TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

th     POESIA EM CONCERTO: TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

                                         

                                  APRESENTAÇÃO

                                                                     Lauro Moreira

          Há  tempos namorava a ideia de apresentar um recital reunindo três poemas épicos de largo fôlego da literatura brasileira. Seriam eles o Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

      Além de constituírem o que há de melhor em nossa poesia épica, os poemas evocam três dos mais importantes aspectos da formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e o alargamento do território pelos bandeirantes e, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano

th-1escravizado. Da fusão étnica e cultural dessasth-2 três raças básicas nasce o Brasil.

      Seria seguramente um espetáculo inédito em seu formato e concepção. Ou melhor: seria, não, será, pois o projeto já está em seus finalmentes, e pretendo estreá-lo em Portugal nas próximas semanas. À guisa de apresentação dos temas, rascunhei os parárafos abaixo:

          O período inicial da  colonização portuguesa no Brasil foi de caráter eminentemente masculino. Não havia na nova colônia condições mínimas que permitissem a presença da família. Os homens estavam ali para enriquecer e voltar logo à terra. Desprovidos de preconceitos, os colonizadores tratavam de se mesclar às índias e, posteriormente, às africanas, que chegavam em número crescente. O aspecto portanto que mais sobressai na história da formação étnica e cultural do povo brasileiro é sem dúvida o de sua forte miscigenação, consequência desse cruzamento racial observado desde os primeiros tempos da colonização. O branco europeu, o indígena nativo e o negro africano misturaram-se de modo tão intenso, que nas veias do povo brasileiro corre hoje um sangue que claramente o distingue de outras nacionalidades e etnias. As teses tradicionais de antropólogos e sociólogos neste campo foram plenamente confirmadas por recentes pesquisas genéticas. Esta fusão racial reflete fielmente as características básicas de cada um de seus componentes originais, gerando uma cultura rica e mesclada, em que estão presentes distintos elementos da alma indígena, portuguesa e africana.

        Por outro lado, é certo que essa miscigenação não se deu de forma pacífica e harmoniosa, pois o elemento dominante, o colonizador, se impunha naturalmente pela força, submetendo os mais fracos e os reduzindo quanto possível à servidão, na luta insana para vencer os obstáculos quase intransponíveis da terra inóspita. Com o apoio da Igreja Católica, sobretudo dos jesuítas, os índios opuseram sempre grande resistência à servidão, e com isso logo a partir de meados do século 16 tem início a importação de escravos africanos, destinados aos penosos trabalhos na agricultura e nos engenhos de açúcar da região nordeste. Esse nefando tráfico negreiro levou ao Brasil, ao longo de mais de trezentos anos, nada menos de quatro milhões e meio de homens, mulheres e crianças procedentes sobretudo da costa ocidental africana, e cuja libertação só veio  a acontecer no ano de 1888, ao apagar das luzes do Segundo Império, véspera da proclamação da República. Foi a vitória final de uma longa e penosa campanha abolicionista, inaugurada ainda nos albores da Independência do país por seu Patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e continuada mais tarde por políticos e intelectuais ilustres, como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, e  o idolatrado poeta Antônio Frederico de Castro Alves, o Poeta dos Escravos. Seu famoso poema épico O Navio Negreiro narra com suprema indignação a viagem trágica de um desses barcos tristemente conhecidos como tumbeiros.

        

        Um forte movimento de penetração do imenso território tem início a partir da União Ibérica, em 1580, e  acabará por ditar uma completa reconfiguração das fronteiras coloniais. Eram as Bandeiras – expedições compostas por numerosos integrantes, que partiam em geral do pequeno vilarejo de Itapetininga – a atual cidade de São Paulo –  em busca do ouro, da pedra preciosa e do apresamento de índios. A mais famosa delas, a chamada Bandeira das Esmeraldas,  foi organizada e conduzida pelo paulista Fernão Dias Pais Leme, que a pedido da Corte portuguesa embrenhou-se com mais de quatrocentos homens pelo sertão ignoto de Minas Gerais, em busca das lendárias pedras verdes. A epopeia desse velho bandeirante foi resgatada no impressionante poema narrativo O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

         

Quando da chegada dos portugueses à terra que viria a se chamar Brasil, calcula-se que a população nativa era de cerca de quatro e meio milhões de índígenas. Atualmente, esta população está em torno de 900 mil pessoas de variadas tribos, falantes de quase 250 línguas e dialetos. Os gentios descritos por Caminha em sua carta ao Rei D. Manuel integravam o imenso e variado grupo dos Tupis, da família linguística tupi-guarani, que viviam espalhados pela  costa  atlântica,  e compunham com os Tapuias, do grupo linguístico Jê, ocupantes das matas do interior, os dois principais troncos étnico-linguísticos do território.

A língua falada pelos Tupis foi aprendida inicialmente por missionários como o Padre Anchieta, e em seguida pelos portugueses, estreitando assim o contato entre as duas culturas. Com isso, a língua portuguesa no Brasil está impregnada de palavras e expressões do idioma tupi, sobretudo para designar acidentes da topografia, da fauna e da flora, além de contribuir, ao lado de  línguas de origem africana, para tornar a fonética brasileira mais suave, mais aberta e mais vocálica. Lendas folclóricas, estórias infantis e mesmo canções indígenas e africanas povoam desde sempre o inconsciente coletivo do Brasil.

  Um dos temas centrais do movimento político, filosófico e literário do Romantismo, tanto na Europa quanto na América, foi a busca das origens da nacionalidade, como nos mostra Garret e Herculano em Portugal, ou  Walter Scott na Inglaterra. No caso do Brasil, onde o movimento romântico surge poucos anos depois da Independência, os autores foram buscar essa referência na figura do índio, o nativo original da terra idealizado como um cavaleiro medieval, criando novelas e poemas em torno de seus valores e códigos de honra. Daí a obra de ficionistas como José de Alencar (O Guarani, Iracema, Ubirajara), e de poetas como Gonçalves Dias, o poeta nacional por excelência, autor de Os Timbiras, e do famoso poema Y-Juca Pirama, (na língua tupi, Aquele que há de morrer). Um épico da Lusofonia, que narra o drama terrível de um bravo guerreiro tupi, último descendente de sua tribo em extinção, feito prisioneiro de guerra e condenado ao sacrifício fatal pela temível nação dos Timbiras.

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2 Comentários

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2 Respostas para “TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

  1. Prezado Amigo Emb. Lauro Moreira:
    Parabéns, é pouco. Mas que mais devo acrescentar sobre narartivas históricas tão detalhadas e analisadas por prismas tão diferenciados do que é comum lêr-se sobre tema tão discutido e tantas vezes deturpado a gosto de conveniências ou mesmo de ignorância?
    Como muito já conheço do que pensa e ouvi diretamente em conversas amenas durante horas seguidas, inclusive em discursos proferidos, o que devo dizer, com a máxima sinceridade, é que este texto é mais uma daquelas páginas que tem o belo hábito de redigir, sempre com novas e agradabilíssimas surpresas. Bem haja quem assim escreve. P A R A BÉ N S. e UM G R A N D E A B R A Ç O.
    Armando Ribeiro (O Lusitano)
    http://www.aresemares.com

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