MORRE O SOL DE VILARÓ

MORRE O SOL DE VILARÓ

CASAPUEBLO                                   Lauro Moreira

Proponho hoje aos meus caros leitores do Quincasblog interromper momentaneamente nossa série de crônicas futebolísticas para comentarmos um assunto grave: o desaparecimento ontem, 24 de fevereiro, de um grande artista plástico e uma marcante figura humana. Morreu Carlos Páez Vilaró, o homem de Casapueblo, o uruguaio cosmopolita, o cidadão do mundo, que soube fazer de sua fecunda e longa vida uma permanente e sempre renovada obra de arte.

Artista plurifacético – pintor, escultor, ceramista, muralista, escritor, compositor e carnavalesco – Vilaró faleceu ontem aos 90 anos de um ataque cardíaco, em seu país, em seu balneário de Punta del Este, em sua Punta Ballena, em sua formidável Casapueblo, “escultura habitável”, hotel-residência-museu, por ele erguida tijolo a tijolo ao longo de décadas, e que se transformou em um dos sítios mais visitados e admirados por turistas de toda parte.

Como destacava a midia internacional de ontem, ao longo de sua  carreira Vilaró dedicou-se sobretudo à representação da natureza e da comunidade afrodescendente sul-americana, depois de ter vivido vários anos na África. Por outro lado,  o mundo se lembra de sua inquebrantável determinação na busca do filho, uma das vítimas daquele terrível acidente aéreo sofrido pela equipe de rugby do colégio Old Christians, em 1972, enquanto atravessavam a Cordilheira dos Andes em viagem ao Chile. Ao cabo de 72 dias perdidos nas montanhas geladas, apenas 16 jovens dos 45 passageiros sobreviveram, entre eles seu filho.

Ao contrário de Liana, minha mulher – que ainda muito jovem conhecera Vilaró pessoalmente em sua residência em Ribeirão Preto, época em que ele expôs na Bienal de São Paulo, e lhe ofertara inclusive um quadro que temos até hoje em nossa parede – eu não cheguei a conhecê-lo de perto. Entretanto, e por incrível que pareça, estávamos neste momento nos preparando para viajar proximamente a Punta del Leste, com a exclusiva finalidade de participar de uma homenagem especial ao grande artista, que seria prestada por um brasileiro que o conhecera recentemente em Casapueblo e ficara profundamente impressionado com a beleza daquele universo e a irresistível simpatia e energia de seu criador.

Esse brasileiro é o meu amigo Alberto Araújo, romancista, poeta e cineasta, realizador do filme Vazio Coração, recentemente exibido no Brasil e do qual tive o prazer de participar, personagem portanto conhecido dos leitores deste Quincasblog; e a mencionada homenagem seria a apresentação, em Casapueblo, de um recital que eu apresentaria com os poemas de seu novo livro Sol de Vilaró, cujos originais já se encontram há dias no prelo de uma gráfica em Goiânia. Ontem ao final da tarde recebi uma lacônica mensagem do Alberto no celular: “Chegamos tarde… Morreu Vilaró.”

Não, meu caro Alberto, não morreu Vilaró, e nossa bonita homenagem está prestada. Tenho  certeza de que o homenageado a apreciará devidamente.

Como lembrança de tudo isso, transcrevo abaixo, com a permissão do autor, três dos quinze poemas do livro, no original, e na fiel tradução de Mara Publio para o castelhano, além deste trecho introdutório:

“A arte tem às vezes o poder de nos desconectar do real, de anular a gravidade e nos fazer flutuar. Assim me senti ao percorrer os labirintos de Casapueblo, o mundo particular e universal de Carlos Páez Vilaró. Ali, ao abrigo daquela arquitetura inexata, tudo se harmoniza em uma atmosfera onde criador e criação parecem interligados, abraçados desde sempre, para sempre. Milhares de pessoas de variadas culturas visitam aquele recanto de arte em Punta Ballena, de onde por certo cada qual sai com uma diferente sensação. Eu, poeta brasileiro, senti-me como alguém que abre a janela e se depara com um segundo sol na linha do horizonte, o Sol de Vilaró.” 

Encontro                                                                                                                                                  CasapuebloPainel de Vilaró

VCarlos Páez Vilarói Vilaró ou revi Vilaró?

Apertei-lhe a mão pela primeira

ou milésima vez?

Saudoso encontro!

Reencontro de amigos

que não se conheciam

que não se escreviam.

Amigos que não se falavam

não se viam…

No olhar

um diálogo guardado há décadas

vinho no fundo da adega

o paladar das palavras

Nos despedimos como amigos

que se verão amanhã

se verão sempre

como nunca se viram

Vilaró, amigo

da vida

das artes

das cores

dos  ritmos

do sol

da lua

amigo do mundo.

*********************

Encuentro

¿Vi o reví Vilaró?

