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O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

                        

                O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

 

                                                       Lauro Moreira    

 

Palácio do Itamaraty, Rio

 

         Ao escrever recentemente sobre meu convívio com o escritor e Embaixador João Guimarães Rosa, mencionei aos queridos leitores que em 21 de dezembro de 1962,  três dias após concluir  o curso de Direito na PUC/Rio, dei início à maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, e amigos de toda a vida, entre eles o nosso magnífico poeta Chico Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim.    

 

        Primeiro obstáculo: a escolha do Paraninfo

         Uma novela bastante desagradável para mim, e que veio a ter consequências imprevistas, começou no entanto a desenrolar-se logo nas primeiras semanas de nosso ingresso na Carrière. Teve a ver com a apresentação do discurso do representante da turma na cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco (IRB). Por escolha dos colegas coube-me a arriscada honra de pronunciá-lo. Arriscada, porque o golpe militar de 31 de março de 1964 havia colhido nossa turma já no último ano do Curso, e a situação política do país não era, digamos, das mais tranquilas. Os primeiros passos desta novela que lhes vou narrar deu-se no final do ano, com o impasse criado pela resistência do Diretor do IRB ao nome do Paraninfo que havíamos escolhido, ninguém menos que o respeitado Professor Alceu de Amoroso Lima, um consagrado escritor, intelectual e líder católico, cujo único defeito seria talvez o de não ter aprovado o golpe militar e ter o mau hábito de por vêzes criticá-lo…Esse capítulo arrastou-se por longo tempo, até que finalmente, já ingressados na Carreira, resolvemos substituir o Paraninfo, convidando então uma das mais ilustres figuras do Itamaraty, um pioneiro da diplomacia econômica, um ex-Ministro da Indústria e do Comércio no Governo João Goulart, um economista doutorado pelo MIT-  Massachussets Technological Institute, o Embaixador Otávio Dias Carneiro, que a essas alturas se encontrava encostado no DEC, ou seja, marginalizado no famoso Departamento de Escadas e Corredores do Ministério, após sub-chefiar a delegação do Brasil à importante reunião da UNCTAD em Genebra, em 1964, justamente na época da assunção do governo militar, do qual ele naturalmente divergia.

        Após muita insistência, conseguimos que o Embaixador finalmente acedesse ao nosso apelo. O convite foi-lhe feito por uma comissão de colegas em uma sala do Palácio, e nosso diálogo eu o tenho na memória até hoje, ipsis verbis: “Meus caros, disse ele, esta é a maior homenagem que recebi até hoje no Itamaraty, e estou profundamente grato a vocês, mas sinceramente não posso aceitar. Acho que vocês não sabem o que estão fazendo, não conhecem bem minha situação atual”.  Ao que logo replicamos: “Embaixador, sabemos perfeitamente; conhecemos sua situação hoje e o estamos convidando justamente por isso, para reparar uma grande injustiça”. A emoção foi grande, de parte a parte. E assim, após um longo desgaste, concluímos o primeiro capítulo da novela, o do Paraninfo. Mas enquanto nesse ínterim, eu sofria com as dores do parto de um  discurso cada vez mais improvável, num verdadeiro malabarismo de ideias, conceitos, palavras, na busca de formas palatáveis que pudessem preservar um mínimo do que pretendia dizer, em um momento bastante adverso. Eu nem o havia concluído, quando certo dia recebo um telefonema da Secretaria do IRB com instruções de entregar o texto ao Gabinete do Ministro naquela mesma tarde, pois o Presidente da República precisaria conhecê-lo de antemão, uma vez que, como de praxe, a solene cerimônia de formatura contaria com a presença de Sua Excelência. Expliquei que só poderia entregar no dia seguinte, e enquanto corria para dar os últimos retoques à obra, encarecia à minha dedicada secretária Christiana datilografar o texto o mais rápido possível, em espaço 2 e 3, de modo a facilitar-me a leitura. Tarefa cumprida (e comprida!), discurso entregue.

                Uns dez dias depois avisam-me para comparecer urgente ao Gabinete do Ministro de Estado. Lá chegando, meio ofegante, encontro na ante-sala o Embaixador Dias Carneiro, que muito amavelmente me explica que o Senhor Ministro havia “lido e gostado muito do texto” que eu havia preparado, mas que, com 16 páginas, achava-o demasiado longo para a cerimônia, contrastando inclusive com as 6 páginas do discurso preparado pelo Paraninfo… Ou seja, pediam-me apenas para encurtá-lo…(Será?). Tratei então de conseguir uma Lettera 22 da Olivetti, maquininha excelente de letrinha miúda, rebati o texto em espaço 1 e 2, com margem mínima (como no texto do Paraninfo) e voltei a entregar o discurso ao Gabinete do Ministro, só que agora com apenas 7 páginas. E passamos a aguardar a marcação do dia da formatura…

              Segundo obstáculo: o texto do discurso 

         …E nada! Até que uma tarde, depois de uns dois meses de trabalho rotineiro daquela nossa turma do Rio Branco “que não se formava nunca”, fui novamente chamado ao Gabinete do Ministro de Estado. Esperava-me agora o nosso já mencionado provecto e respeitável  Embaixador Diretor do Instituto Rio Branco, que, sem saber dos antecedentes de minha última conversa com o Paraninfo, começou por repetir tudo, dizendo que o Ministro de Estado havia lido o discurso, que tinha gostado muito, etc, etc. Acrescentou ainda que ele, Diretor, não o havia lido e portanto não podia opinar (velada censura por eu não ter-lhe enviado antes o texto), mas que o discurso “parecia ser muito profundo e portanto não apropriado para uma cerimônia de amenidades como deve ser uma formatura. Aliás, se o senhor quiser, poderá até apresentá-lo como uma conferência aos alunos do Rio Branco…” O pior dessa longa e difícil conversa porém estava por vir, sobretudo para um jovem recém ingressado na carreira diplomática de seu país: Embaixador, disse-lhe eu com todo respeito, o senhor me desculpe, mas o que pretendi com este discurso foi apenas traduzir uma certa ordem de preocupações, minhas e da minha turma. E ele: Veja, é muito natural que o senhor, com seus vinte e poucos anos, tenha essa ordem de preocupações, mas olhe, sinceramente, ninguém está interessado nisso… Ninguém. Chocado e triste com o que estava a ouvir, disse-lhe apenas que eu não sabia fazer ‘discurso de amenidades’, mas que o problema era de fácil solução: eu pediria aos colegas que, do mesmo modo que me escolheram para representá-los, elegessem um outro colega como orador. E assim o fiz, apesar da indisfarçável preocupação do velho embaixador. Em reunião com a presença dos treze colegas, li o discurso em voz alta (era a primeira vez que o fazia coletivamente) e ao final pedi os comentários sinceros por parte de cada um. Depois da aprovação elogiosa e unânime, revelei-lhes os detalhes da novela do discurso, que eles desconheciam por completo, e encareci-lhes que indicassem outrem para substituir-me. Foi um bafafá geral!… Ninguém aceitou a sugestão  e todos decidiram solicitar uma audiência ao Ministro de Estado, o  Embaixador Vasco Leitão da Cunha, a fim de que uma comissão de quatro representantes pudesse expor nossas ponderações. E viva o Cavaleiro da Triste Figura!…

         Fomos recebidos – participei da comissão, claro, na qualidade de autor do delito – não pelo Ministro em pessoa, mas por seu Gabinete, incluindo o Embaixador Mozart Gurgel Valente (cunhado da escritora e amiga Clarice Lispector) e o então Conselheiro Dário Castro Alves, que viria mais tarde a ser um grande amigo e uma figura muito querida em Portugal, onde foi Embaixador e viveu vários anos. A reunião durou horas, de quatro as sete da tarde, e ao final, do outro lado da mesa só restava o nosso Conselheiro Dário que, com paciência monástica, continuava a nos ouvir e a tentar romper um impasse complicado, em que eu simplesmente reclamava o direito de não pronunciar um discurso, enquanto a turma se negava a escolher um substituto. Até que finalmente foi-me dito que em absoluto não era necessário que eu fizesse um novo texto (de amenidades?…), bastando apenas que atenuasse o tom de certas passagens, pois sempre haveria o risco, arrematava nosso interlocutor, de que no dia seguinte ao da formatura o Correio da Manhã, jornal importante e opositor ferrenho do governo, extraindo uma frase do contexto, publicasse algo como “Jovem diplomata dá aula ao Presidente da República mostrando que democracia social é o caminho para o Brasil”... Depois de intermináveis  discussões sobre essa questão de explorar uma frase fora de contexto (até do Padre Nosso, dizia eu, se pode fazer isso, enquanto meu futuro amigo Dário observava com humor: é, talvez o Pão Nosso de cada dia nos dai hoje…) e de eu prometer que faria um esforço especial para atenuar algumas passagens do discurso, como queriam, fui para casa, voltei de novo ao texto, mas, confesso sem qualquer arrependimento, limitando-me apenas a inverter a ordem de alguns parágrafos e substituir uma ou outra palavra, sem mudar praticamente nada do sentido original. O texto revisto foi então entregue ao Gabinete do Ministro no dia seguinte. Passados 53 longos anos, os colegas já hoje aposentados (alguns já falecidos) continuamos pacientemente aguardando a realização da formatura da turma de 1964 do Instituto Rio Branco…

Embaixador Dário de Castro Alves

Interior do Palácio do Itamaraty, Rio

                Mas não custa reiterar, sobretudo aos leitores mais jovens, que os tempos de então estavam de fato bicudos. Veja-se por exemplo este trecho extraído dos arquivos do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, referente à instalação, no dia 17 de novembro de 1965, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, da II Conferência Interamericana Extraordinária (II CIE): À chegada do presidente Castelo Branco no momento da abertura da Conferência, foram presos diante do hotel oito intelectuais que se manifestavam contra o regime militar. Faziam parte do grupo que ficou conhecido como “Os 8 da OEA” os escritores Antônio Calado e Carlos Heitor Cony, os cineastas Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, o diretor de teatro Flávio Rangel, o jornalista Márcio Moreira Alves e o diplomata Jaime de Azevedo Rodrigues. Alguns dias depois foi também detido o poeta Tiago de Melo. Todos permaneceriam presos por cerca de duas semanas e seriam enquadrados na Lei de Segurança Nacional depois de responderem a um inquérito policial-militar (IPM).” Protestavam eles, antecipadamente, contra as bases da nova política externa brasileira, que seriam inauguradas a partir daquele momento, segundo as diretrizes ideológicas do movimento armado de 1964. Como escreveu mais tarde o historiador Manuel Maurício de Albuquerque (por coincidência nosso professor no Curso do Instituto Rio Branco): “Através do Itamarati, o governo brasileiro propunha que o conceito de soberania passasse do critério de espaço nacional demarcado por limites, para se basear no das fronteiras ideológicas. Isto significava o direito de intervenção para sustentar um governo, aceito como democrático, que fosse ameaçado por movimentos dominados por ideologias consideradas não-democráticas.”  

 

Tópicos do discurso

        Consequências duradouras…

        Retomando porém o nosso assuntinho irrelevante, a verdade é que se o discurso ficou impronunciado, seus efeitos perduraram por largo tempo, sobretudo para seu autor… Decorrido um ano, com a mudança do Ministro de Estado e a assunção de um Secretário-Geral linha-dura, como se dizia, o assunto voltou à tona, e eu, que além de tudo, estudava russo e trabalhava na Divisão dos países da chamada Cortina de Ferro (!)  passei a ser observado através de lentes especiais… Vivíamos tempos complicados, o mundo bipolarizado, a situação interna se radicalizando cada vez mais. Confesso, confesso que nada disso chegava a   preocupar-me em demasia. Exercia normalmente minhas   funções no trabalho, mantendo as convicções pessoais que estavam claramente expressas nas páginas do famigerado discurso – e que coincidiam com as linhas gerais da doutrina social da Igreja, do Bonum Comune de S.Tomás de Aquino à Rerum Novarum de Leão XIII, da Mater et Magistra de João XXIII às teses renovadoras de Jacques Maritain. Por outro lado, eu tinha consciência de que se tratava de um discurso um pouco incômodo para certas autoridades da Casa, sobretudo as mais conservadoras, pois aos olhos do governo militar da época, as ideias ali expostas não gozavam de grande simpatia… Ao mesmo tempo, o que dizia o discurso me parecia tão lógico, tão evidente e tão sensato, que eu não conseguia entender a oposição que ele enfrentava. Lembro-me que um dia, indo para o trabalho, ocorreu-me de repente uma formulação curiosa para explicar essa situação que tanto me afligia. Ao parar o carro em um semáforo anotei a frase que me viera à cabeça e que mais tarde acabei usando como epígrafe nas cópias do discurso que ofereci aos colegas de turma: Pode parecer às vezes mais vantajoso defender a quadratura da Terra; mas nem por isso ela deixa de ser redonda…

     Primeira missão no exterior

              Minha principal tarefa no primeiro ano de trabalho na DOr/COLESTE – siglas da Divisão da Europa Ocidental/ Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu – foi a de preparar a participação inédita do Brasil na tradicional Feira Internacional de Leipzig, evento que já datava de mais de oitocentos anos. Só para lembrar: Leipzig estava situada na então República Democrática Alemã – RDA,  país comunista do bloco soviético, com o qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas, considerando-o oficialmente como “Zona de Ocupação Soviética da Alemanha”, na linha da chamada Doutrina Hallstein, adotada pela RFA (Alemanha Ocidental) e segundo a qual, só ela tinha o direito exclusivo de representar internacionalmente a nação alemã.  A política comercial do Governo Castelo Branco, no entanto, enfatizava a necessidade de incrementar o comércio exterior do Brasil, ampliando sua participação nas principais feiras comerciais e industriais do mundo, inclusive as do bloco soviético, como Plovdiv, Poznan, Zagreb e Leipzig. Após meses de preparação, e quase às vésperas de partir para minha primeira viagem à Europa – onde, além da estada na RDA, eu deveria, por proposta de meu Chefe direto, visitar Moscou, por razões de trabalho e para conhecer de perto o principal posto diplomático da área – voltei a passar por momentos difíceis.

