A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

Manolo, entre os filhos Luis Maurício e Pedro Augusto

images-1

Outro Manuel que nos deixa

Lauro Moreira

Como os prezados leitores deste Quincasblog haverão de se lembrar, no início do passado mês de abril escrevi aqui uma matéria sobre a morte de Manoel de Oliveira, que trazia o sub-título de A grata longevidade dos Manoéis. Ademais do cineasta português, falecido naqueles dias aos 106 anos, referia-me também a outros Manoéis ou Manuéis, já falecidos, todos bastante longevos para sorte nossa, como os Poetas Manuel Bandeira (82 anos, mas com apenas um pulmão desde os 21) Manoel de Barros (97) e o Vaqueiro Manuel, personagem real e fictício de Guimarães Rosa (93 anos). Pois acabo de receber a triste notícia da partida de outro Manuel, meu amigo argentino de quase meio século, poeta, filólogo, exímio tradutor, advogado, político na juventude e personalidade cativante. Este, era o Manuel Graña Etcheverry, Manolo para todos nós, que em novembro próximo estaria completando seu centésimo aniversário.

Genro de Carlos Drummond de Andrade e de Dolores, casado com a sempre lembrada e talentosa Maria Julieta, conheci Manolo e família em 1968, quando fui removido para Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático. Ao longo de quatro anos, tempo em que lá residi com Marly de Oliveira, então minha mulher, e nossa filha Mônica,  mantivemos um convívio praticamente diário com Manolo, Maria Julieta e os filhos Carlos Manoel e Luis Maurício, adolescentes, e Pedro Augusto, ainda uma criança. Aliás, não tenho como deixar de abrir  um parêntese e  relembrar aqui um dos poemas mais belos do Avô desses meninos, dedicado A Luis Maurício, Infante, que começa assim:

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

(…)

Apesar do longo tempo decorrido e da rarefação de nossos encontros a partir daquela época, fecho agora os olhos e revivo com nitidez e saudade detalhes de um sem número de momentos desse  convívio inesquecível.

No me esqueço da primeira visita que lhes fizemos, quando, por exemplo, contemplei de perto o famoso retrato de Drummond feito por Portinari, pendurado atrás do sofá da sala de visita. Nem do jantar, tempos depois, oferecido pelo casal ao amigo Vinicius de Moraes, nem de uma estada do próprio Drummond em visita à família, nem das artes culinárias de Manolo com seus “calamares en su tinta”…

Recordo ainda o apoio advocatício que ele sempre nos prestava na área consular, sobretudo na solução de alguns casos mais cabeludos, como aquele de uma jovem brasileira que havia sido “detenida para averiguaciones”, por carecer do necesário visto de permanência no país, e que em 48 horas acabara sendo vítima de sucessivos estupros praticados por policiais dentro da própria Comissaria.

Nosso convívio com Manolo e família se estendia por vêzes em tardes memoráveis na quinta que possuíam perto de Buenos Aires.  Volta e meia estávamos em animadas conversas nos constantes coquetéis da Embaixada do Brasil, chefiada a partir de 1969 pelo futuro Ministro de Estado das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira, o Silveirinha, que, ao lado da Embaixatriz May, logo se tornaram também amigos íntimos do casal Graña.

Como grande intelectual e também poeta, Manolo traduziu boa parte da obra de Drummond e vários poemas de Marly de Oliveira, sobretudo do livro O Sangue na Veia. Aliás, nessa mesma época, Marly e Maria Julieta traduziram a Nueva Antologia Personal , de Jorge Luis Borges, publicada no Brasil pela Editora Sabiá, sucessora da Editora do Autor, que havia sido criada em 1960 por Fernando Sabino e Rubem Braga. E ainda nesse campo literário, vem-me à memória um momento bastante triste, que foi a morte de Manuel Bandeira, nosso amigo querido e padrinho de casamento, poucos meses depois de nossa chegada à Argentina, em outubro de 1968.  No Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, Marly de Oliveira e Maria Julieta prestaram-lhe então uma sentida homenagem, acrescida de um recital de poemas seus, ditos por mim.

Estas breves notas soltas não têm outro propósito senão o de prestar agora uma afetuosa homenagem a esse outro excelente e longevo Manuel, Manuel Graña Etcheverry, o meu querido amigo Manolo. Descanse em paz.

***********************

E mantendo o já  prometido neste Quincasblog, apresento hoje mais dois poetas de meu DVD Mãos Dadas: Gonçalves Dias e Fagundes Varela. Para ver e ouvir, clique nos links abaixo.

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO, LITERATURA, LUSOFONIA, SÉRIE MEUS ENCONTROS

6 Respostas para “A PARTIDA DE OUTRO AMIGO MANUEL

  1. Edmílson Caminha

    Lauro querido,

    Choro com Você a partida do nosso querido Manolo, um dos mais brilhantes intelectuais que conheci, em toda a minha vida. Ana Maria e eu anunciáramos, já, nosso retorno a Deán Funes (estivemos lá em 2005, na festa dos 90 anos) para comemorar, em 8 de novembro, o centenário glorioso desse amigo que, pela generosidade humana e pela retidão moral, fez o mundo melhor e a vida mais bela.

    Que o Céu dos Poetas, onde repousará eternamente, lhe ofereça o de que mais gostava: livros, vinhos, amigos para conversar… e belas mulheres, de que foi, por quase um século, irresistível galanteador.

    Abraço fraterno do amigo e leitor

    Edmílson Caminha

    • Querido Edmílson,
      Ao tomar conhecimento da partida de nosso inesquecível amigo, pensei logo nos filhos e em você e Ana Maria. Tenho até hoje a camiseta dos 90 anos com a imagem dele, presente seu. Estamos juntos na tristeza. Um abraço fraterno.
      Lauro

  2. Belas memórias,e belos poemas. Como é bom recordar momentos de feliz convívio!!!. TUDO PELA CULTURA. Entretanto um a um todos partimos restando as obras, os encantos e a saúdade para os que ficam..
    Apresento-lhe pêsames pela perda do amigo.
    Abraços do amigo Lusitano
    Armando Ribeiro

  3. Marilda Pinheiro de Abreu Aquino

    Caro Lauro,
    Ficamos felizes ao ver que você carrega tantas e tão boas memórias de momentos ricos, que hoje você traduz pela sua veia literária. Nessa edição do Quincasblog fomos brindados pelas histórias dos Manoéis. Você identificou e conviveu com pessoas notáveis. Cumprimentos pela declamação do especialíssimo Gonçalves Dias. E a admirável Flor de Maracujá de Fagundes Varela.
    Abraços.
    Marilda e Deusdedith Aquino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s