Arquivo do mês: março 2018

O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

                        

                O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

 

                                                       Lauro Moreira    

 

Palácio do Itamaraty, Rio

 

         Ao escrever recentemente sobre meu convívio com o escritor e Embaixador João Guimarães Rosa, mencionei aos queridos leitores que em 21 de dezembro de 1962,  três dias após concluir  o curso de Direito na PUC/Rio, dei início à maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, e amigos de toda a vida, entre eles o nosso magnífico poeta Chico Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim.    

 

        Primeiro obstáculo: a escolha do Paraninfo

         Uma novela bastante desagradável para mim, e que veio a ter consequências imprevistas, começou no entanto a desenrolar-se logo nas primeiras semanas de nosso ingresso na Carrière. Teve a ver com a apresentação do discurso do representante da turma na cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco (IRB). Por escolha dos colegas coube-me a arriscada honra de pronunciá-lo. Arriscada, porque o golpe militar de 31 de março de 1964 havia colhido nossa turma já no último ano do Curso, e a situação política do país não era, digamos, das mais tranquilas. Os primeiros passos desta novela que lhes vou narrar deu-se no final do ano, com o impasse criado pela resistência do Diretor do IRB ao nome do Paraninfo que havíamos escolhido, ninguém menos que o respeitado Professor Alceu de Amoroso Lima, um consagrado escritor, intelectual e líder católico, cujo único defeito seria talvez o de não ter aprovado o golpe militar e ter o mau hábito de por vêzes criticá-lo…Esse capítulo arrastou-se por longo tempo, até que finalmente, já ingressados na Carreira, resolvemos substituir o Paraninfo, convidando então uma das mais ilustres figuras do Itamaraty, um pioneiro da diplomacia econômica, um ex-Ministro da Indústria e do Comércio no Governo João Goulart, um economista doutorado pelo MIT-  Massachussets Technological Institute, o Embaixador Otávio Dias Carneiro, que a essas alturas se encontrava encostado no DEC, ou seja, marginalizado no famoso Departamento de Escadas e Corredores do Ministério, após sub-chefiar a delegação do Brasil à importante reunião da UNCTAD em Genebra, em 1964, justamente na época da assunção do governo militar, do qual ele naturalmente divergia.

        Após muita insistência, conseguimos que o Embaixador finalmente acedesse ao nosso apelo. O convite foi-lhe feito por uma comissão de colegas em uma sala do Palácio, e nosso diálogo eu o tenho na memória até hoje, ipsis verbis: “Meus caros, disse ele, esta é a maior homenagem que recebi até hoje no Itamaraty, e estou profundamente grato a vocês, mas sinceramente não posso aceitar. Acho que vocês não sabem o que estão fazendo, não conhecem bem minha situação atual”.  Ao que logo replicamos: “Embaixador, sabemos perfeitamente; conhecemos sua situação hoje e o estamos convidando justamente por isso, para reparar uma grande injustiça”. A emoção foi grande, de parte a parte. E assim, após um longo desgaste, concluímos o primeiro capítulo da novela, o do Paraninfo. Mas enquanto nesse ínterim, eu sofria com as dores do parto de um  discurso cada vez mais improvável, num verdadeiro malabarismo de ideias, conceitos, palavras, na busca de formas palatáveis que pudessem preservar um mínimo do que pretendia dizer, em um momento bastante adverso. Eu nem o havia concluído, quando certo dia recebo um telefonema da Secretaria do IRB com instruções de entregar o texto ao Gabinete do Ministro naquela mesma tarde, pois o Presidente da República precisaria conhecê-lo de antemão, uma vez que, como de praxe, a solene cerimônia de formatura contaria com a presença de Sua Excelência. Expliquei que só poderia entregar no dia seguinte, e enquanto corria para dar os últimos retoques à obra, encarecia à minha dedicada secretária Christiana datilografar o texto o mais rápido possível, em espaço 2 e 3, de modo a facilitar-me a leitura. Tarefa cumprida (e comprida!), discurso entregue.

