UMA NOITE MUITO ESPECIAL

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (199

E. FONT e LAURO MOREIRA EM DELHI (1996)

UMA NOITE MUITO ESPECIAL EM SANT CUGAT – BARCELONA

                                                                               Ora, direis, ouvir estrelas!

                                                                                                               O. Bilac

 Lauro Moreira

 

CAPA DO LIVRO

CAPA DO LIVRO

 

Em nossa última conversa aqui no Quincasblog, que acabou merecendo comentários generosos de vários leitores, falamos sobre uma certa noite mágica num apartamento da Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, e que teve como protagonista o nosso bardo Manuel, Bandeira do Brasil, no longínquo ano de 1968. Longínquo, sim, pois não nos esqueçamos de que sessenta por cento dos 200 milhões de brasileiros de hoje não eram sequer nascidos naquele ano agitado que incendiou Paris e boa parte do mundo…

Pois bem, hoje vamos falar de uma outra noite, igualmente mágica e por isso também inesquecível para mim, para minha mulher, Liana, e para o reduzido grupo de pessoas que tivemos o privilégio de vivê-la. Não foi no Rio de Janeiro, mas nos arredores de Barcelona, em Sant Cugat, no verão de 1994, mais precisamente em 11/12 de julho, ou seja, vinte e sete anos depois da noite mágica de Botafogo. Mas, comecemos da capo, pois acho que vale a pena contar-lhes com algum detalhe o que sucedeu naquele encontro único e surpreendente em casa do Cônsul-Geral do México em Barcelona, meu colega da diplomacia, poeta (hoje também pintor celebrado) e amigo fraterno, Edmundo Font.

Eu já vivia em Barcelona com a família desde janeiro de 1991, removido pelo Itamaraty para ocupar o posto de Cônsul-Geral naquela cidade de que tanto gostava antes mesmo de conhecer, e que vivia então em graça e plenitude, concluindo ao cabo de oito anos as obras fantásticas de infraestrutura e reurbanização, que a preparavam não apenas para os Jogos Olímpicos de 92, mas para o século seguinte. Aliás, os leitores mais assíduos deste Quincasblog certamente se lembrarão de uma crônica que postei aqui em outubro do ano passado, com o título de Barcelona e Rio de Janeiro, onde incluí um link para um vídeo inesquecível (Transformació d´una Ciutat) sobre essas mesmas obras. Quem não viu, sugiro que o faça agora, porque é absolutamente imperdível. Acesse o site www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

Alguns meses depois de nossa chegada ao Posto, a telefonista do Consulado recebe pela manhã uma chamada de um certo Senhor Edmundo Font, Embaixador do México em Bogotá, que estava de passagem pela cidade e desejava falar com o Cônsul do Brasil. Atendi com a maior presteza e atenção, como faria naturalmente com qualquer colega, mas no caso, confesso que também com alegria, por se tratar de representante de um país que eu conhecia bem e admirava muito. Fiquei sabendo então que meu interlocutor já estava removido oficialmente de Bogotá para Barcelona, onde deveria assumir suas novas funções dentro de uns dois meses. Convidou-me para almoçar naquele mesmo dia.

Ao ver minha surpresa com o seu perfeito domínio do Português, explicou-me radiante que havia sido durante sete anos Cônsul de seu país no Rio de Janeiro, onde inclusive havia nascido uma de suas três filhas. O almoço estendeu-se pela tarde, ponteado por uma conversa amistosa, durante a qual vim a saber também que ele era um apaixonado pelo Brasil; que fizera amizades preciosas com figuras como Darcy Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade; que havia traduzido e publicado no México o livro de poemas de Drummond sobre o Quixote, ilustrado por Portinari; que ele também era poeta com vários livros já publicados, além de ser um fanático da música brasileira, havendo feito inclusive versões para o espanhol de algumas canções de Roberto Carlos; que as paredes de sua casa eram cobertas por óleos e gravuras de artistas do Brasil; que ainda mantinha sempre contato com seu Pai de Santo carioca; que…, que, em uma palavra, era um profundo admirador de meu país! Vi que nossas afinidades eram tantas que não tive dúvidas em convidá-lo a comparecer, naquela mesma noite, à reunião semanal do Clube da Música Brasileira de Barcelona, um exitoso centro que eu havia criado para difundir o Brasil na Catalunha, onde promovíamos concertos com músicos brasileiros residentes ou de passagem, mesclados às vezes com instrumentistas espanhois, além de palestras, filmes, recitais de poesia brasileira em português, castelhano e catalão, etc.

