A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

   A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

                                                    Lauro Moreira

Consoada                    

As Parcas

As Parcas

Quando a Indesejada das gentes chegar
(N
ão sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Al
ô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortil
égios.)
Encontrar
á lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

                                                                                                                                        (Manuel Bandeira)

 

Ontem acordei pensando na morte. E até me surpreendi, pois embora esteja hoje, pela chamada ordem natural das coisas, bem mais próximo dela do que já estive, confesso que não tenho hábito de dar-lhe, digamos, uma atenção muito demorada. Mas, na verdade, acordei pensando não na minha morte, mas na morte de tanta gente amiga e querida, pessoas que se vão  desvanencendo de nossa vida, como vultos subitamente apagados de uma foto de família. Uma cruel desvantagem de se ficar velho é que nem todos os companheiros continuam ao nosso lado nessa inexorável caminhada rumo ao desconhecido, ao hamletiano “undiscovered country, from whose bourne no traveller returns.” Vários se apressam em retirar-se logo de cena, alguns inexplicavelmente cedo, deixando-nos mais sós – e incrédulos. Como Manuel Bandeira – que desde muito jovem passou a conviver intimamente com a Indesejada das gentes – ao saber do desaparecimento do amigo Mário de Andrade:

                                                  Anunciaram que você morreu.                    

M. Bandeira por Portinari

M. Bandeira por Portinari

Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

(…)

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

                                                  Você não morreu: ausentou-se.

                                                  (…)

(A Mário de Andrade Ausente)

 

         Não tenho a rabugice nem o pessimismo irônico de Bentinho (D.Casmurro), para afirmar que  “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos.”  – mas não há dúvida de que boa parte dos meus tem tido o mau gosto de antecipar de muito a partida e, pior, num ritmo cada vez mais acelerado. Amigos de infância, de adolescência, de colégio, de universidade, do teatro amador, da carreira diplomática, muitos dos quais afastados pelas distância física e pelos azares da vida, mas que muito enriqueceram minha afanosa e já longa passagem por aqui. Não exagero quando repito que nos últimos dois ou três anos esta safra aziaga não me tem poupado. Parentes próximos, amigos como Saroldi, Pedro Camargo,  Celina, Bambino, Euclydes Mattos e tantos outros têm partido recentemente sem se despedir…

Meu amigo Pedro Camargo

Meu amigo Pedro Camargo

Mas para além do desaparecimento individual das pessoas conhecidas e queridas, sempre uma tragédia, o que também vemos hoje é a morte coletiva e anônima, que não chega a configurar senão uma fria estatística. É ligar a televisão e ser invadido pelas sequências intermináveis de destruição de vidas humanas, ceifadas em desastres ecológicos, terremotos, tsunamis, vulcões. E como se não bastasse, o homem – animal feroz e primitivo (Les hommes sont des brutes, Madame, como dizia Ghandi a Cecília Meirelles) – o homem se encarrega de completar o trabalho da natureza em fúria, engendrando guerras, acirrando conflitos, insuflando a violência urbana em todas as suas formas (da loucura do tráfego de veículos à insanidade do tráfico de drogas), multiplicando atos terroristas, promovendo enfim essa verdadeira hecatombe a que hoje assistimos da poltrona da sala, impotentes, e, o que é mais grave, já quase insensibilizados. Como dizia meu amigo Arnaldo Jabor em recente crônica sobre o cinema atual, as mortes incessantes são mostradas até em videogames para normalizar, exorcizar a própria ideia de morte. Por outras palavras, vivemos a era da banalização completa da morte provocada, ou da banalização do Mal, como percebeu Hannah Harendt diante do Holocausto e do julgamento de Adolfo Heichmmann.

Mas voltemos à nossa simples morte individual, natural – controlada pelas Parcas romanas ou as Moiras da mitologia grega – que ocorre no momento em que se rompe o frágil fio da vida, seccionado pela tesoura de Átropo, depois de tecido por Cloto e estendido por Láquesis. Sobre esse tema fatal é que gostaria de falar um pouco mais. Para dizer que nos tempo de jovem universitário e um pouco mergulhado em estudos de filosofia, a questão filosófica da morte me atraía bastante, mas sempre como algo fora de mim,  uma pura abstração, quase um exercício de retórica. Debatíamos sobre aquela que, por sua importância metafísica, é a musa inspiradora dos poetas, a que alimenta as mentes imersas em reflexões e ávidas de uma explicação, como queria Schopenhauer.

Por essa época (segunda metade dos anos 1950) vim a ler uma obra que me calou fundo: Lições de Abismo, romance do escritor e pensador católico Gustavo Corção, publicada poucos anos antes, em 1951. Livro admirável, muito celebrado então e bastante esquecido hoje – como tudo aliás neste nosso país desmemoriado.

O romance de Gustavo Corção

O romance de Gustavo Corção

A resenha da editora traduz com fidelidade a temática do romance, que “é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida, e logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade e o ciúme”. E foi sob o impacto dessa leitura que vim a conhecer depois a novela de Tolstoi A morte de Ivan Ilitch, muito citada pelo personagem de Corção e hoje bastante publicada e conhecida no Brasil e em todas as línguas cultas do mundo.

Nessa extraordinária novela de Tolstoi (consagrada por W.Nabokov, o autor de Lolita, como um dos momentos supremos da criação literária), fica evidenciada a patética discrepância entre o natural e racional entendimento da morte do outro e a terminante recusa de a pessoa racionalmente  entender e aceitar a naturalidade da própria morte. Não resisto à tentação de reproduzir uma breve mas decisiva passagem da novela, quando Ivan Ilitch, um dedicado cidadão e correto Juiz de Direito, se vê, como o Professor e intelectual de Lições de Abismo, condenado por uma moléstia incurável:

L. Tolstoi

L. Tolstoi

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a ideia, como não a compreendia mesmo – uma incapacidade absoluta de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter  – Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal– sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais.

        Será que o tranquilo Epicuro – autor de aforismos como “O homem sereno procura serenidade para si e para os outros” e, sobretudo, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” – terá guardado toda essa serenidade e absoluta aceitação em seu instante final? E já que estamos navegando por antigos mares, caberia lembrar o sempre citado verso da Ode horaciana, que me parece menos filosófico e bem mais pragmático: Carpe diem, quam minimum credula postero, ou seja, aproveite o hoje e confie o mínimo possível no amanhã. Como falamos em mar e em poeta, lembremos ainda a frase de Fernando Pessoa, escrita em inglês, no dia 29 de novembro de 1935, exatamente na véspera de sua morte: I know not what tomorrow will bring.

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Parece evidente que nossa reação diante do “termo fatal”(cf. Gonçalves Dias) vai variar, e muito, segundo o grau da crença ou descrença que sustenta o espirito de cada um. Nesse sentido, a fé inabalável de um cristão, por exemplo, dá-lhe o conforto de que seu comboio está partindo desta estação para uma outra, definitiva e infinitamente mais aprazível, digamos. Já as dúvidas essenciais de um agnóstico, ou até mesmo de um filósofo estóico e racional como Sêneca ou Marco Aurélio, só tenderão a acrescer-lhes a aflição e a inquietude no momento da travessia final. E dos ateus materialistas  abstenho-me de falar, pois me parecem pertencer a uma casta soberba de ousadia sem limites… Enfim, de presunção e água benta cada um toma o que quer.

No plano subjetivo – e já me desculpando junto aos queridos leitoras e leitores deste Quincasblog por decidir navegar nestas águas de natureza bastante pessoal – confesso que no tocante ao tema em pauta minha trajetória não tem sido das mais consoladoras. Nasci e cresci numa família de católicos praticantes, o que fez de mim, até certa altura da vida, uma criatura de fé inabalável e sólidos princípios religiosos, para quem a morte era tão só o começo de uma nova vida. Mais: era para mim algo tranquilo e distante, fosse por meus verdes anos de então, fosse por não ter com ela qualquer intimidade. E de um momento a outro, e da maneira mais brutal, ela veio a se tornar minha íntima companheira, intimidade que, suponho, acompanha-me desde então, décadas decorridas.

Meus Pais

Meus Pais

Pai, mãe e quatro filhos (eu o mais velho) compúnhamos uma família saudável e unida na mais completa harmonia. Até que, em meados dos anos ’60, a iniludível tesoura de Átropo resolveu intervir sem ser chamada, cortando o fio da vida de metade desse grupo familiar. E tudo em menos de dois anos. Primeiro, a irmã caçula, aos 14 anos, depois o pai, aos 62, e quarenta dias mais tarde, a mãe, com apenas 54. Enfim, a morte deixava de ser para mim, de modo tão violento e de uma vez por todas, algo distante, objeto de estudo e elucubrações filosóficas, ou musa de poetas que eu tanto admirava. O abalo nos três sobreviventes da família não poderia ser maior, claro. De repente nos vimos sós e diante de um deserto sem fim. Para mim, uma terrível secura interna, que tardou muito a se esvanecer. E foi  justamente a estrutura emocional que nos legaram nossos pais, estou certo, que nos deu força suficiente para seguir caminho – e caminho não tão curto, pois hoje já ultrapasso em mais de quinze anos a idade com que morreu meu pai. Só que infelizmente não mais com a fé dos vinte anos, substituída que foi por um sereno agnosticismo. Ao faltar a graça da fé, sobra a incerteza do conhecimento (ou do desconhecimento).