                Uns dez dias depois avisam-me para comparecer urgente ao Gabinete do Ministro de Estado. Lá chegando, meio ofegante, encontro na ante-sala o Embaixador Dias Carneiro, que muito amavelmente me explica que o Senhor Ministro havia “lido e gostado muito do texto” que eu havia preparado, mas que, com 16 páginas, achava-o demasiado longo para a cerimônia, contrastando inclusive com as 6 páginas do discurso preparado pelo Paraninfo… Ou seja, pediam-me apenas para encurtá-lo…(Será?). Tratei então de conseguir uma Lettera 22 da Olivetti, maquininha excelente de letrinha miúda, rebati o texto em espaço 1 e 2, com margem mínima (como no texto do Paraninfo) e voltei a entregar o discurso ao Gabinete do Ministro, só que agora com apenas 7 páginas. E passamos a aguardar a marcação do dia da formatura…

              Segundo obstáculo: o texto do discurso 

         …E nada! Até que uma tarde, depois de uns dois meses de trabalho rotineiro daquela nossa turma do Rio Branco “que não se formava nunca”, fui novamente chamado ao Gabinete do Ministro de Estado. Esperava-me agora o nosso já mencionado provecto e respeitável  Embaixador Diretor do Instituto Rio Branco, que, sem saber dos antecedentes de minha última conversa com o Paraninfo, começou por repetir tudo, dizendo que o Ministro de Estado havia lido o discurso, que tinha gostado muito, etc, etc. Acrescentou ainda que ele, Diretor, não o havia lido e portanto não podia opinar (velada censura por eu não ter-lhe enviado antes o texto), mas que o discurso “parecia ser muito profundo e portanto não apropriado para uma cerimônia de amenidades como deve ser uma formatura. Aliás, se o senhor quiser, poderá até apresentá-lo como uma conferência aos alunos do Rio Branco…” O pior dessa longa e difícil conversa porém estava por vir, sobretudo para um jovem recém ingressado na carreira diplomática de seu país: Embaixador, disse-lhe eu com todo respeito, o senhor me desculpe, mas o que pretendi com este discurso foi apenas traduzir uma certa ordem de preocupações, minhas e da minha turma. E ele: Veja, é muito natural que o senhor, com seus vinte e poucos anos, tenha essa ordem de preocupações, mas olhe, sinceramente, ninguém está interessado nisso… Ninguém. Chocado e triste com o que estava a ouvir, disse-lhe apenas que eu não sabia fazer ‘discurso de amenidades’, mas que o problema era de fácil solução: eu pediria aos colegas que, do mesmo modo que me escolheram para representá-los, elegessem um outro colega como orador. E assim o fiz, apesar da indisfarçável preocupação do velho embaixador. Em reunião com a presença dos treze colegas, li o discurso em voz alta (era a primeira vez que o fazia coletivamente) e ao final pedi os comentários sinceros por parte de cada um. Depois da aprovação elogiosa e unânime, revelei-lhes os detalhes da novela do discurso, que eles desconheciam por completo, e encareci-lhes que indicassem outrem para substituir-me. Foi um bafafá geral!… Ninguém aceitou a sugestão  e todos decidiram solicitar uma audiência ao Ministro de Estado, o  Embaixador Vasco Leitão da Cunha, a fim de que uma comissão de quatro representantes pudesse expor nossas ponderações. E viva o Cavaleiro da Triste Figura!…

         Fomos recebidos – participei da comissão, claro, na qualidade de autor do delito – não pelo Ministro em pessoa, mas por seu Gabinete, incluindo o Embaixador Mozart Gurgel Valente (cunhado da escritora e amiga Clarice Lispector) e o então Conselheiro Dário Castro Alves, que viria mais tarde a ser um grande amigo e uma figura muito querida em Portugal, onde foi Embaixador e viveu vários anos. A reunião durou horas, de quatro as sete da tarde, e ao final, do outro lado da mesa só restava o nosso Conselheiro Dário que, com paciência monástica, continuava a nos ouvir e a tentar romper um impasse complicado, em que eu simplesmente reclamava o direito de não pronunciar um discurso, enquanto a turma se negava a escolher um substituto. Até que finalmente foi-me dito que em absoluto não era necessário que eu fizesse um novo texto (de amenidades?…), bastando apenas que atenuasse o tom de certas passagens, pois sempre haveria o risco, arrematava nosso interlocutor, de que no dia seguinte ao da formatura o Correio da Manhã, jornal importante e opositor ferrenho do governo, extraindo uma frase do contexto, publicasse algo como “Jovem diplomata dá aula ao Presidente da República mostrando que democracia social é o caminho para o Brasil”... Depois de intermináveis  discussões sobre essa questão de explorar uma frase fora de contexto (até do Padre Nosso, dizia eu, se pode fazer isso, enquanto meu futuro amigo Dário observava com humor: é, talvez o Pão Nosso de cada dia nos dai hoje…) e de eu prometer que faria um esforço especial para atenuar algumas passagens do discurso, como queriam, fui para casa, voltei de novo ao texto, mas, confesso sem qualquer arrependimento, limitando-me apenas a inverter a ordem de alguns parágrafos e substituir uma ou outra palavra, sem mudar praticamente nada do sentido original. O texto revisto foi então entregue ao Gabinete do Ministro no dia seguinte. Passados 53 longos anos, os colegas já hoje aposentados (alguns já falecidos) continuamos pacientemente aguardando a realização da formatura da turma de 1964 do Instituto Rio Branco…

