ROSA DO SERTÃO

ROSA DO SERTÃO

Lauro Moreira

“Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão.”

“(…) nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.”

“(…) Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, (…). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua.” (JGR)

(…)

(…) “João era fabulista fabuloso fábula? /Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? /(…) “Projetava na gravatinha a quinta face das coisas / inenarrável narrada? /Um estranho chamado João /para disfarçar, para farçar / o que não ousamos compreender?” /(…) João era tudo? / tudo escondido, florindo / como flor é flor, mesmo não semeada? /(…) Por que João sorria / se lhe perguntavam / que mistério é esse? /E propondo desenhos figurava /menos a resposta / que outra questão ao perguntante? /(…) Ficamos sem saber o que era João / e se João existiu / de se pegar.

(Carlos Drummond de Andrade: “Um chamado João”)

 

        Os generosos leitores deste Quincasblog – ultimamente aliás um tanto preguiçoso – já devem ter percebido que ao longo de minha vida, sobretudo quando jovem, fui premiado com a ventura de conhecer pessoalmente e em muitos casos conviver regularmente com algumas figuras admiráveis da literatura brasileira do século vinte. Personalidades como Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Meyer, Cecília Meireles, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Hollanda, Marly de Oliveira, Nélida Piñon, Guimarães Rosa e inúmeros mais, enriqueceram-me a vida desde a juventude, não apenas por suas obras como também por sua honrosa amizade. De certo modo, e como já disse antes, o relacionamento com boa parte desses escritores se deveu ao fato de eu ter sido casado por quase vinte anos com a poeta Marly de Oliveira, admirada aliás por todos eles. A grande exceção no caso foi o meu conhecimento e depois a minha amizade com João Guimarães Rosa, sem dúvida o mais importante escritor da língua portuguesa no Brasil no século vinte. E é sobre o autor de Sagarana que eu gostaria de conversar hoje com minhas amigas e amigos do Quincas.

                                                                                                                                                                      

        O que lhes prometo de saída é não tentar fazer um exercício de hermenêutica de Grande Sertão: Veredas – essa monumental epopeia sertaneja, imantada ao mesmo tempo do mais puro lirismo – ou de qualquer outra obra do autor, não só por faltar-me o instrumental crítico para a aventura, como sobretudo por não ser este o propósito de nossa conversa aqui. Ao contrário, quero apenas relatar-lhes alguns episódios nascidos de um inesquecível convívio de poucos anos, convívio que nasce antes de meu ingresso no Itamaraty em 1964, onde ele, Embaixador de Carreira, dirigia a Divisão de Fronteiras. Na verdade, seu reconhecimento como escritor absolutamente genial – este é o adjetivo que lhe cabe – já era enorme em todo o país, com a publicação de Sagarana, em 1946, e especialmente , de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos editados dez anos mais tarde. E quanto mais passava o tempo, mais interesse despertava essa obra, tanto junto à crítica especializada e ao mundo acadêmico, quanto junto aos leitores brasileiros e estrangeiros, com traduções que se sucediam, em inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, catalão, quase sempre com a supervisão direta do autor poliglota, que dominava oito línguas e lia em seis outras. Suas duas últimas obras surgiram em 1967: Primeiras Estórias e Tutaméia (Terceiras Estórias), esta, uma coletânea de 43 contos curtos, resultado de uma colaboração regular para o jornal Pulso, editado pela classe médica (como sabemos, Rosa formou-se em medicina e clinicou algum tempo no interior de Minas, antes de ingressar na carreira diplomática).                                                                                                                                         

        Ao final de uma tarde de domingo, 19 de novembro desse mesmo ano de 1967, João Guimarães Rosa, no ápice de sua carreira de ficcionista e apenas três dias após sua longamente adiada posse na Academia Brasileira de Letras, morria de enfarto em seu apartamento em Copacabana, aos 59 anos de idade. Nascera portanto em 1908, justamente no ano da morte de Machado de Assis, o primeiro gênio absoluto de nossas letras, como que chegando ao mundo para recolher o bastão das mãos do criador de Capitu. Esse belo capricho do destino impressiona-me até hoje.

