FALEMOS UM POUCO DE POESIA

  MANUEL BANDEIRA: O POETA EM BOTAFOGO

Vamos falar um pouco de Poesia, que não faz mal a ninguém. É verdade que ela não conserta o mundo – por definição inconsertável – mas sempre ajuda a melhorá-lo um pouco, além de tornar o homem, “bicho da terra, tão pequeno”, um pouquinho menos selvagem e primitivo.   Somos ainda o que se pode chamar de “canibais de talher”, cujo esporte acariciado continua sendo a destruição de nosso semelhante. Como cantava Camões:

       “No mar tanta tormenta e tanto dano
       Tantas vezes a morte apercebida;
       Na terra tanta guerra, tanto engano,                                                  
       Tanta necessidade aborrecida!
       Onde pode acolher-se um fraco humano,
       Onde terá segura a curta vida,
       Que não se arme e indigne o céu sereno
       Contra um bicho da terra, tão pequeno? “

É justamente a esse bicho da terra tão pequeno que se refere Drummond (O homem; as viagens), que se chateia de viver na terra, “lugar de muita miséria e pouca diversão” e resolve mudar-se para a Lua, onde também se chateia, e depois para Marte, idem, e depois para Vênus, idem, idem. Ao esgotar todas as opções do universo, só lhe resta empreender

                  A dificílima, dangerosíssima
                 Viagem de si a si mesmo:
                 Por o pé no chão do seu coração
                 Experimentar
                 Colonizar
                 Civilizar
                 Humanizar
                 O homem
                 Descobrindo em suas próprias
                 Inexploradas entranhas
                  A perene, insuspeitada alegria
                 De con-viver.

Um exemplo de con-viver: bate-papo do Poeta em Copacabana

Um exemplo de con-viver: bate-papo do Poeta em Copacabana

        Ou como lembrava Cecília Meireles : ”Conviver com os homens é mais terrível que com os deuses. E ninguém conhece epopeia mais dolorosa que a de moldar, dia a dia, clara e verdadeira, a fugitiva condicão humana”. Na sua emocionada e emocionante Elegia sobre a morte de Ghandi, repetia as palavras desoladas ouvidas do próprio Mahatma: “Les hommes sont des brutes, madame.” :

“Les hommes sont des brutes, madame.”
O vento leva a tua vida toda, e a melhor parte da minha.
Sem bandeira. Sem uniformes. Só alma, no meio de um mundo desmoronado.
Estão prosternadas as mulheres da Índia, como trouxas de soluços.
Tua fogueira está ardendo. O Ganges te levará para longe,
Punhado de cinza que as águas beijarão intimamente,
Que o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus.
“Les hommes sont des brutes, madame.”

 A bela Cecília

A bela Cecília

Eu tive o privilégio, embora não sendo poeta mas gostando tanto da Poesia, de viver sempre muito próximo dela e de vários de seus cultores e criadores, alguns de altíssima linhagem. Entre eles, Cecília, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral, para citar apenas aqueles que já partiram. Além disso, fui casado por dezessete anos com Marly de Oliveira, mãe de minhas filhas, e uma das vozes mais sensíveis, eruditas e requintadas da poesia em Língua Portuguesa, como proclamavam Antônio Houaiss e a unanimidade da crítica nacional.

Meu primeiro CD (1998)

   Meu primeiro CD (1998)

CD Manuel Bandeira (2004)

CD Manuel Bandeira (2004)

CD MARLY DE OLIVEIRA (2008)

CD MARLY DE OLIVEIRA (2008)

Contra-capa do CD com poemas de Marly de Oliveira

Contra-capa do CD com poemas de Marly de Oliveira

 

RECITAL NA ABL

RECITAL NA ABL

Manuel Bandeira, ao lado de Clarice Lispector, foi nosso padrinho de casamento e amigo muito querido, a despeito da diferença de gerações. E é sobre ele que gostaria de falar hoje aos leitores do Quincasblog, contando-lhes uma pequena estória, que acabou se transformando, muitos anos depois, em um de meus três CDs em que interpreto poemas de minha predileção, a que dei o título de Manuel Bandeira: O Poeta em Botafogo (os outros são Mãos Dadas, de 1997, e Marly de Oliveira, de 2008).

