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ROSA DO SERTÃO

ROSA DO SERTÃO

Lauro Moreira

“Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão.”

“(…) nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.”

“(…) Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, (…). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua.” (JGR)

(…)

(…) “João era fabulista fabuloso fábula? /Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? /(…) “Projetava na gravatinha a quinta face das coisas / inenarrável narrada? /Um estranho chamado João /para disfarçar, para farçar / o que não ousamos compreender?” /(…) João era tudo? / tudo escondido, florindo / como flor é flor, mesmo não semeada? /(…) Por que João sorria / se lhe perguntavam / que mistério é esse? /E propondo desenhos figurava /menos a resposta / que outra questão ao perguntante? /(…) Ficamos sem saber o que era João / e se João existiu / de se pegar.

(Carlos Drummond de Andrade: “Um chamado João”)

 

        Os generosos leitores deste Quincasblog – ultimamente aliás um tanto preguiçoso – já devem ter percebido que ao longo de minha vida, sobretudo quando jovem, fui premiado com a ventura de conhecer pessoalmente e em muitos casos conviver regularmente com algumas figuras admiráveis da literatura brasileira do século vinte. Personalidades como Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Meyer, Cecília Meireles, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Hollanda, Marly de Oliveira, Nélida Piñon, Guimarães Rosa e inúmeros mais, enriqueceram-me a vida desde a juventude, não apenas por suas obras como também por sua honrosa amizade. De certo modo, e como já disse antes, o relacionamento com boa parte desses escritores se deveu ao fato de eu ter sido casado por quase vinte anos com a poeta Marly de Oliveira, admirada aliás por todos eles. A grande exceção no caso foi o meu conhecimento e depois a minha amizade com João Guimarães Rosa, sem dúvida o mais importante escritor da língua portuguesa no Brasil no século vinte. E é sobre o autor de Sagarana que eu gostaria de conversar hoje com minhas amigas e amigos do Quincas.

                                                                                                                                                                      

        O que lhes prometo de saída é não tentar fazer um exercício de hermenêutica de Grande Sertão: Veredas – essa monumental epopeia sertaneja, imantada ao mesmo tempo do mais puro lirismo – ou de qualquer outra obra do autor, não só por faltar-me o instrumental crítico para a aventura, como sobretudo por não ser este o propósito de nossa conversa aqui. Ao contrário, quero apenas relatar-lhes alguns episódios nascidos de um inesquecível convívio de poucos anos, convívio que nasce antes de meu ingresso no Itamaraty em 1964, onde ele, Embaixador de Carreira, dirigia a Divisão de Fronteiras. Na verdade, seu reconhecimento como escritor absolutamente genial – este é o adjetivo que lhe cabe – já era enorme em todo o país, com a publicação de Sagarana, em 1946, e especialmente , de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos editados dez anos mais tarde. E quanto mais passava o tempo, mais interesse despertava essa obra, tanto junto à crítica especializada e ao mundo acadêmico, quanto junto aos leitores brasileiros e estrangeiros, com traduções que se sucediam, em inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, catalão, quase sempre com a supervisão direta do autor poliglota, que dominava oito línguas e lia em seis outras. Suas duas últimas obras surgiram em 1967: Primeiras Estórias e Tutaméia (Terceiras Estórias), esta, uma coletânea de 43 contos curtos, resultado de uma colaboração regular para o jornal Pulso, editado pela classe médica (como sabemos, Rosa formou-se em medicina e clinicou algum tempo no interior de Minas, antes de ingressar na carreira diplomática).                                                                                                                                         

        Ao final de uma tarde de domingo, 19 de novembro desse mesmo ano de 1967, João Guimarães Rosa, no ápice de sua carreira de ficcionista e apenas três dias após sua longamente adiada posse na Academia Brasileira de Letras, morria de enfarto em seu apartamento em Copacabana, aos 59 anos de idade. Nascera portanto em 1908, justamente no ano da morte de Machado de Assis, o primeiro gênio absoluto de nossas letras, como que chegando ao mundo para recolher o bastão das mãos do criador de Capitu. Esse belo capricho do destino impressiona-me até hoje.

 

Bruna Lombardi (Diadorim) e Tony Ramos (Riobaldo) na TV

Rosa nas telas

        Há pouco mais de um mês, e com o deslumbramento de sempre, concluí a terceira ou quarta leitura de Grande Sertão:Veredas. Coincidentemente, a televisão Globo iniciava a reapresentação da série adaptada do romance, realizada em 1985 e desde então não mais mostrada. Trata-se de uma das melhores e mais ambiciosas realizações da televisão brasileira, uma produção cuidada, digna, sensível e respeitosa de uma obra literária monumental e complexa, sustentada por um elenco admirável, com roteiro final e direção do saudoso Walter Avancini. Aliás ocorre-me agora que o talento de Avancini foi igualmente responsável, em

1981, pela memorável transposição para a tv de outro clássico da literatura brasileira, o celebrado Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Várias outras estórias de GR foram também adaptadas para o cinema, cabendo mencionar especialmente, a obra-prima A Hora e a Vez de Augusto Matraga, dirigida por Roberto Santos, a única das adaptações aprovada diretamente pelo próprio Rosa. No extremo oposto, não para lembrar mas de preferência para esquecer, está a versão hípica do Grande Sertão (prometeram-me uma versão épica e me trouxeram uma versão hípica, onde só têm cavalos, indignou-se o escritor), dirigida pelos irmãos cineastas Renato e Geraldo Santos Pereira, lançada em 1965. Uma lamentável adaptação, que resultou num dos desastres mais rotundos do cinema brasileiro, e num verdadeiro massacre da obra original.

 

Cartaz da peça

JGR e JK : Posse na ABL em 1967

Rosa no palco

        No já publicado terceiro capítulo de nossa série intitulada Andanças pelo Cultural, trato de episódios de minha vida de estudante no Rio de Janeiro, com especial destaque para as atuações na área do teatro amador, no período anterior ao ingresso na Universidade. Pois ao entrar para a PUC/Rio, em 1958, mergulhei como nunca nas aventuras do palco, começando por fundar o TEPUC – Teatro Experimental da Pontifícia Universidade Católica, e depois encenando nada menos de dez peças em três anos de excitante atividade. Confesso que se não alcancei a fama de um artista global (!!!), acabei por ficar bem conhecidinho na limitada arena teatral do Rio daquela época, em virtude da generosa cobertura que nos davam os jornais, as rádios e por vezes a televisão. E nesse contexto, o que mais talvez tenha ajudado foi minha escolha pelo jornal Diário de Notícias para o Quadro de Honra de Universitário do Ano na área de Teatro, com direito a solene cerimônia no salão nobre do Ministério da Educação e Cultura, quando recebi medalha e diploma das mãos consagradas de Mme. Henriette Morineau, ex-atriz da Comédie Française, que

desde os anos 40 pontificava nas telas e nos palcos brasileiros.

Cobertura da imprensa carioca (JB)

Foi nesse período que me chegou o convite do jornalista e escritor Léo Gilson Ribeiro – recém-chegado de uma temporada de onze anos de estudos de teatro e literatura na Alemanha, Itália e Estados Unidos – para participar da montagem de uma adaptação teatral que ele, inteiramente arrebatado pelo gênio de Guimarães Rosa, havia feito de um dos contos de Sagarana, intitulado Traços biográficos de Lalino Salãthiel, ou A volta do marido pródigo. Caberia a mim a responsabilidade de encarnar o tal marido pródigo… Seria a primeira montagem teatral de um texto de Rosa, bem diferente do que se passou mais tarde, quando vários de seus contos tem sido encenados, alguns com grande sucesso, como o fantástico Meu Tio o Iauaretê, um diálogo monologado (a mesma técnica narrativa de GS:V) que representa “o estágio mais avançado de seu experimento com a prosa”, na opinião de Haroldo de Campos. E por grande coincidência, acabo de ler hoje nos jornais do Rio que “o livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e suas inúmeras possibilidades de análise, serviram de inspiração para a diretora Bia Lessa, que adaptou o texto para o teatro. O espetáculo, homônimo, entra em cartaz neste domingo (28 fevereiro), no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). Ele não será encenado, no entanto, em um do teatros do espaço cultural, e sim na rotunda, dentro de uma instalação criada e montada exclusivamente para a peça.” Ou seja, 62 anos após sua publicação em livro, chegou ‘a hora e a vez’ de o romance colossal de Guimarães Rosa subir ao palco (ou à rotunda…).