Embaixador Dário de Castro Alves

Interior do Palácio do Itamaraty, Rio

                Mas não custa reiterar, sobretudo aos leitores mais jovens, que os tempos de então estavam de fato bicudos. Veja-se por exemplo este trecho extraído dos arquivos do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, referente à instalação, no dia 17 de novembro de 1965, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, da II Conferência Interamericana Extraordinária (II CIE): À chegada do presidente Castelo Branco no momento da abertura da Conferência, foram presos diante do hotel oito intelectuais que se manifestavam contra o regime militar. Faziam parte do grupo que ficou conhecido como “Os 8 da OEA” os escritores Antônio Calado e Carlos Heitor Cony, os cineastas Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, o diretor de teatro Flávio Rangel, o jornalista Márcio Moreira Alves e o diplomata Jaime de Azevedo Rodrigues. Alguns dias depois foi também detido o poeta Tiago de Melo. Todos permaneceriam presos por cerca de duas semanas e seriam enquadrados na Lei de Segurança Nacional depois de responderem a um inquérito policial-militar (IPM).” Protestavam eles, antecipadamente, contra as bases da nova política externa brasileira, que seriam inauguradas a partir daquele momento, segundo as diretrizes ideológicas do movimento armado de 1964. Como escreveu mais tarde o historiador Manuel Maurício de Albuquerque (por coincidência nosso professor no Curso do Instituto Rio Branco): “Através do Itamarati, o governo brasileiro propunha que o conceito de soberania passasse do critério de espaço nacional demarcado por limites, para se basear no das fronteiras ideológicas. Isto significava o direito de intervenção para sustentar um governo, aceito como democrático, que fosse ameaçado por movimentos dominados por ideologias consideradas não-democráticas.”  

 

Tópicos do discurso

        Consequências duradouras…

        Retomando porém o nosso assuntinho irrelevante, a verdade é que se o discurso ficou impronunciado, seus efeitos perduraram por largo tempo, sobretudo para seu autor… Decorrido um ano, com a mudança do Ministro de Estado e a assunção de um Secretário-Geral linha-dura, como se dizia, o assunto voltou à tona, e eu, que além de tudo, estudava russo e trabalhava na Divisão dos países da chamada Cortina de Ferro (!)  passei a ser observado através de lentes especiais… Vivíamos tempos complicados, o mundo bipolarizado, a situação interna se radicalizando cada vez mais. Confesso, confesso que nada disso chegava a   preocupar-me em demasia. Exercia normalmente minhas   funções no trabalho, mantendo as convicções pessoais que estavam claramente expressas nas páginas do famigerado discurso – e que coincidiam com as linhas gerais da doutrina social da Igreja, do Bonum Comune de S.Tomás de Aquino à Rerum Novarum de Leão XIII, da Mater et Magistra de João XXIII às teses renovadoras de Jacques Maritain. Por outro lado, eu tinha consciência de que se tratava de um discurso um pouco incômodo para certas autoridades da Casa, sobretudo as mais conservadoras, pois aos olhos do governo militar da época, as ideias ali expostas não gozavam de grande simpatia… Ao mesmo tempo, o que dizia o discurso me parecia tão lógico, tão evidente e tão sensato, que eu não conseguia entender a oposição que ele enfrentava. Lembro-me que um dia, indo para o trabalho, ocorreu-me de repente uma formulação curiosa para explicar essa situação que tanto me afligia. Ao parar o carro em um semáforo anotei a frase que me viera à cabeça e que mais tarde acabei usando como epígrafe nas cópias do discurso que ofereci aos colegas de turma: Pode parecer às vezes mais vantajoso defender a quadratura da Terra; mas nem por isso ela deixa de ser redonda…