Pronto, acho que falei demais, confidenciando agora o que nunca disse antes… Só mesmo apelando para o nosso Drummond para me sair dessa enrascada:  Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.

Por outro lado, não desejaria concluir essas notas com um tom crepuscular. Por isso, retorno a dois outros poetas de minha grande estima e admiração. O primeiro, como não podia deixar de ser, é Manuel Bandeira, meu querido e sempre lembrado amigo e padrinho de casamento. Uma sucessão de tragédias familiares  –  perda da irmã, da mãe e do pai em um curtíssimo espaço de  tempo (notem a coincidência) – e a luta diária contra a enfermidade, marcaram a vida e a obra de Bandeira. O sofrimento está sempre presente, mas neutralizado por uma aceitação  tranqüila, filosófica. O vazio, as ausências, as perdas, as separações e a morte são seus temas recorrentes. A recordação saudosa dos mortos queridos habita seus versos e consola o poeta em sua solidão. Para Assis Barbosa, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana. O amor unido à morte – eis a poesia de Bandeira. E eis alguns títulos de seus poemas: Preparação para a morte; Morte absoluta; Canção para minha morte; Programa para depois de minha morte – todos de uma beleza serena que toca fundo a alma de qualquer mortal…

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

O segundo nome a que quero referir-me é o de Marly de Oliveira, outro admirável poeta, uma das vozes mais altas da língua portuguesa no entender de Antônio Houaiss, e que nos deixou prematuramente em 2007.  Como pessoalmente a conheci e com ela convivi desde cedo, tendo podido seguir de perto a evolução de sua obra, registro aqui o que já tenho dito e escrito em várias oportunidades: desde seu livro de estréia – Cerco da Primavera – publicado em 1957, quando era ainda uma jovem universitária, Marly de Oliveira surpreendeu a leitores e críticos com uma obra que nasceu pronta, definitiva, “como Atenas, da cabeça de Júpiter”, na expressão de Alceu de Amoroso Lima, e que mereceu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, do Instituto Nacional do Livro. A despeito da juventude da autora, ali já estão presentes seus temas essenciais, reiterados nos 16 livros publicados desde então e resumidos numa permanente indagação filosófica sobre os mistérios e a fragilidade da vida. O primeiro verso, do primeiro poema, do primeiro livro já traduz a atitude reflexiva de alguém voltado para o conhecimento de si e do mundo que o cerca:

Eu. E diante da vida (…)

Trata-se da obra de uma jovem artista perplexa ante os mistérios do mundo, acreditando a princípio no poder da poesia como chave para abrir esses mistérios, mas que em seguida se dá conta da insuficiência da arte para apreender e desvendar o mundo, a vida, a morte. O máximo a que a poesia poderia aspirar seria então refletir, em termos estéticos, esta busca permanente e a consequente perplexidade diante do mistério insondável.         Mas essa impotência para entender o mundo não detém o tempo, em seu fluir incessante.   E esse fluir incessante vai desembocar naturalmente no não-ser, na morte. Ou seja, o amor e a morte são os temas básicos do Cerco da Primavera e de toda a obra de Marly de Oliveira. Em seu segundo livro, Explicação de Narciso, o tema se adensa e se aprofunda, já que Narciso é o ser que caminha inelutavelmente para a solidão e para a morte, na ânsia permanente de captar o sentido da vida em seu fluir. O terceiro poema do livro diz tudo:

Diante de mim, nestas águas,

quem sou, que não me preciso?

Ai, que sonho tão temível

assim me turva o sorriso?

Que amor, que presságio cingem

a cabeça de Narciso?

A que secretos poderes

se confia minha sorte,

se o que frágil vejo na água,

em mim se torna mais forte,

e onde sei que está a vida

encontram todos a morte?

Entre mistérios tão vastos

que breve instante que somos!

De repente descobrimos

que estamos. Mas onde? e como?

Por mais que nós nos dobremos

sobre nós e o que já fomos,

à inútil pergunta nossa

somente o eco responde.

E diante outra vez de nós

estamos. Há quem nos sonde?

E de que espaço ou que tempo

nosso eco responde? de onde?                                                                                                            

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

E é finalmente a própria autora que confessa: “Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho.”

Para concluir, vejam este breve poema de seu primeiro livro, onde se explicita o delicado tema de nossa conversa de hoje.

EPIGRAMA

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranquilo

diante da vida ou da morte.

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A CECÍLIA MEIRELES QUE CONHECI

                   A CECÍLIA MEIRELES QUE CONHECI

                                                          Lauro Moreira

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Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa.  Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo…A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”  Paulo Rónai

   Em crônica publicada neste Quincasblog há cerca de um ano (5/09/14), intitulada  Falemos um pouco de Poesia, que tratava sobretudo de Manuel Bandeira e de meu CD O Poeta em Botafogo, escrevi textualmente:

               “Eu tive o privilégio, embora não sendo poeta mas gostando tanto da Poesia, de viver sempre muito próximo dela e de vários de seus cultores e criadores, alguns de altíssima linhagem. Entre eles, Cecília, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral, para citar apenas aqueles que já partiram. Além disso, fui casado por dezessete anos com Marly de Oliveira, mãe de minhas filhas, e uma das vozes mais sensíveis, eruditas e requintadas da poesia em Língua Portuguesa, como proclamavam Antônio Houaiss e a unanimidade da crítica nacional.””

     Pois hoje eu gostaria de conversar um pouco com minhas leitoras e leitores sobre Cecília Meireles. Não para tratar de sua obra altíssima, que a situa entre as vozes mais cristalinas da poesia lusófona, mas para evocar essa figura humana admirável que tanto fez pela educação e pela cultura em nossa terra. Essa mulher bonita, especial, fascinante, de um charme envolvente, que em qualquer encontro ou roda social acabava logo por se tornar o centro de atenção dos presentes. Por sua beleza física, porte altivo, dicção perfeita, sorriso luminoso e profundos olhos verdes no rosto moreno,  inteligência viva, sentido de humor e cultura invejável. Uma das presenças mais marcantes que tive o privilégio de encontrar em toda minha vida. E a despeito de tudo isso, tida por alguns como um tanto inacessível…Unknown-1

     A poetisa Marly de Oliveira, por já haver publicado seu primeiro livro, Cerco da Primavera (ainda como aluna do Curso de Letras da PUC/Rio), estreia saudada com entusiasmo pela crítica especializada e vencedora do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, do Instituto Nacional do Livro, tinha e teve sempre por Cecília Meireles uma admiração incondicional. E foi através de Marly que tive eu o privilégio de iniciar um convívio inesquecível com a autora de Vaga Música, de 1961 até sua morte, no dia 9 novembro de 1964, em um hospital do Rio de Janeiro, dois dias após haver completado 63 anos de idade. Esse período de convívio  foi portanto breve, porém intenso, incluindo visitas frequentes a sua bela casa no Cosme Velho, a que se chegava depois de escalar um  terreno íngreme, coberto por um magnífico jardim – na verdade, uma mansão parecida com a própria dona… Além dessas visitas, lembro-me bem de alguns contatos marcantes para mim, como sua presença no Teatro da Maison de France, no Rio, para assistir à estreia da peça A Volta do Marido Pródigo, uma divertida dramatização feita por Léo Gilson Ribeiro do conto homônimo de Guimarães Rosa, na qual eu fazia o papel do marido em questão.

  Outro momento de que não me esqueço, foi quando Marly a convidou para fazer uma conferência aos seus alunos da PUC  – a essas alturas, Marly já tinha concluído seu curso e passado mais de ano com uma bolsa de estudos em Roma, aprofundando os conhecimentos de Língua e Literatura Italiana, e estava agora como Professora- Assistente de Literatura Hispano-Americana e titular de Língua e Literatura Italiana na Faculdade de Nova Friburgo, no interior do Estado. Eu descera para receber Cecília no térreo do edifício, junto aos pilotis, acompanhado do Professor Raul Léllis, autor conhecido de livros didáticos e já, digamos, não muito moço. Quando os apresentei, já que aparentemente não se conheciam, o Professor Léllis foi logo proclamando que havia sido aluno de Cecília, ao que ela prontamente emendou, entre irônica e séria: Não me diga, Professor! Mas enfim é possível, pois várias vezes tive alunos bem mais velhos que eu…

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   Em pouco tempo, nosso relacionamento com Cecília estendeu-se também ao marido, Heitor Grilo, um homem inteligente, culto e muito simpático, professor e engenheiro agrônomo, que nutria pela esposa a mais entusiástica e ostensiva admiração – o que, confesso, era até bonito de se ver. Ficamos também amigos da irmã e do cunhado do Dr. Heitor, um casal já mais velho, com uma filha única, portadora da síndrome de Down, a adolescente Maria Alice, criada com tal carinho e sabedoria, que veio a se tornar uma fonte permanente de encanto para a família, para Marly e para todos os amigos. Cecília e Heitor Grilo tinham-se casado em 1940, cinco anos após a morte de Fernando Correia Dias, artista plástico português, com quem Cecilia se havia unido em 1922, e com quem tivera três filhas, uma delas a conhecida atriz Maria Fernanda. 

