PELO RETROVISOR

                          PELO RETROVISOR

2012 já está ficando no retrovisor… Mais um ano que passa em velocidade supersônica. E o pior é a sensação de que quanto mais passa, (ou quanto mais velhos ficamos, para ser mais exato) mais fugidio o tempo se torna. Tempus fugit. Na verdade, como queria Lamartine em seu famoso poema, nós é que passamos: 

“L’homme n’a point de port, le temps n’a point de rive;

Il coule, et nous passons.”

E diante do inexorável, nossa impotência consegue apenas exclamar com o poeta de Le Lac:

“Ô temps, suspends ton vol, et vous, heures propices,

Suspendez votre cours” (…)

Bom, meus caros, acho melhor parar por aqui com essas obviedades, que, mesmo contempladas sob o manto diáfano da poesia, talvez fizesse corar o próprio Monsieur de La Palisse. (Lembram-se dele? daquele valente e nobre cavaleiro francês, herói da batalha de Pavia [1525], e que, vítima de uma molecagem do destino, acabou injustamente entrando para a história como o grande responsável pelo óbvio ululante, de que falava Nelson Rodrigues…).  Mas o que eu quero mesmo dizer, com toda  simplicidade, é que o ano de 2012, já agora em seus últimos estertores, passou mais rápido que 2011, que por sua vez passou mais rápido que 2010, etc, etc… Isso, para mim, naturalmente, pois é muito possível que para gregos, espanhóis e até para nossos irmãos de além-mar, desempregados pela crise, 2012 não lhes tenha passado tão célere. O que me importa é que, a despeito desse seu encurtamento, o ano de 2012 foi-me – melhor dito, tem-me sido – bastante pródigo em atividades e generoso em homenagens. Tantas, essas últimas, que fico até desconfiado… Vamos a um rápido retrospecto.

UMA BIBLIOTECA CENTENÁRIA 

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Num balanço resumido, começaria por citar minha eleição para a Presidência do Conselho e da Diretoria da SOLEBRARP, instituição mais que centenária de Ribeirão Preto (onde residimos desde minha aposentadoria na Carreira Diplomática, há quase três anos) e gestora da Biblioteca Pe. Euclides. Esta Biblioteca é uma das mais antigas instituições culturais da região, criada há 109 anos pelo Pe. Euclides Carneiro. Ao longo de sua riquíssima história, tem contribuído fecundamente para a formação de gerações de leitores e estudantes, além de ter abrigado em sua bela mansão original desde vítimas de desastres naturais que assolaram a região, até soldados feridos na Revolução Constitucionalista de 1932. Foi centro de cultura e de lazer, como foi hospital, quartel e abrigo para necessitados. Ou seja, esteve sempre presente na vida do cidadão de Ribeirão Preto. 

Entretanto, dificuldades crescentes para sua manutenção acabaram por quase determinar recentemente o fechamento definitivo dessa entidade de utilidade pública que abriga um verdadeiro tesouro bibliográfico e documental. Foi esse o quadro nada animador que encontramos ao aceitar o convite para integrar o Conselho Diretor e em seguida assumir sua Presidência. Imediatamente tomamos a decisão de levar adiante uma série de iniciativas destinadas a solucionar o impasse, ainda que parcialmente, e voltar a fazer da tradicional instituição um centro de pesquisa e de cultura à altura das necessidades de uma cidade como Ribeirão Preto. Essa foi aliás a ideia original de seu fundador, que a criou para ser justamente um centro difusor e promotor de cultura. Há poucos meses assinamos um Termo de Cooperação Técnica com a Câmara Municipal de Ribeirão Preto, e agora lançamos um projeto de captação de recursos, com a criação de um Quadro de Sócio Benemérito, a ser integrado por um grupo limitado de destacadas empresas da região. Vamos torcer para dar certo! E a exemplo do que ocorreu em menor dimensão no mês de maio ultimo, quando comemoramos com alguns eventos culturais mais um aniversário da Biblioteca, pretendemos multiplicar essas atividades em 2013, para celebrarmos condignamente os 110 anos da instituição.