 

Lalino e Maria Rita (eu e Maria Lúcia Carvalho)

        Quanto aos detalhes desta nossa grande aventura do Marido Pródigo, com as peripécias da encenação, a generosa cobertura da imprensa (criando inclusive uma expectativa quase impossível de se atender), os incidentes na noite de estreia no Teatro da Maison de France, a presença de toda a numerosa e impiedosa crítica teatral carioca da época, que não perdoou as deficiências da adaptação e da montagem, a presença na plateia de personalidades como Cecília Meireles, Clarice Lispector e a Senhora Aracy

Guimarães Rosa (representando o marido, que sempre evitava frequentar eventos de grande afluência pública), a pré-estreia off- Broadway em Nova Friburgo, a posterior apresentação em Belo Horizonte, etc. – tudo isso deixaremos para o próximo capítulo das Andanças Culturais, já que aqui falaremos apenas dos contatos pessoais com o gênio criador de Riobaldo e Diadorim.

Convidado pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio, Léo Gilson Ribeiro, que havia inclusive acompanhado em Milão a montagem de alguns espetáculos do grande diretor Giorgio Strehler, no Piccolo Teatro, criou um grupo amador com o objetivo de apresentar alternadamente peças brasileiras e italianas, iniciando com a adaptação do mencionado conto de Guimarães Rosa. Mais tarde, porém, deixou o Instituto e acabou criando a Equipe de Teatro do Rio de Janeiro para concluir a empreitada. Com total dedicação, suprindo em parte sua quase nenhuma experiência prática, foi ele aos poucos formando o elenco e selecionando colaboradores de talento nas diferente áreas, como o jovem cenógrafo José Luiz Ripper, os figurinistas Dirceu e Marie Louise Nery, e a respeitada musicóloga e compositora Geni Marcondes, discípula de Hans-Joachim Koellreutter, o grande compositor, maestro, educador e esteta alemão, que viera para o Brasil nos anos de 1930, exercendo papel decisivo na renovação da cena musical do país. Para apresentar pessoalmente o projeto ao Embaixador Guimarães Rosa, tive a sorte de acompanhar Léo Gilson em uma ida ao Palácio do Itamaraty, na Rua Marechal Floriano, Rua Larga para os íntimos. Foi quando avistei o criador de Augusto Matraga pela primeira vez: os olhos miúdos e vivos detrás dos grossos óculos de tartaruga, os ombros levantados, a gravatinha borboleta no pescoço empinado, uma prosódia diferente, um sentido de humor natural e uma grande cordialidade.

A peça em Belo Horizonte

        Com o avanço dos ensaios da peça, realizados normalmente no palco do Colégio Santo Inácio (afinal eu continuava sendo de casa, embora já estivesse há algum tempo na Universidade),

decidimos convidar o autor para assistir a um deles. Coube-me a satisfação de buscá-lo de carro em sua residência em Copacabana, na Rua Francisco Otaviano. Ao retornarmos, disse-lhe que lamentava muito o fato de o ensaio justamente naquela noite não ter saído a contento, especialmente no tocante ao meu desempenho. E ele emendou logo: Mas o que é isso? Achei ótimo! E quer saber de uma coisa? O seu Lalino está melhor que o meu!… Rimos muito, e a partir daquele dia, para ele fiquei sendo sempre o Lalino.

 

Palácio do Itamaraty no Rio
Lago dos Cisnes (1965)

 

 

 

Com o colega Guimarães Rosa

        Em 18 de dezembro de 1962 concluí o curso de Direito, e três dias depois iniciei a maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, todos amigos, entre eles o nosso magnífico poeta Francisco Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim. Logo em nosso primeiro dia de trabalho, quando a turma incorporada foi convidada a cumprimentar os Chefes da Casa, visitamos também, claro, o Diretor da Divisão de Fronteiras, meu conhecido de outros carnavais… À saída, o Embaixador Guimarães Rosa me dá um caloroso abraço e pergunta em que setor eu estava lotado. Respondi-lhe que na Divisão da Europa Oriental. Ele olhou-me fixo e, entre sério e divertido, exclamou: Sim senhor, hein? Que maravilha: Goiás e Europa Oriental!… Essa e outras várias passagens em nossos encontros frequentes a partir de então, davam-me a sensação de que no âmago, para além de qualquer outra consideração, Rosa via em mim um conterrâneo goiano de seu sertão, seu sertão físico, geográfico, mineiro-goiano, mas também místico e mítico. Afinidade de uma cultura atávica, de uma herança comum? Lembrando Afonso Arinos, eu não era das Gerais, mas dos Gerais. E não era fácil encontrar, no ambiente urbano e cosmopolita da Carreira, colegas que tivessem essa extração, essa procedência que o deixava tão à vontade, que ele tanto prezava. Sua confissão ao crítico e tradutor Gunter Lorenz diz tudo: Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas.

Note-se que no Itamaraty daqueles idos de 1960, a quase totalidade dos diplomatas era de cariocas ou paulistas. De Goiás, havia apenas três, entre eles o meu amigo William Agel de Mello, lotado no Gabinete do Embaixador Rosa, e eu. Removido mais tarde para Barcelona, William Agel, também escritor, manteve assídua e divertida correspondência epistolar com seu ex-Chefe e amigo, reunida mais tarde no livro “João Guimarães Rosas: Cartas a William Agel de Mello”, onde se lêem passagens divertidas como esta: “RESSUSCITOU MANÉ D’EBRÉIA [personagem de Epopeia dos Sertões, livro do meu conterrâneo]. Já telefonei ao Lauro (Lalino Salãthiel) comunicando a fausta ressureicionice!

Ou esta outra:

Goiás, terra trefasta, enfiada, sem nenúfares,

Goiás, comprido caranguejo em-pé, carajamente!

Goiás atrás,Goiás pajaz, Goiás à frente,

Goiás de Lauro, Goiás de Mauro (…

                                                                                                               

        Um exemplo hilário de exercício de virtuosismo linguístico está em uma outra correspondência de Rosa, desta vez respondendo ao seu colega Jorge Cabral, que servia no Consulado em Frankfurt, e ele no de Hamburgo. São cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia então debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial. A longa missiva de Rosa compunha-se exclusivamente de palavras começadas pela letra c (Caro colega Cabral..) e acabou mais tarde publicada na imprensa carioca. Os leitores deste nosso Quincasblog possivelmente se lembrarão do post que publiquei em novembro de 2014, sob o título “Apenas um erro de Cabral”, em que trato desse assunto em detalhe, incluindo o próprio texto de JGR, e comento um equívoco primário de uma matéria publicada com grande destaque pelo Jornal do Brasil em fevereiro 1987, segunda a qual o correspondente J. Cabral não seria outro senão o nosso também colega João Cabral de Melo Neto, que a essas alturas nem sequer havia ingressado na Carreira diplomática… Os eventuais interessados em ler ou reler o divertido post poderão fazê-lo aqui no Quincas pelo título ou pela data da matéria.

 

Convívio amiudado

Meu sempre lembrado convívio regular com o amigo Guimarães Rosa foi breve no tempo – do início de 1965 até sua morte em fins de 1967 – mas intenso, divertido, prazeroso e muitíssimo proveitoso para mim. E cada vez que me punha ao seu lado, usufruindo daquela conversa sempre interessante, informal, descontraída, não perdia jamais a consciência de que eu estava diante de um gênio absoluto das letras, convivendo portanto com a própria posteridade. Aliás, lembro-me bem de uma tarde em que ele me mostrou um exemplar do jornal Die Welt, que acabara de receber de Hamburgo, com a resenha crítica sobre Grande Sertão: Veredas, recém-publicado com grande sucesso na Alemanha , escrita por um dos mais respeitados ensaístas do país, que afirmava textualmente tratar-se de um autor que, no século vinte, só encontraria paralelo em Joyce, Proust, Thomas Mann e Faulkner. Ao traduzir para mim alguns trechos dessa crítica, Rosa interrompeu emocionado: Lauro, você sabe que isso me assusta?!

