Arquivo do mês: outubro 2013

BARCELONA E RIO DE JANEIRO

  BARCELONA E RIO DE JANEIRO: TRANSFORMAÇÃO DE UMA CIDADE          

                                                                               Lauro Moreira

Por obra e manobra do destino, recebi a graça de viver e trabalhar em Barcelona ao longo de quatro anos, de fins de 1991 até dezembro de 94. Ou seja, pude testemunhar a reta final das obras de transformação da cidade, assistir aos Jogos Olímpicos de 92 e ainda presenciar a consolidação daquele milagre urbanístico que espantou o mundo.

A capital da Catalunha, como sabemos, data de mais de 2.200 anos, criada no tempo das Guerras Púnicas dos cartagineses Amilcar e Anibal Barca – daí o seu nome original de Colônia Barcino, dado mais tarde pelos romanos. Ao longo desses vinte e dois séculos, a cidade passou por peripécias incríveis, chegando ao fundo poço a partir do século quinze, com a união dos reinos de Castilla e Aragón, através do casamento de Fernando e Isabel, os chamados Reis Católicos. Ou seja, o ouro e a prata da América descoberta em 1492 não serviram senão aos interesses de Castilla, ficando os catalães proibidos de manter contato com esse novo mundo até o século dezoito. É só a partir daí que Barcelona começa a despertar de uma penosa e prolongada letargia, sabendo valer-se do comércio exterior e da revolução industrial em curso para transformar-se no século dezenove em um dos centros mais prósperos do Mediterrâneo.

O progresso foi tão grande e tão rápido, que a partir de 1860 a cidade viu-se obrigada a alargar os limites urbanos, derrubando as muralhas que a aprisionavam e incorporando os vários pequenos núcleos habitacionais de seu entorno. Essa primeira grande transformação se deu com o chamado Plano Cerdà (do arquiteto Ildefons Cerdà), considerado depois  o mais importante projeto urbanístico do século na Europa. Uma nova cidade surgia com o Eixample (Alargamento), planejada em seus mínimos detalhes, com quarteirões absolutamente simétricos e edifícios de seis andares (como em Brasília, cem anos depois) e com obras marcantes no estilo Art Nouveau, criadas por grandes arquitetos do chamado Modernismo Catalão, entre eles Gaudi, Domenèch y Muntaner e Puig y Cadafalch, e por um imenso exército de artistas e artesãos, que fizeram de Barcelona uma dos ícones da arquitetura mundial.

A segunda grande intervenção urbanística deu-se no final da década de 1920, quando a cidade se preparou para sediar as Olimpíadas de 1936 – que finalmente foi parar nas mãos de Hitler, para grande frustração dos catalães. Mas eles não desanimaram – aliás, não desanimam nunca –  e acabaram por conseguir sediar os Jogos de 1992. Para isso, promoveram uma verdadeira revolução na cidade de Barcelona, transformando-a por completo em apenas oito anos, preparando-a não só para os eventos esportivos previstos, mas sobretudo para o século 21. Essa é a Barcelona de hoje, Ara com mai, como gostam de dizer seus orgulhosos habitantes, ou seja, Agora como nunca.

Bem, mas depois de todo este intróito histórico aparentemente dispensável, vamos ao que interessa, ou pelo menos ao que pretendo comentar aqui. Enquanto Cônsul-Geral do Brasil em Barcelona naquele período, tive oportunidade de tratar de alguns temas específicos de interesse do Brasil refentes a Jogos Olímpicos. O primeiro foi o de trabalhar diretamente com delegações do Governo brasileiro na campanha pela indicação de Brasília para sediar as Olimpíadas de 2000, participando de visitas e reuniões com os organizadores catalães envolvidos no assunto. De nosso lado encontravam-se, entre outros e em diferentes ocasiões, o Secretário Nacional de Esportes Arthur Antunes Coimbra – Zico, o Presidente da Confederação Brasileira de Volei, Carlos Arthur Nuzman, e o inventor do saque Jornada nas Estrelas, Bernard Rajsman, posteriormente também Secretário Nacional de Esportes. A batalha foi vistosa mas deu em água de barrela, como diziam meus avós, ou seja, em nada, como era de se esperar.

