Arquivo da categoria: ARTES PLÁSTICAS

UMA NOITE MUITO ESPECIAL

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (199

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (1996)

UMA NOITE MUITO ESPECIAL EM SANT CUGAT – BARCELONA

                                                                               Ora, direis, ouvir estrelas!

                                                                                                               O. Bilac

 Lauro Moreira

 

CAPA DO LIVRO

CAPA DO LIVRO

 

Em nossa última conversa aqui no Quincasblog, que acabou merecendo comentários generosos de vários leitores, falamos sobre uma certa noite mágica num apartamento da Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, e que teve como protagonista o nosso bardo Manuel, Bandeira do Brasil, no longínquo ano de 1968. Longínquo, sim, pois não nos esqueçamos de que sessenta por cento dos 200 milhões de brasileiros de hoje não eram sequer nascidos naquele ano agitado que incendiou Paris e boa parte do mundo…

Pois bem, hoje vamos falar de uma outra noite, igualmente mágica e por isso também inesquecível para mim, para minha mulher, Liana, e para o reduzido grupo de pessoas que tivemos o privilégio de vivê-la. Não foi no Rio de Janeiro, mas nos arredores de Barcelona, em Sant Cugat, no verão de 1994, mais precisamente em 11/12 de julho, ou seja, vinte e sete anos depois da noite mágica de Botafogo. Mas, comecemos da capo, pois acho que vale a pena contar-lhes com algum detalhe o que sucedeu naquele encontro único e surpreendente em casa do Cônsul-Geral do México em Barcelona, meu colega da diplomacia, poeta (hoje também pintor celebrado) e amigo fraterno, Edmundo Font.

Eu já vivia em Barcelona com a família desde janeiro de 1991, removido pelo Itamaraty para ocupar o posto de Cônsul-Geral naquela cidade de que tanto gostava antes mesmo de conhecer, e que vivia então em graça e plenitude, concluindo ao cabo de oito anos as obras fantásticas de infraestrutura e reurbanização, que a preparavam não apenas para os Jogos Olímpicos de 92, mas para o século seguinte. Aliás, os leitores mais assíduos deste Quincasblog certamente se lembrarão de uma crônica que postei aqui em outubro do ano passado, com o título de Barcelona e Rio de Janeiro, onde incluí um link para um vídeo inesquecível (Transformació d´una Ciutat) sobre essas mesmas obras. Quem não viu, sugiro que o faça agora, porque é absolutamente imperdível. Acesse o site www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

Alguns meses depois de nossa chegada ao Posto, a telefonista do Consulado recebe pela manhã uma chamada de um certo Senhor Edmundo Font, Embaixador do México em Bogotá, que estava de passagem pela cidade e desejava falar com o Cônsul do Brasil. Atendi com a maior presteza e atenção, como faria naturalmente com qualquer colega, mas no caso, confesso que também com alegria, por se tratar de representante de um país que eu conhecia bem e admirava muito. Fiquei sabendo então que meu interlocutor já estava removido oficialmente de Bogotá para Barcelona, onde deveria assumir suas novas funções dentro de uns dois meses. Convidou-me para almoçar naquele mesmo dia.

Ao ver minha surpresa com o seu perfeito domínio do Português, explicou-me radiante que havia sido durante sete anos Cônsul de seu país no Rio de Janeiro, onde inclusive havia nascido uma de suas três filhas. O almoço estendeu-se pela tarde, ponteado por uma conversa amistosa, durante a qual vim a saber também que ele era um apaixonado pelo Brasil; que fizera amizades preciosas com figuras como Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade; que havia traduzido e publicado no México o livro de poemas de Drummond sobre o Quixote, ilustrado por Portinari; que ele também era poeta com vários livros já publicados, além de ser um fanático da música brasileira, havendo feito inclusive versões para o espanhol de algumas canções de Roberto Carlos; que as paredes de sua casa eram cobertas por óleos e gravuras de artistas do Brasil; que ainda mantinha sempre contato com seu Pai de Santo carioca; que…, que, em uma palavra, era um profundo admirador de meu país! Vi que nossas afinidades eram tantas que não tive dúvidas em convidá-lo a comparecer, naquela mesma noite, à reunião semanal do Clube da Música Brasileira de Barcelona, um exitoso centro que eu havia criado para difundir o Brasil na Catalunha, onde promovíamos concertos com músicos brasileiros residentes ou de passagem, mesclados às vezes com instrumentistas espanhois, além de palestras, filmes, recitais de poesia brasileira em português, castelhano e catalão, etc.

Poucos meses depois, o meu mais novo amigo já havia assumido seu Posto de Cônsul-Geral do México e residia em uma casa muito simpática em San Cugat, nos arredores de Barcelona. Nossas famílias tornaram-se amigas de infância…E quanto mais eu o conhecia, mais admirava a sua sensibilidade, sua cultura, sua deferência para com todos, especialmente com seus empregados e funcionários do Consulado. Paco, seu motorista e amigo que o acompanhava por todas as partes, tornou-se amigo do Aurélio, meu motorista e amigo que eu levava para todos os cantos. Foi ele, Edmundo, que me convidou para assistir certo dia a uma conferência de uma das figuras mais marcantes da cultura iberoamericana, a quem eu tanto admirava e admiro e a quem ele me apresentou pessoalmente: o seu amigo Octávio Paz, um dos maiores poetas e ensaístas do século vinte. Seu livro El Labirinto de la Soledad, que eu havia lido ainda nos anos sessenta, em Buenos Aires, continua sendo para mim um dos ensaios mais argutos e sensíveis jamais escrito sobre a alma de um povo – no caso, a rica, contraditória e complexa alma mexicana.

