FALEMOS AGORA DE FUTEBOL E DE CRAQUES

FALEMOS AGORA DE FUTEBOL E DE CRAQUES

  Lauro Moreira

Está oficialmente aberta a temporada de caça… à bola. Dentro de seis meses a Brazuca, bola  oficial da Copa do Mundo de 2014, começa a rolar pelos gramados de nossas doze cidades-sede. Depois de 64 anos o Brasil, único país a participar de todas as edições desde 1930, no Uruguai, volta a ser o ser palco do maior espetáculo esportivo da terra.

Para não ser depois acusado de vil e total alienação, o Quincasblog decidiu entrar nesse bloco irresistível e começar também a bater sua bolinha. Mas, atenção: não vamos nos meter em assuntos pantanosos, envolvendo desde nossa conhecida capacidade de desorganização, até a temerária ousadia de se propor construir e/ou habilitar doze grandes estádios (ou Arenas, para estar na moda) e suas áreas urbanas circumvizinhas, em centros que vão de São Paulo  e Brasília a Manaus e Cuiabá. Esse tema já tem rendido muita discussão e algumas absurdas mortes de operários. Do mesmo modo, não entraremos na fria de questionar se está havendo uma justificável canalização de recursos públicos para essas obras gigantescas, e/ou se os indefectíveis subfaturamentos e desvios de verbas – se é que os há –  têm sido exagerados até para os elásticos padrões tupiniquins…

Nosso papo é bem outro. Vamos falar das Copas passadas e suas repercussões no Brasil e nos brasileiros. E também em mim, pessoalmente, que também sou brasileiro e louco por futebol e flamenguista desde os nove anos de idade, quando meu time foi jogar em Goiânia, e tive o privilégio (melhor dizendo, a mordomia, já que meu pai era então Secretário de Estado do Governo de Goiás) de assistir ao jogo das laterais do campo, no antigo Estádio Pedro Ludovico, e ver de muito perto os grandes craques da época, como o goleiro (Sinforiano) Garcia e seu conterrâneo paraguaio (Modesto) Bria, que compunha a linha média (desculpem o anacronismo, mas in illo tempore era assim) com o baixinho Biguá, e que havia sido levado para o Flamengo por Ary Barroso. Completava o trio o  Jaime de Almeida (não o homônimo atual, que andou salvando o Flamengo de um inédito e portanto trágico rebaixamento este ano, mas sim o seu pai), além do zagueiro baiano Juvenal e do centro-avante Índio, que estreava no rubro-negro naquele ano de 1949. Os flamenguistas menos jovens e os torcedores mais ardorosos não se esquecem nunca desses craques, que formaram a base do time que se consagraria na década seguinte como tri-campeão carioca. E desnecessário acrescentar que naqueles velhos e bons tempos, ao contrário dos artistas de hoje, os atletas não trocavam de time como se troca de camisa. Aliás, camiseta era algo sagrado que não admitia ostentar senão as cores e o escudo de cada clube…

Não porque eu fosse assim tão intimamente ligado ao futebol brasileiro e seus bastidores, que não era, mas porque creio já ter vivido bastante,  acabei colecionando algumas estorinhas pessoais nessa área, que gostaria de compartilhar, por capítulos, com meus parcos porém fiéis leitores deste Quincasblog. Algumas passagens, por exemplo, envolvendo encontros e certo convívio com figuras como Didi, Nilton Santos, Pelé e Zico, além de experiências muito ricas como espectador da Copa de 70 no México, e mais tarde como responsável, indicado pelo Itamaraty, pela organizaçao e direção da Casa do Brasil em Guadalajara, na Copa de 1986. Portanto, a partir de agora e nos próximos posts, vamos recordar algumas dessas curiosidades, que espero possam interessar não apenas aos amantes do famigerado esporte bretão, como também aos caros leitores deste blog, cujo lema, como sabemos, é tratar de tudo um pouco. 

          Hoje falaremos de Nilton Santos, – “o último capítulo da Enciclopédia do Futebol”, nas palavras do jornalista João Máximo – falecido no último dia 27 de novembro no Rio de Janeiro, aos 88 anos, de infecção pulmonar, agravada pelo Mal de Alzheimer, de que padecia desde 2008.

                A Enciclopédia do Futebol

                   “Pois só uma soma de virtudes — equilíbrio, elegância, reflexos, seriedade, coragem, sabedoria, tudo isso somado a uma técnica individual refinada, antecipação do estilo dos melhores zagueiros que o sucederam — explica que Nílton Santos seja, realmente, o melhor lateral-esquerdo que o Brasil já teve e o “melhor do século” em todo o mundo, segundo eleição promovida pela Fifa em 1998.” João Máximo, in O Globo, 28/11/2013.