    Correia Dias, aliás, antes de vir para o Brasil, e embora bastante jovem, teve participação destacada como um dos pioneiros do movimento modernista em Portugal, que  marca seu início com a publicação da revista trimestral Orpheu (1915),  dirigida por Fernando Ferro,  com colaborações, entre outros,  de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá Carneiro, há exatos cem anos. Curiosamente, desde sua morte por suicídio em 1935, no Rio de Janeiro, a memória de Correia Dias foi sendo aos poucos apagada, e só recentemente, em 2013, uma seleção de suas gravuras guardadas na velha casa do Cosme Velho veio a publico, com o lançamento da obra “Fernando Correia Dias — Um poeta do traço” (Editora Batel), do historiador português Osvaldo Macedo de Sousa. Segundo este, “Correia Dias foi um cenógrafo da vida, seja nas artes gráficas, nas artes decorativas ou na publicidade. Foi o primeiro artista português a criar uma página publicitária para os seus serviços multidisciplinares, como caricatura, ilustração, cartazes, vitrais, cerâmica, pirogravura, marcenaria. Seu Grupo de Coimbra seria o grande motor da introdução do modernismo em Portugal.”

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    Não é sem razão que tanto a vida quanto a obra de Cecília estejam embebidas da cultura e da alma portuguesas: seus antepassados eram imigrantes açorianos; sua avó, que a criou, era da Ilha de São Miguel (onde nascera também a mãe de Machado de Assis); e seu primeiro marido chega de Coimbra ao Rio de Janeiro aos 21 anos de idade, tendo seu talento de artista logo reconhecido pela intelectualidade local, a começar por Ronald de Carvalho, seu grande incentivador e diretor para o Brasil da revista Orpheu. E foi ao lado de Correia Dias, que a apresentou aos jovens vanguardistas portugueses, que Cecilia Meireles realizou sua primeira viagem a Portugal, em 1934.  Aliás, não posso de deixar de mencionar a esse respeito uma passagem bastante curiosa de um exitoso livro recentemente lançado em Portugal, intitulado “”Fernando Pessoa – O Romance”,  uma espécie de  autobiografia do poeta (ou dos poetas), escrita por Sonia Louro, na qual se registra a tentativa  (verídica) de um encontro de Cecília com Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado, tentativa frustrada pela incrível timidez e insegurança do autor de Chuva Oblíqua, que acabou deixando a colega brasileira esperando em vão durante mais de duas hora. Enquanto ela esperava, ele passava incógnito por seu hotel e deixava o exemplar de um livro autografado… Nada a admirar, pois “Na Brasileira, no Martinho, era eu quem mais ouvia e menos falava, talvez porque o meu desejo mais profundo fosse falar largamente para o mundo todo através do que escrevia.” (Pág. 267).

    A vida de Cecília não foi nada fácil, pelo menos até seu segundo casamento, em 1940. Subitamente viúva, com três filhas pequenas para criar, teve que se dedicar de corpo e alma às atividades de professora e jornalista para sobreviver. É ela mesma quem evoca lindamente seus primeiros anos de orfandade e solidão, ao lado da lição de vida que aprenderia para sempre:

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

(…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

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    Cecília Meireles andou por todo o mundo. Realizou numerosas viagens aos Estados Unidos – foi inclusive Professora de Literatura e Cultura Brasileiras na Universidade do Texas – à América Latina, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências e ministrando cursos em diferentes países sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos era uma reconhecida especialista. Representou o Brasil em diversos congressos internacionais, foi condecorada pelo Chile de sua amiga Gabriela Mistral, recebeu importantes homenagens em Goa e o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Delhi. Aliás, sua afinidade com a Índia de Ghandi e Nehru era conhecida. No meu já mencionado artigo “Falemos um pouco de Poesia”, escrevi também o seguinte:

         “Ou como lembrava Cecília Meireles : ”Conviver com os homens é mais terrível que com os deuses. E ninguém conhece epopeia mais dolorosa que a de moldar, dia a dia, clara e verdadeira, a fugitiva condicão humana”. Na sua emocionada e emocionante Elegia sobre a morte de Ghandi, repetia as palavras desoladas ouvidas do próprio Mahatma: “Les hommes sont des brutes, madame.” :

“Les hommes sont des brutes, madame.”

O vento leva a tua vida toda, e a melhor parte da minha.

Sem bandeira. Sem uniformes. Só alma, no meio de um mundo desmoronado.

Estão prosternadas as mulheres da Índia, como trouxas de soluços.

Tua fogueira está ardendo. O Ganges te levará para longe,

Punhado de cinza que as águas beijarão intimamente,

Que o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus.

“Les hommes sont des brutes, madame.”

   Os meus generosos leitores deste Quincasblog já conhecem um pouco de minha vida, o que me exime da tarefa de maiores explicações para contextualizar determinados aspectos destas minhas divagações. Assim que não preciso explicar-me demais quando menciono, por exemplo, minha estada de quatro anos em Barcelona, a partir de 1990, à frente do Consulado Geral do Brasil. Certo? Pois bem, nessa época havia por lá – e espero que ainda haja, claro – um certo Colégio Brasil, com mais de 600 alunos de idades aproximadas de sete a quinze anos. Sabendo que esse colégio de Brasil só tinha o nome, visitei um dia o seu Diretor para propor-lhe um plano ambicioso de divulgação de cultura brasileira no âmbito de todas as turmas da escola, a partir do material que o Consulado colocaria à sua disposição. Demos início ao projeto com uma Semana Brasil, recheada de diferentes palestras para os diferentes níveis de alunos (e à noite, uma especial para os pais), de recitais de poesia e de música, de uma apresentação de mamulengos nordestinos brasileiros que por lá se encontravam, e até de um campeonato de futebol entre os alunos, cuja Taça Brasil seria entregue  ao vencedor por ninguém menos que Romário, àquela altura ídolo absoluto do Barça. Por outro lado, ao tomar conhecimento de que a cada ano todos os alunos de todas as turmas estudavam um determinado poeta (espanhol, naturalmente), acabei convencendo o Diretor a adotar para o ano seguinte um poeta brasileiro. E propusemos justamente Cecília Meireles, que foi aceita e estudada ao longo de todo o ano de 1993, com textos de poemas para crianças e adultos traduzidos por nós para o espanhol e até mesmo para o catalão. Um sucesso e uma imensa alegria. E vale acrescentar que ainda em meu período de Barcelona, criei um grupo de jograis para apresentar um espetáculo com obras de poetas brasileiros, um recital que repetimos em vários colégios e centros culturais da Catalunha, e que tinha por título “Canción de un Camino España”, nome em Português de um lindo poema de Cecília Meireles… 

    Por esse tempo, Cecília Meireles era uma poeta mais que admirada em sua terra, e em várias outras, para cujas línguas seus poemas iam sendo cada vez mais traduzidos. Compositores populares como Raimundo Fagner musicavam seus versos, que passavam a ser cantados por um público crescente. E em 1989, uma cédula de 100 Cruzados Novos foi lançada com a efígie da grande poetisa brasileira. Pena que a inflação galopante da época acabou logo por engolir não apenas Cecília, como Drummond, Portinari e até o nosso Mestre dos Mestres, Machado de Assis… No site do Banco Central podem-se ler hoje os detalhes daquela cédula de Cecília, que reproduz inclusive um desenho de sua autoria: 

Anverso:

Retrato de Cecília Meireles (1901-1964), tendo à esquerda, a reprodução de desenho de sua autoria, ao qual se sobrepõem alguns versos manuscritos extraídos de seus “Cânticos”.

Reverso:

A gravura, à esquerda, representa o universo da criança, suas fantasias e o momento da aprendizagem. O painel é completado, à direita, com a reprodução de desenhos feitos pela escritora, representativos de seus estudos e pesquisas sobre folclore, músicas e danças populares.

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    Confesso aos amigos e amigas que deixei para o fim desta narrativa a parte mais tocante para mim, e por isso mesmo aquela que nunca mais me saíu da memória afetiva. Em 1963, Marly de Oliveira e eu havíamos decidido marcar nosso casamento para o início do ano seguinte. Convidamos para nos apadrinhar os amigos Manuel Bandeira e Clarice Lispector, além do ex-Presidente Juscelino Kubitschek, amigo de meu pai. Todos aceitaram, com grande alegria para nós. Mas uma coisa nos penalizou muito: a ausência de uma madrinha que tanto queríamos mas não podíamos convidar, por haver adoecido seriamente naquela época. Essa enfermidade incomplacente impediu-nos a alegria de tê-la conosco no dia 20 de janeiro de 1964, na cerimônia realizada no Rio, na Igreja do Outeiro da Glória. Na verdade, Cecília fora operada no Hospital do Câncer em São Paulo logo no início daquele mesmo mês de janeiro. Depois do casamento, Marly e eu viajamos para Campos do Jordão, e de lá, uma semana depois, para São Paulo, tão só com o fim de visitá-la. Encontrâmo-la muito bem, ainda no hospital, mas já se preparando para sair. Queria descansar um pouco em Serra Negra, uma agradável estância hidromineral e climática, a 150 quilômetros da Capital. Poucos dias depois, Marly e eu fomos também para Serra Negra, de onde Cecília decidiu retornar conosco  para São Paulo em meu pequeno mas valente Volkswagen, enquanto o Dr. Heitor e a enteada Maria Matilde seguiam de ônibus. E o mais extraordinário foi o momento em que tivemos um pneu furado! Tenho ainda guardada comigo, só não descubro onde, uma pequena foto das duas poetisas ao lado do Fusquinha, no acostamento da rodovia, aguardando o habilidoso chofer aqui concluir a troca de pneus…

    Menos de um ano depois, como vimos, em novembro de 1964, falecia nossa querida e tão admirada amiga em um hospital no Rio de Janeiro. E o Brasil, e a Língua de Camões, perdiam uma de suas vozes mais límpidas.

