EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                    

Morreu hoje o Presidente Mário Soares.

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Portugal acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, um dos maiores políticos europeus de sua geração e de seu tempo, um líder incontrastável, e seguramente o principal responsável pela trilha democrática adotada pelo país após o Movimento de 25 de Abril de 1974.

O Brasil, irmanado nesse luto a toda a Comunidade Lusófona espalhada pelos quatro continentes, assiste com imensa tristeza à partida de um amigo fiel e leal, um de seus mais vigorosos defensores, e um dos paladinos da batalha de criação da CPLP, ao lado de seu fraterno companheiro José Aparecido de Oliveira.

Para mim, pessoalmente, que o conheci há mais de vinte anos e que tive o privilégio de contar modestamente entre seus inumeráveis amigos e admiradores, fica-me o desalento de não mais poder visitá-lo em sua Fundação a cada viagem minha a Lisboa. Mas fica-me também o orgulho de ver sua partida reverenciada por pessoas e povos que o conheceram e o respeitaram, em sua imensa luta cotidiana por um mundo melhor e mais justo. RIP 

(Comentário que postei no Face Book no dia 07/01/2017).

 

                                                                                                             

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

                   EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                                                             Lauro Moreira

 

TRATANDO DE CLIMA E SATÉLITES

 

No início do segundo semestre de 1994, deixei a cidade de Barcelona , onde por quatro anos havia sido Cônsul Geral, e voltei ao Brasil, convidado pelo Ministro Celso Amorim para o cargo de porta-voz do Itamaraty. Poucos meses depois, com a posse do novo Governo, transferi-me para o Ministério de Ciência e Tecnologia, atendendo a convite do titular da Pasta, Professor José Israel Vargas, que eu então mal conhecia, mas que veio a ser depois um amigo muito querido, merecedor até hoje de minha maior admiração e respeito intelectual. Com ele pessoalmente, e com alguns de seus dedicados colaboradores, aprendi muito sobre uma área na qual me sentia inteiramente jejuno, uma vez que em toda minha carreira até então, eu jamais chegara a lidar com assuntos de natureza científica. E lá estava eu, de repente, tratando de “cooperação e cumprimento de acordos internacionais relativos aos assuntos de ciência e tecnologia, especialmente os programas espacial, nuclear e de bens sensíveis.”

Depois de um breve estágio inicial, por iniciativa própria, nos principais órgãos do Ministério, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Agência Espacial Brasileira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Nacional de Tecnologia, o Observatório Nacional, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a Nuclebrás, etc., mergulhei nos assuntos afetos à Assessoria Internacional por mim chefiada. Foram quase três anos de descoberta de um mundo novo e fascinante, onde me cabia tratar de assuntos que iam das consequências do efeito estufa sobre a vida do planeta a negociações para o lançamento de satélite brasileiro pelo foguete chinês Longa Marcha… Aprendi muito, repito, sobretudo para quem sabia tão pouco, e guardo as melhores lembranças de um convívio inexcedível com amigos que retenho na memória e no afeto. Vargas, Oskar Klingl, Mônaco, Márcio Barbosa, Lindolfo de Carvalho, José Tundisi, Antônio Teixeira, Lélio Fellows… Pessoas amigas, estimadas, de quem os azares da vida acabam às vezes por nos afastar. Uma pena.

 

Min.IsraelVargas & Staff

Min.IsraelVargas & Staff

 

 

Mas hoje quero falar especialmente de Mário Soares, do Presidente e meu Amigo Mário Soares, de como o conheci, de quanto o admirei, de como fui sempre devedor de sua generosa atenção, e de como os azares do destino, nesse caso, felizmente não nos afastou, apenas nos uniu. E foi graças ao Ministro Israel Vargas que vim a conhecer pessoalmente o meu personagem de hoje, personagem que acaba de se retirar deste palco terreno há menos de uma semana.

NAVEGANDO PELOS OCEANOS

Em dezembro de 1995 foi lançada a Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos (CMIO), na sequência de uma proposta apresentada pela delegação de Portugal e aceita pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) com vistas à organização de uma grande conferência internacional sobre o mar. A iniciativa foi igualmente acolhida pela UNESCO e pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cabendo ao então Presidente da República de Portugal, Mário Soares, presidir a referida comissão e apresentar um Relatório independente sobre os oceanos, em 1998, no âmbito de celebração do Ano Internacional dos Oceanos.