 

   O almoço de trabalho…

        Certo dia, para minha surpresa, recebi um convite super-honroso para almoçar com o Sub-Secretário Geral para Assuntos de Europa Oriental, Ásia e Oceania, o escritor e então Ministro J.O. de Meira Penna, um dos futuros expoentes do pensamento conservador brasileiro, de quem vim a ser depois amigo, até sua recente morte em Brasília, aos 100 anos de idade! (Que descanse em paz).  A razão para o inesperado convite de uma alta autoridade a um Terceiro-Secretário com apenas um ano de Casa seria, ao que me informaram, para uma troca de ideias e dados a respeito da participação brasileira em Leipzig. O almoço, nunca me esqueço, foi no restaurante do Museu de Arte Moderna, um dos melhores e mais simpáticos do Rio naquele tempo. A conversa fluiu muito bem até à sobremesa, quando meu amável anfitrião, como quem não quisesse nada, perguntou-me vagamente a respeito de um certo discurso de formatura que eu teria eventualmente escrito, e que fôra objeto de comentários que lhe chegaram aos ouvidos. Por incrível que pareça, não me espantei diante da situação: quase que já esperava por ela. Apenas observei ao meu interlocutor que lhe ficava muito grato por ter sido tão amável em questionar-me pessoal e diretamente sobre um assunto que eu julgava inteiramente superado, após tantos meses transcorridos. E passei a narrar-lhe minuciosamente cada etapa da novela do discurso, que ele ouvia com toda atenção.

Embaixador J.O. de Meira Penna

        Quando terminei, surpreendeu-me  ele de novo, afirmando que… já tinha lido o discurso! E mais: que na verdade as ideias e teses que dele constavam constituíam objeto de sua “preocupação diária”. Só que… faltavam palavras de condenação explícita aos regimes totalitários, etc. Argumentei, concluindo, que as reflexões do discurso estavam situadas no plano do Zollen e não no plano do Sein, ou seja, no plano do Ideal, do que deve ser, e não no plano da realidade presente, do que é. Em outras palavras, não havia lugar para condenações, mas apenas proposições para se chegar a um mundo mais justo, mais equânime, mais humano, tanto em termos das sociedades domésticas quanto no âmbito da sociedade internacional. Daí o título que cheguei a dar ao texto – Justiça Social e Desenvolvimento – concluindo com o destacado papel e imensa responsabilidade que caberiam ao funcionário diplomático nesse contexto, como cidadão e como representante de seu país na cena internacional.

        Ao retornarmos ao Itamaraty naquela tarde, tomei logo conhecimento de um despacho do Embaixador Pio Correia, Secretário-Geral do Ministério, no Memorando encaminhado pelo Chefe de minha Divisão, Conselheiro Celso Diniz, nos seguintes termos (textuais): “Suprimo a ida do Secretário Lauro Moreira a Moscou. Determino que em sua viagem de volta de Leipzig, via Europa Ocidental, vá até Berlim Ocidental, onde deverá redigir um relatório narrando as suas experiências pessoais da viagem.”

          Ou seja, provavelmente convencido pelo Ministro Meira Penna da inconveniência de cancelar minha ida a Leipzig, depois de quase um ano de trabalho, o Secretário-Geral houve por bem, uma vez concluída minha missão na Feira, cancelar a solicitada visita a Moscou e determinar uma excursão, digamos, “didática”, a Berlim Ocidental, para que eu, conhecendo então os dois lados da moeda (ou do mundo), fizesse a opção correta…Ocioso falar sobre o relatório que escrevi nas dependências do nosso Consulado-Geral em Berlim Ocidental, narrando e comentando em forma de diário os rigores do inverno europeu, os primeiros sinais da primavera, a maravilhosa apresentação da Paixão Segundo São Mateus ouvida em Leipzig, na própria Thomas Kirsch, Igreja onde meu ídolo J.S.Bach está enterrado, e outros assuntos do mesmo quilate, todos de grande relevância para a política externa do país…

 

Embaixador João Guimarães Rosa

         E se a Terra não for redonda?…

        Em meio a essa novela, quando após meses de calmaria e já de certeza de que não haveria mais formatura, houve um momento em que fiquei aflito. Foi quando recebi um chamado do Embaixador Guimarães Rosa ao seu Gabinete, para “contar-lhe a história de  um discurso que eu teria escrito, e que parece ter gerado uma certa confusão na Casa,” etc. E concluía: Lauro, eu quero ler esse discurso. Você pode me trazer uma cópia? Gelei. Pensei logo: tudo menos isso; politicamente o meu amigo era um tanto conservador e não iria gostar nada do que leria; e além disso eu tinha, claro, um indisfarçável constrangimento de mostrar qualquer texto meu ao gênio do Grande Sertão. Deixei passar uns dias, e ele sempre me cobrando. Não houve jeito. Acabei levando-lhe uma cópia, calculadamente às 12:45hs, ou seja, quase à hora de ele sair para o almoço. Mesmo assim, resolveu começar a leitura ali mesmo, e ao deparar com a mencionada epígrafe (Pode às vezes parecer mais vantajoso,etc) olhou-me pensativo e exclamou: Mas, Lauro, e se a Terra não for redonda…? Ao que eu emendei: mas para mim, ela é redonda! Ele soltou aquela gargalhada sonora e, para meu supremo alívio, decidiu sair para o almoço. Julguei o assunto liquidado, na  esperança de que ele logo o esqueceria. Mas ao final daquela mesma tarde, durante uma cerimonia de posse no Gabinete do Ministro de Estado, volto a ver o Embaixador Guimarães Rosa, que me acena de longe com sinais de que queria falar-me. Fiquei novamente incomodado. Saímos os dois em direção ao seu Gabinete e o que me disse ele em poucas palavras deixou-me sinceramente surpreso, alegre e até hoje orgulhoso: “Lauro, li o seu discurso. O seu discurso é ma-ra-vi-lho-so. Ninguém de boa-fé pode ser contra esse discurso.” Vindas de quem vinham, essas palavras amigas e generosas, escandidas com ênfase, compensavam largamente toda a luta inglória e frustrante que tive de enfrentar por conta de um simples discurso que não chegou jamais a ser pronunciado.

         Meninos, eu vi!

          Enfim, e voltando um pouco atrás, agora para retomar e concluir esta novela patética de um discurso não pronunciado e de uma formatura não acontecida, caberia apenas agregar que a partir  daquela época, dezembro de 1964, e por longos anos, não mais houve no Itamaraty a realização de cerimônia naqueles moldes tradicionais, com intervenção de paraninfo e orador de turma, resumindo-se o evento apenas a um almoço com a presença do Presidente da República e um discurso sobre política externa pronunciado pelo Chanceler.

         Um belo dia, já na Administração Collor, (1990-92), vinte e seis anos portanto mais tarde, fui procurado em minha sala em Brasília por dois formandos do Instituto Rio Branco, que instigados pelo fato de não terem descoberto nada  em suas pesquisas sobre a o motivo da ausência de formatura no ano de 1964, pediam-me esclarecimentos sobre o mistério e me informavam sobre a recente decisão do Instituto Rio Branco de se restabelecer a antiga tradição, há tantos anos abandonada. Viajei no tempo – e confesso que com saudosa lembrança – ao rememorar para os jovens futuros colegas as peripécias vividas por mim e meus treze companheiros dessa bonita aventura quixotesca. E, como o velho timbira do Y-Juca Pirama, arrematei: Meninos, eu vi!

        E hoje possivelmente ainda completaria: E vivi, e sobrevivi…   

Séculos depois…

                               

                                                                                                                          (Pano rápido)

 

 

                                                                                                                   **********************

 

       

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A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

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Outro Manuel que nos deixa

Lauro Moreira

Como os prezados leitores deste Quincasblog haverão de se lembrar, no início do passado mês de abril escrevi aqui uma matéria sobre a morte de Manoel de Oliveira, que trazia o sub-título de A grata longevidade dos Manoéis. Ademais do cineasta português, falecido naqueles dias aos 106 anos, referia-me também a outros Manoéis ou Manuéis, já falecidos, todos bastante longevos para sorte nossa, como os Poetas Manuel Bandeira (82 anos, mas com apenas um pulmão desde os 21) Manoel de Barros (97) e o Vaqueiro Manuel, personagem real e fictício de Guimarães Rosa (93 anos). Pois acabo de receber a triste notícia da partida de outro Manuel, meu amigo argentino de quase meio século, poeta, filólogo, exímio tradutor, advogado, político na juventude e personalidade cativante. Este, era o Manuel Graña Etcheverry, Manolo para todos nós, que em novembro próximo estaria completando seu centésimo aniversário.

Genro de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores, casado com a sempre lembrada e talentosa Maria Julieta, conheci Manolo e família em 1968, quando fui removido para Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático. Ao longo de quatro anos, tempo em que lá residi com Marly de Oliveira, então minha mulher, e nossa filha Mônica,  mantivemos um convívio praticamente diário com Manolo, Maria Julieta e os filhos Carlos Manoel e Luis Maurício, adolescentes, e Pedro Augusto, ainda uma criança. Aliás, não tenho como deixar de abrir  um parêntese e  relembrar aqui um dos poemas mais belos do Avô desses meninos, dedicado A Luis Maurício, Infante, que começa assim:

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

(…)

Apesar do longo tempo decorrido e da rarefação de nossos encontros a partir daquela época, fecho agora os olhos e revivo com nitidez e saudade detalhes de um sem número de momentos desse  convívio inesquecível.

No me esqueço da primeira visita que lhes fizemos, quando, por exemplo, contemplei de perto o famoso retrato de Drummond feito por Portinari, pendurado atrás do sofá da sala de visita. Nem do jantar, tempos depois, oferecido pelo casal ao amigo Vinicius de Moraes, nem de uma estada do próprio Drummond em visita à família, nem das artes culinárias de Manolo com seus “calamares en su tinta”…

Recordo ainda o apoio advocatício que ele sempre nos prestava na área consular, sobretudo na solução de alguns casos mais cabeludos, como aquele de uma jovem brasileira que havia sido “detenida para averiguaciones”, por carecer do necesário visto de permanência no país, e que em 48 horas acabara sendo vítima de sucessivos estupros praticados por policiais dentro da própria Comissaria.

Nosso convívio com Manolo e família se estendia por vêzes em tardes memoráveis na quinta que possuíam perto de Buenos Aires.  Volta e meia estávamos em animadas conversas nos constantes coquetéis da Embaixada do Brasil, chefiada a partir de 1969 pelo futuro Ministro de Estado das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, que, ao lado da Embaixatriz May, logo se tornaram também amigos íntimos do casal Graña.

Como grande intelectual e também poeta, Manolo traduziu boa parte da obra de Drummond e vários poemas de Marly de Oliveira, sobretudo do livro O Sangue na Veia. Aliás, nessa mesma época, Marly e Maria Julieta traduziram a Nueva Antologia Personal , de Jorge Luis Borges, publicada no Brasil pela Editora Sabiá, sucessora da Editora do Autor, que havia sido criada em 1960 por Fernando Sabino e Rubem Braga. E ainda nesse campo literário, vem-me à memória um momento bastante triste, que foi a morte de Manuel Bandeira, nosso amigo querido e padrinho de casamento, poucos meses depois de nossa chegada à Argentina, em outubro de 1968.  No Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, Marly de Oliveira e Maria Julieta prestaram-lhe então uma sentida homenagem, acrescida de um recital de poemas seus, ditos por mim.

Estas breves notas soltas não têm outro propósito senão o de prestar agora uma afetuosa homenagem a esse outro excelente e longevo Manuel, Manuel Graña Etcheverry, o meu querido amigo Manolo. Descanse em paz.

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E mantendo o já  prometido neste Quincasblog, apresento hoje mais dois poetas de meu DVD Mãos Dadas: Gonçalves Dias e Fagundes Varela. Para ver e ouvir, clique nos links abaixo.

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DUAS ESTRELAS QUE SE APAGAM

                     Duas estrelas que se apagam

                                                                   Lauro Moreira

 

       O final do mês de janeiro deste 2015 foi triste para o Brasil, especialmente para a arte e a cultura. Em dois dias consecutivos, 27 e 28, morreram duas figuras admiradas pelos brasileiros, especialmente por aqueles que as conhecíamos de mais perto. Duas mulheres que marcaram sua passagem pela vida, marcando a vida de muitos que a conheceram. Embora eu não tivesse privado mais longamente com ambas, tive a sorte de conhecê-las em determinado momento e de conviver um pouco com cada uma delas. A primeira se chamava Vanja Orico, cantora, atriz e cineasta, e a segunda, Susana Moraes, atriz, cineasta e ativista cultural. Ambas filhas de escritores e diplomatas de carreira, ambas vítimas em certo momento da repressão da ditadura militar implantada no país em 1964. Ambas sucumbiram ao câncer.

 

 

Vanja, cantora

Vanja, cantora

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Vanja, a atriz

Vanja, a atriz

A PRIMEIRA ESTRELA

 

Sobre a primeira, os jornais do dia noticiaram que “a cantora, atriz e cineasta Vanja Orico, nome artístico de Evangelina Orico, morreu nesta quarta-feira, 28, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, vítima de complicações decorrentes de câncer no intestino. Ela também sofria de mal de Alzheimer e estava internada no Hospital Copa D’Or, em Copacabana (zona sul), desde o dia 11.  Vanja, filha do escritor Osvaldo Orico (1900-1981), tornou-se famosa em 1953, quando cantou “Mulher Rendeira” no filme “O Cangaceiro”, premiado no Festival de Cannes e sucesso mundial. Depois atuou em outros filmes do chamado Ciclo do Cangaço, passando a ser considerada musa do gênero. Além de “O Cangaceiro”, participou de “Lampião, o rei do cangaço” (1964), “Cangaceiros de Lampião” (1967) e “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro” (1972). O início de sua carreira ocorreu quando Vanja morava na Itália. Ela foi descoberta pelos cineastas Alberto Lattuada e Federico Fellini quando atuava em Roma no show chamado Macumba, patrocinado pela RAI (Rádio e TV Italiana), em 1952.”

