APENAS UM ERRO DE CABRAL…

DA SÉRIE MEUS ENCONTROS (I)

 

JOÃO GUIMARÃES ROSA

JOÃO GUIMARÃES ROSA

                             

                               GUIMARÃES ROSA

Há anos tenho guardado comigo uma longa matéria publicada numa edição do velho e saudoso JB, Jornal do Brasil, datada de 14 de fevereiro de 1987, que trata de uma correspondência trocada entre o então Cônsul-Adjunto do Brasil em Hamburgo, João Guimarães Rosa e J. Cabral, seu colega em Frankfurt. São três cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial – a que Churchill, com razão, considerava apenas consequência e continuação da Primeira, de 1914.

A correspondência fora iniciada pelo Cônsul em Frankfurt, J.Cabral, em tom jocoso, que abria com o seguinte parágrafo:

“Frankfurt, Novembro 12, 1940

 Meu caro Cônsul Rosa,

Tenho reparado que diversos Colegas deixam de remeter com regularidade um relatório mensal sobre a vida alegre que levam, neste belo país, desobedecendo assim ao que está claramente preceituado no artigo 1º da Consolidação da Boa Amizade. A fim de sanar tão grave irregularidade, comunico aos colegas que, doravante, punirei severamente aos funcionários faltosos, enviando-lhes uma carta anônima de desaforos.” 

        Nos parágrafos seguintes, e sempre com muito espírito, o missivista passa a falar das agruras provocadas pela guerra, mencionando inclusive que “ante-ontem à noite caíram aqui três bombas, abrindo três enormes crateras num terreno baldio, as quais serão aproveitadas para a plantação de couve gigante.” E concluía: “Aguardo com interesse seu relatório. Abraços do a) Cabral.

        A carta-resposta do criador de Diadorim ficou famosa, por razões que logo veremos, e atualmente já se pode encontrá-la até na internet. Aliás, sabemos que hoje quase tudo está nada rede, embora os erros costumem ser aí maiores que os acertos. Chega a ser quase impossível, meu caro leitor deste Quincasblog, encontrar por exemplo, um poema com mais de duas estrofes transcritas corretamente. Ontem mesmo encontrei em um blog brasileiro especializado em poesia um famoso poema do cabo-verdeano Jorge Barbosa, de minha especial predileção, com nada menos de 39 erros, incluindo até dois versos inexistentes no original! Erros que serão recolhidos inadvertidamente por eventuais leitores e repassados a outros tantos interessados. Nome do poema: Você, Brasil, que já interpretei várias vêzes em meus recitais, em Cabo Verde, em Portugal e no Brasil.

Outro exemplo: na semana passada, aqui em Lisboa, onde me encontro no momento, recebi de um amigo, respeitado intelectual português, um e-mail com um poema-piada, pretensamente erótico e jocosamente  atribuído a Carlos Drummond de Andrade. Uma brincadeira que circula pela internet e que, confesso, me divertiu muito por seu final inesperado. Ri tanto que resolvi ingenuamente dar uma melhorada no texto para ficar mais crível (ou credível, como se diz por aqui) e em seguida mandá-lo a vários amigos no Brasil. Moral da história: a maioria se divertiu, alguns puseram em dúvida a autoria drummondiana e outros, infelizmente, levaram a coisa a sério e delicadamente me alertaram para o fato de que o poeta de Itabira jamais escrevera aquela bobagem…

Mas voltemos ao início, ou seja, à referida matéria publicada no JB em 1987, que ocupava quase uma página do jornal, tinha por título ROSA E CABRAL, CORDIALMENTE, e informava aos leitores o seguinte:

“Nomeado em 1938 cônsul adjunto do Brasil na Alemanha, Guimarães Rosa testemunhou in loco o progressivo estremecimento das relações diplomáticas entre os dois países, que culminaria no rompimento em 1942. Nesse meio tempo, Rosa manteve uma série de correspondências com amigos diversos, como Paulo Dantas, e com tradutores de suas obras. Um dos destinatários das curiosas cartas de Rosa era um jovem pernambucano de 20 anos que se tornaria um dos maiores poetas brasileiros e também ingressaria na carreira diplomática: João Cabral de Melo Neto. A seguir, três cartas trocadas entre Rosa e Cabral, uma delas totalmente redigida com palavras iniciadas por “c”.

Pois bem, meus amigos e minhas amigas do Quincasblog, a propósito dessa informação de poucas linhas, publicada num dos melhores jornais do país daquela época, e ilustrada por uma caricatura de cada um dos dois correspondentes, recordemos apenas que:

  • Em 1942 Guimarães Rosa não havia ainda publicado nenhum livro (Sagarana, sua primeira obra, foi editado em 1946, ou seja, oito anos depois de sua ida para Hamburgo), o que torna difícil imaginá-lo a manter “uma série de correspondências com os tradutores de suas obras”. Que obras? Que tradutores? Para que línguas?
  • Um dos destinatários das cartas de Rosa seria, segundo a notícia, “um jovem pernambucano de 20 anos, que viria a ser um grande poeta e também ingressaria na Carreira Diplomática: João Cabral de Melo Neto”. Acontece que naquele ano de 1942 João Cabral, (que nascera em 1920) ainda vivia no Recife e havia acabado de publicar seu primeiro livro (Pedra do Sono; o segundo, O Engenheiro, sairia em 1945). Em novembro daquele ano, ou seja, na mesma época das famosas cartas trocadas na Alemanha, mudou-se para o Rio, e somente em 1945 fez concurso para o Itamaraty. Como poderia ser então o Cônsul do Brasil em Frankfurt em 1942, além de correspondente do Rosa, que ele seguramente só viria a conhecer anos mais tarde?
  • Pode haver uma barriga jornalística maior? E o pior é que esse erro crasso foi reproduzido e espalhado em alguns blogs de literatura no Brasil. Felizmente o engano está sendo aos poucos sanado, graças sobretudo a estudos como o admirável Guimarães Rosa Diplomata, da querida amiga Embaixadora Heloísa Vilhena, que, muito além de explicar o equívoco, destaca a importantíssima atuação do diplomata e sua mulher, Aracy Moebius, no apoio a judeus perseguidos pelo nazismo naquele período.