 

Bruna Lombardi (Diadorim) e Tony Ramos (Riobaldo) na TV

Rosa nas telas

        Há pouco mais de um mês, e com o deslumbramento de sempre, concluí a terceira ou quarta leitura de Grande Sertão:Veredas. Coincidentemente, a televisão Globo iniciava a reapresentação da série adaptada do romance, realizada em 1985 e desde então não mais mostrada. Trata-se de uma das melhores e mais ambiciosas realizações da televisão brasileira, uma produção cuidada, digna, sensível e respeitosa de uma obra literária monumental e complexa, sustentada por um elenco admirável, com roteiro final e direção do saudoso Walter Avancini. Aliás ocorre-me agora que o talento de Avancini foi igualmente responsável, em

1981, pela memorável transposição para a tv de outro clássico da literatura brasileira, o celebrado Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Várias outras estórias de GR foram também adaptadas para o cinema, cabendo mencionar especialmente, a obra-prima A Hora e a Vez de Augusto Matraga, dirigida por Roberto Santos, a única das adaptações aprovada diretamente pelo próprio Rosa. No extremo oposto, não para lembrar mas de preferência para esquecer, está a versão hípica do Grande Sertão (prometeram-me uma versão épica e me trouxeram uma versão hípica, onde só têm cavalos, indignou-se o escritor), dirigida pelos irmãos cineastas Renato e Geraldo Santos Pereira, lançada em 1965. Uma lamentável adaptação, que resultou num dos desastres mais rotundos do cinema brasileiro, e num verdadeiro massacre da obra original.

 

Cartaz da peça

JGR e JK : Posse na ABL em 1967

Rosa no palco

        No já publicado terceiro capítulo de nossa série intitulada Andanças pelo Cultural, trato de episódios de minha vida de estudante no Rio de Janeiro, com especial destaque para as atuações na área do teatro amador, no período anterior ao ingresso na Universidade. Pois ao entrar para a PUC/Rio, em 1958, mergulhei como nunca nas aventuras do palco, começando por fundar o TEPUC – Teatro Experimental da Pontifícia Universidade Católica, e depois encenando nada menos de dez peças em três anos de excitante atividade. Confesso que se não alcancei a fama de um artista global (!!!), acabei por ficar bem conhecidinho na limitada arena teatral do Rio daquela época, em virtude da generosa cobertura que nos davam os jornais, as rádios e por vezes a televisão. E nesse contexto, o que mais talvez tenha ajudado foi minha escolha pelo jornal Diário de Notícias para o Quadro de Honra de Universitário do Ano na área de Teatro, com direito a solene cerimônia no salão nobre do Ministério da Educação e Cultura, quando recebi medalha e diploma das mãos consagradas de Mme. Henriette Morineau, ex-atriz da Comédie Française, que

desde os anos 40 pontificava nas telas e nos palcos brasileiros.

Cobertura da imprensa carioca (JB)

Foi nesse período que me chegou o convite do jornalista e escritor Léo Gilson Ribeiro – recém-chegado de uma temporada de onze anos de estudos de teatro e literatura na Alemanha, Itália e Estados Unidos – para participar da montagem de uma adaptação teatral que ele, inteiramente arrebatado pelo gênio de Guimarães Rosa, havia feito de um dos contos de Sagarana, intitulado Traços biográficos de Lalino Salãthiel, ou A volta do marido pródigo. Caberia a mim a responsabilidade de encarnar o tal marido pródigo… Seria a primeira montagem teatral de um texto de Rosa, bem diferente do que se passou mais tarde, quando vários de seus contos tem sido encenados, alguns com grande sucesso, como o fantástico Meu Tio o Iauaretê, um diálogo monologado (a mesma técnica narrativa de GS:V) que representa “o estágio mais avançado de seu experimento com a prosa”, na opinião de Haroldo de Campos. E por grande coincidência, acabo de ler hoje nos jornais do Rio que “o livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e suas inúmeras possibilidades de análise, serviram de inspiração para a diretora Bia Lessa, que adaptou o texto para o teatro. O espetáculo, homônimo, entra em cartaz neste domingo (28 fevereiro), no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). Ele não será encenado, no entanto, em um do teatros do espaço cultural, e sim na rotunda, dentro de uma instalação criada e montada exclusivamente para a peça.” Ou seja, 62 anos após sua publicação em livro, chegou ‘a hora e a vez’ de o romance colossal de Guimarães Rosa subir ao palco (ou à rotunda…).

