CRÔNICAS DO QUOTIDIANO

     AS DESVENTURAS DE UM NAUTA INGLÊS APAIXONADO

                                  OU

      AS AVENTURAS DA MARIA DO PORTO DE BUENOS AIRES 

                                    OU

       AS SURPREEDENTES TRAVESSURAS DE UM POETA

A bela Buenos Aires foi o meu primeiro destino diplomático. Ainda Terceiro Secretário, com três anos e meio de carreira, trabalhando no Rio de Janeiro (o Itamaraty ainda não havia criado coragem para enfrentar as agruras da nova Capital…), fui designado para servir em nosso Consulado-Geral, como Cônsul-Adjunto.

 Chegamos ao posto em maio de 68 (ainda bem que não era Paris…) e ao longo de quatro anos pude viver ali, ao lado de minha família, uma experiência rica e absolutamente inesquecível, tanto pessoal quanto profissional. Foi a época em que nosso ilustre vizinho – até então de olhos sempre postos na Europa e ignorando olimpicamente o Brasil desde finais do século dezenove – começou a perceber, não sem preocupação, que às suas costas um  imenso país começava a botar suas manguinhas de fora. Começava a modernizar-se, abrindo estrada, construindo novos estaleiros e imensas hidrelétricas, desenvolvendo uma florescente indústria automotiva, e até dando-se ao luxo de edificar uma nova Capital chamada Brasília… É claro que esse surto desenvolvimentista não chegava ainda a alterar muito a dura disparidade socio-econômica entre esses dois gigantes, com uma Argentina homogênea, rica, alfabetizada e culta. Dizia-se então, não era para humilhar e era verdade, que só na cidade de Buenos Aires havia mais livrarias e galerias de arte que em todo o território brasileiro. Que o PIB argentino era o dobro do brasileiro, etc. etc. Hoje… bem, deixa prá lá.

Bom, mas não é disso que pretendo falar agora. A tentativa de análise desse período e as fortes impressões que me marcaram para sempre ficam para uma outra hora. Neste momento, quero apenas contar a vocês uma estória muito apetitosa ocorrida naquela época, envolvendo nada menos que uma brasileira, Maria das Dores, um marinheiro inglês de cujo nome não me lembro agora,  um poeta mais que famoso, o Setor de Promoção Comercial da Embaixada do Brasil e o nosso Consulado-Geral. 

Todos sabemos que uma repartição consular brasileira localizada em um cidade importante como Buenos Aires, onde desde aquela época já se podia chegar até de ônibus (havia uma empresa com serviços diários), seria sempre procurada, por supuesto, por uma crescente multidão de patrícios, fossem eles inocentes turistas, fossem profissionais em busca de trabalho ou, em bom português, simples  picaretas em busca de aventuras baratas, de preferência às custas do contribuinte. Tinham estes últimos uma irresistível vocação para serem roubados tão logo punham os pés por lá, e achavam sempre que cabia ao Consulado brasileiro a obrigação óbvia e legal de lhes arranjar algum dinheiro para retornar ao país ou para permanecer alguns dias mais de férias… Mas perdoem essa digressão, sobretudo porque a nossa Maria das Dores, coitada, não teve nada a ver com tudo isso.  Quem teve, sim, foram a sensibilidade e o bom humor do meu amigo e  colega de posto Rubens Ricúpero (sim, o próprio), então servindo como Conselheiro da Embaixada em Buenos Aires. 

Ocorre que certo dia recebi dele uma carta surpreendente e muito espirituosa, à qual anexava uma outra, escrita por um marinheiro inglês, perdidamente apaixonado por uma bailarina brasileira residente em Buenos Aires. Como este episódio se deu há mais de quarenta anos, é bem provável que meu admirado amigo Embaixador Rubens Ricúpero – que infelizmente não reencontro há séculos, mas a quem aproveito para render aqui minhas homenagens – não se lembre dele com detalhes. Por isso vou surpreendê-lo agora, com a transcrição digitalizada do texto de sua carta para mim, datada de 4 de outubro de 1968. Em seguida, vocês verão o texto de minha carta-resposta, vazada no mesmo diapasão. Ao final de tudo, teremos a oportunidade de ver parte do manuscrito original de ambas. (Ou seja,minha gente, cuidado comigo: sou um inveterado guardador de papéis!). 

