A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

   A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

                                                    Lauro Moreira

Consoada                    

As Parcas

As Parcas

Quando a Indesejada das gentes chegar
(N
ão sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Al
ô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortil
égios.)
Encontrar
á lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

                                                                                                                                        (Manuel Bandeira)

 

Ontem acordei pensando na morte. E até me surpreendi, pois embora esteja hoje, pela chamada ordem natural das coisas, bem mais próximo dela do que já estive, confesso que não tenho hábito de dar-lhe, digamos, uma atenção muito demorada. Mas, na verdade, acordei pensando não na minha morte, mas na morte de tanta gente amiga e querida, pessoas que se vão  desvanencendo de nossa vida, como vultos subitamente apagados de uma foto de família. Uma cruel desvantagem de se ficar velho é que nem todos os companheiros continuam ao nosso lado nessa inexorável caminhada rumo ao desconhecido, ao hamletiano “undiscovered country, from whose bourne no traveller returns.” Vários se apressam em retirar-se logo de cena, alguns inexplicavelmente cedo, deixando-nos mais sós – e incrédulos. Como Manuel Bandeira – que desde muito jovem passou a conviver intimamente com a Indesejada das gentes – ao saber do desaparecimento do amigo Mário de Andrade:

                                                  Anunciaram que você morreu.                    

M. Bandeira por Portinari

M. Bandeira por Portinari

Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

(…)

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

                                                  Você não morreu: ausentou-se.

                                                  (…)

(A Mário de Andrade Ausente)

 

         Não tenho a rabugice nem o pessimismo irônico de Bentinho (D.Casmurro), para afirmar que  “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos.”  – mas não há dúvida de que boa parte dos meus tem tido o mau gosto de antecipar de muito a partida e, pior, num ritmo cada vez mais acelerado. Amigos de infância, de adolescência, de colégio, de universidade, do teatro amador, da carreira diplomática, muitos dos quais afastados pelas distância física e pelos azares da vida, mas que muito enriqueceram minha afanosa e já longa passagem por aqui. Não exagero quando repito que nos últimos dois ou três anos esta safra aziaga não me tem poupado. Parentes próximos, amigos como Saroldi, Pedro Camargo,  Celina, Bambino, Euclydes Mattos e tantos outros têm partido recentemente sem se despedir…

Meu amigo Pedro Camargo

Meu amigo Pedro Camargo

Mas para além do desaparecimento individual das pessoas conhecidas e queridas, sempre uma tragédia, o que também vemos hoje é a morte coletiva e anônima, que não chega a configurar senão uma fria estatística. É ligar a televisão e ser invadido pelas sequências intermináveis de destruição de vidas humanas, ceifadas em desastres ecológicos, terremotos, tsunamis, vulcões. E como se não bastasse, o homem – animal feroz e primitivo (Les hommes sont des brutes, Madame, como dizia Ghandi a Cecília Meirelles) – o homem se encarrega de completar o trabalho da natureza em fúria, engendrando guerras, acirrando conflitos, insuflando a violência urbana em todas as suas formas (da loucura do tráfego de veículos à insanidade do tráfico de drogas), multiplicando atos terroristas, promovendo enfim essa verdadeira hecatombe a que hoje assistimos da poltrona da sala, impotentes, e, o que é mais grave, já quase insensibilizados. Como dizia meu amigo Arnaldo Jabor em recente crônica sobre o cinema atual, as mortes incessantes são mostradas até em videogames para normalizar, exorcizar a própria ideia de morte. Por outras palavras, vivemos a era da banalização completa da morte provocada, ou da banalização do Mal, como percebeu Hannah Harendt diante do Holocausto e do julgamento de Adolfo Heichmmann.