Logo no início de 1996, o Professor Vargas, em sua qualidade de destacado cientista, recebeu do Presidente Mário Soares o honroso convite individual para integrar a CMIO, ao lado de quatro dezenas de outras conhecidas personalidades internacionais ligadas à questão do mar, entre elas a Dra. Elisabeth Mann Borgese, filha mais nova do escritor Thomas Mann, e o ex-Primeiro Ministro da Holanda de 1982 a 1994, Ruud Lubbers. No caso do Brasil, o Ministro Vargas decidiu criar imediatamente a CNIO, ou seja, uma Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos, reunindo altos representantes de 17 instituições brasileiras especializadas no assunto, com vistas a preparar nossa contribuição para o Relatório final a ser apresentado à ONU pela CMIO, em 1998.

Na qualidade de Chefe da Assessoria Internacional, e convocado desde o início pelo meu Ministro, passei a trabalhar intensamente no âmbito de ambas as Comissões, ou seja, tanto nas reuniões nacionais quanto nas internacionais, ao lado de meu amigo e colega de Ministério, o Comandante da Marinha Antônio José Teixeira. A primeira delas realizou-se em Tókio, com a presença de todos os membros e o apreciado apoio  do Governo japonês. Foi então nessa oportunidade que tive o prazer de conhecer de perto o prestígio internacional, a simpatia e a grande experiência diplomática do Presidente Mário Soares, com quem, inclusive, realizei a viagem de volta até Lisboa.

 

Em reunião da CMIO

Em reunião da CMIO

A segunda reunião internacional teve lugar no Rio de Janeiro, cabendo-nos portanto a honra e o imenso esforço de organizá-la…Felizmente, parece que não decepcionamos, e tudo correu nos trilhos previstos. E foi aqui no Brasil, ao longo dos cinco ou seis dias do encontro, que tive a chance de conviver mais de perto com o Presidente Mário Soares, acompanhando-o inclusive a vários encontros não oficiais, como uma visita à tradicional ABI -Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908, onde o visitante homenageado proferiu um vibrante improviso para uma plateia entusiástica; ou uma cerimônia na sede da Biblioteca Nacional para o lançamento da edição brasileira de Portugal, livro de crônicas de seu amigo e grande poeta do Douro Miguel Torga, prefaciado pelo próprio Mário Soares; ou ainda uma passagem pela famosa Livraria Camões, no Centro do Rio, aberta em 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa, e que lamentavelmente viu-se na contingência de fechar suas portas em 2012.

Acompanhei-o ainda em caminhadas pelas ruas centrais do Rio, quando, sem maiores surpresas, observei como ele era notado e imediatamente reconhecido por uma boa quantidade de transeúntes, o que me levou a propor-lhe que se candidatasse logo a um posto eletivo no Brasil, de preferência ao de Presidente da República! Rimos muito e ele ficou de pensar no assunto… Em meio a uma agenda de mil compromissos diários, ainda encontrou jeito para viajar a São Paulo – quase perdemos o avião – apenas para dar uma entrevista (outro grande sucesso) ao programa do Jô Soares.

Aliás, cabe lembrar aqui uma passagem do comovente artigo publicado ante-ontem em Lisboa por meu amigo António Valdemar, destacado jornalista português, amigo e ex-aluno de Mário Soares, sobre o gosto de nosso personagem por livros e escritores. Diz ele em seu texto Soares, tal e qual :

 Mario Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mario Cesariny ou Luis Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

       Mas, voltando a navegar nas águas da Comissão sobre o Oceanos, cabe acrescentar que a  terceira reunião realizou-se na Holanda, em Rotterdam, e a seguinte em Genebra. Compareci a ambas, assessorando sempre nosso Ministro Vargas e aproximando-me mais e mais do Presidente Soares. Pouco depois, em meados de 1997 e antes que se realizasse a última reunião, desta vez no Marrocos, (onde, quem diria, quatro anos depois eu viria ser o  Embaixador brasileiro), voltei  ao Itamaraty para assumir o Departamento Cultural e, cumulativamente, a Presidência da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Mas qual não foi minha surpresa quando, meses depois, recebo uma carta pessoal do Presidente Mário Soares, em nome da CMIO, convidando-me a comparecer a Lisboa para participar da entrega oficial do Relatório da Comissão ao Secretário-Geral das Nações Unidas, em cerimônia realizada no âmbito da Expo-98. O documento, intitulado “O Oceano: Nosso Futuro”, apresentava importantes recomendações à comunidade internacional para a salvaguarda da riqueza dos oceanos, chamando a atenção para a sua relevância no progresso social e económico do planeta.

