Arquivo do mês: julho 2016

ANDANÇAS PELO CULTURAL

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Segundo Capítulo: Oh! que saudades que tenho de uma Cidade Maravilhosa que os anos não trazem mais…

Pois é, minha gente, retomemos nossa conversa iniciada no capítulo anterior dessas Andanças pelo Cultural, tratando agora dos meus bons tempos de estudante no Rio de Janeiro, Capital do Brasil e Cidade então Maravilhosa, para onde minha família se mudara em em princípios de 1955, época em que meu pai se elegera Deputado à Câmara Federal. Eu vinha de cinco anos de internato em São Paulo, nos Colégios S.Bento e Arquidiocesano, ou seja, às voltas com Beneditinos e Maristas, quando me matriculei no Santo Inácio, dos Jesuítas, aos quinze anos, para fazer o chamado Curso Clássico. Eu mal conhecia o Rio, onde havia estado antes apenas por alguns dias, mas confesso logo meu amor à primeira vista. Também, resistir quem há-de? Encantei-me não apenas com as celebradas belezas naturais, mas com a vida mansa que se podia levar naquele paraíso urbano de apenas dois milhões de habitantes, com praias tranquilas, tráfego rarefeito, com uma Avenida Atlântica de uma só pista (e era então suficiente!), de poucos túneis, de movimentado serviço de bondes competindo com os famosos lotações (micro-ônibus). Não havia ainda o imenso Parque de Burle Marx no Flamengo, mas apenas um aterramento que se iniciava para abrigar o grande evento da época, o 36º Congresso Eucarístico Internacional. A Barra da Tijuca era apenas um sitio ermo e distante para prolongados piquiniques. É claro que as favelas já habitavam os morros, mas delas vinham apenas alguma malandragem e grandes sambas que animavam os Carnavais e o desfile das Escolas na avenida. Tudo sem maiores violências, sem balas perdidas, sem o terror das milícias e sem as futuras inacreditáveis barbáries perpetradas pelo narcotráfico, sustentado por um conluio criminoso, habitual e hipócrita com consumidores endinheirados, e que hoje mantêm a cidade quase como refém.

Sei que para os mais jovens tudo isso parece incrível, restos talvez de um incurável saudosismo de tempos idos e vividos. Mas atentem, por exemplo, para o que se passava na área da cultura. Basta lembrar que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector. O movimento teatral, por sua vez, era efervescente, motivando a criação de novos grupos a cada dia, e inaugurando uma nova estética e um novo patamar de qualidade, introduzidos por renomados diretores estrangeiros, como Ziembinski, Adolfo Celli e Gianni Ratto. Foi assim que surgiram agrupamentos como a Companhia Tônia-Celli-Autran, o Teatro dos Sete (com Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Sérgio Brito e Ítalo Rossi), a Companhia de Sandro e Maria Della Costa, o TCB de Cacilda Becker, Ziembinski e Walmor Chagas, e vários outros grupos profissionais e amadores, revelando intérpretes, cenógrafos, músicos e diretores. Para não falar no gênero popularíssimo do chamado Teatro-Revista, também muito presente em Portugal na época, que lotava as salas da Praça Tiradentes e no qual sobressaía a indefectível figura de Walter Pinto, com suas sátiras políticas e suas vedetes do rebolado. Cada jornal, cada revista tinha o seu crítico teatral especializado, sempre de alto nível e grande conhecimento do métier, que praticamente a cada dia publicava sua análise crítica de espetáculos que lotavam as salas da cidade. (Aliás, vai aqui um parêntese para a sentida homenagem póstuma a uma dessas grandes figuras do ensaio e da crítica teatral, Sábato Magaldi, tão representativo dessa época, e que acaba de falecer em sua cidade de São Paulo, aos 82 anos).