 

Lalino e Maria Rita (eu e Maria Lúcia Carvalho)

        Quanto aos detalhes desta nossa grande aventura do Marido Pródigo, com as peripécias da encenação, a generosa cobertura da imprensa (criando inclusive uma expectativa quase impossível de se atender), os incidentes na noite de estreia no Teatro da Maison de France, a presença de toda a numerosa e impiedosa crítica teatral carioca da época, que não perdoou as deficiências da adaptação e da montagem, a presença na plateia de personalidades como Cecília Meireles, Clarice Lispector e a Senhora Aracy

Guimarães Rosa (representando o marido, que sempre evitava frequentar eventos de grande afluência pública), a pré-estreia off- Broadway em Nova Friburgo, a posterior apresentação em Belo Horizonte, etc. – tudo isso deixaremos para o próximo capítulo das Andanças Culturais, já que aqui falaremos apenas dos contatos pessoais com o gênio criador de Riobaldo e Diadorim.

Convidado pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio, Léo Gilson Ribeiro, que havia inclusive acompanhado em Milão a montagem de alguns espetáculos do grande diretor Giorgio Strehler, no Piccolo Teatro, criou um grupo amador com o objetivo de apresentar alternadamente peças brasileiras e italianas, iniciando com a adaptação do mencionado conto de Guimarães Rosa. Mais tarde, porém, deixou o Instituto e acabou criando a Equipe de Teatro do Rio de Janeiro para concluir a empreitada. Com total dedicação, suprindo em parte sua quase nenhuma experiência prática, foi ele aos poucos formando o elenco e selecionando colaboradores de talento nas diferente áreas, como o jovem cenógrafo José Luiz Ripper, os figurinistas Dirceu e Marie Louise Nery, e a respeitada musicóloga e compositora Geni Marcondes, discípula de Hans-Joachim Koellreutter, o grande compositor, maestro, educador e esteta alemão, que viera para o Brasil nos anos de 1930, exercendo papel decisivo na renovação da cena musical do país. Para apresentar pessoalmente o projeto ao Embaixador Guimarães Rosa, tive a sorte de acompanhar Léo Gilson em uma ida ao Palácio do Itamaraty, na Rua Marechal Floriano, Rua Larga para os íntimos. Foi quando avistei o criador de Augusto Matraga pela primeira vez: os olhos miúdos e vivos detrás dos grossos óculos de tartaruga, os ombros levantados, a gravatinha borboleta no pescoço empinado, uma prosódia diferente, um sentido de humor natural e uma grande cordialidade.

A peça em Belo Horizonte

        Com o avanço dos ensaios da peça, realizados normalmente no palco do Colégio Santo Inácio (afinal eu continuava sendo de casa, embora já estivesse há algum tempo na Universidade),

decidimos convidar o autor para assistir a um deles. Coube-me a satisfação de buscá-lo de carro em sua residência em Copacabana, na Rua Francisco Otaviano. Ao retornarmos, disse-lhe que lamentava muito o fato de o ensaio justamente naquela noite não ter saído a contento, especialmente no tocante ao meu desempenho. E ele emendou logo: Mas o que é isso? Achei ótimo! E quer saber de uma coisa? O seu Lalino está melhor que o meu!… Rimos muito, e a partir daquele dia, para ele fiquei sendo sempre o Lalino.