              Caberia apenas acrescentar que seu pai, o paraense Osvaldo Orico, foi membro da Academia Brasileira de Letras desde os 36 anos, e que como diplomata, serviu em postos como Santiago, Buenos Aires, Beirute e Haia. Ou seja, como filha de diplomata, vivendo boa parte de sua adolescência e juventude no exterior, Vanja começa a exercitar seu talento de cantora junto a plateias estrangeiras, o que explica sua descoberta por Fellini e Lattuada, descoberta que a levou a atuar, aos vinte anos, no filme Luci del Varietá (Mulheres e Luzes) dirigido por ambos em 1950, e no qual ela canta o tema folclórico Meu limão, meu limoeiro. Mas a participação que lhe deu maior destaque em toda sua longa e prolífica vida no cinema, onde atuou em mais de vinte filmes, foi sem dúvida em O Cangaceiro (1953), produzido pela famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiróz, e que veio ser um dos maiores sucessos do cinema brasileiro até hoje.

        Vim a conhecer Vanja Orico pessoalmente nos anos de 1990, na Espanha, em circunstâncias curiosas, e nosso convívio, embora extremamente agradável, não chegou a ultrapassar o prazo de uma semana. Na época, entre início de 91 e fins de 94, eu ocupava o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona, cidade também de meus encantos (ao lado de Lisboa) e que vivia seus melhores momentos, preparando-se, remodelando-se e se reurbanizando para a apresentação dos Jogos Olímpicos de 92 – um estrondoso sucesso. Logo que assumi o posto, tratei de valer-me dessas circunstâncias muito especiais, gestando um ambicioso programa de divulgação cultural do Brasil. Para começar, fundamos o Clube da Música Brasileira de Barcelona, instituição que atraíu logo a atenção dos catalães e atuou, com grande dinamismo, ao longo de vários anos, mesmo após minha saída do posto.

        Ao cabo de pouco tempo, no entanto, fui me dando conta de que o interesse e o entusiasmo do público local pela música brasileira não escondia uma dose considerável de desconhecimento, evidenciado numa confusão de gêneros, épocas e estilos diferentes. Isso levou-me a escrever um espetáculo intitulado Un Viaje através de la Música de Brasil, em que procurava traçar um largo panorama de nossa música, de seus primódios no século dezenove ao final do século vinte. Ao longo de nove blocos cronológicos, eram então apresentadas algumas das melhores e mais representativas canções de cada época – antecedido cada bloco de uma breve narração, em que se contextualizava e se explicava brevemente cada uma dessas várias etapas. Ou seja, tratava-se de um show sui-generis, onde se ouvia a melhor música do Brasil e se aprendia muito sobre ela e o país que a produzia. Para apresentar o espetáculo, tive a sorte de contar com uma cantora e alguns músicos brasileiros de qualidade que já viviam em Barcelona. Com eles criamos o Grupo Som Brasil (que na língua catalã significa Somos Brasil), e ao longo de dois anos nos apresentamos com grande sucesso em 22 cidades da região, além de Barcelona. Apresso-me a acrescentar, para não gerar uma possível confusão por parte de muita gente e em muitos países, que esse Som Brasil foi, sim, a primeira encarnação, digamos, do extraordinário Grupo SOLO BRASIL (outro trocadilho), que vim a criar mais tarde, em fins de 1999, quando exercia a direção do Departamento Cultural do Itamaraty. O SOLO BRASIL continua vivo, após tantos anos e tanto sucesso logrado em 20 países de quatro continentes, e em mais de 40 cidades brasileiras, com um CD gravado ao vivo em 2003 no Brasil e um DVD filmado no Teatro da Trindade de Lisboa, em uma das 19 apresentações do grupo em Portugal, em dezembro de 2009.

         Deixemos porém para outro momento o relato da bela trajetória do SOLO BRASIL, projeto de que permito orgulhar bastante, confesso. Mas afinal por que essa longa introdução para falarmos de nosso pranteado personagem de hoje, Vanja Orico? Apenas porque certo dia em Barcelona, em 1993, recebi um telefonema seu de Paris, onde residia com o marido, o engenheiro francês Adolfo Rosenthal, e que ao ouvir falar dessa efervecência cultural do Consulado do Brasil na Catalunha, consultava-me sobre a possibilidade de organizarmos um espetáculo com sua participação. Gostei da ideia e pusémo-nos a trabalhar na montagem do show, contando para isso com o já experimentado Grupo Som Brasil.

        Ao levar a cantora em visita à Rádio Nacional de Espanha, logo de sua chegada a Barcelona, não me surpreendeu o fato de que a emissora contasse em sua discoteca com exemplares de vários de seus long-plays gravados na Europa e no Brasil. É bom lembrar que por esse tempo no Brasil só os menos jovens como eu, digamos, conheciam e se lembravam da atriz de O Cangaceiro, e poucos sabiam de sua fama em outros países, sobretudo na Europa. No espetáculo que me coube dirigir, a pedido da própria intérprete, em que ela apresentava várias peças de seu repertório, ficou para sempre em minha lembrança, e na do público que lotava o Teatro Casal del Metge, e na da própria Vanja, o momento em que ela entrava no palco pela primeira vez: eu havia tido a feliz ideia de fazer projetar no telão ao fundo uma sequência de O Cangaceiro, justamente aquela em que o Capitão Galdino, o chefe, está com todo seu bando, incluindo as mulheres, em torno de uma fogueira ao ar livre, numa noite de descontração. A certa altura, a jovem interpretada por Vanja Orico, magoada pela rejeição de seu homem, que a trocara por outra, começa a cantar em tom plangente a toada Sodade, meu bem, sodade. Nesse exato momento, a própria Vanja Orico entra em cena e continua a canção ao vivo, acompanhada agora pelos músicos no palco, enquanto as imagens da tela vão se desvanecendo. Pura emoção : da tela ao palco mediavam 40 anos… O show contagiou a todos, inclusive a intérprete, e o sucesso foi enorme.

          Nunca mais voltei a ver minha cantora. E sua partida agora me despertou para esses momentos de um passado que, embora fugaz, ficaram e ficarão para sempre em minha memória afetiva.

 

 A SEGUNDA ESTRELA       

Susana Moraes, atriz

Susana Moraes, atriz

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       A segunda estrela que se apagou, como disse, foi Susana Moraes, atriz e cineasta, com quem tive um convívio menos breve, em circunstâncias muito diferentes, mas igualmente agradável. Nos anos da ditadura militar, a mão pesada da censura, através da famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) alcançava duramente o teatro, o cinema, a televisão, a literatura, a imprensa, a música. Os protestos generalizados acabaram fazendo com que, no Governo do General Figueiredo, fosse criado o Conselho Superior de Censura (CSC), com vistas a reduzir o poder dos censores e abrir um caminho auxiliar para uma pretendida abertura política, “lenta e gradual”, como queria o Governo.

        Nos anos de 86 e 87, já com a democracia restaurada, e ocupando eu a Chefia da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty em Brasília, fui designado representante do Ministério junto a esse Conselho Superior, que funcionava no âmbito do Ministério da Justiça. Cheguei mesmo, em um certo período, a presidi-lo, e tive como colegas algumas figuras de relevo de várias áreas da sociedade civil – como o poeta e acadêmico Ledo Ivo, a atriz e então Deputada Beth Mendes, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, meu amigo dos tempos do Serviço Militar, o ator Carlos Miranda, companheiro dos tempos do Festival de Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno – representando órgãos como o Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal da Educação, o Instituto Nacional de Artes Cênicas, a EMBRAFILME, a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, etc. Foi nessa época, 1987, que o Conselho Superior de Censura começou a trabalhar, junto aos Constituintes eleitos para a elaborar a Constituição de 88, no projeto de transformação do órgão em Conselho da Liberdade de Criação e Expressão. E foi também nessa época que conheci minha colega de Conselho e depois minha amiga Susana Moraes, representante da área de cinema.

          O Conselho se reunia regularmente em Brasília, contando sempre com o entusiasmo de seus membros na benemérita missão de atenuar e depois extinguir a censura prévia no país, o que se conseguiu justamente através da entrada em vigor da nova Carta Magna. Meu convívio com essa mulher bonita, simpática, inteligente, culta e rebelde, limitou-se a pouco mais que esses contatos regulares em Brasília e, posteriormente, a um ou outro encontro fortuito e em ocasiões diversas, sobretudo no Rio de Janeiro. Mas era sempre um enorme prazer estar com ela, com essa filha primogênita e querida do poetinha e grande poeta Vinicius de Moraes. Dito isso, gostaria de concluir essas lembranças com duas tocantes notas de pesar divulgadas no dia do desaparecimento de minha amiga, uma por sua companheira ao longo de vinte e seis anos, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, e a segunda por sua família de sangue:

 “Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária, e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida”,

 “Perdemos nossa matriarca, que como filha primogênita adorada de Vinicius e idolatrada por todos da família, se fez de guia para nos ajudar a suportar e cuidar com responsabilidade da obra do poeta. Linda, culta, inteligente, forte, Susana era nosso esteio, e nos deixa o melhor dos legados, um amor inesquecível e um grande exemplo de mulher”.

 

      

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UMA NOITE MUITO ESPECIAL

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (199

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (1996)

UMA NOITE MUITO ESPECIAL EM SANT CUGAT – BARCELONA

                                                                               Ora, direis, ouvir estrelas!

                                                                                                               O. Bilac

 Lauro Moreira

 

CAPA DO LIVRO

CAPA DO LIVRO

 

Em nossa última conversa aqui no Quincasblog, que acabou merecendo comentários generosos de vários leitores, falamos sobre uma certa noite mágica num apartamento da Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, e que teve como protagonista o nosso bardo Manuel, Bandeira do Brasil, no longínquo ano de 1968. Longínquo, sim, pois não nos esqueçamos de que sessenta por cento dos 200 milhões de brasileiros de hoje não eram sequer nascidos naquele ano agitado que incendiou Paris e boa parte do mundo…

Pois bem, hoje vamos falar de uma outra noite, igualmente mágica e por isso também inesquecível para mim, para minha mulher, Liana, e para o reduzido grupo de pessoas que tivemos o privilégio de vivê-la. Não foi no Rio de Janeiro, mas nos arredores de Barcelona, em Sant Cugat, no verão de 1994, mais precisamente em 11/12 de julho, ou seja, vinte e sete anos depois da noite mágica de Botafogo. Mas, comecemos da capo, pois acho que vale a pena contar-lhes com algum detalhe o que sucedeu naquele encontro único e surpreendente em casa do Cônsul-Geral do México em Barcelona, meu colega da diplomacia, poeta (hoje também pintor celebrado) e amigo fraterno, Edmundo Font.

Eu já vivia em Barcelona com a família desde janeiro de 1991, removido pelo Itamaraty para ocupar o posto de Cônsul-Geral naquela cidade de que tanto gostava antes mesmo de conhecer, e que vivia então em graça e plenitude, concluindo ao cabo de oito anos as obras fantásticas de infraestrutura e reurbanização, que a preparavam não apenas para os Jogos Olímpicos de 92, mas para o século seguinte. Aliás, os leitores mais assíduos deste Quincasblog certamente se lembrarão de uma crônica que postei aqui em outubro do ano passado, com o título de Barcelona e Rio de Janeiro, onde incluí um link para um vídeo inesquecível (Transformació d´una Ciutat) sobre essas mesmas obras. Quem não viu, sugiro que o faça agora, porque é absolutamente imperdível. Acesse o site www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

Alguns meses depois de nossa chegada ao Posto, a telefonista do Consulado recebe pela manhã uma chamada de um certo Senhor Edmundo Font, Embaixador do México em Bogotá, que estava de passagem pela cidade e desejava falar com o Cônsul do Brasil. Atendi com a maior presteza e atenção, como faria naturalmente com qualquer colega, mas no caso, confesso que também com alegria, por se tratar de representante de um país que eu conhecia bem e admirava muito. Fiquei sabendo então que meu interlocutor já estava removido oficialmente de Bogotá para Barcelona, onde deveria assumir suas novas funções dentro de uns dois meses. Convidou-me para almoçar naquele mesmo dia.

Ao ver minha surpresa com o seu perfeito domínio do Português, explicou-me radiante que havia sido durante sete anos Cônsul de seu país no Rio de Janeiro, onde inclusive havia nascido uma de suas três filhas. O almoço estendeu-se pela tarde, ponteado por uma conversa amistosa, durante a qual vim a saber também que ele era um apaixonado pelo Brasil; que fizera amizades preciosas com figuras como Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade; que havia traduzido e publicado no México o livro de poemas de Drummond sobre o Quixote, ilustrado por Portinari; que ele também era poeta com vários livros já publicados, além de ser um fanático da música brasileira, havendo feito inclusive versões para o espanhol de algumas canções de Roberto Carlos; que as paredes de sua casa eram cobertas por óleos e gravuras de artistas do Brasil; que ainda mantinha sempre contato com seu Pai de Santo carioca; que…, que, em uma palavra, era um profundo admirador de meu país! Vi que nossas afinidades eram tantas que não tive dúvidas em convidá-lo a comparecer, naquela mesma noite, à reunião semanal do Clube da Música Brasileira de Barcelona, um exitoso centro que eu havia criado para difundir o Brasil na Catalunha, onde promovíamos concertos com músicos brasileiros residentes ou de passagem, mesclados às vezes com instrumentistas espanhois, além de palestras, filmes, recitais de poesia brasileira em português, castelhano e catalão, etc.

Poucos meses depois, o meu mais novo amigo já havia assumido seu Posto de Cônsul-Geral do México e residia em uma casa muito simpática em San Cugat, nos arredores de Barcelona. Nossas famílias tornaram-se amigas de infância…E quanto mais eu o conhecia, mais admirava a sua sensibilidade, sua cultura, sua deferência para com todos, especialmente com seus empregados e funcionários do Consulado. Paco, seu motorista e amigo que o acompanhava por todas as partes, tornou-se amigo do Aurélio, meu motorista e amigo que eu levava para todos os cantos. Foi ele, Edmundo, que me convidou para assistir certo dia a uma conferência de uma das figuras mais marcantes da cultura iberoamericana, a quem eu tanto admirava e admiro e a quem ele me apresentou pessoalmente: o seu amigo Octávio Paz, um dos maiores poetas e ensaístas do século vinte. Seu livro El Labirinto de la Soledad, que eu havia lido ainda nos anos sessenta, em Buenos Aires, continua sendo para mim um dos ensaios mais argutos e sensíveis jamais escrito sobre a alma de um povo – no caso, a rica, contraditória e complexa alma mexicana.

