns meses depois de nossa chegada ao Posto, a telefonista do Consulado recebe pela manhã uma chamada de um certo Senhor Edmundo Font, Embaixador do México em Bogotá, que estava de passagem pela cidade e desejava falar com o Cônsul do Brasil. Atendi com a maior presteza e atenção, como faria naturalmente com qualquer colega, mas no caso, confesso que também com alegria, por se tratar de representante de um país que eu conhecia bem e admirava muito. Fiquei sabendo então que meu interlocutor já estava removido oficialmente de Bogotá para Barcelona, onde deveria assumir suas novas funções dentro de uns dois meses. Convidou-me para almoçar naquele mesmo dia.

Ao ver minha surpresa com o seu perfeito domínio do Português, explicou-me radiante que havia sido durante sete anos Cônsul de seu país no Rio de Janeiro, onde inclusive havia nascido uma de suas três filhas. O almoço estendeu-se pela tarde, ponteado por uma conversa amistosa, durante a qual vim a saber também que ele era um apaixonado pelo Brasil; que fizera amizades preciosas com figuras como Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade; que havia traduzido e publicado no México o livro de poemas de Drummond sobre o Quixote, ilustrado por Portinari; que ele também era poeta com vários livros já publicados, além de ser um fanático da música brasileira, havendo feito inclusive versões para o espanhol de algumas canções de Roberto Carlos; que as paredes de sua casa eram cobertas por óleos e gravuras de artistas do Brasil; que ainda mantinha sempre contato com seu Pai de Santo carioca; que…, que, em uma palavra, era um profundo admirador de meu país! Vi que nossas afinidades eram tantas que não tive dúvidas em convidá-lo a comparecer, naquela mesma noite, à reunião semanal do Clube da Música Brasileira de Barcelona, um exitoso centro que eu havia criado para difundir o Brasil na Catalunha, onde promovíamos concertos com músicos brasileiros residentes ou de passagem, mesclados às vezes com instrumentistas espanhois, além de palestras, filmes, recitais de poesia brasileira em português, castelhano e catalão, etc.

Poucos meses depois, o meu mais novo amigo já havia assumido seu Posto de Cônsul-Geral do México e residia em uma casa muito simpática em San Cugat, nos arredores de Barcelona. Nossas famílias tornaram-se amigas de infância…E quanto mais eu o conhecia, mais admirava a sua sensibilidade, sua cultura, sua deferência para com todos, especialmente com seus empregados e funcionários do Consulado. Paco, seu motorista e amigo que o acompanhava por todas as partes, tornou-se amigo do Aurélio, meu motorista e amigo que eu levava para todos os cantos. Foi ele, Edmundo, que me convidou para assistir certo dia a uma conferência de uma das figuras mais marcantes da cultura iberoamericana, a quem eu tanto admirava e admiro e a quem ele me apresentou pessoalmente: o seu amigo Octávio Paz, um dos maiores poetas e ensaístas do século vinte. Seu livro El Labirinto de la Soledad, que eu havia lido ainda nos anos sessenta, em Buenos Aires, continua sendo para mim um dos ensaios mais argutos e sensíveis jamais escrito sobre a alma de um povo – no caso, a rica, contraditória e complexa alma mexicana.

Outro escritor de marcante personalidade que me foi apresentado pessoalmente por Edmundo Font em um jantar em Barcelona, foi o italiano Antonio Tabucchi, falecido precocemente há dois anos e enterrado em Lisboa, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e de Bologna, conhecedor profundo e apaixonado da obra de Fernando Pessoa e seu mais importante tradutor para o italiano, casado com uma portuguesa de nobre ascendência  (Maria José de Lancastre), autor de uma vasta e respeitada obra de ficção e de crítica ensaística. Quando o conheci, em 1994, Tabucchi não tinha ainda completado a metade de sua obra, mas naquele mesmo ano publicava dois de seus livros mais interessantes, que vim a ler pouco depois: Os três últimos dias de Fernando Pessoa, no qual imagina e descreve os diálogos de uma visita feita ao Poeta, em seu leito de morte no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, por alguns de seus principais heterônimos; e o premiado Afirma Pereira, romance filmado por Roberto Faenza em 1995, com Marcello Mastroianni e Daniel Auteuil como protagonistas.

Um dos melhores programas para mim em Barcelona era visitar a família Font em sua deliciosa mansão em San Cugat. Certa vez, convidados para um jantar íntimo, numa noite gelada de fevereiro, chegamos lá e deparamos com o dono da casa em trajes completamente disparatados para aquele clima: Edmundo estava todo de linho branco, inclusive meias e sapatos  brancos. Ao abrir-nos a porta, foi logo esclarecendo:

– Vocês estão lembrados que hoje é dia 2 de fevereiro, não? Dia de Iemanjá, meus queridos! E junto ao dono, parecendo também comemorar, saltitante, a data tão especial, recebeu-nos um dos insígnes personagens da casa: o cãozinho que ele havia levado do Brasil e atendia pelo nome delicioso de Dendê.

Bem, depois deste interminável embora necessário (será?) nariz de cera, acho que podemos agora entrar em matéria propriamente dita, ou seja, na prometida estorinha da noite mágica. Aí vai ela – e a essas alturas todos os meus parcos e generosos leitores já perceberam que ela só poderia ter ocorrido em casa do… Dendê, certo? Pois foi.