Poucos meses depois, o meu mais novo amigo já havia assumido seu Posto de Cônsul-Geral do México e residia em uma casa muito simpática em San Cugat, nos arredores de Barcelona. Nossas famílias tornaram-se amigas de infância…E quanto mais eu o conhecia, mais admirava a sua sensibilidade, sua cultura, sua deferência para com todos, especialmente com seus empregados e funcionários do Consulado. Paco, seu motorista e amigo que o acompanhava por todas as partes, tornou-se amigo do Aurélio, meu motorista e amigo que eu levava para todos os cantos. Foi ele, Edmundo, que me convidou para assistir certo dia a uma conferência de uma das figuras mais marcantes da cultura iberoamericana, a quem eu tanto admirava e admiro e a quem ele me apresentou pessoalmente: o seu amigo Octávio Paz, um dos maiores poetas e ensaístas do século vinte. Seu livro El Labirinto de la Soledad, que eu havia lido ainda nos anos sessenta, em Buenos Aires, continua sendo para mim um dos ensaios mais argutos e sensíveis jamais escrito sobre a alma de um povo – no caso, a rica, contraditória e complexa alma mexicana.

Outro escritor de marcante personalidade que me foi apresentado pessoalmente por Edmundo Font em um jantar em Barcelona, foi o italiano Antonio Tabucchi, falecido precocemente há dois anos e enterrado em Lisboa, Professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena e de Bologna, conhecedor profundo e apaixonado da obra de Fernando Pessoa e seu mais importante tradutor para o italiano, casado com uma portuguesa de nobre ascendência  (Maria José de Lancastre), autor de uma vasta e respeitada obra de ficção e de crítica ensaística. Quando o conheci, em 1994, Tabucchi não tinha ainda completado a metade de sua obra, mas naquele mesmo ano publicava dois de seus livros mais interessantes, que vim a ler pouco depois: Os três últimos dias de Fernando Pessoa, no qual imagina e descreve os diálogos de uma visita feita ao Poeta, em seu leito de morte no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, por alguns de seus principais heterônimos; e o premiado Afirma Pereira, romance filmado por Roberto Faenza em 1995, com Marcello Mastroianni e Daniel Auteuil como protagonistas.

Um dos melhores programas para mim em Barcelona era visitar a família Font em sua deliciosa mansão em San Cugat. Certa vez, convidados para um jantar íntimo, numa noite gelada de fevereiro, chegamos lá e deparamos com o dono da casa em trajes completamente disparatados para aquele clima: Edmundo estava todo de linho branco, inclusive meias e sapatos  brancos. Ao abrir-nos a porta, foi logo esclarecendo:

– Vocês estão lembrados que hoje é dia 2 de fevereiro, não? Dia de Iemanjá, meus queridos! E junto ao dono, parecendo também comemorar, saltitante, a data tão especial, recebeu-nos um dos insígnes personagens da casa: o cãozinho que ele havia levado do Brasil e atendia pelo nome delicioso de Dendê.

Bem, depois deste interminável embora necessário (será?) nariz de cera, acho que podemos agora entrar em matéria propriamente dita, ou seja, na prometida estorinha da noite mágica. Aí vai ela – e a essas alturas todos os meus parcos e generosos leitores já perceberam que ela só poderia ter ocorrido em casa do… Dendê, certo? Pois foi.

                                                          NOCTURNO EN SAN CUGAT

Uma tarde no verão de 1994, o nosso Font me telefona convidando para um pequeno jantar em sua casa. Da família, só ele, a cozinheira Ricarda e o Dendê estariam em casa, já que sua mulher Patrícia e as filhas se encontravam de férias no México. Seria um encontro improvisado para uns poucos amigos, em torno de um conhecido poeta cubano chamado Pablo Armando Fernández, também seu amigo de fé e carteirinha, que estava de passagem pela cidade. Os demais, além de mim e de minha mulher, seriam um editor de livros (Emílio Payán) e um pintor (Juan Sebastián), ambos mexicanos, o cabelereiro do Rei de Espanha (!) Pascual Iranzo, uma figura surpreendente, além de Paco, o indefectível motorista de Edmundo, a cozinheira Ricarda e o também infalível Dendê. O jantar foi memorável, não apenas pela culinária como pela conversa mais que interessante de um grupo aparentemente tão heterogêneo.