Tudo acontecia no Rio daqueles anos dourados, inclusive a presença marcante de consagrados ficcionistas, poetas, músicos, compositores, cantores, pintores, gravadores, etc. Apenas a título ilustrativo: Pixinguinha, Ary Barroso, Tom Jobim, Portinari, Di Cavalcanti, Drummond, Bandeira, Clarice, Jorge Amado, Adonias Filho, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego…E justamente no ano de 1955, Guimarães Rosa, deixa estupefactos leitores e críticos com a publicação simultânea do monumento intitulado Grande Sertão:Veredas e das oito novelas que compõem os dois volumes do Corpo de Baile. Na música popular, a Bossa Nova estava nascendo em fevereiro de 1958, com a gravação de Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, na voz de Elizeth Cardoso e com a inovadora batida do violão de João Gilberto. Aliás, dois anos antes estreava no Teatro Municipal do Rio a peça Orfeu da Conceição, justamente com texto de Vinicius e música de Antônio Carlos Jobim, transformada em 1959 no filme Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Enfim, meus amigos, essa foi a cidade em que me coube viver durante treze dos mais movimentados anos de minha passagem por este tal de vale de lágrimas. Cidade que se preparava, com bastante relutância, é verdade, para abdicar da coroa que ostentava desde 1763, quando recebeu da Bahia o privilégio de substituí-la como Capital do Brasil-Colônia. Por outro lado, é verdade também que se vivia em todo o país um momento de euforia, de otimismo, de afirmação nacional, incutido e induzido pela Administração vibrante e realizadora do recém-eleito Presidente Juscelino Kubitschek. Era a época das grandes obras públicas espalhadas pelo território nacional, da abertura e pavimentação de extensas rodovias, das potentes hidrelétricas, da implantação de um moderno parque indústrial, da marcha para o Oeste (de um país que vivera 450 anos praticamente no litoral), da ocupação do território, da interiorização do progresso. Vivíamos a chamada Era JK, comandada por um Presidente Bossa-Nova que planejava realizar “50 Anos em 5”, e cujas metas ambiciosas tinham na construção de Brasília, a nova Capital do novo país, a sua síntese perfeita.

Não custa lembrar também que, ao lado de toda essa movimentação frenética de grandes obras públicas, o brasileiro elevava sua auto-estima e começava a se distinguir no plano internacional em vários outros campos até então insuspeitados. Como o esportivo, por exemplo, ao vencer por duas vezes seguidas o Campeonato Mundial de Basquete; a Copa do Mundo de Futebol na Suécia em 58 (finalmente!), com Pelé, e depois no Chile, em 62, com Garrincha; ao vibrar com as seguidas vitórias da campeoníssima Maria Esther Bueno em Wimbledon e de Éder Joffre nos ringues de box mundo a fora. E, last but not least, foi a época do surgimento do Cinema Novo, liderado pelo gênio de Glauber Rocha e o talento de vários de seus colegas, que lograram fazer do cinema brasileiro um constante ganhador de prêmios internacionais.

Ora, respirar essa atmosfera efervescente e inebriante logo ao sair da adolescência foi algo que, reconheço, me fez um bem enorme e marcou-me para sempre. Minha vida estudantil começou logo a mesclar-se com uma imensa variedade de atividades extra-curriculares. O Santo Inácio era reconhecidamente um colégio de primeiríssimo nível, considerado mesmo o melhor do Rio de Janeiro, que propiciava aos alunos os instrumentos necessários à formação de uma ampla base cultural. As aulas consumiam as manhãs de seis dias por semana e eram ministradas por professores de excelente nível. Mas confesso que o que mais me atraía eram sobretudo as atividades extra-curriculares, como a Academia de Letras (ALSI), os artigos que escrevia para a revista Vitória Colegial, a Associação Cultural da Juventude (ACJ) com seu jornalzinho Voz da Juventude e um programa radiofônico semanal, etc. Mas, muito especialmente, atraíu-me o teatro amador, em que passei a atuar com total dedicação ao longo de oito anos, três de colégio e cinco de universidade.  Tudo isso será evocado oportunamente nessas Andanças.

