Arquivo do mês: agosto 2013

QUEM É O BRASIL?…

SERÁ QUE O BRASIL SOMOS NÓS?

ImagemLauro Moreira

Desde que, na vida diplomática, saí pela primeira vez para morar no exterior, dei-me logo conta de que me instalara em um posto de observação mais que privilegiado para avaliar melhor o meu próprio país. É verdade que no caso em questão o país onde eu me encontrava – a Argentina – não podia ser mais adequado para esse exercício de reflexão sobre o Brasil, sobretudo pelos contrastes gritantes que logo se percebem entre ambos, e que os tornam, em muitos aspectos, verdadeiros antípodas. Mas isso são outros quinhentos,  assunto para uma futura conversa.

E a verdade é que essa percepção não se limitou apenas ao meu  primeiro destino diplomático, já que nos vários outros países e continentes onde vivi por vários anos, a coisa não foi muito diferente. Era sempre a sensação de estar contemplando o meu país com muito mais paciência, compreensão e aceitação, vivendo-o a uma  distância necessária para melhor julgá-lo, escapando das agruras do imediatismo do dia a dia frenético e podendo contemplá-lo de maneira mais serena, numa ótica de médio prazo.

Com o hábito desse exercício e a partir dessa perspectiva privilegiada, acho que acabei aprendendo algumas coisas sobre nós mesmos e o país em que nos tocou nascer e viver. Entre elas, por exemplo, a percepção, para mim claríssima, de que psicológica e emocionalmente não há nada mais parecido com o povo brasileiro que um adolescente. Cheguei mesmo, numa certa época, a ler alguns livros de psicologia do adolescente, a  ver se entendia melhor o caráter de meus compatriotas.

Não como especialista, que não o sou, mas como simples curioso, interessei-me tanto pelo assunto, que nos anos oitenta, vivendo em Washington, acabei recebendo um convite informal para fazer uma palestra sobre o tema a diplomatas americanos do Foreign Service Institute (FSI). Alguns anos depois, aliás, a gravação em vídeo dessa conferência foi publicada em um livro nos Estados Unidos, pelo já então ex-Diretor do FSI, Harvey Summ,  com o título de Brazilian Mozaic: Portraits of a Diverse People and Culture (SR Books, 1995). O curioso, by the way, é que só vim a saber da existência desse livro muito tempo depois, pelo Google…

Mas voltando à comparação, reparem como nós brasileiros, enquanto povo, temos várias das características típicas de um jovem adolescente:  somos quase sempre irrequietos, impulsivos, impacientes, insubordinados, resistentes a qualquer forma de imposição, embora receptivos a um bom  processo  de persuasão – daí, a meu ver, diga-se de passagem, da considerável importância de campanhas midiáticas  no encaminhamento de problemas que vão de drogas ao meio-ambiente. Achamos que o mundo nasceu conosco, que não temos passado, e por isso vivemos avidamente o presente, e o vivemos apenas como uma fase transitória para um futuro que, temos certeza, será necessariamente brilhante, embora pouco ou nada façamos para que isso aconteça… Alternamos com grande facilidade estados de euforia e de depressão, ora estimulados por uma vitória no futebol ora desanimados por uma piora na situação econômica do país. Somos comovidamente generosos diante de uma criança faminta e muitas vêzes insensíveis frente às condições de vida de uma legião de miseráveis ao nosso redor. Individualistas ao extremo, mal conseguimos pensar no bem da coletividade, no bonum comune. Em suma, pensamos e agimos como se o Brasil fosse algo fora de nós, que independesse de nosso comportamento individual. Como um Álvaro de Campos falando de um Alberto Caeiro e ignorando por completo um tal de Fernando Pessoa…

Na época em que presidi a Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil (sonho que acabou se transformando num pesadelo por motivos bem conhecidos), propusemos um caminho que nos levasse a uma comemoração, no sentido etimológico,  mais que a uma simples celebração, envolvendo uma reflexão crítica sobre os nosso quinhentos anos. E cunhamos um frase, um dístico, um slogan que resumia tudo: O Brasil somos nós: quinhentos anos de História. Ou seja, parecia chegado o momento de sairmos dessa interminável adolescência e assumirmos de vez nosso destino nacional, como povo e como nação. Em outras palavras, já era hora de introjetarmos a noção de responsabilidade de cada um de nós, como cidadão e como povo, em relação aos destinos do próprio país. De cessarmos de atribuir sempre ao pai ou à mãe (leia-se ao Governo, ao Estado) a responsabilidade pelos nossos atos individuais e pelas consequências desagradáveis de nosso comportamento inadequado. Por outras palavras ainda: o Brasil foi e será sempre aquilo que dele fizermos. Vale repetir ad nauseam: o país somos nós…

Mas por que me lembrei de tudo isso hoje? Porque acabo de ler um artigo do nosso excelente João Ubaldo Ribeiro, intitulado Nós, os desordeiros, que evoca de modo quase literal esse último aspecto desta modesta reflexão que venho cultivando há tantos anos. Não resisto à tentação de reproduzir aqui o seu primeiro parágrafo:

“É comum que, quando estamos falando mal do Brasil, nos refiramos na terceira pessoa tanto ao país quanto ao seu povo. Dizemos que o brasileiro tem tais ou quais defeitos graves, como se nós não fôssemos brasileiros iguais a quaisquer outros.Em relação aos políticos, agimos quase como se se tratasse de marcianos, ou de uma espécie diferente da nossa, não de gente aqui nascida e criada, da mesma maneira que nós. Somos observadores e vítimas de fatos com cuja existência não temos nada a ver. Os corruptos são “eles”, os que desrespeitam a lei são “eles”, os que sujam as cidades são “eles”, os funcionários relapsos são “eles” – nunca nós.”

Que lhes parece, meus amigos? Não é incrível? Mas é bom que se diga também, para não parecermos demasiado pessimistas, que muitas das conclusões da reflexão proposta pelas diretrizes do V Centenário – expressas, aliás, nos poucos projetos que se salvaram do desmoralizante naufrágio da triste caravela – eram bastante positivas em relação ao nosso próprio desempenho ao longo da História. Figuras marcantes de nosso passado, como o Pe. Antônio Vieira, José Bonifácio, Mauá, Castro Alves e sua luta abolicionista, e tantos outros, cujas vozes dissonantes infelizmente tardaram tanto para serem ouvidas pelos mandatários do país, são testemunhas de um povo que tem o que contar.

De um povo que, a despeito de seu caráter ainda imaturo, adolescente, teve sempre e continua a ter ao menos uma virtude excelsa para apresentar ao mundo, a este mundo sufocado pela intolerância, oprimido pelo fundamentalismo, pela não-aceitação do outro: a nossa invejável capacidade de aceitar e de absorver o diferente, incorporando-o em definitivo, numa bendita antropofagia, e transformando-o numa terceira coisa chamada Brasil.

De todas as lições que aprendi sobre o meu país, aqui e no exterior, essa é aquela que mais me entusiasma e me comove.

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