Outro escritor de marcante personalidade que me foi apresentado pessoalmente por Edmundo Font em um jantar em Barcelona, foi o italiano Antonio Tabucchi, falecido precocemente há dois anos e enterrado em Lisboa, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e de Bologna, conhecedor profundo e apaixonado da obra de Fernando Pessoa e seu mais importante tradutor para o italiano, casado com uma portuguesa de nobre ascendência  (Maria José de Lancastre), autor de uma vasta e respeitada obra de ficção e de crítica ensaística. Quando o conheci, em 1994, Tabucchi não tinha ainda completado a metade de sua obra, mas naquele mesmo ano publicava dois de seus livros mais interessantes, que vim a ler pouco depois: Os três últimos dias de Fernando Pessoa, no qual imagina e descreve os diálogos de uma visita feita ao Poeta, em seu leito de morte no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, por alguns de seus principais heterônimos; e o premiado Afirma Pereira, romance filmado por Roberto Faenza em 1995, com Marcello Mastroianni e Daniel Auteuil como protagonistas.

Um dos melhores programas para mim em Barcelona era visitar a família Font em sua deliciosa mansão em San Cugat. Certa vez, convidados para um jantar íntimo, numa noite gelada de fevereiro, chegamos lá e deparamos com o dono da casa em trajes completamente disparatados para aquele clima: Edmundo estava todo de linho branco, inclusive meias e sapatos  brancos. Ao abrir-nos a porta, foi logo esclarecendo:

– Vocês estão lembrados que hoje é dia 2 de fevereiro, não? Dia de Iemanjá, meus queridos! E junto ao dono, parecendo também comemorar, saltitante, a data tão especial, recebeu-nos um dos insígnes personagens da casa: o cãozinho que ele havia levado do Brasil e atendia pelo nome delicioso de Dendê.

Bem, depois deste interminável embora necessário (será?) nariz de cera, acho que podemos agora entrar em matéria propriamente dita, ou seja, na prometida estorinha da noite mágica. Aí vai ela – e a essas alturas todos os meus parcos e generosos leitores já perceberam que ela só poderia ter ocorrido em casa do… Dendê, certo? Pois foi.

                                                          NOCTURNO EN SAN CUGAT

Uma tarde no verão de 1994, o nosso Font me telefona convidando para um pequeno jantar em sua casa. Da família, só ele, a cozinheira Ricarda e o Dendê estariam em casa, já que sua mulher Patrícia e as filhas se encontravam de férias no México. Seria um encontro improvisado para uns poucos amigos, em torno de um conhecido poeta cubano chamado Pablo Armando Fernández, também seu amigo de fé e carteirinha, que estava de passagem pela cidade. Os demais, além de mim e de minha mulher, seriam um editor de livros (Emílio Payán) e um pintor (Juan Sebastián), ambos mexicanos, o cabelereiro do Rei de Espanha (!) Pascual Iranzo, uma figura surpreendente, além de Paco, o indefectível motorista de Edmundo, a cozinheira Ricarda e o também infalível Dendê. O jantar foi memorável, não apenas pela culinária como pela conversa mais que interessante de um grupo aparentemente tão heterogêneo.

Terminada a refeição, fomos todos para o jardim e continuamos a conversa em torno de uma mesa redonda ao lado da piscina. A noite era agradável, a temperatura amena, só não me lembro se havia estrelas no céu. Mas como se verá, elas começaram a aparecer de repente, da maneira mais inesperada e insólita… Foi quando o assunto resvalou para a poesia. Notei que o dono da casa ausentou-se de repente, voltando em seguida com um maço de folhas de papel em branco e algumas canetas. E então, como quem não quer nada, o nosso poeta Pablo Armando começa a rascunhar um texto em homenagem ao anfitrião, expressando-se em voz alta e escrevendo ao mesmo tempo. E enquanto isso, o pintor Juan Sebastián agarrava uma folha em branco e, à medida que ouvia as palavras e os versos ditos e escritos por Pablo Armando, passava a desenhar a toda a pressa e em absoluta concentração. Fez-se um silêncio completo na mesa. Só os dois artistas trabalhavam, absortos, como que desligados de tudo. Na verdade, parecia-nos, aos demais, que estávamos participando de uma misteriosa sessão de psicografia… com a pequena diferença de que o autor psicografado estava ali mesmo, de corpo presente. Ao cabo de quinze ou vinte minutos, tínhamos sobre a mesa o manuscrito de um poema intitulado El Bardo y Las Musas Cardinales, com a dedicatória Para Edmundo Font, e um desenho forte, expressivo, representando em uma só cabeça o bardo Edmundo, sua mulher Patrícia e as três filhas, com a assinatura de Juan Sebastián.

