DUAS ESTRELAS QUE SE APAGAM

                     Duas estrelas que se apagam

                                                                   Lauro Moreira

 

       O final do mês de janeiro deste 2015 foi triste para o Brasil, especialmente para a arte e a cultura. Em dois dias consecutivos, 27 e 28, morreram duas figuras admiradas pelos brasileiros, especialmente por aqueles que as conhecíamos de mais perto. Duas mulheres que marcaram sua passagem pela vida, marcando a vida de muitos que a conheceram. Embora eu não tivesse privado mais longamente com ambas, tive a sorte de conhecê-las em determinado momento e de conviver um pouco com cada uma delas. A primeira se chamava Vanja Orico, cantora, atriz e cineasta, e a segunda, Susana Moraes, atriz, cineasta e ativista cultural. Ambas filhas de escritores e diplomatas de carreira, ambas vítimas em certo momento da repressão da ditadura militar implantada no país em 1964. Ambas sucumbiram ao câncer.

 

 

Vanja, cantora

Vanja, cantora

Unknown-3 Unknown-2Unknown-6 images Unknown images-1 Unknown-4

Vanja, a atriz

Vanja, a atriz

A PRIMEIRA ESTRELA

 

Sobre a primeira, os jornais do dia noticiaram que “a cantora, atriz e cineasta Vanja Orico, nome artístico de Evangelina Orico, morreu nesta quarta-feira, 28, no Rio de Janeiro, aos 85 anos, vítima de complicações decorrentes de câncer no intestino. Ela também sofria de mal de Alzheimer e estava internada no Hospital Copa D’Or, em Copacabana (zona sul), desde o dia 11.  Vanja, filha do escritor Osvaldo Orico (1900-1981), tornou-se famosa em 1953, quando cantou “Mulher Rendeira” no filme “O Cangaceiro”, premiado no Festival de Cannes e sucesso mundial. Depois atuou em outros filmes do chamado Ciclo do Cangaço, passando a ser considerada musa do gênero. Além de “O Cangaceiro”, participou de “Lampião, o rei do cangaço” (1964), “Cangaceiros de Lampião” (1967) e “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro” (1972). O início de sua carreira ocorreu quando Vanja morava na Itália. Ela foi descoberta pelos cineastas Alberto Lattuada e Federico Fellini quando atuava em Roma no show chamado Macumba, patrocinado pela RAI (Rádio e TV Italiana), em 1952.”

              Caberia apenas acrescentar que seu pai, o paraense Osvaldo Orico, foi membro da Academia Brasileira de Letras desde os 36 anos, e que como diplomata, serviu em postos como Santiago, Buenos Aires, Beirute e Haia. Ou seja, como filha de diplomata, vivendo boa parte de sua adolescência e juventude no exterior, Vanja começa a exercitar seu talento de cantora junto a plateias estrangeiras, o que explica sua descoberta por Fellini e Lattuada, descoberta que a levou a atuar, aos vinte anos, no filme Luci del Varietá (Mulheres e Luzes) dirigido por ambos em 1950, e no qual ela canta o tema folclórico Meu limão, meu limoeiro. Mas a participação que lhe deu maior destaque em toda sua longa e prolífica vida no cinema, onde atuou em mais de vinte filmes, foi sem dúvida em O Cangaceiro (1953), produzido pela famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiróz, e que veio ser um dos maiores sucessos do cinema brasileiro até hoje.

        Vim a conhecer Vanja Orico pessoalmente nos anos de 1990, na Espanha, em circunstâncias curiosas, e nosso convívio, embora extremamente agradável, não chegou a ultrapassar o prazo de uma semana. Na época, entre início de 91 e fins de 94, eu ocupava o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona, cidade também de meus encantos (ao lado de Lisboa) e que vivia seus melhores momentos, preparando-se, remodelando-se e se reurbanizando para a apresentação dos Jogos Olímpicos de 92 – um estrondoso sucesso. Logo que assumi o posto, tratei de valer-me dessas circunstâncias muito especiais, gestando um ambicioso programa de divulgação cultural do Brasil. Para começar, fundamos o Clube da Música Brasileira de Barcelona, instituição que atraíu logo a atenção dos catalães e atuou, com grande dinamismo, ao longo de vários anos, mesmo após minha saída do posto.

