MIOPIA OU CEGUEIRA?

O JUÍZO FINAL

Machado de Assis

Não creio estar exagerando ao afirmar que, se existe hoje uma quase unanimidade no Brasil, é a de que Machado de Assis é o nosso escritor maior. Afirmação aliás tautológica, redundante, que chega a ser lugar-comum. E não apenas entre nós,  já que a  excelência, originalidade e universalidade de sua obra têm atraído um número crescente de leitores e analistas no estrangeiro. Figuras conhecidas em todo mundo – como a ensaísta  Susan Sontag,  o crítico literário norte-americano Harold Bloom (“Machado  reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo.”) ,  o romancista mexicano  Carlos Fuentes (para quem Machado é de longe o maior escritor latino-americano do século 19 e o único continuador do que ele chama “la novela de la Mancha”) e até o cineasta Woody Allen  (“Achei Machado de Assis excepcionalmente espirituoso, dono de uma perspectiva sofisticada e contemporânea, o que é incomum, já que o livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] foi escrito há tantos anos. Fiquei muito surpreso. É muito sofisticado, divertido, irônico. Alguns dirão: ele é cínico. Eu diria que Machado de Assis é realista.”) e tantos outros leitores e estudiosos mundo afora –  já consagraram para sempre o nosso Bruxo do Cosme Velho.

No meu modesto caso particular, os poucos embora mais que suficientes leitores que prestigiam este Quincasblog (atentem para o nome…)  já devem ter lido um texto aqui presente, a propósito do centenário da morte do escritor (1908-2008), em que deixo mais que evidente meu absoluto fascínio pela obra machadiana. Paixão que começou cedo, aos quinze anos, como então recordava, ao ler pela primeira vez um de seus livros:

“Escolhi Dom Casmurro. Foi um choque para mim: sentia-me diante de algo completamente novo. E apaixonei-me por Machado de Assis. Por seu estilo enxuto, avesso aos arroubos sintomáticos da escola romântica, por suas entrelinhas, seu humor fino, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos. A partir de então, e lá se vão décadas, Machado passou a ser minha companhia constante, querida, admirada, estudada, lida nos momentos de alegria e de aflição, fonte inesgotável de prazer estético e intelectual. Tudo nele me atrai – até mesmo sua quase insípida trajetória biográfica – e cada vez mais com o passar dos anos, como se fôra um ente da família, um velho tio-avô íntimo, culto, inteligente, irônico, divertido e muito querido.”

Acontece porém que –  embora já consagrado em vida como a grande figura literária do país  (sobretudo a partir de certa altura, quando inaugura com a publicação de Brás Cubas a sua chamada fase realista) , respeitado, admirado e querido pelos colegas de profissão e por seu crescente número de leitores –  um destacado personagem da vida intelectual e política do Brasil de então  publica em 1897 um grosso volume (grosso em mais de um sentido) , em que desfere os golpes mais contundentes  (e surpreendentes) contra a obra de Machado de Assis, ao lado das mais disparatadas profecias sobre o  pobre futuro do escritor   nas letras nacionais. Recordemos algumas passagens desse livro:

Woody Allen: admirador de Machado

“O estilo de Machado de Assis, sem ter grande originalidade, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata de seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivaz, nem rútilo, nem grandioso, nem eloqüente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente do vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra. Sente-se o esforço, a luta. ‘Ele gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada’, disse-me uma vez não sei que desabusado num momento de expansão, sem reparar talvez que dava-me destarte uma verdadeira e admirável notação crítica. Realmente, Machado de Assis repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que nos deixa a impressão dum perfeito tartamudear. Esse vezo, esse sestro, para muito espírito subserviente tomado por uma coisa conscienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humor, é apenas, repito, o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.”

Não é fantástico? Mas a coisa não para por aí, pois mais adiante a contundência do crítico, que não se envergonha sequer  de envolver uma conhecida deficiência na fluência da fala em Machado (que como se sabe era tartamudo), sobe ainda mais de tom, alcançando níveis francamente grotescos, não fossem igualmente lamentáveis, deixando transparecer uma animosidade gratuita e  rancorosa. Diz ele:

“Não tendo, por circunstâncias da juventude, uma educação científica indispensável a quem quer ocupar-se hoje com certas questões, e aparecendo no mundo literário há cerca de 25 anos, o sr. Machado de Assis é um desses tipos de transição, criaturas infelizes, pouco ajudadas pela natureza, entes problemáticos, que não representam, não podem repreentar um papel mais saliente no desenvolvimento intelectual de um povo.”

 (…) Natureza eclética e tímida, sem  auxílio de uma preparação suficiente, entrou a ser um parasita, espécie de comensal zoológico, vivendo à custa de uma combinação de classicismo e do romantismo. Não teve força bastante para romper com ambos, e foi sempre vacilante em seus cometimentos.

 (…)  Pode iludir e ilude ainda alguns ignorantes pela palavrosidade de seus períodos ocos, vazios, retortilhados e nada mais. Sem convicções políticas, literárias ou filosóficas, não é, nunca foi um lutador. Este auxiliar de todos os ministérios, esse rábula de todas as ideias é, quando muito, o conselheiro da comodidade letrada. O que ele quer é representar o seu papel equívoco. O autor de Brás Cubas, bolorento pastel literário, assaz o conhecemos por suas obras, e ele está julgado. Continue a burilar frases inúteis, a produzir suas bombinhas da China, mas tenha cuidado de conter-se na vacuidade embaumée pelos elogios de seus comparsas inconsiderados.”

Alguém já viu algo mais estapafúrdio, preconceituoso e insensato na apreciação da obra de um escritor? E o pior é que o autor desses comentários, vale repetir, era um  intelectual brasileiro de renome,  contemporâneo de sua vítima, nascido em 1851 e morto em 1914, crítico literário, ensaísta, poeta, filósofo, professor, político e polemista feroz (é preciso dizê-lo?). Seu nome? Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero. Silvio Romero para os íntimos. Uma boa pitada de preconceito, vaidade, empáfia, cegueira, arrogância e  dogmatismo, são  também  qualidades que não lhe faltam. E que insuperável faro crítico : justamente os aspectos que aponta como  defeitos insanáveis do estilo machadiano reconhecem-se hoje como  as virtudes maiores do autor de D. Casmurro. É o que nos ensina gente  como Antônio Cândido e Haroldo de Campos, entre tantos outros. Ou, como lembra um outro admirador (Flávio Carneiro):

(…) o estilo machadiano recusa justamente o alarde, seja o da retórica parnasiana, seja o da “ousadia” romântica. E, ao invés da transgressão ruidosa dos modernistas, opta pelo caminho mais sutil da ironia, como se sua escrita evocasse a cada página não a gargalhada mas o sorriso ameno, leve mover de lábios. 

E com esses inumeráveis defeitos apontados pela cegueira do crítico,  o nosso Machado foi pouco a pouco – e bem ao seu jeito modesto – ocupando  lugar de honra na galeria dos grandes autores universais. E não apenas do século 19 ou 20, mas do século 21…  Ou seja, um autor pós-moderno, como a crítica atual já o classifica.  Nada como a posteridade para colocar as coisas em seus devidos lugares. A ela cabe o juízo final (com minúsculas, claro…).

Primeira edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Machado, Nabuco e outros amigos escritores

Machado rodeado de amigos

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