ANDANÇAS PELO CULTURAL (3)

            ANDANÇAS PELO CULTURAL : no palco do Santo Inácio (3)

                                                                                          Lauro Moreira

 

         Nossa empolgante série (uau!) intitulada Andanças pelo Cultural foi, como se viu, momentaneamente interrompida em seu segundo capítulo, em janeiro último, para tratarmos de um tema triste: a morte do Presidente Mário Soares, uma das grandes figuras europeias da segunda metade do século vinte, com quem tive o privilégio de conviver por alguns anos. Em seguida, postamos uma espécie de balanço comentado das atividades em que estive envolvido ao longo de 2016, tanto no Brasil quanto em Portugal. E agora, finalmente, proponho aos meus queridos leitores a retomada da série que pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente menos eletrizantes, como já lhes disse, que os do Flash Gordon, “um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo no profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática, em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.” Ao concluir o segundo capítulo dessas Andanças, prometi (ou ameacei?) retornar com uma nova matéria referente às nossas aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E aqui estamos para cumprir a solene promessa.

        Nossos fieis leitores já sabem que estamos em 1955, e eu matriculado, com quinze anos, no primeiro ano do Curso Clássico do Colégio Santo  Inácio, no Rio de Janeiro. Após um período de cinco anos de internato em São Paulo, onde havia concluído o Curso Ginasial, a vida no Rio, de novo ao lado da família, era uma festa só. O ambiente do Santo Inácio, bastante arejado, possibilitava aos alunos uma série de atividades extra-curriculares, como participar da Academia de Letras (a nossa já conhecida ALSI), escrever artigos para a revista Vitória Colegial, praticar  esportes (leia-se futebol) e, mais importante que tudo, fazer teatro!

        Confesso que participei de tudo. Das lides acadêmicas os nossos leitores já sabem por terem lido o primeiro capítulo desta série (hopefully…); dos esportes não haveria muito o que contar, além do futebol; mas do teatro, só posso dizer que preencheu grande parte de minha vida de estudante secundário e, mais tarde, universitário. Participei da montagem de várias peças (na verdade, de todas) naquele saudoso palco do Santo Inácio, do qual me senti íntimo desde o primeiro momento que lá cheguei. Foram três anos de comédias, farsas, dramas históricos,  e até dramalhões pra ninguém botar defeito. Havia apenas um fator limitante: os personagens só podiam ser masculinos… Ou seja, as peças escolhidas tinham que atender a esse pequeno requisito, pois elencos mistos, nem pensar! Apesar disso, havia sempre textos interessantes a serem encenados. Em minha primeira participação como ator, fiz o papel de um sexagenário (!) chamado Felício, em uma peça intitulada Primeiro de Maio. Depois vieram outras, ao menos uma montagem por semestre, e entre elas os dramas históricos  Xeque Mate, sobre a Revolução Farroupilha e seu heroi Bento Gonçalves (encarnado por seu criado aqui), e  A Bandeira de Fernão Dias. O interessante era o entusiasmo com que nos jogávamos todos nessas aventuras teatrais, certos de que seríamos recompensados pelos aplausos generosos e insuspeitos (!) de uma grande plateia composta quase inteiramente por nossos pais, irmãos, tios, primos e amigos… O sucesso era garantido de antemão.     

Estreia no palco: o sexagenário Felício.

         Outro aspecto curioso é que os atores e demais participantes (contra-regra, cenógrafo, iluminador, ponto, etc.) eram todos alunos dos Cursos Clássico e Científico. Ou seja, os fedelhos ginasianos só teriam acesso a toda essa glória depois de chegarem ao chamado segundo ciclo. Caberia mencionar também a presença atuante de nosso Professor de Literatura Portuguesa e Brasileira, Maurício Leite, que tinha alguma vocação e um forte gosto pelo palco, atuando sempre como diretor  e/ou ator em nossas montagens. Do mesmo modo, alguns desses colegas participantes tornaram-se mais tarde figuras conhecidas em outras áreas, como Arnaldo Jabor (o Tenente Chacel, do melodrama  A borda do abismo), que veio a ser o cineasta de vários filmes destacados do Cinema Novo e um dos cronistas mais populares do país. Desse delicioso palco de nosso tempo, partiram mais tarde para a cena diplomática, além de mim, os atuais Embaixadores Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães e João Gualberto Marques Porto Júnior. Pelas fotos dos programas de sala, como se diz em Portugal, pode-se ver que os quatro participamos, entre outras peças, da comédia em dois atos Advogado em apuros, e eu desta vez na pele do criado Crispim…