    Volto agora momentaneamente ao hospital em São Paulo, onde a estávamos visitando após a cirurgia. Logo depois de chegarmos a seu apartamento, ela pede ao Dr. Heitor que apanhe no armário o “presente de casamento dos meninos”. Era um embrulho lindo, tipicamente ceciliano, uma delicada caixa amarrada com fitas e  envolta em papel encarnado.. Ao abrí-lo, deparei com algo ainda mais ceciliano, mais simbolizante daquela autora de títulos sugestivos como Mar Absoluto ou Viagem: era um pequeno e delicado barco veleiro de madrepérola, acompanhado por dois versos decassílabos especialmente criados para a ocasião  e escritos numa linda caligrafia  que conhecíamos tão bem:

    Ventos felizes para quem embarca

    Por mar de rosas e nave de nácar…

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    Esta foi a Cecília Meireles que conheci e quis compartilhar com meus amigos do Quincasborba.

     E se quiserem conhecer ou recordar um pouco mais dessa figura ímpar da literatura em língua portuguesa, cliquem por favor no YOU TUBE e e entrem em DVD Maos Dadas: Lauro Moreira interpreta Cecilia Meireles. São apenas quatro minutos…

Ou cliquem em Videos, no alto desta página, e poderão ver este e outros trabalhos nossos colocados no You Tube.

 

 

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DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR…

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1979-1985)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1980-1985)

Mailson Nóbrega e Lauro Moreira em almoço oferecido ao Ministro GalvêasMailson Nóbrega e Lauro Moreira em jantar oferecido ao Ministro Galvêas (1980)

Meus Amigos e Amigas do Quincasblog,

Os parcos porém fiéis leitores deste Quincasblog – que hoje já se espalham por territórios de Oropa, França e Bahia, e com destaque para Portugal, onde tenho a alegria de contar com um bom número deles – já conhecem um pouco de minha vida e das atividades (profissionais ou não)  que andei exercendo nesse longo trajeto. Aliás, no alto da página deste blog os mais curiosos poderão clicar em Quem sou: um Perfil e entrar em um generoso e detalhado texto biográfico  escrito por um jornalista brasileiro, que vivia em Lisboa no tempo em que eu também tinha essa sorte e exercia as funções de Embaixador junto à CPLP, de 2006 a 2010.

Em 1974, removido de Genebra para Brasília, fui cedido temporariamente pelo Itamaraty ao Ministério da Indústria e Comércio, para ocupar o cargo de Chefe da Assessoria Internacional do então Ministro e saudoso amigo Severo Gomes, bem como da Assessoria  do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, cuja presidência a ele cabia. Fiquei afastado do Itamaraty por cinco anos, voluntariamente, a despeito da penalização que esse afastamento acarretava para minha progressão na Carreira Diplomática, obrigando-me a uma agregação imposta por lei. Após três anos, com a saída um tanto conturbada (por notórias divergências políticas) do Ministro Severo Gomes, fui convidado por seu sucessor, Ângelo Calmon de Sá, a permanecer no cargo. Ao final da Administração do Presidente Geisel, em 78, voltei ao Itamaraty para ser imediatamente promovido a Conselheiro. Fato curioso foi que, em decorrência de gestões do Ministro Calmon de Sá junto ao Presidente, e com a óbvia anuência do Ministro das Relações Exteriores Azeredo da Silveira, introduziram-se modificações na Lei da Agregação de diplomatas, estabelecendo que funcionários “a partir do nível de Conselheiro” poderiam ser cedidos a outros Ministérios, sem qualquer prejuízo para suas respectivas carreiras. Ou seja, posso alegar que contribuí para essa necessária mudança legal, mas que felizmente dela não usufruí em absoluto, pois naquele momento meu nível funcional não era ainda o de Conselheiro, mas o de Primeiro Secretário.

Na Administração do Presidente Figueiredo, inaugurada em março de 1979, voltei a deixar o Itamaraty para atender a convite do novo Ministro  da Fazenda, Karlos Rischbiter (1927-2013), para assumir a sub-chefia da Coordenadoria de Assuntos Internacionais, no momento chefiada pelo meu colega e querido amigo Embaixador Álvaro Alencar, grande figura humana e grande funcionário, prematuramente falecido em 2006. Aliás, em 2009 a Fundação Alexandre de Gusmão, do Itamaraty,  publicou uma obra em sua homenagem intitulada “Álvaro Alencar: um diplomata na luta contra o subdesenvolvimento”, em cujo prefácio o então Ministro Celso Amorim recorda que  “os depoimentos de seus amigos dão testemunho dos muitos predicados que ele fez por merecer: profissional sério, dedicado, honesto, competente, um dos grandes diplomatas de sua geração, um verdadeiro servidor da pátria, um amigo leal, caloroso e humano”. A despeito de tudo isso, no entanto, foi curta a permanência do meu amigo à frente da CAI, onde foi substituído por outro colega, o Embaixador Oscar Lorenzo Sotto Fernandez, continuando eu na sub-chefia. Mas os tempos estavam um tanto agitados na economia mundial e sobretudo brasileira (marcada pela segunda crise do petróleo, em 1978, a crise financeira de 79, a inflação fugindo ao controle, o perigoso desequilíbrio da balança comercial, os juros estratosféricos da crescente dívida externa, etc.), e em janeiro de 1980 cai o Ministro Rischbieter, substituído pelo então Presidente do Banco Central, Ernane Galvêas, que eu mal conhecia. E aí tem início uma semana de articulações por parte de vários amigos meus do Governo e do setor privado, que me queriam ver finalmente à frente da Coordenadoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. E eu nada tinha a opor…

Foram dias para mim de muita efervecência e alvoroço, que culminaram felizmente com um happy end, e que me permitiram depois viver uma das experiências mais  enriquecedoras de minha vida profissional, além de um contato pessoal com um Chefe competente, respeitável e até hoje grande  amigo, o Ministro Ernane Galvêas. A efervecência daqueles poucos dias, pouco mais de uma semana, levou-me a registrar os acontecimentos vividos em uma espécie de diário,  sob o título de “Da arte de se fazer um Coordenador” Isso tudo aconteceu há 35 anos! Há dias encontrei em meus guardados uma cópia do original desse registro, já um tanto esmaecido pelo tempo, e que agora passo às mãos deste Quincasblog, na esperança de pelo menos divertir um pouco os meus generosos leitores.

“Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

Ao vencedor as batatas! E viva o nosso eterno Bruxo do Cosme Velho!

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Notas – Como nem todas os personagens mencionados no texto a seguir são do conhecimento dos leitores – afinal já se passaram mais de três décadas! –  achei interessante situá-los de modo sumário nestas Notas, por ordem de entrada em cena:

  1. Jacques Elluf – Empresário paulista, proprietário de uma trading company;
  2. Eimar Avillez – Ex-Chefe da Assessoria Internacional do Banco Central e grande amigo, que veio mais tarde a trabalhar comigo na gestão do Embaixador Sotto Fernandez;
  3. Ari Pinto – Ex- Chefe da CAI na gestão de Mário Henrique Simonsen no Ministério da Fazenda;
  4. Arthur Goldlust – Presidente da trading COMEXPORT, na qual tempos depois, e licenciado do setor público, vim a trabalhar por um curto período como Superintendente de Operações Externas;
  5. Luiz Américo Medeiros – Empresário, Presidente do Conselho Nacional da Indústria Têxtil;
  6. Fernão Bracher – Inicialmente Diretor e mais tarde Presidente do Banco Central; Sônia Bracher, sua esposa;
  7. Samy Kohn – Empresário, amigo do Ministro Galvêas
  8. Berardinelli – Chefe de Gabinete do Ministro Galvêas
  9. Paulo Tarso Flecha de Lima – Embiaxador, Chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty;
  10. Carlos Langoni – Presidente do Banco Central;
  11. Adimar Shivelbein – Funcionário do Ministério da Fazenda, lotado na CAI;
  12. Francisco Dornelles Vargas – Á época, Secretário da Receita Federal;
  13. Beijoca – Jogador de futebol do Flamengo, que se notabilizou por estrear no Maracanã num jogo em que entrou em campo aos 43 minutos do segundo tempo e foi expulso aos 45;
  14. Roberto Abdenur – Embaixador, à época Assessor do Gabinete do Ministro Saraiva Guerreiro no Itamaraty;
  15. Flávio Perri – Idem;
  16. José Botafogo Gonçalves – Embaixador, Chefe da Assessoria Internacional na gestão do Ministro Delfim Netto no Ministério do Planejamento;
  17. Embaixador Sérgio Corrêa da Costa – À época, Representante do Brasil junto à ONU. De 1983 a 1986, meu Chefe na Embaixada em Washington:
  18. Eduardo Carvalho – Secretário-executivo do Ministério da Fazenda;
  19. Luiz Suplicy Haffers – Empresário da área agrícola;
  20. Benedicto Moreira – Diretor-Geral da CACEX, Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil;
  21. Luiz Felipe Lampreia – Embaixador, à época, em Washington;
  22. Rui Nogueira – Embaixador, Assessor do Ministro Delfim Netto.

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PARA MELHOR LEITURA, CLICAR SOBRE CADA PÁGINA.

