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ROSA DO SERTÃO

ROSA DO SERTÃO

Lauro Moreira

“Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão.”

“(…) nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.”

“(…) Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, (…). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua.” (JGR)

(…)

(…) “João era fabulista fabuloso fábula? /Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? /(…) “Projetava na gravatinha a quinta face das coisas / inenarrável narrada? /Um estranho chamado João /para disfarçar, para farçar / o que não ousamos compreender?” /(…) João era tudo? / tudo escondido, florindo / como flor é flor, mesmo não semeada? /(…) Por que João sorria / se lhe perguntavam / que mistério é esse? /E propondo desenhos figurava /menos a resposta / que outra questão ao perguntante? /(…) Ficamos sem saber o que era João / e se João existiu / de se pegar.

(Carlos Drummond de Andrade: “Um chamado João”)

 

        Os generosos leitores deste Quincasblog – ultimamente aliás um tanto preguiçoso – já devem ter percebido que ao longo de minha vida, sobretudo quando jovem, fui premiado com a ventura de conhecer pessoalmente e em muitos casos conviver regularmente com algumas figuras admiráveis da literatura brasileira do século vinte. Personalidades como Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Meyer, Cecília Meireles, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Hollanda, Marly de Oliveira, Nélida Piñon, Guimarães Rosa e inúmeros mais, enriqueceram-me a vida desde a juventude, não apenas por suas obras como também por sua honrosa amizade. De certo modo, e como já disse antes, o relacionamento com boa parte desses escritores se deveu ao fato de eu ter sido casado por quase vinte anos com a poeta Marly de Oliveira, admirada aliás por todos eles. A grande exceção no caso foi o meu conhecimento e depois a minha amizade com João Guimarães Rosa, sem dúvida o mais importante escritor da língua portuguesa no Brasil no século vinte. E é sobre o autor de Sagarana que eu gostaria de conversar hoje com minhas amigas e amigos do Quincas.

                                                                                                                                                                      

        O que lhes prometo de saída é não tentar fazer um exercício de hermenêutica de Grande Sertão: Veredas – essa monumental epopeia sertaneja, imantada ao mesmo tempo do mais puro lirismo – ou de qualquer outra obra do autor, não só por faltar-me o instrumental crítico para a aventura, como sobretudo por não ser este o propósito de nossa conversa aqui. Ao contrário, quero apenas relatar-lhes alguns episódios nascidos de um inesquecível convívio de poucos anos, convívio que nasce antes de meu ingresso no Itamaraty em 1964, onde ele, Embaixador de Carreira, dirigia a Divisão de Fronteiras. Na verdade, seu reconhecimento como escritor absolutamente genial – este é o adjetivo que lhe cabe – já era enorme em todo o país, com a publicação de Sagarana, em 1946, e especialmente , de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos editados dez anos mais tarde. E quanto mais passava o tempo, mais interesse despertava essa obra, tanto junto à crítica especializada e ao mundo acadêmico, quanto junto aos leitores brasileiros e estrangeiros, com traduções que se sucediam, em inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, catalão, quase sempre com a supervisão direta do autor poliglota, que dominava oito línguas e lia em seis outras. Suas duas últimas obras surgiram em 1967: Primeiras Estórias e Tutaméia (Terceiras Estórias), esta, uma coletânea de 43 contos curtos, resultado de uma colaboração regular para o jornal Pulso, editado pela classe médica (como sabemos, Rosa formou-se em medicina e clinicou algum tempo no interior de Minas, antes de ingressar na carreira diplomática).                                                                                                                                         

        Ao final de uma tarde de domingo, 19 de novembro desse mesmo ano de 1967, João Guimarães Rosa, no ápice de sua carreira de ficcionista e apenas três dias após sua longamente adiada posse na Academia Brasileira de Letras, morria de enfarto em seu apartamento em Copacabana, aos 59 anos de idade. Nascera portanto em 1908, justamente no ano da morte de Machado de Assis, o primeiro gênio absoluto de nossas letras, como que chegando ao mundo para recolher o bastão das mãos do criador de Capitu. Esse belo capricho do destino impressiona-me até hoje.

 

Bruna Lombardi (Diadorim) e Tony Ramos (Riobaldo) na TV

Rosa nas telas

        Há pouco mais de um mês, e com o deslumbramento de sempre, concluí a terceira ou quarta leitura de Grande Sertão:Veredas. Coincidentemente, a televisão Globo iniciava a reapresentação da série adaptada do romance, realizada em 1985 e desde então não mais mostrada. Trata-se de uma das melhores e mais ambiciosas realizações da televisão brasileira, uma produção cuidada, digna, sensível e respeitosa de uma obra literária monumental e complexa, sustentada por um elenco admirável, com roteiro final e direção do saudoso Walter Avancini. Aliás ocorre-me agora que o talento de Avancini foi igualmente responsável, em

1981, pela memorável transposição para a tv de outro clássico da literatura brasileira, o celebrado Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Várias outras estórias de GR foram também adaptadas para o cinema, cabendo mencionar especialmente, a obra-prima A Hora e a Vez de Augusto Matraga, dirigida por Roberto Santos, a única das adaptações aprovada diretamente pelo próprio Rosa. No extremo oposto, não para lembrar mas de preferência para esquecer, está a versão hípica do Grande Sertão (prometeram-me uma versão épica e me trouxeram uma versão hípica, onde só têm cavalos, indignou-se o escritor), dirigida pelos irmãos cineastas Renato e Geraldo Santos Pereira, lançada em 1965. Uma lamentável adaptação, que resultou num dos desastres mais rotundos do cinema brasileiro, e num verdadeiro massacre da obra original.

 

Cartaz da peça

JGR e JK : Posse na ABL em 1967

Rosa no palco

        No já publicado terceiro capítulo de nossa série intitulada Andanças pelo Cultural, trato de episódios de minha vida de estudante no Rio de Janeiro, com especial destaque para as atuações na área do teatro amador, no período anterior ao ingresso na Universidade. Pois ao entrar para a PUC/Rio, em 1958, mergulhei como nunca nas aventuras do palco, começando por fundar o TEPUC – Teatro Experimental da Pontifícia Universidade Católica, e depois encenando nada menos de dez peças em três anos de excitante atividade. Confesso que se não alcancei a fama de um artista global (!!!), acabei por ficar bem conhecidinho na limitada arena teatral do Rio daquela época, em virtude da generosa cobertura que nos davam os jornais, as rádios e por vezes a televisão. E nesse contexto, o que mais talvez tenha ajudado foi minha escolha pelo jornal Diário de Notícias para o Quadro de Honra de Universitário do Ano na área de Teatro, com direito a solene cerimônia no salão nobre do Ministério da Educação e Cultura, quando recebi medalha e diploma das mãos consagradas de Mme. Henriette Morineau, ex-atriz da Comédie Française, que

desde os anos 40 pontificava nas telas e nos palcos brasileiros.

Cobertura da imprensa carioca (JB)

Foi nesse período que me chegou o convite do jornalista e escritor Léo Gilson Ribeiro – recém-chegado de uma temporada de onze anos de estudos de teatro e literatura na Alemanha, Itália e Estados Unidos – para participar da montagem de uma adaptação teatral que ele, inteiramente arrebatado pelo gênio de Guimarães Rosa, havia feito de um dos contos de Sagarana, intitulado Traços biográficos de Lalino Salãthiel, ou A volta do marido pródigo. Caberia a mim a responsabilidade de encarnar o tal marido pródigo… Seria a primeira montagem teatral de um texto de Rosa, bem diferente do que se passou mais tarde, quando vários de seus contos tem sido encenados, alguns com grande sucesso, como o fantástico Meu Tio o Iauaretê, um diálogo monologado (a mesma técnica narrativa de GS:V) que representa “o estágio mais avançado de seu experimento com a prosa”, na opinião de Haroldo de Campos. E por grande coincidência, acabo de ler hoje nos jornais do Rio que “o livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e suas inúmeras possibilidades de análise, serviram de inspiração para a diretora Bia Lessa, que adaptou o texto para o teatro. O espetáculo, homônimo, entra em cartaz neste domingo (28 fevereiro), no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). Ele não será encenado, no entanto, em um do teatros do espaço cultural, e sim na rotunda, dentro de uma instalação criada e montada exclusivamente para a peça.” Ou seja, 62 anos após sua publicação em livro, chegou ‘a hora e a vez’ de o romance colossal de Guimarães Rosa subir ao palco (ou à rotunda…).

 

Lalino e Maria Rita (eu e Maria Lúcia Carvalho)

        Quanto aos detalhes desta nossa grande aventura do Marido Pródigo, com as peripécias da encenação, a generosa cobertura da imprensa (criando inclusive uma expectativa quase impossível de se atender), os incidentes na noite de estreia no Teatro da Maison de France, a presença de toda a numerosa e impiedosa crítica teatral carioca da época, que não perdoou as deficiências da adaptação e da montagem, a presença na plateia de personalidades como Cecília Meireles, Clarice Lispector e a Senhora Aracy

Guimarães Rosa (representando o marido, que sempre evitava frequentar eventos de grande afluência pública), a pré-estreia off- Broadway em Nova Friburgo, a posterior apresentação em Belo Horizonte, etc. – tudo isso deixaremos para o próximo capítulo das Andanças Culturais, já que aqui falaremos apenas dos contatos pessoais com o gênio criador de Riobaldo e Diadorim.

Convidado pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio, Léo Gilson Ribeiro, que havia inclusive acompanhado em Milão a montagem de alguns espetáculos do grande diretor Giorgio Strehler, no Piccolo Teatro, criou um grupo amador com o objetivo de apresentar alternadamente peças brasileiras e italianas, iniciando com a adaptação do mencionado conto de Guimarães Rosa. Mais tarde, porém, deixou o Instituto e acabou criando a Equipe de Teatro do Rio de Janeiro para concluir a empreitada. Com total dedicação, suprindo em parte sua quase nenhuma experiência prática, foi ele aos poucos formando o elenco e selecionando colaboradores de talento nas diferente áreas, como o jovem cenógrafo José Luiz Ripper, os figurinistas Dirceu e Marie Louise Nery, e a respeitada musicóloga e compositora Geni Marcondes, discípula de Hans-Joachim Koellreutter, o grande compositor, maestro, educador e esteta alemão, que viera para o Brasil nos anos de 1930, exercendo papel decisivo na renovação da cena musical do país. Para apresentar pessoalmente o projeto ao Embaixador Guimarães Rosa, tive a sorte de acompanhar Léo Gilson em uma ida ao Palácio do Itamaraty, na Rua Marechal Floriano, Rua Larga para os íntimos. Foi quando avistei o criador de Augusto Matraga pela primeira vez: os olhos miúdos e vivos detrás dos grossos óculos de tartaruga, os ombros levantados, a gravatinha borboleta no pescoço empinado, uma prosódia diferente, um sentido de humor natural e uma grande cordialidade.

A peça em Belo Horizonte

        Com o avanço dos ensaios da peça, realizados normalmente no palco do Colégio Santo Inácio (afinal eu continuava sendo de casa, embora já estivesse há algum tempo na Universidade),

decidimos convidar o autor para assistir a um deles. Coube-me a satisfação de buscá-lo de carro em sua residência em Copacabana, na Rua Francisco Otaviano. Ao retornarmos, disse-lhe que lamentava muito o fato de o ensaio justamente naquela noite não ter saído a contento, especialmente no tocante ao meu desempenho. E ele emendou logo: Mas o que é isso? Achei ótimo! E quer saber de uma coisa? O seu Lalino está melhor que o meu!… Rimos muito, e a partir daquele dia, para ele fiquei sendo sempre o Lalino.