 

      Página da Vitória Colegial

   

 

  Por outro lado, ao preparar há pouco meu mais recente recital de poesia, intitulado Três Epopeias Brasileiras, reunindo os poemas Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac, veio-me logo à memória minha participação no papel de José Dias, um dos filhos do lendário Bandeirante, no mencionado drama histórico A Bandeira de Fernão Dias, que acabou condenado à forca pelo próprio pai, ao insuflar uma rebelião contra a determinação paterna de seguir adiante após anos e anos de sofrimento na selva, em busca das pedras verdes. Lembro-me bem da cena de meu enforcamento, realizada com a ajuda de alguns recursos cênicos de luz e sombra, e que causou enorme impacto em nosso público cativo e generoso…

 

     

A Bandeira dos Embaixadores…

        Ao evocar tudo isso, e com bastante precisão, não ignoro que, talvez para a quase totalidade de meus colegas de então, essas aventuras teatrais já se perderam na poeira dos tempos, decorridos mais de meio século. Em mim, ficaram porém marcadas para sempre, pelo simples fato de que, de todo aquele grupo, eu era certamente o mais apaixonado pelo que fazia. E tanto é verdade que aquela fase de peças colegiais balizou apenas o início de um exercício de oito anos consecutivos de palco, só terminando quando concluí o quinto e último ano da Faculdade de Direito, ingressando logo em seguida na diplomacia, através dos exames para o Instituto Rio Branco. Logo no segundo ano de Clássico resolvi fazer um curso teórico de teatro, entrando depois para a recém-criada Associação Cultural da Juventude (ACJ). A ACJ, que ocupou boa parte de meu tempo, atuava em três áreas diferentes: a artística, com  o seu Teatro da Juventude e um programa semanal na Rádio Roquete Pinto; a de jornalismo estudantil, com o nosso jornal A Voz da Juventude, e a de esportes e lazer. Eu comandava a área artística, dirigindo e atuando em inúmeras peças teatrais, além do programa radiofônico semanal. E como fosse pouco, era também diretor-redator-chefe de nosso jornalzinho. E por falar em jornal, acho que vale a pena refrescar a memória dos leitores para o  o que escrevi no primeiro capítulo desta série de Andanças pelo Cultural, quando mencionei que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O Dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector.

Página de rosto do número 1 de A Voz da Juventude

         Lembram-se? Pois o que até hoje me impressiona era a facilidade de acesso que tínhamos nós, estudantes secundários, a todos esses importantes órgãos da imprensa carioca. Quantas visitas em grupo chegamos a realizar a O Globo, ao Diário de Notícias, ao Correio da Manhã, ao Jornal do Brasil, etc. solicitando uma cobertura para nossas atividades culturais! E, pasme-se, éramos sempre atendidos. A título ilustrativo aqui estão estampadas algumas matérias e fotos publicadas por esses jornais, ora noticiando um Congresso de Jornalismo Estudantil que iríamos realizar na Bahia, ora a realização de um de nossos Juris Históricos Simulados em um velho cinema na rua Jardim Botânico, ora um Salão de Artes Plásticas em Copacabana, ora a apresentação de peças encenadas pelo Teatro da Juventude que, diga-se de passagem, procurava ocupar todos os palcos disponíveis de salas paroquiais da cidade, como o da Matriz de São João Batista, em Botafogo, e de Colégios como o Santo Agostinho, no Leblon, o Santa Santa Rosa, também em Botafogo, e até do Liceu de Artes e Ofícios, na Gávea. Ou seja, nosso tempo maior era ocupado por atividades culturais extra-escolares, que acabavam recebendo sempre um bom público, graças à divulgação gratuita que nos ofertava a grande imprensa carioca.

