BARCELONA E RIO DE JANEIRO

  BARCELONA E RIO DE JANEIRO: TRANSFORMAÇÃO DE UMA CIDADE          

                                                                               Lauro Moreira

Por obra e manobra do destino, recebi a graça de viver e trabalhar em Barcelona ao longo de quatro anos, de fins de 1991 até dezembro de 94. Ou seja, pude testemunhar a reta final das obras de transformação da cidade, assistir aos Jogos Olímpicos de 92 e ainda presenciar a consolidação daquele milagre urbanístico que espantou o mundo.

A capital da Catalunha, como sabemos, data de mais de 2.200 anos, criada no tempo das Guerras Púnicas dos cartagineses Amilcar e Anibal Barca – daí o seu nome original de Colônia Barcino, dado mais tarde pelos romanos. Ao longo desses vinte e dois séculos, a cidade passou por peripécias incríveis, chegando ao fundo poço a partir do século quinze, com a união dos reinos de Castilla e Aragón, através do casamento de Fernando e Isabel, os chamados Reis Católicos. Ou seja, o ouro e a prata da América descoberta em 1492 não serviram senão aos interesses de Castilla, ficando os catalães proibidos de manter contato com esse novo mundo até o século dezoito. É só a partir daí que Barcelona começa a despertar de uma penosa e prolongada letargia, sabendo valer-se do comércio exterior e da revolução industrial em curso para transformar-se no século dezenove em um dos centros mais prósperos do Mediterrâneo.

O progresso foi tão grande e tão rápido, que a partir de 1860 a cidade viu-se obrigada a alargar os limites urbanos, derrubando as muralhas que a aprisionavam e incorporando os vários pequenos núcleos habitacionais de seu entorno. Essa primeira grande transformação se deu com o chamado Plano Cerdà (do arquiteto Ildefons Cerdà), considerado depois  o mais importante projeto urbanístico do século na Europa. Uma nova cidade surgia com o Eixample (Alargamento), planejada em seus mínimos detalhes, com quarteirões absolutamente simétricos e edifícios de seis andares (como em Brasília, cem anos depois) e com obras marcantes no estilo Art Nouveau, criadas por grandes arquitetos do chamado Modernismo Catalão, entre eles Gaudi, Domenèch y Muntaner e Puig y Cadafalch, e por um imenso exército de artistas e artesãos, que fizeram de Barcelona uma dos ícones da arquitetura mundial.

A segunda grande intervenção urbanística deu-se no final da década de 1920, quando a cidade se preparou para sediar as Olimpíadas de 1936 – que finalmente foi parar nas mãos de Hitler, para grande frustração dos catalães. Mas eles não desanimaram – aliás, não desanimam nunca –  e acabaram por conseguir sediar os Jogos de 1992. Para isso, promoveram uma verdadeira revolução na cidade de Barcelona, transformando-a por completo em apenas oito anos, preparando-a não só para os eventos esportivos previstos, mas sobretudo para o século 21. Essa é a Barcelona de hoje, Ara com mai, como gostam de dizer seus orgulhosos habitantes, ou seja, Agora como nunca.

Bem, mas depois de todo este intróito histórico aparentemente dispensável, vamos ao que interessa, ou pelo menos ao que pretendo comentar aqui. Enquanto Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona naquele período, tive oportunidade de tratar de alguns temas específicos de interesse do Brasil refentes a Jogos Olímpicos. O primeiro foi o de trabalhar diretamente com delegações do Governo brasileiro na campanha pela indicação de Brasília para sediar as Olimpíadas de 2000, participando de visitas e reuniões com os organizadores catalães envolvidos no assunto. De nosso lado encontravam-se, entre outros e em diferentes ocasiões, o Secretário Nacional de Esportes Arthur Antunes Coimbra – Zico, o Presidente da Confederação Brasileira de Volei, Carlos Arthur Nuzman, e o inventor do saque Jornada nas Estrelas, Bernard Rajsman, posteriormente também Secretário Nacional de Esportes. A batalha foi vistosa mas deu em água de barrela, como diziam meus avós, ou seja, em nada, como era de se esperar.

Já o segundo assunto me pareceu desde o início mais promissor. Tratava-se de promover uma aproximação das cidades do Rio de Janeiro e Barcelona, tomando por mote a Rio -92 (Conferência do Meio-Ambiente) e a Barcelona-92 (dos Jogos Olímpicos). O interesse maior era naturalmente de nossa parte, uma vez que a capital da Catalunha detinha então – e creio que detém até hoje – um know-how absolutamente inexcedível no campo das intervenções urbanísticas e se mostrava disposta a colaborar com um Rio bastante carente nessa área. Foi assim que em 1992 recebemos lá a visita do Prefeito Marcelo Alencar, um entusiasta da ideia, quando se assinou uma Declaração Conjunta entre as duas cidades, inaugurando uma fase importante de cooperação, cujos frutos estão agora refletidos no desenvolvimento dos planos urbanísticos do Rio de Janeiro para encarar os desafios impostos pelas Olimpíadas de 2016. Em 93, foi a vez do então Prefeito César Maia visitar também Barcelona e dar seguimento ao acordado.