 

Palácio do Itamaraty no Rio
Lago dos Cisnes (1965)

 

 

 

Com o colega Guimarães Rosa

        Em 18 de dezembro de 1962 concluí o curso de Direito, e três dias depois iniciei a maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, todos amigos, entre eles o nosso magnífico poeta Francisco Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim. Logo em nosso primeiro dia de trabalho, quando a turma incorporada foi convidada a cumprimentar os Chefes da Casa, visitamos também, claro, o Diretor da Divisão de Fronteiras, meu conhecido de outros carnavais… À saída, o Embaixador Guimarães Rosa me dá um caloroso abraço e pergunta em que setor eu estava lotado. Respondi-lhe que na Divisão da Europa Oriental. Ele olhou-me fixo e, entre sério e divertido, exclamou: Sim senhor, hein? Que maravilha: Goiás e Europa Oriental!… Essa e outras várias passagens em nossos encontros frequentes a partir de então, davam-me a sensação de que no âmago, para além de qualquer outra consideração, Rosa via em mim um conterrâneo goiano de seu sertão, seu sertão físico, geográfico, mineiro-goiano, mas também místico e mítico. Afinidade de uma cultura atávica, de uma herança comum? Lembrando Afonso Arinos, eu não era das Gerais, mas dos Gerais. E não era fácil encontrar, no ambiente urbano e cosmopolita da Carreira, colegas que tivessem essa extração, essa procedência que o deixava tão à vontade, que ele tanto prezava. Sua confissão ao crítico e tradutor Gunter Lorenz diz tudo: Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas.

Note-se que no Itamaraty daqueles idos de 1960, a quase totalidade dos diplomatas era de cariocas ou paulistas. De Goiás, havia apenas três, entre eles o meu amigo William Agel de Mello, lotado no Gabinete do Embaixador Rosa, e eu. Removido mais tarde para Barcelona, William Agel, também escritor, manteve assídua e divertida correspondência epistolar com seu ex-Chefe e amigo, reunida mais tarde no livro “João Guimarães Rosas: Cartas a William Agel de Mello”, onde se lêem passagens divertidas como esta: “RESSUSCITOU MANÉ D’EBRÉIA [personagem de Epopeia dos Sertões, livro do meu conterrâneo]. Já telefonei ao Lauro (Lalino Salãthiel) comunicando a fausta ressureicionice!

Ou esta outra:

Goiás, terra trefasta, enfiada, sem nenúfares,

Goiás, comprido caranguejo em-pé, carajamente!

Goiás atrás,Goiás pajaz, Goiás à frente,

Goiás de Lauro, Goiás de Mauro (…

                                                                                                               

        Um exemplo hilário de exercício de virtuosismo linguístico está em uma outra correspondência de Rosa, desta vez respondendo ao seu colega Jorge Cabral, que servia no Consulado em Frankfurt, e ele no de Hamburgo. São cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia então debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial. A longa missiva de Rosa compunha-se exclusivamente de palavras começadas pela letra c (Caro colega Cabral..) e acabou mais tarde publicada na imprensa carioca. Os leitores deste nosso Quincasblog possivelmente se lembrarão do post que publiquei em novembro de 2014, sob o título “Apenas um erro de Cabral”, em que trato desse assunto em detalhe, incluindo o próprio texto de JGR, e comento um equívoco primário de uma matéria publicada com grande destaque pelo Jornal do Brasil em fevereiro 1987, segunda a qual o correspondente J. Cabral não seria outro senão o nosso também colega João Cabral de Melo Neto, que a essas alturas nem sequer havia ingressado na Carreira diplomática… Os eventuais interessados em ler ou reler o divertido post poderão fazê-lo aqui no Quincas pelo título ou pela data da matéria.

 

Convívio amiudado

Meu sempre lembrado convívio regular com o amigo Guimarães Rosa foi breve no tempo – do início de 1965 até sua morte em fins de 1967 – mas intenso, divertido, prazeroso e muitíssimo proveitoso para mim. E cada vez que me punha ao seu lado, usufruindo daquela conversa sempre interessante, informal, descontraída, não perdia jamais a consciência de que eu estava diante de um gênio absoluto das letras, convivendo portanto com a própria posteridade. Aliás, lembro-me bem de uma tarde em que ele me mostrou um exemplar do jornal Die Welt, que acabara de receber de Hamburgo, com a resenha crítica sobre Grande Sertão: Veredas, recém-publicado com grande sucesso na Alemanha , escrita por um dos mais respeitados ensaístas do país, que afirmava textualmente tratar-se de um autor que, no século vinte, só encontraria paralelo em Joyce, Proust, Thomas Mann e Faulkner. Ao traduzir para mim alguns trechos dessa crítica, Rosa interrompeu emocionado: Lauro, você sabe que isso me assusta?!

Grande Sertão:Veredas – a Obra do século

Muito mais assustado fiquei eu, entretanto, numa certa manhã em que ele me pediu para dar um pulo ao seu Gabinete, e perguntando se eu dispunha de algum tempo, entregou-me logo

uma daquelas pastas castanhas de trabalho do Itamaraty, contendo uma boa quantidade de páginas datilografadas, que eu julguei, no primeiro momento, tratar-se de algum documento oficial. Quando abri, topei no centro da primeira página com a palavra TUTAMEIA, em caixa alta. Respirei fundo, mas fui logo negando o que ele me pedia: ler e opinar ali, em uma mesa de seu Gabinete, os originais inéditos de seu próximo livro, que levava o subtítulo de Terceiras Estórias. Senti-me de fato incomodado com aquele pedido, ao mesmo tempo que extremamente lisonjeado com esse gesto de confiança e amizade. Sem ter como recusar suas instâncias, acabei por ceder e passar o resto do dia debruçado sobre aqueles originais, tão diferentes de suas obras anteriores, e ainda mais, com a solene promessa de marcar tudo que eu não aprovasse , como exigia ele. Era evidente para mim, uma vez mais, que não se tratava, claro, de submeter sua nova obra inédita a meu pouco especializado juízo crítico, mas simplesmente de uma homenagem ao meu lastro atávico de “goianidade” sertaneja…

                                                                             

Dedicatória do Grande Sertão:Veredas

Em nossos bate-papos tratávamos de tudo um pouco. De literatura, mineirices, goianidades, diplomacia, filosofia, religião, etc. Cheguei a anotar regularmente muito do que ele me dizia, os casos que contava, os livros que comentava, mas infelizmente acabei perdendo tudo em meio a tanta mudança de casa e de país. Falava-me agora sobre o Bhagavad Gita ou sobre Lobsang Rampa e seu livro A terceira visão (“a realidade está no plano espiritual”) para em seguida comentar com admiração e entusiasmo os contos de Ermos e Gerais, do goiano Bernardo Élis, obra publicada em 1945 e saudada por Monteiro Lobato. Certo dia, abriu a gaveta de sua mesa de trabalho, apanhou uma página de um exemplar do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de meados do século dezenove e mostrou-me um anúncio em destaque que dizia mais ou menos o seguinte: Vende-se uma negra de 22 anos. Boa saúde, bons dentes. Tantos mil réis. Acompanha-a uma cria. Foi a primeira vez que tive consciência exata do horror da escravidão, diria mesmo que mais forte que aquele que sentia ao ler os poemas de

Castro Alves, como A Cruz da Estrada ou O navio Negreiro. Fiquei chocado, como chocado estava meu amigo. Outra vez, disse-me que acabara de reler encantado a obra poética de Marly de Oliveira, acrescentando: Há muita gente jovem e boa fazendo poesia hoje no Brasil, mas em geral são vozes um pouco indistintas, muito parecidas; Marly é diferente, é uma voz original, única, uma poesia do pensamento. E arrematava com graça: Ela me parece poeta de país desenvolvido!…

 

        Passados tantos anos, não creio estar cometendo uma inconfidência muito grave ao recordar aqui uma outra conversa que tivemos, desta vez sobre um poeta e diplomata, também chamado João (aquele que, segundo se dizia, não gostava de música…). Estávamos falando sobre poesia, quando Rosa de repente me pergunta: Você gosta da poesia de João Cabral? Respondi que sim, e mais, que a estética cabralina tinha a meu ver um papel importante como antídoto à retórica derramada de que padece às vezes a nossa poesia. Uma ‘educação pela pedra’ só poderia fazer bem… Ele continuou: “O problema é que o João Cabral me fez um dia justamente essa pergunta! E eu disse logo: mas meu caro, que pergunta é essa, você é um dos maiores poetas do Brasil! E ele insistiu: Rosa, eu estou perguntando outra coisa, quero saber se você gosta da minha poesia. E eu não tive coragem de dizer que gostava! Foi muito desagradável. Aliás, penso que aquela dor de cabeça diária do João vem de seu poema Uma faca só lâmina… A assepsia buscada pelo Cabral para sua poética é tão rigorosa que chega a matar até os germens da criatividade…” Notem que Rosa começou escrevendo e publicando poesia (Magma), depois é que passou para a ficção. E é dele esta afirmação feita em uma entrevista em 1965: “Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana. “

 

        Observações como essas, no entanto, não devem constituir surpresa para leitores e admiradores dessas duas grandes figuras, cujas obras estão nas antípodas, sob qualquer ângulo de apreciação. De um lado, o barroquismo arrebatado e arrebatador de um encantador de palavras, do re-criador de uma linguagem nova e de uma poesia própria para exprimir seu mundo mítico; de outro, a educação pela pedra, a busca incessante do despojamento total, do osso, da palavra seca, da expressão exata, “sem perfumar sua flor/sem poetizar seu poema”. Feliz da língua que consegue abrigar dois escritores coetâneos tão diferentes e tão extraordinários.

 

No tocante a essa questão da linguagem e da língua, duas citações extraídas da famosa entrevista de JGR a Gunter Lorenz em Gênova (Diálogos com Guimarães Rosa,1965) merecem destaque especial:

 

(…) o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (…) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.”

“...sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.”

 

        A paixão de JGR pela questão da língua era tal, que um dia me contou que um conhecido seu havia feito uma pesquisa curiosa, ao contar e cotejar o número de consoantes encontradas em

páginas de Jorge Amado e em textos seus. Descobriu com surpresa que em Rosa havia sempre mais consoantes que no autor de Gabriela. Explicação de Rosa: é natural, pois Jorge é da Bahia, da costa atlântica, onde predominou a língua tupi, muito vocálica, ao passo que ele, Rosa, vinha do interior do país, onde o idioma principal era do grupo Gê, ou Tapuia, língua muito mais consonantal que a dos tupis. Simples assim… E acrescentava que além disso o tupi é mais suave e mais descritivo, citando como exemplo, entre outras, a expressão pori-pori ema, para descrever o-salto-o-salto da ema, designação dos tupis para a Serra da Borborema.

 

Fernando Pessoa (por Almada Negreiros)

Uma obra cibernética?

Um dos momentos mais interessantes de minhas conversas com JGR foi quando lhe disse que, à parte a genialidade presente na criação de Grande Sertão:Veredas, a obra me impressionava também pelo número de personagens que se entre-cruzavam em mil estórias diferentes, tudo mesclado com frequentes observações sobre vida, religião, fauna e flora, num incrível emaranhado de mais de 570 páginas, sem pausa, sem respiro, sem capítulos para dividi-las, dando ao leitor (ao menos a mim) a sensação de estar diante de uma obra cibernética, escrita de um só jato, sem interrupção. E então perguntei-lhe como tinha sido o seu processo de criação. Explicou-me que foi num período de férias em casa, ao escrever mais um conto para Corpo de Baile, começou a sentir-se estranhamente tomado por um impulso que o levava a escrever sem cessar, por horas a fio, deitado no tapete da sala, num processo que parecia meio mediúnico e que ele não entendia bem. Ao ouvir aquilo, lembrei-me logo da famosa carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, (meses antes da morte do Poeta), em que explicava a origem de seus heterônimos. Rosa não sabia da existência da carta, mas era impressionante a similitude das situações. Basta lembrar esse trecho:

“(…) Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe- me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.”

Curioso que só anos depois tomei conhecimento do teor de uma carta em que Rosa confessava ao seu colega, amigo e compadre, Embaixador e mais tarde Ministro das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira:“Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado – só lucidez e angústia.”

