A CULPA É DE PLUTÃO

                                                      Uma estória triste e absurda

Dizem os cultores da Astrologia que o mundo, nesta Era de Aquário, entrou agora numa fase em que segredo nenhum continuará de pé. Só se fala em transparência, em abertura, em clarear o oculto, em abrir os cadeados, em escancarar o recôndito – confessável ou não… E parece que o responsável direto por esse momento implacável  de vazamentos constrangedores, de descobrimento do até então encoberto, não é o nosso amigo australiano Julian Assange com seu badalado Wikileaks e muito menos a nossa Polícia Federal com sua cachoeira de Operações, tipo Monte Carlo, Porto Seguro ou Trem Pagador, mas simplesmente o  terrível Plutão, em seu trânsito celeste. E é forçoso reconhecer que sua atuação nesse campo tem sido de fato assustadora, sobretudo para determinadas personalidades e instituições. Veja-se por exemplo o que ocorre neste instante nas entranhas do Vaticano, escancaradas pelo escândalo do Vatileaks, ou nas oportunas investigações da nossa Comissão da Verdade, ou no julgamento do nosso triste Mensalão, ou até mesmo nos meandros penumbrosos de um Gabinete Presidencial (as Rosas não falam, como quer o maravilhoso Cartola, mas às vêzes as mazelas acabam falando por elas…).

Ora, acredito que impelido pela força irresistível de Plutão, acabei decidindo abrir também minha modesta caixa de segredos, para deixar vazar um deles, guardado a sete chaves (ou talvez a não mais de uma) nos arquivos secretos e confidenciais do Itamaraty. Como no entanto ele já está hoje bem velhinho para um documento, mesmo que secreto, acho que posso finalmente libertá-lo dessa caixa opressora e permitir que saia zanzando por aí, na esperança de que nossos filhos e netos saibam um pouco do que era o Brasil de 44 anos atrás, e aprendam a distinguir uma ditadura de uma democracia. Mas vamos lá que o assunto é sério.

O ano era o de 1969, e o mês, novembro. Eu estava lotado no Consulado-Geral do Brasil em Buenos Aires desde maio do ano anterior. Fisicamente afastado do quotidiano de meu país, trabalhando em uma repartição pública no exterior, não me dava conta inteiramente da gravidade do momento político que vivia o Brasil, amordaçado pelo poder militar e marcado, por um lado, por uma reação um tanto suicida e desorganizada de segmentos da sociedade, que tentavam reagir contra o regime discricionário, e por outro, por uma onda de violenta repressão . Eu percebia, é claro, o absurdo da situação, traduzida até em certas instruções descabidas recebidas do Itamaraty (leia-se: da área de segurança), como a de não permitir a entrada em território nacional, sem prévia consulta, de cidadãos argentinos naturalizados, desde que  nascidos em algum país da chamada Cortina de Ferro.  Diga-se que, em virtude do acordo de isenção de visto vigente entre os dois países, ao argentino nato que vinha ao Brasil bastava-lhe apresentar a carteira de identidade às nossas autoridades de imigração no momento da chegada. Ou seja, o Governo brasileiro, em nome da segurança nacional, passava a estabelecer uma discriminação entre os argentinos natos e os naturalizados…

Essa discriminação absurda e ilegal, que contrariava frontalmente o acordo bilateral vigente, só podia ser tolerada pela parte prejudicada, a República Argentina, porque também ela vivia um período de pesada repressão política, em plena ditadura do General Ongania, seguido depois pelos Generais Levingston e Lanusse…Do lado de cá, o General Médici assumia a Presidência em fins de outubro de 69, após a morte súbita de Costa e Silva, seguida por um mês de Junta militar, e tudo sob a égide do famigerado AI-5, vigente desde o ano anterior.  Enfim, o clima político dos países da região não podia ser pior, e iria deteriorar ainda mais, com os golpes militares do Uruguai, em 1973, e do Chile do General Pinochet, no mesmo ano. Pairando sobre tudo isso, a famigerada Operação Condor, verdadeiro “mercado comum da morte”, na expressão lúgubre mas precisa de Eduardo Galeano. E poderíamos acrescentar o eterno  General Stroessner, no Paraguai, o General Hugo Banzer na Bolívia (golpe em 1971) e o General Velasco Alvarado no Peru (golpe em 1968), para ampliarmos (mas não completarmos, hélàs!) o impressionante quadro de medalhas de chumbo que tomou conta da região por anos  pesados e intermináveis…