     Primeira missão no exterior

              Minha principal tarefa no primeiro ano de trabalho na DOr/COLESTE – siglas da Divisão da Europa Ocidental/ Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu – foi a de preparar a participação inédita do Brasil na tradicional Feira Internacional de Leipzig, evento que já datava de mais de oitocentos anos. Só para lembrar: Leipzig estava situada na então República Democrática Alemã – RDA,  país comunista do bloco soviético, com o qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas, considerando-o oficialmente como “Zona de Ocupação Soviética da Alemanha”, na linha da chamada Doutrina Hallstein, adotada pela RFA (Alemanha Ocidental) e segundo a qual, só ela tinha o direito exclusivo de representar internacionalmente a nação alemã.  A política comercial do Governo Castelo Branco, no entanto, enfatizava a necessidade de incrementar o comércio exterior do Brasil, ampliando sua participação nas principais feiras comerciais e industriais do mundo, inclusive as do bloco soviético, como Plovdiv, Poznan, Zagreb e Leipzig. Após meses de preparação, e quase às vésperas de partir para minha primeira viagem à Europa – onde, além da estada na RDA, eu deveria, por proposta de meu Chefe direto, visitar Moscou, por razões de trabalho e para conhecer de perto o principal posto diplomático da área – voltei a passar por momentos difíceis.

 

   O almoço de trabalho…

        Certo dia, para minha surpresa, recebi um convite super-honroso para almoçar com o Sub-Secretário Geral para Assuntos de Europa Oriental, Ásia e Oceania, o escritor e então Ministro J.O. de Meira Penna, um dos futuros expoentes do pensamento conservador brasileiro, de quem vim a ser depois amigo, até sua recente morte em Brasília, aos 100 anos de idade! (Que descanse em paz).  A razão para o inesperado convite de uma alta autoridade a um Terceiro-Secretário com apenas um ano de Casa seria, ao que me informaram, para uma troca de ideias e dados a respeito da participação brasileira em Leipzig. O almoço, nunca me esqueço, foi no restaurante do Museu de Arte Moderna, um dos melhores e mais simpáticos do Rio naquele tempo. A conversa fluiu muito bem até à sobremesa, quando meu amável anfitrião, como quem não quisesse nada, perguntou-me vagamente a respeito de um certo discurso de formatura que eu teria eventualmente escrito, e que fôra objeto de comentários que lhe chegaram aos ouvidos. Por incrível que pareça, não me espantei diante da situação: quase que já esperava por ela. Apenas observei ao meu interlocutor que lhe ficava muito grato por ter sido tão amável em questionar-me pessoal e diretamente sobre um assunto que eu julgava inteiramente superado, após tantos meses transcorridos. E passei a narrar-lhe minuciosamente cada etapa da novela do discurso, que ele ouvia com toda atenção.

Embaixador J.O. de Meira Penna

        Quando terminei, surpreendeu-me  ele de novo, afirmando que… já tinha lido o discurso! E mais: que na verdade as ideias e teses que dele constavam constituíam objeto de sua “preocupação diária”. Só que… faltavam palavras de condenação explícita aos regimes totalitários, etc. Argumentei, concluindo, que as reflexões do discurso estavam situadas no plano do Zollen e não no plano do Sein, ou seja, no plano do Ideal, do que deve ser, e não no plano da realidade presente, do que é. Em outras palavras, não havia lugar para condenações, mas apenas proposições para se chegar a um mundo mais justo, mais equânime, mais humano, tanto em termos das sociedades domésticas quanto no âmbito da sociedade internacional. Daí o título que cheguei a dar ao texto – Justiça Social e Desenvolvimento – concluindo com o destacado papel e imensa responsabilidade que caberiam ao funcionário diplomático nesse contexto, como cidadão e como representante de seu país na cena internacional.

        Ao retornarmos ao Itamaraty naquela tarde, tomei logo conhecimento de um despacho do Embaixador Pio Correia, Secretário-Geral do Ministério, no Memorando encaminhado pelo Chefe de minha Divisão, Conselheiro Celso Diniz, nos seguintes termos (textuais): “Suprimo a ida do Secretário Lauro Moreira a Moscou. Determino que em sua viagem de volta de Leipzig, via Europa Ocidental, vá até Berlim Ocidental, onde deverá redigir um relatório narrando as suas experiências pessoais da viagem.”