Mas isso foi apenas o ponto de partida de uma longa jornada noite/arte adentro, pois a inspiração dos artistas estava para o que desse e viesse. E lá fomos nós, os demais presentes, recebendo encantados cada qual o poema e o desenho que lhe eram dedicados e que iam sendo gestados ao longo da madrugada. Liana, eu, o cabelereiro do Rei, o editor Emílio Payán, o chofer Paco, a cozinheira Ricarda e … Dendê, claro, além do próprio poeta e do pintor, que também providenciaram suas homenagens recíprocas. A “sessão” só findou com a chegada da manhã, quando artistas e homenageados nos despedimos e com a alma em festa deixamos aquela casa e aquela noite, onde algo de muito, muito especial se havia passado.

Dias depois, recebi do Edmundo uma cópia em xerox dos poemas manuscritos e dos respectivos desenhos. Guardei tudo com muito carinho e muita saudade. Fui removido para Brasilia no final de 1994. Uns dois anos depois, em viagem de trabalho à Índia, fui convidado para almoçar na Residência do Embaixador mexicano em Delhi. Quem era ele? Edmundo Font… E nessa tarde ganhei um presente muito, muito especial… Alguns exemplares de um livro intitulado NOCTURNO EN SAN CUGAT, numa edição bilingue, com os poemas de Pablo Armando em sua tradução para o inglês feita pelo tradutor de Octávio Paz na Índia, e com os desenhos originais de Juán Sebastián. Publicado em papel reciclado por Ediciones Lodi Garden en Delhi – outra invenção de Edmundo Font…

Em 2002, estando eu como Embaixador no Marrocos, onde criamos também um Centro Cultural extremamente dinâmico, resolvi um dia traduzir para o Português os poemas de Nocturno en San Cugat e incluir em nossa programação um recital interpretado em três línguas, convidando para participar comigo um diplomata norte-americano e um argentino, que era também poeta. E, claro, antes de dar início à leitura dos poemas, contei ao numeroso público presente (e era de fato numeroso!) a estorinha que agora acabo de lhes contar, meus caros amigos e amigas do Quincasblog.

Há quase dez anos não vejo meu velho amigo mexicano, que reside hoje em seu país e continua na diplomacia, mas que acabou se dedicando de corpo e alma a desenvolver mais um de seus talentos, transformando-se num pintor de reconhecidos méritos. Acompanho suas novas atividades pelo Google, mantendo-me a par do grande sucesso que vem obtendo com suas exposições no México, Estados Unidos e outros países da América.

Vejam agora algumas fotos ilustrativas do que acabamos de evocar, incluindo uns poucos poemas e respectivos desenhos. Com grande imodéstia, destaco o poema Semillas, Estaciones, dedicado a Lauro Moreira e que, por puro acaso, considero um dos mais bem logrados de todo o livro… A frondosa árvore do louro (ou seja, lauro) resiste a todas as adversidades, mas afinal se lamenta ao ver por vêzes vêzes suas folhas tecidas em uma coroa (laurel) ornando imerecidamente a fronte de falsos herois. A tradução francesa foi feita pela minha amiga e poeta Jacqueline Seyrat.

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE "SEMILLAS, ESTACIONES"

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE “SEMILLAS, ESTACIONES”

POEMA E DESENHO PARA LAURO

POEMA E DESENHO PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

POEMA PARA DENDÊ

POEMA PARA DENDÊ

LIANA/DESENHO

LIANA/DESENHO

POEMA PARA LIANA

POEMA PARA LIANA

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em ARTES PLÁSTICAS, CRONICAS DO QUOTIDIANO, LITERATURA

MORRE O SOL DE VILARÓ

MORRE O SOL DE VILARÓ

CASAPUEBLO                                   Lauro Moreira

Proponho hoje aos meus caros leitores do Quincasblog interromper momentaneamente nossa série de crônicas futebolísticas para comentarmos um assunto grave: o desaparecimento ontem, 24 de fevereiro, de um grande artista plástico e uma marcante figura humana. Morreu Carlos Páez Vilaró, o homem de Casapueblo, o uruguaio cosmopolita, o cidadão do mundo, que soube fazer de sua fecunda e longa vida uma permanente e sempre renovada obra de arte.

Artista plurifacético – pintor, escultor, ceramista, muralista, escritor, compositor e carnavalesco – Vilaró faleceu ontem aos 90 anos de um ataque cardíaco, em seu país, em seu balneário de Punta del Este, em sua Punta Ballena, em sua formidável Casapueblo, “escultura habitável”, hotel-residência-museu, por ele erguida tijolo a tijolo ao longo de décadas, e que se transformou em um dos sítios mais visitados e admirados por turistas de toda parte.