Os Padrinhos Bandeira e Clarice (1963)

Os Padrinhos Bandeira e Clarice (1963)

O texto que se segue é o que escrevi para apresentação do CD , hoje inteiramente esgotado, e que incluí também como primeira faixa do disco. Como verão, a mencionada estorinha que aí se conta não deixa de ter seu interesse. E para mim, muito mais que isso.

 MANUEL BANDEIRA: O POETA EM BOTAFOGO

Lauro Moreira

 Conheci pessoalmente Manuel Bandeira por volta de 1960, (quando eu tinha 20 anos e ele andava pela casa dos 74), através da escritora Marly de Oliveira, que veio a ser mais tarde minha primeira mulher. Tivemos um convívio inesquecível, até a morte do Poeta, em 1968, quando já me encontrava em meu primeiro posto diplomático, em Buenos Aires. Essa convivência se estreitou sobretudo a partir de meu casamento, em janeiro de 1964, do qual ele foi um dos padrinhos, ao lado da amiga querida e sempre lembrada Clarice Lispector.

M. Bandeira: óleo do pintor russo-brasileiro Dimitri Ismailovitch

M. Bandeira: óleo do pintor russo-brasileiro Dimitri Ismailovitch

Nessa época, Bandeira nos dava com frequência a alegria de sua presença em casa, no 12º andar da Praia de Botafogo 114, onde nossa cozinheira Isabel – de cuja simpatia e perícia culinária ele era admirador confesso – preparava-lhe uns poucos pratos de sua especial predileção. Marly continuava publicando seus livros de poesia – saudados com crescente entusiasmo pela numerosa e exigente crítica da época e pelos colegas de ofício– enquanto eu, concluído o curso de Direito, me aventurava pelos caminhos da Diplomacia, onde me encontro até hoje. Além disso – e talvez para não perder o contato com o teatro amador, que por sete anos havia frequentado como ator e diretor, – eu seguia com minhas leituras de poemas, muitas vezes em voz alta, diante um gravador de rolo, hoje peça realmente de museu…

Uma noite, creio que em meados de 1967, após um dos jantares íntimos em casa, Manuel Bandeira me disse que gostaria também de gravar uns poemas seus, argumentando que os lia “muito bem’’… Apanhei logo um livro da estante, liguei o gravador e o Poeta começou a ler os poemas que ele mesmo escolhia. Às vezes tropeçava em alguma passagem e me pedia para interromper, voltar atrás e reiniciar a gravação. (E eu bobamente obedecia… Felizmente, ainda cheguei a conservar um delicioso comentário seu numa pequena pausa entre dois poemas). Outras vezes, a buzina de um carro lá embaixo na rua atravessava as paredes e janelas de nosso estúdio improvisado e se misturava à voz do Poeta declamador.

Em fins de abril de 1968 fui removido para Buenos Aires, aflito com a saúde do Poeta, que se havia deteriorado bastante. Nos últimos meses, ele já combalido, chegamos a buscá-lo em Copacabana, para um passeio de carro, ao lado de sua companheira Lourdes, à qual dedicou um dos seus últimos poemas, datado de 08 de maio daquele mesmo ano.