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ODIVELAS E A LUSOFONIA

ODIVELAS E A LUSOFONIA          FORUM 1 FORUM 3 Retornando a um dos temas prediletos deste nosso Quincasblog, publicamos hoje um texto que escrevi para o Catálogo da V Bienal da Lusofonia, organizada pela cidade portuguesa de Odivelas (ao lado de Lisboa) e que teve lugar durante o mês de maio último. Na verdade, era intenção minha postar essa matéria ainda no mês de maio, quando me encontrava em Portugal, participando das diversas etapas e diferentes eventos da Bienal, sobretudo do IV Forum, que contou com a presença de ilustres personalidades do mundo lusófono, e do V Encontro de Escritores, ao qual estiveram presentes mais de quarenta autores dos vários países da CPLP. O Brasil esteve muito bem representado pelo poeta, escritor e ensaísta Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e pelo poeta Iacyr Anderson Freitas, cuja obra eu não conhecia e que, confesso com alegria, surpreendeu-me por sua alta qualidade.  Ao final do texto que se segue, os queridos leitores e leitoras poderão encontrar, como de costume, o endereço no You Tube de mais dois Poetas constantes de meu DVD Mãos Dadas. Desta vez, ainda dentro da fase do Romantismo brasileiro, teremos as notas biográficas e uma amostra da obra de dois grandes nomes da poesia em Língua Portuguesa, bastante distintos em suas vivências, mas ambos desaparecidos muito precocemente: Álvares de Azevedo, aos 21 anos, e Castro Alves, o Poeta dos Escravos, aos 24.  Bom proveito!                    ********************************************************                          MINHA V BIENAL DA LUSOFONIA                                                           Lauro Moreira          ESCRITORES 1            Com imensa satisfação venho acompanhando, desde sua gênese em 2007, a trajetória vitoriosa da Bienal de Culturas Lusófonas, cuja evidente consolidação faz hoje de Odivelas uma verdadeira Capital Cultural da Lusofonia.            Ao longo de todos esses anos, pude testemunhar de muito perto o esforço ingente da Câmara Municipal de Odivelas, na pessoa de sua Presidente, Suzana Amador, e de meu admirável amigo Mário Máximo, escritor, poeta, incansável animador cultural e reconhecido militante da Lusofonia. Em verdade, mais que apenas testemunhar, ouso afirmar que tive o privilégio de participar do nascedouro e desenvolvimento dessa iniciativa, ao longo das quatro Edições anteriores – duas delas na qualidade de Embaixador do Brasil junto à CPLP – proferindo palestras, organizando e participando de espetáculos de música e teatro, propiciando a inclusão de artistas brasileiros nas exposições de arte, ademais de ter tido a honra de receber homenagens especiais que me tocaram profundamente o coração lusófono.    ESCRITORES 3         Acercamo-nos agora da V Bienal de Culturas Lusófonas 2015, a realizar-se no ano em que celebramos os 8 Séculos da Língua Portuguesa, contados a partir do Testamento de Afonso II, em geral considerado o primeiro documento escrito em nosso idioma.           Os tempos que correm não têm sido fáceis, como sabemos, e a própria Lusofonia atravessa uma certa área de turbulência, refletida em debates polêmicos na media internacional e no próprio âmbito da CPLP, organismo onde se observa atualmente uma certa apatia por parte de alguns de seus membros. Assuntos velhos e revelhos como o do Acordo Ortográfico de 1990 esperam até hoje a ratificação (25 anos depois de assinado por todos os participantes!) para sua entrada em vigor em países ainda relutantes, quando em outros, como o Brasil, já constitui fato consumado desde janeiro de 2009. Há muita gente que ainda confunde uma desejada unificação ortográfica com uma insensata e indesejável uniformização ortográfica.       ESCRITORES 2              Mas, na verdade, o ideal pelo qual lutamos e que chamamos de Lusofonia é algo que transcende a questão linguística. Repetindo palavras minhas reiteradas em tantas oportunidades, ressalto que podem alguns dos nossos países comunitários não ser povos exclusivamente lusófonos, mas são também lusófonos. Quer queira-se, quer não, vale repetir, há um espaço lusófono ocupado por esses países, e há sobretudo um espírito lusófono, gerado por uma convivência e uma miscigenação tecida ao longo de quinhentos anos. E esse diálogo intercultural e inter-étnico (e não multi-cultural!) que se estabeleceu entre descobridor e descobertos, entre colonizador e colonizados – e sem entrar aqui em qualquer juízo de valor sobre essa colonização – acabou também fazendo da língua uma “construção conjunta”, na expressão de José Eduardo Agualusa, onde aspectos sintáticos, fonéticos e lexicais acusam uma grande variedade, em um processo de permanente enriquecimento do idioma original de Gil Vicente. Por isso mesmo, Mia Couto diz muito bem, parafraseando Fernando Pessoa (Bernardo Soares) que “minha pátria é a minha língua portuguesa”. Ou seja, desse rico patrimônio imaterial, forjado a partir da experiência vivida no cruzamento desse triângulo Portugal-Brasil-África (enriquecida pela presença do Timor Leste) ao longo de cinco séculos, emerge aquilo que chamamos hoje de Lusofonia,uma construção que teve um dia para começar, mas que não tem uma data para acabar. Algo em permanente evolução, um fenômeno in fieri.         Por isso mesmo, ao liderar o processo de criação da CPLP, nascida finalmente em 1995, o inesquecível Embaixador José Aparecido de Oliveira reconhecia que o novo organismo internacional seria sobretudo a moldura jurídica de uma realidade linguística e cultural pré-existente. São palavras suas:       “A primeira das nossas preocupações na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi a de instituir uma sociedade rigorosamente entre iguais, de tal maneira que as dimensões físicas e políticas dos países participantes não influíssem na formação do grupo nem na sua orientação futura. Há, em nosso entendimento, um fator transcendental, que nos iguala e elimina preocupações de hegemonia: a alma comum fundada pela nossa língua”.           Palavras bem-vindas, que a Bienal das Culturas Lusófonas de Odivelas tem procurado, e com grande sucesso, transformar em atos concretos de largo alcance, contribuindo assim para a consecução do ideal maior de todos nós, que é o de ver uma Comunidade (por ora) de Estados Membros transformada em uma Comunidade de Cidadãos Lusófonos.   Lisboa, maio de 2015  Clicar nos links abaixo:    http://youtu.be/0DmtYNiO3bI  ou MÃOS DADAS – ÁLVARES DE AZEVEDO interpretado por Lauro Moreira     http://youtu.be/-LR_1vwz6yk     ou  MÃOS DADAS – CASTRO ALVES interpretado por Lauro Moreira          

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A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

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Outro Manuel que nos deixa

Lauro Moreira

Como os prezados leitores deste Quincasblog haverão de se lembrar, no início do passado mês de abril escrevi aqui uma matéria sobre a morte de Manoel de Oliveira, que trazia o sub-título de A grata longevidade dos Manoéis. Ademais do cineasta português, falecido naqueles dias aos 106 anos, referia-me também a outros Manoéis ou Manuéis, já falecidos, todos bastante longevos para sorte nossa, como os Poetas Manuel Bandeira (82 anos, mas com apenas um pulmão desde os 21) Manoel de Barros (97) e o Vaqueiro Manuel, personagem real e fictício de Guimarães Rosa (93 anos). Pois acabo de receber a triste notícia da partida de outro Manuel, meu amigo argentino de quase meio século, poeta, filólogo, exímio tradutor, advogado, político na juventude e personalidade cativante. Este, era o Manuel Graña Etcheverry, Manolo para todos nós, que em novembro próximo estaria completando seu centésimo aniversário.

Genro de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores, casado com a sempre lembrada e talentosa Maria Julieta, conheci Manolo e família em 1968, quando fui removido para Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático. Ao longo de quatro anos, tempo em que lá residi com Marly de Oliveira, então minha mulher, e nossa filha Mônica,  mantivemos um convívio praticamente diário com Manolo, Maria Julieta e os filhos Carlos Manoel e Luis Maurício, adolescentes, e Pedro Augusto, ainda uma criança. Aliás, não tenho como deixar de abrir  um parêntese e  relembrar aqui um dos poemas mais belos do Avô desses meninos, dedicado A Luis Maurício, Infante, que começa assim:

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

(…)

Apesar do longo tempo decorrido e da rarefação de nossos encontros a partir daquela época, fecho agora os olhos e revivo com nitidez e saudade detalhes de um sem número de momentos desse  convívio inesquecível.

No me esqueço da primeira visita que lhes fizemos, quando, por exemplo, contemplei de perto o famoso retrato de Drummond feito por Portinari, pendurado atrás do sofá da sala de visita. Nem do jantar, tempos depois, oferecido pelo casal ao amigo Vinicius de Moraes, nem de uma estada do próprio Drummond em visita à família, nem das artes culinárias de Manolo com seus “calamares en su tinta”…

Recordo ainda o apoio advocatício que ele sempre nos prestava na área consular, sobretudo na solução de alguns casos mais cabeludos, como aquele de uma jovem brasileira que havia sido “detenida para averiguaciones”, por carecer do necesário visto de permanência no país, e que em 48 horas acabara sendo vítima de sucessivos estupros praticados por policiais dentro da própria Comissaria.

Nosso convívio com Manolo e família se estendia por vêzes em tardes memoráveis na quinta que possuíam perto de Buenos Aires.  Volta e meia estávamos em animadas conversas nos constantes coquetéis da Embaixada do Brasil, chefiada a partir de 1969 pelo futuro Ministro de Estado das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, que, ao lado da Embaixatriz May, logo se tornaram também amigos íntimos do casal Graña.

