NAS MÃOS DE FELIX

Seleção no México em 70, com o ing(r)ato Felix…

                        

                                         

 

A crônica esportiva e os torcedores de futebol lamentaram na semana passada a morte de Felix, o goleiro da Seleção de 70, sem dúvida a melhor que o Brasil já colocou em campo até hoje. Tinha 74 anos e sofria de enfisema pulmonar.

 A notícia, embora triste, me reportou de imediato a uma episódio engraçado que vivi naquela época. Eu havia sido removido para o Consulado Geral em Buenos Aires, meu primeiro posto diplomático, em princípios de 1968, e onde permaneceria por felizes quatro anos. Gostava muito de futebol – distante então do mercenário showbizz em que depois se transformou – e seguia de perto as peripécias de João Saldanha e suas Feras da Seleção, que se haviam classificado brilhantemente para a Copa do México.

Estava tão animado que decidi ver tudo de perto. Comecei a preparar-me para a jornada em busca do Tri, ou da posse definitiva  da cobiçada Taça Jules Rimet (que treze anos mais tarde – vergonha nacional! –  acabou tendo o fim inglório que se sabe, com seus quatro quilos de ouro derretidos pela criminosa ousadia de uma quadrilha de ladrões). Programei minha viagem com escalas turísticas no Peru e Equador, para visitar amigos e filmar as primeiras cenas de um documentário que pretendia realizar, tendo o futebol como pano de fundo e as culturas desses países, sobretudo a mexicana, como tema principal. O filme, México 70, acabou sendo meu primeiro longa e com ele adquiri uma proveitosa experiência, como descrevi na crônica Nos tempos do Super-8, também postado neste blog.

 Acontece que poucos dias antes dessa viagem de pelegrinação (não resisti ao trocadilho) em demanda desse novo Graal, recebi um telex (que loucura, a própria palavra já se despediu de nosso vocabulário) de meu colega Gilberto Velloso, que havia sido designado pelo Itamaraty para servir de ligação  com a CBD (atual CBF), pedindo-me para providenciar urgente dois pares de luvas para goleiro, tamanho x (creio que número 10), e levá-los em minha bagagem. Eram luvas para o Felix! Imaginem só a minha responsabilidade: as mãos do goleiro de nossa seleção canarinha estava agora em minhas mãos...

Diante de incumbência tão grave, solicitei a um funcionário do Consulado que entrasse em contato imediato com o editor de esportes do jornal La Nación e averiguasse o nome da melhor fábrica de luvas de Buenos Aires. Fui então ao endereço indicado, no bairro de San Lorenzo de Almagro, mas o que encontrei por lá foi uma loja de esportes e uma fábrica de…toalhas. Não desisti, e depois de reiteradas consultas e muita busca,  consegui finalmente localizar o precioso tesouro.

 Dias depois, na Cidade do México, e aliviado de tanta responsabilidade, entregava ao Velloso a encomenda solicitada, que seguramente muito iria contribuir para a estrondosa campanha da seleção canarinho nos gramados mexicanos…

 Mas uma coisa me chamou logo a atenção: desde nossa vitoriosa estreia contra a Tchecoslováquia (palavra e país que também já desapareceram do mapa, cáspite!), o nosso guarda-metas (outra!) não estava usando as minhas luvas!!!  Todos sabíamos que o nosso Felix, apesar do nome, não era propriamente  um gato em matéria de agilidade, e como lembrou há pouco o Juca Kfouri em seu blog, através de um poema de Roberto Vieira,

“Ele não tinha a frieza de Gilmar.

Nem os saltos acrobáticos e sensacionais de Barbosa.

Ele não tinha a sorte de Castilho.

Nem os dedos enluarados do Manga.

Marcos foi mais santo.

Taffarel foi mais milagroso.

Válter, Jurandir e Aymoré eram muito mais corajosos.

(……………..)

Mas quando Lee cabeceou aquela bola.

Quando Lee o agrediu covardemente.

Foram suas mãos desnudas que salvaram a pátria de

chuteiras.

Notaram a referência às “suas mãos desnudas”? Até no poema o fruto precioso de meu desvelo e minhas andanças portenhas esfumara-se por completo… E as milhares de fotos que correram o mundo exaltando a façanha brasileira em gramados mexicanos estão por aí até hoje, para minha humilhação. Mãos desnudas, sim senhor!

Enfim, meu caro leitor (como diria o nosso Machado), de todo modo a seleção canarinha acabou felizmente trazendo o caneco, a despeito das mãos desnudas de seu goleiro. Ou, talvez, por isso mesmo… Melhor assim!

                           

 

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1 comentário

Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO

Uma resposta para “NAS MÃOS DE FELIX

  1. Mesmo não sendo uma “testemunha ocular da história” como se dizia nos microfones do aclamado “Repórter Esso” – posso dizer que de tanto “ouvir falar” tornei-me testemunha dos feitos de Félix, o “Goleiro Rebatedor” de que tanto meu pai reclamava. Afinal, a história foi generosa com Félix entregando-lhe o título de Campeão Mundial de Futebol em um dos escretes mais talentosos que já pisaram juntos em um mesmo campo neste planeta. Parabéns pelo magnífico texto.

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