Mas voltemos à nossa simples morte individual, natural – controlada pelas Parcas romanas ou as Moiras da mitologia grega – que ocorre no momento em que se rompe o frágil fio da vida, seccionado pela tesoura de Átropo, depois de tecido por Cloto e estendido por Láquesis. Sobre esse tema fatal é que gostaria de falar um pouco mais. Para dizer que nos tempo de jovem universitário e um pouco mergulhado em estudos de filosofia, a questão filosófica da morte me atraía bastante, mas sempre como algo fora de mim,  uma pura abstração, quase um exercício de retórica. Debatíamos sobre aquela que, por sua importância metafísica, é a musa inspiradora dos poetas, a que alimenta as mentes imersas em reflexões e ávidas de uma explicação, como queria Schopenhauer.

Por essa época (segunda metade dos anos 1950) vim a ler uma obra que me calou fundo: Lições de Abismo, romance do escritor e pensador católico Gustavo Corção, publicada poucos anos antes, em 1951. Livro admirável, muito celebrado então e bastante esquecido hoje – como tudo aliás neste nosso país desmemoriado.

O romance de Gustavo Corção

O romance de Gustavo Corção

A resenha da editora traduz com fidelidade a temática do romance, que “é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida, e logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade e o ciúme”. E foi sob o impacto dessa leitura que vim a conhecer depois a novela de Tolstoi A morte de Ivan Ilitch, muito citada pelo personagem de Corção e hoje bastante publicada e conhecida no Brasil e em todas as línguas cultas do mundo.

Nessa extraordinária novela de Tolstoi (consagrada por W.Nabokov, o autor de Lolita, como um dos momentos supremos da criação literária), fica evidenciada a patética discrepância entre o natural e racional entendimento da morte do outro e a terminante recusa de a pessoa racionalmente  entender e aceitar a naturalidade da própria morte. Não resisto à tentação de reproduzir uma breve mas decisiva passagem da novela, quando Ivan Ilitch, um dedicado cidadão e correto Juiz de Direito, se vê, como o Professor e intelectual de Lições de Abismo, condenado por uma moléstia incurável:

L. Tolstoi

L. Tolstoi

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a ideia, como não a compreendia mesmo – uma incapacidade absoluta de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter  – Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal– sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais.

        Será que o tranquilo Epicuro – autor de aforismos como “O homem sereno procura serenidade para si e para os outros” e, sobretudo, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” – terá guardado toda essa serenidade e absoluta aceitação em seu instante final? E já que estamos navegando por antigos mares, caberia lembrar o sempre citado verso da Ode horaciana, que me parece menos filosófico e bem mais pragmático: Carpe diem, quam minimum credula postero, ou seja, aproveite o hoje e confie o mínimo possível no amanhã. Como falamos em mar e em poeta, lembremos ainda a frase de Fernando Pessoa, escrita em inglês, no dia 29 de novembro de 1935, exatamente na véspera de sua morte: I know not what tomorrow will bring.

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Parece evidente que nossa reação diante do “termo fatal”(cf. Gonçalves Dias) vai variar, e muito, segundo o grau da crença ou descrença que sustenta o espirito de cada um. Nesse sentido, a fé inabalável de um cristão, por exemplo, dá-lhe o conforto de que seu comboio está partindo desta estação para uma outra, definitiva e infinitamente mais aprazível, digamos. Já as dúvidas essenciais de um agnóstico, ou até mesmo de um filósofo estóico e racional como Sêneca ou Marco Aurélio, só tenderão a acrescer-lhes a aflição e a inquietude no momento da travessia final. E dos ateus materialistas  abstenho-me de falar, pois me parecem pertencer a uma casta soberba de ousadia sem limites… Enfim, de presunção e água benta cada um toma o que quer.

No plano subjetivo – e já me desculpando junto aos queridos leitoras e leitores deste Quincasblog por decidir navegar nestas águas de natureza bastante pessoal – confesso que no tocante ao tema em pauta minha trajetória não tem sido das mais consoladoras. Nasci e cresci numa família de católicos praticantes, o que fez de mim, até certa altura da vida, uma criatura de fé inabalável e sólidos princípios religiosos, para quem a morte era tão só o começo de uma nova vida. Mais: era para mim algo tranquilo e distante, fosse por meus verdes anos de então, fosse por não ter com ela qualquer intimidade. E de um momento a outro, e da maneira mais brutal, ela veio a se tornar minha íntima companheira, intimidade que, suponho, acompanha-me desde então, décadas decorridas.