        Ao cabo de pouco tempo, no entanto, fui me dando conta de que o interesse e o entusiasmo do público local pela música brasileira não escondia uma dose considerável de desconhecimento, evidenciado numa confusão de gêneros, épocas e estilos diferentes. Isso levou-me a escrever um espetáculo intitulado Un Viaje através de la Música de Brasil, em que procurava traçar um largo panorama de nossa música, de seus primódios no século dezenove ao final do século vinte. Ao longo de nove blocos cronológicos, eram então apresentadas algumas das melhores e mais representativas canções de cada época – antecedido cada bloco de uma breve narração, em que se contextualizava e se explicava brevemente cada uma dessas várias etapas. Ou seja, tratava-se de um show sui-generis, onde se ouvia a melhor música do Brasil e se aprendia muito sobre ela e o país que a produzia. Para apresentar o espetáculo, tive a sorte de contar com uma cantora e alguns músicos brasileiros de qualidade que já viviam em Barcelona. Com eles criamos o Grupo Som Brasil (que na língua catalã significa Somos Brasil), e ao longo de dois anos nos apresentamos com grande sucesso em 22 cidades da região, além de Barcelona. Apresso-me a acrescentar, para não gerar uma possível confusão por parte de muita gente e em muitos países, que esse Som Brasil foi, sim, a primeira encarnação, digamos, do extraordinário Grupo SOLO BRASIL (outro trocadilho), que vim a criar mais tarde, em fins de 1999, quando exercia a direção do Departamento Cultural do Itamaraty. O SOLO BRASIL continua vivo, após tantos anos e tanto sucesso logrado em 20 países de quatro continentes, e em mais de 40 cidades brasileiras, com um CD gravado ao vivo em 2003 no Brasil e um DVD filmado no Teatro da Trindade de Lisboa, em uma das 19 apresentações do grupo em Portugal, em dezembro de 2009.

         Deixemos porém para outro momento o relato da bela trajetória do SOLO BRASIL, projeto de que permito orgulhar bastante, confesso. Mas afinal por que essa longa introdução para falarmos de nosso pranteado personagem de hoje, Vanja Orico? Apenas porque certo dia em Barcelona, em 1993, recebi um telefonema seu de Paris, onde residia com o marido, o engenheiro francês Adolfo Rosenthal, e que ao ouvir falar dessa efervecência cultural do Consulado do Brasil na Catalunha, consultava-me sobre a possibilidade de organizarmos um espetáculo com sua participação. Gostei da ideia e pusémo-nos a trabalhar na montagem do show, contando para isso com o já experimentado Grupo Som Brasil.

        Ao levar a cantora em visita à Rádio Nacional de Espanha, logo de sua chegada a Barcelona, não me surpreendeu o fato de que a emissora contasse em sua discoteca com exemplares de vários de seus long-plays gravados na Europa e no Brasil. É bom lembrar que por esse tempo no Brasil só os menos jovens como eu, digamos, conheciam e se lembravam da atriz de O Cangaceiro, e poucos sabiam de sua fama em outros países, sobretudo na Europa. No espetáculo que me coube dirigir, a pedido da própria intérprete, em que ela apresentava várias peças de seu repertório, ficou para sempre em minha lembrança, e na do público que lotava o Teatro Casal del Metge, e na da própria Vanja, o momento em que ela entrava no palco pela primeira vez: eu havia tido a feliz ideia de fazer projetar no telão ao fundo uma sequência de O Cangaceiro, justamente aquela em que o Capitão Galdino, o chefe, está com todo seu bando, incluindo as mulheres, em torno de uma fogueira ao ar livre, numa noite de descontração. A certa altura, a jovem interpretada por Vanja Orico, magoada pela rejeição de seu homem, que a trocara por outra, começa a cantar em tom plangente a toada Sodade, meu bem, sodade. Nesse exato momento, a própria Vanja Orico entra em cena e continua a canção ao vivo, acompanhada agora pelos músicos no palco, enquanto as imagens da tela vão se desvanecendo. Pura emoção : da tela ao palco mediavam 40 anos… O show contagiou a todos, inclusive a intérprete, e o sucesso foi enorme.

