AD IMMORTALITATEM…

Pois é, meus amigos, como cansei de ser moderno e agora quero ser eterno, tomei posse ontem na Academia de Letras e Artes do Planalto (ALAP), com sede em Luziânia ( a Santa Luzia da minha infância), na cadeira 29, que tem por Patrono a figura admirável de Germano Roriz…  Viva a imortalidade!

Confesso que fiquei feliz por esta homenagem simpática, e mais ainda por se tratar de uma agremiação de minha terra goiana,  que tem reunido ao longo dos anos personalidades de minha amizade e admiração – e algumas hoje, infelizmente, de minha imensa saudade, como a musicista Belkiss S. Carneiro de Mendonça, o pintor DJ Oliveira e o historiador Paulo Bertrán.

Em meu discurso de posse, que vai abaixo transcrito, procurei fazer um retrospecto suscinto de minha vida pessoal e profissional, tratar da questão para mim fundamental da Lusofonia, e elaborar um pouco sobre a trajetória exemplar de Germano Roriz.

A cerimônia de posse foi simples e tocante, ao menos para mim, que fui generosamene saudado pelo agora confrade Manoel Soriano Neto, e recebido como um filho, que após tantos e tantos anos de andanças pelo mundo, retorna agora à casa paterna.

DISCURSO DE POSSE NA ALAP

Senhor Presidente,

Senhores Acadêmicos,

Senhoras e Senhores,

Movido por um profundo sentimento de saudade, não poderia eu deixar de evocar, no momento em que transponho os umbrais desta Casa , três admiráveis figuras que marcaram de modo indelével o panorama cultural de Goiás e do Brasil, e que honraram os quadros da ALAP. Falo de Belkiss Spencieri Carneiro de Mendonça, Paulo Bertran  e Dirso José de Oliveira. Com eles, a música, a poesia, a pesquisa histórica e as artes plásticas estiveram aqui representadas em seu mais alto nível. E a esses três amigos inesquecíveis, prematuramente desaparecidos, e em uma triste coincidência nos meses de outubro e novembro do mesmo ano de 2005, tive o prazer de acompanhar a mais de uma sessão desta Academia. A eles, pois, o meu preito de saudade.

Permito-me ainda agradecer, sensibilizado, ao acadêmico e amigo Marco Antônio Martins, a deferência de  haver proposto  meu nome para integrar esta seleta assembleia, à qual  acedo  hoje com alegria e orgulho, sob a égide da venerável figura multifacética de Germano Roriz.

Senhor Presidente,  Senhores Acadêmicos.

A justo título, não posso me considerar um ficcionista, e muito menos um poeta, porque não o sou. Sou talvez apenas alguém que conviveu – e convive – diuturnamente com a arte, com a literatura, com a poesia, com o teatro, com o cinema, com as ciências sociais. Alguém que, ao longo de uma longa carreira diplomática, jamais esmoreceu na tarefa de divulgar a cultura brasileira nos quatro cantos do mundo. Alguém que se dedicou à missão de promover os escritores, poetas, pintores, cineastas e músicos de nossa terra em várias outras terras estrangeiras, através de palestras e conferências,  da publicação de artigos e ensaios, da gravação de CDs e DVDs de poesia lusófona, da organização de concertos e espetáculos em torno da música brasileira, seja a popular, seja a indevidamente chamada “música erudita”.

Por outro lado, tenho indisfarçável orgulho de minha goianidade. Nascido em Anápolis, de família de Goiás e Itaberaí,  meus antepassados deitam raízes profundas nesta terra de Anhanguera, raízes que remontam à chegada dos Bandeirantes a partir de finais do século XVII.   Poucas décadas após a fundação do arraial de Santa Luzia  por Antônio Bueno de Azevedo, chegava a Vila Boa de Goiaz, em 1792, o futuro Tenente Coronel Luiz Manuel da Silva Caldas, proveniente da antiga e ainda hoje bela cidade de Amarante, ao norte de Portugal. Sua união com uma jovem goiana veio a constituir um dos troncos de minha genealogia, que conta igualmente, do lado paterno, com a ascendência de Bartolomeu Bueno da Silva.