Meus Pais

Meus Pais

Pai, mãe e quatro filhos (eu o mais velho) compúnhamos uma família saudável e unida na mais completa harmonia. Até que, em meados dos anos ’60, a iniludível tesoura de Átropo resolveu intervir sem ser chamada, cortando o fio da vida de metade desse grupo familiar. E tudo em menos de dois anos. Primeiro, a irmã caçula, aos 14 anos, depois o pai, aos 62, e quarenta dias mais tarde, a mãe, com apenas 54. Enfim, a morte deixava de ser para mim, de modo tão violento e de uma vez por todas, algo distante, objeto de estudo e elucubrações filosóficas, ou musa de poetas que eu tanto admirava. O abalo nos três sobreviventes da família não poderia ser maior, claro. De repente nos vimos sós e diante de um deserto sem fim. Para mim, uma terrível secura interna, que tardou muito a se esvanecer. E foi  justamente a estrutura emocional que nos legaram nossos pais, estou certo, que nos deu força suficiente para seguir caminho – e caminho não tão curto, pois hoje já ultrapasso em mais de quinze anos a idade com que morreu meu pai. Só que infelizmente não mais com a fé dos vinte anos, substituída que foi por um sereno agnosticismo. Ao faltar a graça da fé, sobra a incerteza do conhecimento (ou do desconhecimento).

Pronto, acho que falei demais, confidenciando agora o que nunca disse antes… Só mesmo apelando para o nosso Drummond para me sair dessa enrascada:  Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.

Por outro lado, não desejaria concluir essas notas com um tom crepuscular. Por isso, retorno a dois outros poetas de minha grande estima e admiração. O primeiro, como não podia deixar de ser, é Manuel Bandeira, meu querido e sempre lembrado amigo e padrinho de casamento. Uma sucessão de tragédias familiares  –  perda da irmã, da mãe e do pai em um curtíssimo espaço de  tempo (notem a coincidência) – e a luta diária contra a enfermidade, marcaram a vida e a obra de Bandeira. O sofrimento está sempre presente, mas neutralizado por uma aceitação  tranqüila, filosófica. O vazio, as ausências, as perdas, as separações e a morte são seus temas recorrentes. A recordação saudosa dos mortos queridos habita seus versos e consola o poeta em sua solidão. Para Assis Barbosa, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana. O amor unido à morte – eis a poesia de Bandeira. E eis alguns títulos de seus poemas: Preparação para a morte; Morte absoluta; Canção para minha morte; Programa para depois de minha morte – todos de uma beleza serena que toca fundo a alma de qualquer mortal…

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

O segundo nome a que quero referir-me é o de Marly de Oliveira, outro admirável poeta, uma das vozes mais altas da língua portuguesa no entender de Antônio Houaiss, e que nos deixou prematuramente em 2007.  Como pessoalmente a conheci e com ela convivi desde cedo, tendo podido seguir de perto a evolução de sua obra, registro aqui o que já tenho dito e escrito em várias oportunidades: desde seu livro de estréia – Cerco da Primavera – publicado em 1957, quando era ainda uma jovem universitária, Marly de Oliveira surpreendeu a leitores e críticos com uma obra que nasceu pronta, definitiva, “como Atenas, da cabeça de Júpiter”, na expressão de Alceu de Amoroso Lima, e que mereceu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, do Instituto Nacional do Livro. A despeito da juventude da autora, ali já estão presentes seus temas essenciais, reiterados nos 16 livros publicados desde então e resumidos numa permanente indagação filosófica sobre os mistérios e a fragilidade da vida. O primeiro verso, do primeiro poema, do primeiro livro já traduz a atitude reflexiva de alguém voltado para o conhecimento de si e do mundo que o cerca:

Eu. E diante da vida (…)

Trata-se da obra de uma jovem artista perplexa ante os mistérios do mundo, acreditando a princípio no poder da poesia como chave para abrir esses mistérios, mas que em seguida se dá conta da insuficiência da arte para apreender e desvendar o mundo, a vida, a morte. O máximo a que a poesia poderia aspirar seria então refletir, em termos estéticos, esta busca permanente e a consequente perplexidade diante do mistério insondável.         Mas essa impotência para entender o mundo não detém o tempo, em seu fluir incessante.   E esse fluir incessante vai desembocar naturalmente no não-ser, na morte. Ou seja, o amor e a morte são os temas básicos do Cerco da Primavera e de toda a obra de Marly de Oliveira. Em seu segundo livro, Explicação de Narciso, o tema se adensa e se aprofunda, já que Narciso é o ser que caminha inelutavelmente para a solidão e para a morte, na ânsia permanente de captar o sentido da vida em seu fluir. O terceiro poema do livro diz tudo:

Diante de mim, nestas águas,

quem sou, que não me preciso?

Ai, que sonho tão temível

assim me turva o sorriso?

Que amor, que presságio cingem

a cabeça de Narciso?

A que secretos poderes

se confia minha sorte,

se o que frágil vejo na água,

em mim se torna mais forte,

e onde sei que está a vida

encontram todos a morte?

Entre mistérios tão vastos

que breve instante que somos!

De repente descobrimos

que estamos. Mas onde? e como?

Por mais que nós nos dobremos

sobre nós e o que já fomos,

à inútil pergunta nossa

somente o eco responde.

E diante outra vez de nós

estamos. Há quem nos sonde?

E de que espaço ou que tempo

nosso eco responde? de onde?                                                                                                            

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

E é finalmente a própria autora que confessa: “Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho.”

Para concluir, vejam este breve poema de seu primeiro livro, onde se explicita o delicado tema de nossa conversa de hoje.

EPIGRAMA

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranquilo

diante da vida ou da morte.

***********************************************

 

         

          

         

 

 

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6 Comentários

Arquivado em LITERATURA, Reflexões, Uncategorized

6 Respostas para “A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

  1. Caro Embaixador Lauro,
    Que lindo “post” ..
    Quero confessar que também tenho pensando muito na nossa mortalidade….
    Obrigada por nos chamar à atenção deste fato inevitável da nossa vida.
    Um abraço fraterno.
    Regina Ungerer

  2. simone

    Gostei muitissimo! Obrigada.

  3. “Meu Deus, o que é a morte”, perguntava Lúcio Cardosos na abertura de seu romance “Crônica da Casa Assassinada”. Pois é, meu caro Lauro, o que é a morte? É isso tudo anunciado por seu belo texto poético-filosófico. E mais (ou nada mais?). Aceitação tranquila ou espanto (a poesia vem “do”, apud Gullar). Ou apenas a mais nova namorada, como queria aquele Vinicius de O Haver:
    “Resta esse diálogo cotidiano com a morte
    esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
    ela virá me abrir a porta como uma velha amante
    sem saber que é a minha mais nova namorada.”
    Grande abraço e parabéns pelo texto.
    Ronaldo Werneck

    • Aceitação tranquila ou espanto? Pois é, meu admirado amigo Ronaldo, aquele nosso amigo que mais entendia do assunto dizia num poema:
      Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
      A exangue máscara de cera,
      Cercada de flores,
      Que apodrecerão – felizes! – num dia,
      Banhada de lágrimas
      Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

      Prefiro, sim, a “mais nova namorada”do nosso Vinicius.E obrigado mais uma vez pela força que sempre tem dado ao nosso Quincas.
      Grande abraço amigo,
      Lauro
      PS – Continuo lendo e relendo sempre O (belo) mar de outrora & poemas de agora.

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