Como grande intelectual e também poeta, Manolo traduziu boa parte da obra de Drummond e vários poemas de Marly de Oliveira, sobretudo do livro O Sangue na Veia. Aliás, nessa mesma época, Marly e Maria Julieta traduziram a Nueva Antologia Personal , de Jorge Luis Borges, publicada no Brasil pela Editora Sabiá, sucessora da Editora do Autor, que havia sido criada em 1960 por Fernando Sabino e Rubem Braga. E ainda nesse campo literário, vem-me à memória um momento bastante triste, que foi a morte de Manuel Bandeira, nosso amigo querido e padrinho de casamento, poucos meses depois de nossa chegada à Argentina, em outubro de 1968.  No Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, Marly de Oliveira e Maria Julieta prestaram-lhe então uma sentida homenagem, acrescida de um recital de poemas seus, ditos por mim.

Estas breves notas soltas não têm outro propósito senão o de prestar agora uma afetuosa homenagem a esse outro excelente e longevo Manuel, Manuel Graña Etcheverry, o meu querido amigo Manolo. Descanse em paz.

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E mantendo o já  prometido neste Quincasblog, apresento hoje mais dois poetas de meu DVD Mãos Dadas: Gonçalves Dias e Fagundes Varela. Para ver e ouvir, clique nos links abaixo.

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AVENTURAS DE UM DISEUR

MÃOS DADAS : UM DVD DE POESIA LUSÓFONA           

                                                      

                                                           Lauro Moreira                             

Capa do DVD

Capa do DVD

Não sou poeta, hélas! não escrevo versos – é certo que já escrevi, quando muito jovem, mas o respeito pela Poesia foi sempre tão grande que desisti logo de a continuar maltratando… Passei a ser então apenas um leitor encantado e assíduo, além de um ledor exibido, um diseur que não perdia, e até hoje não perde, a oportunidade de interpretar poemas alheios, desde que tenham, ao menos ao meu juízo, a imprescindível qualidade literária.

Ao longo da vida, sobretudo a partir da adolescência, quando comecei a fazer teatro em peças colegiais e mais tarde em grupos amadores no Rio de Janeiro, dediquei-me à tarefa de divulgar a obra de grandes criadores da poesia em língua portuguesa, não só do Brasil como de todo o mundo lusófono, através de apresentações em colégios, academias, universidades, casas minhas e de amigos, etc. Aos dezenove anos e inspirando-me numa apresentação análoga de Paulo Autran, decidi realizar um recital solo no Rio de Janeiro (com direito a uma estreia off-Broadway em Goiânia, Anápolis e Itaberaí, durante as férias de fim de ano em Goiás), com poemas de Gonçalves Dias (o longo Y Juca-Pirama na íntegra), Fagundes Varela, Álvares de Azevedo, Mário de Andrade, Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Drummond, entre outros de igual quilate. Foi para mim uma epopeia: duas horas de um espetáculo dividido em três atos, tudo devidamente decorado e ensaiado. Mas a acolhida do público compensou o esforço e incentivou-me a seguir por esse caminho…

Ingressando, depois de concluir a Faculdade de Direito da PUC-Rio, na Carreira Diplomática, passei a unir realmente o útil ao agradável, divulgando no exterior – sempre que as tarefas específicas dos Postos me permitiam – através de palestras e recitais, o que de melhor havia na poesia lusófona, em um sem número de apresentações na Argentina (meu primeiro posto), Estados Unidos, Espanha, Marrocos e finalmente Portugal, além de Cabo Verde, Angola, Santo Tomé e Príncipe e Guiné Bissau. Os espetáculos, individuais ou acompanhado de colegas e amigos de posto que eu acabava quase que docemente constrangendo a participar, eram, quando necessário, bilingues, com os textos recitados em português e em seguida no idioma local. No caso de Barcelona, por exemplo, em que chegamos a criar um grupo de jograis formado por funcionários do Consulado do Brasil, dizíamos os poemas em português, castelhano e catalão.

Mais um Recital em Lisboa, no Centro Cultural de Malaposta (Odivelas)

Mais um Recital em Lisboa, no Centro Cultural de Malaposta (Odivelas)

Um caso muito curioso, no entanto, ocorreu bem mais tarde, quando lancei no Brasil o meu primeiro CD, um álbum duplo intitulado Mãos Dadas, reunindo obras de 28 poetas de todos os países de língua portuguesa (sete à época, 1997, já que o Timor Leste não era ainda um país independente). Fiz uma apresentação inaugural no Rio, a convite da Academia Brasileira de Letras, seguida de turnê (ou como dizem nossos amigos portugueses, de uma digressão) por algumas capitais, incluindo São Paulo e Brasília, e cidades do interior do país, além de Lisboa e Cabo Verde. Com uma generosa cobertura da midia, o recital acabou gerando um interesse surpreendente, a ponto de esgotar a edição inicial de três mil exemplares do CD. E certo dia, um cidadão rumeno residente em São Paulo telefona para meu gabinete no Itamaraty em Brasília, para saber onde poderia adquirir exemplares do disco, pois tinha a intensão de levá-los para Bucareste e presentear alguns amigos e instituiçõe culturais. Uns três meses depois, recebo com grande surpresa uma carta da Rádio Nacional da Romênia, comunicando que meu CD estava sendo utilizado em um programa transmitido em língua portuguesa. Mais surpreendente ainda foi quando, anos depois, a Embaixadora da Romênia em Brasília, ao sermos apresentados, confessou que aprendera o Português ouvindo sobretudo o tal programa e os poemas de meu disco.

Recital na Embaixada de Portugal em Brasília

Recital na Embaixada de Portugal em Brasília

Mas a estória não acaba aqui: certo dia, logo depois da mencionada carta que me fora enviada pela Rádio, recebo diretamente uma comunicação do Museu de Literatura da Romênia, convidando-me a fazer um recital em Bucareste. Em seguida, entra em ação o nosso atuante Embaixador brasileiro naquele posto e ex-Ministro da Cultura do Governo Itamar Franco, meu amigo Jerônimo Moscardo, insistindo para que eu atendesse ao convite – o que me parecia impossível, por falta de tempo e de oferecimento de transporte… Até que um dia, como Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty, viajei oficialmente a Paris para a reunião da Assembleia Geral da UNESCO, e uma vez concluída a missão, comprei os bilhetes meu e de minha mulher e viajamos para Bucareste. O que então se passou foi algo de fato surpreendente e absolutamente inédito em minha vida de “diseur”. Com o apoio de três instrumentistas do Conservatório local de música, convidados por nosso Embaixador Moscardo, que promoveu inclusive a tradução dos poemas para o Rumeno e as cópias distribuídas ao público no final da sessão, apresentei um recital de grandes poetas da lusofonia para uma numerosa e atenta plateia que superlotava o salão – e que, com as raras exceções de alguns professores universitários e dos Embaixadores do Brasil e Portugal, nada falavam Português… Fiquei muito impressionado com o que vi e vivi naquela noite, quando a força da poesia acabou criando um momento de absoluta magia. Ainda hoje, revejo às vezes a gravação do recital realizada pela televisão rumena, e não deixo de me admirar.

Recital em Lisboa (2013) com a apresentação de Älma Lusitana, de Alberto Araújo

Recital em Lisboa (2013) com a apresentação de Älma Lusitana, de Alberto Araújo

Anos mais tarde, em 2004, lancei-me em nova aventura discográfica, preparando um CD com poemas de Manuel Bandeira, na voz do próprio Poeta, gravados certa noite em minha casa no Rio de Janeiro, em um antigo gravador doméstico. Bandeira era um amigo querido, que havia sido inclusive padrinho de meu primeiro casamento, com a poeta Marly de Oliveira. A incrível história dessa gravação orginal e seu lançamento em CD 36 anos depois (!) já foi contada neste Quincasblog, no post intitulado Falemos um pouco de Poesia: Manuel Bandeira, o Poeta em Botafogo, publicado em setembro de 2014, o que me dispensa de repetí-la agora para os meus generosos leitores, a não ser para recordar que participei pessoalmente do projeto, interpretando 26 outros poemas em homenagem ao autor de Pasárgada.   Dois anos mais tarde, voltei aos estúdios para gravar um álbum duplo com 120 poemas dessa Poeta admirável que foi Marly de Oliveira. Esses últimos CDs, à semelhança do Mãos Dadas, foram também apresentados em dezenas de recitais no Brasil, Portugal e outros países lusófonos.

Recital na Academia Brasileira de Letras, com a obra de Marly de Oliveira

Recital na Academia Brasileira de Letras, com a obra de Marly de Oliveira

Por outro lado, sempre tive uma certa resistência à ideia e convites para gravar DVDs de poesia, por acreditar que a palavra poética foi feita para ser lida ou ouvida, e que os eventuais movimentos de câmera, os cortes, as variações de planos acabavam por distrair o espectador, desviando sua atenção do essencial, que é o verso, o poema. Quem acabou me convencendo de que não era bem assim foi meu amigo, poeta e cineasta Alberto Araújo, ao propor-me uma experiência bem sucedida de gravar com ele um DVD, quando eu vivia ainda no Marrocos e ele acompanhava, em 2003, uma turnê do nosso Grupo Solo Brasil, com o espetáculo Uma Viagem através da Música do Brasil que eu havia criado para mostrar a plateias estrangeiras o que há de melhor em nossa música. Pouco tempo depois de retornar ao país, meu amigo me surpreende com um DVD a que ele deu o título de Lauro Moreira: Tecendo Palavras. Vi, ouvi e confesso que me convenci de que, com sensibilidade e conhecimento do realizador, os movimentos de câmera, os cortes pouco usuais e as mudanças de planos podem até mesmo contribuir de modo importante para que o espectador possa deixar-se envolver ainda mais pelas palavras, pelo poema. Vários poemas desse DVD foram colocados no You Tube e tem sido bastante visitados.