Como destacava a midia internacional de ontem, ao longo de sua  carreira Vilaró dedicou-se sobretudo à representação da natureza e da comunidade afrodescendente sul-americana, depois de ter vivido vários anos na África. Por outro lado,  o mundo se lembra de sua inquebrantável determinação na busca do filho, uma das vítimas daquele terrível acidente aéreo sofrido pela equipe de rugby do colégio Old Christians, em 1972, enquanto atravessavam a Cordilheira dos Andes em viagem ao Chile. Ao cabo de 72 dias perdidos nas montanhas geladas, apenas 16 jovens dos 45 passageiros sobreviveram, entre eles seu filho.

Ao contrário de Liana, minha mulher – que ainda muito jovem conhecera Vilaró pessoalmente em sua residência em Ribeirão Preto, época em que ele expôs na Bienal de São Paulo, e lhe ofertara inclusive um quadro que temos até hoje em nossa parede – eu não cheguei a conhecê-lo de perto. Entretanto, e por incrível que pareça, estávamos neste momento nos preparando para viajar proximamente a Punta del Leste, com a exclusiva finalidade de participar de uma homenagem especial ao grande artista, que seria prestada por um brasileiro que o conhecera recentemente em Casapueblo e ficara profundamente impressionado com a beleza daquele universo e a irresistível simpatia e energia de seu criador.

Esse brasileiro é o meu amigo Alberto Araújo, romancista, poeta e cineasta, realizador do filme Vazio Coração, recentemente exibido no Brasil e do qual tive o prazer de participar, personagem portanto conhecido dos leitores deste Quincasblog; e a mencionada homenagem seria a apresentação, em Casapueblo, de um recital que eu apresentaria com os poemas de seu novo livro Sol de Vilaró, cujos originais já se encontram há dias no prelo de uma gráfica em Goiânia. Ontem ao final da tarde recebi uma lacônica mensagem do Alberto no celular: “Chegamos tarde… Morreu Vilaró.”

Não, meu caro Alberto, não morreu Vilaró, e nossa bonita homenagem está prestada. Tenho  certeza de que o homenageado a apreciará devidamente.

Como lembrança de tudo isso, transcrevo abaixo, com a permissão do autor, três dos quinze poemas do livro, no original, e na fiel tradução de Mara Publio para o castelhano, além deste trecho introdutório:

“A arte tem às vezes o poder de nos desconectar do real, de anular a gravidade e nos fazer flutuar. Assim me senti ao percorrer os labirintos de Casapueblo, o mundo particular e universal de Carlos Páez Vilaró. Ali, ao abrigo daquela arquitetura inexata, tudo se harmoniza em uma atmosfera onde criador e criação parecem interligados, abraçados desde sempre, para sempre. Milhares de pessoas de variadas culturas visitam aquele recanto de arte em Punta Ballena, de onde por certo cada qual sai com uma diferente sensação. Eu, poeta brasileiro, senti-me como alguém que abre a janela e se depara com um segundo sol na linha do horizonte, o Sol de Vilaró.” 

Encontro                                                                                                                                                  CasapuebloPainel de Vilaró

VCarlos Páez Vilarói Vilaró ou revi Vilaró?

Apertei-lhe a mão pela primeira

ou milésima vez?

Saudoso encontro!

Reencontro de amigos

que não se conheciam

que não se escreviam.

Amigos que não se falavam

não se viam…

No olhar

um diálogo guardado há décadas

vinho no fundo da adega

o paladar das palavras

Nos despedimos como amigos

que se verão amanhã

se verão sempre

como nunca se viram

Vilaró, amigo

da vida

das artes

das cores

dos  ritmos

do sol

da lua

amigo do mundo.

*********************

Encuentro

¿Vi o reví Vilaró?

¿Le estreché la mano por primera

o milésima vez?

¡Deseado encuentro!

Reencuentro de amigos

que no se conocían

que no se escribían.

Amigos que no se hablaban

que no se veían…

En la mirada

el diálogo guardado desde hace décadas

vino en el fondo de la bodega

el sabor de las palabras

Nos decimos adiós como amigos

que van a verse mañana

que van a verse siempre

como si nunca se hubieran alejado

Vilaró, amigo

de la vida

de las artes

de los colores

de los ritmos

del sol

de la luna

amigo del mundo.

***********************

Sol de Vilaró

O sol de Vilaró nasce em Punta Ballena

e se espalha pelo Uruguai

iluminando vinhedos

trigais

ovelhas

e gado​

O sol de Vilaró

doura a pele de homens e mulheres

da América do Sul

desliza pelo leito dos rios

florestas

cerrados

desertos

e ainda se vê

em espelhados arranha céus

O sol de Vilaró

afaga os Andes

depois

se sentindo em casa

brinca com os Incas

flerta com os Maias  e Astecas

O sol de Vilaró

descansa no colo das índias

e desperta com as  crianças

das Américas.

Para Carlos Páez Vilaró

o sol é o sorriso do universo.

***************

Sol de Vilaró

El sol de Vilaró nace en Punta Ballena

y se extiende por todo Uruguay

alumbrando parrales

trigales

ovejas

y el ganado

El sol de Vilaró

dora la piel de hombres y mujeres

de Sudamérica

resbala por el cauce de los ríos

bosques

sabanas

desiertos

y aún se ve

en espejados rascacielos

El sol de Vilaró

acaricia los Andes

luego

sintiéndose en casa

juega con los incas

coquetea con los mayas y los aztecas

El sol de Vilaró

reposa en el regazo de las indias

y despierta con los niños

de las Américas

Para Carlos Páez Vilaró

El sol es la sonrisa del universo.