Minha primeira infância, feliz como deveria ser toda primeira infância, eu a passei entre Itaberaí, Anápolis e Goiânia. Mas já aos dez anos, estimulado pelo idealismo de meus pais, que me desejavam ver matriculado em alguma das melhores escolas do país, transferi-me para São Paulo para estudar no Colégio São Bento, em regime de internato. Foram três anos, que somados aos dois no Colégio Arquidiocesano, constituíram a base de minha formação e a estrutura de minha personalidade. E jamais perdi de vista  que, naquele tempo em que para o Brasil parecia não existir senão o litoral, em que os habitantes dos grandes centros não tinham qualquer ideia do que havia neste vasto interior do país, jamais perdi de vista, repito,  o discernimento e, diria mesmo, a coragem de meus pais, que ousaram enviar a um distante centro mais avançado, uma criança de dez anos para continuar sua formação escolar. E Goiás, minha distante terra ensolarada, tão diferente da Pauliceia fria, nevoenta e garoenta, estava agora para mim tão longe quanto a Lua,  tão distante  como para os paulistas,  a despeito de a haverem frequentado um dia, como bandeirantes desbravadores. Tão remota para mim, que os contatos com a família só se faziam por cartas semanais ou, in extremis , por telegramas lacônicos. A conclusão é que quase me tornei um precoce especialista no gênero epistolar…

A consolidação, porém, da formação de minha personalidade se deu no Rio de Janeiro, para onde se transferiu toda a família, a fim de que meu pai pudesse exercer o seu mandato de Deputado Federal, para o qual fôra eleito em 1954. Dei início então a uma vida bastante diferente daquela  que vivera em São Paulo..  Foi  a época do curso Clássico no Colégio Santo Inácio e depois  de Direito na Pontificia Universidade Católica. Época de efervecente entusiasmo e grande agitação. Da presidência  da Academia de Letras do Colégio, da leitura de vários escritores novos para mim, da descoberta definitiva da obra de Machado de Assis (até hoje meu autor de cabeceira e meu herói incontrastável), dos cursos de cinema e de teatro,   da encenação de inúmeras peças  de autores clássicos como  Molière a modernos como Tennessee Williams, das atividades da  Associação Cultural da Juventude, do jornalismo estudantil, da dedicação ao estudo de línguas, enfim, de uma etapa decisiva de minha vida, que acabou confluindo na escolha de minha profissão definitiva, com a prestação dos exames para a Carreira diplomática, iniciados dois dias após a cerimônia de formatura no Curso de Direito.

Ingressando na Casa de Rio Branco em janeiro de 1965, dela só me afastei, aposentado, em fevereiro de 2010. Foram quarenta e cinco anos de serviços prestados ao país, e com especial desvelo pelo nosso Estado de Goiás. Seja como Cônsul- Adjunto do Brasil em Buenos Aires – meu primeiro Posto no exterior –  ou Cônsul-Geral em Barcelona;  seja como responsável pelo setor cultural da Embaixada em Washington, ou como Segundo Secretário da Delegação Permanente  do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra; seja como Embaixador do Brasil no Reino do Marrocos ou, finalmente, como o primeiro Embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Lisboa, procurei não apenas representar condignamente meu país, mas estabelecer sempre um permanente diálogo cultural com todos os interlocutores estrangeiros, governamentais e privados, pessoas e instituições, com vistas a abrir novos caminhos para a melhor promoção do Brasil em todas as áreas. Em outras palavras: sou daqueles que creem efetivamente no poder da cultura como traço de união entre os povos, como poderoso instrumento da paz e do desenvolvimento social.

Com este firme propósito e alimentado por esse mesmo ideal, atuei igualmente  como titular de variados cargos no Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro e em Brasília, como o de Diretor Geral do Departamento Cultural e, mais tarde, da Agência Brasileira de Cooperação. Tive ainda o privilégio de exercer a chefia de Assessorias Internacionais nos Ministérios da Indústria e Comércio, da Fazenda, e de Ciência e Tecnologia, bem como a Presidência por três anos da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Por tudo isso, Senhor Presidente, e por muito mais, não me seria absurdo repetir com Pablo Neruda: confesso que vivi. E hoje, embora aposentado, prossigo minha viagem obedecendo à mesma rota e procurando manter o mesmo ritmo. Nisso, estou com o nosso fulgurante Pe.Vieira, quando diz “que só vivemos enquanto fazemos; quando não fazemos, apenas duramos”.