Grande Sertão:Veredas – a Obra do século

Muito mais assustado fiquei eu, entretanto, numa certa manhã em que ele me pediu para dar um pulo ao seu Gabinete, e perguntando se eu dispunha de algum tempo, entregou-me logo

uma daquelas pastas castanhas de trabalho do Itamaraty, contendo uma boa quantidade de páginas datilografadas, que eu julguei, no primeiro momento, tratar-se de algum documento oficial. Quando abri, topei no centro da primeira página com a palavra TUTAMEIA, em caixa alta. Respirei fundo, mas fui logo negando o que ele me pedia: ler e opinar ali, em uma mesa de seu Gabinete, os originais inéditos de seu próximo livro, que levava o subtítulo de Terceiras Estórias. Senti-me de fato incomodado com aquele pedido, ao mesmo tempo que extremamente lisonjeado com esse gesto de confiança e amizade. Sem ter como recusar suas instâncias, acabei por ceder e passar o resto do dia debruçado sobre aqueles originais, tão diferentes de suas obras anteriores, e ainda mais, com a solene promessa de marcar tudo que eu não aprovasse , como exigia ele. Era evidente para mim, uma vez mais, que não se tratava, claro, de submeter sua nova obra inédita a meu pouco especializado juízo crítico, mas simplesmente de uma homenagem ao meu lastro atávico de “goianidade” sertaneja…

                                                                             

Dedicatória do Grande Sertão:Veredas

Em nossos bate-papos tratávamos de tudo um pouco. De literatura, mineirices, goianidades, diplomacia, filosofia, religião, etc. Cheguei a anotar regularmente muito do que ele me dizia, os casos que contava, os livros que comentava, mas infelizmente acabei perdendo tudo em meio a tanta mudança de casa e de país. Falava-me agora sobre o Bhagavad Gita ou sobre Lobsang Rampa e seu livro A terceira visão (“a realidade está no plano espiritual”) para em seguida comentar com admiração e entusiasmo os contos de Ermos e Gerais, do goiano Bernardo Élis, obra publicada em 1945 e saudada por Monteiro Lobato. Certo dia, abriu a gaveta de sua mesa de trabalho, apanhou uma página de um exemplar do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de meados do século dezenove e mostrou-me um anúncio em destaque que dizia mais ou menos o seguinte: Vende-se uma negra de 22 anos. Boa saúde, bons dentes. Tantos mil réis. Acompanha-a uma cria. Foi a primeira vez que tive consciência exata do horror da escravidão, diria mesmo que mais forte que aquele que sentia ao ler os poemas de

Castro Alves, como A Cruz da Estrada ou O navio Negreiro. Fiquei chocado, como chocado estava meu amigo. Outra vez, disse-me que acabara de reler encantado a obra poética de Marly de Oliveira, acrescentando: Há muita gente jovem e boa fazendo poesia hoje no Brasil, mas em geral são vozes um pouco indistintas, muito parecidas; Marly é diferente, é uma voz original, única, uma poesia do pensamento. E arrematava com graça: Ela me parece poeta de país desenvolvido!…

 

        Passados tantos anos, não creio estar cometendo uma inconfidência muito grave ao recordar aqui uma outra conversa que tivemos, desta vez sobre um poeta e diplomata, também chamado João (aquele que, segundo se dizia, não gostava de música…). Estávamos falando sobre poesia, quando Rosa de repente me pergunta: Você gosta da poesia de João Cabral? Respondi que sim, e mais, que a estética cabralina tinha a meu ver um papel importante como antídoto à retórica derramada de que padece às vezes a nossa poesia. Uma ‘educação pela pedra’ só poderia fazer bem… Ele continuou: “O problema é que o João Cabral me fez um dia justamente essa pergunta! E eu disse logo: mas meu caro, que pergunta é essa, você é um dos maiores poetas do Brasil! E ele insistiu: Rosa, eu estou perguntando outra coisa, quero saber se você gosta da minha poesia. E eu não tive coragem de dizer que gostava! Foi muito desagradável. Aliás, penso que aquela dor de cabeça diária do João vem de seu poema Uma faca só lâmina… A assepsia buscada pelo Cabral para sua poética é tão rigorosa que chega a matar até os germens da criatividade…” Notem que Rosa começou escrevendo e publicando poesia (Magma), depois é que passou para a ficção. E é dele esta afirmação feita em uma entrevista em 1965: “Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana. “

 

        Observações como essas, no entanto, não devem constituir surpresa para leitores e admiradores dessas duas grandes figuras, cujas obras estão nas antípodas, sob qualquer ângulo de apreciação. De um lado, o barroquismo arrebatado e arrebatador de um encantador de palavras, do re-criador de uma linguagem nova e de uma poesia própria para exprimir seu mundo mítico; de outro, a educação pela pedra, a busca incessante do despojamento total, do osso, da palavra seca, da expressão exata, “sem perfumar sua flor/sem poetizar seu poema”. Feliz da língua que consegue abrigar dois escritores coetâneos tão diferentes e tão extraordinários.

 

No tocante a essa questão da linguagem e da língua, duas citações extraídas da famosa entrevista de JGR a Gunter Lorenz em Gênova (Diálogos com Guimarães Rosa,1965) merecem destaque especial:

 

(…) o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (…) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.”

“...sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.”

 

        A paixão de JGR pela questão da língua era tal, que um dia me contou que um conhecido seu havia feito uma pesquisa curiosa, ao contar e cotejar o número de consoantes encontradas em

páginas de Jorge Amado e em textos seus. Descobriu com surpresa que em Rosa havia sempre mais consoantes que no autor de Gabriela. Explicação de Rosa: é natural, pois Jorge é da Bahia, da costa atlântica, onde predominou a língua tupi, muito vocálica, ao passo que ele, Rosa, vinha do interior do país, onde o idioma principal era do grupo Gê, ou Tapuia, língua muito mais consonantal que a dos tupis. Simples assim… E acrescentava que além disso o tupi é mais suave e mais descritivo, citando como exemplo, entre outras, a expressão pori-pori ema, para descrever o-salto-o-salto da ema, designação dos tupis para a Serra da Borborema.

 

Fernando Pessoa (por Almada Negreiros)

Uma obra cibernética?

Um dos momentos mais interessantes de minhas conversas com JGR foi quando lhe disse que, à parte a genialidade presente na criação de Grande Sertão:Veredas, a obra me impressionava também pelo número de personagens que se entre-cruzavam em mil estórias diferentes, tudo mesclado com frequentes observações sobre vida, religião, fauna e flora, num incrível emaranhado de mais de 570 páginas, sem pausa, sem respiro, sem capítulos para dividi-las, dando ao leitor (ao menos a mim) a sensação de estar diante de uma obra cibernética, escrita de um só jato, sem interrupção. E então perguntei-lhe como tinha sido o seu processo de criação. Explicou-me que foi num período de férias em casa, ao escrever mais um conto para Corpo de Baile, começou a sentir-se estranhamente tomado por um impulso que o levava a escrever sem cessar, por horas a fio, deitado no tapete da sala, num processo que parecia meio mediúnico e que ele não entendia bem. Ao ouvir aquilo, lembrei-me logo da famosa carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, (meses antes da morte do Poeta), em que explicava a origem de seus heterônimos. Rosa não sabia da existência da carta, mas era impressionante a similitude das situações. Basta lembrar esse trecho:

“(…) Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe- me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.”

Curioso que só anos depois tomei conhecimento do teor de uma carta em que Rosa confessava ao seu colega, amigo e compadre, Embaixador e mais tarde Ministro das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira:“Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado – só lucidez e angústia.”

 

Aracy de Carvalho, Senhora Guimarães Rosa

A morte pressentida

        Eu me pergunto sempre se esse espírito sem corpo não teria sido o responsável pelo lúcido e angustiado pressentimento da chegada da morte, que durante pelo menos quatro anos perseguiu João Guimarães Rosa. Seu desaparecimento repentino e prematuro, no auge de uma vida que não chegaria aos 60 anos, está envolto em mistério, ao menos para os que desconheciam certos estranhos antecedentes. Em 1957 Rosa candidata-se à Academia Brasileira de Letras, um acalentado sonho de muitos anos, mas não alcança os votos necessários para eleger-se. Em 1963, após uma empenhada campanha feita pessoalmente junto a cada Acadêmico, é aceito por unanimidade. Está exultante, mas inexplicavelmente recusa-se a fixar uma data para sua posse. A insistência natural de seus pares aumenta-lhe a angústia e obriga-o a inventar desculpas aparentemente inconsistentes, como excesso de trabalho no Ministério ou algum problema de saúde. Em 1966, seu amigo e

tradutor Curt Meyer-Clason, que dois anos antes havia traduzido Grande Sertão:Veredas para o alemão sob a supervisão direta do autor, avisa-lhe que está prestes a concluir a tradução do restante de sua obra, o que lhe traz grande alegria.