ACADEMIA DE LETRAS (ALSI)

Lembro-me bem da noite de uma quarta-feira, logo no início de meu primeiro ano letivo, quando os alunos dos chamados cursos Clássico e Científico reuniram-se para discutir a criação de uma Academia de Letras do Colégio. Depois de infindáveis debates, escolheram-se dois candidatos de cada uma das três séries dos cursos para a disputa dos cargos de Presidente e Vice-Presidente do novel sodalício, como diriam alguns mais entusiasmados. Não sei por que cargas d´água fui escolhido para compor a chapa do 1º ano Clássico e disputar a Vice-Presidência. A eleição far-se-ía (o assunto aqui, por sua gravidade, merece uma mesóclise, certo?) mediante uma disputa de teses a serem apresentadas pelos seis candidatos, versando sobre alguma obra do respectivo Patrono. E foi aí que aconteceu algo que me marcou de maneira indelével. Antes de escolher o escritor para Patrono de minha cadeira, eu só pensava em José de Alencar, autor preferido de minha adolescência em São Paulo, época em que lia bastante no colégio interno e assinava a famosa Coleção Saraiva, da livraria-editora que distribuía um romance por mês, e graças à qual travei também conhecimento com autores estrangeiros como Charles Dickens, o polonês Henryk Sienkiewicz (de quem li Quo Vadis e No Campo de Glória), o italiano Emilio Salgari e muitos outros, dos quais já nem me lembro. Confesso que naquela altura me encantavam as novelas indianistas de Alencar, a beleza poética de Iracema, “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longo que seu talhe de palmeira”, ou as aventuras dos bravos Peri e Ubirajara. Entretanto, e retomando o fio da meada, um colega de série mais adiantada antecipou-se na escolha de meu autor preferido, obrigando-me a eleger um outro escritor, um autor que eu só conhecia, como diria ele mesmo, de “vista e de chapéu”, ou seja, de antologias escolares e das interessantes dissertações de meu professor de Português no Arquidiocesano. Estamos falando de Machado de Assis, é claro. Comprei o D. Casmurro e decidi escrever minha tese sobre as agruras ciumentas de Bentinho e os olhos de ressaca de Capitu, oblíquos e dissimulados.

Pronto! O choque foi forte e definitivo. Apaixonei-me pelo Bruxo do Cosme Velho, como já disse e escrevi tantas vezes. Encantei-me por sua originalidade, seu estilo enxuto, avesso aos arroubos retóricos dos românticos (a essas alturas, pobre Alencar – mudaria ele ou mudei eu?), por suas entrelinhas, por seu humor fino, por seu constante debruçar-se sobre os mistérios da alma humana, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos e esmerada educação católica… A partir de então, e lá se vão décadas, Machado passou a ser minha companhia constante, querida, admirada, estudada, lida nos momentos de alegria e de aflição, fonte inesgotável de prazer estético e intelectual. Tudo nele me atrai – até mesmo sua quase insípida trajetória biográfica – e cada vez mais com o passar dos anos, como se fôra um ente da família, um velho tio-avô íntimo, culto, sereno, inteligente, irônico, divertido e muito querido. Na verdade, muito mais isso, com todo respeito, que o austero “Bruxo do Cosme Velho”. Mas sobre este assunto voltaremos a falar em outras oportunidades neste Quincasblog, tal como já fizemos em inúmeras outras ocasiões, como sabem os leitores.

Com o trabalho apresentado (em que defendi com unhas e dentes a inocência de Capitu…) fui eleito Vice-Presidente, e pouco depois, com a renúncia do titular, Presidente da Academia de Letras do Santo Inácio, função exercida por dois dos três anos em que lá permaneci. Foi um período extremamente rico para a formação cultural de todo aquele grupo, que incluía colegas que vieram a destacar-se bastante na vida cultural do Brasil, entre eles o cineasta Carlos (Cacá) Diegues e o escritor, jornalista e também cineasta Arnaldo Jabor. As reuniões semanais não podiam ser mais animadas, com instigantes trabalhos apresentados pelos “Senhores Acadêmicos” (esse era o tratamento vigente) e acaloradas discussões, que muitas vezes ultrapassavam o horário das reuniões e as paredes da Sala da ALSI para terminar nos bares e botequins da vizinhança, lá pelas duas da manhã. Nenhum daqueles colegas se esquecerá nunca de uma incrível polêmica, que certa vez ocupou nada menos de três reuniões seguidas, envolvendo um debate interminável sobre Eça de Queiróz versus Machado de Assis. E tudo porque eu havia inocentemente encomendado ao Senhor Acadêmico Arnaldo Jabor uma palestra sobre o seu ídolo português, e ele, valendo-se da ocasião, resolveu atacar injustamente o meu Mestre dos Mestres, com base na famosa crítica que este havia feito ao Primo Basílio, em 1878… E o mais interessante é que até hoje o agora super-conhecido cronista e jornalista Arnaldo Jabor continua proclamando sua irrestrita fidelidade ao “pobre homem de Póvoa do Varzim”, sustentando sempre sua antiga preferência e sua quase nenhuma afinidade com a obra do nosso Bruxo genial. Enfim, verdade seja dita: exatamente como eu, só que em sentido contrário… Mas, brincadeiras à parte, embora conservando o necessário tom acadêmico, que sorte maravilhosa a nossa, a de poder contar com essas duas figuras inexcedíveis no panteão da Língua Portuguesa.