Outro escritor de marcante personalidade que me foi apresentado pessoalmente por Edmundo Font em um jantar em Barcelona, foi o italiano Antonio Tabucchi, falecido precocemente há dois anos e enterrado em Lisboa, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e de Bologna, conhecedor profundo e apaixonado da obra de Fernando Pessoa e seu mais importante tradutor para o italiano, casado com uma portuguesa de nobre ascendência  (Maria José de Lancastre), autor de uma vasta e respeitada obra de ficção e de crítica ensaística. Quando o conheci, em 1994, Tabucchi não tinha ainda completado a metade de sua obra, mas naquele mesmo ano publicava dois de seus livros mais interessantes, que vim a ler pouco depois: Os três últimos dias de Fernando Pessoa, no qual imagina e descreve os diálogos de uma visita feita ao Poeta, em seu leito de morte no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, por alguns de seus principais heterônimos; e o premiado Afirma Pereira, romance filmado por Roberto Faenza em 1995, com Marcello Mastroianni e Daniel Auteuil como protagonistas.

Um dos melhores programas para mim em Barcelona era visitar a família Font em sua deliciosa mansão em San Cugat. Certa vez, convidados para um jantar íntimo, numa noite gelada de fevereiro, chegamos lá e deparamos com o dono da casa em trajes completamente disparatados para aquele clima: Edmundo estava todo de linho branco, inclusive meias e sapatos  brancos. Ao abrir-nos a porta, foi logo esclarecendo:

– Vocês estão lembrados que hoje é dia 2 de fevereiro, não? Dia de Iemanjá, meus queridos! E junto ao dono, parecendo também comemorar, saltitante, a data tão especial, recebeu-nos um dos insígnes personagens da casa: o cãozinho que ele havia levado do Brasil e atendia pelo nome delicioso de Dendê.

Bem, depois deste interminável embora necessário (será?) nariz de cera, acho que podemos agora entrar em matéria propriamente dita, ou seja, na prometida estorinha da noite mágica. Aí vai ela – e a essas alturas todos os meus parcos e generosos leitores já perceberam que ela só poderia ter ocorrido em casa do… Dendê, certo? Pois foi.

                                                          NOCTURNO EN SAN CUGAT

Uma tarde no verão de 1994, o nosso Font me telefona convidando para um pequeno jantar em sua casa. Da família, só ele, a cozinheira Ricarda e o Dendê estariam em casa, já que sua mulher Patrícia e as filhas se encontravam de férias no México. Seria um encontro improvisado para uns poucos amigos, em torno de um conhecido poeta cubano chamado Pablo Armando Fernández, também seu amigo de fé e carteirinha, que estava de passagem pela cidade. Os demais, além de mim e de minha mulher, seriam um editor de livros (Emílio Payán) e um pintor (Juan Sebastián), ambos mexicanos, o cabelereiro do Rei de Espanha (!) Pascual Iranzo, uma figura surpreendente, além de Paco, o indefectível motorista de Edmundo, a cozinheira Ricarda e o também infalível Dendê. O jantar foi memorável, não apenas pela culinária como pela conversa mais que interessante de um grupo aparentemente tão heterogêneo.

Terminada a refeição, fomos todos para o jardim e continuamos a conversa em torno de uma mesa redonda ao lado da piscina. A noite era agradável, a temperatura amena, só não me lembro se havia estrelas no céu. Mas como se verá, elas começaram a aparecer de repente, da maneira mais inesperada e insólita… Foi quando o assunto resvalou para a poesia. Notei que o dono da casa ausentou-se de repente, voltando em seguida com um maço de folhas de papel em branco e algumas canetas. E então, como quem não quer nada, o nosso poeta Pablo Armando começa a rascunhar um texto em homenagem ao anfitrião, expressando-se em voz alta e escrevendo ao mesmo tempo. E enquanto isso, o pintor Juan Sebastián agarrava uma folha em branco e, à medida que ouvia as palavras e os versos ditos e escritos por Pablo Armando, passava a desenhar a toda a pressa e em absoluta concentração. Fez-se um silêncio completo na mesa. Só os dois artistas trabalhavam, absortos, como que desligados de tudo. Na verdade, parecia-nos, aos demais, que estávamos participando de uma misteriosa sessão de psicografia… com a pequena diferença de que o autor psicografado estava ali mesmo, de corpo presente. Ao cabo de quinze ou vinte minutos, tínhamos sobre a mesa o manuscrito de um poema intitulado El Bardo y Las Musas Cardinales, com a dedicatória Para Edmundo Font, e um desenho forte, expressivo, representando em uma só cabeça o bardo Edmundo, sua mulher Patrícia e as três filhas, com a assinatura de Juan Sebastián.

Mas isso foi apenas o ponto de partida de uma longa jornada noite/arte adentro, pois a inspiração dos artistas estava para o que desse e viesse. E lá fomos nós, os demais presentes, recebendo encantados cada qual o poema e o desenho que lhe eram dedicados e que iam sendo gestados ao longo da madrugada. Liana, eu, o cabelereiro do Rei, o editor Emílio Payán, o chofer Paco, a cozinheira Ricarda e … Dendê, claro, além do próprio poeta e do pintor, que também providenciaram suas homenagens recíprocas. A “sessão” só findou com a chegada da manhã, quando artistas e homenageados nos despedimos e com a alma em festa deixamos aquela casa e aquela noite, onde algo de muito, muito especial se havia passado.

Dias depois, recebi do Edmundo uma cópia em xerox dos poemas manuscritos e dos respectivos desenhos. Guardei tudo com muito carinho e muita saudade. Fui removido para Brasilia no final de 1994. Uns dois anos depois, em viagem de trabalho à Índia, fui convidado para almoçar na Residência do Embaixador mexicano em Delhi. Quem era ele? Edmundo Font… E nessa tarde ganhei um presente muito, muito especial… Alguns exemplares de um livro intitulado NOCTURNO EN SAN CUGAT, numa edição bilingue, com os poemas de Pablo Armando em sua tradução para o inglês feita pelo tradutor de Octávio Paz na Índia, e com os desenhos originais de Juán Sebastián. Publicado em papel reciclado por Ediciones Lodi Garden en Delhi – outra invenção de Edmundo Font…

Em 2002, estando eu como Embaixador no Marrocos, onde criamos também um Centro Cultural extremamente dinâmico, resolvi um dia traduzir para o Português os poemas de Nocturno en San Cugat e incluir em nossa programação um recital interpretado em três línguas, convidando para participar comigo um diplomata norte-americano e um argentino, que era também poeta. E, claro, antes de dar início à leitura dos poemas, contei ao numeroso público presente (e era de fato numeroso!) a estorinha que agora acabo de lhes contar, meus caros amigos e amigas do Quincasblog.

Há quase dez anos não vejo meu velho amigo mexicano, que reside hoje em seu país e continua na diplomacia, mas que acabou se dedicando de corpo e alma a desenvolver mais um de seus talentos, transformando-se num pintor de reconhecidos méritos. Acompanho suas novas atividades pelo Google, mantendo-me a par do grande sucesso que vem obtendo com suas exposições no México, Estados Unidos e outros países da América.

Vejam agora algumas fotos ilustrativas do que acabamos de evocar, incluindo uns poucos poemas e respectivos desenhos. Com grande imodéstia, destaco o poema Semillas, Estaciones, dedicado a Lauro Moreira e que, por puro acaso, considero um dos mais bem logrados de todo o livro… A frondosa árvore do louro (ou seja, lauro) resiste a todas as adversidades, mas afinal se lamenta ao ver por vêzes vêzes suas folhas tecidas em uma coroa (laurel) ornando imerecidamente a fronte de falsos herois. A tradução francesa foi feita pela minha amiga e poeta Jacqueline Seyrat.

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE "SEMILLAS, ESTACIONES"

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE “SEMILLAS, ESTACIONES”

POEMA E DESENHO PARA LAURO

POEMA E DESENHO PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

POEMA PARA DENDÊ

POEMA PARA DENDÊ

LIANA/DESENHO

LIANA/DESENHO

POEMA PARA LIANA

POEMA PARA LIANA

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

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A COZINHA DA COPA

A COZINHA DA COPA (Continuação)

Lauro Moreira

Pois é, meus amigos, eu pretendia acabar logo com esse papo interminável de Copa, antes mesmo que a atual se iniciasse, mas acabei me atrasando, entrando no clima e obviamente plantando-me diante da televisão, desde o jogo inaugural do Brasil contra a Croácia no Itaquerão, ops, na Arena do Corínthians, quando tivemos, creio eu, a mais chocha, aguada e desenxavida abertura de quantas já se apresentaram até hoje. Claro que nada disso tem a ver com o Brasil, pois o espetáculo era de responsabilidade única da FIFA, que decidiu contratar uma coreógrafa belga para realizá-lo… Aliás, estou começando a achar que a grande contribuição da FIFA para essa Copa de 2014 foi a de impor o nome de Arena aos nossos Gigantes  novinhos em folha , deixando a tradicional designação de Estádios apenas para os devidamente recauchutados… Já sobre o jogo de inauguração, não me parece cabível acrescentar nada mais a tudo que já se disse em prosa e verso, em palavras e imagens, no Brasil e em todo o mundo, das façanhas de Neymar à vista grossa (ou miopia?) do juiz japonês e ao gol contra de Marcelo. Além disso, é bom lembrar que aqui  neste Quincasblog  apenas estamos passando a limpo memórias de Copas idas e vividas, e não de disputas in fieri

1974: A Copa em cores       

Mas voltando ao final de nosso capítulo anterior e deixando para trás as glórias do Tricampeonato no México 70, pouco temos de positivo para falar da Copa seguinte, a décima, realizada na Alemanha e pela segunda vez vencida por um país-sede. A grande novidade para nós no Brasil foi a de ver pela primeira vez uma Copa colorida, ou seja, transmitida em cores pela TV. Eu me encontrava em Brasília, cedido por empréstimo, tal como um jogador, ao Ministério da Indústria e Comércio, onde assumi as funções de Chefe da Assessoria Internacional do Ministro Severo Gomes. Assisti aos jogos em um telão – novidade na época – instalado numa salão do Itamaraty.ImagemImagemImagem

A equipe que de fato marcou essa disputa e entrou para a história foi a da Holanda, de volta após 36 anos de ausência e que desclassificou inclusive o Brasil  de Rivelino e Jairzinho (2×1), com seu irresistível e até hoje famoso Carrossel, caracterizado por uma incrível mobilidade de todos os jogadores. Figuras como Johan Cruijff, hoje uma lenda do futebol, atuavam praticamente em todas as posições, levando o time à final contra a Alemanha Ocidental, equipe de outro mito extraordinário, Franz Beckenbauer, que já me tinha impressionado muitíssimo quatro anos antes, no México. Infelizmente, porém, e para dar outra vez razão às bruxas, a fantástica Laranja Mecânica, a favorita absoluta, não passou de um melancólico segundo lugar, (que em certas circunstâncias corresponde ao último, o Brasil que o diga), amargando uma derrota final por 2×1 para a onipresente e renitente equipe alemã. Enfim, c´est la vie!…

 

1978: A Copa dos milicos e da suspeita

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Foi a vez de a Argentina faturar o seu caneco. Mas da maneira mais polêmica e duvidosa. Aliás, essa foi de fato a Copa da Discórdia, e isso se pode atribuir em grande parte ao péssimo clima político que tomava conta do país, dominado por uma ditadura militar brutal, chefiada pelo General Rafael Videla, condenado mais tarde à prisão perpétua por “crimes de lesa-humanidade”, cometidos nessa época em que esteve à frente do governo e de uma monstruosa repressão política, onde os sequestros, as detenções, as torturas e os assassinatos se tornaram eventos quotidiano. As investigações posteriores nos dão conta de que as aclamações patrióticas dos torcedores nos jogos do Estádio Monumental de Nuñez abafavam os gritos dos prisioneiros torturados na famigerada Escuela de Mecánica de la Armada, a Casa dos Horrores que distava poucas quadras do estádio. A Copa do Mundo, portanto, foi uma iniciativa das autoridades militares para tentar encobrir a triste realidade do país naqueles momentos sombrios. De qualquer modo, nada a ver com o Brasil de 70, a despeito da ditadura que também controlava a vida política do país.

Mas não resta dúvida de que uma série de outros elementos contribuíram para aquecer a polêmica. A mero título ilustrativo, podemos elencar as inúmeras falhas na organização, com estádios inacabados, grama se soltando sob os pés dos jogadores, a Seleção da casa jogando quase todas as suas partidas em Buenos Aires e obrigando as demais a longas viagens pelo país, juiz apitando o término de uma partida  empatada, com a bola no ar lançada de um corner na cabeça de Zico, que fez o gol de desempate anulado pelo árbitro inglês (Brasil x Suécia), etc. Além disso, como Argentina e Brasil disputavam uma vaga na decisão, marcou-se na última hora o jogo Brasil x Polônia para as 16:45 e o da Argentina x Peru para as 19:15… Mas evidentemente nada se compara ao que aconteceu nesse jogo da Argentina contra o Peru, quando os os anfitriões precisavam fazer no mínimo 4 x 0 para eliminar o Brasil, e fizeram nada menos que 6×0, e contra uma equipe que até então estava bastante bem na disputa. As suspeitas de que jogadores peruanos facilitaram a dilatada vitória argentina persistem até hoje, agravadas por depoimentos de jornalistas e até de jogadores peruanos aparentemente arrependidos. Mas a verdade é que, no caso do Brasil, bastaria não termos empatado com os argentinos, para no final dependermos apenas de nós.