RECITAIS DE POESIA

RP 2

Os leitores que me conhecem sabem que não desperdiço nunca uma oportunidade de realizar um recital de poesia… Há décadas que faço isso, no Brasil e no exterior, procurando sempre divulgar e promover os poetas da lusofonia. Em 1997, lancei meu primeiro CD (Mãos Dadas) interpretando textos de 28 poetas do Brasil, de Portugal, e dos cinco países africanos de expressão portuguesa. Em 2004, foi a vez de Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo, em que reproduzo uma gravação histórica realizada com o próprio poeta em minha casa no Rio, mais de trinta anos antes. Em 2009, lancei em recital na Academia Brasileira de Letras, e depois em várias cidades do Brasil, Portugal e África, um terceiro album duplo, interpretando a notável e ainda pouco conhecida obra poética de Marly de Oliveira. No You Tube encontram-se vários poemas de um DVD meu realizado pelo cineasta Alberto Araújo. CTJ BSB

Ao longo de 2012, tive oportunidade de produzir alguns desses recitais, começando pelo da Casa Thomas Jefferson em Brasília, no qual, ao lado da excelente pianista Moema Craveiro Campos, apresentamos Poesia em Concerto: uma geografia poético- musical do Brasil, repetindo o que já havíamos apresentado em Cabo Verde e Portugal, em 2008, e o que viríamos a reprisar em Goiânia, a convite da Academia Feminina de Letras (AFLAG), em setembro ultimo. E em outubro, voltei a apresentar o mencionado recital com a poesia de Marly de Oliveira e a música original de Pedro Braga, na cidade de Rio Preto, SP, convidado pela Fundação Ares e Mares, destinada a promover a lusofonia. Na mesma ocasião, cumpre-me registrar que, com muita honra, fui homenageado em sessão solene da Câmara Municipal de Rio Preto, com a presença de autoridades, artistas e intelectuais, pelos serviços prestados à cultura brasileira.

ACADEMIAS DE LETRAS E “O ANHANGUERA”

O  "Anhanguera" em sua nova casa

O “Anhanguera” em sua nova casa

No mês de agosto, tive a satisfação de ser recebido como membro da Academia de Letras e Artes do Planalto (ALAP), com sede na cidade de Luziânia, uma das mais antigas e tradicionais de meu Estado natal de Goiás. Os meus raros e queridos seguidores deste Quincasblog já tomaram conhecimento de meu discurso de posse, que se encontra aqui publicado.   

E para continuar no âmbito acadêmico, registro com igual satisfação a tocante homenagem com que a Academia de Letras de Goiás me distinguiu pelos serviços prestados à cultura brasileira no exterior e, em especial, pela promoção de artistas e intelectuais goianos. A sessão solene, proposta pelos Acadêmicos Hélio Rocha e Antônio José de Moura, foi realizada no dia 20 de setembro nos salões do majestoso Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia. E o mais interessante para mim, foi o fato de que nessa mesma tarde e nesse mesmo salão, inaugurou-se o portentoso painel O Anhanguera,  de 19 metros quadrados em cerâmica queimada e vitrificada, obra do pintor e muralista DJ Oliveira, que originalmente ornava minha casa em Brasília e que eu decidira doar ao povo de Goiás. Também neste caso, os leitores já terão visto um longo texto que escrevi em 2005 para integrar um livro (ainda não publicado, hélàs!) sobre o grande artista e meu amigo DJ Oliveira, também postado neste blog.

CINEMA

FESTCINE ANAP

Nos meus tempos de jovem – muito jovem: 16 anos – cheguei a fazer um curso de cinema no Rio de Janeiro, que me foi de enorme proveito para o resto da vida. Aprendi um pouco de  técnica, estética, e crítica cinematográficas e, sobretudo, de história da chamada sétima arte. Aprendi que a obsessão do homem com a tentativa de fixar o movimento vinha de sua pré-história, como atestam os desenhos rupestres de cavernas como a de Altamira, representando animais quadrúpedes com oito pernas.  Neste quincasblog, aliás, constam várias referências a esse meu relacionamento com o cinema, sobretudo no texto a que dei o nome de Nos tempos do super-8, onde falo das fantásticas salas de cinema da São Paulo de minha adolescência, de meu envolvimento posterior com a magia do super-8, e termino contando a história das recentes filmagens de Vazio Coração, de Alberto Araújo, acertadamente renomeado agora Aplauso e Solidão, no qual acabei estrelando ao lado de coleguinhas de menor importância, como Oton Bastos, Lima Duarte, Bete Mendes, Murilo Rosa, Larissa Maciel, Oscar Magrini, Patricia Naves… Aos que não viram, não custa passar os olhos nesse texto, que está bem engraçado.