Cada uma dessas atividades, cada cargo exercido no Brasil ou no exterior representou um enriquecimento cumulativo  e inestimável em minha vida profissional e pessoal, culminando sem dúvida em minha passagem de quatro anos por terras lusitanas.  Em discurso pronunciado na veneranda Academia das Ciências de Lisboa,  – instituição fundada em 1779, e cujo Secretário Perpétuo foi o nosso admirável e ainda muito pouco reconhecido José Bonifácio de Andrada e Silva – ao agradecer o Prêmio de Personalidade Lusófona de 2009, que acabara de receber das mãos do Presidente Mário Soares, afirmei com todas as letras e grande emoção estar convencido de que toda a minha vida, de adolescente estudante em minha terra natal a Embaixador do Brasil na CPLP, fôra apenas uma longa, embora não consciente, preparação para aquela experiência única que estava vivendo no regaço da Lusofonia.

Senhor Presidente,

Há uma evidente  dificuldade de se conceituar e definir o termo lusofonia, uma vez queo enfoque meramente linguístico não esgota a questão. Impõe-se uma visão política, mais abrangente, mais inclusiva. Nesse sentido, verificamos que o uso comum de uma língua, aliada a uma convivência de povos ao longo de séculos, consolidando um patrimônio histórico comum, acabou por conformar não apenas um espaço lusófono, mas sobretudo aquilo que chamo de um espírito lusófono, que leva igualmente  em conta aspectos psico-sociais extremamente relevantes.

Considerando-se apenas os aspectos linguístico, não se poderia chegar a um conceito correto desse fenômeno. Bastaria  ver a situação da Língua Portuguesa nos oito países que hoje constituem a CPLP, espalhados pelos quatro Continentes. Dados estatísticos nos mostram que países como Angola ou Moçambique utilizam, cada qual,  mais de quarenta línguas diferentes em suas várias regiões e etnias. Ou seja, com a exclusão de Portugal e Brasil,  seria de fato tecnicamente incorreto falarmos de povos lusófonos, os desses países onde o multilinguismo está presente de maneira tão dominante. Logo, o que chamamos de lusofonia, reitero, é algo que transcende à questão linguística. Podem não ser povos exclusivamente lusófonos, mas são também lusófonos, ainda que minoritariamente. Quer queira-se, quer não,  vale repetir, há um espaço lusófono ocupado por esses povos, e há sobretudo um espírito lusófono, gerado por uma convivência e uma miscigenação tecida ao longo de quinhentos anos.

E esse  diálogo intercultural e inter-étnico que se estabeleceu entre descobridor e descobertos, entre colonizador e colonizados – e sem que se entre aqui em qualquer juízo de valor sobre essa colonização – acabou também fazendo da língua uma “construção conjunta”, na expressão de José Eduardo Agualusa, onde aspectos sintáticos, fonéticos e lexicais  acusam uma grande variedade, em um processo de permanente enriquecimento do idioma original de Gil Vicente. Por isso mesmo, Mia Couto diz muito bem, parafraseando Fernando Pessoa (Bernardo Soares) que “minha pátria é a minha língua portuguesa”. Ou seja, desse rico patrimônio imaterial, forjado a partir da experiência vivida no cruzamento desse triângulo Portugal-Brasil-África ao longo de cinco séculos, emerge aquilo que chamamos hoje de lusofonia, uma construção que teve um dia para começar, mas que não tem uma data para acabar. Algo em permanente evolução, um fenómeno in fieri.

É claro que para melhor se explicar o fenômeno, seria necessário examinar  o marco histórico em que tudo isso se deu, exercício que não cabe obviamente no âmbito desta intervenção. A não ser para lembrar, muito resumidamente, o papel de Portugal nessa empresa,  nessa primeira empresa moderna de exploração, nessa “first modern enterprise of exploring”, no dizer do historiador norte-americano Daniel Boorstin, que  tem seu início efetivo em 1415, com a tomada de Ceuta, no Marrocos, por D. Henrique, o filho de D. João I, mais tarde consagrado como “O Navegador”,  e com a sua Escola de Navegação situada no Promontorium Sacrum.