Casapueblo

Uma casa

ou um acaso da criação?

o concreto

da paciência do não arquiteto

pura imaginação

Nem esquadro

nem compasso

a intuição não tem geometria

moderna  poesia

Nada é exato

e tudo se equilibra

se harmoniza

por  instinto

da inspiração e seus labirintos.

**********************

Casapueblo

¿Una casa

o un acaso de la creación?

el hormigón

de la paciencia del no arquitecto

pura imaginación

Ni escuadra

ni compás

la intuición no tiene geometría

moderna poesía

Nada es exacto

y todo se equilibra

se armoniza

por instinto

de la inspiración y sus laberintos.

***************

8 Comentários

Arquivado em ARTES PLÁSTICAS, CRONICAS DO QUOTIDIANO

ARTES PLÁSTICAS : DJ OLIVEIRA

O Anhanguera

No início de agosto próximo, espera-se, será inaugurada no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, uma grande exposição de obras de DJ Oliveira, figura seminal das artes plásticas em Goiás e em toda a região centro-oeste. Na oportunidade, será distribuído um livreto contendo um texto meu sobre o artista e amigo, ilustrado com imagens de um belo mural de grandes dimensões (quase vinte metros quadrados) que ele realizara para minha casa em Brasília, e que agora faz parte do acervo cultural do povo goiano. A história toda está narrada a partir dessa “Nota Explicativa” a seguir. 

NOTA EXPLICATIVA

Em 2005 escrevi o depoimento abaixo sobre o artisto plástico DJ Oliveira, pintor, gravador, cenógrafo, figurinista e professor, nascido em Bragança Paulista em 1932 e que veio a falecer subitamente naquele mesmo ano de 2005. Fizera quase toda sua carreira artística em Goiás e se considerava goiano de coração. Foi meu amigo dileto de longos anos, a quem eu pretendia homenagear com aquele texto, escrito antes de seu desaparecimento, para constar de um livro que se preparava sobre sua obra. O livro continua infelizmente inconcluso – uma dívida pendente de Goiás para com seu artista maior –  mas minha homenagem pessoal vem agora a público com este livreto contendo o mencionado depoimento, acrescido da doação, que tive o prazer de efetuar ao povo goiano, de seu magnífico mural “O Anhanguera”, especialmente concebido e realizado em 1997 para minha residência em Brasília, e que passa doravante a enriquecer o acervo do Centro Cultural Oscar Niemeyer.

                                                                               

 MEIO SÉCULO DE ARTE, ADMIRAÇÃO E AMIZADE

                                Lauro Moreira

CLARICE LISPECTOR, por DJ OLiVEIRA

DJ pintando o retrato de MARLY DE OLIVEIRA (Rio, 1966)

Ai de ti, Copacabana e o Auto da Compadecida

Dirso  José de Oliveira – para mim apenas Oliveira – celebra neste ano de 2005 seus 50 anos de pintura. E eu celebro com ele nossos 47 anos de amizade ininterrupta e de uma comovida admiração de minha parte, que o tempo só fez crescer e aprofundar.

Goiano de nascimento e raízes – como Oliveira o é por adoção e vivência – saí cedo de minha terra, aos dez anos, para seguir os estudos em um colégio interno em São Paulo. Após cinco anos, mudei-me para o Rio de Janeiro, juntando-me outra vez à família, que se estava transferindo de Goiânia para lá. Na então Capital Federal, comecei a viver os anos mais movimentados e felizes de minha vida, participando intensamente da efervescência cultural da época. E que época! De JK, da construção de Brasília; do Cinema Novo; do nascimento e apogeu da Bossa Nova; dos inesquecíveis autores, atores e grupos teatrais (Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Tonia-Celli-Autran, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Teatro dos Sete, Tablado, TBC); da eclosão literária de Clarice Lispector e Guimarães Rosa; da presença de Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Cecília Meireles. Mas também do tênis consagrador de Maria Esther Bueno, da canhota demolidora de Eder Joffre e do futebol vitorioso de Pelé, Garrincha, Didi e Nilton Santos. E ainda da intensa vida política, oxigenada pelos ares democráticos que o país respirava a plenos pulmões…

De tudo isso e muito mais pude usufruir naquele período entre 1955 e 1964, quando o Brasil era realmente feliz e não sabia…

Pessoalmente, além das atividades escolares, vivia envolvido em cursos de cinema e de teatro, em conferência de todo gênero, montagens de peças nos vários palcos amadores da cidade, dirigindo uma afanosa Associação Cultural da Juventude (ACJ), exercitando-me no jornalismo estudantil e, naturalmente, frequentando com fervorosa assiduidade as salas de cinema e de teatro e as arquibancadas dominicais do Maracanã, para ver meu Flamengo jogar…

Pois foi exatamente nessa época que vim a conhecer o nosso Oliveira. Indo a Goiânia nas férias escolares de 1959, com a intenção de apresentar um espetáculo de interpretação de textos a que dera o nome de Ai de ti, Copacabana – uma reunião de poemas e crônicas de autores brasileiros – apresento-me uma tarde para ensaio no hoje extinto Teatro de Emergência, na Rua 3, ao lado da sede do Jóquei Clube, e encontro o grupo teatral do saudoso João Bênio acabando de ensaiar O Auto da Compadecida, o recente e irresistível texto de Ariano Suassuna que já encantava as platéias de norte a sul do país.  Apresentado pelo próprio Bênio, venho a conhecer o cenógrafo da companhia, ou seja, um pintor do interior de São Paulo, chegado a Goiânia poucos anos antes e que se chamava Dirso José de Oliveira.