Mas voltemos ao ano de 1969. Em Buenos Aires, além de trabalhar no Consulado, fui indicado pela Embaixada do Brasil para participar do V Curso de Integração da América Latina, promovido pelo INTAL (Instituto de Integração da América Latina), subordinado ao BID e com sede na capital argentina. Foram quatro meses de estudos intensivos, ao lado de 35 outros colegas provenientes de inúmeros países do continente. O curioso é que, embora se tratasse de jovens com ótima formação cultural – alguns deles diplomatas, outros economistas e funcionários de vários Bancos Centrais, outros ainda professores universitários – nenhum deles havia estado nunca no Brasil. E vale acrescentar que entre esses colegas alguns viriam a se destacar mais tarde em seus países, como a minha amiga até hoje Rosário Green, brilhante diplomata de carreira e ex-Chanceler do México por vários anos.

A verdade é que era tudo um prato cheio para um abelhudo como eu, com a mania de promover o Brasil onde quer que me encontrasse…E com isso, tratei logo de começar a seduzir o grupo para que, uma vez concluído o curso, passassem pelo Brasil no retorno aos seus respectivos países. E foi um tal de falar de Brasil, de emprestar livros, revistas e filmes brasileiros, de negociar depois redução de tarifas com o gerente da Varig em Buenos Aires, etc., até convencer 23 latino-americanos a seguirem meu sábio conselho de conhecer o Brasil. Nesse ponto, fui conversar com o saudoso Embaixador Silveira – Antônio Francisco Azeredo da Silveira, depois Chanceler, de 1974 a1978 – e pedir-lhe apoio para um ambicioso Programa de Visita que eu havia preparado, incluindo cidades como Porto Alegre, São Paulo, Brasília e Rio, além de uma grande siderúrgica e do imenso complexo hidrelétrico de Urubupungá (Usinas de Jupiá e Ilha Solteira) que estávamos então construindo no Rio Paraná. Na verdade eu estava querendo mostrar algo inédito para a grande maioria de meus amigos visitantes, sobretudo os argentinos…

Com o apoio imprescindível e entusiasmado do Embaixador Silveira, logramos consolidar o programa previsto, e em 9 de novembro daquele triste ano de 1969, dois dias após a conclusão do Curso do INTAL, embarquei para o Brasil, à frente de 23 jovens latino-americanos ansiosos por conhecer as belezas e a pujança do gigante que começava a despertar…E despertava bem, como vim a saber depois, com a morte do guerrilheiro Carlos Marighella numa emboscada em São Paulo, exatamente cinco dias antes de nossa conturbada aterrissagem no Aeroporto de Congonhas…

E foi aí que aconteceu o absurdo dos absurdos. A vergonha e a humilhação a que foi submetido esse grupo estrangeiro de acadêmicos, professores e diplomatas, em um episódio que nos deixou a todos – e a mim sobretudo – horrorizados, estão expressas, de maneira inevitavelmente muito contida e suavizada, em um Relatório oficial que preparei após minha volta a Buenos Aires, logo encaminhado ao Itamaraty pelo Consulado Geral. Depois de décadas dormindo nos arquivos ministeriais resolvi, como disse, acordá-lo agora, com o simples propósito de dar testemunho sobre um incidente talvez pouco importante, se comparado a tantos outros dramas ocorridos nessa época sombria do Brasil e dos vizinhos latino-americanos, mas um incidente que marcou para sempre a todos nós, vítimas inocentes e indefesas da brutalidade de um poder discricionário.

A título ilustrativo, os leitores encontrarão ao final algumas páginas originais do Relatório, precedidas do texto completo do mesmo, devidamente digitalizado e com a ortografia atualizada.

Lauro Moreira

                                           RELATÓRIO

     Designado pela Embaixada do Brasil em Buenos Aires e autorizado pelo Ministério das Relações Exteriores frequentei o V Curso Regional de Integração, promovido pelo INTAL (Instituto para a Integração da América Latina), organismo subordinado ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, com sede em Buenos Aires.

      Deste V Curso, iniciado em 14 de julho e concluído em 7 de novembro próximo passado, participaram 35 técnicos (20 economistas e 15 juristas) provenientes de 17 diferentes países da América Latina, e selecionados entre 120 candidatos previamente indicados por seus respectivos governos (v. anexo 1).