A moral da história é que a Argentina contava com um bom time e um bom técnico (César Menotti) e acabou na final atropelando o Carrossel Holandês, que a essas alturas já andava meio estropeado. À Seleção Canarinho, recheada de craques como Leão, Zico, Roberto Dinamite, Dirceu e Reinaldo, coube o terceiro lugar e um título inédito, o de Campeão Moral, inventado depois pelo técnico Cláudio Coutinho, já que o país saíra invicto da Copa, e de uma Copa bastante suspeita. Millor Fernandes chamaria essa façanha depois de a Invictória brasileira

 

1982: De novo as bruxas: A Tragédia de Sarrià

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Essa foi muito triste, e não só para o Brasil como para milhões de amantes do futebol-arte em todo o mundo. Eu, de licença no Itamaraty e vivendo temporariamente em São Paulo, trabalhando  como Superintendente de Operações Externas da trading company Comexport, vivi com grande alegria os jogos do Brasil, acompanhados pela TV, até aquele fatídico encontro com a Itália, equipe que vivia uma péssima fase, havendo em quatro jogos logrado apenas uma vitória. Enquanto isso, depois de ultrapassar com total facilidade a primeira fase, a brilhante equipe de Telê Santana , que contava com gente do nível de Zico, Sócrates, Toninho Cerezo, Júnior e Falcão, despachava a Argentina (3 x 1) com grande superioridade técnica e tática, com dois gols de Zico e um de Serginho.

Mas, fazer o quê, soltaram de novo a bruxa, aquela que que só sabe aguar o chopp e melar a festa dos favoritos absolutos… E lá fomos nós pro brejo, na Tragédia do Sarrià, (nome do bairro e do estádio do Clube Espanhol de Barcelona, do qual vim a ser vizinho cinco anos depois. Foi outro Maracanazo em nossa vida, tangidos pelo doloroso açoite de um alucinado Paulo Rossi, que veio ao mundo só para estragar os nossos mais belos sonhos de um tetra campeonato… Derrota de 3 x 1, com três de Rossi. Será que de novo fomos vencidos pelo excesso de auto-confiança, pelo quase inevitável clima do já ganhou? Sei lá, minha gente, mas acho que quem tem razão mesmo é o elefante determinista da premiada peça Inocêncio quer Girafa – montada por nosso grupo teatral no Rio dos anos 60, e de autoria de meu já citado e pranteado amigo Luiz Carlos Saroldi – quando volta e meia repetia, lentamente, levantando uma pata traseira e depois outra: O que tem de ser, tem muita força!

(Pano rápido)

 

 1986: A Copa vista da cozinha

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Entrada da Concentração em Toluca

Entrada da Concentração em Toluca

 

Essa Copa, como já disse, eu vi de muito perto. Perto até demais. Foi a Copa do Bicampeonato argentino, da glorificação de Maradona e sua Mano de Dios, da inauguração da desagradável sequência da França como algoz do Brasil nas Copas, da injusta crucificação posterior de Zico, acusado por muitos como responsável direto pela derrota e consequente desclassificação brasileira, por haver perdido um pênalti no transcorrer daquele empate contra a França, esquecendo-se que na decisão final por pênaltis Zico converteu, enquanto Sócrates e Júlio César deixaram de marcar…

        E coube novamente ao México sediar uma Copa do Mundo, em vista da desistência da Colômbia, às voltas com sérios problemas econômicos, que havia sido escolhida desde 1974, e da recusa dos Estados Unidos, Canadá e Brasil (decisão do Presidente Figueiredo) em substituí-la. A declaração do Presidente colombiano Belisário Betancur não poderia ter sido mais contundente: “Aqui não se cumpriu com a regra de ouro em que a Copa deve servir à Colômbia e não a Colômbia à multinacional FIFA. Não há tempo para atender às extravagâncias da FIFA e de seus sócios. “ E, não nos esqueçamos, o Presidente da FIFA era o brasileiro João Havelange, que ampliara para 113 o número de países participantes da fase classificatória, dos quais 24 se encontrariam na Copa mexicana.

 

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MISSÃO EM GUADALAJARA

Pois não é que lá estava eu, posto em sossego, vivendo em Washington desde 1983, como Conselheiro da Embaixada do Brasil, quando recebo do Itamaraty a desafiante incumbência de atuar como elemento de ligação com a Delegação da CBF e de criar a Casa do Brasil em Guadalajara, cidade sede de nosso grupo, e na Cidade do México, onde esperávamos repetir o sucesso de 70 e jogar a partida final… Topei o desafio, arrumei as malas e entusiasmado viajei em abril de 86 para o país onde vivera, dezesseis anos antes, uma aventura inesquecível, como narrado aqui em nosso capítulo anterior, e aonde voltara algumas outras vezes a trabalho, entre 74 e 79, na qualidade de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX e do Ministério da Indústria e Comércio. A primeira providência, claro, foi a de buscar um imóvel em Guadalajara que pudesse abrigar adequadamente uma Casa do Brasil que fosse também, e sobretudo, um centro de recepção do torcedor mexicano, especialmente o de Jalisco, que já havia demonstrado sua imensa simpatia pelo Brasil na Copa do Tricampeonato.

A CASA DO BRASIL

Contrariando a tendência de colegas da Embaixada na Cidade do México e de colaboradores da agência local do Banco do Brasil, que já haviam em princípio optado por um hotel de cinco estrelas localizado em zona nobre da cidade, procurei com sucesso fazê-los ver que o nosso público – alvo principal – o torcedor anônimo local, o Juan Pueblo – não conseguiria talvez ultrapassar a porta de entrada de um luxuoso hotel como aquele, até por questões de segurança. Deste modo, partimos para um plano B e negociamos o aluguel de uma casa histórica (onde nascera uma ex- primeira dama do país), térrea, bem localizada, com uma área total de 3 mil metros quadrados e toda voltada para um aprazível pátio interno. Pertencia então a dois irmãos, ambos dentistas, que a alugavam regularmente para grandes festas, bailes de formatura, congressos, etc. Lembro-me que após horas de amistosa negociação, consegui reduzir o salgado aluguel de 22,5 mil dólares (500 dólares/dia,  preço que costumavam cobrar), para 9 mil, ao acenar-lhes finalmente com a autorização para a venda de cerveja no local, mas nunca de tequila ou de qualquer outro hard-liquor, como pretendiam – e por razões óbvias. Fechamos, em princípio, o negócio, e parti logo para Brasília, com vistas a obter a necessária anuência de meus superiores no Itamaraty, o que se fez sem delongas.

Concluída essa primeira etapa, e depois de preparar um orçamento de gastos tão minucioso quanto possível  àquela altura, procurei o Presidente do Banco do Brasil, Camilo Calazans, meu amigo desde os anos setenta, quando dirigia o Instituto Brasileiro do Café e eu a Asessoria Internacional do Ministério da Indústria e Comércio, ao qual o IBC se subordinava. Expliquei-lhe que o Itamaraty não dispunha de verba específica para aquele projeto e que portanto estaria na dependência da aprovação de uma Exposição de Motivos à Presidência da República, que deveria ainda ser encaminhada, autorizando o crédito necessário. Como dispúnhamos de pouco tempo para levar adiante o projeto, não me restava senão contar com o apoio e patrocínio do Banco do Brasil… Saí da visita agradecido e animado com a promessa (cumprida depois à risca) de uma contribuição de 75 mil dólares, a exata quantia total prevista em nosso modesto plano orçamentário.

Morto mais esse leão, fomos atrás do seguinte, ou dos seguintes, buscando o apoio de empresas de refrigerantes (sobretudo guaraná), de camisetas da Seleção e de brindes diversos, tudo naturalmente a custo zero, para ser distribuído aos visitantes da Casa do Brasil. E a verdade é que as camisetas e esses outros brindes, somados aos milhares de kits levados pelo próprio Banco do Brasil, permitiu-nos colorir de verde-amarelo o Estádio Jalisco e as ruas e praças da cidade. Nos dias de jogo do Brasil, lá íamos nós, plantados na carroceria de um velho caminhão emprestado por mais um mexicano de boa- vontade, a atirar bandeiras, bonés e camisetas para uma multidão de torcedores enlouquecidos em torno do Estádio Jalisco.

 

BASTIDORES DA CBF

O passo seguinte foi o da visita que fiz, no Rio de Janeiro, ao Presidente da Confederação Brasileira de Futebol, o advogado aposentado do Banco do Brasil e ex-Presidente por doze anos da Federação de Futebol do Rio. Ele havia assumido o cargo de dirigente máximo da CBF no início daquele ano, em uma eleição meio estranha, uma vez que até a véspera do pleito era candidato a Vice na chapa do ex-Presidente da Federação de São Paulo e Deputado Estadual, Nabi Abi Chedid, figura sobejamente conhecida e não muito apreciada pela crônica esportiva da época. Prevendo um possível empate na contagem dos votos, promoveu-se a troca repentina na chapa, pois nesse caso, e segundo os Estatutos, venceria o candidato mais idoso, ou seja, Otávio Pinto Guimarães… Além disso, o simpático Presidente que encontrei estava se tratando de um câncer muito agressivo, como me confidenciou, e por esse motivo não poderia acompanhar a Seleção ao México. Em seu lugar, viajaria o Senhor Nabi Chedid, e a delegação da CBF à Copa seria presidida pelo Dr. José Maria Marin, de São Paulo, ex-jogador, advogado, politico profissional, vereador, deputado estadual, que ficara alguns meses à frente do Governo do Estado em 1982/83 em substituição a Paulo Maluf, de quem era Vice. Sabemos todos que recentemente o nosso personagem assumiu o lugar de Ricardo Teixeira na presidência da CBF, afastado como se sabe por problemas médicos, e que deverá logo ceder a cadeira ao recém-eleito Marco Polo Del Nero, também de São Paulo.

 DE NOVO EM GUADALAJARA    

Depois desses contatos no Brasil, voltei ao México para acertar os ponteiros com a Embaixada no tocante à montagem de uma infraestrutura na Casa do Brasil em Guadalajara que nos permitisse assegurar aos visitantes e frequentadores o necessário apoio logístico, dentro maior conforto possível. E foi assim que pudemos instalar uma Seção Consular, um aparelho de telex (velhos tempos!) para receber e divulgar notícias diárias do Brasil, uma loja de passagens da VARIG (idem!), além da publicação de uma pequena revista com as novidades da Copa e informações turísticas sobre Guadalajara e seus arredores. Nossa preocupação maior – a obtenção do mobiliário e de elementos de decoração – foi logo sanada pela extraordinária gentileza e boa vontade do comércio local, que acedeu em nos fornecer tudo, em troca, no máximo, de uma simples publicidade em nossa revistinha. Essa gestão foi facilitada sobretudo por um casal simpático e eficiente de uma brasileira e um mexicano residente na cidade, e que se tornaram nossos grandes amigos. Conviria também reforçar o óbvio: para movimentar tudo isso e muito mais, recebendo uma media de mais de mil pessoas por dia, contei com a dedicação imensa e decisiva de uma pequena equipe de funcionários e colegas do Itamaraty colocados à disposição do projeto, sem falar de minha própria mulher, Liana, que esteve trabalhando a meu lado durante a maior parte daquelas semanas extenuantes, e de dois altos funcionários do Banco do Brasil, que também muito nos ajudaram. Um deles, aliás, o meu amigo e velho colega do Colégio Santo Inácio no Rio, o excelente cronista do Correio Brasiliense, Márcio Cotrim.

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ACROBACIAS DO CIRCO VOADOR…

Um capítulo especial foi o dos vários shows que apresentamos com artistas brasileiros e alguns mexicanos na Casa do Brasil. Para isso, alugamos uma grande palco móvel, devidamente equipado, onde a cada noite músicos como o sambista João Nogueira e a cantora Denise De Kalafe, brasileira radicada no México desde finais dos anos 60 e que já em 72 se consagrava como ídolo da canção latina no país, apresentavam-se para um publico delirante que lotava as dependências da Casa do Brasil. Isso, sem falar da presença constante de integrantes da grande troupe do Circo Voador do Rio de Janeiro, com mais de 110 participantes, comandados por seu notável diretor e criador, Perfeito Fortuna. Aliás, essa história do Circo Voador em Guadalajara merece sem dúvida uma citação à parte. A viagem da troupe fora intermediada por Denise De Kalafe, com a previsão de que as apresentações seriam feitas debaixo de uma carpa (lona) a ser armada numa praça central da cidade. Alegando problemas de segurança, as autoridades vetaram essa pretensão, e nem a longa negociação que mantivemos, Denise e eu, em audiência especial com o próprio Governador de Jalisco, foi suficiente para fazê-lo mudar de opinião. Moral da história: em vez de apresentações no centro da cidade, o Circo teve que acatar a proposta impositiva do Governador e fazer seus espetáculos diários num imenso ginásio de esportes localizado a quilômetros distância, e para um publico bastante rarefeito. Uma lástima.

Mas os problemas com o Circo Voador não pararam por aí, pois alguns dias após o início da Copa, tive eu que fazer, isso sim, contorsões e malabarismos diante do Governador ( outra vez!) para refutar suas acusações de que torcedores brasileiros e especialmente o pessoal do Circo, estavam provocando quebra-quebras, arruaças, brigas de rua, com o saldo de centenas de estilhaços de garrafas espalhadas a cada noite, exatamente no trecho em frente ao hotel em que se hospedavam os nossos artistas. Lembro-me da dura conversa que mantivemos. Repeli de imediato as acusações e provei-lhe em seguida que os mais de cem componentes do grupo circense, em consequência mesmo da decisão dele, Governador, eram obrigados a deixar o hotel todos os dias por volta das 19hs e tomar o ônibus para o distante ginásio onde se estavam apresentando, só regressando nas primeiras horas da madrugada. Disse mais, que os brasileiros em geral, e por temperamento mesmo, não costumam extravasar sua alegria na base do quebra-quebra, bem ao contrario dos mexicanos, como minha experiência da Copa de 70 me mostrava sobejamente… Concluí afirmando que, a bem da verdade não seria de todo surpreendente flagrar (e depois prender, claro) um torcedor brasileiro afogado em níveis etílicos além dos limites toleráveis, ou seja, de porre, tomando banho pelado, às duas da manhã, numa fonte luminosa da cidade, mas destruindo o patrimônio publico ou provocando arruaças, isso nunca… Sugeri-lhe finalmente que providenciasse um policiamento preventivo no local, a cada noite e a partir das 18hs, que assim o problema estaria resolvido. Dito e feito, para sorte de todos nós.