Já o segundo assunto me pareceu desde o início mais promissor. Tratava-se de promover uma aproximação das cidades do Rio de Janeiro e Barcelona, tomando por mote a Rio -92 (Conferência do Meio-Ambiente) e a Barcelona-92 (dos Jogos Olímpicos). O interesse maior era naturalmente de nossa parte, uma vez que a capital da Catalunha detinha então – e creio que detém até hoje – um know-how absolutamente inexcedível no campo das intervenções urbanísticas e se mostrava disposta a colaborar com um Rio bastante carente nessa área. Foi assim que em 1992 recebemos lá a visita do Prefeito Marcelo Alencar, um entusiasta da ideia, quando se assinou uma Declaração Conjunta entre as duas cidades, inaugurando uma fase importante de cooperação, cujos frutos estão agora refletidos no desenvolvimento dos planos urbanísticos do Rio de Janeiro para encarar os desafios impostos pelas Olimpíadas de 2016. Em 93, foi a vez do então Prefeito César Maia visitar também Barcelona e dar seguimento ao acordado.

Mas vamos deixar o passado em paz e começar a falar do que de fato nos interessa mais, que é o presente e sobretudo o futuro. Presente e futuro do Rio de Janeiro e de sua transformação urbanística. Mais ainda, quero falar do ambicioso projeto do Porto Maravilha, que há anos e anos não saía do papel e das gavetas da burocracia. Na semana passada tive o prazer de visitar e apreciar o belo MAR – Museu de Arte do Rio, o primeiro marco a inaugurar a nova paisagem de que os cariocas desfrutarão dentro de pouco tempo. Dentro em breve será a vez do Museu do Amanhã, desenho primoroso e complexo do arquiteto valenciano Santiago Calatrava, que tem obras espalhadas por todo o mundo, inclusive na Barcelona Olímpica.

Na verdade, há muito que eu pessoalmente vinha sonhando com a execução desse amplo projeto, destinado a mudar para muito melhor uma vasta área urbana hoje relegada e degradada, e que deverá também seguramente acarretar a transferência do próprio eixo de lazer da cidade de São Sebastião. Jamais consegui entender por que centros como Baltimore, Buenos Aires, Barcelona e até a nossa Belém (todas com B…) há tempos já lograram realizar essa revitalização de suas zonas portuárias, enquanto o Rio patinava na indecisão e incompetência de seus governantes. Emfim, parece que agora vamos. Inshalá! As obras são realmente de vulto e algumas decisões demandaram e demandam muita coragem, a começar pela própria demolição do Elevado da Perimetral, a transformação da Avenida Rodrigues Alves em via expressa, a criação de uma nova rota, chamada provisoriamente de Binário do Porto, e a reurbanização de 70 km de vias. Não é fácil, mas em caso de desânimo aconselho a se dar uma espiada na fantástica epopeia barcelonense, que envolveu uma determinação e um esforço sobre-humanos de autoridades e uma colaboração invejável de cada cidadão. Transformar uma cidade – abrindo novas ruas, avenidas, praças, túneis, pontes, passagens subterrâneas, elevados, viadutos, etc. – e mantendo-a em perfeito funcionamento em seu dia a dia, com o suprimento de energia elétrica, gás, telefone… Eis o milagre de que fui testemunha (e também beneficiário) na Barcelona pré-Olimpíada. E eis o desafio, seguramente menor, porém sempre muito grande, que o Rio deverá enfrentar.

Mas, traduzindo o que dizia um professor meu de Inglês em tempos idos e vividos, mais vale um grama de imagens que uma tonelada de palavras. Ou seja, ao visitar o MAR tive a satisfação de ver também um quadro emoldurado contendo informações detalhadas sobre o projeto do Porto Maravilha, enriquecidas por imagens de vídeo mostrando o andamento de cada obra. Ora, pensei comigo, isso é exatamente cópia do que fez Barcelona durante suas obras olímpicas, ou seja um vídeo final de seis minutos contando em imagens (atenção: imagens filmadas e não computação gráfica) o desenvolvimento das obras ao longo de oito anos. Uma cópia desse vídeo, realização inédita no mundo até então, me foi ofertado pelo Presidente da Câmara de Barcelona (o Prefeito da cidade), Pasqual Maragall y Mira, quando de minha partida definitiva da cidade que tanto amei – e amo. Anos mais tarde, quando Embaixador do Brasil no Marrocos, voltei a Barcelona com o propósito, felizmente realizado, de filmar um documentário sobre a cidade. Na introdução do filme, inseri exatamente esse vídeo, intitulado Transformació  d´una Ciutat, que os generosos leitores deste Quincasblog poderão ver, clicando no site abaixo do You Tube. Não percam, pois é realmente impressionante. E para mim, confesso, emocionante.

www.youtube.com/watch?v=Hz2WSAXja6M

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Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO

SEMPRE CLARICE

                              Sempre Clarice

                                     Lauro Moreira

Nos últimos anos, um dos fenômenos mais auspiciosos no campo literário brasileiro tem sido, sem dúvida, a crescente internacionalização da obra de Clarice Lispector. Em vários países, traduções e edições de seus livros se multiplicam, bem como biografias e estudos interpretativos. Aos pioneiros desses estudos no Brasil nos anos de 1960, como o ensaísta Benedito Nunes e a poeta Marly de Oliveira, soma-se agora um alentado grupo de estudiosos e pesquisadores brasileiros, como a Professora Nádia Gotlib, da USP, com duas excelentes obras sobre CL, e estrangeiros, como o Professor Carlos Mendes de Souza, da Universidade do Minho, e o jovem biógrafo norte-americano Benjamim Moser, um apaixonado explícito pela figura e obra de sua biografada.

 Há poucas semanas voltei a ter contato mais estreito com Clarice e sua obra pelas mãos de um romancista, dramaturgo e ensaísta francês, meu amigo Bruno Bayen, que fez para o teatro uma criativa adaptação de “A mulher que matou os peixes”, um livro aparentemente dedicado ao publico infantil – mas apenas aparentemente, como tudo em Clarice. Livro que começa assim:

 “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra. Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança nem bicho sofrer”

  Parêntese: essa obra de Clarice está dedicada, entre outras crianças, a Mônica, minha filha, que na época tinha menos de um ano. Fecho o parêntese e sigo. Esta versão teatral de Bruno Bayen, depois de ser encenada em Paris, sob sua direção, e interpretada pela atriz Emmanuelle Lafon, foi reapresentada com sucesso em São Paulo, Brasília e Porto Alegre no mês passado. Ao mesmo tempo, fui por ele convidado para rever a tradução e ler no SESC uma comovida conferência que ele havia preparado sobre Clarice, envolvendo vida e obra.

 Minha convivência com Clarice foi intensa e ao longo de vários anos. Marly de Oliveira, então minha mulher, tinha por ela não apenas uma profunda admiração mas uma afinidade que me impressionou desde o primeiro momento em que se conheceram. Lembro-me de um artigo de Marly no Jornal do Brasil em meados dos anos 60, que impressionou vivamente não só a Clarice como aos leitores e críticos da época, defendendo com ferocidade e competência a obra clariciana de uns ataques publicados pelo crítico e ensaísta Wilson Martins. Segundo relato da própria Clarice, seu amigo e escritor Otto Lara Rezende telefonou-lhe então para dizer-lhe que ela havia finalmente encontrado sua intérprete, sua exegeta…

  Aliás, essa admiração era recíproca e explícita, como se pode ver pela crônica de Clarice publicada também no Jornal do Brasil alguns anos depois (6 de março de 1971), intitulada Um Poeta Mulher, na qual começa por dizer que

 “Eu mesma não sei como consegui quebrar o pudor que Marly de Oliveira tem de aparecer em público. E nem todos talvez saibam quem ela é. Vou apresentá-la com grande alegria: trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia. É muito jovem, mas quando ainda mais jovem, já era professora de língua e literatura italiana e de literatura hispano-americana na PUC, na Faculdade Católica de Petrópolis e na Faculdade de Letras de Friburgo, o que a obrigava a cansativas viagens semanais. Já escreveram sobre Marly, entre outros, Alceu de Amoroso Lima, Walmir Ayala, José Guilherme Merquior, Antônio Houaiss. E, em Roma, um dos grandes poetas italianos, Ungaretti.”

 Vinte e cinco anos após a morte de Clarice, ocorrida em dezembro de 1978, Marly de Oliveira escreve um breve, belo e  lúcido artigo em que evoca a personalidade e a obra da autora de Perto do Coração Selvagem. Vale a pena dá-lo a conhecer agora aos meus poucos mas fiéis leitores do Quincasblog:

 

 Perto de Clarice 25 anos depois

                                  Marly de Oliveira

 … nada nela parecia aspirar a um absoluto, mas toda ela fazia pensar no absoluto. Diante dela o vazio surgia como o absurdo, mas ao lado do vazio, a sensação momentânea de plenitude que compensava o deserto da espera. Mal agüentava suportar a sucessão dos dias, menos ainda a sucessão das estações, das transformações, da cólera, do amor, da desesperança, do engano. Com Clarice não se caía no óbvio, por isso desconcertava, e a sensação que transmitia parecia assentar na estranheza do verde olhar oblíquo, da pergunta feita com inocência     seguida da sofreguidão de obter uma resposta. Incrédula diante da força prodigiosa que rege o universo, ela se entregava, absorta como quem reza, perplexa como quem quer entender, humilde como quem sabe que o não-saber é o fundo das coisas. Neste sentido restrito havia entre ela e seus personagens uma enorme afinidade. O questionamento da linguagem como forma de dizer o real não era um processo de investigação, mas a declaração viva e sofrida de quem sabe que, uma vez enunciado, o que quer dizer já está modificado pela palavra que o enuncia.