Era uma figura forte e marcante, lembro-me bem. E mais marcante ainda me pareceu sua pintura, dependurada em alguns quadros nas paredes do próprio camarim transformado em ateliê. Contemplei com crescente admiração as obras expostas e adquiri duas delas (uma, por sinal, acabou sendo das raríssimas obras abstratas do pintor, uma colagem tachista, numa explosão de cores a que dei logo o título nada original de “Hiroshima”). Mas confesso que, ao lado da boa surpresa de encontrar ali um pintor daquele quilate, fiquei um pouco preocupado, sem entender que tipo de público daquela Goiânia de então poderia apreciar e adquirir aquela pintura 

moderna, meio rebartiva e seguramente pouco compreensível para os conservadores padrões estéticos locais. Apresso-me a acrescentar, no entanto, que minha preocupação logo se volatizou pela crescente penetração dessa obra renovadora junto não apenas a uma camada mais sofisticada de intelectuais e artistas, mas também junto ao público goianiense em geral, junto às famílias de classe média, em cujas casas se multiplicavam a olhos vistos  quadros e gravuras de D.J. Oliveira, aos quais se acrecentavam obras de outros artistas locais, quase todos formados pelo mestre. E o pintor paulista acabou sendo adotado pelo público goiano como seu artista favorito. Acontecia aqui o que se passara com a obra de Eça de Queirós, na visão crítica de Machado de Assis: “Tal que começou pela estranheza, acabou pela admiração.”…

Aquele primeiro encontro no Teatro de Emergência foi o marco inicial de uma longa trajetória comum, de uma amizade para mim inestimável, repleta de momentos memoráveis. Passei a acompanhar, ainda que à distância, a evolução do pintor, o aprofundamento de suas pesquisas e a ampliação de seu domínio técnico e de seu horizonte artístico. Cada vez que voltava a Goiânia, passava horas com o pintor em seu atelier na Escola de Belas Artes, fundada pelo Frei Confaloni e o Professor Gustav Ritter – dois outros pioneiros das artes plásticas em Goiás – e onde Oliveira começara a lecionar informalmente,  transmitindo sua experiência a um grupo de jovens iniciantes, entre eles Siron Franco, Ana Maria Pacheco, Iza Costa e inúmeros outros… Era a semente que estava sendo plantada e que em pouco tempo se ergueria em árvore frondosa e se multiplicaria em novos frutos e novas sementes, dando origem e alimentando um dos mais férteis movimentos artísticos do Centro-Oeste brasileiro.

O pintor em Botafogo

Por essa época eu continuava vivendo no Rio, e me havia casado, em 1964, com uma jovem e brilhante poeta – Marly de Oliveira – com quem tive o privilégio de passar a frequentar um invejável círculo de escritores e intelectuais, com nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade,  Clarice Lispector, Antonio Houaiss, Aurélio Buarque de Holanda, Cecília Meirelles, Augusto Meyer, Walmir Ayala, Tasso da Silveira, Thiers Martins Moreira. Pouco mais tarde, concluído o curso de Direito e ingressando na Carreira Diplomática, meu privilégio se ampliou ao conviver com figuras como João Cabral de Melo Neto, e sobretudo, com Guimarães Rosa, com quem privei até sua morte, em fins de 1967.

Em 1966, D.J. Oliveira decidiu passar uma temporada no Rio, hospedado em casa de um amigo em Copacabana. Todas as manhãs, antes de seguir para o trabalho no Itamaraty, eu passava de carro para buscá-lo e o deixava em algum sítio da cidade, armado de telas, tintas e pincéis. Ao final do dia, levava-o de volta à casa, com telas cobertas de tinta fresca a manchar irremediavelmente o banco traseiro de meu Fusquinha… E ao cabo de um mês, organizei  em meu apartamento na Praia de Botafogo um vernissage de mais de vinte desses trabalhos. Em duas noites dedicadas aos amigos, ao corpo diplomático brasileiro e estrangeiro, a escritores, poetas, artistas, gente de teatro e cinema, críticos de artes plásticas e jornalistas, a obra de D.J. Oliveira foi devidamente apresentada a um novo e numeroso público de grande significação cultural no país.

