ODIVELAS E A LUSOFONIA

ODIVELAS E A LUSOFONIA          FORUM 1 FORUM 3 Retornando a um dos temas prediletos deste nosso Quincasblog, publicamos hoje um texto que escrevi para o Catálogo da V Bienal da Lusofonia, organizada pela cidade portuguesa de Odivelas (ao lado de Lisboa) e que teve lugar durante o mês de maio último. Na verdade, era intenção minha postar essa matéria ainda no mês de maio, quando me encontrava em Portugal, participando das diversas etapas e diferentes eventos da Bienal, sobretudo do IV Forum, que contou com a presença de ilustres personalidades do mundo lusófono, e do V Encontro de Escritores, ao qual estiveram presentes mais de quarenta autores dos vários países da CPLP. O Brasil esteve muito bem representado pelo poeta, escritor e ensaísta Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e pelo poeta Iacyr Anderson Freitas, cuja obra eu não conhecia e que, confesso com alegria, surpreendeu-me por sua alta qualidade.  Ao final do texto que se segue, os queridos leitores e leitoras poderão encontrar, como de costume, o endereço no You Tube de mais dois Poetas constantes de meu DVD Mãos Dadas. Desta vez, ainda dentro da fase do Romantismo brasileiro, teremos as notas biográficas e uma amostra da obra de dois grandes nomes da poesia em Língua Portuguesa, bastante distintos em suas vivências, mas ambos desaparecidos muito precocemente: Álvares de Azevedo, aos 21 anos, e Castro Alves, o Poeta dos Escravos, aos 24.  Bom proveito!                    ********************************************************                          MINHA V BIENAL DA LUSOFONIA                                                           Lauro Moreira          ESCRITORES 1            Com imensa satisfação venho acompanhando, desde sua gênese em 2007, a trajetória vitoriosa da Bienal de Culturas Lusófonas, cuja evidente consolidação faz hoje de Odivelas uma verdadeira Capital Cultural da Lusofonia.            Ao longo de todos esses anos, pude testemunhar de muito perto o esforço ingente da Câmara Municipal de Odivelas, na pessoa de sua Presidente, Suzana Amador, e de meu admirável amigo Mário Máximo, escritor, poeta, incansável animador cultural e reconhecido militante da Lusofonia. Em verdade, mais que apenas testemunhar, ouso afirmar que tive o privilégio de participar do nascedouro e desenvolvimento dessa iniciativa, ao longo das quatro Edições anteriores – duas delas na qualidade de Embaixador do Brasil junto à CPLP – proferindo palestras, organizando e participando de espetáculos de música e teatro, propiciando a inclusão de artistas brasileiros nas exposições de arte, ademais de ter tido a honra de receber homenagens especiais que me tocaram profundamente o coração lusófono.    ESCRITORES 3         Acercamo-nos agora da V Bienal de Culturas Lusófonas 2015, a realizar-se no ano em que celebramos os 8 Séculos da Língua Portuguesa, contados a partir do Testamento de Afonso II, em geral considerado o primeiro documento escrito em nosso idioma.           Os tempos que correm não têm sido fáceis, como sabemos, e a própria Lusofonia atravessa uma certa área de turbulência, refletida em debates polêmicos na media internacional e no próprio âmbito da CPLP, organismo onde se observa atualmente uma certa apatia por parte de alguns de seus membros. Assuntos velhos e revelhos como o do Acordo Ortográfico de 1990 esperam até hoje a ratificação (25 anos depois de assinado por todos os participantes!) para sua entrada em vigor em países ainda relutantes, quando em outros, como o Brasil, já constitui fato consumado desde janeiro de 2009. Há muita gente que ainda confunde uma desejada unificação ortográfica com uma insensata e indesejável uniformização ortográfica.       ESCRITORES 2              Mas, na verdade, o ideal pelo qual lutamos e que chamamos de Lusofonia é algo que transcende a questão linguística. Repetindo palavras minhas reiteradas em tantas oportunidades, ressalto que podem alguns dos nossos países comunitários não ser povos exclusivamente lusófonos, mas são também lusófonos. Quer queira-se, quer não, vale repetir, há um espaço lusófono ocupado por esses países, e há sobretudo um espírito lusófono, gerado por uma convivência e uma miscigenação tecida ao longo de quinhentos anos. E esse diálogo intercultural e inter-étnico (e não multi-cultural!) que se estabeleceu entre descobridor e descobertos, entre colonizador e colonizados – e sem entrar aqui em qualquer juízo de valor sobre essa colonização – acabou também fazendo da língua uma “construção conjunta”, na expressão de José Eduardo Agualusa, onde aspectos sintáticos, fonéticos e lexicais acusam uma grande variedade, em um processo de permanente enriquecimento do idioma original de Gil Vicente. Por isso mesmo, Mia Couto diz muito bem, parafraseando Fernando Pessoa (Bernardo Soares) que “minha pátria é a minha língua portuguesa”. Ou seja, desse rico patrimônio imaterial, forjado a partir da experiência vivida no cruzamento desse triângulo Portugal-Brasil-África (enriquecida pela presença do Timor Leste) ao longo de cinco séculos, emerge aquilo que chamamos hoje de Lusofonia,uma construção que teve um dia para começar, mas que não tem uma data para acabar. Algo em permanente evolução, um fenômeno in fieri.         Por isso mesmo, ao liderar o processo de criação da CPLP, nascida finalmente em 1995, o inesquecível Embaixador José Aparecido de Oliveira reconhecia que o novo organismo internacional seria sobretudo a moldura jurídica de uma realidade linguística e cultural pré-existente. São palavras suas:       “A primeira das nossas preocupações na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi a de instituir uma sociedade rigorosamente entre iguais, de tal maneira que as dimensões físicas e políticas dos países participantes não influíssem na formação do grupo nem na sua orientação futura. Há, em nosso entendimento, um fator transcendental, que nos iguala e elimina preocupações de hegemonia: a alma comum fundada pela nossa língua”.           Palavras bem-vindas, que a Bienal das Culturas Lusófonas de Odivelas tem procurado, e com grande sucesso, transformar em atos concretos de largo alcance, contribuindo assim para a consecução do ideal maior de todos nós, que é o de ver uma Comunidade (por ora) de Estados Membros transformada em uma Comunidade de Cidadãos Lusófonos.   Lisboa, maio de 2015  Clicar nos links abaixo:    http://youtu.be/0DmtYNiO3bI  ou MÃOS DADAS – ÁLVARES DE AZEVEDO interpretado por Lauro Moreira     http://youtu.be/-LR_1vwz6yk     ou  MÃOS DADAS – CASTRO ALVES interpretado por Lauro Moreira          