                                                          NOCTURNO EN SAN CUGAT

Uma tarde no verão de 1994, o nosso Font me telefona convidando para um pequeno jantar em sua casa. Da família, só ele, a cozinheira Ricarda e o Dendê estariam em casa, já que sua mulher Patrícia e as filhas se encontravam de férias no México. Seria um encontro improvisado para uns poucos amigos, em torno de um conhecido poeta cubano chamado Pablo Armando Fernández, também seu amigo de fé e carteirinha, que estava de passagem pela cidade. Os demais, além de mim e de minha mulher, seriam um editor de livros (Emílio Payán) e um pintor (Juan Sebastián), ambos mexicanos, o cabelereiro do Rei de Espanha (!) Pascual Iranzo, uma figura surpreendente, além de Paco, o indefectível motorista de Edmundo, a cozinheira Ricarda e o também infalível Dendê. O jantar foi memorável, não apenas pela culinária como pela conversa mais que interessante de um grupo aparentemente tão heterogêneo.

Terminada a refeição, fomos todos para o jardim e continuamos a conversa em torno de uma mesa redonda ao lado da piscina. A noite era agradável, a temperatura amena, só não me lembro se havia estrelas no céu. Mas como se verá, elas começaram a aparecer de repente, da maneira mais inesperada e insólita… Foi quando o assunto resvalou para a poesia. Notei que o dono da casa ausentou-se de repente, voltando em seguida com um maço de folhas de papel em branco e algumas canetas. E então, como quem não quer nada, o nosso poeta Pablo Armando começa a rascunhar um texto em homenagem ao anfitrião, expressando-se em voz alta e escrevendo ao mesmo tempo. E enquanto isso, o pintor Juan Sebastián agarrava uma folha em branco e, à medida que ouvia as palavras e os versos ditos e escritos por Pablo Armando, passava a desenhar a toda a pressa e em absoluta concentração. Fez-se um silêncio completo na mesa. Só os dois artistas trabalhavam, absortos, como que desligados de tudo. Na verdade, parecia-nos, aos demais, que estávamos participando de uma misteriosa sessão de psicografia… com a pequena diferença de que o autor psicografado estava ali mesmo, de corpo presente. Ao cabo de quinze ou vinte minutos, tínhamos sobre a mesa o manuscrito de um poema intitulado El Bardo y Las Musas Cardinales, com a dedicatória Para Edmundo Font, e um desenho forte, expressivo, representando em uma só cabeça o bardo Edmundo, sua mulher Patrícia e as três filhas, com a assinatura de Juan Sebastián.

Mas isso foi apenas o ponto de partida de uma longa jornada noite/arte adentro, pois a inspiração dos artistas estava para o que desse e viesse. E lá fomos nós, os demais presentes, recebendo encantados cada qual o poema e o desenho que lhe eram dedicados e que iam sendo gestados ao longo da madrugada. Liana, eu, o cabelereiro do Rei, o editor Emílio Payán, o chofer Paco, a cozinheira Ricarda e … Dendê, claro, além do próprio poeta e do pintor, que também providenciaram suas homenagens recíprocas. A “sessão” só findou com a chegada da manhã, quando artistas e homenageados nos despedimos e com a alma em festa deixamos aquela casa e aquela noite, onde algo de muito, muito especial se havia passado.

Dias depois, recebi do Edmundo uma cópia em xerox dos poemas manuscritos e dos respectivos desenhos. Guardei tudo com muito carinho e muita saudade. Fui removido para Brasilia no final de 1994. Uns dois anos depois, em viagem de trabalho à Índia, fui convidado para almoçar na Residência do Embaixador mexicano em Delhi. Quem era ele? Edmundo Font… E nessa tarde ganhei um presente muito, muito especial… Alguns exemplares de um livro intitulado NOCTURNO EN SAN CUGAT, numa edição bilingue, com os poemas de Pablo Armando em sua tradução para o inglês feita pelo tradutor de Octávio Paz na Índia, e com os desenhos originais de Juán Sebastián. Publicado em papel reciclado por Ediciones Lodi Garden en Delhi – outra invenção de Edmundo Font…

Em 2002, estando eu como Embaixador no Marrocos, onde criamos também um Centro Cultural extremamente dinâmico, resolvi um dia traduzir para o Português os poemas de Nocturno en San Cugat e incluir em nossa programação um recital interpretado em três línguas, convidando para participar comigo um diplomata norte-americano e um argentino, que era também poeta. E, claro, antes de dar início à leitura dos poemas, contei ao numeroso público presente (e era de fato numeroso!) a estorinha que agora acabo de lhes contar, meus caros amigos e amigas do Quincasblog.

Há quase dez anos não vejo meu velho amigo mexicano, que reside hoje em seu país e continua na diplomacia, mas que acabou se dedicando de corpo e alma a desenvolver mais um de seus talentos, transformando-se num pintor de reconhecidos méritos. Acompanho suas novas atividades pelo Google, mantendo-me a par do grande sucesso que vem obtendo com suas exposições no México, Estados Unidos e outros países da América.

Vejam agora algumas fotos ilustrativas do que acabamos de evocar, incluindo uns poucos poemas e respectivos desenhos. Com grande imodéstia, destaco o poema Semillas, Estaciones, dedicado a Lauro Moreira e que, por puro acaso, considero um dos mais bem logrados de todo o livro… A frondosa árvore do louro (ou seja, lauro) resiste a todas as adversidades, mas afinal se lamenta ao ver por vêzes vêzes suas folhas tecidas em uma coroa (laurel) ornando imerecidamente a fronte de falsos herois. A tradução francesa foi feita pela minha amiga e poeta Jacqueline Seyrat.

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE "SEMILLAS, ESTACIONES"

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE “SEMILLAS, ESTACIONES”

POEMA E DESENHO PARA LAURO

POEMA E DESENHO PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

POEMA PARA DENDÊ

POEMA PARA DENDÊ

LIANA/DESENHO

LIANA/DESENHO

POEMA PARA LIANA

POEMA PARA LIANA

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

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