 

Talvez mais animado com o sucesso de sua obra no exterior, Rosa marca finalmente a data da posse na ABL: 16 de novembro, uma quinta-feira, só que do ano seguinte! A angústia aumenta a cada dia. Seus desabafos com amigos chegados eram sombrios. A alguns dizia que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. Augusto Meyer nota-lhe um “terror pueril nos olhos” e a Otto Lara Rezende, Rosa declara que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. E durante os ensaios protocolares da véspera, confidenciou: “A Academia é demais para mim. Tenho medo de falhar, de chorar, não suportar a emoção”. Eu, de minha parte, cheguei a ouvir uma frase dita por Marly de Oliveira que nunca mais esqueci: a obra do Rosa vale por toda uma Academia, indignava-se ela, e a insistência com essa posse pode acabar por matá-lo!

 

Rosa, JK, Austregésilo de Athayde e Josué Montello na noite de 16 de novembro de 1967 na ABL

Chega finalmente o dia 16 de novembro, quinta-feira, data de um evento inexplicavelmente adiado por quatro anos. Pelos depoimentos posteriores do também escritor Geraldo França de Lima, conterrâneo e íntimo amigo de Rosa desde a década de 1930 em Minas Gerais, sabemos que este passara a manhã e a tarde em silêncio tenso e agoniado, recusando até alimentar-se. Apreensiva, Dona Aracy telefona ao amigo Geraldo, explicando a situação e pedindo-lhe que viesse ajudá-la a distrair e tranquilizar seu marido. Ele veio em seguida, e depois de acalmar um pouco o velho companheiro, inclusive a escolher os sapatos que melhor se ajustassem ao fardão acadêmico, acompanhou-o no carro oficial do Itamaraty até a sede da ABL, no Centro da cidade. No transcurso da viagem, impressionado com o silêncio e a ansiedade do amigo, resolveu animá-lo dizendo tratar-se de uma simples cerimônia de posse, onde ele estaria cercado de amigos e admiradores, e até de confrades médicos, como Peregrino Júnior, conforme se previra no ensaio da ante-véspera. Foi nesse momento que, ao tocar-lhe a mão, notou que ela estava gelada. Ouviu então uma voz grave e assustada dizer-lhe com todas as letras: Geraldo, você não está entendendo; eu não passo deste ano…

 

        Com grande expectativa e debaixo de uma forte tempestade que alagava as ruas da Rio, cheguei ao Salão Nobre da ABL por volta das 19hs e já o encontrei lotado. À mesa, dirigindo a cerimônia, o Presidente da Casa, Austregésilo de Athaíde, ao lado do ex-Presidente J.K. e do Acadêmico e também mineiro Afonso Arinos de Mello Franco, designado para receber o novo colega. A tensão de Rosa ao se dirigir à tribuna era sentida por todos os presentes. Mas a leitura de um discurso impecável e absolutamente “roseano” foi perfeita. Os momentos finais foram de grande emoção, com citação do Bhagavad Gita e, em seguida, com a hoje famosa locução: A gente morre é para provar que viveu. E ainda: Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

 

        Ao concluir sua ingente missão, nosso amigo estava radiante, esfuziante, recebendo e retribuindo abraços de uma quantidade de admiradores, rindo todo tempo, feliz, e, finalmente aliviado do peso das toneladas que carregara por quatro anos. No dia seguinte, sexta-feira, ao final do expediente no Itamaraty, no momento em que eu saía do elevador no segundo andar, para grande surpresa minha dou de cara com o meu Embaixador agora Acadêmico, que tinha ido trabalhar normalmente e estava se retirando, ao lado de sua amiga e secretária Maria Augusta. Ao dar-lhe um abraço e reiterar-lhe como havia sido maravilhosa sua festa, ele perguntou logo, já de dentro do elevador: E o discurso, gostou? E a apresentação, foi boa? Ao responder-lhe que sim, claro, ele virou- se logo para a secretária: o Lauro, Lalino, é o meu consultor para assuntos teatrais!… Em seguida a porta do elevador fechou-se. E foi essa a última visão que tive de meu pranteado amigo. Dois dias depois, domingo, 19 de novembro, ao final da tarde, eu conversava com um tio meu em um bar na Avenida Atlântica em Copacabana, contando tudo isso que acabo de narrar aos meus amigos leitores, quando naquele exato momento, a menos de cem metros de distância, em sua casa na Rua Francisco Otaviano, onde um belo dia fui buscá-lo para um ensaio de teatro, João Guimarães Rosa partia para sempre. Partia para a eternidade, para a posteridade, para a memória do Brasil e dos leitores de todo o mundo.

 

 

 

As pessoas não morrem, ficam encantadas

JGR

     
                                                                                                                                                                           LM, 9/02/18
                                                                             ****************************          
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A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

   A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

                                                    Lauro Moreira

Consoada                    

As Parcas

As Parcas

Quando a Indesejada das gentes chegar
(N
ão sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Al
ô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortil
égios.)
Encontrar
á lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

                                                                                                                                        (Manuel Bandeira)

 

Ontem acordei pensando na morte. E até me surpreendi, pois embora esteja hoje, pela chamada ordem natural das coisas, bem mais próximo dela do que já estive, confesso que não tenho hábito de dar-lhe, digamos, uma atenção muito demorada. Mas, na verdade, acordei pensando não na minha morte, mas na morte de tanta gente amiga e querida, pessoas que se vão  desvanencendo de nossa vida, como vultos subitamente apagados de uma foto de família. Uma cruel desvantagem de se ficar velho é que nem todos os companheiros continuam ao nosso lado nessa inexorável caminhada rumo ao desconhecido, ao hamletiano “undiscovered country, from whose bourne no traveller returns.” Vários se apressam em retirar-se logo de cena, alguns inexplicavelmente cedo, deixando-nos mais sós – e incrédulos. Como Manuel Bandeira – que desde muito jovem passou a conviver intimamente com a Indesejada das gentes – ao saber do desaparecimento do amigo Mário de Andrade:

                                                  Anunciaram que você morreu.                    

M. Bandeira por Portinari

M. Bandeira por Portinari

Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

(…)

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

                                                  Você não morreu: ausentou-se.

                                                  (…)

(A Mário de Andrade Ausente)

 

         Não tenho a rabugice nem o pessimismo irônico de Bentinho (D.Casmurro), para afirmar que  “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos.”  – mas não há dúvida de que boa parte dos meus tem tido o mau gosto de antecipar de muito a partida e, pior, num ritmo cada vez mais acelerado. Amigos de infância, de adolescência, de colégio, de universidade, do teatro amador, da carreira diplomática, muitos dos quais afastados pelas distância física e pelos azares da vida, mas que muito enriqueceram minha afanosa e já longa passagem por aqui. Não exagero quando repito que nos últimos dois ou três anos esta safra aziaga não me tem poupado. Parentes próximos, amigos como Saroldi, Pedro Camargo,  Celina, Bambino, Euclydes Mattos e tantos outros têm partido recentemente sem se despedir…

Meu amigo Pedro Camargo

Meu amigo Pedro Camargo

Mas para além do desaparecimento individual das pessoas conhecidas e queridas, sempre uma tragédia, o que também vemos hoje é a morte coletiva e anônima, que não chega a configurar senão uma fria estatística. É ligar a televisão e ser invadido pelas sequências intermináveis de destruição de vidas humanas, ceifadas em desastres ecológicos, terremotos, tsunamis, vulcões. E como se não bastasse, o homem – animal feroz e primitivo (Les hommes sont des brutes, Madame, como dizia Ghandi a Cecília Meirelles) – o homem se encarrega de completar o trabalho da natureza em fúria, engendrando guerras, acirrando conflitos, insuflando a violência urbana em todas as suas formas (da loucura do tráfego de veículos à insanidade do tráfico de drogas), multiplicando atos terroristas, promovendo enfim essa verdadeira hecatombe a que hoje assistimos da poltrona da sala, impotentes, e, o que é mais grave, já quase insensibilizados. Como dizia meu amigo Arnaldo Jabor em recente crônica sobre o cinema atual, as mortes incessantes são mostradas até em videogames para normalizar, exorcizar a própria ideia de morte. Por outras palavras, vivemos a era da banalização completa da morte provocada, ou da banalização do Mal, como percebeu Hannah Harendt diante do Holocausto e do julgamento de Adolfo Heichmmann.

Mas voltemos à nossa simples morte individual, natural – controlada pelas Parcas romanas ou as Moiras da mitologia grega – que ocorre no momento em que se rompe o frágil fio da vida, seccionado pela tesoura de Átropo, depois de tecido por Cloto e estendido por Láquesis. Sobre esse tema fatal é que gostaria de falar um pouco mais. Para dizer que nos tempo de jovem universitário e um pouco mergulhado em estudos de filosofia, a questão filosófica da morte me atraía bastante, mas sempre como algo fora de mim,  uma pura abstração, quase um exercício de retórica. Debatíamos sobre aquela que, por sua importância metafísica, é a musa inspiradora dos poetas, a que alimenta as mentes imersas em reflexões e ávidas de uma explicação, como queria Schopenhauer.