Os jornais do Rio deram ampla cobertura ao evento. Uma página inteira do “Jornal do Comércio”, assinada por Rosa Cass, tecia comentários minuciosos e encomiásticos à obra do pintor, gravador, desenhista e muralista, estampando várias fotos de seu grande mural múltiplo da Universidade Federal de Goiás. Enquanto isso, Oliveira pintava em minha casa o retrato de Marly de Oliveira e de Clarice Lispector – que já havia sido retratada por ninguém menos que De Chirico. E foi também nessa oportunidade que o Governo da Tchecoslovaquia, através de seu Conselheiro Cultural no Rio, presente à exposição, decidiu encomendar ao pintor um painel para integrar o acervo do Museu da Guerra, da cidade de Lídice, para sempre traumatizada pela indescritível brutalidade nazista durante a ocupação do país. Oliveira realizou a obra pouco depois, já em Goiânia, e a enviou ao seu destinatário final, onde até hoje se encontra, ao lado de obras de Picasso e de dezenas de outros artistas de nosso tempo. E não deixa de ser curioso observar que deste painel não tenha restado no Brasil sequer um registro fotográfico. Enfim, para quem conhece a simplicidade e a modéstia do personagem, sua total aversão à notoriedade, o descuido não chega a surpreender demais.

Para concluir este capítulo do pintor em Botafogo, uma curiosidade: acompanhando DJ naquela viagem ao Rio estava um jovem de 18 anos, discípulo que ajudava o Mestre na preparação das telas, e que já realizava seus primeiros esboços; era inteligente, de grande vivacidade e alegria, de talento notório. Seu nome dispensa hoje maiores apresentações: Siron Franco. Aliás – e é com orgulho que menciono pela primeira vez essa passagem – trinta e cinco anos mais tarde, em 2000, o próprio Siron, ao convidar-me gentilmente para posar para um retrato, evocava ainda as marcas indeléveis em sua memória e em sua alma, provocadas pela visão do quadro de De Chirico em casa de Clarice e pelo contato pessoal com figuras tão maravilhosas como Manuel Bandeira, Walmir Ayala, Antonio Houaiss ou a própria Clarice Lispector.

Viagem ao exterior

Em 1968 D.J. Oliveira viaja para a Europa, com o apoio da Universidade Católica de Goiás, enquanto eu sigo para Buenos Aires, meu primeiro Posto diplomático. Depois de quatro anos, fui removido para Genebra, de onde só retornei ao Brasil em 1974. Passamos anos sem nos ver.

Em 1973, de férias no Brasil, pude apreciar uma nova fase na pintura de Oliveira, agora menos agressiva em seus traços expressionistas, valendo-se mais do pincel que da espátula, atenuando a violência das cores. Ao ver uma exposição do artista naquele ano em Goiânia, o escritor Bernardo Elis publicou interessante artigo onde alegava que os dois anos de Europa haviam “ domesticado” um pouco a sua pintura. De fato, um artista com a sensibilidade, abertura de espírito e  curiosidade intelectual como DJ não poderia passar incólume pelos museus e galerias da Espanha, Itália, França, Alemanha e Holanda, entre outros.

Em contato com a paisagem espanhola, reavivou-se-lhe a antiga e jamais abandonada paixão pelo Quixote. Aliás, “El Caballero de la Triste Figura” e seu leal escudeiro Sancho Pança constituem um verdadeiro leitmotiv na obra do pintor, ao lado de outras figuras afins, em sua imensa solidão e em seus impulsos utópicos, como São Francisco de Assis e o nosso Antonio Conselheiro.

Os anos 70 e 80

Com meu retorno ao Brasil, retomei os contatos com Oliveira e suas paisagens agora serenas, suas mulheres “modiglianescas”, seus vasos de flores, seus casarios coloniais, seus eternos arlequins e saltimbancos, seus murais admiráveis em Goiânia, Brasília e Luziânia, seus vendedores de pipoca, suas tristes estações ferroviárias com seus trilhos solitários e, naturalmente, seus reiterados e renovados Quixotes.

Em 1974 fui procurado em Brasília pelo Frei Confaloni e a pintora Vanda Pinheiro, que pediam minha intercessão junto à área cultural do Itamaraty para viabilizar o transporte de umas poucas telas e gravuras de artistas goianos, que o Frei desejava mostrar na Itália. Meu amigo e colega – e artista plástico da melhor qualidade – Romeo Zero, que dirigia a Divisão de Difusão Cultural, encarregou-se da missão e foi bem mais longe: organizou uma exposição de seis artistas goianos em Roma, Milão e Paris. Eram tres pintores (DJ, Siron e Confaloni) e três gravadores (Vanda Pinheiro, Naura Timm e, se não me engano, Cléa Costa).

Do mesmo modo, e naqueles idos de 70, creio que em 1976, o Governo Irapuan Costa Jr., reconhecido incentivador das artes, enviou uma coletiva de pintores goianos à França, da qual constava naturalmente o nosso DJ, ao lado de Poteiro, Cléber, Siron e muitos mais.