Finalmente, convido os amigos leitores a observarem que todas essas peripécias acadêmicas eram vividas com grande entusiasmo, seriedade e circunspecção por um grupo de jovens estudantes entre seus quinze e dezessete anos… Realmente, mirabile visu! como diria o mestre Dutra, nosso professor de Latim. E eu acrescento: in illo tempore em que ainda se aprendia essa língua dita morta, mas imprescindível para o conhecimento do nosso idioma materno.

Para não cansar porém os nossos parcos mas generosos leitores, concluímos por aqui este segundo capítulo do imperdível seriado Andanças pelo Cultural, prometendo (ou ameaçando?) retornar em breve, com o capítulo referente às nossas notáveis aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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Andanças pelo Cultural

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Drummond e Alceu de Amoroso Lima

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Lauro Moreira

Diante de uma inexplicável ausência de quase seis meses (!), confesso que nem sei mais como (re)começar essas mal digitadas linhas aqui em nosso Quincasblog.

Talvez o pior no entanto seja a falta que aparentemente não fiz aos generosos leitores que me acompanham desde o começo de nossa caminhada em 2012, pois ninguém pareceu notar esse misterioso sumiço. Ninguém perguntou: por que parou? Parou por quê?…(brincadeirinha). Na verdade, de admirar seria se essa ausência tivesse sido acusada por algum observador mais atento, em vista da enxurrada incessante e caudalosa de assuntos tratados hoje nas redes sociais, que afoga todo mundo o tempo todo. Enfim, cá estamos nós outra vez, com o propósito de retomar a regularidade que mantivemos durante mais de três anos de conversa amistosa com nossos amigos e amigas deste Quincasblog, falando sempre de tudo um pouco. Menos de coisas muito atuais, como se sabe, e mais daquelas que já passaram por nossa vida e deixaram marcas no coração e na memória. Esta é a minha matéria. Nesse caso, reconheço não estar em total sintonia com Drummond, quando proclama categórico em um de seus poemas mais fortes:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente””
(Mãos Dadas

Assim sendo, não há como não reconhecer que este nosso Quincasblog se ajusta mais à frase do Professor Alceu de Amoroso Lima, quando dizia que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.

Para evitarmos novas descontinuidades neste (para mim) agradável bate-papo, resolvi adotar, digamos, um formato muito em voga no cinema atual, ou seja, tratar um assunto por capítulos seguidos, formando uma série – o que na verdade em tempos idos e vividos já existia, como sabemos, com o nome de seriado, diversão máxima das crianças nas matinées de domingo. Meus coleguinhas de geração devem se lembrar muito bem do misterioso Fu-Manchu e do lendário Flash Gordon, do Maravilhoso Mascarado e de Nyoka, a Rainha da Selva, como qualquer cidadão de hoje está mais que ciente dos Outlander ou dos House of Cards da vida.

Depois deste pinoquiano nariz de cera, entremos propriamente em matéria. O seriado que agora lhes proponho tem por título Andanças pelo Cultural, e pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente talvez menos eletrizantes que os do Flash Gordon, um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo na área profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.

Curiosamente – e disso me dei conta muitos anos antes de dependurar as chuteiras profissionais (ou digamos melhor, de descalçar as luvas de pelica da diplomacia…) – embora eu tenha trabalhado a maior parte de meus 45 anos de Itamaraty na chamada área econômica, acabei sendo sobretudo conhecido e identificado entre meus pares como um profissional da cultura. E confesso que desse carimbo sempre me orgulhei. Aliás, os leitores não desconhecem passagens dessa minha vida, digamos, dupla, distribuídas aleatoriamente nas diversas publicações deste Quincasblog. Sabem que logo ao ingressar no Itamaraty trabalhei por mais de três anos no chamado Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu, e que depois de quatro anos servindo no Consulado-Geral em Buenos Aires, fui transferido para a Delegação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra, onde voltei a me ocupar de assuntos econômicos, lidando todo o tempo com matérias de tarifas e comércio (GATT). Ao retornar ao país, após sete anos de exterior, fui indicado pelo Ministro de Estado Azeredo da Silveira, nosso sempre lembrado Silveirinha, para assumir o cargo de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, a convite do Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes, cargo em que permaneci por cinco anos.