Por essa época (segunda metade dos anos 1950) vim a ler uma obra que me calou fundo: Lições de Abismo, romance do escritor e pensador católico Gustavo Corção, publicada poucos anos antes, em 1951. Livro admirável, muito celebrado então e bastante esquecido hoje – como tudo aliás neste nosso país desmemoriado.

O romance de Gustavo Corção

O romance de Gustavo Corção

A resenha da editora traduz com fidelidade a temática do romance, que “é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida, e logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade e o ciúme”. E foi sob o impacto dessa leitura que vim a conhecer depois a novela de Tolstoi A morte de Ivan Ilitch, muito citada pelo personagem de Corção e hoje bastante publicada e conhecida no Brasil e em todas as línguas cultas do mundo.

Nessa extraordinária novela de Tolstoi (consagrada por W.Nabokov, o autor de Lolita, como um dos momentos supremos da criação literária), fica evidenciada a patética discrepância entre o natural e racional entendimento da morte do outro e a terminante recusa de a pessoa racionalmente  entender e aceitar a naturalidade da própria morte. Não resisto à tentação de reproduzir uma breve mas decisiva passagem da novela, quando Ivan Ilitch, um dedicado cidadão e correto Juiz de Direito, se vê, como o Professor e intelectual de Lições de Abismo, condenado por uma moléstia incurável:

L. Tolstoi

L. Tolstoi

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a ideia, como não a compreendia mesmo – uma incapacidade absoluta de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter  – Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal– sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais.

        Será que o tranquilo Epicuro – autor de aforismos como “O homem sereno procura serenidade para si e para os outros” e, sobretudo, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” – terá guardado toda essa serenidade e absoluta aceitação em seu instante final? E já que estamos navegando por antigos mares, caberia lembrar o sempre citado verso da Ode horaciana, que me parece menos filosófico e bem mais pragmático: Carpe diem, quam minimum credula postero, ou seja, aproveite o hoje e confie o mínimo possível no amanhã. Como falamos em mar e em poeta, lembremos ainda a frase de Fernando Pessoa, escrita em inglês, no dia 29 de novembro de 1935, exatamente na véspera de sua morte: I know not what tomorrow will bring.

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Parece evidente que nossa reação diante do “termo fatal”(cf. Gonçalves Dias) vai variar, e muito, segundo o grau da crença ou descrença que sustenta o espirito de cada um. Nesse sentido, a fé inabalável de um cristão, por exemplo, dá-lhe o conforto de que seu comboio está partindo desta estação para uma outra, definitiva e infinitamente mais aprazível, digamos. Já as dúvidas essenciais de um agnóstico, ou até mesmo de um filósofo estóico e racional como Sêneca ou Marco Aurélio, só tenderão a acrescer-lhes a aflição e a inquietude no momento da travessia final. E dos ateus materialistas  abstenho-me de falar, pois me parecem pertencer a uma casta soberba de ousadia sem limites… Enfim, de presunção e água benta cada um toma o que quer.

No plano subjetivo – e já me desculpando junto aos queridos leitoras e leitores deste Quincasblog por decidir navegar nestas águas de natureza bastante pessoal – confesso que no tocante ao tema em pauta minha trajetória não tem sido das mais consoladoras. Nasci e cresci numa família de católicos praticantes, o que fez de mim, até certa altura da vida, uma criatura de fé inabalável e sólidos princípios religiosos, para quem a morte era tão só o começo de uma nova vida. Mais: era para mim algo tranquilo e distante, fosse por meus verdes anos de então, fosse por não ter com ela qualquer intimidade. E de um momento a outro, e da maneira mais brutal, ela veio a se tornar minha íntima companheira, intimidade que, suponho, acompanha-me desde então, décadas decorridas.

Meus Pais

Meus Pais

Pai, mãe e quatro filhos (eu o mais velho) compúnhamos uma família saudável e unida na mais completa harmonia. Até que, em meados dos anos ’60, a iniludível tesoura de Átropo resolveu intervir sem ser chamada, cortando o fio da vida de metade desse grupo familiar. E tudo em menos de dois anos. Primeiro, a irmã caçula, aos 14 anos, depois o pai, aos 62, e quarenta dias mais tarde, a mãe, com apenas 54. Enfim, a morte deixava de ser para mim, de modo tão violento e de uma vez por todas, algo distante, objeto de estudo e elucubrações filosóficas, ou musa de poetas que eu tanto admirava. O abalo nos três sobreviventes da família não poderia ser maior, claro. De repente nos vimos sós e diante de um deserto sem fim. Para mim, uma terrível secura interna, que tardou muito a se esvanecer. E foi  justamente a estrutura emocional que nos legaram nossos pais, estou certo, que nos deu força suficiente para seguir caminho – e caminho não tão curto, pois hoje já ultrapasso em mais de quinze anos a idade com que morreu meu pai. Só que infelizmente não mais com a fé dos vinte anos, substituída que foi por um sereno agnosticismo. Ao faltar a graça da fé, sobra a incerteza do conhecimento (ou do desconhecimento).

Pronto, acho que falei demais, confidenciando agora o que nunca disse antes… Só mesmo apelando para o nosso Drummond para me sair dessa enrascada:  Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.

Por outro lado, não desejaria concluir essas notas com um tom crepuscular. Por isso, retorno a dois outros poetas de minha grande estima e admiração. O primeiro, como não podia deixar de ser, é Manuel Bandeira, meu querido e sempre lembrado amigo e padrinho de casamento. Uma sucessão de tragédias familiares  –  perda da irmã, da mãe e do pai em um curtíssimo espaço de  tempo (notem a coincidência) – e a luta diária contra a enfermidade, marcaram a vida e a obra de Bandeira. O sofrimento está sempre presente, mas neutralizado por uma aceitação  tranqüila, filosófica. O vazio, as ausências, as perdas, as separações e a morte são seus temas recorrentes. A recordação saudosa dos mortos queridos habita seus versos e consola o poeta em sua solidão. Para Assis Barbosa, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana. O amor unido à morte – eis a poesia de Bandeira. E eis alguns títulos de seus poemas: Preparação para a morte; Morte absoluta; Canção para minha morte; Programa para depois de minha morte – todos de uma beleza serena que toca fundo a alma de qualquer mortal…

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

O segundo nome a que quero referir-me é o de Marly de Oliveira, outro admirável poeta, uma das vozes mais altas da língua portuguesa no entender de Antônio Houaiss, e que nos deixou prematuramente em 2007.  Como pessoalmente a conheci e com ela convivi desde cedo, tendo podido seguir de perto a evolução de sua obra, registro aqui o que já tenho dito e escrito em várias oportunidades: desde seu livro de estréia – Cerco da Primavera – publicado em 1957, quando era ainda uma jovem universitária, Marly de Oliveira surpreendeu a leitores e críticos com uma obra que nasceu pronta, definitiva, “como Atenas, da cabeça de Júpiter”, na expressão de Alceu de Amoroso Lima, e que mereceu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, do Instituto Nacional do Livro. A despeito da juventude da autora, ali já estão presentes seus temas essenciais, reiterados nos 16 livros publicados desde então e resumidos numa permanente indagação filosófica sobre os mistérios e a fragilidade da vida. O primeiro verso, do primeiro poema, do primeiro livro já traduz a atitude reflexiva de alguém voltado para o conhecimento de si e do mundo que o cerca:

Eu. E diante da vida (…)

Trata-se da obra de uma jovem artista perplexa ante os mistérios do mundo, acreditando a princípio no poder da poesia como chave para abrir esses mistérios, mas que em seguida se dá conta da insuficiência da arte para apreender e desvendar o mundo, a vida, a morte. O máximo a que a poesia poderia aspirar seria então refletir, em termos estéticos, esta busca permanente e a consequente perplexidade diante do mistério insondável.         Mas essa impotência para entender o mundo não detém o tempo, em seu fluir incessante.   E esse fluir incessante vai desembocar naturalmente no não-ser, na morte. Ou seja, o amor e a morte são os temas básicos do Cerco da Primavera e de toda a obra de Marly de Oliveira. Em seu segundo livro, Explicação de Narciso, o tema se adensa e se aprofunda, já que Narciso é o ser que caminha inelutavelmente para a solidão e para a morte, na ânsia permanente de captar o sentido da vida em seu fluir. O terceiro poema do livro diz tudo:

Diante de mim, nestas águas,

quem sou, que não me preciso?