VOLTA AO ITAMARATY

Meu retorno ao Itamaraty marcou, com certeza, a fase mais entusiasmante e, em seguida, a mais frustrante de toda minha vida profissional, quando participei intensamente da construção de um sonho formidável, para assistir depois ao seu irreparável naufrágio. (Este comentário só se intrometeu aqui, meus caros leitores, por não me ter sido possível evitá-lo, tal o peso da frustração e da tristeza de uma história que um dia contarei em letra de forma, com o sugestivo título de “Meus Quinhentos Anos…) A verdade é que nessa época não só propusemos  estimular “um momento de reflexão sobre caminhos e perspectivas do Brasil”, como se podia ler em minha página de apresentação no primeiro número de nossa revista RUMOS: Os caminhos do Brasil em debate, como chegamos a criar um riquíssimo diálogo com Portugal, incentivado pela Comissão Bilateral para as Comemorações da Viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No âmbito desta, criou-se uma Comissão de Honra, comandada, de parte a parte, pelo Presidente Mário Soares e Marco Maciel, então Vice-Presidente da República, e composta por personalidades ilustres de diferentes áreas de ambos os países, como Nélida Piñon, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, José Carlos Vasconcelos, Alçada Baptista, entre outras. Realizamos encontros regulares de ambas as Comissões, tanto no Brasil quanto em Portugal, ao longo de quase três anos em que estivemos à frente dos trabalhos. Depois, só Deus sabe o tamanho dos acertos…

 

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Após o naufrágio, e desejando sair do Brasil, aceitei convite  para chefiar a nossa Embaixada no Reino do Marrocos em 2000, onde me senti feliz e realizado com o trabalho que conseguimos levar adiante em quase quatro anos de permanência. Nessa época, tive a honra e a satisfação de ser condecorado pelo Governo de Portugal, pelas mãos de seu Embaixador em Rabat, com a Gran Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a mais alta comenda do Estado português. E fiquei alguns anos sem voltar a ver meu sempre lembrado amigo Mário Soares. Voltei à base em dezembro de 2003, por insistente convite do Ministro Celso Amorim, para assumir a chefia da Agência Brasileira de Cooperação, uma das áreas mais atuantes e desenvoltas do Itamaraty, e que muito me acrescentou em termos de experiência profissional. Em meu triênio de ABC, tive a oportunidade de lidar com uma imensa variedade de projetos de cooperação, destinados a quase todos os países latino-americanos e à totalidade de nossos países lusófonos, tanto no plano bilateral quanto no multilateral, uma vez que, neste último caso, representávamos o Brasil no órgão da CPLP responsável pela área da cooperação para o desenvolvimento. Com isso, aprofundei bastante minha vivência lusófona, inclusive visitando com frequência os cinco PALOP (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e S. Tomé e Príncipe), além do Timor Leste. Participei ainda da Cimeira de 2004, em S.Tomé, com a presença de todos os Chefes de Estado e/ou de Governo dos países membros da CPLP.

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No Recife, com Francisco Knopfl, Embaixador de Portugal e o Senador Roberto Cavalcanti.

MERGULHO NA LUSOFONIA

 

Mas confesso que a grande surpresa que me caiu do céu foi minha designação para abrir a Missão Permanente do Brasil junto à CPLP, em 2006. Ou seja, o Brasil passava a ser o primeiro País-Membro a contar com uma representação, em nível de Embaixada, para tratar exclusivamente dos assuntos da Lusofonia, já que até então esse trabalho era realizado por nossa Embaixada bilateral junto ao Governo de Portugal, a exemplo do que ocorria com a representação dos demais países da CPLP. Não é preciso dizer que, a partir daí, os outros sete  países seguiram gradualmente os passos do Brasil, elevando assim de modo significativo o nível de suas representações. Tomei posse em Lisboa em meados de 2006, após instalar a Chancelaria e a Residência oficial, e permaneci no cargo até 2010, quando fui dispensado pela aposentadoria… Falar aqui, ainda que muito resumidamente, das atividades que conseguimos levar a cabo nesses quatro anos, seria virtualmente impossível. Assim, limito-me a reiterar agora o que disse em discurso público na Academia de Ciências de Lisboa, ao receber das mãos do Presidente Mário Soares e do Professor Adriano Moreira, o Prêmio outorgado pelo Movimento Internacional Lusófono , de Personalidade Lusófona do Ano de 1999 – ou seja, que minha descoberta essencial, traduzida em meu sentimento mais profundo, levava-me à evidência de que toda a minha vida pregressa não havia sido senão um longo exercício para finalmente cumprir a missão maior e final que me estava destinada e que era justamente  essa de engajar-me na batalha pela Lusofonia.