Terminada a refeição, fomos todos para o jardim e continuamos a conversa em torno de uma mesa redonda ao lado da piscina. A noite era agradável, a temperatura amena, só não me lembro se havia estrelas no céu. Mas como se verá, elas começaram a aparecer de repente, da maneira mais inesperada e insólita… Foi quando o assunto resvalou para a poesia. Notei que o dono da casa ausentou-se de repente, voltando em seguida com um maço de folhas de papel em branco e algumas canetas. E então, como quem não quer nada, o nosso poeta Pablo Armando começa a rascunhar um texto em homenagem ao anfitrião, expressando-se em voz alta e escrevendo ao mesmo tempo. E enquanto isso, o pintor Juan Sebastián agarrava uma folha em branco e, à medida que ouvia as palavras e os versos ditos e escritos por Pablo Armando, passava a desenhar a toda a pressa e em absoluta concentração. Fez-se um silêncio completo na mesa. Só os dois artistas trabalhavam, absortos, como que desligados de tudo. Na verdade, parecia-nos, aos demais, que estávamos participando de uma misteriosa sessão de psicografia… com a pequena diferença de que o autor psicografado estava ali mesmo, de corpo presente. Ao cabo de quinze ou vinte minutos, tínhamos sobre a mesa o manuscrito de um poema intitulado El Bardo y Las Musas Cardinales, com a dedicatória Para Edmundo Font, e um desenho forte, expressivo, representando em uma só cabeça o bardo Edmundo, sua mulher Patrícia e as três filhas, com a assinatura de Juan Sebastián.

Mas isso foi apenas o ponto de partida de uma longa jornada noite/arte adentro, pois a inspiração dos artistas estava para o que desse e viesse. E lá fomos nós, os demais presentes, recebendo encantados cada qual o poema e o desenho que lhe eram dedicados e que iam sendo gestados ao longo da madrugada. Liana, eu, o cabelereiro do Rei, o editor Emílio Payán, o chofer Paco, a cozinheira Ricarda e … Dendê, claro, além do próprio poeta e do pintor, que também providenciaram suas homenagens recíprocas. A “sessão” só findou com a chegada da manhã, quando artistas e homenageados nos despedimos e com a alma em festa deixamos aquela casa e aquela noite, onde algo de muito, muito especial se havia passado.

Dias depois, recebi do Edmundo uma cópia em xerox dos poemas manuscritos e dos respectivos desenhos. Guardei tudo com muito carinho e muita saudade. Fui removido para Brasilia no final de 1994. Uns dois anos depois, em viagem de trabalho à Índia, fui convidado para almoçar na Residência do Embaixador mexicano em Delhi. Quem era ele? Edmundo Font… E nessa tarde ganhei um presente muito, muito especial… Alguns exemplares de um livro intitulado NOCTURNO EN SAN CUGAT, numa edição bilingue, com os poemas de Pablo Armando em sua tradução para o inglês feita pelo tradutor de Octávio Paz na Índia, e com os desenhos originais de Juán Sebastián. Publicado em papel reciclado por Ediciones Lodi Garden en Delhi – outra invenção de Edmundo Font…

Em 2002, estando eu como Embaixador no Marrocos, onde criamos também um Centro Cultural extremamente dinâmico, resolvi um dia traduzir para o Português os poemas de Nocturno en San Cugat e incluir em nossa programação um recital interpretado em três línguas, convidando para participar comigo um diplomata norte-americano e um argentino, que era também poeta. E, claro, antes de dar início à leitura dos poemas, contei ao numeroso público presente (e era de fato numeroso!) a estorinha que agora acabo de lhes contar, meus caros amigos e amigas do Quincasblog.

Há quase dez anos não vejo meu velho amigo mexicano, que reside hoje em seu país e continua na diplomacia, mas que acabou se dedicando de corpo e alma a desenvolver mais um de seus talentos, transformando-se num pintor de reconhecidos méritos. Acompanho suas novas atividades pelo Google, mantendo-me a par do grande sucesso que vem obtendo com suas exposições no México, Estados Unidos e outros países da América.