 

Aracy de Carvalho, Senhora Guimarães Rosa

A morte pressentida

        Eu me pergunto sempre se esse espírito sem corpo não teria sido o responsável pelo lúcido e angustiado pressentimento da chegada da morte, que durante pelo menos quatro anos perseguiu João Guimarães Rosa. Seu desaparecimento repentino e prematuro, no auge de uma vida que não chegaria aos 60 anos, está envolto em mistério, ao menos para os que desconheciam certos estranhos antecedentes. Em 1957 Rosa candidata-se à Academia Brasileira de Letras, um acalentado sonho de muitos anos, mas não alcança os votos necessários para eleger-se. Em 1963, após uma empenhada campanha feita pessoalmente junto a cada Acadêmico, é aceito por unanimidade. Está exultante, mas inexplicavelmente recusa-se a fixar uma data para sua posse. A insistência natural de seus pares aumenta-lhe a angústia e obriga-o a inventar desculpas aparentemente inconsistentes, como excesso de trabalho no Ministério ou algum problema de saúde. Em 1966, seu amigo e

tradutor Curt Meyer-Clason, que dois anos antes havia traduzido Grande Sertão:Veredas para o alemão sob a supervisão direta do autor, avisa-lhe que está prestes a concluir a tradução do restante de sua obra, o que lhe traz grande alegria.

 

Talvez mais animado com o sucesso de sua obra no exterior, Rosa marca finalmente a data da posse na ABL: 16 de novembro, uma quinta-feira, só que do ano seguinte! A angústia aumenta a cada dia. Seus desabafos com amigos chegados eram sombrios. A alguns dizia que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. Augusto Meyer nota-lhe um “terror pueril nos olhos” e a Otto Lara Rezende, Rosa declara que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. E durante os ensaios protocolares da véspera, confidenciou: “A Academia é demais para mim. Tenho medo de falhar, de chorar, não suportar a emoção”. Eu, de minha parte, cheguei a ouvir uma frase dita por Marly de Oliveira que nunca mais esqueci: a obra do Rosa vale por toda uma Academia, indignava-se ela, e a insistência com essa posse pode acabar por matá-lo!

 

Rosa, JK, Austregésilo de Athayde e Josué Montello na noite de 16 de novembro de 1967 na ABL

Chega finalmente o dia 16 de novembro, quinta-feira, data de um evento inexplicavelmente adiado por quatro anos. Pelos depoimentos posteriores do também escritor Geraldo França de Lima, conterrâneo e íntimo amigo de Rosa desde a década de 1930 em Minas Gerais, sabemos que este passara a manhã e a tarde em silêncio tenso e agoniado, recusando até alimentar-se. Apreensiva, Dona Aracy telefona ao amigo Geraldo, explicando a situação e pedindo-lhe que viesse ajudá-la a distrair e tranquilizar seu marido. Ele veio em seguida, e depois de acalmar um pouco o velho companheiro, inclusive a escolher os sapatos que melhor se ajustassem ao fardão acadêmico, acompanhou-o no carro oficial do Itamaraty até a sede da ABL, no Centro da cidade. No transcurso da viagem, impressionado com o silêncio e a ansiedade do amigo, resolveu animá-lo dizendo tratar-se de uma simples cerimônia de posse, onde ele estaria cercado de amigos e admiradores, e até de confrades médicos, como Peregrino Júnior, conforme se previra no ensaio da ante-véspera. Foi nesse momento que, ao tocar-lhe a mão, notou que ela estava gelada. Ouviu então uma voz grave e assustada dizer-lhe com todas as letras: Geraldo, você não está entendendo; eu não passo deste ano…

 

        Com grande expectativa e debaixo de uma forte tempestade que alagava as ruas da Rio, cheguei ao Salão Nobre da ABL por volta das 19hs e já o encontrei lotado. À mesa, dirigindo a cerimônia, o Presidente da Casa, Austregésilo de Athaíde, ao lado do ex-Presidente J.K. e do Acadêmico e também mineiro Afonso Arinos de Mello Franco, designado para receber o novo colega. A tensão de Rosa ao se dirigir à tribuna era sentida por todos os presentes. Mas a leitura de um discurso impecável e absolutamente “roseano” foi perfeita. Os momentos finais foram de grande emoção, com citação do Bhagavad Gita e, em seguida, com a hoje famosa locução: A gente morre é para provar que viveu. E ainda: Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

 

        Ao concluir sua ingente missão, nosso amigo estava radiante, esfuziante, recebendo e retribuindo abraços de uma quantidade de admiradores, rindo todo tempo, feliz, e, finalmente aliviado do peso das toneladas que carregara por quatro anos. No dia seguinte, sexta-feira, ao final do expediente no Itamaraty, no momento em que eu saía do elevador no segundo andar, para grande surpresa minha dou de cara com o meu Embaixador agora Acadêmico, que tinha ido trabalhar normalmente e estava se retirando, ao lado de sua amiga e secretária Maria Augusta. Ao dar-lhe um abraço e reiterar-lhe como havia sido maravilhosa sua festa, ele perguntou logo, já de dentro do elevador: E o discurso, gostou? E a apresentação, foi boa? Ao responder-lhe que sim, claro, ele virou- se logo para a secretária: o Lauro, Lalino, é o meu consultor para assuntos teatrais!… Em seguida a porta do elevador fechou-se. E foi essa a última visão que tive de meu pranteado amigo. Dois dias depois, domingo, 19 de novembro, ao final da tarde, eu conversava com um tio meu em um bar na Avenida Atlântica em Copacabana, contando tudo isso que acabo de narrar aos meus amigos leitores, quando naquele exato momento, a menos de cem metros de distância, em sua casa na Rua Francisco Otaviano, onde um belo dia fui buscá-lo para um ensaio de teatro, João Guimarães Rosa partia para sempre. Partia para a eternidade, para a posteridade, para a memória do Brasil e dos leitores de todo o mundo.

 

 

 

As pessoas não morrem, ficam encantadas

JGR

     
                                                                                                                                                                           LM, 9/02/18
                                                                             ****************************          
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EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                    

Morreu hoje o Presidente Mário Soares.

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Portugal acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, um dos maiores políticos europeus de sua geração e de seu tempo, um líder incontrastável, e seguramente o principal responsável pela trilha democrática adotada pelo país após o Movimento de 25 de Abril de 1974.

O Brasil, irmanado nesse luto a toda a Comunidade Lusófona espalhada pelos quatro continentes, assiste com imensa tristeza à partida de um amigo fiel e leal, um de seus mais vigorosos defensores, e um dos paladinos da batalha de criação da CPLP, ao lado de seu fraterno companheiro José Aparecido de Oliveira.

Para mim, pessoalmente, que o conheci há mais de vinte anos e que tive o privilégio de contar modestamente entre seus inumeráveis amigos e admiradores, fica-me o desalento de não mais poder visitá-lo em sua Fundação a cada viagem minha a Lisboa. Mas fica-me também o orgulho de ver sua partida reverenciada por pessoas e povos que o conheceram e o respeitaram, em sua imensa luta cotidiana por um mundo melhor e mais justo. RIP 

(Comentário que postei no Face Book no dia 07/01/2017).

 

                                                                                                             

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

                   EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                                                             Lauro Moreira

 

TRATANDO DE CLIMA E SATÉLITES

 

No início do segundo semestre de 1994, deixei a cidade de Barcelona , onde por quatro anos havia sido Cônsul Geral, e voltei ao Brasil, convidado pelo Ministro Celso Amorim para o cargo de porta-voz do Itamaraty. Poucos meses depois, com a posse do novo Governo, transferi-me para o Ministério de Ciência e Tecnologia, atendendo a convite do titular da Pasta, Professor José Israel Vargas, que eu então mal conhecia, mas que veio a ser depois um amigo muito querido, merecedor até hoje de minha maior admiração e respeito intelectual. Com ele pessoalmente, e com alguns de seus dedicados colaboradores, aprendi muito sobre uma área na qual me sentia inteiramente jejuno, uma vez que em toda minha carreira até então, eu jamais chegara a lidar com assuntos de natureza científica. E lá estava eu, de repente, tratando de “cooperação e cumprimento de acordos internacionais relativos aos assuntos de ciência e tecnologia, especialmente os programas espacial, nuclear e de bens sensíveis.”

Depois de um breve estágio inicial, por iniciativa própria, nos principais órgãos do Ministério, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Agência Espacial Brasileira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Nacional de Tecnologia, o Observatório Nacional, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a Nuclebrás, etc., mergulhei nos assuntos afetos à Assessoria Internacional por mim chefiada. Foram quase três anos de descoberta de um mundo novo e fascinante, onde me cabia tratar de assuntos que iam das consequências do efeito estufa sobre a vida do planeta a negociações para o lançamento de satélite brasileiro pelo foguete chinês Longa Marcha… Aprendi muito, repito, sobretudo para quem sabia tão pouco, e guardo as melhores lembranças de um convívio inexcedível com amigos que retenho na memória e no afeto. Vargas, Oskar Klingl, Mônaco, Márcio Barbosa, Lindolfo de Carvalho, José Tundisi, Antônio Teixeira, Lélio Fellows… Pessoas amigas, estimadas, de quem os azares da vida acabam às vezes por nos afastar. Uma pena.

 

Min.IsraelVargas & Staff

Min.IsraelVargas & Staff

 

 

Mas hoje quero falar especialmente de Mário Soares, do Presidente e meu Amigo Mário Soares, de como o conheci, de quanto o admirei, de como fui sempre devedor de sua generosa atenção, e de como os azares do destino, nesse caso, felizmente não nos afastou, apenas nos uniu. E foi graças ao Ministro Israel Vargas que vim a conhecer pessoalmente o meu personagem de hoje, personagem que acaba de se retirar deste palco terreno há menos de uma semana.

NAVEGANDO PELOS OCEANOS

Em dezembro de 1995 foi lançada a Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos (CMIO), na sequência de uma proposta apresentada pela delegação de Portugal e aceita pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) com vistas à organização de uma grande conferência internacional sobre o mar. A iniciativa foi igualmente acolhida pela UNESCO e pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cabendo ao então Presidente da República de Portugal, Mário Soares, presidir a referida comissão e apresentar um Relatório independente sobre os oceanos, em 1998, no âmbito de celebração do Ano Internacional dos Oceanos.

Logo no início de 1996, o Professor Vargas, em sua qualidade de destacado cientista, recebeu do Presidente Mário Soares o honroso convite individual para integrar a CMIO, ao lado de quatro dezenas de outras conhecidas personalidades internacionais ligadas à questão do mar, entre elas a Dra. Elisabeth Mann Borgese, filha mais nova do escritor Thomas Mann, e o ex-Primeiro Ministro da Holanda de 1982 a 1994, Ruud Lubbers. No caso do Brasil, o Ministro Vargas decidiu criar imediatamente a CNIO, ou seja, uma Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos, reunindo altos representantes de 17 instituições brasileiras especializadas no assunto, com vistas a preparar nossa contribuição para o Relatório final a ser apresentado à ONU pela CMIO, em 1998.

Na qualidade de Chefe da Assessoria Internacional, e convocado desde o início pelo meu Ministro, passei a trabalhar intensamente no âmbito de ambas as Comissões, ou seja, tanto nas reuniões nacionais quanto nas internacionais, ao lado de meu amigo e colega de Ministério, o Comandante da Marinha Antônio José Teixeira. A primeira delas realizou-se em Tókio, com a presença de todos os membros e o apreciado apoio  do Governo japonês. Foi então nessa oportunidade que tive o prazer de conhecer de perto o prestígio internacional, a simpatia e a grande experiência diplomática do Presidente Mário Soares, com quem, inclusive, realizei a viagem de volta até Lisboa.