Em 1986 fui removido da Embaixada em Washington, depois de quatro anos de posto, para a Secretaria de Estado, ou seja para o Itamaraty em Brasília, convidado pelo Embaixador Rubens Barbosa,  então Sub-Secretário para Assuntos Multilaterais, para assumir a Divisão de Difusão Cultural. Além de seus objetivos estritamente culturais, a DDC se ocupava também da área de esportes, mantendo para isso contato assíduo com o CND – Conselho Nacional de Desportos, órgão administrativo extinto em 1993, responsável pela regulação e regulamentação de todos os esportes e suas federações e confederações no país.

Certo dia, recebemos na Divisão um pedido do Embaixador de Granada na OEA, em Washington, encaminhado por seu colega,  o nosso saudoso Embaixador Dario de Castro Alves, solicitando ao Governo brasileiro a indicação de um técnico para iniciar um trabalho de introdução do futebol naquele país. Simpático à causa, enviei de imediato um ofício ao CND, para as providências cabíveis. Depois de algumas insistências de Granada e várias reiterações nossas ao CND sem qualquer resultado, fiquei sem saber que outro caminho tomar, até que um dia um funcionário meu, responsável pela área de esportes, me fez uma sugestão que considerei liminarmente absurda e até aberrante:

  • – Conselheiro, por que não convidar o Nilton Santos?- O quê? O Nilton Santos, glória e Enciclopédia do futebol brasileiro, bi-campeão mundial, para treinar uns pernas de pau que nunca viram uma bola de perto? E nem temos verba para pagá-lo com um mínimo de decência. Você está louco, meu caro!
  • – Mas, Conselheiro, quem sabe ele não toparia essa aventura, nem que seja por uns poucos meses? Ele mora em Brasília e dá aulinhas de futebol para crianças carentes num projeto da Secretaria de Esportes do DF. Poderia talvez conseguir uma licença temporária…

Diante da inércia do CND, que deve ter considerado esse pedido como algo de absoluta desimportância, acabei sucumbindo e telefonando para o Catedrático em pessoa, convidando-o para uma conversa em minha sala. Quando comentei o convite com o Chefe do Departamento Cultural, Embaixador Rache de Almeida, botafoguense doente e fã de carteirinha do próprio Nilton Santos,  o homem ficou indócil, no maior entusiasmo, e exigiu que eu avisasse o momento em que meu interlocutor chegasse à Divisão, porque ele também queria estar presente… E assim foi. E o papo não poderia ter sido melhor.

Comecei a conversa com ele e Célia, sua esposa, explicando cuidadosamente a nossa proposta, mas advertindo antes de que não se tratava de um contrato a ser assinado, mas de uma missão de política externa a ser desincumbida, caso a aceitasse. Falei-lhe de um período de três meses, em que ele receberia a passagem aérea, cabendo ao governo granadino fornecer-lhe hospedagem e as diárias correspondentes. Um gentleman perfeito, irradiando simpatia, naturalidade e bom humor, aceitou na hora a proposta, colocando apenas uma condição: ser acompanhado por sua mulher, também ela  muito simpática e participante. Diante dessa ponderação mais que razoável, e conhecendo bem a absoluta carência de recursos da área cultural do Ministério naquela época, tratei de fazer um Memorando  interno solicitando que a Agência Brasileira de Cooperaçao -ABC, custeasse a segunda passagem. Afinal não deixava de ser um projeto de cooperação técnica internacional…A título de curiosidade, anos depois acabei sendo Diretor Geral não apenas da ABC, como também do Departamento Cultural, as duas áreas que atuaram nesse “Projeto Nilton Santos”.

Felizmente correu tudo às mil maravilhas. Depois desse e de um segundo encontro, quando tive a oportunidade de matar a curiosidade sobre mil estórias do passado de meu interlocutor, sobretudo as referentes às Copas de 58 na Suécia e 62 no Chile, com destaque especial para seu admirado compadre Mané Garrincha, o nosso “enviado especial” e esposa viajaram para Granada, onde ele se desincumbiu perfeitamente da missão, como todos esperávamos, retornando a Brasília contente e no prazo previsto. Nosso terceiro encontro foi em seu modesto e simpático apartamento, onde me relatou com detalhes sua aventura com os pernas de pau granadinos…Enfim, gol de placa para a política externa brasileira!

Nosso próximo encontro será com outro botafoguense, também gênio do futebol, amigo fraterno de Nilton Santos, chamado Waldir Pereira, casado com a famosa Guiomar e pai de Rebeca, jovem por quem fiquei responsável enquanto estudava num colégio interno na cidade de Neuchâtel, na Suissa. Estamos falando portanto de Didi, o Príncipe Etíope, como dizia Nelson Rodrigues, de quem fiquei amigo em nossos tempos de Buenos Aires.

Mas isso já é outra estória de Falemos agora de Futebol e de Craques.  Aguardemos o próximo capítulo.

