EU NAS COPAS ( E ATÉ NA COZINHA DA COPA…)

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EU NAS COPAS

Continuemos nosso papo sobre futebol, já que no momento não dá pra falar sobre outra coisa… Desta vez – e espero que seja a (pen)última em que o Quincasblog trata do assunto – quero falar um pouco sobre o que foram as Copas do Mundo para mim até hoje, com um foco especial sobre as duas realizadas no México, em 1970 e 1986, as únicas a que assisti em carne e osso. Na de 86, fiz bem mais que assistir, ao receber do Itamaraty a missão de organizar a Casa do Brasil em Guadalajara e funcionar como elemento de ligação com a CBF, ocasião em que pude viver, a partir da cozinha da Copa, alguns momentos de absoluto surrealismo, como veremos mais adiante.

1950

Como todo brasileiro de minha veneranda idade, a primeira Copa que ouvi foi a de 1950, pelas ondas curtas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na voz inesquecível de Jorge Cury. Ainda criança, mas já louco por uma pelada (entendam-me bem, por favor!), acompanhei os jogos em casa de meus avós, no interior de Goiás, e lembro-me bastante bem da algazarra da numerosa família ao celebrar as goleadas que a Seleção brasileira infligia a respeitáveis adversários, como México (4×0), Suécia (7×1) e Espanha (6×1). E tome Touradas de Madri, a eterna marchinha de carnaval de João de Barro/Braguinha e Alberto Ribeiro, cantada por milhares de pessoas no estádio. Agora, o que de fato me impressiona até hoje é que não consigo lembrar-me de quase nada do Maracanazo, a tragédia nacional chorada ao vivo pelos 200 mil espectadores presentes ao estádio naquela tarde fatídica de 16 de julho. Pelo menos não consigo me lembrar da transmissão do jogo e muito menos do gol do Ghigia, que consagrou o Uruguai para sempre e jogou o Brasil no buraco fundo de uma depressão que durou oito anos. Atribúo essa amnésia, digamos seletiva, à minha irrefreável tendência de buscar a felicidade até no impossível… E, curiosamente, tive a oportunidade de ver ao vivo, vinte anos depois, na Copa de 70, o Brasil em Guadalajara voltar a enfrentar o Uruguai, seu grande algoz, e ganhar brilhantemente, escancarando a porta para o Tri com a dilatada vitória final sobre a Itália (4×1).

Sobre a derrota de 50, vale lembrar ainda um detalhe: muitos anos depois, vi na televisão o goleiro Barbosa confessar que possuía uma medalha de Campeão Mundial, entregue por diretores de uma grande empresa comercial do Rio, que estiveram visitando a concentração brasileira na manhã daquele 16 de julho… Ou seja, só mesmo uma triste mistura de já ganhou com muita ingenuidade explica o que se passou naquela tarde no Maracanã.

 

1954

Copa na Suiça, a Copa das grandes goleadas, que passou em brancas nuvens para mim, exceto pela prematura desclassificação do Brasil no violento encontro com o celebrado Time de Ouro da Hungria, com nomes que entraram para a história do futebol, como Puskas, Czibor e Kocsis, e que também teve seu (não merecido) Maracanazo no dia 4 de julho, perdendo a final para os alemães, depois de estarem ganhando por 2×0, e tendo vencido o encontro anterior com esses mesmos rivais por 8×3. Repetiu-se então a maldição do favorito absoluto, que viria ainda assombrar o famoso Carrossel Holandês de 1974, a equipe de Telê Santana de 82 na Espanha e, por que não, de novo o Brasil de 98, em Paris.

 

1958

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Basta de tanto sofrimento! Chegou a nossa vez! Dessa Copa de 58 não há brasileiro com alguma idade que não se lembre, nem brasileiro com um mínimo interesse por futebol que desconheça os belos momentos que a marcaram. Foi um time brilhante e decidido, formado por craques de uma geração de ouro, uma defesa com Djalma e Nilton Santos, um meio de campo com um Zito e um Didi, um ataque avassalador com Garrincha, Vavá e um garoto de 17 anos que viria a ser o Atleta do Século… Lembro-me de tudo, de cada detalhe das transmissões ouvidas na eletrola de nossa casa no Rio, onde já morávamos desde 1955, de cada partida, do sofrimento no empate contra o País de Gales, da euforia e do inevitável carnaval nas ruas enfeitadas de Copacabana depois de cada vitória, da virada final dos 5×2 em cima dos donos da casa, do choro incontido do menino Pelé, do abraço nada protocolar de Garrincha no Rei Gustav VI, do desfile dos vencedores em carro aberto do Corpo de Bombeiros na Avenida Rio Branco, onde eu me espremia no meio de uma multidão enlouquecida…