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Na Academia de Ciências de Lisboa: outorga do Prêmio Personalidade Lusófona de 2009. Prof. Adriano Moreira e Pres. Mário Soares.

 

Vejam que a figura de Mário Soares volta a surgir neste relato. E a verdade é que em todo meu período de Embaixador junto à CPLP essa figura passou a ter presença constante em minhas atividades, apoiando-me sempre que solicitado, prestigiando eventos promovidos pela nossa Missão, abrindo as portas de sua prestigiosa Fundação para sediar nossas palestras, exposições, seminários, etc. E aproximando-se a data do encerramento de minha missão em Lisboa, ou seja, de minha aposentadoria, após 45 anos de serviços prestados à Carreira Diplomática, ocorreu um episódio que me deixou extremamente sensibilizado, embora um tanto constrangido. Foi um telefonema surpreendente que recebi do Presidente Mário Soares, em que me dizia haver sido informado de que eu deixaria Portugal. Eu confirmei, e ele continuou: Mas o meu amigo não pode sair agora, pois este ano haverá muita coisa importante a ser tratada no âmbito da CPLP e sua saída será muito inoportuna.

Obrigado, Presidente, mas não há o que fazer, pois o processo de minha remoção já está em curso.

  • – Vai para o Brasil ou para outro Posto no exterior?
  • – Vou para a reforma
  • – Então pode ficar mais um ano aqui! Vou telefonar ao Presidente Lula e tratar desse assunto.
  • – Mas Presidente, embora tecnicamente não haja de fato impedimento de eu me aposentar no Serviço Público e continuar como Embaixador aqui, trata-se de algo muito inusitado no Itamaraty.
  • -Não, não, vou telefonar a Brasília e depois lhe falo.

A verdade é que só essa manifestação incrível de amizade e consideração pelo meu trabalho já me era mais que suficiente para inflar-me o ego… Mas sabendo bem dos obstáculos e de certo modo até dos prováveis inconvenientes que acarretaria a execução de tal plano, como tentei argumentar-lhe, tive a sensação de que meu amigo acabaria por abandonar logo a ideia. Mas quem disse que o voluntarioso Mário Soares era homem de desistir? Horas depois, no fim daquele mesmo dia, atendo telefone meu celular:

– Embaixador, liguei para o Lula, mas ele está numa reunião em Manaus. Pedi para falar com o Chefe de Gabinete, mas ele tinha viajado com o Presidente. Liguei então para o meu amigo Tarso Genro, Ministro da Justiça, que também está fora, em Zurique. Quando eu conseguir falar, dou-lhe notícias.

Fiquei abismado com essa determinação, e por mais que lhe dissesse que sua generosa atenção já era para mim mais que suficiente e que o melhor seria não insistir no assunto, não teve jeito. Três ou quatro dias passados, estava eu chegando a Guimarães com o nosso Grupo Solo Brasil (que eu havia criado anos antes, para mostrar no exterior o melhor da música brasileira, e que realizava então uma turnê por Portugal), quando volto a receber mais uma chamada do Presidente Mário Soares para informar que havia finalmente conseguido falar com o Ministro Tarso Genro, explicar-lhe a situação e pedir-lhe providências junto ao Presidente da República! E daí a poucos dias recebo um chamado do Secretário Geral (que seria, logo depois, Ministro de Estado) da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a quem eu já conhecia pessoalmente, para, referindo-se ao telefonema do Presidente Mário Soares, consultar-me sobre o que exatamente poderia ser feito para atendê-lo, ou seja, manter-me em Lisboa por mais um ano, até o final do Governo Lula.