 A partir dali, pouco a pouco e obedecendo a um rigoroso planejamento estratégico, vai-se ampliando a abertura do Atlântico pelos portugueses, até culminar, já no final do século, com a descoberta do caminho marítimo para as Índias e, em seguida, com o achamento do Brasil por Pedro Alvares Cabral. Foi o início de um diálogo intercultural e inter- étnico com povos de várias latitudes, de línguas e culturas diversas, marcado pelo ineditismo e pela abertura em relação ao novo, ao não semelhante, ao diferente. Um processo de assimilação e integração talvez único ao longo da história, que teve por base e lastro uma língua chamada portuguesa.

Esta incrível epopeia que tanto sacrifício custou ao povo lusitano, que mais que vencer as tempestades teve que superar as sombras do medo do desconhecido, povoado de monstros marinhos assombrados – de que simples acidentes geográficos como o Cabo Não e o Cabo Bojador eram os símbolos maiores – esta epopeia teve a fortuna de encontrar, em sua própria língua, seu incomparável rapsodo. E Camões cantava não apenas a aventura de um português, Vasco da Gama, mas a gesta de todo o povo lusíada, que se lançou “Por mares nunca de antes navegados”, “Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana”. E foi outro grandíssimo poeta – Fernando Pessoa –  que, já no século 20, se perguntou se tudo isso terá valido a pena, resumindo em apenas três estrofes de quatro versos toda a grandeza e sofrimento presentes na epopeia vivida por sua gente.

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

Senhor Presidente, Senhores Acadêmicos,

É profundamente imbuído desse espírito lusófono, e reconhecido aos senhores acadêmicos,  que acorro a este ilustre sodalício, do qual fizeram,  e fazem hoje parte, figuras das mais respeitáveis da arte e da intelectualidade goianas, às quais rendo agora minhas homenagens. Por outro lado, a satisfação em juntar-me a este grupo seleto, acresce-se na medida em que me cabe ocupar a Cadeira 29, tendo por patrono um dos mais ilustres filhos de Luziânia, de Goiás e do Brasil.

Minha admiração e simpatia pela figura carismática de Germano Roriz e por toda sua família vem dos tempos de infância e adolescência, sentimento acrescido pela amizade que os unia a meu pai e nossa família. Na verdade, debruçando-me agora em sua trajetória de vida, identifico vários traços comuns com a biografia de Nicanor de Faria e Silva, como as agruras de uma infância desprovida de recursos, o entusiasmo com que participava das atividades sociais, a fidelidade ao catolicismo e à Igreja (meu pai deveu sua formação ao Seminário Diocesano para onde acorreu desde muito cedo e permaneceu até iniciar seus estudos de Direito), a alma de artista, o temperamento afável porém determinado, a dedicação ao serviço público, as múltiplas  atividades na área jornalística, e até mesmo o desaparecimento prematuro de ambos, um aos 62 e outro aos 69 anos de idade, ocorrido – outra coincidência – no mesmo ano de 1968. E observo que  esta soma de coincidências continua viva, pois há poucos meses tive o prazer de participar de uma bela cerimônia na Academia Itaberina de Letras e Artes, em homenagem a um de seus mais ilustres Patronos: Nicanor de Faria e Silva.

A República ensaiava seus primeiros passos no Brasil, quando veio ao mundo, nesta cidade de Santa Luzia, a 28 de maio de 1899, uma criança predestinada a uma vida fecunda, marcada pela dedicação ao Evangelho e ao próximo, pela honradez e pelos altos valores morais que desde cedo cultivou. As crônicas da época testemunham que, ainda jovem, destacava-se em seu meio, ao lado de companheiros ilustres como Evangelino Meirelles e Gelmires Reis, em variadas atividades culturais, políticas, cívicas, educacionais, esportivas e religiosas. Aos dezenove anos, formado em contabilidade, inaugura uma nova etapa em sua vida, ao casar-se com a jovem América, com a qual gerou e criou dez filhos, que por sua vez se multiplicaram em centenas de descendentes diretos e indiretos. Na pessoa muito querida de um deles, Benjamim Roriz, o nosso Beija, que nos honra aqui com sua presença, saúdo a toda essa descendência ilustre.