      Desde o início das aulas, pude verificar, a par do elevado nível de formação intelectual dos alunos, muitos dos quais professores e assistentes de cátedras universitárias, uma constante que se tornava dia a dia mais evidente: o impacto e a surpresa indisfarçáveis que não apenas as dimensões físicas mas sobretudo as conquistas econômicas do Brasil geravam no espírito de cada um. Obras como as nossas grandes hidrelétricas, nossas rodovias, nossos avanços no setor de transportes, nossos planos regionais de desenvolvimento, nossas cidades, nossa indústria – tudo constituía motivo de admiração e surpresa para os colegas da América Central, do México, do Perú, da Bolívia, e de todos os países alí representados.

    Diante disto, e aproveitando a oportunidade de grande parte dos colegas poderem retornar a seus países em voo com escala e quase  sem despesas adicionais de passagens aéreas, iniciei um trabalho de persuasão junto a cada um (facilitando-lhes livros, publicações, fotos, etc.), no sentido de convencê-los a passar alguns dias no Brasil, quando finalizassem o Curso em Buenos Aires. O resultado dessas gestões foi bastante compensador, pois mais de vinte colegas decidiram aderir à ideia. E como um tal número justificasse plenamente a organização de um esquema de visitas, submeti ao Embaixador do Brasil em Buenos Aires um programa desta natureza, através do qual procurei apresentar especialmente três setores nos quais a economia brasileira exerce incontestável liderança entre os países latino-americanos: energia elétrica, construção naval e siderurgia (v. anexo 2). Aprovado o programa, o Embaixador Azeredo da Silveira iniciou as necessárias gestões, por cartas e telegramas, a fim de conseguir marcar as visitas previstas. (Anexo 3).

     Concluída a parte preparatória, e tendo sido minha inclusão no grupo como coordenador autorizada pelo Itamaraty, partimos de Buenos Aires para Porto Alegre no dia 8 de novembro, em avião da Cruzeiro do Sul, onde chegamos às 11:30 hs e de onde partimos para São Paulo – após um almoço de homenagem oferecido pela VARIG e uma visita guiada pela Cidade, em ônibus da Secretaria de Economia do RS – às 20hs do mesmo dia.  Vinte minutos antes de tomarmos o Caravelle da Cruzeiro do Sul para São Paulo, ocorreu um fato delicado e desagradável, que acabou gerando consequências extremamente penosas. Tal fato e tais consequências – adiante narrados objetiva e suscintamente – motivaram o presente Relatório.

    Ao ser dado o aviso para embarque, dirigi-me com o grupo, à frente dos demais passageiros, para a sala indicada, onde três Sargentos, comandados por um Coronel à paisana, passaram a revistar a bagagem de mão de cada passageiro. Sem entender bem o que sucedia, uma vez que estávamos em um voo doméstico, e a bagagem da delegação não havia sido examinada quando chegamos, apresentei-me ao Coronel em apreço e tentei explicar-lhe que delegação era aquela e o que estávamos fazendo no Brasil. Ele respondeu, secamente, que estava muito bem, mas iriam revistar assim mesmo. Calei-me e esperei que concluíssem a verificação. De repente, porém, ao abrirem uma maleta de um colega colombiano, senhor Manuel Romero Ramírez, Economista, Professor universitário e Investigador Econômico do Banco da República, encontraram três livros, em espanhol, que passaram a ser meticulosamente examinados pelos três Sargentos. A partir desse instante, o tratamento que estávamos recebendo deteriorou sensivelmente. Chamei então o Coronel, expus-lhe novamente a questão, entreguei-lhe uma cópia com os nomes e cargos dos visitantes e outra com o programa de visitas, ponderei-lhe que o cidadão era um professor universitário em trânsito por nosso país, etc., e que os livros apreendidos não eram, absolutamente, de caráter subversivo. Com efeito, tratava-se de dois livros sobre a economia argentina e de um dos últimos livros de Celso Furtado, em edição em língua espanhola. O Coronel afirmou-me, então, que contra os dois primeiros ele não tinha nada, mas que o livro de Celso Furtado ele não podia admitir. Argumentei cortêsmente que, embora pudéssemos discordar de suas ideias, Celso Furtado foi um autor citado e estudado nas aulas do INTAL, e que aquele livro, portanto, fizera parte do próprio curriculum do curso. E além disso, concluí, parecia-me que se tratava de uma obra à disposição de qualquer leitor em quase todas as livrarias brasileiras (em São Paulo, mais tarde, cheguei a vê-lo na livraria do próprio Aeroporto de Congonhas). O Oficial, enquanto ouvia minha argumentação, examinava detidamente algumas páginas do livro, até que subitamente me interrompeu para afirmar, peremptório, que ele considerava aquilo uma obra definitivamente subversiva. Diante dessa inflexibilidade, e para evitar mais demora e dissabores, pedi ao colega colombiano – que acedeu de bom grado – para deixar o livro alí. Assim foi feito, e em seguida tomamos o avião para São Paulo, onde chegamos por volta das nove horas, e onde novos acontecimentos nos aguardavam.