 

Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, com a presença da Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos S. Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Dra. Maria Barroso.

Descerramento de Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, presentes, entre outros, a Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Sra. Mário Soares.

Foi então que lhe contei toda a história, todo o generoso empenho do meu amigo, e pedi-lhe que por favor não fizessem nada, não tomassem nenhuma iniciativa, nem junto ao Itamaraty nem, muito menos, junto ao Presidente da República, pois até o processo de remoção de meu substituto já estava em curso, e uma medida inusitada como essa provavelmente causaria um certo desconforto na Casa de Rio Branco… E foi assim que no dia 10 de fevereiro de 2010 entrei para o clube dos aposentados e voltei definitivamente para o Brasil. Não sem antes oferecermos, minha mulher eu, um jantar na Residência a Mário Soares e Maria Barroso, sua companheira admirável, mulher e atriz sensível e participante, minha aliada constante na luta pela Lusofonia, evento para o qual convidamos alguns dos amigos mais chegados do casal. Dias depois, foi a nossa vez de sermos homenageados por ambos, com um inesquecível jantar em sua casa, com a prestigiosa presença do Ministro de Negócios Estrangeiros, Luís Amado e do Professor Adriano Moreira, entre outros amigos e autoridades.

APOSENTADORIA EM TERMOS…

Acontece, porém, que ao voltar para o Brasil dei-me conta de que me apaixonara por Portugal, e essa paixão só fazia crescer com o tempo…Diante disso, não restou outra opção – a mim e a minha mulher, outra apaixonada pela terrinha – que a de voltar sempre que possível por lá. No princípio, íamos uma vez por ano, e alugávamos um pequeno apartamento por algumas semanas . Depois, acabamos por adquirir uma morada em Lisboa, aonde passamos a ir uma vez a cada semestre. Sentimo-nos realmente em casa, e temos aproveitado as visitas para estar com amigos e multiplicar minhas atividades, sobretudo na área cultural, participando de um sem número de eventos, não apenas em Lisboa como em várias regiões do país,  fazendo palestras sobre temas da Lusofonia, participando de programas da CPLP ou de iniciativas como a Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas, criada por meu amigo e escritor Mário Máximo, apresentando recitais com obras de poetas da Lusofonia etc. E em cada estada em Portugal, minha primeira visita era sempre ao Presidente Mário Soares.

PARTIDA

Jantar oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Jantar de despedida oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Até que um dia isso já não foi mais possível, em razão do agravamento de seu estado de saúde, o que nos deixou a todos mais que apreensivos. No último dia 7 de janeiro, aos 92 anos, alquebrado desde o grave acidente vascular que havia sofrido há cerca de dois anos e pela perda em 2015 da companheira de toda a vida, Maria Barroso, meu generoso Amigo Mário Alberto Lopes Soares fechou seus olhos no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa.

 

 

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

 

Eu havia acabado de chegar ao Brasil, de volta de mais uma estada de três meses em Portugal. Acompanhei pela televisão o féretro daquele homem que, nas palavras de um jornalista do Público, gostava de ser amado mas nunca se preocupou em ser consensual. Deixa um legado histórico à sua medida. Mário Soares cruzou a segunda metade do século XX e com ela todas as grandes derivas históricas: o fim do colonialismo, a construção europeia, a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a primeira guerra do Iraque. Em todas, Soares esteve do lado certo da história, tendo sido personagem importante em alguns desses momentos.

        Ou seja, partiu para sempre um dos vultos mais importantes da longa e rica História de Portugal. E levou muita, muita saudade nossa, de seus inumeráveis amigos e admiradores.

 

(Da Série “Meus Encontros”)

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6 Comentários

Arquivado em SÉRIE MEUS ENCONTROS

6 Respostas para “EM TORNO DE MÁRIO SOARES

  1. Patricia

    Doutor!!!!! Fiquei Feliz pela retomada das matérias no Quincas. Estarei aqui prestigiando e deliciando com as futuras publicacões, um grande abraço, Rata.

  2. Querido Lauro, sua justa homenagem a Mário Soares é entusiasmante, grato pelo relato histórico. Um grande abraço, Dalembert

  3. Evaldo Segreto

    Parabéns Lauro ,pelo tributo a Mário Soares e por nós relatar parte da História das relações Lusófonas . É sempre muito bom ler esse blog. Abraços , Evaldo

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