A BATALHA NO MARROCOS QUE MUDOU O BRASIL

O texto que vem abaixo – A Batalha dos três Reis e o Brasil – tem uma pequena história que merece ser contada. Não naturalmente a da batalha, já suficientemente narrada no próprio texto, mas a do episódio que acabou me levando a escrevê-lo.

Eu tinha acabado de chegar ao Marrocos, no início de agosto de 2000, para assumir a Embaixada do Brasil em Rabat, quando, logo no dia 4, deixei de ir ao trabalho por ser feriado local, sem que eu soubesse exatamente por que. Mas logo cedo, ao folhear os jornais do dia, constatei que estavam coalhados de matérias informativas, artigos mais que elogiosos, hinos patrióticos e recordações vívidas e orgulhosas – tudo em torno de um só tema, estampado em manchetes garrrafais : La Bataille des Trois Rois. Passado o espanto, dei-me finalmente conta de que falavam da Batalha de Alcacer Quebir, velha conhecida nossa das aulas de História e até de Literatura, travada no norte do Marrocos entre as tropas de D. Sebastião, o jovem e demasiado impetuoso rei de Portugal, e as do sultão marroquino, em 1578. Em que dia? Exatamente 4 de agosto.

Fiquei muito impressionado por ver o que significara e significava ainda aquela batalha para o Marrocos, o grande vencedor, sobretudo talvez porque a vida inteira eu me havia habituado a vê-la do lado do perdedor, com todas as conhecidas consequências trágicas para o Reino português. Tão impressionado, que após estudar melhor o assunto, decidi escrever um artigo intitulado  La Bataille des trois Rois et le Brésil,  que veio a ser publicado nos principais jornais de Rabat no dia 4 de agosto do ano seguinte (e no Brasil algum tempo depois), causando grande surpresa entre os leitores: afinal, que teria o Brasil a ver com tudo isso? Entrava na história de abelhudo? Pois  veja a resposta a seguir.

A BATALHA  DOS  TRES  REIS  E  O  BRASIL

 Lauro Moreira

Pode parecer talvez estranho tentar estabelecer uma correlação entre o Brasil e a decisiva Batalha de l’Oued el Makhazen – ou a Batalha dos Tres Reis, ou, ainda, a Batalha de Alcácer Quebir – travada em 4 de agosto de 1578, entre Portugal e Marrocos, ou seja, há exatos 423 anos. Mas, como se verá a seguir, essa analogia não deixa de ter sua razão.

Por essa época, enquanto o Brasil era apenas uma longinqua colônia situada nos trópicos americanos, descoberta oficialmente pelo  navegador português Pedro Alvares Cabral em abril de 1500, Portugal mantinha ainda sua relevância de grande potência marítima que, no decorrer de apenas um século, havia revelado à Europa novos mundos, incorporado ao seu Império novas terras, aberto novos caminhos, conseguindo fazer dos oceanos o traço de união – e não mais de separação – entre povos de todas as latitudes.  E o Marrocos, por sua vez, constituía um Reino de longa e gloriosa trajetória, cuja unificação em Estado nacional se havia dado desde o século VII, com o advento dos árabes e sua posterior união com as tribos berberes nativas.

Apesar de tudo isso, no entanto, as repercussões e consequências práticas da Grande Batalha travada nos arredores de Al K’sar el Khebir sobre a jovem colonia portuguesa na América, foram importantes e duradouras, a ponto de influir fortemente no próprio curso da história do Brasil.

1 – A BATALHA E SEUS ANTECEDENTES

Embora o leitor marroquino conheça de memória os vários aspectos dessa Batalha e de seus antecedentes, valeria a pena recordar aqui alguns deles.

As lutas dinásticas no Marrocos, provocadas pela morte e sucessão do Sultão saadiano Abdellah al-Ghalib (1555-1574), colocando em campos opostos o seu filho Mohamed al-Moutawakil e seu irmão Abdelmalek el-Moutassem, somadas aos interesses estratégicos de Turcos e Espanhóis na região, acabaram incentivando o jovem e impetuoso monarca português D. Sebastião (24 anos à época da batalha) a empreender sua desastrosa campanha em terras marroquinas, “última cruzada da Cristandade mediterrânea”, segundo Fernand Braudel.