 Foi com a leitura de Clarice que compreendi a distinção feita por Vico entre prosa e poesia.No cotidiano como no sem tempo da criação, Clarice pensava de forma concreta. Uma coisa era sempre como outra , jamais uma abstração. A singularidade de sua expressão corresponde, a meu ver, à singularidade de sua visão do mundo, que persegue uma obscura forma de conhecimento, que a liga mais às coisas que aos demais homens. Como numa grande sinfonia os temas fundamentais se anunciam desde o primeiro livro: a solidão condição do      homem, que podemos considerar sob dois aspectos, a condição pela dificuldade de comunicação com o outro e a solidão pelo fato de se saber um e uno na essência. Assim, pois, caracteriza-os também uma violência vital, que está na raiz de sua aspiração à liberdade e no desejo constante de criar, sobretudo numa aspiração à inconsciência: esta a marca do artista, qualquer homem pode raciocinar com segurança segundo a verdade, mas exatamente aquelas coisas escapam à luz acesa, na escuridão tornam-se fosforescentes.

 Nos livros seguintes, vê-se que para CL compreender não é caminho. Assim em O lustre, A cidade sitiada. Já em A maçã no escuro, Martim comete um crime para romper com a ordem de tudo e sentir-se livre, para sentir-se enfim uma pessoa. O crime é pois um ato de criação que ele reivindica levando o possível a seu extremo. No entanto começa a sentir-se menor que os acontecimentos que tal gesto desencadeara. Como uma pessoa é limitada, o limpo resultado fora descobrir a experiência de não poder. Só poderia criar o que já existia. De certo modo, o livro seguinte, A paixão segundo GH, elucida o sentido maior de A maçã no escuro. Em ambos há um estudo da condição humana, com a diferença de que neste não se atinge o sentido da queda, ao passo que naquele a mesma queda lhe dá o sentido de toda a sua vida.

 Assim como Martim no curral experimenta algum mal estar ao intuir que estava certo aquele cheiro de matéria, que ali estava a raiz da vida, a porta de entrada de GH para o conhecimento se faz através do asco: uma barata. No quarto em que entra, um estranho processo se daria de desindividualização, e do qual caminha para uma verdade ou uma loucura. Caminhar para a verdade era caminhar para a barata e caminhar para a barata era caminhar para o reconhecimento da mais primária vida divina, votar-se a própria queda para aceitar que a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos.

Muitos livros completam a obra de Clarice, todos estão ao alcance do leitor, falta Clarice que há vinte e cinco anos partiu. Deixou-nos uma imagem pura, selvagem, onírica, esquiva, inteira, fragmentada, inalcançável. Vejo-a ainda no apartamento do Leme: ela se move inquieta, nós a ouvimos comovidas, ela sentindo-se aceita: leva-lhe o vento a voz que ao vento deita.

 Marly de Oliveira

 

 

 

E nesse momento de saudade e evocação, deixo ainda, para terminar essa homenagem a Clarice, a voz de Marly de Oliveira no poema XVIII de seu livro Aliança, publicado em 1979, ou seja, dois anos após a morte de sua amiga querida:

    

                    Clarice

Revejo seu rosto nos vários retratos:

cada um capta algo, nenhum a totalidade

do que ela foi, do que é ainda,

a cada instante outra/renovada.

Eu sei que ela tocou no escuro o Proibido

e conheceu a Paixão

com todas as suas quedas.

Quem esteve a seu lado sabe

o que é fulguração de abismo

e piscar de estrela na treva.

                         De Aliança (1979) 

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Observação: Em setembro de 2010, e a convite de meu amigo José Carlos de Vasconcelos, seu Editor, escrevi para o Jornal de Letras de Lisboa um breve artigo de evocação desse convívio com a minha sempre lembrada madrinha de casamento (ao lado de Manuel Bandeira), cuja obra portentosa rompe as fronteiras da língua e do Brasil para alcançar hoje o reconhecimento internacional. Essas recordações despretenciosas (Lembrando Clarice) mas para mim muito tocantes, estão transcritas neste blog, na seção CLARICE, postadas em junho de 2012. Vale conferir.

LM

 

 

 

 

                                    

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