 

Palácio do Itamaraty no Rio
Lago dos Cisnes (1965)

 

 

 

Com o colega Guimarães Rosa

        Em 18 de dezembro de 1962 concluí o curso de Direito, e três dias depois iniciei a maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, todos amigos, entre eles o nosso magnífico poeta Francisco Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim. Logo em nosso primeiro dia de trabalho, quando a turma incorporada foi convidada a cumprimentar os Chefes da Casa, visitamos também, claro, o Diretor da Divisão de Fronteiras, meu conhecido de outros carnavais… À saída, o Embaixador Guimarães Rosa me dá um caloroso abraço e pergunta em que setor eu estava lotado. Respondi-lhe que na Divisão da Europa Oriental. Ele olhou-me fixo e, entre sério e divertido, exclamou: Sim senhor, hein? Que maravilha: Goiás e Europa Oriental!… Essa e outras várias passagens em nossos encontros frequentes a partir de então, davam-me a sensação de que no âmago, para além de qualquer outra consideração, Rosa via em mim um conterrâneo goiano de seu sertão, seu sertão físico, geográfico, mineiro-goiano, mas também místico e mítico. Afinidade de uma cultura atávica, de uma herança comum? Lembrando Afonso Arinos, eu não era das Gerais, mas dos Gerais. E não era fácil encontrar, no ambiente urbano e cosmopolita da Carreira, colegas que tivessem essa extração, essa procedência que o deixava tão à vontade, que ele tanto prezava. Sua confissão ao crítico e tradutor Gunter Lorenz diz tudo: Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas.

Note-se que no Itamaraty daqueles idos de 1960, a quase totalidade dos diplomatas era de cariocas ou paulistas. De Goiás, havia apenas três, entre eles o meu amigo William Agel de Mello, lotado no Gabinete do Embaixador Rosa, e eu. Removido mais tarde para Barcelona, William Agel, também escritor, manteve assídua e divertida correspondência epistolar com seu ex-Chefe e amigo, reunida mais tarde no livro “João Guimarães Rosas: Cartas a William Agel de Mello”, onde se lêem passagens divertidas como esta: “RESSUSCITOU MANÉ D’EBRÉIA [personagem de Epopeia dos Sertões, livro do meu conterrâneo]. Já telefonei ao Lauro (Lalino Salãthiel) comunicando a fausta ressureicionice!

Ou esta outra:

Goiás, terra trefasta, enfiada, sem nenúfares,

Goiás, comprido caranguejo em-pé, carajamente!

Goiás atrás,Goiás pajaz, Goiás à frente,

Goiás de Lauro, Goiás de Mauro (…

                                                                                                               

        Um exemplo hilário de exercício de virtuosismo linguístico está em uma outra correspondência de Rosa, desta vez respondendo ao seu colega Jorge Cabral, que servia no Consulado em Frankfurt, e ele no de Hamburgo. São cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia então debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial. A longa missiva de Rosa compunha-se exclusivamente de palavras começadas pela letra c (Caro colega Cabral..) e acabou mais tarde publicada na imprensa carioca. Os leitores deste nosso Quincasblog possivelmente se lembrarão do post que publiquei em novembro de 2014, sob o título “Apenas um erro de Cabral”, em que trato desse assunto em detalhe, incluindo o próprio texto de JGR, e comento um equívoco primário de uma matéria publicada com grande destaque pelo Jornal do Brasil em fevereiro 1987, segunda a qual o correspondente J. Cabral não seria outro senão o nosso também colega João Cabral de Melo Neto, que a essas alturas nem sequer havia ingressado na Carreira diplomática… Os eventuais interessados em ler ou reler o divertido post poderão fazê-lo aqui no Quincas pelo título ou pela data da matéria.

 

Convívio amiudado

Meu sempre lembrado convívio regular com o amigo Guimarães Rosa foi breve no tempo – do início de 1965 até sua morte em fins de 1967 – mas intenso, divertido, prazeroso e muitíssimo proveitoso para mim. E cada vez que me punha ao seu lado, usufruindo daquela conversa sempre interessante, informal, descontraída, não perdia jamais a consciência de que eu estava diante de um gênio absoluto das letras, convivendo portanto com a própria posteridade. Aliás, lembro-me bem de uma tarde em que ele me mostrou um exemplar do jornal Die Welt, que acabara de receber de Hamburgo, com a resenha crítica sobre Grande Sertão: Veredas, recém-publicado com grande sucesso na Alemanha , escrita por um dos mais respeitados ensaístas do país, que afirmava textualmente tratar-se de um autor que, no século vinte, só encontraria paralelo em Joyce, Proust, Thomas Mann e Faulkner. Ao traduzir para mim alguns trechos dessa crítica, Rosa interrompeu emocionado: Lauro, você sabe que isso me assusta?!