    Com efeito, cinco minutos depois de pararem as turbinas a porta do aparelho continuava fechada. Em seguida, entra um Capitão da FAB, acompanhado de um Sargento da Marinha e outro da Aeronáutica, pedindo a cada passageiro os documentos de identidade. Ao examinarem o passaporte do colega da Colômbia, deram-lhe praticamente voz de prisão, ordenando-lhe que os acompanhasse, confiscando-lhe toda a bagagem de mão e suspendendo aí a verificação de documentos dos demais passageiros. Levantei-me incontinenti e dirigi-me ao Capitão, dizendo-lhe quem era eu e quem era o grupo, pelo qual eu me achava responsável. Respondeu-me apenas que o acompanhasse também. E descemos, o Senhor Romero e eu, as escadarias do avião, de onde fomos literalmente escoltados por um grupo de mais de dez pessoas até a uma sala do Aeroporto – enquanto os demais passageiros permaneciam no aparelho, de onde só saíram alguns minutos depois.

    Chegando à sala de averiguações, o Capitão encarregou a dois subordinados a tarefa de proceder à revista da pessoa e da bagagem de mão do suspeito, numa sala à parte, fechada. E chamou-me para a sala contígua a fim de que lhe narrasse detalhadamente o caso. Comecei do início (identificando-me não apenas com o passaporte que lhe apresentei, mas também com uma “carteira de identidade brasileira”, que ele exigiu), repetindo-lhe as palavras que já havia dito ao Coronel em Porto Alegre, e entregando-lhe a lista dos componentes da delegação e das visitas programadas. Expliquei-lhe obviamente que o livro gerador de tanto malentendido eu o havia deixado com as autoridades de Porto Alegre. Após toda minha explanação, declarou-me o Oficial que levasse o grupo para o hotel e depois, a fim de prestar os depoimentos necessários, me dirigisse à 4a. Zona Aérea, para onde conduziriam o detido. Tentei, em vão, convencer meu interlocutor, mostrando-lhe a desnecessidade e a péssima repercussão de tal medida. Naquele momento, porém, os alto-falantes do Aeroporto chamavam-me ao balcão da Cruzeiro do Sul; pedi licença e me dirigi para lá, onde encontrei não apenas um alto funcionário da Companhia que estava à nossa espera com um ônibus, mas o restante da delegação, que a essas alturas já se encontrava em deplorável estado de ânimo. Procurei tranquilizar a todos, dizendo-lhes que as coisas corriam bem, e que daí a alguns minutos deveríamos seguir para o hotel.

    Aconteceu, porém, que ao voltar à sala de averiguações, fui apresentado pelo Capitão a um Coronel (que ali chegara na minha ausência), vestido esportivamente, e que me disse chamar-se Telmo (não guardei o sobrenome), e ser o Chefe do Setor de Segurança da 4a. Zona Aérea. Perguntou-me muito cerimoniosamente se eu era diplomata brasileiro, e se eu era Cônsul do Brasil em Buenos Aires. Respondi que sim. E passou então a fazer um eloquente discurso, conclamando-me a cumprir meu “dever patriótico” e colaborar na investigação do caso que se apresentava.

    Estranhei um pouco os modos do Coronel, mas disse-lhe com cortesia que eu estava inteiramente às suas ordens. E passei a explicar-lhe tudo, desde o início. Ao falar-lhe sobre as visitas no Brasil, mencionei-lhe o fato de que aquela delegação deveria viajar de São Paulo a Brasília, e de Brasília ao Rio, em um avião da FAB, por especial gentileza do Brigadeiro José Vaz da Silva, Comandante da 4a. Zona Aérea, em atendimento a um pedido formulado pelo Coronel Miguel Lana, Adido Aeronáutico em Buenos Aires. Nesse exato momento, o Capitão, que ao lado de inúmeros inferiores hierárquicos se encontrava assistindo à conversa, sugeriu-me que mostrasse ao Coronel a lista contendo os nomes dos integrantes do grupo e o programa de visitas ao Brasil. Voltei-me então para a poltrona onde se encontrava minha pasta, a fim de apanhar os referidos documentos, quando fui surpreendido pelo Coronel, que, avançando resolutamente em minha direção, gritou-me – e não há outro termo – num tom de voz que se podia ouvir a alguns metros daquela sala, que era bom que eu soubesse que quando ele estava conversando com alguém, não admitia que esta pessoa se voltasse de costas para ele! E disse ainda, colérico, que não admitia que eu viesse a lhe citar alí nomes de pessoas “como tráfico de influência”.