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2 Comentários

Arquivado em LITERATURA, LUSOFONIA

2 Respostas para “ODIVELAS E A LUSOFONIA

  1. O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa está dando o que falar.
    Realmente existe uma grande diferença entre UNIFORMIZAÇÃO e UNIFICAÇÃO e entender o significado destes dois termos fica ainda mais difícil quando o dito não condiz com a realidade, ou melhor; Com aquilo que se debate em vários lugares e por diversos agentes influentes.
    UNIFORMIZAÇÃO, entende-se como uma única ortografia para todos os oito Estados Membros. Se tivesse sido adoptada essa linha, justificar-se-ia um NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO para que todos usássemos a mesma ortografia, considerando o que se deveria eliminar, modificar, adoptar ou criar, aproveitando o que contêm de melhor as duas únicas ortografias existentes.
    UNIFICAÇÃO, entende-se como aceitação das duas únicas ortografias existentes; Uma é a BRASILEIRA e a outra é a PORTUGUESA que também está e sempre esteve em uso nos demais seis países membros, cinco de África, e Timor Leste, situado na Oceania.
    Apresento um único exemplo: Sobre este tema, há pouco mais de um mês, talvez dois, assisti à Audiência Especial do Senado Brasileiro, onde foi travado um debate acalorado entre alguns membros da Comitiva Brasileira que assinou o referido acordo, juntamente com alguns Professores da mesma nacionalidade, entre os quais o largamente conhecido Senhor CIPRO NETO, devido ao seu programa televisivo “ A NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA” e os respectivos Senadores.
    Através deste debate pude concluir que a confusão é geral, porque ficou clara a irritada insatisfação que se estabeleceu com mudanças não aceites por uns, excepções às regras por outros e radicalismos apresentados por outro, que alterariam a grafia da Língua Portuguesa de tal forma, que teríamos de ir para a escola novamente. Não sei mesmo onde esse senhor iria buscar professores para ensinarem o idioma radicalmente transformado por ele. Foi tão enfático sobre a sua desejada transformação que até distribuiu uma apostila prontinha a todos os participantes com todas essas estapafúrdias regrazinhas.
    Seria uma mudança de tal forma radical que as próximas gerações não entenderiam os milhões de livros em Língua Portuguesa que se encontram arquivados nas bibliotecas, não só nas dos países membros, mas também nas de muitos outros países.
    Em suma: Este Acordo, foi deixado ao sabor das decisões de muito poucos, desprezando-se o conhecimento com bases sólidas, creio eu, de maiores especialistas em linguística e por isso se diz que estão nivelando por baixo a LÍNGUA PORTUGUESA.
    Existem diferentes problemas de acentuação e uma grande confusão com o que fizeram com as palavras que levam ou deixaram de levar o hífen entre outros.
    A confusão está estabelecida e agora falta saber quem vai ser suficientemente criativo e sensato para que se chegue a um final feliz.
    Um abraço e cordiais saúdações lusófonas.
    Armando Ribeiro
    http://www.aresemares.com
    N O T A EM TEMPO:
    Apenas três exemplos
    Gostaria de perguntar aos doutos linguistas que assinaram o acordo, o seguinte: Por que “SAÚDE” e “SAÚDADE “ são acentuadas e “SAUDAÇÃO” não ??? Pode??? Se fosse só isto … seria uma única e inaceitável excepção !!!!!
    Por que os cidadãos EGIPCIOS têm um país chamado EGITO sem o “P” ??? Ou temos EGPTO e EGIPCIOS ou então anulem o “P” em ambos, se têm coragem para isso.
    Agora passamos a ter três “PELOS” com três pronúncias diferentes, mas sem acento. Que interessante. Como esta regra facilita as coisas….
    a) PELO de cão.
    b) PELO do verbo PELAR – ( Eu PELO, tu PELAS, ela, ela ou você PELA)
    c) PELO e PELA– Contracção da preposição com o artigo.

  2. Pingback: Odivelas e a Lusofonia em Portugal – Pelo Embaixador Lauro Moreira

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