Uma população inteira de 63 milhões de brasileiros lavava finalmente a alma, superava o trauma do Maracanazo, acabava com o complexo de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues. Mas é bom que se diga que o Brasil, como país, vivia um momento inédito de afirmação nacional, de visível incremento da autoestima de seu povo. Aliás, no texto que escrevi para o narrador no capítulo da Bossa Nova de meu espetáculo Uma viagem através da Música do Brasil, já apresentado pelo Grupo solo Brasil em vinte países de quatro continentes e em dezenas de cidades brasileiras, lembro o seguinte:

“     O movimento da Bossa Nova coincide com uma época de grande efervescência econômica, social e cultural do Brasil. O país finalmente aprende a se amar, elevando sua auto-estima através de um otimismo que se manifesta em todas as áreas. É a época da implantação de Brasília, das grandes hidrelétricas, da multiplicação de auto-estradas, dos primórdios da indústria automobilística, das vitórias do futebol na Suécia (com Pelé) e no Chile (com Garrrincha), dos títulos de Éder Jofre e de Maria Esther Bueno. Mas é também a época do surgimento do Concretismo na poesia brasileira e do Cinema Novo, da explosão da obra de Guimarães Rosa e de Clarice Lispector, da consagração de grandes artistas plásticos. Época de afirmação da democracia.

 

1962

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Nada mais a acrescentar. A não ser para recordar que esse mesmo clima de otimismo e confiança levou a Seleção Canarinho a repetir no Chile, quatro anos mais tarde, o sucesso alcançado na Suécia. E novamente foram as ondas hertzianas que nos trouxeram a narração do que se passava por lá, com Garrincha se encarregando de suprir a ausência de Pelé, machucado desde o início, e fazendo o seu costumeiro carnaval em campo. Nesse ano de 62, eu estava concluindo meu curso de Direito na PUC do Rio e me preparava para o concurso da Carreira Diplomática do Instituto Rio Branco, onde ingressei em março do ano seguinte. E outra coisa que não posso esquecer é que exatamente naquele mês de junho, coincidindo com a Copa, eu estava atuando no Teatro Ginástico, no Rio, na peça O enterro de Carolina, de Wanda Fabian, pelo Grupo Teatro da Cidade, que eu havia criado com meu querido, talentoso e já falecido amigo Luiz Carlos Saroldi. Foi, naturalmente, meu canto do cisne nos palcos, onde estive por sete anos dirigindo e atuando em vários grupos amadores. Na verdade, acho que a partir daí houve apenas uma troca de palco…

 

1966

Copa aziaga para o futebol brasileiro, derrotado pela Hungria e em seguida eliminado ainda na primeira fase pela surpreendente equipe de Portugal, com Eusébio mostrando ao mundo todo seu talento e os seus defensores Vicente e Morais literalmente inutilizando Pelé, que deixou o campo seriamente lesionado e sem poder ser substituído, como mandava o regulamento naquela época. Portugal, de qualquer modo, só foi batido na semi-final, e pela Inglaterra, campeã do torneio, depois de uma final polêmica com a Alemanha, até hoje discutida.

 

1970

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Enfim, pela primeira vez tive a alegria de ver uma Copa de perto, justamente aquela em que o Brasil voltou a jogar um futebol exuberante, irresistível, novamente com Pelé determinado a nos trazer o caneco, só que desta vez em definitivo. Um parêntese para um flash-back agora, para uma curiosidade que podemos ler na Wikipedia: A Copa do Mundo de 1966 teve um herói bastante incomum fora das quatro linhas, um cachorro chamado Pickles. Antes do torneio a Taça Jules Rimet foi roubada de uma vitrine de exposição no Center Hall de Westminster, em Londres, junto a uma exposição filatélica. Uma caçada nacional pela taça foi instaurada. Ela foi descoberta enrolada em jornal quando um cão farejou alguns arbustos em Londres. A FIFA mandou que se fizesse uma réplica no caso em que não encontrassem a original a tempo. Esta réplica está exposta no National Football Museum, na Inglaterra.

De fato, quatro anos mais tarde trouxemos o caneco para morar para sempre no Brasil. Mas, repetindo o episódio de Londres, embora com um desfecho menos feliz e muito mais vergonhoso para todos nós, a Taça Jules Rimet foi surrupiada um belo dia, na verdade uma bela noite de dezembro de 1983, quando três indivíduos renderam o vigia do prédio da CBF no Rio, levaram a taça original que se encontrava exposta (enquanto a réplica, imaginem, estava trancada no cofre…) fizeram derreter seus quatro quilos de ouro e esbaldaram-se durante muito tempo, até serem presos cinco anos mais tarde. Ou seja, faltou-nos um Pickles para descobrir a tempo o paradeiro do nosso caneco, que acabou tendo um fim tão inglório.