                                                                                         

Jornalismo estudantil.
Visita à Redação de O Globo

         Enquanto isso, em nosso jornalzinho A Voz da Juventude, no qual eu ocupava as funções de Diretor-Redator-Chefe, cabendo a Direção-Geral ao meu amigo José Augusto Guilhon de Albuquerque, hoje respeitado Catedrático de Sociologia da USP, publicávamos reportagens, crônicas e artigos assinados pelos demais sócios da ACJ e colaboradores eventuais. Entre estes, lembro-me bem a grande impressão que me causou uma análise crítica escrita por Fernando Guimarães Reis, (hoje Embaixador, já aposentado, como todos nós daqueles idos de 1955) ao filme Vidas Amargas, baseado no romance East of Eden, de John Steinbeck, dirgido por Elia Kazan e estrelado por James Dean em sua estreia no cinema. O texto de meu amigo Fernando Reis ficou-me sempre como uma das mais inteligentes colaborações que tivemos em nosso jornal, no qual cheguei a publicar artigos sobre assuntos variados, como sobre a cidade de Goiânia, naquela época ainda tão remota e desconhecida pelos brasileiros do litoral quanto a Lua e, muito especialmente, algumas matérias defendendo a tese da mudança da Capital para Brasília, cidade em início de construção no Planalto Central do país, ou seja, na minha terra natal… Por aí se vê que eu, proveniente do centro geográfico do Brasil, estava mais que imbuído da firme convicção de que era fundamental e urgente promover a integração do país através da efetiva ocupação de seu vasto território interior.                             

Congresso de Jornalismo Estudantil na Bahia

        E assim, participando com entusiasmo de todas essas atividades extraescolares, além de manter minhas aulas particulares de Francês e Inglês com minha inesquecível Mrs. Williams (sobre quem ainda voltaremos a falar), atravessei os três anos de Santo Inácio. Em fevereiro de 58 fiz o vestibular para Direito na PUC, onde me esperava uma roda-viva de cinco anos no palco muito mais agitada que a anterior. É o que veremos no próximo capítulo dessas andanças Culturais.

     

O Congresso na Bahia. Matéria do jornal A Tarde

Repercussão na Província

Desabafo do goiano…

 

E por falar em Bahia…

Juri Simulado: maneira inteligente de aprender História

Artigo em A Voz da Juventude. Salve Brasília!

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8 Comentários

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8 Respostas para “ANDANÇAS PELO CULTURAL (3)

  1. Fernando Cupertino

    Bravíssimo, meu caro! Sabe que sinto pena dos jovens de hoje, que não vivem esse ambiente de efervescência cultural que já houve no passado…
    Abraço!

    • Obrigado, meu caro Fernando. Também eu lamento que os jovens de hoje não tenham mais a oportunidade de participar dessa vida cultural tão entusiasmante. Um grande abraço e o reconhecimento do Quincasblog por sua leitura sempre atenta.
      Lauro

  2. Samira Aparecida de Camargo

    Prezado Lauro Moreira

    Muito gratificante ler suas memórias.

    Com certeza, você tem muito a dar para os mais jovens, pois o nosso Brasil está carentes de pessoas que possam ser exemplo de gratidão pelo nosso país.

    Ficamos muito felizes com sua presença na nossa posse em São José do Rio Preto, no dia 24 de agosto de 2.017.

    • Prezada Samira,

      Muito grato pelos comentários e muito bem-vinda ao nosso Quincasblog. Espero poder merecer sua leitura a cada post.
      Também eu fiquei muito contente em poder estar presente na prestigiada posse de vocês. Foi realmente uma linda festa.
      Um abraço.
      Lauro Moreira

  3. Regina Ungerer

    Meu caro amigo embaixador,
    estou admirada com a sua memória mental e jornalistica para resgatar tudo isso.
    Parabéns!
    Graças

    • Regina caríssima, muito obrigado por sua fidelidade ao nosso Quincasblog. Quanto à memória, acho que a idade nos ajuda a percorrer os tempos idos e vividos… Um abraço.
      Lauro

  4. Nádia Battella Gotlib

    LAURO QUERIDO, gostei muito desse ‘capítulo’ das suas memórias que trazem, junto, a efervescência cultural dos estudantes do Rio. Aguardo, ansiosamente, a continuação do que você ‘aprontou’ na PUC por ocasião do seu curso de Direito… Que venha logo a continuação desse percurso intelectualmente rico e, creio eu, muito divertido, para você e para nós, seus fiéis leitores. Abraço.

    • Nádia querida,
      Você não calcula quão lisonjeado se sente o nosso Quincasblog com seu generoso comentário! Sinceramente, minha amiga, são manifestações como a sua que me levam a acreditar que vale a pena seguir publicando essas divagações despretenciosas sobre tempos idos e vividos.Muito obrigado e um abraço afetuoso.
      Lauro

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