Com o intuito de assegurar aos filhos a continuidade dos estudos escolares,  Germano muda-se para Planaltina em 1927 (onde ocupa o cargo de Secretário da Intendência Municipal, função que já havia exercido em duas oportunidades em sua cidade natal); para Anápolis três anos depois (onde exerce seu reconhecido pendor para música, à frente da Banda Municipal); para Leopoldo Bulhões em 1933 (período em que trabalha em sua função de guarda-livros em uma empresa local); para a antiga Capital do Estado em 34 (onde é nomeado professor de música no Liceu de Goiaz e, em seguida, Contador das Obras da Nova Capital, de cuja construção participa com afinco); e finalmente para Goiânia, em 1935, onde fixa residência em definitivo, e onde seu espírito pioneiro alcança a plena realização. Ali, Germano Roriz e a família ocupam a primeira casa da futura Capital, registram o nascimento da primeira criança (seu filho Goiandy, em 1935), funda o primeiro jornal, o “Nova Goiaz”, torna-se o primeiro Coletor  das Rendas Federais do Ministério da Fazenda (cargo que ocupará até sua aposentadoria por tempo de serviço, em 1954), e Vereador designado à primeira legislatura da Câmara Municipal pelo Prefeito provisório Venerando de Freitas Borges. Observe-se que doze anos mais tarde Germano Roriz voltará à Câmara, eleito pelo Partido Republicano.

Mas é em Goiânia, sobretudo, que vai florescer a partir de então uma das facetas mais admiráveis desse cidadão inteiramente voltado para a realização do bem comum. Ao ocupar a Presidência da Conferência de S. Vicente de Paulo – o santo protetor dos pobres – e em seguida do Conselho Metropolitano das Conferências de S.Vicente de Paulo do Estado de Goiás, que fundou e dirigiu até seu último alento, esse ‘Bandeirante Vicentino de Goiás”, como foi chamado, ampliou e estendeu sua atuação apostólica por todos os rincões de sua terra, imbuído daquele mesmo entusiasmo  – e essa é a palavra cuja etimologia aqui se ajusta à perfeição, en Téos – com que escreveu um dia em um de seus cadernos de notas pessoais: ” Em nome de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, inicio o ano de 1932 cheio de esperanças de promover o bem da minha terra e a felicidade relativa dos desvalidos desta cidade”.

Esses votos se cumpriram ao longo de toda a vida de Germano Roriz. E frutificaram através de obras beneméritas que ele soube semear como ninguém, a começar pela Santa Casa de Misericórdia, a Escola de Enfermagem S. Vicente de Paulo, e a Faculdade de Farmácia e Odontologia, embrião da atual Pontifícia Universidade Católica de Goiás, entre tantas outras. E é de novo o Pe. Vieira que nos adverte que “o pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras”.

Em reconhecimento a esse semear de obras beneméritas e essa postura de cristão exemplar, o Papa Pio XII houve por bem condecorar Germano Roriz, em 1957,  no grau de Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, criada no Século XIX para honrar aqueles que “destacados por dotes de alma e inteligência, não poupam esforços nem obra deixaram de tentar, para sobrepujar os outros beneméritos, tanto da religião quanto da sociedade civil”.  O filho virtuoso e humilde  de Santa Luzia passava a integrar então o reduzido grupo de ilustrssímos brasileiros agraciados, que incluía apenas o Presidente Dutra, o Ministro das Relações Exteriores Macedo Soares e o meu saudoso Professor Heráclito Sobral Pinto. Dez anos mais tarde,  foi promovido a Comendador da mesma Ordem, por diploma firmado por Paulo VI.