¿Le estreché la mano por primera

o milésima vez?

¡Deseado encuentro!

Reencuentro de amigos

que no se conocían

que no se escribían.

Amigos que no se hablaban

que no se veían…

En la mirada

el diálogo guardado desde hace décadas

vino en el fondo de la bodega

el sabor de las palabras

Nos decimos adiós como amigos

que van a verse mañana

que van a verse siempre

como si nunca se hubieran alejado

Vilaró, amigo

de la vida

de las artes

de los colores

de los ritmos

del sol

de la luna

amigo del mundo.

***********************

Sol de Vilaró

O sol de Vilaró nasce em Punta Ballena

e se espalha pelo Uruguai

iluminando vinhedos

trigais

ovelhas

e gado​

O sol de Vilaró

doura a pele de homens e mulheres

da América do Sul

desliza pelo leito dos rios

florestas

cerrados

desertos

e ainda se vê

em espelhados arranha céus

O sol de Vilaró

afaga os Andes

depois

se sentindo em casa

brinca com os Incas

flerta com os Maias  e Astecas

O sol de Vilaró

descansa no colo das índias

e desperta com as  crianças

das Américas.

Para Carlos Páez Vilaró

o sol é o sorriso do universo.

***************

Sol de Vilaró

El sol de Vilaró nace en Punta Ballena

y se extiende por todo Uruguay

alumbrando parrales

trigales

ovejas

y el ganado

El sol de Vilaró

dora la piel de hombres y mujeres

de Sudamérica

resbala por el cauce de los ríos

bosques

sabanas

desiertos

y aún se ve

en espejados rascacielos

El sol de Vilaró

acaricia los Andes

luego

sintiéndose en casa

juega con los incas

coquetea con los mayas y los aztecas

El sol de Vilaró

reposa en el regazo de las indias

y despierta con los niños

de las Américas

Para Carlos Páez Vilaró

El sol es la sonrisa del universo.

Casapueblo

Uma casa

ou um acaso da criação?

o concreto

da paciência do não arquiteto

pura imaginação

Nem esquadro

nem compasso

a intuição não tem geometria

moderna  poesia

Nada é exato

e tudo se equilibra

se harmoniza

por  instinto

da inspiração e seus labirintos.

**********************

Casapueblo

¿Una casa

o un acaso de la creación?

el hormigón

de la paciencia del no arquitecto

pura imaginación

Ni escuadra

ni compás

la intuición no tiene geometría

moderna poesía

Nada es exacto

y todo se equilibra

se armoniza

por instinto

de la inspiración y sus laberintos.

***************

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8 Comentários

Arquivado em ARTES PLÁSTICAS, CRONICAS DO QUOTIDIANO

8 Respostas para “MORRE O SOL DE VILARÓ

  1. Edmílson Caminha

    Lauro querido,

    Vilaró era, verdadeiramente, um ser iluminado, que exerceu na plenitude a paixão da vida, o amor pelas mulheres, a afeição pelos amigos. Estive em Punta Ballena, mas não tive o privilégio de encontrá-lo. Foi-se o companheiro de Vinicius, a quem a arquitetura surpreendente e as paredes brancas da Casapueblo inspiraram a canção que diverte as crianças: “Era uma casa / muito engraçada, / não tinha teto, não tinha nada…” É o que cantamos todos, quando suavemente se põe, sobre o mar de Punta del Este, o sol de Vilaró…

    Abraço fraterno do amigo e leitor

    Edmílson Caminha

    • Meu caríssimo Edmilson,
      Você não calcula a satisfação que me dão os seus comentários a essas elucubrações do Quincasblog, uma vez que sempre enriquecem o conteúdo destes textos. Estou sempre aprendendo algo com suas intervenções, e gostaria mesmo de que outros leitores encaminhassem os comentários também diretamente para o blog (e não por e-mail), a fim de pudéssemos alargar o debate e as informações, para o proveito de todos. Um abraço fraterno,
      Lauro

  2. Graciema Caldas e Silva

    Que lindo Lauro! Obrigada por me introduzir no mundo de Vilaró! Ainda que após sua morte. Qu

    Enviado via iPad

    >

  3. Pingback: Morre o Sol de VILARÓ – Do Embaixador Lauro Moreira

  4. Vera Lúcia de Oliveira

    Caríssimo Lauro, ao contrário do meu amigo Caminha, estive há cinco anos em Casapueblo e tive a sorte de ver, conversar, tirar foto e receber autógrafo em gravura do Vilaró. Fiquei encantada!
    Infelizmente, um sol se apagou… Parabéns pelos lindos textos. Abração, Vera

    • Que sorte a sua , minha amiga. Como já disse, não tive a oportunidade de conhecer o Vilaró, a não ser através de testemunhos dos amigos – como este seu – unânimes no entusiasmo diante do artista e da obra. Obrigado e grande abraço. Lauro

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