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NILTON SANTOS

          

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11 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO, Esportes

11 Respostas para “FALEMOS AGORA DE FUTEBOL E DE CRAQUES

  1. Pingback: FUTEBOL E SEUS CRAQUES – De LAURO MOREIRA

  2. Ricardo Torres de Castro

    Quando trabalhei na ABC no ano de 1989/90, todos falavam deste “caso de cooperação técnica”. Nunca imaginei que senhor tinha sido um dos protagonistas. Excelente crônica. Um forte abraço.

  3. Edmílson Caminha

    Belo testemunho, Lauro! Que venham outros, como resposta civilizada a torcedores para quem futebol não é esporte, mas pretexto para extravasar frustrações, recalques e desejos reprimidos. Freud continua a explicar… Abraço fraterno do amigo e leitor Edmílson Caminha.

  4. Meu amigo Lauro: Desde 1974, quando nos conhecemos, no Ministério da Industria e do Comercio, eu já desconfiava que você “entendia” do assunto, isto é, de futibol, mas jamais imaginava o quanto! Ficamos , por muito tempo envolvidos nos assuntos da Assessoria que você dirigia, relativo a Comercio Exterior, que não tínhamos tempo para mais nada, por incrível que pareça. Tanto é verdade, que só viemos falar de futibol, se não me engano, anos depois. Olhando bem , meu amigo, nossa amizade já vai para mais de 40 anos ! É uma eternidade ! E dizer que só agora é que eu estou tendo a oportunidade de opinar sobre a “enciclopédia”(e com certeza, de outros mais) e , diga-se de passagem, torna-se fácil,pois trata-se de um profundo conhecedor de como se trata “a criança”, no seu aconchegante convívio. Os adjetivos usados por você, com relação ao Nilton Santos, não são suficientes para defini-lo, como conhecedor profundo do futebol arte! Foi realmente um dos mais completos jogador de futebol brasileiro, e um cidadão acima de qualquer suspeita, meu caro amigo. Não posso deixar de registrar aqui, o contato que tive com o Nilton Santos , nos anos 51, logo após a Copa do Mundo de 50, da qual ele foi RESERVA do ELI! E não participou de nenhuma partida, quero crer, pois a seleção , além de ter a base no time do Vasco(ELI, DANILO E JORGE, quando jogava no Rio), tinha BAUER e outro jogador paulista, quando jogava em SPAULO! Veja você que Seleção era a da Copa de 1950!Sabe que HELENO DE FREITAS era, também, reserva? Dizia eu do contato: foi num apto.no Humaitá, onde ele morava com mais outros jogadores do Botafogo, inclusive com “novato” louro(não lembro o nome) que eu achava “mascarado” e perguntei ao Nilton se eu estava sendo muito rigoroso com o “diabo louro” pernambucano e lhe falei porque eu pensava assim, Disse-lhe que (lembrei o nome dele: MARINHO)num jogo que eu fui assistir no Maracanã(BotafogoXFlamengo) eu vi um lance que me deixou perplexo! Ví o Nilton Santos sofrer uma falta perigosa perto da área adversaria e antes do Nilton pegar a bola ele antecipou-se ostensivamente e bateu a falta! Atitude absu!rda! O Nilton concordou comigo, Moral da estória: O Marinho “NÃO EMPLACOU” e infelizmente parece que tornou-se um alcólotra , infelizmente!. Tenho mais assunto sobre futebol. Vou aguardar o próximo capítuloTenho uma sugestão: Faça a perguntar, que até hoje não se tem resposta: Qual a causa de nossa derrota para o Uruguai e o que você faria se fosse o Técnico para ganhar aquele jogo. Eu tenho minha resposta. Um abraço, Nemesio

  5. D'Alembert de B Jaccoud

    É muito bom ler seus belos testemunhos da cultura brasileira, através da música e dos esportes entre outras artes, operando este rico intercâmbio direto entre pessoas de tão diferentes povos. Um abraço, D’Alembert

  6. Apesar de não ter tido uma resposta sua AQUI (só vi do D`ALAMBERT e se não me engano você fez alguma referência pelo E-mail), devo dizer-lhe que o pouco que sabia do Didi, você já mencionou em sua maravilhosa crônica! Disse tudo . Parabéns ! Mas só uma observação ! As mudanças radicais que ele aplicou no River Plate, até hoje estão dando resultado, positivo no nosso Flamengo de hoje(do Jayme).Por sinal estou vendo o jogo FLA x Goavista (O FLA ganhou de 5×2 de virada! Nemesio

  7. helio de aguiar nemesio de albuquerque

    Lauro: Ligue para meu novo Celular(97184-7485 ou 2528-4138-Furnas), pois temos muito que nos falar sobre a “nossa” Copa, ainda mais com o resultado “catastrófico” da nossa Seleção. Aguardo seu contato.Seu amigo de sempre, Nemesio

    • OK, meu Nemésio, vou te ligar depois. No momento estou em Goiânia fazendo um trabalho de gravação, mas dentro de poucos dias volto a Ribeirão Preto. Mais no final do mês pretendemos ir ao Rio e aí nos veremos. Grande abraço,
      Lauro

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