Com a querida amiga e grande atriz Denise Stoklos, após recital no SESC/São Paulo

Com a querida amiga e grande atriz Denise Stoklos, após recital no SESC/São Paulo

Mas tanto eu quanto meu amigo Alberto Araújo (que escreveu e dirigiu recentemente o longa-metragem Vazio Coração, com Murilo Rosa, Lima Duarte, Beth Mendes, Othon Bastos, entre outros), estávamos convencidos de que aquela experiência marroquina deveria ser complementada e consolidada com a realização de um segundo DVD, mais abrangente e contando com mais recursos técnicos. E assim nasceu o projeto, também intitulado Mãos Dadas, inicialmente gravado em minha casa em Brasília há algum tempo, mas só recentemente concluído, com os adendos que sempre julguei fundamentais, referentes à vida e obra de cada um dos 19 poetas lusófonos ali selecionados. Tenho para mim que se trata talvez do primeiro DVD do gênero lançado no Brasil.

Com a pianista Moema Craveiro Campos, no recital Uma Geografia Poético- Musical do Brasil, apresentado em Portugal, Brasil e Cabo-Verde

Com a pianista Moema Craveiro Campos, no recital Uma Geografia Poético- Musical do Brasil, apresentado em Portugal, Brasil e Cabo-Verde

E assim, lá vou eu seguindo sem descanso essa agradável missão que o destino me impôs de divulgar por onde tenho passado a rica e diversificada Poesia feita no Brasil e nos demais países de Língua Portuguesa. Neste momento, por exemplo, encontro-me em mais uma de minhas temporadas em Portugal, onde volto a realizar alguns recitais em Lisboa e outras cidades.

Finalmente, e para que os leitores amigos deste Quincasblog possam melhor conhecer a natureza e o resultado deste trabalho, decidi que a partir de hoje, e ao final de cada matéria aqui publicada, independente do tema tratado, incluirei, para visita dos interessados, os links no You Tube de dois poetas constantes deste último DVD, que reúne obras de alguns dos nomes mais significativos da Língua, começando pelo Classicismo de Camões, passando pelo Arcadismo de Gonzaga, pelo Romantismo de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves, e chegando ao Século XX com Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Drummond, Bandeira, o caboverdeano Jorge Barbosa, Vinicius, João Cabral e Marly de Oliveira, entre outros. E tudo isso devidamente contextualizado por imagens e breves comentários crítico-biográficos que escrevi sobre cada um dos poetas interpretados.

Com a amiga e pianista Sonia Maria Vieira, participante do Recital Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo, na ABL.

Com a amiga e pianista Sonia Maria Vieira, participante do Recital Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo, na ABL.

Sarau em Lisboa, com o amigo e grande violeiro Roberto Correa (2010)

Sarau em Lisboa, com o amigo e grande violeiro Roberto Correa (2010)

Não sei se meus parcos leitores concordam, mas acho que assim o Quincasblog ficará mais completo e talvez mais agradável de se visitar, pois ao lado de minha pobre palavra escrita, poderão relembrar a beleza de versos imperecíveis. E para concluir, creio oportuno acrescentar uma breve reflexão que está incluída na capa interna do mencionado DVD, sobre o delicado tema da interpretação de textos poéticos.

Convido-os, pois, a visitar os links abaixo, para verem e ouvirem hoje um pouco de Camões e Tomás Antônio Gonzaga:

Capa interna do DVD

Capa interna do DVD

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A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

     

                                          ou

                A GRATA LONGEVIDADE DOS MANOÉIS

Lauro Moreira

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Escrevo este post aqui de Lisboa, minha cidade cada vez mais do coração, para comentar com os leitores deste nosso Quincasblog, que o mundo perdeu ante-ontem não apenas um de seus grandes criadores, mas um dos artistas mais originais, e por isso mesmo, mais polêmicos de seu tempo. Original e polêmico como seu conterrâneo e contemporâneo Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira enriqueceu ao longo de mais de um século o panorama cultural português e marcou indelevelmente a cinematografia mundial. E como Pessoa, e como Camões, tardou muito a ser reconhecido em sua própria terra, só o sendo a partir do instante em que se consagrou em terras alheias, sobretudo em França. Já tinha mais de 70 anos e vários filmes, quando apresentou em Paris o seu Amor de Perdição, transcrição literal do romance de Camilo Castelo Branco. Com o imenso sucesso de público e sobretudo de crítica, começou finalmente a ser reconhecido em Portugal. Caso bem parecido com o do nosso Villa-Lobos…

Manoel de Oliveira morreu aos 106 anos. E aqui já abro um curto parêntese: não sei bem porque, mas tenho a ligeira impressão de que em geral os  Manuéis (tal como os Manoéis) tendem a durar muito e sabem aproveitar o tempo para esparzir talento e sabedoria neste mundo mofino. Vejamos: em novembro passado foi-se-nos, aos 97 anos, o Manoel dos passarinhos e das coisas simples e inefáveis, o nosso Poeta do Pantanal, Manoel de Barros; o outro imenso Manuel (Bandeira do Brasil, segundo Drummond), meu inesquecível amigo e padrinho de casamento, Poeta que tocou e toca fundo a corda mais sensível da alma brasileira, morreu jovem aos 82 anos, e com apenas um pulmão desde os vinte e poucos; mais um Manuel, é o Vaqueiro Manuel, que foi não apenas personagem de Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim), mas um ser vivente de carne e osso, figura lendária que tudo sabia da vida e do Sertão das Minas Gerais, e que só entregou os pontos aos 93 anos de labuta. Pois é isso, meus caros leitores, os meus Manuéis gostam, graças a Deus, de ficar para semente, e nós é que lucramos.

Duas frases recolhidas de declarações recentes de Manoel Cândido Pinto de Oliveira: Parece que Deus se esqueceu de mim e A morte é um descanso. Porém, mais que essa idade provecta –  que fazia dele o mais idoso cineasta em atividade no mundo, com o primeiro filme realizado ainda na fase do cinema mudo, em 1931, (Douro – Faina Fluvial) e o último em 2014 (O Velho do Restelo), apresentado por ele em Cannes, em agosto passado – espanta-nos sua incrível vitalidade , que o levou a realizar mais de 60 filmes, 32 deles em longa-metragem. E olhem que houve longas pausas impostas por obstáculos criados pelo Estado Novo, como entre 1942 e 1956 e entre 1965 e 1972. Entretanto, como se estivesse a recuperar o tempo perdido, produziu praticamente um filme por ano a partir de 1979. Como via o cinema como um aliado inseparável da literatura e do teatro, valeu-se de grandes nomes da literatura lusófona e universal, seja em adaptações – por vezes absolutamente literais, palavra por palavra, como em Amor de Perdição ou em Le Soulier de Satin, de Claudel – seja como inspiração (Eça de Queiróz,  Agustina Bessa-Luis, Flaubert, Dostoievski, Dante, Nietzsche, Camões, Cervantes) e lançou mão  de importantes nomes da cena portuguesa e estrangeira, como Luis Miguel Cintra, Leonor Silveira, Maria de Medeiros, Miguel Guilherme, Ricardo Trêpa, Lima Duarte (no papel do Pe. Antônio Vieira em Palavra e Utopia), Irene Papas, Michel Piccoli, John Malkovich, Marisa Paredes, Catherine Deneuve… A simples menção a essa plêiade de autores e atores evidencia a abrangência da obra de Oliveira e o alcance universal de suas reflexões.

Alceu de Amoroso Lima, nosso Tristão de Athayde, ao comentar o aparecimento surpreendente e desconcertante de Clarice Lispector na cena literária brasileira, afirmou que os escritores em geral escreviam  na clave de dó, enquanto Clarice o fazia na clave de fá… Ou seja, a leitura de seu texto exigia uma adaptação do leitor a essa nova forma de expressão. Assim, a meu ver, acontece com a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira – o que explica a resistência de boa parte do público. O cinema para ele nada tem a ver com passa-tempo, diversão ou coisa que o valha. A câmera é o seu instrumento de pensar e sentir o mundo, de refletir sobre os mistérios da vida e da morte, é o seu ágon da tragédia grega, onde ele, proto-agonista, lutador principal, debate as relações conflituosas com o destino. Todos os meus filmes mostram que, de facto, todos os homens entram em agonia no momento em que chegam ao mundo. Sou um grande lutador contra a morte. Passei a vida a observar a agonia, cada vez com mais experiência, com cada vez mais vontade de mostrá-la. Mas a morte acaba por chegar”, disse, em 1993. E tudo isso, através de uma estética e uma visão extremamente pessoais, com planos fixos e longuíssimos, personagens normalmente estáticos, exprimindo-se em empostação e postura não naturais, mas cênicas, teatrais, sublinhado tudo por uma música cuidadosamente selecionada e adrede composta, e em películas com duração de horas e horas. Em artigo publicado ontem no Diário de Notícias, o intelectual, ex-Ministro da Cultura e meu amigo José António Pinto Ribeiro, escreve com muita justeza que “Como acontece com todos os grandes mestres do cinema mundial, a obra de Oliveira é pessoal e, assim, ao mesmo tempo integradora e alheia a correntes e tendências, a modas e a classificações e apresenta-se, de forma quase sempre inesperada, muito à frente do seu tempo no que significa e no que intenta profetizar: enuncia sempre um olhar específico sobre a existência e sobre a criação artística.” Por outro lado, é o próprio realizador, em entrevista aos Cahiers de Cinéma, que reconhece “a influência de Buñel, Dreyer e de outros no meu cinema. Desde logo, o meu primeiro filme foi influenciado por Chaplin. Mas eu nunca tentei escondê-lo. É a minha cultura, a minha concepção da arte”.