    Um pouco atordoado nos primeiros segundos mas recobrando em seguida a noção das coisas, não fiz senão entregar ao Oficial as cópias que tinha em mãos, dizendo-lhe simplesmente que alí estavam os nomes dos integrantes e o programa de visitas da delegação. Ao que ele redarguiu, ainda em voz de comando, que iriam revistar “toda a bagagem do grupo”.

    E assim foi feito. A polícia feminina se encarregou de revistar peça por peça – inclusive peças íntimas – e com minúcia exasperante e deprimente, cada uma das malas das senhoras e senhoritas. Só depois que esvaziavam literalmente uma mala, esmiuçando – à vista de todos os sargentos e policiais presentes – até os objetos de maquillage, é que seguiam adiante. Concluída a revista das bagagens das senhoras, deram início ao exame das malas dos demais membros da delegação, levado a efeito com zelo idêntico. A certa altura, depois de chamar-me para mostrar-lhe onde estava minha mala, o Coronel comandou pessoalmente a sua abertura e verificação, asseverando-me que o exemplo devia começar por casa.

    Enquanto se procedia à revista das bagagens, procurei manter um diálogo amistoso com o Coronel, o qual acabou por afirmar-me que havia três noites não podia dormir, em virtude dos inúmeros problemas que a cada passo surgiam em São Paulo. E talvez por isso acabou por me confessar, ao cabo de todo o ritual, que lamentava a forma brusca de nosso conhecimento inicial. Terminada a investigação, e não encontrando nada com ninguém que pudesse justificar um confisco ou uma averiguação mais detida, dispensou-nos a todos, não sem antes mostrar-me um longo telegrama recebido de Porto Alegre, onde se falava de uma delegação que estava partindo no Caravelle da 19:40hs., da qual fazia parte um senhor Fulano de Tal, colombiano, que portava grandes quantidades de livros subversivos, e que o grupo só não fôra detido em Porto Alegre para não atrasar ainda mais o voo da companhia.

    Saímos do Aeroporto de Congonhas para o hotel às 0:30hs do domingo, 9 de novembro. A imagem do Brasil que os 21 colegas latino-americanos levavam dentro de si ficara obviamente comprometida em todo este episódio. Felizmente, porém, o êxito alcançado nas visitas a São Paulo, Jupiá, Brasília e Rio (graças inclusive à colaboração da FAB) – como se pode verificar pelo meu Relatório específico sobre o programa de visitas – conseguiu restaurar a imagem momentaneamente desvirtuada pelos malentendidos aqui narrados.

                        Buenos Aires, dezembro de 1969.

                        Lauro Barbosa da Silva Moreira                                    RELATORIO 1

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6 Comentários

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO

6 Respostas para “A CULPA É DE PLUTÃO

  1. Fernando Cupertino

    Bravo, meu caro amigo, por esse relato que ilustra tão bem o comportamento de compatriotas nossos, durante os anos de chumbo!…
    Abraço!

    • Pois é, meu caro Fernando. O que não podemos é esquecer essa fase tão dura de nossa história. Os jovens de hoje não tem ideia do que foi tudo isso. E como dizia alguém, o problema maior de uma ditadura – sempre indesejável – é o guarda da esquina. Ou o coronel de turno…Abraços.

  2. Heloisa Pereira Carneiro

    Dr. Lauro, fiquei arrepiada só de ler, imagina passar por uma situação assim.Deu certo, mas só[de pensar no que poderia ter acontecido …se um “inteligente milico” estivesse muito cansado………Heloisa 22/03/2013

  3. Alberto Arauújo

    Mesmo já tendo conhecimento do fato ocorrido, me causou grande revolta
    ler sobre esse solavanco diplomático vivido por homens e mulheres de bem. Fico pensando quantas histórias semelhantes e até piores que essa continuam engavetadas em tantas memórias.
    Tristes lembranças.

    Alberto Araújo

  4. Pingback: Sempre Clarice – De Lauro Moreira – Embaixador Brasileiro

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