          Ou seja, provavelmente convencido pelo Ministro Meira Penna da inconveniência de cancelar minha ida a Leipzig, depois de quase um ano de trabalho, o Secretário-Geral houve por bem, uma vez concluída minha missão na Feira, cancelar a solicitada visita a Moscou e determinar uma excursão, digamos, “didática”, a Berlim Ocidental, para que eu, conhecendo então os dois lados da moeda (ou do mundo), fizesse a opção correta…Ocioso falar sobre o relatório que escrevi nas dependências do nosso Consulado-Geral em Berlim Ocidental, narrando e comentando em forma de diário os rigores do inverno europeu, os primeiros sinais da primavera, a maravilhosa apresentação da Paixão Segundo São Mateus ouvida em Leipzig, na própria Thomas Kirsch, Igreja onde meu ídolo J.S.Bach está enterrado, e outros assuntos do mesmo quilate, todos de grande relevância para a política externa do país…

 

Embaixador João Guimarães Rosa

         E se a Terra não for redonda?…

        Em meio a essa novela, quando após meses de calmaria e já de certeza de que não haveria mais formatura, houve um momento em que fiquei aflito. Foi quando recebi um chamado do Embaixador Guimarães Rosa ao seu Gabinete, para “contar-lhe a história de  um discurso que eu teria escrito, e que parece ter gerado uma certa confusão na Casa,” etc. E concluía: Lauro, eu quero ler esse discurso. Você pode me trazer uma cópia? Gelei. Pensei logo: tudo menos isso; politicamente o meu amigo era um tanto conservador e não iria gostar nada do que leria; e além disso eu tinha, claro, um indisfarçável constrangimento de mostrar qualquer texto meu ao gênio do Grande Sertão. Deixei passar uns dias, e ele sempre me cobrando. Não houve jeito. Acabei levando-lhe uma cópia, calculadamente às 12:45hs, ou seja, quase à hora de ele sair para o almoço. Mesmo assim, resolveu começar a leitura ali mesmo, e ao deparar com a mencionada epígrafe (Pode às vezes parecer mais vantajoso,etc) olhou-me pensativo e exclamou: Mas, Lauro, e se a Terra não for redonda…? Ao que eu emendei: mas para mim, ela é redonda! Ele soltou aquela gargalhada sonora e, para meu supremo alívio, decidiu sair para o almoço. Julguei o assunto liquidado, na  esperança de que ele logo o esqueceria. Mas ao final daquela mesma tarde, durante uma cerimonia de posse no Gabinete do Ministro de Estado, volto a ver o Embaixador Guimarães Rosa, que me acena de longe com sinais de que queria falar-me. Fiquei novamente incomodado. Saímos os dois em direção ao seu Gabinete e o que me disse ele em poucas palavras deixou-me sinceramente surpreso, alegre e até hoje orgulhoso: “Lauro, li o seu discurso. O seu discurso é ma-ra-vi-lho-so. Ninguém de boa-fé pode ser contra esse discurso.” Vindas de quem vinham, essas palavras amigas e generosas, escandidas com ênfase, compensavam largamente toda a luta inglória e frustrante que tive de enfrentar por conta de um simples discurso que não chegou jamais a ser pronunciado.

         Meninos, eu vi!

          Enfim, e voltando um pouco atrás, agora para retomar e concluir esta novela patética de um discurso não pronunciado e de uma formatura não acontecida, caberia apenas agregar que a partir  daquela época, dezembro de 1964, e por longos anos, não mais houve no Itamaraty a realização de cerimônia naqueles moldes tradicionais, com intervenção de paraninfo e orador de turma, resumindo-se o evento apenas a um almoço com a presença do Presidente da República e um discurso sobre política externa pronunciado pelo Chanceler.

         Um belo dia, já na Administração Collor, (1990-92), vinte e seis anos portanto mais tarde, fui procurado em minha sala em Brasília por dois formandos do Instituto Rio Branco, que instigados pelo fato de não terem descoberto nada  em suas pesquisas sobre a o motivo da ausência de formatura no ano de 1964, pediam-me esclarecimentos sobre o mistério e me informavam sobre a recente decisão do Instituto Rio Branco de se restabelecer a antiga tradição, há tantos anos abandonada. Viajei no tempo – e confesso que com saudosa lembrança – ao rememorar para os jovens futuros colegas as peripécias vividas por mim e meus treze companheiros dessa bonita aventura quixotesca. E, como o velho timbira do Y-Juca Pirama, arrematei: Meninos, eu vi!

        E hoje possivelmente ainda completaria: E vivi, e sobrevivi…   

Séculos depois…

                               

                                                                                                                          (Pano rápido)

 

 

                                                                                                                   **********************

 

       

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