          Nunca mais voltei a ver minha cantora. E sua partida agora me despertou para esses momentos de um passado que, embora fugaz, ficaram e ficarão para sempre em minha memória afetiva.

 

 A SEGUNDA ESTRELA       

Susana Moraes, atriz

Susana Moraes, atriz

Unknown-8 images-3 images-5 Unknown-10

 

       A segunda estrela que se apagou, como disse, foi Susana Moraes, atriz e cineasta, com quem tive um convívio menos breve, em circunstâncias muito diferentes, mas igualmente agradável. Nos anos da ditadura militar, a mão pesada da censura, através da famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) alcançava duramente o teatro, o cinema, a televisão, a literatura, a imprensa, a música. Os protestos generalizados acabaram fazendo com que, no Governo do General Figueiredo, fosse criado o Conselho Superior de Censura (CSC), com vistas a reduzir o poder dos censores e abrir um caminho auxiliar para uma pretendida abertura política, “lenta e gradual”, como queria o Governo.

        Nos anos de 86 e 87, já com a democracia restaurada, e ocupando eu a Chefia da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty em Brasília, fui designado representante do Ministério junto a esse Conselho Superior, que funcionava no âmbito do Ministério da Justiça. Cheguei mesmo, em um certo período, a presidi-lo, e tive como colegas algumas figuras de relevo de várias áreas da sociedade civil – como o poeta e acadêmico Ledo Ivo, a atriz e então Deputada Beth Mendes, o musicólogo Ricardo Cravo Albin, meu amigo dos tempos do Serviço Militar, o ator Carlos Miranda, companheiro dos tempos do Festival de Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno – representando órgãos como o Conselho Federal de Cultura, o Conselho Federal da Educação, o Instituto Nacional de Artes Cênicas, a EMBRAFILME, a Academia Brasileira de Letras, a Associação Brasileira de Imprensa, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, etc. Foi nessa época, 1987, que o Conselho Superior de Censura começou a trabalhar, junto aos Constituintes eleitos para a elaborar a Constituição de 88, no projeto de transformação do órgão em Conselho da Liberdade de Criação e Expressão. E foi também nessa época que conheci minha colega de Conselho e depois minha amiga Susana Moraes, representante da área de cinema.

          O Conselho se reunia regularmente em Brasília, contando sempre com o entusiasmo de seus membros na benemérita missão de atenuar e depois extinguir a censura prévia no país, o que se conseguiu justamente através da entrada em vigor da nova Carta Magna. Meu convívio com essa mulher bonita, simpática, inteligente, culta e rebelde, limitou-se a pouco mais que esses contatos regulares em Brasília e, posteriormente, a um ou outro encontro fortuito e em ocasiões diversas, sobretudo no Rio de Janeiro. Mas era sempre um enorme prazer estar com ela, com essa filha primogênita e querida do poetinha e grande poeta Vinicius de Moraes. Dito isso, gostaria de concluir essas lembranças com duas tocantes notas de pesar divulgadas no dia do desaparecimento de minha amiga, uma por sua companheira ao longo de vinte e seis anos, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, e a segunda por sua família de sangue:

 “Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária, e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida”,

 “Perdemos nossa matriarca, que como filha primogênita adorada de Vinicius e idolatrada por todos da família, se fez de guia para nos ajudar a suportar e cuidar com responsabilidade da obra do poeta. Linda, culta, inteligente, forte, Susana era nosso esteio, e nos deixa o melhor dos legados, um amor inesquecível e um grande exemplo de mulher”.