Ai, que sonho tão temível

assim me turva o sorriso?

Que amor, que presságio cingem

a cabeça de Narciso?

A que secretos poderes

se confia minha sorte,

se o que frágil vejo na água,

em mim se torna mais forte,

e onde sei que está a vida

encontram todos a morte?

Entre mistérios tão vastos

que breve instante que somos!

De repente descobrimos

que estamos. Mas onde? e como?

Por mais que nós nos dobremos

sobre nós e o que já fomos,

à inútil pergunta nossa

somente o eco responde.

E diante outra vez de nós

estamos. Há quem nos sonde?

E de que espaço ou que tempo

nosso eco responde? de onde?                                                                                                            

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

E é finalmente a própria autora que confessa: “Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho.”

Para concluir, vejam este breve poema de seu primeiro livro, onde se explicita o delicado tema de nossa conversa de hoje.

EPIGRAMA

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranquilo

diante da vida ou da morte.

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ODIVELAS E A LUSOFONIA

ODIVELAS E A LUSOFONIA          FORUM 1 FORUM 3 Retornando a um dos temas prediletos deste nosso Quincasblog, publicamos hoje um texto que escrevi para o Catálogo da V Bienal da Lusofonia, organizada pela cidade portuguesa de Odivelas (ao lado de Lisboa) e que teve lugar durante o mês de maio último. Na verdade, era intenção minha postar essa matéria ainda no mês de maio, quando me encontrava em Portugal, participando das diversas etapas e diferentes eventos da Bienal, sobretudo do IV Forum, que contou com a presença de ilustres personalidades do mundo lusófono, e do V Encontro de Escritores, ao qual estiveram presentes mais de quarenta autores dos vários países da CPLP. O Brasil esteve muito bem representado pelo poeta, escritor e ensaísta Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e pelo poeta Iacyr Anderson Freitas, cuja obra eu não conhecia e que, confesso com alegria, surpreendeu-me por sua alta qualidade.  Ao final do texto que se segue, os queridos leitores e leitoras poderão encontrar, como de costume, o endereço no You Tube de mais dois Poetas constantes de meu DVD Mãos Dadas. Desta vez, ainda dentro da fase do Romantismo brasileiro, teremos as notas biográficas e uma amostra da obra de dois grandes nomes da poesia em Língua Portuguesa, bastante distintos em suas vivências, mas ambos desaparecidos muito precocemente: Álvares de Azevedo, aos 21 anos, e Castro Alves, o Poeta dos Escravos, aos 24.  Bom proveito!                    ********************************************************                          MINHA V BIENAL DA LUSOFONIA                                                           Lauro Moreira          ESCRITORES 1            Com imensa satisfação venho acompanhando, desde sua gênese em 2007, a trajetória vitoriosa da Bienal de Culturas Lusófonas, cuja evidente consolidação faz hoje de Odivelas uma verdadeira Capital Cultural da Lusofonia.            Ao longo de todos esses anos, pude testemunhar de muito perto o esforço ingente da Câmara Municipal de Odivelas, na pessoa de sua Presidente, Suzana Amador, e de meu admirável amigo Mário Máximo, escritor, poeta, incansável animador cultural e reconhecido militante da Lusofonia. Em verdade, mais que apenas testemunhar, ouso afirmar que tive o privilégio de participar do nascedouro e desenvolvimento dessa iniciativa, ao longo das quatro Edições anteriores – duas delas na qualidade de Embaixador do Brasil junto à CPLP – proferindo palestras, organizando e participando de espetáculos de música e teatro, propiciando a inclusão de artistas brasileiros nas exposições de arte, ademais de ter tido a honra de receber homenagens especiais que me tocaram profundamente o coração lusófono.    ESCRITORES 3         Acercamo-nos agora da V Bienal de Culturas Lusófonas 2015, a realizar-se no ano em que celebramos os 8 Séculos da Língua Portuguesa, contados a partir do Testamento de Afonso II, em geral considerado o primeiro documento escrito em nosso idioma.           Os tempos que correm não têm sido fáceis, como sabemos, e a própria Lusofonia atravessa uma certa área de turbulência, refletida em debates polêmicos na media internacional e no próprio âmbito da CPLP, organismo onde se observa atualmente uma certa apatia por parte de alguns de seus membros. Assuntos velhos e revelhos como o do Acordo Ortográfico de 1990 esperam até hoje a ratificação (25 anos depois de assinado por todos os participantes!) para sua entrada em vigor em países ainda relutantes, quando em outros, como o Brasil, já constitui fato consumado desde janeiro de 2009. Há muita gente que ainda confunde uma desejada unificação ortográfica com uma insensata e indesejável uniformização ortográfica.       ESCRITORES 2              Mas, na verdade, o ideal pelo qual lutamos e que chamamos de Lusofonia é algo que transcende a questão linguística. Repetindo palavras minhas reiteradas em tantas oportunidades, ressalto que podem alguns dos nossos países comunitários não ser povos exclusivamente lusófonos, mas são também lusófonos. Quer queira-se, quer não, vale repetir, há um espaço lusófono ocupado por esses países, e há sobretudo um espírito lusófono, gerado por uma convivência e uma miscigenação tecida ao longo de quinhentos anos. E esse diálogo intercultural e inter-étnico (e não multi-cultural!) que se estabeleceu entre descobridor e descobertos, entre colonizador e colonizados – e sem entrar aqui em qualquer juízo de valor sobre essa colonização – acabou também fazendo da língua uma “construção conjunta”, na expressão de José Eduardo Agualusa, onde aspectos sintáticos, fonéticos e lexicais acusam uma grande variedade, em um processo de permanente enriquecimento do idioma original de Gil Vicente. Por isso mesmo, Mia Couto diz muito bem, parafraseando Fernando Pessoa (Bernardo Soares) que “minha pátria é a minha língua portuguesa”. Ou seja, desse rico patrimônio imaterial, forjado a partir da experiência vivida no cruzamento desse triângulo Portugal-Brasil-África (enriquecida pela presença do Timor Leste) ao longo de cinco séculos, emerge aquilo que chamamos hoje de Lusofonia,uma construção que teve um dia para começar, mas que não tem uma data para acabar. Algo em permanente evolução, um fenômeno in fieri.         Por isso mesmo, ao liderar o processo de criação da CPLP, nascida finalmente em 1995, o inesquecível Embaixador José Aparecido de Oliveira reconhecia que o novo organismo internacional seria sobretudo a moldura jurídica de uma realidade linguística e cultural pré-existente. São palavras suas:       “A primeira das nossas preocupações na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi a de instituir uma sociedade rigorosamente entre iguais, de tal maneira que as dimensões físicas e políticas dos países participantes não influíssem na formação do grupo nem na sua orientação futura. Há, em nosso entendimento, um fator transcendental, que nos iguala e elimina preocupações de hegemonia: a alma comum fundada pela nossa língua”.           Palavras bem-vindas, que a Bienal das Culturas Lusófonas de Odivelas tem procurado, e com grande sucesso, transformar em atos concretos de largo alcance, contribuindo assim para a consecução do ideal maior de todos nós, que é o de ver uma Comunidade (por ora) de Estados Membros transformada em uma Comunidade de Cidadãos Lusófonos.   Lisboa, maio de 2015  Clicar nos links abaixo:    http://youtu.be/0DmtYNiO3bI  ou MÃOS DADAS – ÁLVARES DE AZEVEDO interpretado por Lauro Moreira     http://youtu.be/-LR_1vwz6yk     ou  MÃOS DADAS – CASTRO ALVES interpretado por Lauro Moreira          

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A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

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Outro Manuel que nos deixa

Lauro Moreira

Como os prezados leitores deste Quincasblog haverão de se lembrar, no início do passado mês de abril escrevi aqui uma matéria sobre a morte de Manoel de Oliveira, que trazia o sub-título de A grata longevidade dos Manoéis. Ademais do cineasta português, falecido naqueles dias aos 106 anos, referia-me também a outros Manoéis ou Manuéis, já falecidos, todos bastante longevos para sorte nossa, como os Poetas Manuel Bandeira (82 anos, mas com apenas um pulmão desde os 21) Manoel de Barros (97) e o Vaqueiro Manuel, personagem real e fictício de Guimarães Rosa (93 anos). Pois acabo de receber a triste notícia da partida de outro Manuel, meu amigo argentino de quase meio século, poeta, filólogo, exímio tradutor, advogado, político na juventude e personalidade cativante. Este, era o Manuel Graña Etcheverry, Manolo para todos nós, que em novembro próximo estaria completando seu centésimo aniversário.