Mas, atenção, a deliciosa história da Maria das Dores não acaba aí: o melhor vem depois, como verão, na terceira parte, no Grand Finale, em que o insondável mistério   é finalmente desvendado. Bom proveito.

PRIMEIRA PARTE: CARTA DO CONSELHEIRO RICÚPERO

   4/10/1968

Meu caro Lauro,

Aqui lhe envio, em anexo, a carta tocante de um inglês em busca do amor perdido, que por equívoco, foi entregue ao Setor de Promoção Comercial. Sei que, a rigor, seria extremamente complicado tentar classificar burocraticamente o assunto e ainda mais difícil descobrir qual a repartição que mais direitos teria para ocupar-se do problema. 

Como, porém, a carta menciona uma cidadã (oh! palavra detestável) brasileira que foi residente em Buenos Aires e possivelmente haja deixado traços no registro de matrícula da repartição, achei melhor encaminhar-lhe o expediente, certo de que  a sua sensibilidade encontrará uma fórmula não-burocrática para a resposta, que respeite êsse “material de interesse humano”. Um poeta consular faria um poema dessa carta, não acha?

Um abraço afetuoso do

Rubens 

SEGUNDA PARTE: MINHA CARTA-RESPOSTA.

                                                             Buenos Aires, 8.10.68

Meu caro Rubens,

Recebi sua carta de solidariedade às inquietações do apaixonado marinheiro inglês e imediatamente me coloquei a serviço de tão elevada causa.

Na verdade, meu caro, a eficiência deste Consulado me entusiasma. Não, não pense que já tenhamos logrado ubicar a Maria do Porto de Buenos Aires. Ainda não. Mas confesso que não consegui dissimular meu espanto quando, indagando sobre o assunto ao funcionário do Setor competente, mostrou-me ele, de saída, uma ficha com todos os dados da bailarina brasileira Maria das Dores Almeida, e anexo a ela(à ficha…), uma outra missiva do nauta inconsolável, mais ou menos nos termos daquela que foi parar, por lamentável engano (afinal nem Marx subordinou o amor de modo tão direto aos caprichosos desacertos da ciência econômica), no Setor de Promoção Comercial da Embaixada. 

Infelizmente não consta da ficha o endereço da referida cidadã e, para localizá-lo, baldados têm sido os esforços de nosso funcionário especializado em casos do gênero, que outra coisa não tem feito senão gestionar junto aos setores competentes. Assim, consultadas já foram algumas personalidades de relevo, como a gentil bailarina Juju, os primorosos conjuntos Os Geniais e Quatro na Bossa, e outras que tantas, todas ligadas à vida pregressa e já um tanto misteriosa da Maria das Dores. E é deveras surpreendente – e quiçá sombrio – que nenhum deles possa ter adiantado nada sobre o paradeiro desta Marília porteña. Lembra-me até a Conceição, não a “boa Conceição” do conto machadiano, senão a da música, aquela que “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

De todo modo, afianço-lhe que continuarão as buscas, até que se dissolva o mistério da Das Dores. Ao nosso marinheiro só aconselho coragem e paciência. Paciência para aguardar o resultado final de nossas diligências, e coragem – caso necessário – para aceitá-lo.

Mas no fundo, meu caro, não consigo deixar de pensar em dar-lhe um outro conselho, talvez mais melancólico mas nem por isso menos acertado: invertendo os termos do poema de Cecília sobre a inconformada Marília, segredar-lhe-ia baixinho, como o sussurro das vozes noturnas que emergiam do sonho da noiva da Inconfidência:

               “Tira-te deste cuidado,

                 Que teu pastor não se lembra

                 De nenhum tempo passado…”

pois  

                  “Talvez se tenha esquecido

                    Talvez se tenha casado”. 