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Do mesmo modo, tive sempre, em minhas andanças pelos postos diplomáticos no exterior, a preocupação e o empenho de promover ao máximo o cinema brasileiro, organizando mostras, realizando palestras, etc., – dentro naturalmente das conhecidas limitações de recurso de toda ordem de que sempre padeceu e padece a área cultural no país. Eu argumentava sempre que fazer um filme é caro, mas mostrá-lo é muito barato… Nos meus primeiros postos – Buenos Aires, Genebra e Washington – tínhamos que lutar para conseguir o transporte dos filmes de 35mm e as salas e projetores adequados. Em Washington, felizmente, conseguimos transferir o BACI (Brazilian-American Cultural Institute), que já existia há anos, para uma sede condigna, na qual dispúnhamos inclusive de uma sala multimídia devidamente equipada, onde organizávamos sessões regulares de cinema, concertos de música, recitais de poesia, conferências, exposições de arte, etc. Foi um período de grande efervecência cultural,incentivada pela Embaixada do Brasil, em que me sentia na pele de um verdadeiro empresário das artes brasileiras, a quem o saudoso Embaixador Sérgio Corrêa da Costa conferia poderes quase irrestritos de atuação. Já nos meus postos seguintes (Barcelona, Rabat e Lisboa) a coisa ficou bem mais fácil, com a utilização crescente do VHS e, sobretudo, com o surgimento do digital, o que nos permitia organizar mostras regulares de filmes brasileiros, em DVDs de meu acervo particular, adquiridos via internet ou em minhas viagens de férias ao Brasil. MAGRINI ANAP.

Após semear por tantos anos o cinema brasileiro no exterior – embora não fazendo mais que minha obrigação, além de auferir disso a máxima satisfação pessoal – estou colhendo agora alguns frutos inesperados, em homenagens que venho recebendo nos últimos tempos. Primeiro, foram os convites para participar em vários festivais em Portugal, integrando e/ou presidindo o juri,  especialmente aqueles organizados por meu amigo e xará (alcunha, para os amigos d’além-mar), o grande cineasta Lauro António. Agora, depois da volta ao Brasil, já estive presente em duas edições do Festival Nacional de Cinema de Anápolis (minha cidade de nascimento), e no Festival Nacional de Cinema de Araxá, organizados  ambos pelas administrações municipais e pelo dinamismo da produtora Débora Torres. Nessas oportunidades, participei uma vez como Presidente do Júri e, muito sensibilizado, recebi dos dois Festivais um troféu de homenagem pela “Difusão do Cinema Brasileiro no Exterior.” 

MÚSICA: SOLO BRASIL

   Desconfio que quem me conhece certamente conhece o meu projeto musical chamado SOLO BRASIL, não pela importância dele em si, mas pela insistência com que o promovo, tanto no Brasil quanto no exterior. Não seria este o momento adequado para detalharmos o tema, mesmo porque os eventuais interessados poderão acessar um site na internet onde está tudo esmiuçado (www.gruposolobrasil.com.br). Além disso, trata-se de algo tão importante em minha vida, que certamente um dia  o trarei de volta a este Quincasblog, com todos os pormenores de sua já longa trajetória de treze anos. Aliás, treze anos nesta sua segunda encarnação, já que historicamente tudo começou há vinte anos, em Barcelona, quando, na qualidade de Cônsul-Geral do Brasil, criamos o conjunto musical SOM BRASIL (o que em Catalão significa Somos Brasil), embrião do atual projeto, que logrou um êxito marcante, apresentando-se em mais de duas dezenas de cidades espanholas.

De volta ao país em 1995, decidi reeditar o projeto tão bem sucedido na Espanha e, em fins de 1999, com o apoio institucional  do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Cultura (eu era então o Diretor do Departamento Cultural do Itamaraty), convocando artistas altamente qualificados e tendo por objetivo mostrar a plateias estrangeiras (não mais apenas espanholas) o que há de mais representativo em nossa música, criamos  o Grupo SOLO BRASIL, que  acabou por despertar também a atenção do público brasileiro, que o tem aplaudido entusiasticamente. Ao longo da apresentação de mais de cinquenta canções consagradas, distribuídas em blocos cronológicos contextualizados por breves comentários de um narrador, o espetáculo traça um rico panorama  da música popular brasileira, de Chiquinha Gonzaga a nossos dias, do chorinho ao samba, do frevo à bossa-nova, além de oferecer uma visão da música típica das várias regiões geográficas e culturais do país. Mas neste momento o que me interessa dizer é que, após uma carreira internacional de celebrado sucesso, envolvendo nada menos de vinte países da Europa, África e Américas, o Grupo SOLO BRASIL, anos após seu exitoso CD, lança agora o primeiro DVD, com seu espetáculo “Uma viagem através da música do Brasil”, gravado em Lisboa, no Teatro da Trindade, em fins de  2009. Já nos próximos dias de dezembro (dia 15), estaremos em Goiânia, no Teatro  do SESI, e em janeiro faremos uma turnê pelo SESC, incluindo Santos, SP, Ribeirão Preto e Araraquara. O ano de 2013 promete…Finalmente, e como bônus especial, incluímos um segundo DVD, com o documentário Por Outros Solos, do cineasta Alberto Araújo, que evoca a trajetória do Grupo SOLO BRASIL, com destaque para sua recente turnê por África e Portugal.      capa-solo_brasil3