Grande Sertão:Veredas – a Obra do século

Muito mais assustado fiquei eu, entretanto, numa certa manhã em que ele me pediu para dar um pulo ao seu Gabinete, e perguntando se eu dispunha de algum tempo, entregou-me logo

uma daquelas pastas castanhas de trabalho do Itamaraty, contendo uma boa quantidade de páginas datilografadas, que eu julguei, no primeiro momento, tratar-se de algum documento oficial. Quando abri, topei no centro da primeira página com a palavra TUTAMEIA, em caixa alta. Respirei fundo, mas fui logo negando o que ele me pedia: ler e opinar ali, em uma mesa de seu Gabinete, os originais inéditos de seu próximo livro, que levava o subtítulo de Terceiras Estórias. Senti-me de fato incomodado com aquele pedido, ao mesmo tempo que extremamente lisonjeado com esse gesto de confiança e amizade. Sem ter como recusar suas instâncias, acabei por ceder e passar o resto do dia debruçado sobre aqueles originais, tão diferentes de suas obras anteriores, e ainda mais, com a solene promessa de marcar tudo que eu não aprovasse , como exigia ele. Era evidente para mim, uma vez mais, que não se tratava, claro, de submeter sua nova obra inédita a meu pouco especializado juízo crítico, mas simplesmente de uma homenagem ao meu lastro atávico de “goianidade” sertaneja…

                                                                             

Dedicatória do Grande Sertão:Veredas

Em nossos bate-papos tratávamos de tudo um pouco. De literatura, mineirices, goianidades, diplomacia, filosofia, religião, etc. Cheguei a anotar regularmente muito do que ele me dizia, os casos que contava, os livros que comentava, mas infelizmente acabei perdendo tudo em meio a tanta mudança de casa e de país. Falava-me agora sobre o Bhagavad Gita ou sobre Lobsang Rampa e seu livro A terceira visão (“a realidade está no plano espiritual”) para em seguida comentar com admiração e entusiasmo os contos de Ermos e Gerais, do goiano Bernardo Élis, obra publicada em 1945 e saudada por Monteiro Lobato. Certo dia, abriu a gaveta de sua mesa de trabalho, apanhou uma página de um exemplar do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de meados do século dezenove e mostrou-me um anúncio em destaque que dizia mais ou menos o seguinte: Vende-se uma negra de 22 anos. Boa saúde, bons dentes. Tantos mil réis. Acompanha-a uma cria. Foi a primeira vez que tive consciência exata do horror da escravidão, diria mesmo que mais forte que aquele que sentia ao ler os poemas de

Castro Alves, como A Cruz da Estrada ou O navio Negreiro. Fiquei chocado, como chocado estava meu amigo. Outra vez, disse-me que acabara de reler encantado a obra poética de Marly de Oliveira, acrescentando: Há muita gente jovem e boa fazendo poesia hoje no Brasil, mas em geral são vozes um pouco indistintas, muito parecidas; Marly é diferente, é uma voz original, única, uma poesia do pensamento. E arrematava com graça: Ela me parece poeta de país desenvolvido!…

 

        Passados tantos anos, não creio estar cometendo uma inconfidência muito grave ao recordar aqui uma outra conversa que tivemos, desta vez sobre um poeta e diplomata, também chamado João (aquele que, segundo se dizia, não gostava de música…). Estávamos falando sobre poesia, quando Rosa de repente me pergunta: Você gosta da poesia de João Cabral? Respondi que sim, e mais, que a estética cabralina tinha a meu ver um papel importante como antídoto à retórica derramada de que padece às vezes a nossa poesia. Uma ‘educação pela pedra’ só poderia fazer bem… Ele continuou: “O problema é que o João Cabral me fez um dia justamente essa pergunta! E eu disse logo: mas meu caro, que pergunta é essa, você é um dos maiores poetas do Brasil! E ele insistiu: Rosa, eu estou perguntando outra coisa, quero saber se você gosta da minha poesia. E eu não tive coragem de dizer que gostava! Foi muito desagradável. Aliás, penso que aquela dor de cabeça diária do João vem de seu poema Uma faca só lâmina… A assepsia buscada pelo Cabral para sua poética é tão rigorosa que chega a matar até os germens da criatividade…” Notem que Rosa começou escrevendo e publicando poesia (Magma), depois é que passou para a ficção. E é dele esta afirmação feita em uma entrevista em 1965: “Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana. “

