Andanças pelo Cultural

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Drummond e Alceu de Amoroso Lima

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Lauro Moreira

Diante de uma inexplicável ausência de quase seis meses (!), confesso que nem sei mais como (re)começar essas mal digitadas linhas aqui em nosso Quincasblog.

Talvez o pior no entanto seja a falta que aparentemente não fiz aos generosos leitores que me acompanham desde o começo de nossa caminhada em 2012, pois ninguém pareceu notar esse misterioso sumiço. Ninguém perguntou: por que parou? Parou por quê?…(brincadeirinha). Na verdade, de admirar seria se essa ausência tivesse sido acusada por algum observador mais atento, em vista da enxurrada incessante e caudalosa de assuntos tratados hoje nas redes sociais, que afoga todo mundo o tempo todo. Enfim, cá estamos nós outra vez, com o propósito de retomar a regularidade que mantivemos durante mais de três anos de conversa amistosa com nossos amigos e amigas deste Quincasblog, falando sempre de tudo um pouco. Menos de coisas muito atuais, como se sabe, e mais daquelas que já passaram por nossa vida e deixaram marcas no coração e na memória. Esta é a minha matéria. Nesse caso, reconheço não estar em total sintonia com Drummond, quando proclama categórico em um de seus poemas mais fortes:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente””
(Mãos Dadas

Assim sendo, não há como não reconhecer que este nosso Quincasblog se ajusta mais à frase do Professor Alceu de Amoroso Lima, quando dizia que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.

Para evitarmos novas descontinuidades neste (para mim) agradável bate-papo, resolvi adotar, digamos, um formato muito em voga no cinema atual, ou seja, tratar um assunto por capítulos seguidos, formando uma série – o que na verdade em tempos idos e vividos já existia, como sabemos, com o nome de seriado, diversão máxima das crianças nas matinées de domingo. Meus coleguinhas de geração devem se lembrar muito bem do misterioso Fu-Manchu e do lendário Flash Gordon, do Maravilhoso Mascarado e de Nyoka, a Rainha da Selva, como qualquer cidadão de hoje está mais que ciente dos Outlander ou dos House of Cards da vida.

Depois deste pinoquiano nariz de cera, entremos propriamente em matéria. O seriado que agora lhes proponho tem por título Andanças pelo Cultural, e pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente talvez menos eletrizantes que os do Flash Gordon, um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo na área profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.

Curiosamente – e disso me dei conta muitos anos antes de dependurar as chuteiras profissionais (ou digamos melhor, de descalçar as luvas de pelica da diplomacia…) – embora eu tenha trabalhado a maior parte de meus 45 anos de Itamaraty na chamada área econômica, acabei sendo sobretudo conhecido e identificado entre meus pares como um profissional da cultura. E confesso que desse carimbo sempre me orgulhei. Aliás, os leitores não desconhecem passagens dessa minha vida, digamos, dupla, distribuídas aleatoriamente nas diversas publicações deste Quincasblog. Sabem que logo ao ingressar no Itamaraty trabalhei por mais de três anos no chamado Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu, e que depois de quatro anos servindo no Consulado-Geral em Buenos Aires, fui transferido para a Delegação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra, onde voltei a me ocupar de assuntos econômicos, lidando todo o tempo com matérias de tarifas e comércio (GATT). Ao retornar ao país, após sete anos de exterior, fui indicado pelo Ministro de Estado Azeredo da Silveira, nosso sempre lembrado Silveirinha, para assumir o cargo de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, a convite do Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes, cargo em que permaneci por cinco anos.