 

Em reunião da CMIO

Em reunião da CMIO

A segunda reunião internacional teve lugar no Rio de Janeiro, cabendo-nos portanto a honra e o imenso esforço de organizá-la…Felizmente, parece que não decepcionamos, e tudo correu nos trilhos previstos. E foi aqui no Brasil, ao longo dos cinco ou seis dias do encontro, que tive a chance de conviver mais de perto com o Presidente Mário Soares, acompanhando-o inclusive a vários encontros não oficiais, como uma visita à tradicional ABI -Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908, onde o visitante homenageado proferiu um vibrante improviso para uma plateia entusiástica; ou uma cerimônia na sede da Biblioteca Nacional para o lançamento da edição brasileira de Portugal, livro de crônicas de seu amigo e grande poeta do Douro Miguel Torga, prefaciado pelo próprio Mário Soares; ou ainda uma passagem pela famosa Livraria Camões, no Centro do Rio, aberta em 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa, e que lamentavelmente viu-se na contingência de fechar suas portas em 2012.

Acompanhei-o ainda em caminhadas pelas ruas centrais do Rio, quando, sem maiores surpresas, observei como ele era notado e imediatamente reconhecido por uma boa quantidade de transeúntes, o que me levou a propor-lhe que se candidatasse logo a um posto eletivo no Brasil, de preferência ao de Presidente da República! Rimos muito e ele ficou de pensar no assunto… Em meio a uma agenda de mil compromissos diários, ainda encontrou jeito para viajar a São Paulo – quase perdemos o avião – apenas para dar uma entrevista (outro grande sucesso) ao programa do Jô Soares.

Aliás, cabe lembrar aqui uma passagem do comovente artigo publicado ante-ontem em Lisboa por meu amigo António Valdemar, destacado jornalista português, amigo e ex-aluno de Mário Soares, sobre o gosto de nosso personagem por livros e escritores. Diz ele em seu texto Soares, tal e qual :

 Mario Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mario Cesariny ou Luis Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

       Mas, voltando a navegar nas águas da Comissão sobre o Oceanos, cabe acrescentar que a  terceira reunião realizou-se na Holanda, em Rotterdam, e a seguinte em Genebra. Compareci a ambas, assessorando sempre nosso Ministro Vargas e aproximando-me mais e mais do Presidente Soares. Pouco depois, em meados de 1997 e antes que se realizasse a última reunião, desta vez no Marrocos, (onde, quem diria, quatro anos depois eu viria ser o  Embaixador brasileiro), voltei  ao Itamaraty para assumir o Departamento Cultural e, cumulativamente, a Presidência da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Mas qual não foi minha surpresa quando, meses depois, recebo uma carta pessoal do Presidente Mário Soares, em nome da CMIO, convidando-me a comparecer a Lisboa para participar da entrega oficial do Relatório da Comissão ao Secretário-Geral das Nações Unidas, em cerimônia realizada no âmbito da Expo-98. O documento, intitulado “O Oceano: Nosso Futuro”, apresentava importantes recomendações à comunidade internacional para a salvaguarda da riqueza dos oceanos, chamando a atenção para a sua relevância no progresso social e económico do planeta.

VOLTA AO ITAMARATY

Meu retorno ao Itamaraty marcou, com certeza, a fase mais entusiasmante e, em seguida, a mais frustrante de toda minha vida profissional, quando participei intensamente da construção de um sonho formidável, para assistir depois ao seu irreparável naufrágio. (Este comentário só se intrometeu aqui, meus caros leitores, por não me ter sido possível evitá-lo, tal o peso da frustração e da tristeza de uma história que um dia contarei em letra de forma, com o sugestivo título de “Meus Quinhentos Anos…) A verdade é que nessa época não só propusemos  estimular “um momento de reflexão sobre caminhos e perspectivas do Brasil”, como se podia ler em minha página de apresentação no primeiro número de nossa revista RUMOS: Os caminhos do Brasil em debate, como chegamos a criar um riquíssimo diálogo com Portugal, incentivado pela Comissão Bilateral para as Comemorações da Viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No âmbito desta, criou-se uma Comissão de Honra, comandada, de parte a parte, pelo Presidente Mário Soares e Marco Maciel, então Vice-Presidente da República, e composta por personalidades ilustres de diferentes áreas de ambos os países, como Nélida Piñon, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, José Carlos Vasconcelos, Alçada Baptista, entre outras. Realizamos encontros regulares de ambas as Comissões, tanto no Brasil quanto em Portugal, ao longo de quase três anos em que estivemos à frente dos trabalhos. Depois, só Deus sabe o tamanho dos acertos…

 

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Após o naufrágio, e desejando sair do Brasil, aceitei convite  para chefiar a nossa Embaixada no Reino do Marrocos em 2000, onde me senti feliz e realizado com o trabalho que conseguimos levar adiante em quase quatro anos de permanência. Nessa época, tive a honra e a satisfação de ser condecorado pelo Governo de Portugal, pelas mãos de seu Embaixador em Rabat, com a Gran Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a mais alta comenda do Estado português. E fiquei alguns anos sem voltar a ver meu sempre lembrado amigo Mário Soares. Voltei à base em dezembro de 2003, por insistente convite do Ministro Celso Amorim, para assumir a chefia da Agência Brasileira de Cooperação, uma das áreas mais atuantes e desenvoltas do Itamaraty, e que muito me acrescentou em termos de experiência profissional. Em meu triênio de ABC, tive a oportunidade de lidar com uma imensa variedade de projetos de cooperação, destinados a quase todos os países latino-americanos e à totalidade de nossos países lusófonos, tanto no plano bilateral quanto no multilateral, uma vez que, neste último caso, representávamos o Brasil no órgão da CPLP responsável pela área da cooperação para o desenvolvimento. Com isso, aprofundei bastante minha vivência lusófona, inclusive visitando com frequência os cinco PALOP (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e S. Tomé e Príncipe), além do Timor Leste. Participei ainda da Cimeira de 2004, em S.Tomé, com a presença de todos os Chefes de Estado e/ou de Governo dos países membros da CPLP.

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No Recife, com Francisco Knopfl, Embaixador de Portugal e o Senador Roberto Cavalcanti.

MERGULHO NA LUSOFONIA

 

Mas confesso que a grande surpresa que me caiu do céu foi minha designação para abrir a Missão Permanente do Brasil junto à CPLP, em 2006. Ou seja, o Brasil passava a ser o primeiro País-Membro a contar com uma representação, em nível de Embaixada, para tratar exclusivamente dos assuntos da Lusofonia, já que até então esse trabalho era realizado por nossa Embaixada bilateral junto ao Governo de Portugal, a exemplo do que ocorria com a representação dos demais países da CPLP. Não é preciso dizer que, a partir daí, os outros sete  países seguiram gradualmente os passos do Brasil, elevando assim de modo significativo o nível de suas representações. Tomei posse em Lisboa em meados de 2006, após instalar a Chancelaria e a Residência oficial, e permaneci no cargo até 2010, quando fui dispensado pela aposentadoria… Falar aqui, ainda que muito resumidamente, das atividades que conseguimos levar a cabo nesses quatro anos, seria virtualmente impossível. Assim, limito-me a reiterar agora o que disse em discurso público na Academia de Ciências de Lisboa, ao receber das mãos do Presidente Mário Soares e do Professor Adriano Moreira, o Prêmio outorgado pelo Movimento Internacional Lusófono , de Personalidade Lusófona do Ano de 1999 – ou seja, que minha descoberta essencial, traduzida em meu sentimento mais profundo, levava-me à evidência de que toda a minha vida pregressa não havia sido senão um longo exercício para finalmente cumprir a missão maior e final que me estava destinada e que era justamente  essa de engajar-me na batalha pela Lusofonia.

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Na Academia de Ciências de Lisboa: outorga do Prêmio Personalidade Lusófona de 2009. Prof. Adriano Moreira e Pres. Mário Soares.

 

Vejam que a figura de Mário Soares volta a surgir neste relato. E a verdade é que em todo meu período de Embaixador junto à CPLP essa figura passou a ter presença constante em minhas atividades, apoiando-me sempre que solicitado, prestigiando eventos promovidos pela nossa Missão, abrindo as portas de sua prestigiosa Fundação para sediar nossas palestras, exposições, seminários, etc. E aproximando-se a data do encerramento de minha missão em Lisboa, ou seja, de minha aposentadoria, após 45 anos de serviços prestados à Carreira Diplomática, ocorreu um episódio que me deixou extremamente sensibilizado, embora um tanto constrangido. Foi um telefonema surpreendente que recebi do Presidente Mário Soares, em que me dizia haver sido informado de que eu deixaria Portugal. Eu confirmei, e ele continuou: Mas o meu amigo não pode sair agora, pois este ano haverá muita coisa importante a ser tratada no âmbito da CPLP e sua saída será muito inoportuna.

Obrigado, Presidente, mas não há o que fazer, pois o processo de minha remoção já está em curso.

  • – Vai para o Brasil ou para outro Posto no exterior?
  • – Vou para a reforma
  • – Então pode ficar mais um ano aqui! Vou telefonar ao Presidente Lula e tratar desse assunto.
  • – Mas Presidente, embora tecnicamente não haja de fato impedimento de eu me aposentar no Serviço Público e continuar como Embaixador aqui, trata-se de algo muito inusitado no Itamaraty.
  • -Não, não, vou telefonar a Brasília e depois lhe falo.

A verdade é que só essa manifestação incrível de amizade e consideração pelo meu trabalho já me era mais que suficiente para inflar-me o ego… Mas sabendo bem dos obstáculos e de certo modo até dos prováveis inconvenientes que acarretaria a execução de tal plano, como tentei argumentar-lhe, tive a sensação de que meu amigo acabaria por abandonar logo a ideia. Mas quem disse que o voluntarioso Mário Soares era homem de desistir? Horas depois, no fim daquele mesmo dia, atendo telefone meu celular:

– Embaixador, liguei para o Lula, mas ele está numa reunião em Manaus. Pedi para falar com o Chefe de Gabinete, mas ele tinha viajado com o Presidente. Liguei então para o meu amigo Tarso Genro, Ministro da Justiça, que também está fora, em Zurique. Quando eu conseguir falar, dou-lhe notícias.

Fiquei abismado com essa determinação, e por mais que lhe dissesse que sua generosa atenção já era para mim mais que suficiente e que o melhor seria não insistir no assunto, não teve jeito. Três ou quatro dias passados, estava eu chegando a Guimarães com o nosso Grupo Solo Brasil (que eu havia criado anos antes, para mostrar no exterior o melhor da música brasileira, e que realizava então uma turnê por Portugal), quando volto a receber mais uma chamada do Presidente Mário Soares para informar que havia finalmente conseguido falar com o Ministro Tarso Genro, explicar-lhe a situação e pedir-lhe providências junto ao Presidente da República! E daí a poucos dias recebo um chamado do Secretário Geral (que seria, logo depois, Ministro de Estado) da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a quem eu já conhecia pessoalmente, para, referindo-se ao telefonema do Presidente Mário Soares, consultar-me sobre o que exatamente poderia ser feito para atendê-lo, ou seja, manter-me em Lisboa por mais um ano, até o final do Governo Lula.

 

Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, com a presença da Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos S. Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Dra. Maria Barroso.

Descerramento de Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, presentes, entre outros, a Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Sra. Mário Soares.

Foi então que lhe contei toda a história, todo o generoso empenho do meu amigo, e pedi-lhe que por favor não fizessem nada, não tomassem nenhuma iniciativa, nem junto ao Itamaraty nem, muito menos, junto ao Presidente da República, pois até o processo de remoção de meu substituto já estava em curso, e uma medida inusitada como essa provavelmente causaria um certo desconforto na Casa de Rio Branco… E foi assim que no dia 10 de fevereiro de 2010 entrei para o clube dos aposentados e voltei definitivamente para o Brasil. Não sem antes oferecermos, minha mulher eu, um jantar na Residência a Mário Soares e Maria Barroso, sua companheira admirável, mulher e atriz sensível e participante, minha aliada constante na luta pela Lusofonia, evento para o qual convidamos alguns dos amigos mais chegados do casal. Dias depois, foi a nossa vez de sermos homenageados por ambos, com um inesquecível jantar em sua casa, com a prestigiosa presença do Ministro de Negócios Estrangeiros, Luís Amado e do Professor Adriano Moreira, entre outros amigos e autoridades.