 

        Observações como essas, no entanto, não devem constituir surpresa para leitores e admiradores dessas duas grandes figuras, cujas obras estão nas antípodas, sob qualquer ângulo de apreciação. De um lado, o barroquismo arrebatado e arrebatador de um encantador de palavras, do re-criador de uma linguagem nova e de uma poesia própria para exprimir seu mundo mítico; de outro, a educação pela pedra, a busca incessante do despojamento total, do osso, da palavra seca, da expressão exata, “sem perfumar sua flor/sem poetizar seu poema”. Feliz da língua que consegue abrigar dois escritores coetâneos tão diferentes e tão extraordinários.

 

No tocante a essa questão da linguagem e da língua, duas citações extraídas da famosa entrevista de JGR a Gunter Lorenz em Gênova (Diálogos com Guimarães Rosa,1965) merecem destaque especial:

 

(…) o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (…) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.”

“...sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.”

 

        A paixão de JGR pela questão da língua era tal, que um dia me contou que um conhecido seu havia feito uma pesquisa curiosa, ao contar e cotejar o número de consoantes encontradas em

páginas de Jorge Amado e em textos seus. Descobriu com surpresa que em Rosa havia sempre mais consoantes que no autor de Gabriela. Explicação de Rosa: é natural, pois Jorge é da Bahia, da costa atlântica, onde predominou a língua tupi, muito vocálica, ao passo que ele, Rosa, vinha do interior do país, onde o idioma principal era do grupo Gê, ou Tapuia, língua muito mais consonantal que a dos tupis. Simples assim… E acrescentava que além disso o tupi é mais suave e mais descritivo, citando como exemplo, entre outras, a expressão pori-pori ema, para descrever o-salto-o-salto da ema, designação dos tupis para a Serra da Borborema.

 

Fernando Pessoa (por Almada Negreiros)

Uma obra cibernética?

Um dos momentos mais interessantes de minhas conversas com JGR foi quando lhe disse que, à parte a genialidade presente na criação de Grande Sertão:Veredas, a obra me impressionava também pelo número de personagens que se entre-cruzavam em mil estórias diferentes, tudo mesclado com frequentes observações sobre vida, religião, fauna e flora, num incrível emaranhado de mais de 570 páginas, sem pausa, sem respiro, sem capítulos para dividi-las, dando ao leitor (ao menos a mim) a sensação de estar diante de uma obra cibernética, escrita de um só jato, sem interrupção. E então perguntei-lhe como tinha sido o seu processo de criação. Explicou-me que foi num período de férias em casa, ao escrever mais um conto para Corpo de Baile, começou a sentir-se estranhamente tomado por um impulso que o levava a escrever sem cessar, por horas a fio, deitado no tapete da sala, num processo que parecia meio mediúnico e que ele não entendia bem. Ao ouvir aquilo, lembrei-me logo da famosa carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, (meses antes da morte do Poeta), em que explicava a origem de seus heterônimos. Rosa não sabia da existência da carta, mas era impressionante a similitude das situações. Basta lembrar esse trecho:

“(…) Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe- me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.”

Curioso que só anos depois tomei conhecimento do teor de uma carta em que Rosa confessava ao seu colega, amigo e compadre, Embaixador e mais tarde Ministro das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira:“Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado – só lucidez e angústia.”

