UM CONVIDADO ESPECIAL

MACHADO DE ASSIS E RUBÉN DARIO    ImagemImagem

 Os parcos porém fieis leitores deste blog já perceberam que tenho procurado apresentar, embora de modo despretencioso, algo sempre relacionado com minhas vivências e minhas reflexões sobre elas. Ou seja, procuro tratar “de tudo um pouco”, mas a partir de minha própria cozinha e minhas  próprias receitas.

 Hoje, no entanto, o Quincasblog abre com muito prazer uma exceção e publica um texto de um colega diplomata, jornalista, escritor e amigo de toda vida, Victor M. de Moraes. O comovido artigo, escrito há alguns anos, relata episódio muito pouco conhecido na vida de nosso Machado e raramente mencionado por seus biógrafos: uma visita que lhe fez o diplomata nicaraguense e grande poeta hispano-americano Rubén Dario no início de século vinte (1906), no Rio de Janeiro.  Não precisa acrescentar que seu autor é também um machadiano de carteirinha, como se verá, e que só isso já bastaria para que o Quincasblog lhe abrisse as portas de par em par…

Com vocês, a surpreendente história de uma visita inesperada.

                                                                                                                                                        Lauro Moreira

ENCONTRO DE GIGANTES: RUBÉN VISITA MACHADO

 Em 1944, a Fundação Internacional que leva o nome do grande poeta das Américas publicou o excelente “O Brasil em Rubén Darío”. Poucos sabem que Don Rubén foi, além de um diplomata habilidoso e competente, um grande poeta, o que prova que a intimista atividade poética não é incompatível com a prosaica atividade pública. Rubén esteve no Rio de Janeiro, eu ousaria dizer, mais para ter oportunidade de se encontrar com outros homens de letras, do que para desfrutar das honras mundanas da diplomacia, que não o enganavam. 

Assim é que, nomeado secretário da delegação nicaragüense à Conferência Panamericana do Rio de Janeiro, chegou às terras cariocas, elegantíssimo, naquele tipo de traje que podemos ver no Salão dos Cristais, no Teatro Nacional, em Manágua (de onde nos olha e nos distrai de tudo o mais, com seu ar de dândi do início do século XX). Chegou ao Brasil cercado das atenções de seu colega e amigo, o nosso grande Joaquim Nabuco, então embaixador em Washington. Obviamente, Rubén Darío não saiu em disparada atrás de políticos e outras eminências da vida oficial. Uma vez prestadas as homenagens de praxe na bela Chancelaria do Itamaraty, saiu Don Rubén em busca de algo que lhe apetecia muito mais. Então se apagava discretamente o diplomata e iluminava-se o homem de letras, ansioso por trocar idéias com outras almas gêmeas. Para algo servem as viagens oficiais, terá pensado, ao olhar em seu redor e ver tantas cariocas bonitas, desfilando a sensualidade de olhos negros pelas ruas do Rio, que apenas começava a modernizar-se. 

Estamos em 1906. Com a ajuda de Nabuco, ocorreu-lhe visitar o escritor Machado de Assis, nosso romancista maior, cronista inigualado, poeta mediano, dramaturgo passável dos costumes do final da Monarquia que terminara pouco antes, em 1889. Last but not least, Machado fora o fundador da Academia Brasileira de Letras.  Rubén Darío o visitou na casa de Cosme Velho, bairro tradicional do Rio de Janeiro, com ares de outrora. Com um pouco de imaginação, ainda podemos ouvir em suas ruas os passos do guarda-noturno que, com golpes de bastão no pavimento, anunciava as horas da noite, ressoando promessas de bons sonhos e segurança para os seus plácidos moradores. Pois bem, entremos nesse ambiente digno do melhor dramaturgo inglês: ali vai, caminhando, Don Rubén, um gigante, mas com ares de discípulo que visita, medrosamente, a casa do mestre. Entra agora no salão senhorial de Machado, escritor no apogeu de seu prestígio literário. Está enfermo nesse dia, mas feliz com a visita de um irmão de alma que chegou da distante Nicarágua e quis vê-lo. Rubén também estava feliz na América do Sul, porque lá:

 “Existe un pais encantado

donde las horas son tan bellas

que el tiempo va a paso calldo

sobre diamantes, bajo estrellas”

Nesse país havia uma dama misteriosa com quem se encantou, de maneira ainda mais misteriosa e discreta:

 “pues alli, la flor preferida

para mi es Anna Margarida,

la bella nina del Brasil”

 Que mais poderia querer um poeta? Mas esqueçamos a menina Margarida, já triste pela partida de seu vistoso nicaragüense. Rubén entrava agora na casa de Machado. O grande poeta da América hispânica em visita ao maior escritor de um Brasil português. Um abraço forte, olhos úmidos e dois homens mágicos de palavras, olhando-se apenas. (Ninguém me contou, mas posso imaginá-lo). Estavam totalmente esquecidas a Conferência Pan-americana e as obrigações diplomáticas, aborrecidas, que se perderiam pelo próprio vazio, na noite dos tempos. Ficaria somente a memória daquela visita. Antes de despedirse de Machado de Assis, Rubén Darío lhe ofereceu uns versos, em que traça o perfil físico e psicológico do mestre brasileiro:

 “Dulce anciano que vi, en su Brasil

de fuego y de vida y de amor,

todo modestia y gracia.

Moreno que de la India tuvo su aristocracia

aspecto mandarino lengua de

sabio griego.

Acepta este recuerdo de quién oyó una

tarde en tu divino Rio tu palabra salubre

dando al orgullo todos los harapos en

que arde y a la envidia ruin lo que apenas

la cubre”.

E assim, com esse poema escrito por Rubén Darío no “divino Rio”, dois anos antes da morte de Machado de Assis (1908), eu vos deixo, amigos leitores, livres para viajar no tempo rumo a esse encontro de gigantes.

(Texto de Victor Manzolillo de Moraes, Conselheiro em missão transitória na Embaixada em Manágua, 1977).

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6 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO, MACHADO DE ASSIS, Uncategorized

6 Respostas para “UM CONVIDADO ESPECIAL

  1. Pedro Camargo

    Simplesmente tocante. Um abraço por este bom momento.
    (em geral envio comentários por e-mail. Hoje postá-lo-ei no blog).

  2. Pingback: Um convidado especial – Apresentado pelo Embaixador Lauro Moreira

  3. Pingback: Sempre Clarice – De Lauro Moreira – Embaixador Brasileiro

  4. Vera Lúcia de Oliveira

    Adorei, Lauro, seu texto! Não sabia que o grande Rubén Dario havia se encontrado com o nosso grande Machado. Gostei muitíssimo da informação…
    Abç, Vera

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