Genro de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores, casado com a sempre lembrada e talentosa Maria Julieta, conheci Manolo e família em 1968, quando fui removido para Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático. Ao longo de quatro anos, tempo em que lá residi com Marly de Oliveira, então minha mulher, e nossa filha Mônica,  mantivemos um convívio praticamente diário com Manolo, Maria Julieta e os filhos Carlos Manoel e Luis Maurício, adolescentes, e Pedro Augusto, ainda uma criança. Aliás, não tenho como deixar de abrir  um parêntese e  relembrar aqui um dos poemas mais belos do Avô desses meninos, dedicado A Luis Maurício, Infante, que começa assim:

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

(…)

Apesar do longo tempo decorrido e da rarefação de nossos encontros a partir daquela época, fecho agora os olhos e revivo com nitidez e saudade detalhes de um sem número de momentos desse  convívio inesquecível.

No me esqueço da primeira visita que lhes fizemos, quando, por exemplo, contemplei de perto o famoso retrato de Drummond feito por Portinari, pendurado atrás do sofá da sala de visita. Nem do jantar, tempos depois, oferecido pelo casal ao amigo Vinicius de Moraes, nem de uma estada do próprio Drummond em visita à família, nem das artes culinárias de Manolo com seus “calamares en su tinta”…

Recordo ainda o apoio advocatício que ele sempre nos prestava na área consular, sobretudo na solução de alguns casos mais cabeludos, como aquele de uma jovem brasileira que havia sido “detenida para averiguaciones”, por carecer do necesário visto de permanência no país, e que em 48 horas acabara sendo vítima de sucessivos estupros praticados por policiais dentro da própria Comissaria.

Nosso convívio com Manolo e família se estendia por vêzes em tardes memoráveis na quinta que possuíam perto de Buenos Aires.  Volta e meia estávamos em animadas conversas nos constantes coquetéis da Embaixada do Brasil, chefiada a partir de 1969 pelo futuro Ministro de Estado das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, que, ao lado da Embaixatriz May, logo se tornaram também amigos íntimos do casal Graña.

Como grande intelectual e também poeta, Manolo traduziu boa parte da obra de Drummond e vários poemas de Marly de Oliveira, sobretudo do livro O Sangue na Veia. Aliás, nessa mesma época, Marly e Maria Julieta traduziram a Nueva Antologia Personal , de Jorge Luis Borges, publicada no Brasil pela Editora Sabiá, sucessora da Editora do Autor, que havia sido criada em 1960 por Fernando Sabino e Rubem Braga. E ainda nesse campo literário, vem-me à memória um momento bastante triste, que foi a morte de Manuel Bandeira, nosso amigo querido e padrinho de casamento, poucos meses depois de nossa chegada à Argentina, em outubro de 1968.  No Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, Marly de Oliveira e Maria Julieta prestaram-lhe então uma sentida homenagem, acrescida de um recital de poemas seus, ditos por mim.

Estas breves notas soltas não têm outro propósito senão o de prestar agora uma afetuosa homenagem a esse outro excelente e longevo Manuel, Manuel Graña Etcheverry, o meu querido amigo Manolo. Descanse em paz.

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E mantendo o já  prometido neste Quincasblog, apresento hoje mais dois poetas de meu DVD Mãos Dadas: Gonçalves Dias e Fagundes Varela. Para ver e ouvir, clique nos links abaixo.

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UMA NOITE MUITO ESPECIAL

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (199

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (1996)

UMA NOITE MUITO ESPECIAL EM SANT CUGAT – BARCELONA

                                                                               Ora, direis, ouvir estrelas!

                                                                                                               O. Bilac

 Lauro Moreira

 

CAPA DO LIVRO

CAPA DO LIVRO

 

Em nossa última conversa aqui no Quincasblog, que acabou merecendo comentários generosos de vários leitores, falamos sobre uma certa noite mágica num apartamento da Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, e que teve como protagonista o nosso bardo Manuel, Bandeira do Brasil, no longínquo ano de 1968. Longínquo, sim, pois não nos esqueçamos de que sessenta por cento dos 200 milhões de brasileiros de hoje não eram sequer nascidos naquele ano agitado que incendiou Paris e boa parte do mundo…

Pois bem, hoje vamos falar de uma outra noite, igualmente mágica e por isso também inesquecível para mim, para minha mulher, Liana, e para o reduzido grupo de pessoas que tivemos o privilégio de vivê-la. Não foi no Rio de Janeiro, mas nos arredores de Barcelona, em Sant Cugat, no verão de 1994, mais precisamente em 11/12 de julho, ou seja, vinte e sete anos depois da noite mágica de Botafogo. Mas, comecemos da capo, pois acho que vale a pena contar-lhes com algum detalhe o que sucedeu naquele encontro único e surpreendente em casa do Cônsul-Geral do México em Barcelona, meu colega da diplomacia, poeta (hoje também pintor celebrado) e amigo fraterno, Edmundo Font.

Eu já vivia em Barcelona com a família desde janeiro de 1991, removido pelo Itamaraty para ocupar o posto de Cônsul-Geral naquela cidade de que tanto gostava antes mesmo de conhecer, e que vivia então em graça e plenitude, concluindo ao cabo de oito anos as obras fantásticas de infraestrutura e reurbanização, que a preparavam não apenas para os Jogos Olímpicos de 92, mas para o século seguinte. Aliás, os leitores mais assíduos deste Quincasblog certamente se lembrarão de uma crônica que postei aqui em outubro do ano passado, com o título de Barcelona e Rio de Janeiro, onde incluí um link para um vídeo inesquecível (Transformació d´una Ciutat) sobre essas mesmas obras. Quem não viu, sugiro que o faça agora, porque é absolutamente imperdível. Acesse o site www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

Alguns meses depois de nossa chegada ao Posto, a telefonista do Consulado recebe pela manhã uma chamada de um certo Senhor Edmundo Font, Embaixador do México em Bogotá, que estava de passagem pela cidade e desejava falar com o Cônsul do Brasil. Atendi com a maior presteza e atenção, como faria naturalmente com qualquer colega, mas no caso, confesso que também com alegria, por se tratar de representante de um país que eu conhecia bem e admirava muito. Fiquei sabendo então que meu interlocutor já estava removido oficialmente de Bogotá para Barcelona, onde deveria assumir suas novas funções dentro de uns dois meses. Convidou-me para almoçar naquele mesmo dia.

Ao ver minha surpresa com o seu perfeito domínio do Português, explicou-me radiante que havia sido durante sete anos Cônsul de seu país no Rio de Janeiro, onde inclusive havia nascido uma de suas três filhas. O almoço estendeu-se pela tarde, ponteado por uma conversa amistosa, durante a qual vim a saber também que ele era um apaixonado pelo Brasil; que fizera amizades preciosas com figuras como Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade; que havia traduzido e publicado no México o livro de poemas de Drummond sobre o Quixote, ilustrado por Portinari; que ele também era poeta com vários livros já publicados, além de ser um fanático da música brasileira, havendo feito inclusive versões para o espanhol de algumas canções de Roberto Carlos; que as paredes de sua casa eram cobertas por óleos e gravuras de artistas do Brasil; que ainda mantinha sempre contato com seu Pai de Santo carioca; que…, que, em uma palavra, era um profundo admirador de meu país! Vi que nossas afinidades eram tantas que não tive dúvidas em convidá-lo a comparecer, naquela mesma noite, à reunião semanal do Clube da Música Brasileira de Barcelona, um exitoso centro que eu havia criado para difundir o Brasil na Catalunha, onde promovíamos concertos com músicos brasileiros residentes ou de passagem, mesclados às vezes com instrumentistas espanhois, além de palestras, filmes, recitais de poesia brasileira em português, castelhano e catalão, etc.

Poucos meses depois, o meu mais novo amigo já havia assumido seu Posto de Cônsul-Geral do México e residia em uma casa muito simpática em San Cugat, nos arredores de Barcelona. Nossas famílias tornaram-se amigas de infância…E quanto mais eu o conhecia, mais admirava a sua sensibilidade, sua cultura, sua deferência para com todos, especialmente com seus empregados e funcionários do Consulado. Paco, seu motorista e amigo que o acompanhava por todas as partes, tornou-se amigo do Aurélio, meu motorista e amigo que eu levava para todos os cantos. Foi ele, Edmundo, que me convidou para assistir certo dia a uma conferência de uma das figuras mais marcantes da cultura iberoamericana, a quem eu tanto admirava e admiro e a quem ele me apresentou pessoalmente: o seu amigo Octávio Paz, um dos maiores poetas e ensaístas do século vinte. Seu livro El Labirinto de la Soledad, que eu havia lido ainda nos anos sessenta, em Buenos Aires, continua sendo para mim um dos ensaios mais argutos e sensíveis jamais escrito sobre a alma de um povo – no caso, a rica, contraditória e complexa alma mexicana.