Vejam agora algumas fotos ilustrativas do que acabamos de evocar, incluindo uns poucos poemas e respectivos desenhos. Com grande imodéstia, destaco o poema Semillas, Estaciones, dedicado a Lauro Moreira e que, por puro acaso, considero um dos mais bem logrados de todo o livro… A frondosa árvore do louro (ou seja, lauro) resiste a todas as adversidades, mas afinal se lamenta ao ver por vêzes vêzes suas folhas tecidas em uma coroa (laurel) ornando imerecidamente a fronte de falsos herois. A tradução francesa foi feita pela minha amiga e poeta Jacqueline Seyrat.

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. DE LAURO MOREIRA

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRAD. FRANCESA DE JACQUELINE SEYRAT

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE "SEMILLAS, ESTACIONES"

TRADUÇÃO PARA O INGLÊS DE “SEMILLAS, ESTACIONES”

POEMA E DESENHO PARA LAURO

POEMA E DESENHO PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

MANUSCRITO DO POEMA PARA LAURO

POEMA PARA DENDÊ

POEMA PARA DENDÊ

LIANA/DESENHO

LIANA/DESENHO

POEMA PARA LIANA

POEMA PARA LIANA

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

O POETA PABLO ARMANDO FERNÁNDEZ, POR JUAN SEBASTIÁN

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

POEMA E DESENHO PARA E.FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

Trecho do Prefácio de E. FONT

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4 Comentários

Arquivado em ARTES PLÁSTICAS, CRONICAS DO QUOTIDIANO, LITERATURA

4 Respostas para “UMA NOITE MUITO ESPECIAL

  1. Alberto Araújo

    Embora já conhecedores desse mágico encontro nos arredores de Barcelona, através dos infindáveis bate papo com o autor, Timóteo e eu fomos tomados por uma “inveja danada” por não estarmos presentes naquela noite especial. Mas, no fundo, estamos felizes e conformados com o fato de sermos amigos do rei, nosso caríssimo Embaixador Lauro Moreira. Que se não chega a ser rei, é de fato o “Príncipe da Lusofonia”, uma justa e merecida homenagem dos portugueses a esse diplomata que contribue de fato com a expansão da cultura lusófona pelo mundo.

    Parabéns e obrigado por mais essa deliciosa história.

    Alberto Araújo e Timóteo Ribeiro

  2. Victor Manzolillo de Moraes

    Victor Manzolillo de Moraes
    4 de outubro de 2014 às 19:11
    Quando o big bang da Internet ocorreu, explodiu também um universo de redes sociais e blogs. Uns, centrados na economia, outros, na política, alguns, ainda, nas letras e nas artes. Dificilmente, porém, se podia encontrar um blog de alto nível, informativo e multifacetado, gostoso de ler, fruto de uma experiência de vida do autor, ativa e densa. Até que surgiu o quincasblog, do Embaixador Lauro Moreira, que lhe deu esse nome, num feliz jogo de palavras, carinhoso e bem-humorado ao nosso Mestre maior, Joaquim Maria Machado de Assis. O Embaixador Lauro Moreira, ele mesmo um mestre com aquele “dom de gentes” de que falam os espanhóis, cultíssimo, comunicador por natureza, artista nato que conheço e admiro desde os tempos do Teatro Experimental da PUC, o nosso TEPUC,e, depois, colega no Itamaraty. Um blog do maior interesse coletivo, de alto nível, preciso e, sempre, belamente ilustrado, que vai da Literatura ao esporte e deste às experiências de uma vida intensamente dedicada à Cultura. E, como se não lhe bastasse todos estes adjetivos, faltou-me acrescentar; um ser generoso, por dar a autores menores, como eu, a oportunidade de aparecer em seu precioso espaço, com um trabalhinho sobre o encontro de Rubén Darío e Machado de Assis. Vida longa para o autor e para obra, são os meus votos e os de um crescente público leitor, ávido para desfrutar, mensalmente, esse blog muito, mas muito agradável mesmo de ler, e que sempre nos ensina algo novo.
    Victor Manzolillo de Moraes

    • Meu fraterno amigo Victor,

      Seus comentários a este blog dão-me sempre a alegria de saber que meus textos despretenciosos, que não fazem mais que evocar tempos idos e vividos, estão sendo acompanhados por leitores e amigos queridos, atentos e generosos como você. Muito obrigado por sua leitura, que representa sempre um grande estímulo para o prosseguimento deste nosso Quincasblog.
      Um grande abraço,
      Lauro

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