A partida definitiva de uma pessoa com 106 anos de vida não pode naturalmente surpreender a ninguém, mas sempre entristece ver o apagar-se de uma chama que até há poucos dias ainda brilhava a ponto de acalentar planos para futuras criações, entre elas, a anunciada filmagem de um conto de Machado de Assis (A Igreja do Diabo). Portanto, fiquei triste ao tomar conhecimento dessa despedida, e diria mesmo que até surpreso, já que este Manoel me parecia realmente imorrível… Fiquei sabendo da notícia num almoço com os amigos portugueses Miguel Anacoreta e Mário Máximo, intelectuais atuantes e grandes incentivadores da Lusofonia. E, logo em seguida, comecei a recordar em silêncio as poucas vezes em que tive a oportunidade de estar pessoalmente com o nosso cineasta que acabava de partir. Poucas, porém marcantes para mim.

A primeira foi há exatos trinta anos, ou seja, em 1985, quando ambos éramos bastante mais jovens… Eu servia na Embaixada em Washington e fui ao Kennedy Center assistir, a convite do American Film Institute, à apresentação do filme Le Soulier de Satin, com a presença do realizador. O primeiro grande espanto: só o filme, sem contar os debates a seguir, duraria sete horas! Para ser mais preciso: seis horas e cinquenta minutos. Como cinéfilo desde a adolescência, só me lembrava de ter visto um filme mais longo, o Guerra e Humanidade  (ou A Condição Humana), o magnífico painel pacifista de Masaki Kobayashi (1959), com nove horas de duração, embora dividido em três partes, apresentado nos tempos gloriosos do extinto (claro!) Cine Paissandú, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Só que eram três sessões, em três dias consecutivos, para se ver o filme completo. Agora, não, iríamos ver o Le Soulier de Satin (O Sapato de Cetim) em um só dia, começando pelas dez da  manhã, saindo às treze, no intervalo para o almoço, e retomando às 15hs para enfrentar as quase quatro horas finais. Segundo surpreso, ao menos para mim, até então um ignorante completo em matéria de Manoel de Oliveira: o filme é rigorosamente a apresentação, em um pequeno palco de um pequeno teatro, da longuíssima peça de Paul Claudel, drama amoroso que se passa durante o Século de Ouro espanhol, com cenários de papel e os atores estáticos. Segundo anotações de João  Bénard da Costa, professor, crítico, programador e diretor por muitos anos da Cinemateca Portuguesa, falecido em 2009: «Quase sete horas de duração, planos geralmente longuíssimos, no limite material da duração do “magasin”, câmara normalmente imóvel, impondo um único ponto de vista sobre personagens que, também normalmente, estão estáticas e se falam sem se olhar e sem olhar para a câmara, fixando um algures indefinido e insituado; uma extensíssima sucessão de “recitativos” ou “ariais” em que uma só personagem (tantas vezes) se espraia em falas de intensa e tensa duração, um filme de um cineasta português, quase integralmente falado em francês e em que se descortina mal a possibilidade de qualquer artifício (dobragem ou legendagem) “traduzir” essa língua; um texto ideológico e esteticamente avesso a qualquer moda ou gosto dominante, são estas as aparências exteriores do “opus magnum” do cinema português».

Paul Claudel, escritor e diplomata francês, que serviu inclusive no Rio de Janeiro em 1916, irmão da excelente e infeliz escultora Camille Claudel, era um católico fervoroso, que se converteu um dia no interior de uma Igreja, ao ter “de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável.”  E acrescenta:  Acreditei com tal força, com tal adesão de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acasos de uma vida agitada, não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, tocá-la de leve que fosse.” Antes disso, em uma Ode a Dante, havia escrito:

“É humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la,

E é idiota a vanglória da carcaça de que somos inquilinos desconfortáveis.”  

Abri novo parêntese para essas citações porque tenho para mim que o também  homem de fé Manoel de Oliveira identificou-se de certo modo com esse espírito claudeliano. Ao final da apresentação do filme no Kennedy Center, respondendo a perguntas do público, o cineasta fez uma afirmação que me deixou boquiaberto, afirmação que só vim a compreender melhor ao conhecer  depois outras obras suas, e que poderia ser resumida no conceito de que  cinema é apenas teatro filmado. Mais tarde (1993), ele diria: “O cinema é um fantasma da vida que não nos deixa senão uma coisa sensível, concreta: as emoções”. E ainda: “Os rituais são muito importantes. Sem eles, a vida seria indecifrável. O cinema não filma senão isso, um conjunto de signos, de convenções. A vida é um enigma, não é legível. São os rituais que nos permitem lê-la”.

A segunda vez que vi Manoel de Oliveira  foi  já em Lisboa, em 2008, quando exercia o cargo de Embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. Após assistir a uma sessão de homenagem a Luis Miguel Cintra (por coincidência o mais constante ator dos filmes de Oliveira), estava na calçada em frente ao Instituto Camões, à Avenida da Liberdade, quando vejo aproximar-se dois senhores que desciam a rua, um deles sacudindo  airosamente uma bengala que lhe servia talvez para espantar mosquitos, caminhando lépido, a passos firmes, e conversando com animação. Quando passam por mim, dou-me conta de que se tratava do homem que acabava de celebrar seu centenário de vida, e que mal teve tempo para as homenagens que os amigos de sua adorada cidade do Porto queriam prestar-lhe, já que estava inteiramente envolvido em mais uma de suas produções anuais…Foi uma visão rápida, mas que me ficou naturalmente gravada na memória.

Em 2010 aposentei-me na Carreira Diplomática e retornei ao Brasil. Mas já no ano seguinte voltava a Lisboa para a primeira de várias temporadas, que espero poder repetir sempre que possível. Chegamos por coincidência no dia da abertura da segunda edição do FestIn, o Festival Itinerante de Cinema da Língua Portuguesa, a cuja criação em 2009/2010, havíamos emprestado o apoio da Missão do Brasil junto à CPLP. Naquela noite seria apresentado o novo filme de Manoel de Oliveira, O Estranho Caso de Angélica, antecedido de uma especial homenagem ao realizador, cujo nome passaria doravante a designar a sala principal do tradicional Cine São Jorje, sede do Festival. A primeira surpresa foi a de que estávamos, com as respectivas esposas, hospedados no mesmo hotel, de modo que nos encontramos na recepção minutos antes de nos dirigirmos ao evento. A segunda, que nem posso chamar de surpresa, foi a maneira fluente e descontraída com que pronunciou suas palavras de agradecimento, em meio a uma multidão entusiasmada que se apertava no espaçoso saguão do São Jorge. O filme, escrito e realizado por esse jovem homenageado de 103 anos, havia sido também escolhido para a abertura do segmento Un certain regard no Festival de Cannes de 2010. Foi essa a terceira e última vez que vi Manoel de Oliveira, ou seja, 26 anos após aquele encontro em Washington. E é bom não esquecer que depois de O Estranho Caso de Angélica, nosso amigo realizou ainda o longa O Gebo e a Sombra (2012) adaptado de uma peça de Raul Brandão, e o curta O Velho do Restelo, apresentado em Veneza e em mais uma dezena de Festivais de cinema mundo afora, e onde, segundo a sinopse, “Oliveira reúne num banco de praça do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela”.

VOANDO NO PASSADO          

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O campeåo do automobilismo

O campeåo do automobilismo

        Mas para que os queridos amigos e amigas do Quincasblog possam ter, se já não tem, um conhecimento adicional e  bastante surpreendente da vida incrível desse nosso personagem, deliciem-se com o que os jornais portugueses publicaram ontem sobre sua época de juventude:

Trapezista voador, piloto acrobático, campeão de salto à vara, galã sedutor… Muito antes da fama de realizador, já era conhecido por razões um tanto alheias à Sétima Arte. Nas revistas da época, por exemplo, a sua imagem de marca é a de um jovem de porte atlético e muito bem parecido, posando vestido com o fato que na altura era utilizado pelos praticantes de atletismo. E era tão bem parecido que, em 1929, a sua fotogenia já enchia páginas da revista “O Cinéfilo” e fazia suspirar os corações das jovens casadoiras.

De facto foi o desporto a primeira grande paixão de Manoel de Oliveira, que a ele se dedicou por inteiro quando tinha 20 anos. Mesmo mais tarde há imagens dele, de capacete de borracha, ao volante de um “Ford V8” de 3000 c.c, com o qual acabara de vencer, em 1937, o Circuito Internacional do Estoril.

No ano seguinte voltou às corridas de automóveis, desta vez no Brasil, tendo vencido o circuito da Gávea, no Rio de Janeiro”.

        Não é fantástico tudo isto?                     

Sempre o caso do profeta em sua terra...

Sempre o caso do profeta em sua terra…

                                 THE END

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