SEMPRE CLARICE

                              Sempre Clarice

                                     Lauro Moreira

Nos últimos anos, um dos fenômenos mais auspiciosos no campo literário brasileiro tem sido, sem dúvida, a crescente internacionalização da obra de Clarice Lispector. Em vários países, traduções e edições de seus livros se multiplicam, bem como biografias e estudos interpretativos. Aos pioneiros desses estudos no Brasil nos anos de 1960, como o ensaísta Benedito Nunes e a poeta Marly de Oliveira, soma-se agora um alentado grupo de estudiosos e pesquisadores brasileiros, como a Professora Nádia Gotlib, da USP, com duas excelentes obras sobre CL, e estrangeiros, como o Professor Carlos Mendes de Souza, da Universidade do Minho, e o jovem biógrafo norte-americano Benjamim Moser, um apaixonado explícito pela figura e obra de sua biografada.

 Há poucas semanas voltei a ter contato mais estreito com Clarice e sua obra pelas mãos de um romancista, dramaturgo e ensaísta francês, meu amigo Bruno Bayen, que fez para o teatro uma criativa adaptação de “A mulher que matou os peixes”, um livro aparentemente dedicado ao publico infantil – mas apenas aparentemente, como tudo em Clarice. Livro que começa assim:

 “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra. Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança nem bicho sofrer”

  Parêntese: essa obra de Clarice está dedicada, entre outras crianças, a Mônica, minha filha, que na época tinha menos de um ano. Fecho o parêntese e sigo. Esta versão teatral de Bruno Bayen, depois de ser encenada em Paris, sob sua direção, e interpretada pela atriz Emmanuelle Lafon, foi reapresentada com sucesso em São Paulo, Brasília e Porto Alegre no mês passado. Ao mesmo tempo, fui por ele convidado para rever a tradução e ler no SESC uma comovida conferência que ele havia preparado sobre Clarice, envolvendo vida e obra.

 Minha convivência com Clarice foi intensa e ao longo de vários anos. Marly de Oliveira, então minha mulher, tinha por ela não apenas uma profunda admiração mas uma afinidade que me impressionou desde o primeiro momento em que se conheceram. Lembro-me de um artigo de Marly no Jornal do Brasil em meados dos anos 60, que impressionou vivamente não só a Clarice como aos leitores e críticos da época, defendendo com ferocidade e competência a obra clariciana de uns ataques publicados pelo crítico e ensaísta Wilson Martins. Segundo relato da própria Clarice, seu amigo e escritor Otto Lara Rezende telefonou-lhe então para dizer-lhe que ela havia finalmente encontrado sua intérprete, sua exegeta…

  Aliás, essa admiração era recíproca e explícita, como se pode ver pela crônica de Clarice publicada também no Jornal do Brasil alguns anos depois (6 de março de 1971), intitulada Um Poeta Mulher, na qual começa por dizer que

 “Eu mesma não sei como consegui quebrar o pudor que Marly de Oliveira tem de aparecer em público. E nem todos talvez saibam quem ela é. Vou apresentá-la com grande alegria: trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia. É muito jovem, mas quando ainda mais jovem, já era professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana na PUC, na Faculdade Católica de Petrópolis e na Faculdade de Letras de Friburgo, o que a obrigava a cansativas viagens semanais. Já escreveram sobre Marly, entre outros, Alceu de Amoroso Lima, Walmir Ayala, José Guilherme Merquior, Antônio Houaiss. E, em Roma, um dos grandes poetas italianos, Ungaretti.”

 Vinte e cinco anos após a morte de Clarice, ocorrida em dezembro de 1978, Marly de Oliveira escreve um breve, belo e  lúcido artigo em que evoca a personalidade e a obra da autora de Perto do Coração Selvagem. Vale a pena dá-lo a conhecer agora aos meus poucos mas fiéis leitores do Quincasblog:

 

 Perto de Clarice 25 anos depois

                                  Marly de Oliveira

 … nada nela parecia aspirar a um absoluto, mas toda ela fazia pensar no absoluto. Diante dela o vazio surgia como o absurdo, mas ao lado do vazio, a sensação momentânea de plenitude que compensava o deserto da espera. Mal agüentava suportar a sucessão dos dias, menos ainda a sucessão das estações, das transformações, da cólera, do amor, da desesperança, do engano. Com Clarice não se caía no óbvio, por isso desconcertava, e a sensação que transmitia parecia assentar na estranheza do verde olhar oblíquo, da pergunta feita com inocência     seguida da sofreguidão de obter uma resposta. Incrédula diante da força prodigiosa que rege o universo, ela se entregava, absorta como quem reza, perplexa como quem quer entender, humilde como quem sabe que o não-saber é o fundo das coisas. Neste sentido restrito havia entre ela e seus personagens uma enorme afinidade. O questionamento da linguagem como forma de dizer o real não era um processo de investigação, mas a declaração viva e sofrida de quem sabe que, uma vez enunciado, o que quer dizer já está modificado pela palavra que o enuncia.