Os anos 70 e 80 foram, aliás, de intensa atividade para Oliveira,  com inúmeras exposições individuais e retrospectivas de obras, apresentadas sobretudo em Goiânia e Brasília. Recordo-me  especialmente de uma grande exposição nos salões do Hotel Nacional de Brasília, organizada por Natanry Osório – outra admiradora e incentivadora do pintor, ao lado de seu marido, o advogado e escritor Antonio Carlos Osório – na qual se notava uma nova e surpreendente temática na obra de DJ: uma acerba crítica social traduzida em figuras grotescas de cardeais pomposos, políticos a se enforcarem em suas próprias gravatas, e conspiradores soturnos a trocar misteriosas confidências. Surpreendeu-me bastante essa nova faceta do artista, cuja obra havia sido marcada sempre por um profundo lirismo, uma atmosfera de solidão e nostalgia, uma recorrência a temas e jogos da infância. Independente de seu valor artístico, a verdade é que essa fase, que a meu ver não refletia a essência mais profunda da alma poética do pintor, não tardou muito a se esvanecer na continuação de sua trajetória. E pouco tempo depois, já o vemos de volta a seus temas preferidos, em duas novas e magníficas exposições em Brasília, na sede da IBM e, posteriormente, na Galeria Athos Bulcão, da Secretaria de Cultura do DF.

Em 1987, após quatro anos na Embaixada do Brasil em Washington (onde, aliás, apresentamos uma bela e bem sucedida exposição de Antonio Poteiro) e ocupando a Chefia da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty em Brasília, organizei uma coletiva de “ Pintores do Centro-Oeste”, para celebrar a visita oficial do Presidente Sarney a Angola. Eram 36 obras de 18 pintores, entre os quais estavam D.J. Oliveira, Cleber Gouvea, Roos e Cléa Costa. Depois de Luanda, a mostra seguiu para Moçambique, onde foi apresentada nas magníficas dependências do Centro de Estudos Brasileiros de Maputo.

O Anhangüera

Entre o início de 1991 e fins de 1994, voltei a ausentar-me do país, para ocupar o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona. Ao retornar a Brasília, adquirimos uma casa residencial recém-construída no Lago Sul e encomendamos a Oliveira a realização de um mural, tendo por tema a saga dos Bandeirantes na conquista do Centro-Oeste, especialmente a de Bartolomeu Bueno  da Silva, o Anhanguera, meu antepassado e fundador de Vila Boa de Goiás. O magnífico painel policrômico de quase 20 metros quadrados, executado em cerâmica vitrificada e queimada, foi festivamente inaugurado em 1997, ao lado de uma exposição de várias telas recentes e antigas do pintor, espalhadas pelos jardins e pela varanda da casa. Ou seja: 31 anos após aquele vernissage na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro,

voltava eu a homenagear o Artista e o Amigo com uma apresentação de sua obra em minha residência, à qual também estiveram presentes diplomatas brasileiros e estrangeiros, apreciadores das artes, jornalistas, escritores, políticos –entre os quais o então Deputado Federal Marconi Perillo – e sobretudo uma legião de amigos e admiradores do homenageado. E o belo mural continua a fazer-nos companhia, a mim e a Liana, minha mulher,  e a encantar a quantos visitam nossa casa em Brasília.

Aliás, por conta desse mural e, em parte, de minha constante pregação sobre a arte e a personalidade de D.J. Oliveira, vários amigos e colegas do Itamaraty tem visitado seu atelier em Luziânia e adquirido trabalhos seus. O Embaixador Sérgio Arruda e sua mulher Geo Alencar se destacam especialmente nesta lista de admiradores, ornando as paredes de sua residência em Brasília – como já o faziam em outros países – com uma notável coleção de telas do pintor.

Minha mais recente promoção da obra de Oliveira e de vários outros artistas plásticos goianos, eu a pude realizar no ano de 2002, no Marrocos, onde me encontrava como Embaixador do Brasil. Propusemos aos demais Embaixadores da América Latina a organização de uma mostra reunindo obras de pintores de nossos respectivos países, extraídas do acervo de cada Embaixada. E da coleção particular do Embaixador do Brasil foram expostas (por mera coincidência) obras de D.J. Oliveira, Siron Franco, Antônio Poteiro, Cléa Costa, Célio Braga e Cléber Gouvea.

A Obra, o Homem e o Professor

Concluindo essas reminiscências dispersas mas sempre presentes  em minha memória sentimental, que me levaram a recuar décadas no tempo, constato uma vez mais a profunda admiração que sinto pela obra, pelo homem e pelo mestre Dirso José de Oliveira.

Obra desenvolvida em diferentes fases, em estilos vários e vários temas, mas sempre tocada de um lirismo sóbrio, de um íntimo contato com a paisagem, a vida e o povo de sua terra de adoção, de um eterno retorno ao seu amado Quixote – quase um alter-ego do artista. Homem de tocante sensibilidade, generoso, devotado aos amigos e discípulos, modesto, comedido, sóbrio e íntegro. E mais que Professor, um disseminador de idéias, um incentivador de talentos, o grande responsável pela multiplicação e propagação de tantos artistas plásticos que o Estado de Goiás tem tido o privilégio de reunir nas últimas décadas e, com justo orgulho, oferecer ao Brasil.

Brasília, junho de 2005

Notícia do mural na imprensa de Brasília

DJ E SEU AUTO-RETRATO

14 Comentários

Arquivado em ARTES PLÁSTICAS