Por outro lado, valeria recordar, João Cabral de Melo Neto só foi para o exterior em 1947, designado Cônsul-Adjunto em Barcelona, onde, depois de publicar um elogiado ensaio sobre Joan Miró, acabou exercendo  forte influência cultural sobre um grupo de jovens escritores e artistas plásticos, conhecido como Dau al Set (Dado no Sete), formado por nomes que vieram depois a ser dos mais importantes da cultura e da arte catalãs no século vinte, como os pintores Antoni Tàpies e Modest Cuixart, e o poeta Joan Brossa. Por feliz coincidência, ao ocupar o cargo de Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona nos anos de 1991/94, tive a satisfação de conhecer pessoalmente essas três  grandes figuras. E algo que me surpreendeu foi que todos eles se referiam com apreço ao João Cabral daqueles anos quarenta, desconhecendo no entanto o fato de que o nosso poeta voltara a viver algum tempo em Barcelona vinte anos depois, já como Cônsul-Geral…

Mas, afinal, que J. Cabral era esse das cartas escritas em 1940 e dadas a público tanto tempo depois,  na verdade exatos vinte anos depois da morte de Guimarães Rosa, em novembro de 1967? (Dou-me conta disso neste momento). Resposta: o signatário J.Cabral era o diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, nosso Cônsul em Frankfurt em novembro de 1940.

Abaixo, o texto integral da famosa carta-resposta de JGR a Jorge Cabral, um exemplo incrível de humor e malabarismo verbal, bem como fotos da matéria publicada pelo Jornal do Brasil, onde se pode ver o texto das três cartas trocadas

 

CARTA DE JOÃO GUIMARÃES ROSA AO COLEGA J. CABRAL

Consul caro colega Cabral,

.

Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem consular.

Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?…crês?…crédulo!…considera:…”cobra come cobra!…” coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes… contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!…

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreensão calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis…)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea:

Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos…

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso…). Cacos cápsulas contra-aéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!…) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)

Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!… Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficos contornos carnes cubiçáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?…Cáspite

Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:

CANTADA

Caso contigo, Carmela

Caso cumpras condição

Cobrarei casa, comida,

Cama, cavalo, canção

Carinho, cobres, cachaça,

Carnaval camaradão

Cassino (com conta certa)

Cerveja, coleira e cão,

Chevrolé cinco cilindros

Canja e consideração,

Calista, cabelereiro

Cinema, calefação,

Chá, café, confeitaria,

Chocolate, chimarrão

Casemira – cinco cortes

Cada compra, comissão,

Conforto, comodidades,

Cachimbo, calma,… caixão,

Convem-te, cara Carmela?

Cherubim!…Consolação!…

(caso contrário, cabaças!

Casarei com Conceição.)

Caso contigo, Carmela,

Correndo com coração!…

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.

João Guimarães Rosa

.

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7 Comentários

Arquivado em SÉRIE MEUS ENCONTROS

7 Respostas para “APENAS UM ERRO DE CABRAL…

  1. Fernando Cupertino

    Formidável como sempre, meu caro Lauro!

  2. Vicente de Arruda Sampaio

    Prezado sr. Lauro Moreira,

    gostaria de saudá-lo e agradecê-lo por esta sua postagem. Há anos procuro pela ” a carta em ‘c’ “, que tanto me impressionou e divertiu quando a li em meados dos 90, na Folha de São Paulo. Não me lembrava do contexto da missiva e nem ao certo de sua data. Porém, não tinha em mente o equívoco de que o correspondente seria João C. de M. Neto. Supunha apenas que se tratava de um funcionário tacanho do Itamaraty a pedir relatórios burocráticos e inócuos em plena guerra, sendo por isso magistralmente zombado por G. Rosa. Agora vejo que a galhofa do escritor não foi tão ousada, pois o correspondente é que começara a brincadeira. Bem, a genialidade literária permanece a mesma.

    Aproveito o ensejo e faço um pedido. Percebendo que tenho afinidades com o conteúdo de seu blog, seria possível incluir meu e-mail em sua “mailing list”, de modo que eu ficasse a par das novas postagens?

    Por fim, deixo-lhe meus votos de ótimo 2015!

    Vicente Azevedo de Arruda Sampaio.

    • Prezado Senhor Arruda Sampaio,

      Agradeço-lhe pelos comentários a respeito de nosso Quincasblog e pelo interesse em se incluir entre seus leitores regulares. A partir de agora, todas as vezes que postarmos matéria nova terei o prazer de avisá-lo. Feliz 2015!
      Lauro Moreira

  3. Lauro mergulhado até o pescoço nas tratativas de fazer nosso espetáculo caminhar longo caminho ainda não tinha acessado o quincasblog… só hoje pude ler esta matéria deliciosa que só quem tem suas vivências poderia contar. O malentendido sobre os Cabral…a carta em C…tudo é muito bom de ler. Seu blog é um oásis de inteligência, informação e diversão . Gratísimo

    • Obrigado, Marcos, por seus comentários generosos. Fico muito contente em saber que está apreciando o nosso Quincasblog e por passar a contar doravante com sua leitura inteligente e esclarecida. Grande abraço.

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