Os rogos, advertências e até certas concessões territoriais oferecidas à Corte lusitana por Abdelmalek – ocupante agora do trono saadiano desde 1576 e vencedor definitivo, com o apoio dos Turcos, na luta contra seu sobrinho – não foram suficientes para dissuadir D. Sebastião a levar adiante sua expedição à Africa.  Além disso, o príncipe marroquino deposto recorreu aos ibéricos para reconquistar o poder. Repelido por Felipe II, logra convencer D. Sebastião a ajudá-lo nessa empreitada. E não foi difícil obter esse apoio, se se considera o perfil do jovem rei.

Herdeiro aos tres anos de idade do trono deixado vago pela morte de seu avô D. João III, D. Sebastião começa a governar aos 14 anos, em 1568.  Logo cedo “cristalizou-se nele a convicção de que Portugal seria o salvador da cristandade ameaçada e ele o instrumento dessa salvação”.  (1) Ora, o pretexto para uma grande expedição guerreira surgia agora em 1576, com o trono do Marrocos ocupado por um saadiano apoiado pelo Sultão da Turquia, inimiga de Portugal, Espanha e de toda a Europa cristã.  E assim, recusando o conselho dos mais experimentados, inclusive de seu tio Felipe II,  deu início à invasão do Marrocos.

Partindo de Lisboa em 24 de junho de 1578, e chegando à cidade de Asilah em meados de junho, as tropas portuguesas só se põem em marcha no fim do mês, ao encontro do exército de Abdelmalek, que vinha se deslocando de Marrakech.  Além de lutar no campo do inimigo, os efetivos portugueses (cerca de 20 mil combatentes) eram numéricamente bastante inferiores aos marroquinos, que contavam com 50 mil homens, a maioria deles a cavalo.

Tres reis se encontravam portanto no campo de batalha nesse fatídico 4 de agosto, quando se iniciaram os combates por volta das 11 horas da manhã, às margens do rio El Makhazen.  Ao final do dia, os tres soberanos estavam mortos, dois na batalha e o terceiro,  Abdelmalek,  da enfermidade que o acometera semanas antes.  Ao lado, jaziam 17 mil mortos, além de outros milhares de feridos e prisioneiros.

O epílogo da aventura sebastianista foi uma tragédia para Portugal, que perdeu ali o seu rei, a sua nobreza e o seu exército.  Perdeu ainda sua posição mundial, pois teve que renunciar à expansão de além-mar que fizera sua grandeza. E, talvez mais grave que tudo isso, perdeu sua independência, pois como D. Sebastião não deixara herdeiro, seu tio Felipe II se apodera finalmente da coroa portuguesa, a partir de 1580, unificando-a com a da Espanha.  E por sessenta anos, até 1640, os dois reinos estariam sob um comando único, espanhol.  E é assim que o Brasil se torna também uma colônia espanhola durante esses mesmos sessenta anos em que durou a chamada “União Ibérica”.  Enquanto isso, o Reino do Marrocos acabava de escrever a página mais gloriosa em sua longa e tumultuada guerra com o vizinho lusitano.

O SEBASTIANISMO

A recusa do povo português em admitir a derrota catastrófica de K’sar el Khebir, aliada ao misterioso desaparecimento de seu monarca na grande batalha – seu corpo ao que parece jamais teria sido encontrado e devolvido a Portugal – deu nascimento a um fenômeno de repercussões inimagináveis na alma lusitana, conhecido como sebastianismo, ou o mito sebastianista.  Ou seja, Portugal só poderia reencontrar seu esplendor perdido e seu vasto império colonial, com a volta messiânica de seu pranteado rei.  Este misticismo sebastianista, embora surgido como uma ideologia da esperança, está carregado de nostalgia e de lembranças do passado e, segundo Eduardo Lourenço “impregna o inconsciente português até nossos dias”.

CONSEQUÊNCIAS PARA O BRASIL

No Brasil,  o sebastianismo aparece com a chegada dos imigrantes portugueses, e se espalha sobretudo pelas camadas populares da região Nordeste, a mais colonizada naquela época.  Mas, lembra a historiadora francesa Lucette Valensi em sua obra Fables de la Mémoire: la glorieuse Bataille des Trois Rois, que:

“A figura do rei desaparecido passa por uma profunda metamorfose ao atravessar o oceano: o que chamaremos de folclorização, novo avatar que a elaboração da lembrança imprime ao evento.  Um afastamento cronológico, uma diatância geográfica intransponível separam efetivamente o Nordeste brasileiro do Marrocos, onde Sebastião se perdeu em 1578, e de Portugal, que sofreu a ocupação espanhola. Os longínquos habitantes do sertão nada têm a ver com a experiência vivida, depois rememorada, da derrota da África, da dominação estrangeira, da queda do reino junto com a disnastia.  O personagem de Sebastião familiar aos brasileiros perde então toda substância histórica.  Corresponde daí em diante a diversas imagens de lenda, as do rei verdadeiramente cristão, do cavaleiro que surgirá para vencer o Anticristo, ou do príncipe encantado oculto no oco de um rio.  No sul do Brasil, chega a ser confundido com o santo homônimo.”