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Embaixador Azeredo da Silveira

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Ministro Severo Gomes

Com o início da nova Administração do país, em 1979, deixei novamente o Itamaraty, convidado pelo Ministro da Fazenda para chefiar a área de Comércio Exterior e, pouco depois, a própria Assessoria Internacional do Ministério. (As peripécias dessa fase estão narradas neste Quincasblog , com o título de Da Arte de se fazer um Coordenador.) Dois anos mais tarde, decidi dar um passo bastante ousado, digamos, em termos itamaratianos: pedi uma licença temporária do Governo para tratar de interesses particulares, mudei-me de Brasília para São Paulo e assumi o cargo de Superintendente de uma importante trading-company brasileira (COMEXPORT), especializada sobretudo em comércio com os então oito países do Leste Europeu, ou seja, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, República Democrática Alemã, Iugoslávia, Bulgária e Albânia. Valeu-me bastante a longa experiência acumulada na área específica e peculiar das relações comerciais com aquela parte da Europa, então ainda chamada por alguns de Cortina de Ferro, “Iron Curtain”, na definição original de Churchill logo no pós-guerra, mais precisamente em um famoso discurso feito no Missouri em março de 1946. Aliás, o meu envolvimento profissional com essa área foi tanto e tão longo, quer no Governo, quer no setor privado, que enquanto me encontrava na COMEXPORT, aproveitei para escrever minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty sobre exatamente “Relações Econômico-Comerciais Brasil-Leste Europeu no período 1961-1981”. Na verdade, uma tese, como se vê, quase autobiográfica…

Depois de pouco mais de um ano na COMEXPORT, decidi dar outro passo ousado, criando com meu primo e advogado Reginaldo Oscar de Castro – que veio mais tarde a ocupar a Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – a empresa de consultoria na área de comércio exterior Lauro Moreira & Castro, com sede em São Paulo e um escritório em Brasilia.

Ao cabo de dois anos e meio em São Paulo, e tendo que decidir definitivamente se voltaria ou não à Carreira, minhas dúvidas foram dissipadas por um amável e surpreendente convite do Embaixador Sérgio Corrêa da Costa, que depois de vários anos como Embaixador junto às Nações Unidas, acabava de ser designado para a Embaixada em Washington e propunha-me integrar sua equipe no novo Posto, como responsável pela área de Política Comercial. Pois foi então que se deu, com perdão pela comparação, minha conversão definitiva, meu Caminho de Damasco, minha passagem de Saulo a Paulo… Após um ano de exercício na área comercial, numa labuta diária, cansativa e um tanto inglória, levando bordoadas de countervaling duties e anti-dumpings aplicados sobre a exportação de vários produtos brasileiros, como aços e calçados, e tudo restringido à monotonia de um só país (para quem estava habituado a lidar até então com inúmeros países ao mesmo tempo) – decidi pleitear junto ao Embaixador Corrêa da Costa a minha mudança de área e de ares, fazendo-lhe ver que meu trabalho poderia render muito mais se me transferisse para o lugar de um colega que estava justamente deixando o Setor Cultural… Dito e feito! A partir desse momento, minha vida foi um labutar ainda maior, só que num terreno onde sempre me senti à vontade e, como diz o provérbio português, feliz como pinto no lixo. Mas esses momentos profissionais inesquecíveis que vivi em Washington, marcados por projetos de grande alcance e de inegável complexidade, serão devidamente tratados no capítulo que lhe couber neste seriado que agora se inicia.

AGUARDEM O PRÓXIMO CAPÍTULO, INTITULADO : Oh! que saudades que tenho
de uma Cidade Maravilhosa, que os anos não trazem mais…

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02/07/2016 · 20:17