APOSENTADORIA EM TERMOS…

Acontece, porém, que ao voltar para o Brasil dei-me conta de que me apaixonara por Portugal, e essa paixão só fazia crescer com o tempo…Diante disso, não restou outra opção – a mim e a minha mulher, outra apaixonada pela terrinha – que a de voltar sempre que possível por lá. No princípio, íamos uma vez por ano, e alugávamos um pequeno apartamento por algumas semanas . Depois, acabamos por adquirir uma morada em Lisboa, aonde passamos a ir uma vez a cada semestre. Sentimo-nos realmente em casa, e temos aproveitado as visitas para estar com amigos e multiplicar minhas atividades, sobretudo na área cultural, participando de um sem número de eventos, não apenas em Lisboa como em várias regiões do país,  fazendo palestras sobre temas da Lusofonia, participando de programas da CPLP ou de iniciativas como a Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas, criada por meu amigo e escritor Mário Máximo, apresentando recitais com obras de poetas da Lusofonia etc. E em cada estada em Portugal, minha primeira visita era sempre ao Presidente Mário Soares.

PARTIDA

Jantar oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Jantar de despedida oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Até que um dia isso já não foi mais possível, em razão do agravamento de seu estado de saúde, o que nos deixou a todos mais que apreensivos. No último dia 7 de janeiro, aos 92 anos, alquebrado desde o grave acidente vascular que havia sofrido há cerca de dois anos e pela perda em 2015 da companheira de toda a vida, Maria Barroso, meu generoso Amigo Mário Alberto Lopes Soares fechou seus olhos no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa.

 

 

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

 

Eu havia acabado de chegar ao Brasil, de volta de mais uma estada de três meses em Portugal. Acompanhei pela televisão o féretro daquele homem que, nas palavras de um jornalista do Público, gostava de ser amado mas nunca se preocupou em ser consensual. Deixa um legado histórico à sua medida. Mário Soares cruzou a segunda metade do século XX e com ela todas as grandes derivas históricas: o fim do colonialismo, a construção europeia, a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a primeira guerra do Iraque. Em todas, Soares esteve do lado certo da história, tendo sido personagem importante em alguns desses momentos.

        Ou seja, partiu para sempre um dos vultos mais importantes da longa e rica História de Portugal. E levou muita, muita saudade nossa, de seus inumeráveis amigos e admiradores.

 

(Da Série “Meus Encontros”)

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Arquivado em SÉRIE MEUS ENCONTROS

Andanças pelo Cultural

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Drummond e Alceu de Amoroso Lima

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Lauro Moreira

Diante de uma inexplicável ausência de quase seis meses (!), confesso que nem sei mais como (re)começar essas mal digitadas linhas aqui em nosso Quincasblog.

Talvez o pior no entanto seja a falta que aparentemente não fiz aos generosos leitores que me acompanham desde o começo de nossa caminhada em 2012, pois ninguém pareceu notar esse misterioso sumiço. Ninguém perguntou: por que parou? Parou por quê?…(brincadeirinha). Na verdade, de admirar seria se essa ausência tivesse sido acusada por algum observador mais atento, em vista da enxurrada incessante e caudalosa de assuntos tratados hoje nas redes sociais, que afoga todo mundo o tempo todo. Enfim, cá estamos nós outra vez, com o propósito de retomar a regularidade que mantivemos durante mais de três anos de conversa amistosa com nossos amigos e amigas deste Quincasblog, falando sempre de tudo um pouco. Menos de coisas muito atuais, como se sabe, e mais daquelas que já passaram por nossa vida e deixaram marcas no coração e na memória. Esta é a minha matéria. Nesse caso, reconheço não estar em total sintonia com Drummond, quando proclama categórico em um de seus poemas mais fortes:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente””
(Mãos Dadas

Assim sendo, não há como não reconhecer que este nosso Quincasblog se ajusta mais à frase do Professor Alceu de Amoroso Lima, quando dizia que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.

Para evitarmos novas descontinuidades neste (para mim) agradável bate-papo, resolvi adotar, digamos, um formato muito em voga no cinema atual, ou seja, tratar um assunto por capítulos seguidos, formando uma série – o que na verdade em tempos idos e vividos já existia, como sabemos, com o nome de seriado, diversão máxima das crianças nas matinées de domingo. Meus coleguinhas de geração devem se lembrar muito bem do misterioso Fu-Manchu e do lendário Flash Gordon, do Maravilhoso Mascarado e de Nyoka, a Rainha da Selva, como qualquer cidadão de hoje está mais que ciente dos Outlander ou dos House of Cards da vida.

Depois deste pinoquiano nariz de cera, entremos propriamente em matéria. O seriado que agora lhes proponho tem por título Andanças pelo Cultural, e pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente talvez menos eletrizantes que os do Flash Gordon, um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo na área profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.

Curiosamente – e disso me dei conta muitos anos antes de dependurar as chuteiras profissionais (ou digamos melhor, de descalçar as luvas de pelica da diplomacia…) – embora eu tenha trabalhado a maior parte de meus 45 anos de Itamaraty na chamada área econômica, acabei sendo sobretudo conhecido e identificado entre meus pares como um profissional da cultura. E confesso que desse carimbo sempre me orgulhei. Aliás, os leitores não desconhecem passagens dessa minha vida, digamos, dupla, distribuídas aleatoriamente nas diversas publicações deste Quincasblog. Sabem que logo ao ingressar no Itamaraty trabalhei por mais de três anos no chamado Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu, e que depois de quatro anos servindo no Consulado-Geral em Buenos Aires, fui transferido para a Delegação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra, onde voltei a me ocupar de assuntos econômicos, lidando todo o tempo com matérias de tarifas e comércio (GATT). Ao retornar ao país, após sete anos de exterior, fui indicado pelo Ministro de Estado Azeredo da Silveira, nosso sempre lembrado Silveirinha, para assumir o cargo de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, a convite do Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes, cargo em que permaneci por cinco anos.

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Embaixador Azeredo da Silveira

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Ministro Severo Gomes

Com o início da nova Administração do país, em 1979, deixei novamente o Itamaraty, convidado pelo Ministro da Fazenda para chefiar a área de Comércio Exterior e, pouco depois, a própria Assessoria Internacional do Ministério. (As peripécias dessa fase estão narradas neste Quincasblog , com o título de Da Arte de se fazer um Coordenador.) Dois anos mais tarde, decidi dar um passo bastante ousado, digamos, em termos itamaratianos: pedi uma licença temporária do Governo para tratar de interesses particulares, mudei-me de Brasília para São Paulo e assumi o cargo de Superintendente de uma importante trading-company brasileira (COMEXPORT), especializada sobretudo em comércio com os então oito países do Leste Europeu, ou seja, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, República Democrática Alemã, Iugoslávia, Bulgária e Albânia. Valeu-me bastante a longa experiência acumulada na área específica e peculiar das relações comerciais com aquela parte da Europa, então ainda chamada por alguns de Cortina de Ferro, “Iron Curtain”, na definição original de Churchill logo no pós-guerra, mais precisamente em um famoso discurso feito no Missouri em março de 1946. Aliás, o meu envolvimento profissional com essa área foi tanto e tão longo, quer no Governo, quer no setor privado, que enquanto me encontrava na COMEXPORT, aproveitei para escrever minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty sobre exatamente “Relações Econômico-Comerciais Brasil-Leste Europeu no período 1961-1981”. Na verdade, uma tese, como se vê, quase autobiográfica…

Depois de pouco mais de um ano na COMEXPORT, decidi dar outro passo ousado, criando com meu primo e advogado Reginaldo Oscar de Castro – que veio mais tarde a ocupar a Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – a empresa de consultoria na área de comércio exterior Lauro Moreira & Castro, com sede em São Paulo e um escritório em Brasilia.

Ao cabo de dois anos e meio em São Paulo, e tendo que decidir definitivamente se voltaria ou não à Carreira, minhas dúvidas foram dissipadas por um amável e surpreendente convite do Embaixador Sérgio Corrêa da Costa, que depois de vários anos como Embaixador junto às Nações Unidas, acabava de ser designado para a Embaixada em Washington e propunha-me integrar sua equipe no novo Posto, como responsável pela área de Política Comercial. Pois foi então que se deu, com perdão pela comparação, minha conversão definitiva, meu Caminho de Damasco, minha passagem de Saulo a Paulo… Após um ano de exercício na área comercial, numa labuta diária, cansativa e um tanto inglória, levando bordoadas de countervaling duties e anti-dumpings aplicados sobre a exportação de vários produtos brasileiros, como aços e calçados, e tudo restringido à monotonia de um só país (para quem estava habituado a lidar até então com inúmeros países ao mesmo tempo) – decidi pleitear junto ao Embaixador Corrêa da Costa a minha mudança de área e de ares, fazendo-lhe ver que meu trabalho poderia render muito mais se me transferisse para o lugar de um colega que estava justamente deixando o Setor Cultural… Dito e feito! A partir desse momento, minha vida foi um labutar ainda maior, só que num terreno onde sempre me senti à vontade e, como diz o provérbio português, feliz como pinto no lixo. Mas esses momentos profissionais inesquecíveis que vivi em Washington, marcados por projetos de grande alcance e de inegável complexidade, serão devidamente tratados no capítulo que lhe couber neste seriado que agora se inicia.

AGUARDEM O PRÓXIMO CAPÍTULO, INTITULADO : Oh! que saudades que tenho
de uma Cidade Maravilhosa, que os anos não trazem mais…

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02/07/2016 · 20:17

DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR…

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1979-1985)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1980-1985)

Mailson Nóbrega e Lauro Moreira em almoço oferecido ao Ministro GalvêasMailson Nóbrega e Lauro Moreira em jantar oferecido ao Ministro Galvêas (1980)

Meus Amigos e Amigas do Quincasblog,

Os parcos porém fiéis leitores deste Quincasblog – que hoje já se espalham por territórios de Oropa, França e Bahia, e com destaque para Portugal, onde tenho a alegria de contar com um bom número deles – já conhecem um pouco de minha vida e das atividades (profissionais ou não)  que andei exercendo nesse longo trajeto. Aliás, no alto da página deste blog os mais curiosos poderão clicar em Quem sou: um Perfil e entrar em um generoso e detalhado texto biográfico  escrito por um jornalista brasileiro, que vivia em Lisboa no tempo em que eu também tinha essa sorte e exercia as funções de Embaixador junto à CPLP, de 2006 a 2010.

Em 1974, removido de Genebra para Brasília, fui cedido temporariamente pelo Itamaraty ao Ministério da Indústria e Comércio, para ocupar o cargo de Chefe da Assessoria Internacional do então Ministro e saudoso amigo Severo Gomes, bem como da Assessoria  do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, cuja presidência a ele cabia. Fiquei afastado do Itamaraty por cinco anos, voluntariamente, a despeito da penalização que esse afastamento acarretava para minha progressão na Carreira Diplomática, obrigando-me a uma agregação imposta por lei. Após três anos, com a saída um tanto conturbada (por notórias divergências políticas) do Ministro Severo Gomes, fui convidado por seu sucessor, Ângelo Calmon de Sá, a permanecer no cargo. Ao final da Administração do Presidente Geisel, em 78, voltei ao Itamaraty para ser imediatamente promovido a Conselheiro. Fato curioso foi que, em decorrência de gestões do Ministro Calmon de Sá junto ao Presidente, e com a óbvia anuência do Ministro das Relações Exteriores Azeredo da Silveira, introduziram-se modificações na Lei da Agregação de diplomatas, estabelecendo que funcionários “a partir do nível de Conselheiro” poderiam ser cedidos a outros Ministérios, sem qualquer prejuízo para suas respectivas carreiras. Ou seja, posso alegar que contribuí para essa necessária mudança legal, mas que felizmente dela não usufruí em absoluto, pois naquele momento meu nível funcional não era ainda o de Conselheiro, mas o de Primeiro Secretário.