Poucos meses depois, Marly e eu prestávamos, no Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires, ao lado de Maria Julieta Drummond, filha dileta de Carlos, uma homenagem póstuma ao Amigo querido e poeta maravilhoso, que no dia 13 de outubro começara a dormir, profundamente, ao lado do avô, da avó, de Totônio Rodrigues, Tomásia, Rosa…

Os anos se passaram, minhas mudanças de país se multiplicaram: Genebra, Brasília, Washington, Brasília, Barcelona, Brasília, Rabat. No início de 2003, visitando o Diretor da Rádio e Televisão marroquina, ocorreu-me consultá-lo sobre a remota possibilidade técnica de escutar, uma vez mais, e após 36 anos, aquele rolo de fita gravada numa noite longínqua na cidade do Rio de Janeiro, na Praia de Botafogo 114. Incrédulo mas excitado, acompanhei o técnico até os estúdios da emissora e, de repente, não mais que de repente, numa emoção solitária e incontida, começo a ouvir aquela voz anasalada e tão familiar do Poeta querido, lendo como se estivesse ali ao meu lado, 27 maravilhosos poemas de sua autoria. E, de vez em quando, o ruído de uma buzina cortava o silêncio, como um túnel…

Concebi este projeto de edição de um CD como mais uma homenagem ao Poeta Manuel, Bandeira do Brasil, na expressão de Drummond. Trata-se naturalmente de um documento histórico, único, e de imenso valor para os amantes da poesia e para a própria memória cultural do Brasil.

Meu Poeta,

Para participar desta homenagem, resolvi convidar também o seu amigo, admirador e vizinho aí no Céu, Camargo Guarnieri, que musicou tantos de seus poemas. Aqui estão várias peças dele para piano – todas lindas, algumas inéditas – na interpretação perfeita dessa grande dama do piano brasileiro, tão admirada pelo próprio compositor, Belkiss Carneiro de Mendonça.

E além disso, Manuel, resolvi acrescentar, à sua leitura, a minha leitura de outros tantos poemas seus, tudo em seu louvor. Como você se lembra, eu também sempre gostei de dizer poemas. Sobretudo os seus.

Brasília, 18 de setembro de 2004.

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14 Comentários

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14 Respostas para “FALEMOS UM POUCO DE POESIA

  1. Fernando Cupertino

    Meu prezado amigo,
    Coincidentemente, estava eu hoje, ao fim da tarde, ouvindo o seu CD com a declamação dos poemas do imortal Bandeira, intercalados pela música de Guarnieri na interpretação impecável da nossa tão saudosa Dona Belkiss…
    Nesse tempo de seca, mas de floração do cerrado,com as belas e diversificadas cores do ipê, as melodias de sua voz e do piano de Dona Belkiss fizeram-me esquecer de tudo e flutuar docemente…
    Muito obrigado, meu caro Lauro!
    Abraço,
    Fernando

    • Meu caro Fernando,
      Que bela coincidência: o CD do Bandeira, Guarnieri, Dona Belkiss (que falta ela nos faz!), a floração do cerrado… Fico feliz por ter participado dessa sua emoção. Que agora é também minha…
      Um grande abraço e muito obrigado.
      Lauro

  2. Carlos Alberto R. De Xavier

    Maravilha, Lauro. Quando é que vamos ter seus Mâos Dadas e outras leituras aqui no blog? Seria uma boa evolução não?

    Abraços, c.a.

  3. Vera Lúcia de Oliveira

    Que inveja, Lauro, vê-lo com os meus poetas favoritos! Sim, porque a Clarice, mais do que ninguém, também o era… Marly-Bandeira-Clarice: precisa mais para um país ser considerado uma terra de poesia? Nós merecemos!
    Adorei seu texto. Um grande abraço, Vera