 Foi com a leitura de Clarice que compreendi a distinção feita por Vico entre prosa e poesia.No cotidiano como no sem tempo da criação, Clarice pensava de forma concreta. Uma coisa era sempre como outra , jamais uma abstração. A singularidade de sua expressão corresponde, a meu ver, à singularidade de sua visão do mundo, que persegue uma obscura forma de conhecimento, que a liga mais às coisas que aos demais homens. Como numa grande sinfonia os temas fundamentais se anunciam desde o primeiro livro: a solidão condição do      homem, que podemos considerar sob dois aspectos, a condição pela dificuldade de comunicação com o outro e a solidão pelo fato de se saber um e uno na essência. Assim, pois, caracteriza-os também uma violência vital, que está na raiz de sua aspiração à liberdade e no desejo constante de criar, sobretudo numa aspiração à inconsciência: esta a marca do artista, qualquer homem pode raciocinar com segurança segundo a verdade, mas exatamente aquelas coisas escapam à luz acesa, na escuridão tornam-se fosforescentes.

 Nos livros seguintes, vê-se que para CL compreender não é caminho. Assim em O lustre, A cidade sitiada. Já em A maçã no escuro, Martim comete um crime para romper com a ordem de tudo e sentir-se livre, para sentir-se enfim uma pessoa. O crime é pois um ato de criação que ele reivindica levando o possível a seu extremo. No entanto começa a sentir-se menor que os acontecimentos que tal gesto desencadeara. Como uma pessoa é limitada, o limpo resultado fora descobrir a experiência de não poder. Só poderia criar o que já existia. De certo modo, o livro seguinte, A paixão segundo GH, elucida o sentido maior de A maçã no escuro. Em ambos há um estudo da condição humana, com a diferença de que neste não se atinge o sentido da queda, ao passo que naquele a mesma queda lhe dá o sentido de toda a sua vida.

 Assim como Martim no curral experimenta algum mal estar ao intuir que estava certo aquele cheiro de matéria, que ali estava a raiz da vida, a porta de entrada de GH para o conhecimento se faz através do asco: uma barata. No quarto em que entra, um estranho processo se daria de desindividualização, e do qual caminha para uma verdade ou uma loucura. Caminhar para a verdade era caminhar para a barata e caminhar para a barata era caminhar para o reconhecimento da mais primária vida divina, votar-se a própria queda para aceitar que a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos.

Muitos livros completam a obra de Clarice, todos estão ao alcance do leitor, falta Clarice que há vinte e cinco anos partiu. Deixou-nos uma imagem pura, selvagem, onírica, esquiva, inteira, fragmentada, inalcançável. Vejo-a ainda no apartamento do Leme: ela se move inquieta, nós a ouvimos comovidas, ela sentindo-se aceita: leva-lhe o vento a voz que ao vento deita.

 Marly de Oliveira

 

 

 

E nesse momento de saudade e evocação, deixo ainda, para terminar essa homenagem a Clarice, a voz de Marly de Oliveira no poema XVIII de seu livro Aliança, publicado em 1979, ou seja, dois anos após a morte de sua amiga querida:

    

                    Clarice

Revejo seu rosto nos vários retratos:

cada um capta algo, nenhum a totalidade

do que ela foi, do que é ainda,

a cada instante outra/renovada.

Eu sei que ela tocou no escuro o Proibido

e conheceu a Paixão

com todas as suas quedas.

Quem esteve a seu lado sabe

o que é fulguração de abismo

e piscar de estrela na treva.

                         De Aliança (1979) 

 ImagemImagem

Observação: Em setembro de 2010, e a convite de meu amigo José Carlos de Vasconcelos, seu Editor, escrevi para o Jornal de Letras de Lisboa um breve artigo de evocação desse convívio com a minha sempre lembrada madrinha de casamento (ao lado de Manuel Bandeira), cuja obra portentosa rompe as fronteiras da língua e do Brasil para alcançar hoje o reconhecimento internacional. Essas recordações despretenciosas (Lembrando Clarice) mas para mim muito tocantes, estão transcritas neste blog, na seção CLARICE, postadas em junho de 2012. Vale conferir.

LM

 

 

 

 

                                    

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5 Comentários

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5 Respostas para “SEMPRE CLARICE

  1. Pingback: Sempre Clarice – De Lauro Moreira – Embaixador Brasileiro

  2. renata siqueira bueno

    Gostei muito do texto e poesia de Marly sobre Clarice, muito obrigada Lauro!

  3. Vera Lúcia de Oliveira

    Excelente texto e poema maravilhoso!
    Abraço, Vera

  4. Pingback: FUTEBOL E SEUS CRAQUES – De LAURO MOREIRA

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