Na Administração do Presidente Figueiredo, inaugurada em março de 1979, voltei a deixar o Itamaraty para atender a convite do novo Ministro  da Fazenda, Karlos Rischbiter (1927-2013), para assumir a sub-chefia da Coordenadoria de Assuntos Internacionais, no momento chefiada pelo meu colega e querido amigo Embaixador Álvaro Alencar, grande figura humana e grande funcionário, prematuramente falecido em 2006. Aliás, em 2009 a Fundação Alexandre de Gusmão, do Itamaraty,  publicou uma obra em sua homenagem intitulada “Álvaro Alencar: um diplomata na luta contra o subdesenvolvimento”, em cujo prefácio o então Ministro Celso Amorim recorda que  “os depoimentos de seus amigos dão testemunho dos muitos predicados que ele fez por merecer: profissional sério, dedicado, honesto, competente, um dos grandes diplomatas de sua geração, um verdadeiro servidor da pátria, um amigo leal, caloroso e humano”. A despeito de tudo isso, no entanto, foi curta a permanência do meu amigo à frente da CAI, onde foi substituído por outro colega, o Embaixador Oscar Lorenzo Sotto Fernandez, continuando eu na sub-chefia. Mas os tempos estavam um tanto agitados na economia mundial e sobretudo brasileira (marcada pela segunda crise do petróleo, em 1978, a crise financeira de 79, a inflação fugindo ao controle, o perigoso desequilíbrio da balança comercial, os juros estratosféricos da crescente dívida externa, etc.), e em janeiro de 1980 cai o Ministro Rischbieter, substituído pelo então Presidente do Banco Central, Ernane Galvêas, que eu mal conhecia. E aí tem início uma semana de articulações por parte de vários amigos meus do Governo e do setor privado, que me queriam ver finalmente à frente da Coordenadoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. E eu nada tinha a opor…

Foram dias para mim de muita efervecência e alvoroço, que culminaram felizmente com um happy end, e que me permitiram depois viver uma das experiências mais  enriquecedoras de minha vida profissional, além de um contato pessoal com um Chefe competente, respeitável e até hoje grande  amigo, o Ministro Ernane Galvêas. A efervecência daqueles poucos dias, pouco mais de uma semana, levou-me a registrar os acontecimentos vividos em uma espécie de diário,  sob o título de “Da arte de se fazer um Coordenador” Isso tudo aconteceu há 35 anos! Há dias encontrei em meus guardados uma cópia do original desse registro, já um tanto esmaecido pelo tempo, e que agora passo às mãos deste Quincasblog, na esperança de pelo menos divertir um pouco os meus generosos leitores.

“Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

Ao vencedor as batatas! E viva o nosso eterno Bruxo do Cosme Velho!

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Notas – Como nem todas os personagens mencionados no texto a seguir são do conhecimento dos leitores – afinal já se passaram mais de três décadas! –  achei interessante situá-los de modo sumário nestas Notas, por ordem de entrada em cena:

  1. Jacques Elluf – Empresário paulista, proprietário de uma trading company;
  2. Eimar Avillez – Ex-Chefe da Assessoria Internacional do Banco Central e grande amigo, que veio mais tarde a trabalhar comigo na gestão do Embaixador Sotto Fernandez;
  3. Ari Pinto – Ex- Chefe da CAI na gestão de Mário Henrique Simonsen no Ministério da Fazenda;
  4. Arthur Goldlust – Presidente da trading COMEXPORT, na qual tempos depois, e licenciado do setor público, vim a trabalhar por um curto período como Superintendente de Operações Externas;
  5. Luiz Américo Medeiros – Empresário, Presidente do Conselho Nacional da Indústria Têxtil;
  6. Fernão Bracher – Inicialmente Diretor e mais tarde Presidente do Banco Central; Sônia Bracher, sua esposa;
  7. Samy Kohn – Empresário, amigo do Ministro Galvêas
  8. Berardinelli – Chefe de Gabinete do Ministro Galvêas
  9. Paulo Tarso Flecha de Lima – Embiaxador, Chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty;
  10. Carlos Langoni – Presidente do Banco Central;
  11. Adimar Shivelbein – Funcionário do Ministério da Fazenda, lotado na CAI;
  12. Francisco Dornelles Vargas – Á época, Secretário da Receita Federal;
  13. Beijoca – Jogador de futebol do Flamengo, que se notabilizou por estrear no Maracanã num jogo em que entrou em campo aos 43 minutos do segundo tempo e foi expulso aos 45;
  14. Roberto Abdenur – Embaixador, à época Assessor do Gabinete do Ministro Saraiva Guerreiro no Itamaraty;
  15. Flávio Perri – Idem;
  16. José Botafogo Gonçalves – Embaixador, Chefe da Assessoria Internacional na gestão do Ministro Delfim Netto no Ministério do Planejamento;
  17. Embaixador Sérgio Corrêa da Costa – À época, Representante do Brasil junto à ONU. De 1983 a 1986, meu Chefe na Embaixada em Washington:
  18. Eduardo Carvalho – Secretário-executivo do Ministério da Fazenda;
  19. Luiz Suplicy Haffers – Empresário da área agrícola;
  20. Benedicto Moreira – Diretor-Geral da CACEX, Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil;
  21. Luiz Felipe Lampreia – Embaixador, à época, em Washington;
  22. Rui Nogueira – Embaixador, Assessor do Ministro Delfim Netto.

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A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

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Outro Manuel que nos deixa

Lauro Moreira

Como os prezados leitores deste Quincasblog haverão de se lembrar, no início do passado mês de abril escrevi aqui uma matéria sobre a morte de Manoel de Oliveira, que trazia o sub-título de A grata longevidade dos Manoéis. Ademais do cineasta português, falecido naqueles dias aos 106 anos, referia-me também a outros Manoéis ou Manuéis, já falecidos, todos bastante longevos para sorte nossa, como os Poetas Manuel Bandeira (82 anos, mas com apenas um pulmão desde os 21) Manoel de Barros (97) e o Vaqueiro Manuel, personagem real e fictício de Guimarães Rosa (93 anos). Pois acabo de receber a triste notícia da partida de outro Manuel, meu amigo argentino de quase meio século, poeta, filólogo, exímio tradutor, advogado, político na juventude e personalidade cativante. Este, era o Manuel Graña Etcheverry, Manolo para todos nós, que em novembro próximo estaria completando seu centésimo aniversário.

Genro de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores, casado com a sempre lembrada e talentosa Maria Julieta, conheci Manolo e família em 1968, quando fui removido para Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático. Ao longo de quatro anos, tempo em que lá residi com Marly de Oliveira, então minha mulher, e nossa filha Mônica,  mantivemos um convívio praticamente diário com Manolo, Maria Julieta e os filhos Carlos Manoel e Luis Maurício, adolescentes, e Pedro Augusto, ainda uma criança. Aliás, não tenho como deixar de abrir  um parêntese e  relembrar aqui um dos poemas mais belos do Avô desses meninos, dedicado A Luis Maurício, Infante, que começa assim:

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

(…)

Apesar do longo tempo decorrido e da rarefação de nossos encontros a partir daquela época, fecho agora os olhos e revivo com nitidez e saudade detalhes de um sem número de momentos desse  convívio inesquecível.

No me esqueço da primeira visita que lhes fizemos, quando, por exemplo, contemplei de perto o famoso retrato de Drummond feito por Portinari, pendurado atrás do sofá da sala de visita. Nem do jantar, tempos depois, oferecido pelo casal ao amigo Vinicius de Moraes, nem de uma estada do próprio Drummond em visita à família, nem das artes culinárias de Manolo com seus “calamares en su tinta”…

Recordo ainda o apoio advocatício que ele sempre nos prestava na área consular, sobretudo na solução de alguns casos mais cabeludos, como aquele de uma jovem brasileira que havia sido “detenida para averiguaciones”, por carecer do necesário visto de permanência no país, e que em 48 horas acabara sendo vítima de sucessivos estupros praticados por policiais dentro da própria Comissaria.

Nosso convívio com Manolo e família se estendia por vêzes em tardes memoráveis na quinta que possuíam perto de Buenos Aires.  Volta e meia estávamos em animadas conversas nos constantes coquetéis da Embaixada do Brasil, chefiada a partir de 1969 pelo futuro Ministro de Estado das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, que, ao lado da Embaixatriz May, logo se tornaram também amigos íntimos do casal Graña.

Como grande intelectual e também poeta, Manolo traduziu boa parte da obra de Drummond e vários poemas de Marly de Oliveira, sobretudo do livro O Sangue na Veia. Aliás, nessa mesma época, Marly e Maria Julieta traduziram a Nueva Antologia Personal , de Jorge Luis Borges, publicada no Brasil pela Editora Sabiá, sucessora da Editora do Autor, que havia sido criada em 1960 por Fernando Sabino e Rubem Braga. E ainda nesse campo literário, vem-me à memória um momento bastante triste, que foi a morte de Manuel Bandeira, nosso amigo querido e padrinho de casamento, poucos meses depois de nossa chegada à Argentina, em outubro de 1968.  No Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, Marly de Oliveira e Maria Julieta prestaram-lhe então uma sentida homenagem, acrescida de um recital de poemas seus, ditos por mim.

Estas breves notas soltas não têm outro propósito senão o de prestar agora uma afetuosa homenagem a esse outro excelente e longevo Manuel, Manuel Graña Etcheverry, o meu querido amigo Manolo. Descanse em paz.

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E mantendo o já  prometido neste Quincasblog, apresento hoje mais dois poetas de meu DVD Mãos Dadas: Gonçalves Dias e Fagundes Varela. Para ver e ouvir, clique nos links abaixo.

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A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

A MORTE DE MANOEL DE OLIVEIRA

     

                                          ou

                A GRATA LONGEVIDADE DOS MANOÉIS

Lauro Moreira

Captura de Tela 2015-04-03 às 14.56.18

Escrevo este post aqui de Lisboa, minha cidade cada vez mais do coração, para comentar com os leitores deste nosso Quincasblog, que o mundo perdeu ante-ontem não apenas um de seus grandes criadores, mas um dos artistas mais originais, e por isso mesmo, mais polêmicos de seu tempo. Original e polêmico como seu conterrâneo e contemporâneo Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira enriqueceu ao longo de mais de um século o panorama cultural português e marcou indelevelmente a cinematografia mundial. E como Pessoa, e como Camões, tardou muito a ser reconhecido em sua própria terra, só o sendo a partir do instante em que se consagrou em terras alheias, sobretudo em França. Já tinha mais de 70 anos e vários filmes, quando apresentou em Paris o seu Amor de Perdição, transcrição literal do romance de Camilo Castelo Branco. Com o imenso sucesso de público e sobretudo de crítica, começou finalmente a ser reconhecido em Portugal. Caso bem parecido com o do nosso Villa-Lobos…

Manoel de Oliveira morreu aos 106 anos. E aqui já abro um curto parêntese: não sei bem porque, mas tenho a ligeira impressão de que em geral os  Manuéis (tal como os Manoéis) tendem a durar muito e sabem aproveitar o tempo para esparzir talento e sabedoria neste mundo mofino. Vejamos: em novembro passado foi-se-nos, aos 97 anos, o Manoel dos passarinhos e das coisas simples e inefáveis, o nosso Poeta do Pantanal, Manoel de Barros; o outro imenso Manuel (Bandeira do Brasil, segundo Drummond), meu inesquecível amigo e padrinho de casamento, Poeta que tocou e toca fundo a corda mais sensível da alma brasileira, morreu jovem aos 82 anos, e com apenas um pulmão desde os vinte e poucos; mais um Manuel, é o Vaqueiro Manuel, que foi não apenas personagem de Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim), mas um ser vivente de carne e osso, figura lendária que tudo sabia da vida e do Sertão das Minas Gerais, e que só entregou os pontos aos 93 anos de labuta. Pois é isso, meus caros leitores, os meus Manuéis gostam, graças a Deus, de ficar para semente, e nós é que lucramos.