  4. Liana eppinghaus Barbalho Silva Teles

    Embaixador Lauro Moreira,
    Que história incrível! Gosto demais de Manuel Bandeira, um dos primeiros poetas que ouvi, na voz de minha mãe declamando “Café com pão”…eu escutava o barulho do trem…
    Mas o motivo de meu comentário não é poesia e sim pintura…
    Sou da Academia Bragantina de Letras, de Bragança Paulista. Estamos escrevendo em conjunto “Memória da cidade – aspectos sociais e culturais. Séculos XVII,XIX e XX”. Escolhi o capítulo sobre a pintura, tarefa particularmente ingrata por não contarmos com a preservação adequada da memória (em relação à pintura é muito pior).Escrevo sobre pintores que nasceram ou viveram aqui. Para desenvolver a história de vida e das obras de D.J. Oliveira muito me vali de seu blog. Diga-se de passagem, de quem, morando em Bragança há mais de 30 anos, nunca havia ouvido falar! (Não há referências a ele em lugar nenhum da cidade). Transcrevi trechos de sua homenagem a DJ, copiei fotos…E agora peço permissão para isso, o livro demora um pouco para ser publicado…
    Gostaria de saber também o que aconteceu com o casarão de DJ, se foi realmente restaurado…
    Meu nome é Liana, como de sua esposa, e de agora em diante, serei uma seguidora de seu interessante blog!
    Atenciosamente,
    liana

    • Prezada Liana,

      Fico feliz por ver que o Quincasblog ensejou esse nosso contato em torno tanto do Bandeira quanto do DJ Oliveira. Sobre minha relação com o DJ, acho que você já sabe praticamente tudo através da leitura de meu texto “Cinquenta anos de admiração e amizade”, certo? Por coincidência, estou neste momento em Goiânia e estive visitando de novo o Centro Cultural Oscar Niemeyer, onde não me canso de admirar o majestoso painel O Anhanguera, originalmente confeccionado para minha (ex-)casa em Brasília e que depois ofertei ao povo de Goiás. Há fotos e menções a essa visita na minha página do Facebook (talvez pudéssemos ser amigos; meu e-mail é moreira.lauro@gmail.com). Enfim, terei o maior prazer em colaborar, ainda que indiretamente, no livro que vocês estão preparando sobre a história da cidade de Bragança, iniciativa super-importante em um país desmemoriado como o nosso. E sobre o casarão do DJ em Luziânia, infelizmente não disponho de qualquer informação atualizada(aliás, sou membro da Academia de Letras do Planalto, com sede naquela cidade).
      Um abraço, parabéns e boa sorte em seu trabalho.
      Lauro

      • Liana eppinghaus Barbalho Silva Teles

        Caro Lauro Moreira
        Fiquei muito feliz com a rápida e gentil resposta…E muito honrada pela possibilidade de sermos amigos no Facebook. Eu adoraria…
        O trabalho vai caminhando…
        Abraço,
        liana

  5. Prezado Embaixador Lauro Moreira:
    Perante esta matéria, eu me sinto como um pássaro em estranho ninho, mas jamais esquecerei o belíssimo Sarau de 10 de Outubro de 2.012 realizado em São José do Rio Preto, promovido pela ARES E MARES com declamação da excelente poesia de Marly de Oliveira por V,Exa. e a homenagem que lhe foi feita na Câmara Municipal da mesma cidade no dia seguinte:
    Um diplomata com qualidades artísticas em campos diversos.PARABÉNS
    Armando Ribeiro
    http://www.aresemares.com

  6. Pingback: Falemos um pouco de Poesia – Do Embaixador LAURO MOREIRA

  7. Graciema Caldas e Silva

    Adorei! Beijos.

    Enviado via iPad

    >

  8. Márcia Maranhão De Conti

    Gostei de estar aqui, lugar de poesia e de memórias do que há de melhor nela. Puro privilégio. Quero voltar e voltar… Parabéns, Lauro !
    Márcia Maranhão De Conti

    • Que bom que tenha apreciado esse espaço que decidi criar há pouco mais de dois anos, com o objetivo de estar mais perto de meus amigos e de leitores generosos que me dão o prazer de sua visita. Seus comentários só poderão enriquecer o Quincasblog, por isso ficarei feliz em recebê-los sempre que lhe for possível. Será, acredite, um importante estímulo para mim.
      Lauro

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