 

      

    ******************************************************           

 

 

 

 

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO, SÉRIE MEUS ENCONTROS

9 Respostas para “DUAS ESTRELAS QUE SE APAGAM

  1. Carlos Alberto R. De Xavier

    Muito bom, Lauro. Duas grandes brasileiras que deixaram o legado de suas vidas dedicadas à cultura brasileira. Tudo já foi dito e eu só tenho que endossar vossas palavras, suas e de outros. Não sabia que Osvaldo Orico era diplomata. Creio que a grandeza dessas pessoas está também na discrição e certa humilde no fazer e no falar. E Como Lúcio Costa que não canso de ver e ouvir, pois falava de improviso tudo completo, original, inteiro. As duas também fizeram muito e não eram afeitos a muita exposição.

    • Lauro, amigo querido,
      quantos afetos expostos aqui nestes lindos e importantes comentários, tão pertinentes, sobre essas duas maravilhosas Mulheres( assim, com M maiúsculo). Elas merecem a nossa lembrança viva, o nosso carinho e agradecimento por terem existido e tanto feito pela nossa arte, pela cultura brasileira, e não só…Assim o fez e faz você também, agora ainda, ao produzir e divulgar no seu “Quincas”, as notícias, com tão belas e sensíveis lembranças e vivências, em notas que nos chegam sempre comunicadas de forma tão inteligente. Mobilizadoras do nosso melhor conhecer, ser e sentir. Continue, para sempre… conto com isso…
      Obrigada, beijo da
      Sara.

      • Minha querida amiga Sara,
        Muito, muito obrigado por mais este seu comentário a uma matéria publicada neste Quincasblog, do qual você, com tanta generosidade, tem sido sempre uma das maiores incentivadoras. Um beijo grande,
        Lauro

    • Carlos Alberto, meu caro, muito grato por sua constante e generosa leitura das matérias deste Quincasblog. São leitores inteligentes e sensíveis como você que me dão o ânimo necessário para ir desfiando essas memórias de tempos idos e vividos.
      Um grande abraço,
      Lauro

  2. Liana Eppinghaus Barbalho Silva Teles

    Embaixador Lauro Moreira,
    Gostei muito dessa homenagem às mulheres que se foram, principalmente o texto sobre Vanja Orico (assisti ao “O Cangaceiro” muito menina ainda), tenho o seu autógrafo em meu diário de criança, pois fez parte do Festival de Cinema de Marília – não saberia dizer agora a data exata…mas me lembro que foi um sucesso absoluto! (Meus pais só falavam dela). Acho que a História é feita desses momentos…tudo isso que compõe a memória, o que torna os personagens humanos…são os “causos” e as lembranças, alguns momentos fugidios. Seu texto flui (característica rara), é como uma gostosa conversa. Lê-se com prazer…
    Estou aqui também para lhe falar de DJOliveira…Acabei um texto sobre ele (para um livro da Academia Bragantina de Letras, de que lhe havia falado no ano passado)…Gostaria de saber se posso mandá-lo por email – se tiver tempo para dar uma olhada – são umas 15 páginas, porque reproduzo várias imagens…E usei muita coisa de seu blog; gostaria de submetê-lo a um parecer, antes da publicação…
    Bem, virou uma carta, como antigamente!
    Um abraço,
    liana

    • Prezada Liana,
      Muito grato por sues comentários sobre essa última matéria do Quincasblog. Quanto ao seu texto sobre o nosso DJ Oliveira, aguardo ansioso seu envio por e-mail. Um grande abraço,
      Lauro

  3. Prezado Embaixador Lauro Moreira:
    Há muito se diz que “RECORDAR É VIVER” e com a apresentação de todos esses detalhes de uma vivência tão rica, extravasando grandes momentos e também sentimentos de profunda amizade com personagens tão interessantes , certamente que apesar da saudade desse belo convívio,também reviverá várias vezes esse inesquecível passado.
    Que lhe sirva de alento nos momentos de pesar por essas perdas queridas.
    Obrigado por tão belas narrativas e receba um grande abraço do amigo sempre ao dispor,
    Armando Ribeiro – http://www.aresemares.com

  4. Pingback: MANOEL DE OLIVEIRA-MESTRE DO CINENA PORTUGUÊS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s