A morte de Germano Roriz, ocorrida no dia 10 de setembro de 1968, às vésperas de comemorar suas bodas de ouro, chocou e comoveu profundamente a sociedade goiana e especialmente a sociedade goianiense, que lhe renderam as merecidas homenagens póstumas. Hoje, a tradicional Praça do Cruzeiro, em Goiânia, tem o nome de Praça Comendador Germano Roriz, ornada por um busto do homenageado, e outros logradouros públicos em Luziânia e Goianira receberam igualmente o nome do ilustre conterrâneo. Mas o que de fato perpetuará sua memória serão suas obras e sua vida generosa de cidadão e pai de família exemplar.

Germano Roriz pregou com obras, e por isso não falou ao vento, mas ao coração.

Muito obrigado!

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22 Comentários

Arquivado em LUSOFONIA

22 Respostas para “AD IMMORTALITATEM…

  1. Juliana Radke

    Parabéns querido Lauro! É sempre bom aprender contigo!

  2. Fernando Cupertino

    Muito obrigado, querido amigo, por brindar-nos com um discurso tão belo, vazado no português escorreito de sempre!!!…
    Parabéns!!!

  3. Bravo! Excelente. Ao pertencer a seleta távola da Academia de Letras e Artes do Planalto, escreve-se na pedra para que as próximas gerações possam admirar, o nome de um dos mais ilustres amigos que tenho. Parabéns! E que esta imortalidade o revigore cada vez mais neste magnífico e belo momento da vida.

  4. Pecê Sousa

    Caro Lauro, contratulações! Você é muito digno desse honroso reconhecimento. Sua trajetória, narrada com maestria em seu belo discurso, atesta isso. Obrigado por ser essa grande referência, esse inabalável comandante, na luta que travamos em favor da lusofonia!
    Um abraço!

  5. Tatiana Garcia

    Prezado Sr. Lauro,
    Parabéns pela homenagem e belo discurso!
    A cada texto novo que o senhor compartilha, tenho a oportunidade de novos aprendizados.
    Abraço.

  6. Maria Elisa de Ouro Preto

    meu querido amigo e compadre Lauro,
    Fiquei orgulhosa e honrada ao ler seu discurso. Belíssimo. Digno de um imortal. Parabéns e meu grande abraço, Maria Elisa de Ouro Preto

  7. Graciema C. E Silva

    Parabéns cunhado! Honrarias para quem não tem a alma pequena… Você merece todas. Adorei seu discurso e sentí não estar presente. Beijos.

  8. Flavia R.C. Menezes Rusznak

    Parabéns, Embaixador! Ficamos todos muito felizes com as maravilhosas e super bem merecidas notícias! Beijos com saudades de todos nós!

  9. Patricia Siqueira

    Doutor, finalmente conseguí chegar até o seu blog e não podería deixar de escrever aqui o quanto você merece essa homenagem. Fiquei muito orgulhosa (sempre) por ser sua filha do coração. Parabéns por tudo e que venha mais homenagens pra gente comemorar. Te amo muito, Rata.

  10. sara leguisamo

    Parabéns Lauro!
    Adorei o discurso, uma aula de sabedoria e apresentação. Merecida homenagem para tão ilustre conterrâneo. Grande abraço .

  11. Vera Lúcia

    Lauro, gostaria de acrescentar algo ao comentário que fiz sobre o seu discurso e que lhe cai como uma luva: os belos versos do nosso Cláudio Manuel da Costa: “Destes penhascos fez a natureza
    O berço em que nasci: oh! quem cuidara
    Que entre penhas tão duras se criara
    Uma alma terna, um peito sem dureza!”
    Um grande abraço,
    Vera

    • Vera,
      Muito obrigado por suas observações generosas sobre as matérias que tenho publicado neste quincasblog. E sobretudo pela lembrança oportuna desses belos versos do “Temei, penhas, temei”, do nosso Claudio Manuel da Costa. Curiosamente, em meu primeiro CD de poesia (“Mãos Dadas”), gravado em 1997, escolhi esse mesmo poema do Claudio para dizer.E dele também, e falando agora de saudade, me lembro do terceto final de outro lindo soneto:

      “As doces esperanças vejo mortas
      De tornar do Mondego as margens belas
      E de bater de minha Arcádia as portas.”

      Um grande abraço.

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