 

Aracy de Carvalho, Senhora Guimarães Rosa

A morte pressentida

        Eu me pergunto sempre se esse espírito sem corpo não teria sido o responsável pelo lúcido e angustiado pressentimento da chegada da morte, que durante pelo menos quatro anos perseguiu João Guimarães Rosa. Seu desaparecimento repentino e prematuro, no auge de uma vida que não chegaria aos 60 anos, está envolto em mistério, ao menos para os que desconheciam certos estranhos antecedentes. Em 1957 Rosa candidata-se à Academia Brasileira de Letras, um acalentado sonho de muitos anos, mas não alcança os votos necessários para eleger-se. Em 1963, após uma empenhada campanha feita pessoalmente junto a cada Acadêmico, é aceito por unanimidade. Está exultante, mas inexplicavelmente recusa-se a fixar uma data para sua posse. A insistência natural de seus pares aumenta-lhe a angústia e obriga-o a inventar desculpas aparentemente inconsistentes, como excesso de trabalho no Ministério ou algum problema de saúde. Em 1966, seu amigo e

tradutor Curt Meyer-Clason, que dois anos antes havia traduzido Grande Sertão:Veredas para o alemão sob a supervisão direta do autor, avisa-lhe que está prestes a concluir a tradução do restante de sua obra, o que lhe traz grande alegria.

 

Talvez mais animado com o sucesso de sua obra no exterior, Rosa marca finalmente a data da posse na ABL: 16 de novembro, uma quinta-feira, só que do ano seguinte! A angústia aumenta a cada dia. Seus desabafos com amigos chegados eram sombrios. A alguns dizia que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. Augusto Meyer nota-lhe um “terror pueril nos olhos” e a Otto Lara Rezende, Rosa declara que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. E durante os ensaios protocolares da véspera, confidenciou: “A Academia é demais para mim. Tenho medo de falhar, de chorar, não suportar a emoção”. Eu, de minha parte, cheguei a ouvir uma frase dita por Marly de Oliveira que nunca mais esqueci: a obra do Rosa vale por toda uma Academia, indignava-se ela, e a insistência com essa posse pode acabar por matá-lo!

 

Rosa, JK, Austregésilo de Athayde e Josué Montello na noite de 16 de novembro de 1967 na ABL

Chega finalmente o dia 16 de novembro, quinta-feira, data de um evento inexplicavelmente adiado por quatro anos. Pelos depoimentos posteriores do também escritor Geraldo França de Lima, conterrâneo e íntimo amigo de Rosa desde a década de 1930 em Minas Gerais, sabemos que este passara a manhã e a tarde em silêncio tenso e agoniado, recusando até alimentar-se. Apreensiva, Dona Aracy telefona ao amigo Geraldo, explicando a situação e pedindo-lhe que viesse ajudá-la a distrair e tranquilizar seu marido. Ele veio em seguida, e depois de acalmar um pouco o velho companheiro, inclusive a escolher os sapatos que melhor se ajustassem ao fardão acadêmico, acompanhou-o no carro oficial do Itamaraty até a sede da ABL, no Centro da cidade. No transcurso da viagem, impressionado com o silêncio e a ansiedade do amigo, resolveu animá-lo dizendo tratar-se de uma simples cerimônia de posse, onde ele estaria cercado de amigos e admiradores, e até de confrades médicos, como Peregrino Júnior, conforme se previra no ensaio da ante-véspera. Foi nesse momento que, ao tocar-lhe a mão, notou que ela estava gelada. Ouviu então uma voz grave e assustada dizer-lhe com todas as letras: Geraldo, você não está entendendo; eu não passo deste ano…

 

        Com grande expectativa e debaixo de uma forte tempestade que alagava as ruas da Rio, cheguei ao Salão Nobre da ABL por volta das 19hs e já o encontrei lotado. À mesa, dirigindo a cerimônia, o Presidente da Casa, Austregésilo de Athaíde, ao lado do ex-Presidente J.K. e do Acadêmico e também mineiro Afonso Arinos de Mello Franco, designado para receber o novo colega. A tensão de Rosa ao se dirigir à tribuna era sentida por todos os presentes. Mas a leitura de um discurso impecável e absolutamente “roseano” foi perfeita. Os momentos finais foram de grande emoção, com citação do Bhagavad Gita e, em seguida, com a hoje famosa locução: A gente morre é para provar que viveu. E ainda: Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

 