Fechemos o parêntese e voltemos às alegrias da Copa no México, a mais brilhante e esfusiante, creio eu, de todas que já se realizaram. Como dizia, tive a oportunidade de ver de perto todos os jogos do Brasil, viajando sem parar entre a Cidade do México e Guadalajara, no trem que levava os torcedores brasileiros nas noites de sábado e de terça-feira, e nos depositava de volta nas manhãs de segunda e quinta, já que os jogos do Brasil se realizavam no domingo e na quarta-feira à tarde. O tempo que me sobrava, aproveitava para mergulhar na alma desse país fascinante, visitando locais como Taxco de Alarcón, Puebla, o tesouro barroco de Tepotzotlán, a decoração plateresca do Mosteiro e Igreja de San Agustin de Acólman, as Pirâmides de Teotihuacán, o fantastico Museu de Antropologia, etc. Ou seja, foi para mim uma Copa de futebol e um banho de cultura mexicana… Cheguei mesmo a realizar um longo documentário em Super-8 sobre tudo o que vi, e não apenas no México, mas também no Peru e Equador, países por onde passei em minha viagem em busca do Santo Graal, ou melhor, da Taça Jules Rimet, partindo de Buenos Aires, onde residia e trabalhava no Consulado-Geral do Brasil, meu primeiro posto no exterior. O futebol, sobretudo os seis jogos vitoriosos do Brasil, surge como telón de fondo de uma narrativa repleta de aspectos históricos e culturais dos três países visitados

Aliás, cabe lembrar que algumas passagens dessa minha adorável aventura mexicana estão mencionadas e/ou relatadas em outros textos deste Quincasblog, sobretudo nas crônicas Nas mãos de Félix e Nos tempos do Super-8. No tocante propriamente às façanhas da Seleção brasileira, seria ocioso detalhá-las, já que todo patrício nascido a partir de 1970 deve ter-lhes assistido pela televisão, que pela primeira vez passou a transmitir os jogos em direto, embora ainda em preto e branco. As famosas três grandes jogadas de Pelé não convertidas em gol, o xadrês contra a Inglaterra, a desforra em cima do Uruguai ou a final apoteótica dos 4×1 contra a Itália, com as centenas de mexicanos invadindo o gramado e carregando nas costas um Pelé meio assustado portando um imenso sombrero mariachi – tudo isso são imagens sempre presentes na televisão brasileira, sobretudo nesta época de Copa do Mundo.

Mas…não se pode ganhar sempre. E depois de empanturrar-se de alegria com a conquista do Tricampeonato e o reconhecimento mundial unânime das qualidades excepcionais daquela equipe canarinho, e que partira de seu país, diga-se a bem da verdade, com a descrença quase generalizada da midia e dos torcedores, fomos obrigados a amargar 24 anos de jejum, até a vitória final do time de Parreira na Copa dos Estados Unidos.

Mas isso fica para o próximo capítulo, onde teremos as já prometidas atrações da Copa de 1986, outra vez no México, quando então pude ver de perto um inacreditável grau de desorganização nos bastidores da CBF e da própria delegação do Brasil. Depois de presenciar o inimaginável (e ter por momentos até de meter o bedelho naquela aventura digna di una armata Brancaleone), fiquei abismado e só pensava o seguinte: mas como é que conseguimos conquistar três títulos mundiais até aqui, mantendo uma (des)organização desse calibre? A visão da cozinha da (nossa) Copa não me agradou nada…

Aguardem as novidades!

 

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4 Comentários

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4 Respostas para “EU NAS COPAS ( E ATÉ NA COZINHA DA COPA…)

  1. Excelente narrativa . Mais uma como lhe é habitual.Aguardo com interesse, não só o que presenciou nas seguintes Copas, mas também o que está pensando sobre o ambiente atual relativo à copa que se iniciará nesta semana. Em minha opinião, os políticos da OPOSIÇÃO estão criando um ambiente desfavorável para tentarem ganhar as próximas eleições para PRESIDENTE,DA REPUBLICA. Tudo contra e nada a favor de DILMA e do PT. Nunca vi tantos políticos “torcerem” contra o seu próprio país sem se importarem com as consequências. TRISTE FARSA E MUITO CINISMO.
    Serão eles patriotas…??? Tenho fortes dúvidas..
    Um grande abraço.
    Armando Ribeiro.

  2. O Quincasblog está cada vez melhor! Texto cada vez mais gostoso de ler e concernente com os acontecimentos do momento. Obrigada, por favor continue.

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