Mas vamos deixar o passado em paz e começar a falar do que de fato nos interessa mais, que é o presente e sobretudo o futuro. Presente e futuro do Rio de Janeiro e de sua transformação urbanística. Mais ainda, quero falar do ambicioso projeto do Porto Maravilha, que há anos e anos não saía do papel e das gavetas da burocracia. Na semana passada tive o prazer de visitar e apreciar o belo MAR – Museu de Arte do Rio, o primeiro marco a inaugurar a nova paisagem de que os cariocas desfrutarão dentro de pouco tempo. Dentro em breve será a vez do Museu do Amanhã, desenho primoroso e complexo do arquiteto valenciano Santiago Calatrava, que tem obras espalhadas por todo o mundo, inclusive na Barcelona Olímpica.

Na verdade, há muito que eu pessoalmente vinha sonhando com a execução desse amplo projeto, destinado a mudar para muito melhor uma vasta área urbana hoje relegada e degradada, e que deverá também seguramente acarretar a transferência do próprio eixo de lazer da cidade de São Sebastião. Jamais consegui entender por que centros como Baltimore, Buenos Aires, Barcelona e até a nossa Belém (todas com B…) há tempos já lograram realizar essa revitalização de suas zonas portuárias, enquanto o Rio patinava na indecisão e incompetência de seus governantes. Emfim, parece que agora vamos. Inshalá! As obras são realmente de vulto e algumas decisões demandaram e demandam muita coragem, a começar pela própria demolição do Elevado da Perimetral, a transformação da Avenida Rodrigues Alves em via expressa, a criação de uma nova rota, chamada provisoriamente de Binário do Porto, e a reurbanização de 70 km de vias. Não é fácil, mas em caso de desânimo aconselho a se dar uma espiada na fantástica epopeia barcelonense, que envolveu uma determinação e um esforço sobre-humanos de autoridades e uma colaboração invejável de cada cidadão. Transformar uma cidade – abrindo novas ruas, avenidas, praças, túneis, pontes, passagens subterrâneas, elevados, viadutos, etc. – e mantendo-a em perfeito funcionamento em seu dia a dia, com o suprimento de energia elétrica, gás, telefone… Eis o milagre de que fui testemunha (e também beneficiário) na Barcelona pré-Olimpíada. E eis o desafio, seguramente menor, porém sempre muito grande, que o Rio deverá enfrentar.

Mas, traduzindo o que dizia um professor meu de Inglês em tempos idos e vividos, mais vale um grama de imagens que uma tonelada de palavras. Ou seja, ao visitar o MAR tive a satisfação de ver também um quadro emoldurado contendo informações detalhadas sobre o projeto do Porto Maravilha, enriquecidas por imagens de vídeo mostrando o andamento de cada obra. Ora, pensei comigo, isso é exatamente cópia do que fez Barcelona durante suas obras olímpicas, ou seja um vídeo final de seis minutos contando em imagens (atenção: imagens filmadas e não computação gráfica) o desenvolvimento das obras ao longo de oito anos. Uma cópia desse vídeo, realização inédita no mundo até então, me foi ofertado pelo Presidente da Câmara de Barcelona (o Prefeito da cidade), Pasqual Maragall y Mira, quando de minha partida definitiva da cidade que tanto amei – e amo. Anos mais tarde, quando Embaixador do Brasil no Marrocos, voltei a Barcelona com o propósito, felizmente realizado, de filmar um documentário sobre a cidade. Na introdução do filme, inseri exatamente esse vídeo, intitulado Transformació  d´una Ciutat, que os generosos leitores deste Quincasblog poderão ver, clicando no site abaixo do You Tube. Não percam, pois é realmente impressionante. E para mim, confesso, emocionante.

www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

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6 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO

6 Respostas para “BARCELONA E RIO DE JANEIRO

  1. Antonio

    Caro Amigo Embaixador Lauro Moreira.
    Como é bom estar sempre a aprender consigo.
    Agora de SP um abraço do Antonio Bacelar Carrelhas

  2. Lúcio Flávio Vale da Silva

    Meu caro Embaixador LAURO MOREIRA,
    Uma honra poder desfrutar de seus escritos que mais que informações são aulas inestimáveis.
    Grande abraço,
    Lúcio Flávio

  3. Vera Lúcia de Oliveira

    Parabéns, Lauro, pelo rico texto e vídeo inacreditável! Fui a Barcelona em 1985, portanto não vi essa nova cidade…
    Um grande abraço da sua leitora Vera.

  4. Maria das Graças Fleury Curado

    Lauro – vou repassar seu gostoso texto (que me fez lembrar a antiga expressão “água de barrela”!) para minhas cunhadas que moram no Rio.
    Texto claro, explicativo, cheio de importantes informações! Vamos torcer para que nossa cidade maravilhosa enfrente este desafio! Abs Graça Fleury

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