 A CHANTAGEM

Como os pacientes leitores estão percebendo, a Casa do Brasil funcionava às mil maravilhas, enquanto os abacaxis eram plantados do lado de fora de suas grossas paredes conventuais. Um deles, o maior de todos, e envolvendo um torcedor brasileiro, foi realmente dramático. Certo dia fui procurado por três rapazes de Santa Catarina (ou do Paraná, não me lembro bem), que me relataram uma história realmente séria, perigosa e até então inconclusa. Os três e mais um companheiro de viagem estavam à noite no saguão do hotel, com ideia de sair para uma boate local, quando viram uma moça mexicana, também hospedada ali, que depois de  um simpático bate-papo resolveu acompanhá-los. Horas depois, ela e um dos brasileiros retornam ao hotel e resolvem se encontrar no quarto dela para passarem o restante da noite. So far, so good, como diria o Monsieur de la Palisse, caso falasse inglês. Acontece que logo em seguida a polícia bate à porta e, sem mais aquela, dá voz de prisão ao indecente cavalheiro que ali estava, abusando de uma menor de idade. Mais grave: o acusado não passou nem pela Comissaria, sendo levado diretamente à penitenciária local, onde se encontrava desde a véspera, incomunicado e acusado de estupro.

Fiquei perplexo com a narrativa, mas muito mais indignado com o que me disseram a seguir: os três já haviam recebido, no telefone do hotel, duas chamadas anônimas de um chantagista – e na segunda, com a própria voz da vigarista violentada, que de menor não tinha nada, por supuesto – exigindo nada menos que 50 mil dólares para livrar o brasileiro da prisão! O caso era tão grave que imediatamente acionei o Cônsul Honorário do Brasil em Guadalajara, uma figurinha folclórica e muito folgada, que muito a contragosto acedeu em contactar um juiz de direito seu amigo, sem nenhum resultado. No dia seguinte, os jornais estampavam o revoltante escândalo do brasileiro estuprador, e as radios locais repetiam em seus noticiários que a pena minima reservada para ele seria de nove anos de reclusão. Pouco depois, no entanto, sucedeu algo incrível, pois como um dos companheiros do preso era radialista, conseguiu gravar um dos telefonemas, em que os chantagistas já  estavam reduzindo o preço do resgate para cinco mil dólares. Ao mostrar a gravação para o gerente do hotel onde estavam hospedados, este reconheceu imediatamente a voz de um indivíduo muito conhecido e muitíssimo temido na cidade, reconhecidamente ligado ao narcotráfico, jornalista da imprensa marron, e que tinha um programa regular numa radio local. Não faltava mais nada…

Decidi ligar para o Chefe de Gabinete do Governador e contar-lhe todo o episódio, sem nada ocultar, o que o deixou visivelmente assustado. Marcamos uma visita minha ao Governador (mais uma!), às dez da noite, para levar-lhe pessoalmente a fita gravada e naturalmente exigir providências imediatas cabíveis. O dito cujo desta vez não me recebeu, alegando uma desculpa esfarrapada, mas entreguei à sua chefia de Gabinete a prova do crime. Ouviram privadamente a cassete durante um longo tempo, enquanto eu esperava na sala contígua. Ao sair, fui contundente, e disse ao auxiliar do Governador que naquele momento eu falava em nome do Governo do Brasil e que exigia a soltura imediata de um cidadão brasileiro inocente, vítima de uma chantagem inadmissível. Cheio de dedos, meu interlocutor assegurou-me que na manhã seguinte seria providenciada a soltura, e concluiu implorando-me, não há outra palavra, que não mencionasse nunca que eu estivera com ele para tratar desse assunto, pois afinal tinha mulher e filhos, e o caso era altamente explosivo, em razão da pessoa envolvida. De fato, o caso era tão delicado que tampouco na manhã seguinte a vítima foi libertada, o que só aconteceu no outro dia à tarde.

Eu estava tão indignado com a situação, que ao receber o nosso patrício injustiçado na Casa do Brasil, vindo diretamente da prisão onde mandei buscá-lo, expliquei-lhe tudo que se havia passado, inclusive que seu nome e seu conceito em todo o país, sobretudo em Guadalajara, não era dos melhores naquele momento, mas que caso ele aceitasse, eu estaria disposto (que imprudência a minha, Deus do céu!) a convocar uma rueda de prensa na Casa do Brasil, dar a seu lado uma entrevista detalhada, e no final colocar a fita cassete para todos ouvirem aquela voz tão conhecida… O nosso amigo, bastante abalado, concordou depois de certa hesitação, e combinamos a entrevista para a segunda-feira seguinte (estávamos na sexta). Mas nesse fim de semana, ao encontrá-lo no Estádio Jalisco, antes do jogo fatídico contra a França, confidenciou-me ele que seu estado de espírito era tão mau, que desistira de tudo, só lhe interessando voltar imediatamente ao Brasil, independente da campanha da Seleção. E foi assim que este pobre escriba, às vêzes um tanto imprudente, acabou talvez sendo salvo pelo gongo…

 

AS INCRÍVEIS TRAPALHADAS DA CBF

Deixamos para o fim a narrativa de algumas das incríveis trapalhadas provocadas pela falta de planejamento e de organização da Confederação Brasileira de Futebol nessa Copa de 86. São três estorinhas curtas que merecem ser contadas.

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PRIMEIRA ESTORINHA

Enquanto andávamos às voltas com a preparação da Casa do Brasil, eu não tirava os olhos de minha outra importante missão no México, que era a de estabelecer uma ligação permanente com a Delegação oficial da CBF, procurando facilitar-lhe o trabalho no que fosse possível. Mas confesso que não foi nada fácil. E tudo começou com a implausível informação veiculada na imprensa brasileira de que a Seleção Canarinho, a poucos dias, repito, a poucos dias da partida para o México, ainda não sabia onde iria concentrar-se. Uma semana antes do voo, os jornais davam conta de que, na impossibilidade de encontrar um lugar adequado, a Seleção faria sua necessária adaptação à altitude em algum sítio… na Colômbia! Pouco depois recebi a notícia de que não, o time iria ficar no Centro de Capacitação  da Nestlé, em Toluca, a 2.660 m de altitude, portanto mais alta que a Cidade do México. Fiquei perplexo: aquele era o sítio reservado para a própria Seleção mexicana, a ser ocupado alguns dias mais tarde.  Será que a CBF desconhecia isso? E aí? Aí decidiram viajar assim mesmo…

E certa madrugada lá fomos eu e meu colega Secretário Sergio Cavalcanti, deslocado pouco antes do Consulado em Nova Iorque para integrar nossa equipe, receber a Delegação brasileira  no Aeroporto de Toluca. O avião da VARIG aterrissou com o dia nascendo, e logo duas surpresas para mim: o lateral direito Leandro não comparecera ao embarque, em solidariedade ao amigo Renato Gaúcho, que havia sido dispensado por Telê Santana por indisciplina; e a grande esperança para o título, Zico, seriamente contundido, com profunda lesão no joelho esquerdo três vêzes operado, descia as escadas do avião com visível dificuldade. A tal ponto, que no momento de posar para as fotos no salão do aeroporto todo em festa, com mesas e mais mesas para o café da manhã oferecido aos visitantes e convidados, tiveram logo que providenciar uma cadeira para o pobre Zico, que mal se aguentava em pé. O resultado de tudo isso, como sabemos, foi que o nosso grande craque teve que passar a Copa dentro de enfermarias e salas de musculação, só saindo para entrar apenas em três partidas e sempre no segundo tempo. Foi o ocaso melacólico da carreira gloriosa de um dos maiores jogadores que o mundo conhecera.

À tarde daquele mesmo dia, fui fazer uma visita ao Centro de Capacitação da Nestlé, cujas instalações ficavam no alto de um morro à margem da rodovia. Embora estivesse com meu passaporte diplomático e em um carro oficial da Embaixada, os seguranças da polícia mexicana revistaram-no por inteiro, abrindo portas, capot e porta-mala, não sem antes interfonar para a recepção que ficava lá no alto. Ou seja, a maior preocupação das autoridades durante toda a Copa foi sempre com a segurança, chegando por vêzes a níveis de pura esquizofrenia. Por isso, um pequeno incidente ocorrido logo depois que subi e fui recebido por José Maria Marin – pessoa de bom trato, educado e muito amável, e por seu vice-presidente de delegação, Nabi Abi Chedid, ao qual não posso distribuir os mesmos qualificativos – já me permitiu entrever o clima reinante. Estávamos conversando numa sala vizinha à recepção, quando de repente começamos a ouvir ruídos de uma discussão ao lado, que se transformaram num bate-boca frenético a partir da intervenção do senhor Nabi Chedid. Minutos depois volta-se ele para mim, perguntando mas na verdade já afirmando, e da maneira mais grosseira e indignada: Era um jornalista penetra! Foi o senhor que trouxe esse homem aqui para cima!? Dei-lhe no tom adequado a resposta que merecia e retirei-me depois, ciente de que jornalistas continuavam sendo o grande bicho-papão da Seleção brasileira. Aliás a notável revista  Placar, de 19 de maio de 1986, deixava ver o clima daquela delegação, escrevendo:” O microônibus que levava a Seleção Brasileira do campo de treino à concentração no Centro de Capacitação da Nestlé, em Toluca, nada tem de semelhante com o ambiente ao seu redor: são quase 50 seguranças fortemente armados e dispostos a tudo. O mesmo se vê no eterno e infrutífero jogo de forças da comissão técnica e dos dirigentes contra a imprensa do Brasil.”

Apenas para concluir: uma semana mais tarde, a Seleção mexicana fazia valer seus direitos, despejando assim a delegacão brasileira, que se viu obrigada a mudar para as instalações do América, clube local da primeira divisão, com vistas a concluir o período de aclimatação de seus atletas à atmosfera rarefeita das grandes altitudes.

SEGUNDA ESTORINHA

Embora fundado apenas em 1970, o Clube Universidad de Guadalajara já era muito querido e respeitado em sua cidade sede e em todo o México. A CBF, com grande antecedência, havia acertado com eles a realização de um jogo-treino contra a Seleção para o periodo anterior ao início da Copa. Com a partida marcada para a quarta-feira seguinte e com os ingressos já à venda, na manhã do sábado anterior recebo na Casa do Brasil um telefonema surpreendente, sobretudo pelo interlocutor. Era uma chamada do quartel-general da CBF na Cidade do México, mas quem falava comigo era um tal de Cañedo, que logo se apresentou como filho do Senhor Guillermo Cañedo – personalidade que eu definiria, para ser breve, como uma espécie de João Havelange mexicano, ou seja, ex-Presidente de Clube e da Federação, empresário bem- sucedido, magnata do futebol, Vice-Presidente da FIFA, que conseguiu levar a Copa duas vezes para seu país, etc. Pois bem, de dentro da concentracão da Seleção brasileira, a voz que me telefonava pedia-me para conversar, em nome da CBF, com o Presidente do Universidad Guadalajara e explicar-lhe que, por motivos médicos e  técnicos a Seleção brasileira não poderia interromper seu periodo de adaptação à altitude (Guadalajara está em nível muito mais baixo que a Cidade do México), e que  lamentávelmente, portanto, o jogo previsto teria que ser cancelado!

Fiquei boquiaberto , mas como para ajudar o Brasil a ganhar mais um título tudo valia, pus-me a campo, tentando da melhor maneira  desimcumbir-me da incômoda missão. Às onze da manhã liguei para o Presidente do Universidad, mas não consegui encontrá-lo. Às duas da tarde voltei a chamá-lo, já que o caso era de maxima urgência, e aí sim, cheio de dedos procurei explicar-lhe a situação e justificar o cancelamento do compromisso da CBF.

–      Mas a que horas o senhor recebeu esse telefonema? perguntou-me ele admirado.

–      Por volta das dez horas.

–      Mas eu não entendo, pois há pouco mais de uma hora recebi uma chamada da Delegação do Brasil confirmando a realização da partida…

–      Como????????

E assim foi, meus amigos, que fiquei não mais apenas boquiaberto , mas com cara de tacho diante daquela nova trapalhada da CBF. O jogo-treino combinado, descombinado e recombinado, foi enfim realizado…

TERCEIRA ESTORINHA

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Ao contrário do Universidad, o Club Deportivo Guadalajara, também conhecido como Chivas Guadalajara, foi fundado em 1906, tendo portanto um longa tradição, além de ser dos mais populares e bem-sucedidos do país. Um belo dia recebo novo telefonema dos manda-chuvas da CBF, encarecendo-me o favor de contatar seu Presidente para explicar-lhe que em virtude de recomendação médica a Seleção… advinhem? não poderia cumprir o compromisso acertado e descer a Guadalajara para realizar o jogo-treino, etc. etc. Como já tinha acabado de ver esse filme sem-graça, recusei o pedido e coloquei-me à disposição para  receber no Aeroporto os manda-chuvas que, a meu ver, deveriam vir para explicar pessoalmente o assunto aos diretores do Deportivo, com os quais eu marcaria um encontro. E foi então que presenciei um diálogo absolutamente inacreditável, quando os três representantes da CBF tentavam justificar o rompimento do compromisso assumido. Depois de muitos salamaleques, um deles arrematou:

–      Deste modo, Presidente, gostaríamos que o senhor nos desculpasse e entendesse nosso problema, que nos impede de realizar o jogo programado.

–      Mas, meus caros, confesso que não compreendo o que se passa, respondeu o Presidente, perplexo. O que posso dizer-lhes é que há cerca de um ano enviei um Ofício ao Presidente da CBF, no Rio de Janeiro, consultando-lhe sobre a possibilidade de um jogo-treino antes da Copa, para comemorarmos em grande estilo os 80 anos do nosso Clube. Os meses  se passaram e nunca recebi qualquer resposta, até que um dia nos avisaram que um representante da CBF viria pessoalmente a Guadalajara para tratar do assunto, e que estaria hospedado no Hotel Presidente. Acontece que na cidade não existe nenhum hotel com esse nome, e esse representante nunca nos procurou. Diante disso, demos por inexistente qualquer compromisso e não pensamos mais no assunto.

–      Como????????? Bem, então,  o senhor nos desculpe…

E durma-se com um barulho desses!…

 QUARTA E ÚLTIMA ESTORINHA

Acho que já tivemos uma dose suficiente de trapalhadas para mostrar o nível de organização de Nabi Chedid e Cia, mas caberia mencionar ainda uma última embrulhada, envolvendo agora o local escolhido um ano antes da Copa para a concentração da Seleção brasileira em Guadalajara.