Outro escritor de marcante personalidade que me foi apresentado pessoalmente por Edmundo Font em um jantar em Barcelona, foi o italiano Antonio Tabucchi, falecido precocemente há dois anos e enterrado em Lisboa, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e de Bologna, conhecedor profundo e apaixonado da obra de Fernando Pessoa e seu mais importante tradutor para o italiano, casado com uma portuguesa de nobre ascendência  (Maria José de Lancastre), autor de uma vasta e respeitada obra de ficção e de crítica ensaística. Quando o conheci, em 1994, Tabucchi não tinha ainda completado a metade de sua obra, mas naquele mesmo ano publicava dois de seus livros mais interessantes, que vim a ler pouco depois: Os três últimos dias de Fernando Pessoa, no qual imagina e descreve os diálogos de uma visita feita ao Poeta, em seu leito de morte no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, por alguns de seus principais heterônimos; e o premiado Afirma Pereira, romance filmado por Roberto Faenza em 1995, com Marcello Mastroianni e Daniel Auteuil como protagonistas.

Um dos melhores programas para mim em Barcelona era visitar a família Font em sua deliciosa mansão em San Cugat. Certa vez, convidados para um jantar íntimo, numa noite gelada de fevereiro, chegamos lá e deparamos com o dono da casa em trajes completamente disparatados para aquele clima: Edmundo estava todo de linho branco, inclusive meias e sapatos  brancos. Ao abrir-nos a porta, foi logo esclarecendo:

– Vocês estão lembrados que hoje é dia 2 de fevereiro, não? Dia de Iemanjá, meus queridos! E junto ao dono, parecendo também comemorar, saltitante, a data tão especial, recebeu-nos um dos insígnes personagens da casa: o cãozinho que ele havia levado do Brasil e atendia pelo nome delicioso de Dendê.

Bem, depois deste interminável embora necessário (será?) nariz de cera, acho que podemos agora entrar em matéria propriamente dita, ou seja, na prometida estorinha da noite mágica. Aí vai ela – e a essas alturas todos os meus parcos e generosos leitores já perceberam que ela só poderia ter ocorrido em casa do… Dendê, certo? Pois foi.

                                                          NOCTURNO EN SAN CUGAT

Uma tarde no verão de 1994, o nosso Font me telefona convidando para um pequeno jantar em sua casa. Da família, só ele, a cozinheira Ricarda e o Dendê estariam em casa, já que sua mulher Patrícia e as filhas se encontravam de férias no México. Seria um encontro improvisado para uns poucos amigos, em torno de um conhecido poeta cubano chamado Pablo Armando Fernández, também seu amigo de fé e carteirinha, que estava de passagem pela cidade. Os demais, além de mim e de minha mulher, seriam um editor de livros (Emílio Payán) e um pintor (Juan Sebastián), ambos mexicanos, o cabelereiro do Rei de Espanha (!) Pascual Iranzo, uma figura surpreendente, além de Paco, o indefectível motorista de Edmundo, a cozinheira Ricarda e o também infalível Dendê. O jantar foi memorável, não apenas pela culinária como pela conversa mais que interessante de um grupo aparentemente tão heterogêneo.

Terminada a refeição, fomos todos para o jardim e continuamos a conversa em torno de uma mesa redonda ao lado da piscina. A noite era agradável, a temperatura amena, só não me lembro se havia estrelas no céu. Mas como se verá, elas começaram a aparecer de repente, da maneira mais inesperada e insólita… Foi quando o assunto resvalou para a poesia. Notei que o dono da casa ausentou-se de repente, voltando em seguida com um maço de folhas de papel em branco e algumas canetas. E então, como quem não quer nada, o nosso poeta Pablo Armando começa a rascunhar um texto em homenagem ao anfitrião, expressando-se em voz alta e escrevendo ao mesmo tempo. E enquanto isso, o pintor Juan Sebastián agarrava uma folha em branco e, à medida que ouvia as palavras e os versos ditos e escritos por Pablo Armando, passava a desenhar a toda a pressa e em absoluta concentração. Fez-se um silêncio completo na mesa. Só os dois artistas trabalhavam, absortos, como que desligados de tudo. Na verdade, parecia-nos, aos demais, que estávamos participando de uma misteriosa sessão de psicografia… com a pequena diferença de que o autor psicografado estava ali mesmo, de corpo presente. Ao cabo de quinze ou vinte minutos, tínhamos sobre a mesa o manuscrito de um poema intitulado El Bardo y Las Musas Cardinales, com a dedicatória Para Edmundo Font, e um desenho forte, expressivo, representando em uma só cabeça o bardo Edmundo, sua mulher Patrícia e as três filhas, com a assinatura de Juan Sebastián.

Mas isso foi apenas o ponto de partida de uma longa jornada noite/arte adentro, pois a inspiração dos artistas estava para o que desse e viesse. E lá fomos nós, os demais presentes, recebendo encantados cada qual o poema e o desenho que lhe eram dedicados e que iam sendo gestados ao longo da madrugada. Liana, eu, o cabelereiro do Rei, o editor Emílio Payán, o chofer Paco, a cozinheira Ricarda e … Dendê, claro, além do próprio poeta e do pintor, que também providenciaram suas homenagens recíprocas. A “sessão” só findou com a chegada da manhã, quando artistas e homenageados nos despedimos e com a alma em festa deixamos aquela casa e aquela noite, onde algo de muito, muito especial se havia passado.

Dias depois, recebi do Edmundo uma cópia em xerox dos poemas manuscritos e dos respectivos desenhos. Guardei tudo com muito carinho e muita saudade. Fui removido para Brasilia no final de 1994. Uns dois anos depois, em viagem de trabalho à Índia, fui convidado para almoçar na Residência do Embaixador mexicano em Delhi. Quem era ele? Edmundo Font… E nessa tarde ganhei um presente muito, muito especial… Alguns exemplares de um livro intitulado NOCTURNO EN SAN CUGAT, numa edição bilingue, com os poemas de Pablo Armando em sua tradução para o inglês feita pelo tradutor de Octávio Paz na Índia, e com os desenhos originais de Juán Sebastián. Publicado em papel reciclado por Ediciones Lodi Garden en Delhi – outra invenção de Edmundo Font…

Em 2002, estando eu como Embaixador no Marrocos, onde criamos também um Centro Cultural extremamente dinâmico, resolvi um dia traduzir para o Português os poemas de Nocturno en San Cugat e incluir em nossa programação um recital interpretado em três línguas, convidando para participar comigo um diplomata norte-americano e um argentino, que era também poeta. E, claro, antes de dar início à leitura dos poemas, contei ao numeroso público presente (e era de fato numeroso!) a estorinha que agora acabo de lhes contar, meus caros amigos e amigas do Quincasblog.

Há quase dez anos não vejo meu velho amigo mexicano, que reside hoje em seu país e continua na diplomacia, mas que acabou se dedicando de corpo e alma a desenvolver mais um de seus talentos, transformando-se num pintor de reconhecidos méritos. Acompanho suas novas atividades pelo Google, mantendo-me a par do grande sucesso que vem obtendo com suas exposições no México, Estados Unidos e outros países da América.

Vejam agora algumas fotos ilustrativas do que acabamos de evocar, incluindo uns poucos poemas e respectivos desenhos. Com grande imodéstia, destaco o poema Semillas, Estaciones, dedicado a Lauro Moreira e que, por puro acaso, considero um dos mais bem logrados de todo o livro… A frondosa árvore do louro (ou seja, lauro) resiste a todas as adversidades, mas afinal se lamenta ao ver por vêzes vêzes suas folhas tecidas em uma coroa (laurel) ornando imerecidamente a fronte de falsos herois. A tradução francesa foi feita pela minha amiga e poeta Jacqueline Seyrat.

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE "SEMILLAS, ESTACIONES"

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE “SEMILLAS, ESTACIONES”

POEMA E DESENHO PARA LAURO

POEMA E DESENHO PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

POEMA PARA DENDÊ

POEMA PARA DENDÊ

LIANA/DESENHO

LIANA/DESENHO

POEMA PARA LIANA

POEMA PARA LIANA

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

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