Duas frases recolhidas de declarações recentes de Manoel Cândido Pinto de Oliveira: Parece que Deus se esqueceu de mim e A morte é um descanso. Porém, mais que essa idade provecta –  que fazia dele o mais idoso cineasta em atividade no mundo, com o primeiro filme realizado ainda na fase do cinema mudo, em 1931, (Douro – Faina Fluvial) e o último em 2014 (O Velho do Restelo), apresentado por ele em Cannes, em agosto passado – espanta-nos sua incrível vitalidade , que o levou a realizar mais de 60 filmes, 32 deles em longa-metragem. E olhem que houve longas pausas impostas por obstáculos criados pelo Estado Novo, como entre 1942 e 1956 e entre 1965 e 1972. Entretanto, como se estivesse a recuperar o tempo perdido, produziu praticamente um filme por ano a partir de 1979. Como via o cinema como um aliado inseparável da literatura e do teatro, valeu-se de grandes nomes da literatura lusófona e universal, seja em adaptações – por vezes absolutamente literais, palavra por palavra, como em Amor de Perdição ou em Le Soulier de Satin, de Claudel – seja como inspiração (Eça de Queiróz,  Agustina Bessa-Luis, Flaubert, Dostoievski, Dante, Nietzsche, Camões, Cervantes) e lançou mão  de importantes nomes da cena portuguesa e estrangeira, como Luis Miguel Cintra, Leonor Silveira, Maria de Medeiros, Miguel Guilherme, Ricardo Trêpa, Lima Duarte (no papel do Pe. Antônio Vieira em Palavra e Utopia), Irene Papas, Michel Piccoli, John Malkovich, Marisa Paredes, Catherine Deneuve… A simples menção a essa plêiade de autores e atores evidencia a abrangência da obra de Oliveira e o alcance universal de suas reflexões.

Alceu de Amoroso Lima, nosso Tristão de Athayde, ao comentar o aparecimento surpreendente e desconcertante de Clarice Lispector na cena literária brasileira, afirmou que os escritores em geral escreviam  na clave de dó, enquanto Clarice o fazia na clave de fá… Ou seja, a leitura de seu texto exigia uma adaptação do leitor a essa nova forma de expressão. Assim, a meu ver, acontece com a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira – o que explica a resistência de boa parte do público. O cinema para ele nada tem a ver com passa-tempo, diversão ou coisa que o valha. A câmera é o seu instrumento de pensar e sentir o mundo, de refletir sobre os mistérios da vida e da morte, é o seu ágon da tragédia grega, onde ele, proto-agonista, lutador principal, debate as relações conflituosas com o destino. Todos os meus filmes mostram que, de facto, todos os homens entram em agonia no momento em que chegam ao mundo. Sou um grande lutador contra a morte. Passei a vida a observar a agonia, cada vez com mais experiência, com cada vez mais vontade de mostrá-la. Mas a morte acaba por chegar”, disse, em 1993. E tudo isso, através de uma estética e uma visão extremamente pessoais, com planos fixos e longuíssimos, personagens normalmente estáticos, exprimindo-se em empostação e postura não naturais, mas cênicas, teatrais, sublinhado tudo por uma música cuidadosamente selecionada e adrede composta, e em películas com duração de horas e horas. Em artigo publicado ontem no Diário de Notícias, o intelectual, ex-Ministro da Cultura e meu amigo José António Pinto Ribeiro, escreve com muita justeza que “Como acontece com todos os grandes mestres do cinema mundial, a obra de Oliveira é pessoal e, assim, ao mesmo tempo integradora e alheia a correntes e tendências, a modas e a classificações e apresenta-se, de forma quase sempre inesperada, muito à frente do seu tempo no que significa e no que intenta profetizar: enuncia sempre um olhar específico sobre a existência e sobre a criação artística.” Por outro lado, é o próprio realizador, em entrevista aos Cahiers de Cinéma, que reconhece “a influência de Buñel, Dreyer e de outros no meu cinema. Desde logo, o meu primeiro filme foi influenciado por Chaplin. Mas eu nunca tentei escondê-lo. É a minha cultura, a minha concepção da arte”.

A partida definitiva de uma pessoa com 106 anos de vida não pode naturalmente surpreender a ninguém, mas sempre entristece ver o apagar-se de uma chama que até há poucos dias ainda brilhava a ponto de acalentar planos para futuras criações, entre elas, a anunciada filmagem de um conto de Machado de Assis (A Igreja do Diabo). Portanto, fiquei triste ao tomar conhecimento dessa despedida, e diria mesmo que até surpreso, já que este Manoel me parecia realmente imorrível… Fiquei sabendo da notícia num almoço com os amigos portugueses Miguel Anacoreta e Mário Máximo, intelectuais atuantes e grandes incentivadores da Lusofonia. E, logo em seguida, comecei a recordar em silêncio as poucas vezes em que tive a oportunidade de estar pessoalmente com o nosso cineasta que acabava de partir. Poucas, porém marcantes para mim.

A primeira foi há exatos trinta anos, ou seja, em 1985, quando ambos éramos bastante mais jovens… Eu servia na Embaixada em Washington e fui ao Kennedy Center assistir, a convite do American Film Institute, à apresentação do filme Le Soulier de Satin, com a presença do realizador. O primeiro grande espanto: só o filme, sem contar os debates a seguir, duraria sete horas! Para ser mais preciso: seis horas e cinquenta minutos. Como cinéfilo desde a adolescência, só me lembrava de ter visto um filme mais longo, o Guerra e Humanidade  (ou A Condição Humana), o magnífico painel pacifista de Masaki Kobayashi (1959), com nove horas de duração, embora dividido em três partes, apresentado nos tempos gloriosos do extinto (claro!) Cine Paissandú, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Só que eram três sessões, em três dias consecutivos, para se ver o filme completo. Agora, não, iríamos ver o Le Soulier de Satin (O Sapato de Cetim) em um só dia, começando pelas dez da  manhã, saindo às treze, no intervalo para o almoço, e retomando às 15hs para enfrentar as quase quatro horas finais. Segundo surpreso, ao menos para mim, até então um ignorante completo em matéria de Manoel de Oliveira: o filme é rigorosamente a apresentação, em um pequeno palco de um pequeno teatro, da longuíssima peça de Paul Claudel, drama amoroso que se passa durante o Século de Ouro espanhol, com cenários de papel e os atores estáticos. Segundo anotações de João  Bénard da Costa, professor, crítico, programador e diretor por muitos anos da Cinemateca Portuguesa, falecido em 2009: «Quase sete horas de duração, planos geralmente longuíssimos, no limite material da duração do “magasin”, câmara normalmente imóvel, impondo um único ponto de vista sobre personagens que, também normalmente, estão estáticas e se falam sem se olhar e sem olhar para a câmara, fixando um algures indefinido e insituado; uma extensíssima sucessão de “recitativos” ou “ariais” em que uma só personagem (tantas vezes) se espraia em falas de intensa e tensa duração, um filme de um cineasta português, quase integralmente falado em francês e em que se descortina mal a possibilidade de qualquer artifício (dobragem ou legendagem) “traduzir” essa língua; um texto ideológico e esteticamente avesso a qualquer moda ou gosto dominante, são estas as aparências exteriores do “opus magnum” do cinema português».

Paul Claudel, escritor e diplomata francês, que serviu inclusive no Rio de Janeiro em 1916, irmão da excelente e infeliz escultora Camille Claudel, era um católico fervoroso, que se converteu um dia no interior de uma Igreja, ao ter “de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável.”  E acrescenta:  Acreditei com tal força, com tal adesão de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acasos de uma vida agitada, não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, tocá-la de leve que fosse.” Antes disso, em uma Ode a Dante, havia escrito:

“É humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la,

E é idiota a vanglória da carcaça de que somos inquilinos desconfortáveis.”  

Abri novo parêntese para essas citações porque tenho para mim que o também  homem de fé Manoel de Oliveira identificou-se de certo modo com esse espírito claudeliano. Ao final da apresentação do filme no Kennedy Center, respondendo a perguntas do público, o cineasta fez uma afirmação que me deixou boquiaberto, afirmação que só vim a compreender melhor ao conhecer  depois outras obras suas, e que poderia ser resumida no conceito de que  cinema é apenas teatro filmado. Mais tarde (1993), ele diria: “O cinema é um fantasma da vida que não nos deixa senão uma coisa sensível, concreta: as emoções”. E ainda: “Os rituais são muito importantes. Sem eles, a vida seria indecifrável. O cinema não filma senão isso, um conjunto de signos, de convenções. A vida é um enigma, não é legível. São os rituais que nos permitem lê-la”.

A segunda vez que vi Manoel de Oliveira  foi  já em Lisboa, em 2008, quando exercia o cargo de Embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. Após assistir a uma sessão de homenagem a Luis Miguel Cintra (por coincidência o mais constante ator dos filmes de Oliveira), estava na calçada em frente ao Instituto Camões, à Avenida da Liberdade, quando vejo aproximar-se dois senhores que desciam a rua, um deles sacudindo  airosamente uma bengala que lhe servia talvez para espantar mosquitos, caminhando lépido, a passos firmes, e conversando com animação. Quando passam por mim, dou-me conta de que se tratava do homem que acabava de celebrar seu centenário de vida, e que mal teve tempo para as homenagens que os amigos de sua adorada cidade do Porto queriam prestar-lhe, já que estava inteiramente envolvido em mais uma de suas produções anuais…Foi uma visão rápida, mas que me ficou naturalmente gravada na memória.

Em 2010 aposentei-me na Carreira Diplomática e retornei ao Brasil. Mas já no ano seguinte voltava a Lisboa para a primeira de várias temporadas, que espero poder repetir sempre que possível. Chegamos por coincidência no dia da abertura da segunda edição do FestIn, o Festival Itinerante de Cinema da Língua Portuguesa, a cuja criação em 2009/2010, havíamos emprestado o apoio da Missão do Brasil junto à CPLP. Naquela noite seria apresentado o novo filme de Manoel de Oliveira, O Estranho Caso de Angélica, antecedido de uma especial homenagem ao realizador, cujo nome passaria doravante a designar a sala principal do tradicional Cine São Jorje, sede do Festival. A primeira surpresa foi a de que estávamos, com as respectivas esposas, hospedados no mesmo hotel, de modo que nos encontramos na recepção minutos antes de nos dirigirmos ao evento. A segunda, que nem posso chamar de surpresa, foi a maneira fluente e descontraída com que pronunciou suas palavras de agradecimento, em meio a uma multidão entusiasmada que se apertava no espaçoso saguão do São Jorge. O filme, escrito e realizado por esse jovem homenageado de 103 anos, havia sido também escolhido para a abertura do segmento Un certain regard no Festival de Cannes de 2010. Foi essa a terceira e última vez que vi Manoel de Oliveira, ou seja, 26 anos após aquele encontro em Washington. E é bom não esquecer que depois de O Estranho Caso de Angélica, nosso amigo realizou ainda o longa O Gebo e a Sombra (2012) adaptado de uma peça de Raul Brandão, e o curta O Velho do Restelo, apresentado em Veneza e em mais uma dezena de Festivais de cinema mundo afora, e onde, segundo a sinopse, “Oliveira reúne num banco de praça do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela”.

VOANDO NO PASSADO          

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O jovem galã das moçoilas casadoiras

O campeåo do automobilismo

O campeåo do automobilismo

        Mas para que os queridos amigos e amigas do Quincasblog possam ter, se já não tem, um conhecimento adicional e  bastante surpreendente da vida incrível desse nosso personagem, deliciem-se com o que os jornais portugueses publicaram ontem sobre sua época de juventude:

Trapezista voador, piloto acrobático, campeão de salto à vara, galã sedutor… Muito antes da fama de realizador, já era conhecido por razões um tanto alheias à Sétima Arte. Nas revistas da época, por exemplo, a sua imagem de marca é a de um jovem de porte atlético e muito bem parecido, posando vestido com o fato que na altura era utilizado pelos praticantes de atletismo. E era tão bem parecido que, em 1929, a sua fotogenia já enchia páginas da revista “O Cinéfilo” e fazia suspirar os corações das jovens casadoiras.