Logo que cheguei à cidade para montar a Casa do Brasil, procurei conhecer pessoalmente as instalações que abrigariam a Delegacão brasileira por quase um mês. O local era fora da cidade, a cerca de 40 quilômetros, em um clube de campo muito aprazível, dotado dos equipamentos normais de um clube social, mas com um anexo contíguo destinado a hospedar os sócios interessados, além de dois pequenos campos de futebol. A uns 500 metros dalí, um edifício de vários andares acabava de ser construído e que, segundo me explicaram, estava destinado a hospedar jornalistas de vários países que viriam para cobrir a Copa. Confesso que fiquei surpreso (de novo!) com a escolha daquele sítio, sabendo bem o que significava a proximidade física da imprensa para o pessoal da CBF… Pois não deu outra: no dia em que estiveram em Guadalajara para o encontro com a diretoria do Chivas, os representantes da CBF foram levados por mim para uma visita ao local. E foi um deus-nos-acuda quando viram aquilo que eles mesmos haviam escolhido (um deles estivera presente na visita inicial, um ano antes), ou seja, um clube social, que não estaria naturalmente fechado para seus frequentadores durante aquele periodo da Copa, absolutamente devassado e, last but nor least, ao alcance de centenas de jornalistas e fotógrafos esportivos… O bate-boca que fui obrigado a presenciar em nossa Kombi, na volta a Guadalajara, era digno de uma cena de Groucho Marx e seus irmãos. E eu só pensava: meu Deus do céu, será que dá para ganhar a Copa com toda essa organização? A única coisa que se salvava desse naufrágio eram mesmo os jogadores e, muito especialmente, a figura serena, séria e educada  de Telê Santana, com quem mantive contato estreito durante aquele período, chegando inclusive a programar alguma atividade de lazer para o grupo, como a ida a uma charrería, esporte nacional do México e um misto de rodeio e vaquejada.

TRAPALHADA DA FIFA

Mas neste capítulo de trapalhadas, não poderia deixar de mencionar também a mancada da FIFA, que nas cerimônias prévias de um  jogo do Brasil (não me lembro extamente qual), os jogadores brasileiros formados para cantar o Hino Nacional, tiveram que ouvir o Hino à Bandeira!… Na mesma tarde enviei uma carta de reclamação aos responsáveis pelo conchilo imperdoável, invocando inclusive o argumento de que não me parecia crível que a FIFA ainda não conhecesse o Hino Nacional do único Tricampeão mundial e único país a comparecer a todas as Copas realizadas até aquele dia.

 

FINAL MELANCÓLICO

Depois de todas essas peripécias, das trapalhadas da CBF, do imenso sucesso da Casa do Brasil (ao menos isso!), da adrenalina de certos momentos, e até da perda de alguns quilinhos suados, decidi encerrar nossas atividades, após a derrota para a França, com uma palestra, em que destacava, para um público que lotava nosso salão principal (onde diariamente projetávamos filmes documentários sobre o Brasil), a afinidade entre brasileiros e mexicanos, a despeito da enorme distância geográfica a nos separar.

Algo de positivo deve ter ficado depois de toda essa aventura…

 

 UMA REFLEXÃO FINAL

Algo curioso que me chamou bastante atenção na Copa de 70 foi a indisfarçável empatia entre os torcedores mexicanos e a Seleção brasileira, fenômeno que atribuí logo à excelência de nossos craques, com Pelé à frente, seguido de Tostão, Jairzinho, Gérson, Clodoaldo e companhia. Entretanto, dezesseis anos depois, voltando a Guadalajara para a Copa de 86, ao visitar a sala de troféus do já octogenário Club Deportivo Guadalajara e deparar com uma grande quantidade de flâmulas, bandeiras e camisetas de times brasileiros, como Flamengo, Fluminense, Vasco, Corínthians, etc., datadas de visitas realizadas ao México nos anos vinte, trinta ou quarenta do século (hoje) passado, dei-me subitamente conta de que as razões para aquela simpatia tinham raízes bem mais antigas e mais profundas. Ou seja, o esporte, nesse caso o futebol, já havia há muito tempo plantado as sementes da alma brasileira naquele país, e agora nada mais fazíamos que colher os frutos daquela semeadura.

A essa percepção, que me impressionou bastante, voltei a me referir anos mais tarde, quando Cônsul-Geral em Barcelona, no início dos anos 90, em cerimônia de apresentação do troféu esportivo Ciutat de Barcelona, anualmente disputado entre um time brasileiro e o Reial Club Deportiu Espanyol. Na Salão da Câmara Municipal e na presença de seu Presidente, Pasqual Maragall, fiz uma breve alocução sobre a importância que tem exercido o futebol no estreitamento dos vínculos entre povos e nações, evocando, para demonstrá-lo, a experiência por mim vivida um certo dia em Guadalajara.

 

FUTEPOEMAS

Nosso próximo e último capítulo sobre futebol terá igualmente algumas estorinhas extracampo. Aguardem. Mas enquanto isso,  vejam abaixo esse poema de Drummond a propósito da Copa de 70. E vejam vários outros poemas de vários poetas sobre futebol, entrando no site http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/futebol_e_poesia.html.

COPA DO MUNDO DE 70

Carlos Drummond de Andrade

I – Meu coração no México

Meu coração não joga nem conhece

as artes de jogar. Bate distante

da bola nos estádios, que alucina

o torcedor, escravo de seu clube.

Vive comigo, e em mim, os meus cuidados.

Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho:

que é de meu coração? Está no México,
voou certeiro, sem me consultar,

instalou-se, discreto, num cantinho

qualquer, entre bandeiras tremulantes,

microfones, charangas, ovações,

e de repente, sem que eu mesmo saiba

como ficou assim, ele se exalta

e vira coração de torcedor,

torce, retorce e se distorce todo,

grita: Brasil! Com fúria e com amor.

9 de maio de 1970

 

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COM PELÉ NA ÁFRICA

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  Lauro Moreira

         Vamos falar um pouco de Pelé 

 

        Como propus em dezembro passado neste Quincasblog, FALEMOS AGORA DE FUTEBOL E DE CRAQUES, já que está oficialmente aberta a temporada de caça… à bola. Na verdade, o que proponho agora é retomarmos o assunto que estávamos abordando, inaugurado com as figuras de Nilton Santos e Didi, e que decidimos suspender por um momento para tratar da obra e da morte de Vilaró, o grande artista plástico uruguaio, criador da famosa Casa Pueblo, em Punta del Este.

        Os amigos que fazem a gentileza de acompanhar-me nessas divagações periódicas sabem que por aqui tratamos de tudo um pouco, e que no caso em pauta já escrevi que “ Não porque eu fosse assim tão intimamente ligado ao futebol brasileiro e seus bastidores, que não era, mas porque creio já ter vivido bastante,  acabei colecionando algumas estorinhas pessoais nessa área, que gostaria de compartilhar, por capítulos, com meus parcos porém fiéis leitores deste Quincasblog. Algumas passagens, por exemplo, envolvendo encontros e certo convívio com figuras como Didi, Nilton Santos, Pelé e Zico, além de experiências muito ricas como espectador da Copa de 70 no México, e mais tarde como responsável, indicado pelo Itamaraty, pela organizaçao e direção da Casa do Brasil em Guadalajara, na Copa de 1986.

        Muito bem. O próximo craque da lista não é bem um craque, mas o craque, o maior de todos os tempos, um hors-concours absoluto, uma unanimidade mundial. O Atleta do Século, o campeão mundial aos 17 anos, o tri-campeão, o maior artilheiro da história (1281 gols em 1363 partidas) a marca mais difundida que Coca-Cola, a lenda viva que um dia provocou, com sua simples presença, a suspensão temporária de uma guerra na África, a personalidade afagada por Papas, Reis, Rainhas e Chefes de Estado, o brasileiro mais aclamado em todo o mundo e em todos os tempos, o ídolo de sucessivas gerações nos quatro cantos da terra: Edson Arantes do Nascimento, Pelé.

E as estorinhas de meus poucos contatos com ele são várias, algumas remontando aos anos sessenta, por exemplo, por ocasião de um almoço no Palácio do Itamaraty no Rio, oferecido pelo Ministro de Estado (Magalhães Pinto) aos campeões mundiais de 62; outras, bem mais tarde, de quando ele, como membro da comitiva oficial da visita do Presidente da República(José Sarney) a Washington, roubou literalmente a cena nos contatos com o público e a midia,  provocando até um certo constrangimento nos altos escalões tupiniquins; outras, enfim, quando ele ocupava o cargo de Ministro dos Esportes no Governo FHC (95-98).  Mas a única de maior interesse – ao menos para mim – é a que lhes passo a narrar agora.

 

                                    COM PELÉ NA ÁFRICA

         O tal da contextualização

Estou me dando conta de que não é nada fácil contar casos neste país, uma vez que a vida por aqui corre em velocidade vertiginosa, transformando o ontem quase em século passado. Por outro lado, dá para imaginar que em 1970, ano da Copa no México, nós éramos 90 milhões (“Noventa milhões em ação// salve a Seleção!) e agora, quarenta e poucos anos depois, já chegamos aos 200 milhões? Ou seja, mais de 60% dos brasileiros não eram nascidos naquele momento em que Pelé e o Brasil ganhavam sua terceira Copa! Assim, fica difícil falar de um tempo e de um país em que a grande maioria de meus raros e queridos leitores não tinha sequer chegado a este vale de lágrimas, sem ter que fazer antes aquilo que hoje se chama de contextualização.

Mas, vamos lá. Estamos na segunda metade da década de 1970, em pleno Governo militar (Presidente Geisel, 74-79), quando, removido de Genebra para Brasília, fui cedido pelo Itamaraty para chefiar a Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, presidido pelo Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes. Essa foi a época do nascimento e multiplicação das famosas trading-companies, criadas na linha do tradicional modelo japonês, para operar na área do comércio exterior do país. Eram empresas sobretudo do setor privado – aliás, em licença do Itamaraty para trato de interesses particulares, cheguei a ser em 1981/82 Superintendente de uma delas, a COMEXPORT, ainda atuante. Pouco mais tarde, essas empresas privadas passaram a ter que disputar a concorrência de dois gigantes do setor público: a COBEC, do Banco do Brasil, e a agressiva INTERBRÁS, instituída pela Petrobrás, em 1976, e dotada de grande poder de barganha, em vista da imensa quantidade de petróleo importada pelo Brasil. A empresa dispunha de escritórios no país e no exterior, estrategicamente localizados, além de operar nas grandes bolsas internacionais de “commodities”, em Londres, Nova Iorque e Chicago.

 Ataque ao mercado nigeriano: expedição a Lagos 

Como a Nigéria na época se destacava cada vez mais como grande produtor e exportador de óleo, a Interbrás decidiu elaborar um plano ambicioso de colocação de uma variada linha de produtos eletrodomésticos brasileiros, especialmente fabricados para o mercado nigeriano, com a marca e o slogan exclusivos de TAMA – Good for the Tropics. Para o lançamento de uma imensa campanha publicitária local, a Interbrás fretou um Boeing-707 da VARIG e contratou a equipe do Fluminense do Rio de Janeiro para uma partida em Lagos contra a Seleção da Nigéria. Mas a grande jogada foi naturalmente a presença na comitiva do Relações Públicas da empresa, um certo Senhor Edson Arantes do Nascimento, para animar a festa… E, por uma sorte que até hoje agradeço aos Céus, resolveram convidar-me também  para integrar a delegação, representando no caso o CONCEX. Pois aqui começa a nossa estorinha, uma vez concluída a necessária contextualização

Durante o voo Rio-Lagos (meu Deus, até a Capital da Nigéria já mudou para Abuja, a Brasília de lá, construída a partir daquela época), bati longos papos com Sua Majestade, mas o que de fato me impressionou foi a cena indescritível da chegada. Não é difícil imaginar o que representava – e representa, ainda hoje – uma visita do Rei Pelé a qualquer país africano, mas o que eu vi e vivi naquele dia foi algo que ficou muito além de qualquer imaginação. Só me lembro que ao desligar os motores o avião estava cercado por um mar incalculável de possessos que haviam invadido a pista e praticamente impediam o desembarque. Confesso que temi pela minha vida ao começar a descer a escada do avião e asseguro que até hoje não sei como, levado de roldão, fui parar no interior de uma Kombi estacionada nas imediações.

O nosso Embaixador em Lagos, meu falecido amigo Geraldo Heráclito de Lima, já dentro de um salão apinhado do Aeroporto, suava em bicas ao tentar explicar aos jornalistas presentes o objetivo principal da visita, ou seja, os “excelentes eletrodomésticos brasileiros criados especialmente para nossos irmão nigerianos…” Mas quem lhe dava ouvidos? é óbvio que só queriam saber, ver, ouvir e se possível tocar, apalpar o Rei Pelé – o qual, a essas alturas, seguia impávido, simpático e tranquilo, nada impressionado com todo aquele fuzuê, acostumado desde os vinte anos a ser objeto (e vítima, diria eu, não ele) de semelhantes homenagens.

Os trâmites na Imigração foram igualmente contaminados pelo ambiente festivo e confuso, mas as coisas se complicaram no momento em que alguém da nossa delegação resolveu abrir uma bolsa e distribuir umas três ou quatro camisetas da seleção canarinho,com o número 10 às costas, a funcionários que nos atendiam. Foi um deus nos acuda! Em poucos minutos a sala ficou lotada de funcionários que disputavam a tapa, sim, a tapa, pedaços de camisetas rasgadas no vale-tudo que ali se armou. E diga-se que cenas como essas repetiram-se ao longo de toda a semana que passamos em Lagos, já que uma enorme provisão dessas camisetas fazia parte do baú de bondades da campanha publicitária da Interbrás.

Fomos hospedados num hotel novinho em folha, recém-inaugurado, com boas instalações. Mas… no dia seguinte as torneiras secaram. E lá íamos nós, Sua Majestade inclusive, e sempre de bom-humor, com seus terninhos brancos, azul-claro, recortados com esmero, ao distante hotel onde se hospedava a equipe do Fluminense, para tomar uma ducha emprestada pelos tricolores.