 

OUTRAS ATIVIDADES: UMA SURPRESA

Para mim, e para meus amigos em geral, não deixou de ser uma surpresa o convite que aceitei da produtora Kanal Vídeo, de Goiânia, para trabalhar em campanhas políticas de candidatos a prefeito de várias cidades de Goiás e Minas Gerais. Foi uma experiência inédita e muito interessante, em que pude colaborar, ao lado de meu amigo Alberto Araújo, um expert no assunto, redigindo textos e fazendo locução para inúmeros programas televisivos. Para isso, acabei passando um agradável período de quase três meses em Goiânia, de agosto a outubro, coisa que não acontecia comigo desde meus tempos de menino naquela cidade. Em meio a tudo isso, viajei certo dia a Jataí, uma das cidades onde a Kanal Vídeo fazia  campanha de um candidato a Prefeito, e vivi dois momentos particularmente fortes, embora totalmente distintos. O primeiro se deu na visita que fiz ao Memorial JK, onde em meio a uma galeria de fotos ampliadas, vejo de repente a figura de meu pai, então Deputado à Câmara  Federal no Rio de Janeiro, ao lado do Presidente Juscelino e do então Governador de Goiás, em uma visita à cidade em 1957. Foi uma enorme surpresa para mim e, confesso, também uma emoção forte e solitária, ao ver naquele sítio inesperado a figura de meu pai, que faleceria uma década depois daquela visita. SERRANOPOLIS 2

JK em Jataí (1957). Atrás, ao centro, meu Pai, Nicanor de Faria e Silva.

JK em Jataí (1957). Atrás, ao centro, meu Pai, Nicanor de Faria e Silva.

E o segundo momento especial foi o da minha visita ao sítio arqueológico de Serranópolis, a algumas dezenas de kilômetros de Jataí. Eu já sabia de sua existência e de sua extraordinária importância para os anais da arqueologia brasileira, sobretudo através de um romance  ainda inédito (O intervalo do vagalume), de Alberto Araújo, que trata longamente do assunto. Os incríveis desenhos e inscrições rupestres daquelas cavernas, os objetos encontrados, e especialmente um esqueleto humano, pesquisados nos últimos anos pela Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Goiás, atestam a presença do Homem naquela região há pelo menos 11 mil anos, de acordo com as provas realizadas com o carbono 14. Ou seja, é o goiano pré-histórico que já andava por ali…

CONCLUSÃO

Diante do exposto (como diríamos ao final de um Memorando itamaratiano), fica patente que em 2012 – ano também em que iniciei este meu Quincasblog, minha nova janela aberta para os amigos – acabei seguindo à risca a sábia advertência do Pe. Antônio Vieira, de que “só vivemos enquanto fazemos; quando não fazemos, apenas duramos”.  

Que assim seja!

E um 2013 Muito Feliz para os amigos e para os meus parcos e pacientes leitores!

 

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4 Comentários

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4 Respostas para “PELO RETROVISOR

  1. bcastelar

    Um novo ano maravilhoso, querido Lauro. E obrigada por continuar a personificar os ensinamentos de Pe António Vieira. Aqui estarei, a deliciar-me com sua escrita e seus feitos

  2. Valéria Vilela

    É, Au, realmente, 2012 tem sido um ano muito profícuo para você, pleno de reconhecimento ao seu trabalho.
    Trabalhar no que gostamos é muito prazeroso, mas ser reconhecido é melhor ainda, né?
    Bjo, Valéria Vilela.

  3. Pingback: POESIA LUSÓFONA -POR Embaixador LAURO MOREIRA

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