Um abraço muito amigo,

Lauro  

           

 

         GRAND FINALE: Mistério Desvendado

Após várias tentativas para localizá-la, a nossa heroína finalmente  aparece no Consulado, um tanto assustada com o telegrama de convocação que eu lhe tinha mandado, depois de conseguir o seu endereço. Ali estava a Maria das Dores em carne e osso, mais carne que osso, diga-se. Era uma mulata vistosa, sacudida e já meio entrada em anos, como se dizia no tempo de meu avô. 

Então, Maria das Dores, até que enfim a encontramos! Há muito tempo que estávamos à sua procura.

Pois é, o senhor me desculpe, mas é que estive viajando a trabalho .

Muito bem. Mas não há nada de urgente, eu lhe pedi que viesse ao Consulado porque temos aqui uma carta para você, uma carta de amor,  escrita por um marinheiro inglês apaixonado e enviada aos cuidados da Embaixada…

– Ah, meu Deus, é outra carta dele! Está sempre me escrevendo… Quer porque quer que eu me case com ele!

– Bom, quer dizer que se trata de caso antigo…

– Sim, conheci ele numa viagem de um navio em que eu trabalhava como cantora e bailarina, e ele era da tripulação. Parece que ficou mesmo apaixonado e nunca mais me esqueceu. Há oito anos que me escreve essas cartas.

– Caramba, oito anos? E você nunca respondeu?

– No começo eu respondia, e aí ele foi ficando cada vez mais entusiasmado… Mas depois tive que parar de escrever.

– E teve que parar por quê? 

– Porque como eu não sei inglês pra escrever, quem escrevia as cartas para mim era o Vinicius de Moraes, que é meu amigo e me ajudava muito… Mas depois que ele foi embora, não tinha ninguém mais pra me ajudar.

–  Como é que é? Quer dizer que era o Vinicius de Moraes que então escrevia as cartas para você assinar? Que maravilha! Está tudo explicado. Pois olha, Maria das Dores, o que podemos fazer agora é pedir aqui ao nosso amigo Manuel Pineda, funcionário do Setor de Brasileiros, e que arranha um pouquinho de inglês, que passe doravante a escrever as cartas, substituindo o nosso  Vinicius nessa sagrada tarefa. Que acha? O único probleminha é que não  sei se o seu marinheiro inglês continuará assim tão apaixonado…

(E então não pude deixar de sussurrar aos meus botões:  sim, senhor, outra do poetinha! Resolveu dar agora uma de Cyrano de Bergerac às avessas.  Pobre marinheiro apaixonado, mas resistir – quem há-de?)

                      ( PANO RÁPIDO)

 
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7 Comentários

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7 Respostas para “CRÔNICAS DO QUOTIDIANO

  1. Fernando Cupertino

    Formidável, meu caro amigo!!!…

    • O senhor V. de Moraes apenas quis ver até onde chegaria o pobre inglês apaixonado.Uma brincadeirinha…para se divertir, interpretando uma mulher apaixonada que não existia.
      A estória é interessante e bem explorada daria para fazer um filme divertido com um fim feliz ou trágico, se o inglês viesse a saber que era vítima de uma bricadeira e do autor dela.
      A correspondência entre os dois diplomatas também tem a sua graça e compôem o quadro, ao tentarem juntar o marinheiro e a bailarina.
      Abraços- Armando Ribeiro

      • Olá, meu caro Armando. É isso aí. Só que na verdade o marinheiro estava de fato apaixonado, a Maria das Dores não tanto, e o poeta deu apenas uma mãozinha para alegrar o coração do Romeu…
        Abs
        Lauro

  2. Fernando Mascarenhas

    Bela história, Lauro.

    Um abraço

    Fernando

  3. Querido Lauro, adorei o texto e viajei nas delícias da narrativa relatando com bom humor um sério problema de amor!! Sobre o autor das cartas foi uma surpresa extremamente agradável, o nosso “poetinha camarada” entendia muito bem das dores e delícias do amor! Parabéns querido amigo!
    Um forte abraço

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