    Um tête-à-tête com o Rei

No terceiro ou quarto dia de nossa estada de uma semana, tive a oportunidade de conversar a sós com Pelé, por mais de hora, no trajeto do hotel à casa de uma ricaço local, um destacado Chief , como eles dizem, e que se associara à Interbrás nesse projeto dos eletrodomésticos. A distância era grande, é verdade, mas quem não conheceu o tráfego de Lagos naqueles tempos, não viu nada.  (Pior que o de Teerã, que era igualmente um horror). Aliás, isto é um capítulo à parte. Para se ir do centro da cidade ao Aeroporto, podia-se gastar, como me disse certa vez um empresário brasileiro que vivia por lá, de duas a quatro horas… Enfim, quem diria, tal qual São Paulo nos dias de hoje. Mas voltemos ao papo com o Rei, para dizer que a partir de então passei a conhecê-lo muito melhor. Foi uma conversa tranquila, descontraída, sem falar de futebol, a não ser quando me confidenciou que por insistência de Rose, sua mulher, acabara indo para os Estados Unidos jogar no Cosmos, após haver encerrado a carreira, mas alegando que ao final de dois ou três anos voltariam ao Brasil. E que agora ele queria retornar e ela não, o que gerava um conflito de difícil conciliação. Sabe-se que a separação do casal veio logo depois.

Chegamos bem atrasados à casa do anfitrião. Uma mansão enorme, repleta de convidados que ocupavam pequenas mesas no jardim. Era, digamos, um jantar-dançante, como se dizia então, com vários casais já ocupando o salão de baile. Todos naturalmente ansiosos à espera do convidado principal, que chegou, cumprimentou efusivamente os donos da casa, fez logo seu prato (e eu o meu), e fomos comer no jardim. Mas quem disse que Pelé consegue comer sossegado diante de um amontoado de estranhos, e ainda mais na África? Eu já estava exausto de vê-lo interromper a cada garfada para atender a mais um pedido de autógrafo. E sempre sorridente, amável com cada um, como se fosse o único. Pouco depois, levantou-se dizendo que iria convidar a dona da festa para dançar. E bailou por um bom tempo com a volumosa matrona, sob o olhar admirativo da plateia que se juntara no salão para assitir ao espetáculo. A foto maior que ilustra esta matéria, bastante ruinzinha por sinal, foi feita naquela noite e reúne alguns dos convidados ao jantar, inclusive o presidente da Interbrás, que aparece entre mim e o anfitrião.

       O jogo de futebol

O jogo do Fluminense contra a Nigéria estava marcado para quarta-feira à tarde,  se não me engano. Na véspera, conversando sobre o assunto no hall do hotel,  o Presidente da Interbrás, Carlos Santana, deu uma de joão sem braço, saindo-se com essa:

– Você vai jogar um pouco, não é, Pelé?

–  Mas o que é isso, não tenho condições físicas nem para entrar em campo! Há muito tempo que deixei de treinar. Não estou preparado…

– Não, meu caro, é muito importante que você jogue, nem que seja por alguns minutos…

– Está bem…, admitiu ele, ao cabo de muito insistência. Mas nesse caso, para que time eu jogo?

– Para o Fluminense, é claro, disseram todos na roda.

E foi então que eu, ouvindo todo esse diálogo, tive o feliz rompante de dizer alto e bom som:

– Gente, vocês vão me desculpar, mas se viemos aqui para vender produto brasileiro, é evidente que ele só pode jogar pela Seleção da Nigéria! E acho que precisamos ensaiar bem essa entrada do Pelé. Proponho que ele “adentre o gramado”depois da entrada das duas equipes, vestindo sua camiseta da Seleção Brasileira, vá até o círculo central e então tire a camisa, deixando ver a da Nigéria, que estará por baixo.

Modéstia às favas, acho que foi uma das ideias mais luminosas que já tive – eu, que sou tão parco delas – pois o sucesso dessa encenação no jogo do  dia seguinte foi simplesmente retumbante. O estádio mais que super-lotado, uma multidão ululante, irrequieta, quase selvagem, que tentava invadir até a tribuna de honra onde estávamos, calou-se de repente ao assistir à entrada solitária de Sua Majestade em campo, para em seguida explodir delirante, ao perceber que ele vestia por baixo a camiseta de sua Seleção. Depois, em mais uma demonstração de boa-vontade (ou de fome de bola, sei lá) jogou por cerca de 40 minutos do primeiro tempo, sem dar grandes piques, é claro, mas distribuindo passes magistrais.

Agora, aqui entre nós: essa, a extinta Interbrás ficou me devendo para sempre…

    Mais uma estorinha, para terminar

Mais uma estorinha com Pelé na África, para terminar. O Embaixador do Brasil ofereceu então um concorrido coquetel à delegação da Interbrás, convidando autoridades de alto escalão do governo e do setor privado do país. Às 19hs em ponto  lá estava o nosso craque, pronto para enfrentar mais algumas horas de assédio, de marcação cerrada por parte de uma plateia de admiradores. A cada minuto um autógrafo, seguido de uma conversinha ligeira. Lá pelas nove e meia, cansei-me de ficar de pé e fui sentar-me um pouco no escritório do Embaixador, onde já se encontravam umas duas ou três pessoas da comitiva, entre elas um assessor de Pelé, que o acompanhava há anos. Ao comentar com ele a paciência infinita do nosso craque, que já estava há mais de duas horas atendendo aos fãs nigerianos, respondeu que era sempre assim, e que enquanto houvesse algum convidado solicitando sua atenção, ele não se retiraria. Chapeau!

Mas eis que, a recepção já no ocaso, presentes apenas alguns retardatários, o Embaixador  Geraldo Heráclito recebe um telefonema inesperado: era o Presidente de Serra Leoa, que se encontrava em Lagos para uma reunião de cúpula da  União Africana, e que convidava a ele, Embaixador do Brasil, e ao Pelé, para uma conversa particular em seu hotel, naquele momento. Noblesse oblige, e lá foram os dois para esse encontro-surpresa com o Chefe de Estado, às 11 horas da noite. Ao voltarem, satisfizeram nossa curiosidade: o Presidente de Serra Leoa fazia absoluta questão de que Pelé o acompanhasse no dia seguinte, para uma breve visita ao seu país…  Alegando que se encontrava em Lagos a trabalho, cumprindo missão de uma empresa estatal brasileira que o havia contratado, o Rei polidamente declinou do honroso convite.  E despediram-se numa boa.

Este é, portanto, o cidadão Edson Arantes do Nascimento, alter-ego do maior craque da história do futebol, que tive o prazer e o privilégio de conhecer, e que decorridos tantos anos, continua a receber toda sorte de homenagens por onde passa. E que faz e fez sempre por merecê-las.

   Epílogo frustrante

E para não deixar inconclusa a aventura da  INTERBRÁS no mercado nigeriano, caberia acrescentar que imediatamente depois de toda essa incrivel epopeia comercial, envolvendo até a criação de uma linha de produtos e de uma marca exclusiva, o Governo da Nigéria, que a despeito de todo o petróleo disponível já não andava lá muito bem das pernas,  decidiu simplesmente voltar atrás e cancelar a compra desses produtos brasileiros good for the tropics Fazer o quê, né?

 

(PANO RÁPIDO)

 

 

 

 

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MORRE O SOL DE VILARÓ

MORRE O SOL DE VILARÓ

CASAPUEBLO                                   Lauro Moreira

Proponho hoje aos meus caros leitores do Quincasblog interromper momentaneamente nossa série de crônicas futebolísticas para comentarmos um assunto grave: o desaparecimento ontem, 24 de fevereiro, de um grande artista plástico e uma marcante figura humana. Morreu Carlos Páez Vilaró, o homem de Casapueblo, o uruguaio cosmopolita, o cidadão do mundo, que soube fazer de sua fecunda e longa vida uma permanente e sempre renovada obra de arte.

Artista plurifacético – pintor, escultor, ceramista, muralista, escritor, compositor e carnavalesco – Vilaró faleceu ontem aos 90 anos de um ataque cardíaco, em seu país, em seu balneário de Punta del Este, em sua Punta Ballena, em sua formidável Casapueblo, “escultura habitável”, hotel-residência-museu, por ele erguida tijolo a tijolo ao longo de décadas, e que se transformou em um dos sítios mais visitados e admirados por turistas de toda parte.

Como destacava a midia internacional de ontem, ao longo de sua  carreira Vilaró dedicou-se sobretudo à representação da natureza e da comunidade afrodescendente sul-americana, depois de ter vivido vários anos na África. Por outro lado,  o mundo se lembra de sua inquebrantável determinação na busca do filho, uma das vítimas daquele terrível acidente aéreo sofrido pela equipe de rugby do colégio Old Christians, em 1972, enquanto atravessavam a Cordilheira dos Andes em viagem ao Chile. Ao cabo de 72 dias perdidos nas montanhas geladas, apenas 16 jovens dos 45 passageiros sobreviveram, entre eles seu filho.

Ao contrário de Liana, minha mulher – que ainda muito jovem conhecera Vilaró pessoalmente em sua residência em Ribeirão Preto, época em que ele expôs na Bienal de São Paulo, e lhe ofertara inclusive um quadro que temos até hoje em nossa parede – eu não cheguei a conhecê-lo de perto. Entretanto, e por incrível que pareça, estávamos neste momento nos preparando para viajar proximamente a Punta del Leste, com a exclusiva finalidade de participar de uma homenagem especial ao grande artista, que seria prestada por um brasileiro que o conhecera recentemente em Casapueblo e ficara profundamente impressionado com a beleza daquele universo e a irresistível simpatia e energia de seu criador.

Esse brasileiro é o meu amigo Alberto Araújo, romancista, poeta e cineasta, realizador do filme Vazio Coração, recentemente exibido no Brasil e do qual tive o prazer de participar, personagem portanto conhecido dos leitores deste Quincasblog; e a mencionada homenagem seria a apresentação, em Casapueblo, de um recital que eu apresentaria com os poemas de seu novo livro Sol de Vilaró, cujos originais já se encontram há dias no prelo de uma gráfica em Goiânia. Ontem ao final da tarde recebi uma lacônica mensagem do Alberto no celular: “Chegamos tarde… Morreu Vilaró.”

Não, meu caro Alberto, não morreu Vilaró, e nossa bonita homenagem está prestada. Tenho  certeza de que o homenageado a apreciará devidamente.

Como lembrança de tudo isso, transcrevo abaixo, com a permissão do autor, três dos quinze poemas do livro, no original, e na fiel tradução de Mara Publio para o castelhano, além deste trecho introdutório:

“A arte tem às vezes o poder de nos desconectar do real, de anular a gravidade e nos fazer flutuar. Assim me senti ao percorrer os labirintos de Casapueblo, o mundo particular e universal de Carlos Páez Vilaró. Ali, ao abrigo daquela arquitetura inexata, tudo se harmoniza em uma atmosfera onde criador e criação parecem interligados, abraçados desde sempre, para sempre. Milhares de pessoas de variadas culturas visitam aquele recanto de arte em Punta Ballena, de onde por certo cada qual sai com uma diferente sensação. Eu, poeta brasileiro, senti-me como alguém que abre a janela e se depara com um segundo sol na linha do horizonte, o Sol de Vilaró.” 

Encontro                                                                                                                                                  CasapuebloPainel de Vilaró

VCarlos Páez Vilarói Vilaró ou revi Vilaró?

Apertei-lhe a mão pela primeira

ou milésima vez?

Saudoso encontro!

Reencontro de amigos

que não se conheciam

que não se escreviam.

Amigos que não se falavam

não se viam…

No olhar

um diálogo guardado há décadas

vinho no fundo da adega

o paladar das palavras

Nos despedimos como amigos

que se verão amanhã

se verão sempre

como nunca se viram

Vilaró, amigo

da vida

das artes

das cores

dos  ritmos

do sol

da lua

amigo do mundo.

*********************

Encuentro

¿Vi o reví Vilaró?

¿Le estreché la mano por primera

o milésima vez?

¡Deseado encuentro!

Reencuentro de amigos

que no se conocían

que no se escribían.

Amigos que no se hablaban

que no se veían…

En la mirada

el diálogo guardado desde hace décadas

vino en el fondo de la bodega

el sabor de las palabras

Nos decimos adiós como amigos

que van a verse mañana

que van a verse siempre

como si nunca se hubieran alejado

Vilaró, amigo

de la vida

de las artes

de los colores

de los ritmos

del sol

de la luna

amigo del mundo.

***********************

Sol de Vilaró

O sol de Vilaró nasce em Punta Ballena

e se espalha pelo Uruguai

iluminando vinhedos

trigais

ovelhas

e gado​

O sol de Vilaró

doura a pele de homens e mulheres

da América do Sul

desliza pelo leito dos rios

florestas

cerrados

desertos

e ainda se vê

em espelhados arranha céus

O sol de Vilaró

afaga os Andes

depois

se sentindo em casa

brinca com os Incas

flerta com os Maias  e Astecas

O sol de Vilaró

descansa no colo das índias

e desperta com as  crianças

das Américas.

Para Carlos Páez Vilaró

o sol é o sorriso do universo.

***************

Sol de Vilaró

El sol de Vilaró nace en Punta Ballena

y se extiende por todo Uruguay

alumbrando parrales

trigales

ovejas

y el ganado

El sol de Vilaró

dora la piel de hombres y mujeres

de Sudamérica

resbala por el cauce de los ríos

bosques

sabanas

desiertos

y aún se ve

en espejados rascacielos

El sol de Vilaró

acaricia los Andes

luego

sintiéndose en casa

juega con los incas

coquetea con los mayas y los aztecas

El sol de Vilaró

reposa en el regazo de las indias

y despierta con los niños

de las Américas

Para Carlos Páez Vilaró

El sol es la sonrisa del universo.

Casapueblo

Uma casa

ou um acaso da criação?

o concreto

da paciência do não arquiteto

pura imaginação

Nem esquadro

nem compasso

a intuição não tem geometria

moderna  poesia

Nada é exato

e tudo se equilibra

se harmoniza

por  instinto

da inspiração e seus labirintos.

**********************

Casapueblo

¿Una casa

o un acaso de la creación?

el hormigón

de la paciencia del no arquitecto

pura imaginación

Ni escuadra

ni compás

la intuición no tiene geometría

moderna poesía

Nada es exacto

y todo se equilibra

se armoniza

por instinto

de la inspiración y sus laberintos.

***************

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