De facto foi o desporto a primeira grande paixão de Manoel de Oliveira, que a ele se dedicou por inteiro quando tinha 20 anos. Mesmo mais tarde há imagens dele, de capacete de borracha, ao volante de um “Ford V8” de 3000 c.c, com o qual acabara de vencer, em 1937, o Circuito Internacional do Estoril.

No ano seguinte voltou às corridas de automóveis, desta vez no Brasil, tendo vencido o circuito da Gávea, no Rio de Janeiro”.

        Não é fantástico tudo isto?                     

Sempre o caso do profeta em sua terra...

Sempre o caso do profeta em sua terra…

                                 THE END

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DUAS ESTRELAS QUE SE APAGAM

                     Duas estrelas que se apagam

                                                                   Lauro Moreira

 

       O final do mês de janeiro deste 2015 foi triste para o Brasil, especialmente para a arte e a cultura. Em dois dias consecutivos, 27 e 28, morreram duas figuras admiradas pelos brasileiros, especialmente por aqueles que as conhecíamos de mais perto. Duas mulheres que marcaram sua passagem pela vida, marcando a vida de muitos que a conheceram. Embora eu não tivesse privado mais longamente com ambas, tive a sorte de conhecê-las em determinado momento e de conviver um pouco com cada uma delas. A primeira se chamava Vanja Orico, cantora, atriz e cineasta, e a segunda, Susana Moraes, atriz, cineasta e ativista cultural. Ambas filhas de escritores e diplomatas de carreira, ambas vítimas em certo momento da repressão da ditadura militar implantada no país em 1964. Ambas sucumbiram ao câncer.

 

 

Vanja, cantora

Vanja, cantora

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Vanja, a atriz

Vanja, a atriz

A PRIMEIRA ESTRELA

 

Sobre a primeira, os jornais do dia noticiaram que “a cantora, atriz e cineasta Vanja Orico, nome artístico de Evangelina Orico, morreu nesta quarta-feira, 28, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, vítima de complicações decorrentes de câncer no intestino. Ela também sofria de mal de Alzheimer e estava internada no Hospital Copa D’Or, em Copacabana (zona sul), desde o dia 11.  Vanja, filha do escritor Osvaldo Orico (1900-1981), tornou-se famosa em 1953, quando cantou “Mulher Rendeira” no filme “O Cangaceiro”, premiado no Festival de Cannes e sucesso mundial. Depois atuou em outros filmes do chamado Ciclo do Cangaço, passando a ser considerada musa do gênero. Além de “O Cangaceiro”, participou de “Lampião, o rei do cangaço” (1964), “Cangaceiros de Lampião” (1967) e “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro” (1972). O início de sua carreira ocorreu quando Vanja morava na Itália. Ela foi descoberta pelos cineastas Alberto Lattuada e Federico Fellini quando atuava em Roma no show chamado Macumba, patrocinado pela RAI (Rádio e TV Italiana), em 1952.”

              Caberia apenas acrescentar que seu pai, o paraense Osvaldo Orico, foi membro da Academia Brasileira de Letras desde os 36 anos, e que como diplomata, serviu em postos como Santiago, Buenos Aires, Beirute e Haia. Ou seja, como filha de diplomata, vivendo boa parte de sua adolescência e juventude no exterior, Vanja começa a exercitar seu talento de cantora junto a plateias estrangeiras, o que explica sua descoberta por Fellini e Lattuada, descoberta que a levou a atuar, aos vinte anos, no filme Luci del Varietá (Mulheres e Luzes) dirigido por ambos em 1950, e no qual ela canta o tema folclórico Meu limão, meu limoeiro. Mas a participação que lhe deu maior destaque em toda sua longa e prolífica vida no cinema, onde atuou em mais de vinte filmes, foi sem dúvida em O Cangaceiro (1953), produzido pela famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiróz, e que veio ser um dos maiores sucessos do cinema brasileiro até hoje.

        Vim a conhecer Vanja Orico pessoalmente nos anos de 1990, na Espanha, em circunstâncias curiosas, e nosso convívio, embora extremamente agradável, não chegou a ultrapassar o prazo de uma semana. Na época, entre início de 91 e fins de 94, eu ocupava o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona, cidade também de meus encantos (ao lado de Lisboa) e que vivia seus melhores momentos, preparando-se, remodelando-se e se reurbanizando para a apresentação dos Jogos Olímpicos de 92 – um estrondoso sucesso. Logo que assumi o posto, tratei de valer-me dessas circunstâncias muito especiais, gestando um ambicioso programa de divulgação cultural do Brasil. Para começar, fundamos o Clube da Música Brasileira de Barcelona, instituição que atraíu logo a atenção dos catalães e atuou, com grande dinamismo, ao longo de vários anos, mesmo após minha saída do posto.

        Ao cabo de pouco tempo, no entanto, fui me dando conta de que o interesse e o entusiasmo do público local pela música brasileira não escondia uma dose considerável de desconhecimento, evidenciado numa confusão de gêneros, épocas e estilos diferentes. Isso levou-me a escrever um espetáculo intitulado Un Viaje através de la Música de Brasil, em que procurava traçar um largo panorama de nossa música, de seus primódios no século dezenove ao final do século vinte. Ao longo de nove blocos cronológicos, eram então apresentadas algumas das melhores e mais representativas canções de cada época – antecedido cada bloco de uma breve narração, em que se contextualizava e se explicava brevemente cada uma dessas várias etapas. Ou seja, tratava-se de um show sui-generis, onde se ouvia a melhor música do Brasil e se aprendia muito sobre ela e o país que a produzia. Para apresentar o espetáculo, tive a sorte de contar com uma cantora e alguns músicos brasileiros de qualidade que já viviam em Barcelona. Com eles criamos o Grupo Som Brasil (que na língua catalã significa Somos Brasil), e ao longo de dois anos nos apresentamos com grande sucesso em 22 cidades da região, além de Barcelona. Apresso-me a acrescentar, para não gerar uma possível confusão por parte de muita gente e em muitos países, que esse Som Brasil foi, sim, a primeira encarnação, digamos, do extraordinário Grupo SOLO BRASIL (outro trocadilho), que vim a criar mais tarde, em fins de 1999, quando exercia a direção do Departamento Cultural do Itamaraty. O SOLO BRASIL continua vivo, após tantos anos e tanto sucesso logrado em 20 países de quatro continentes, e em mais de 40 cidades brasileiras, com um CD gravado ao vivo em 2003 no Brasil e um DVD filmado no Teatro da Trindade de Lisboa, em uma das 19 apresentações do grupo em Portugal, em dezembro de 2009.

         Deixemos porém para outro momento o relato da bela trajetória do SOLO BRASIL, projeto de que permito orgulhar bastante, confesso. Mas afinal por que essa longa introdução para falarmos de nosso pranteado personagem de hoje, Vanja Orico? Apenas porque certo dia em Barcelona, em 1993, recebi um telefonema seu de Paris, onde residia com o marido, o engenheiro francês Adolfo Rosenthal, e que ao ouvir falar dessa efervecência cultural do Consulado do Brasil na Catalunha, consultava-me sobre a possibilidade de organizarmos um espetáculo com sua participação. Gostei da ideia e pusémo-nos a trabalhar na montagem do show, contando para isso com o já experimentado Grupo Som Brasil.

        Ao levar a cantora em visita à Rádio Nacional de Espanha, logo de sua chegada a Barcelona, não me surpreendeu o fato de que a emissora contasse em sua discoteca com exemplares de vários de seus long-plays gravados na Europa e no Brasil. É bom lembrar que por esse tempo no Brasil só os menos jovens como eu, digamos, conheciam e se lembravam da atriz de O Cangaceiro, e poucos sabiam de sua fama em outros países, sobretudo na Europa. No espetáculo que me coube dirigir, a pedido da própria intérprete, em que ela apresentava várias peças de seu repertório, ficou para sempre em minha lembrança, e na do público que lotava o Teatro Casal del Metge, e na da própria Vanja, o momento em que ela entrava no palco pela primeira vez: eu havia tido a feliz ideia de fazer projetar no telão ao fundo uma sequência de O Cangaceiro, justamente aquela em que o Capitão Galdino, o chefe, está com todo seu bando, incluindo as mulheres, em torno de uma fogueira ao ar livre, numa noite de descontração. A certa altura, a jovem interpretada por Vanja Orico, magoada pela rejeição de seu homem, que a trocara por outra, começa a cantar em tom plangente a toada Sodade, meu bem, sodade. Nesse exato momento, a própria Vanja Orico entra em cena e continua a canção ao vivo, acompanhada agora pelos músicos no palco, enquanto as imagens da tela vão se desvanecendo. Pura emoção : da tela ao palco mediavam 40 anos… O show contagiou a todos, inclusive a intérprete, e o sucesso foi enorme.

          Nunca mais voltei a ver minha cantora. E sua partida agora me despertou para esses momentos de um passado que, embora fugaz, ficaram e ficarão para sempre em minha memória afetiva.

 

 A SEGUNDA ESTRELA       

Susana Moraes, atriz

Susana Moraes, atriz

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       A segunda estrela que se apagou, como disse, foi Susana Moraes, atriz e cineasta, com quem tive um convívio menos breve, em circunstâncias muito diferentes, mas igualmente agradável. Nos anos da ditadura militar, a mão pesada da censura, através da famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) alcançava duramente o teatro, o cinema, a televisão, a literatura, a imprensa, a música. Os protestos generalizados acabaram fazendo com que, no Governo do General Figueiredo, fosse criado o Conselho Superior de Censura (CSC), com vistas a reduzir o poder dos censores e abrir um caminho auxiliar para uma pretendida abertura política, “lenta e gradual”, como queria o Governo.

        Nos anos de 86 e 87, já com a democracia restaurada, e ocupando eu a Chefia da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty em Brasília, fui designado representante do Ministério junto a esse Conselho Superior, que funcionava no âmbito do Ministério da Justiça. Cheguei mesmo, em um certo período, a presidi-lo, e tive como colegas algumas figuras de relevo de várias áreas da sociedade civil – como o poeta e acadêmico Ledo Ivo, a atriz e então Deputada Beth Mendes, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, meu amigo dos tempos do Serviço Militar, o ator Carlos Miranda, companheiro dos tempos do Festival de Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno – representando órgãos como o Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal da Educação, o Instituto Nacional de Artes Cênicas, a EMBRAFILME, a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, etc. Foi nessa época, 1987, que o Conselho Superior de Censura começou a trabalhar, junto aos Constituintes eleitos para a elaborar a Constituição de 88, no projeto de transformação do órgão em Conselho da Liberdade de Criação e Expressão. E foi também nessa época que conheci minha colega de Conselho e depois minha amiga Susana Moraes, representante da área de cinema.

          O Conselho se reunia regularmente em Brasília, contando sempre com o entusiasmo de seus membros na benemérita missão de atenuar e depois extinguir a censura prévia no país, o que se conseguiu justamente através da entrada em vigor da nova Carta Magna. Meu convívio com essa mulher bonita, simpática, inteligente, culta e rebelde, limitou-se a pouco mais que esses contatos regulares em Brasília e, posteriormente, a um ou outro encontro fortuito e em ocasiões diversas, sobretudo no Rio de Janeiro. Mas era sempre um enorme prazer estar com ela, com essa filha primogênita e querida do poetinha e grande poeta Vinicius de Moraes. Dito isso, gostaria de concluir essas lembranças com duas tocantes notas de pesar divulgadas no dia do desaparecimento de minha amiga, uma por sua companheira ao longo de vinte e seis anos, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, e a segunda por sua família de sangue:

 “Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária, e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida”,

 “Perdemos nossa matriarca, que como filha primogênita adorada de Vinicius e idolatrada por todos da família, se fez de guia para nos ajudar a suportar e cuidar com responsabilidade da obra do poeta. Linda, culta, inteligente, forte, Susana era nosso esteio, e nos deixa o melhor dos legados, um amor inesquecível e um grande exemplo de mulher”.

 

      

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