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Embaixador Azeredo da Silveira

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Ministro Severo Gomes

Com o início da nova Administração do país, em 1979, deixei novamente o Itamaraty, convidado pelo Ministro da Fazenda para chefiar a área de Comércio Exterior e, pouco depois, a própria Assessoria Internacional do Ministério. (As peripécias dessa fase estão narradas neste Quincasblog , com o título de Da Arte de se fazer um Coordenador.) Dois anos mais tarde, decidi dar um passo bastante ousado, digamos, em termos itamaratianos: pedi uma licença temporária do Governo para tratar de interesses particulares, mudei-me de Brasília para São Paulo e assumi o cargo de Superintendente de uma importante trading-company brasileira (COMEXPORT), especializada sobretudo em comércio com os então oito países do Leste Europeu, ou seja, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, República Democrática Alemã, Iugoslávia, Bulgária e Albânia. Valeu-me bastante a longa experiência acumulada na área específica e peculiar das relações comerciais com aquela parte da Europa, então ainda chamada por alguns de Cortina de Ferro, “Iron Curtain”, na definição original de Churchill logo no pós-guerra, mais precisamente em um famoso discurso feito no Missouri em março de 1946. Aliás, o meu envolvimento profissional com essa área foi tanto e tão longo, quer no Governo, quer no setor privado, que enquanto me encontrava na COMEXPORT, aproveitei para escrever minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty sobre exatamente “Relações Econômico-Comerciais Brasil-Leste Europeu no período 1961-1981”. Na verdade, uma tese, como se vê, quase autobiográfica…

Depois de pouco mais de um ano na COMEXPORT, decidi dar outro passo ousado, criando com meu primo e advogado Reginaldo Oscar de Castro – que veio mais tarde a ocupar a Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – a empresa de consultoria na área de comércio exterior Lauro Moreira & Castro, com sede em São Paulo e um escritório em Brasilia.

Ao cabo de dois anos e meio em São Paulo, e tendo que decidir definitivamente se voltaria ou não à Carreira, minhas dúvidas foram dissipadas por um amável e surpreendente convite do Embaixador Sérgio Corrêa da Costa, que depois de vários anos como Embaixador junto às Nações Unidas, acabava de ser designado para a Embaixada em Washington e propunha-me integrar sua equipe no novo Posto, como responsável pela área de Política Comercial. Pois foi então que se deu, com perdão pela comparação, minha conversão definitiva, meu Caminho de Damasco, minha passagem de Saulo a Paulo… Após um ano de exercício na área comercial, numa labuta diária, cansativa e um tanto inglória, levando bordoadas de countervaling duties e anti-dumpings aplicados sobre a exportação de vários produtos brasileiros, como aços e calçados, e tudo restringido à monotonia de um só país (para quem estava habituado a lidar até então com inúmeros países ao mesmo tempo) – decidi pleitear junto ao Embaixador Corrêa da Costa a minha mudança de área e de ares, fazendo-lhe ver que meu trabalho poderia render muito mais se me transferisse para o lugar de um colega que estava justamente deixando o Setor Cultural… Dito e feito! A partir desse momento, minha vida foi um labutar ainda maior, só que num terreno onde sempre me senti à vontade e, como diz o provérbio português, feliz como pinto no lixo. Mas esses momentos profissionais inesquecíveis que vivi em Washington, marcados por projetos de grande alcance e de inegável complexidade, serão devidamente tratados no capítulo que lhe couber neste seriado que agora se inicia.

AGUARDEM O PRÓXIMO CAPÍTULO, INTITULADO : Oh! que saudades que tenho
de uma Cidade Maravilhosa, que os anos não trazem mais…

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5 Comentários

2 de julho de 2016 · 20:17

5 Respostas para “Andanças pelo Cultural

  1. Fernando Cupertino

    Que bom que está de volta!!!

  2. roberto

    where are the pictures?

  3. carlos alberto da silva de cintra

    a cidade que um dia foi capital do brasil

  4. Prezado Embaixador Lauro, homem de tantos talentos! Obrigada pela volta deste insubstituível Quincasblog que aguardo sempre com grande expectativa e leio com imenso prazer! Continue, não abandone seus fiéis leitores! E parabéns pela evolução a cada edição! Abraços de sua amiga Denise Stoklos

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