 E completa a historiadora francesa: “Enquanto os portugueses esperavam um retorno ao passado, uma restauração ( e desta, é certo, a instauração do V Império), os brasileiros buscam ums transformação de seu presente.  Hic et  nunc. A dimensão social de sua escatologia prevalece sobre a dimensão política”.

Por outro lado, pouco depois do descobrimento da América por Cristóvão Colombo, em 1492, Espanha e Portugal assinavam o Tratado de Tordesillas, dividindo o mundo em dois hemisférios, demarcados por una linha imáginária de polo a polo que passasse a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.  A ocidente dessa linha as terras novas pertenciam à Espanha, e a oriente, caberiam a Portugal.

Ora, uma vez descoberto o Brasil em 1500, verificou-se que a mencionada linha passava exatamente sobre seu território, dividindo-o em duas partes, cabendo apenas uma a Portugal – à Espanha pertenceria a outra.  Por falta de recursos e sobretudo de gente para a colonização,   Portugal não chegou a se ocupar da nova colônia senão bem mais tarde, por volta de 1530, quando piratas franceses e espanhóis já começavam a frequentar aquelas costas do Atlântico.

Além disso, os obstáculos físicos (montanhas, rios e florestas) desestimulavam a penetração do território, levando os colonizadores a permanecer “como carangueijos, arrastando-se nas areias do litoral”, segundo a expressão de um conhecido historiador brasileiro.  E havia ainda, é claro, a fronteira estabelecida pelo Tratado de Tordesillas.  Entretanto, com a unificação das coroas ibéricas, as terras portuguesas na América, ou seja, o Brasil, passam às mãos espanholas de Felipe II, e com isso a própria linha demarcatória de Tordesillas passa também a não ter mais qualquer sentido políticoOu seja, a partir de 1580 não há senão um Brasil, e ele é espanhol.

Ora, exatamente por volta dessa época,  tem início no Brasil um dos movimentos de penetração territorial mais importantes da história do país, que acabou contribuindo para mudar por completo a própria configuração das fronteiras nacionais.  É o que ficou conhecido como “entradas” ou “bandeiras”.  Eram grandes expedições, constituídas por centenas e às vezes milhares de pessoas, que partiam em geral do pequeno vilarejo de Itapetininga – a atual cidade de São Paulo – em direção ao interior do país, à procura de ouro, pedras preciosas e índios, que eram escravizados e colocados depois para trabalhar nas fazendas e nas minas.  Atravessando um território imenso, virgem e inóspito, coberto de florestas fechadas e cruzado por rios caudalosos, lutando contra os animais selvagens, os mosquitos, a febre e a morte, esses pioneiros (”bandeirantes”) semearam também em sua marcha núcleos de futuras povoações, conhecidas hoje como as Cidades Históricas do Brasil.  Algumas dessas expedições alcançaram os pés da Cordilheira dos Andes, no outro extremo do Continente sul-americano; outras, penetraram até os confins da Amazônia.

Mais tarde, já no século 18, ao  negociar com a Espanha as fronteiras na América do Sul,  pelo Tratado de Madrid (1750), Portugal – invocando o princípio do ius possidetis – conseguiu conservar para si todas as terras que haviam sido efetivamente ocupadas pelos “bandeirantes”.  E pôde assim legar ao Brasil em 1822, quando sobreveio a Independência brasileira, um imenso território de terras contínuas, além de uma língua única e unificada – a língua portuguesa.

Eis, portanto, como o desfecho da Batalha dos Tres Reis acabou não apenas repercutindo de modo importante no inconsciente coletivo de vastas camadas da população brasileira, através da incorporação do mito sebastianista, como também determinando consequências definitivas no processo histórico da fixação das fronteiras e, ipso facto, na própria formação do espírito nacional do Brasil.

1. cf. Lucette Valensi, em “Fábulas da Memória” –  Ed. Nova Fronteira, 1994.

(2) Idem, idem.


Texto traduzido e publicado no Brasil

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