        Ao concluir sua ingente missão, nosso amigo estava radiante, esfuziante, recebendo e retribuindo abraços de uma quantidade de admiradores, rindo todo tempo, feliz, e, finalmente aliviado do peso das toneladas que carregara por quatro anos. No dia seguinte, sexta-feira, ao final do expediente no Itamaraty, no momento em que eu saía do elevador no segundo andar, para grande surpresa minha dou de cara com o meu Embaixador agora Acadêmico, que tinha ido trabalhar normalmente e estava se retirando, ao lado de sua amiga e secretária Maria Augusta. Ao dar-lhe um abraço e reiterar-lhe como havia sido maravilhosa sua festa, ele perguntou logo, já de dentro do elevador: E o discurso, gostou? E a apresentação, foi boa? Ao responder-lhe que sim, claro, ele virou- se logo para a secretária: o Lauro, Lalino, é o meu consultor para assuntos teatrais!… Em seguida a porta do elevador fechou-se. E foi essa a última visão que tive de meu pranteado amigo. Dois dias depois, domingo, 19 de novembro, ao final da tarde, eu conversava com um tio meu em um bar na Avenida Atlântica em Copacabana, contando tudo isso que acabo de narrar aos meus amigos leitores, quando naquele exato momento, a menos de cem metros de distância, em sua casa na Rua Francisco Otaviano, onde um belo dia fui buscá-lo para um ensaio de teatro, João Guimarães Rosa partia para sempre. Partia para a eternidade, para a posteridade, para a memória do Brasil e dos leitores de todo o mundo.

 

 

 

As pessoas não morrem, ficam encantadas

JGR

     
                                                                                                                                                                           LM, 9/02/18
                                                                             ****************************          
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8 Comentários

Arquivado em LITERATURA, SÉRIE MEUS ENCONTROS

8 Respostas para “ROSA DO SERTÃO

  1. Maria Alice Caldas

    Tempos que não acontecem mais.
    Gostei muito Lauro.

  2. Nysse Arruda

    Oi Lauro,

    Que maravilhosa oportunidade você teve de conhecer e conviver com Guimarães Rosa!!

    Comecei a ler os seus romances ainda era adolescente e lembro bem o conselho de uma mentora a dizer-me ‘O Grande Sertão você só lê daqui uns anos, quando estiver mais adulta, para sentir melhor as palavras!’

    grande texto que você escreveu e que belas memórias!

    abraço
    Nysse

  3. Roseli Ferraz de Arruda

    Olá Lauro querido

    deleite-me com a leitura de Rosa do Sertão!
    Fascinante viagem repleta de memórias e recordações o teu texto nos proporciona. Que maravilha sentir Guimarães Rosa vivo entre nós emergindo das tuas palavras. Realmente Embaixador, é um privilegiado por poder ter convivido com um dos maiores nomes da literatura mundial. Parabéns.
    Abraço.

    Roseli Arrudha

    • Armando cristovao Oliveira Ribeiro

      PREZADO Amigo e Senhor Emb. LAURO MOREIRA:
      Narracao pormenorizada e impecavel sobre personalidades brasileiras, de alto valor intelectual, com as quais, por feliz coincidencia, pode conviver e assim,fortalecendo em si o que ja era preconizado pelas actividades que desde muito cedo desenvolvia e participava.
      Por outro lado, as constantes digressoes pelo Brasil e Portugal , fazendo apresentacoes poeticas, discursos e conferencias para divulgar grandes obras e difundir a LUSOFONIA, sao a prova evidente de que muito tem feito e fara pela cultura e ppr uma integracao, cada vez mais solida, dos paises de Lingua Portuguesa.
      Em suma: Le-lo ou ouvi-lo, e um aprendizado.
      Parabens e nao estranhe a falta de acentuacao, pois o meu comentario esta a ser redigido em teclado ingles , no qual faltam todos os sinais que tanta faltam fazem a nossa bela e culta Lingua Portugesa.
      Presentemente estou na Escocia e em Abril estarei em Portugal para ali me fixar definitivamente e onde espero encontra-lo.
      Um grande abraco.
      Armando Ribeiro

      • Meu caro Amigo Armando Ribeiro, reitero-lhe meus agradecimentos por sua fidelidade ao Quincasblog e por sempre generosos comentários. Abraço grande.

    • Obrigado, Roseli, por seus contrários generosos.

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