SE CALHAR

                                          

                         SE CALHAR…

                                 Lauro Moreira

 Os meus quatro anos de residência em Portugal, convivendo não apenas com o ambiente diplomático, mas sobretudo com o povo português, ajudaram-me a consolidar certos conceitos e convicções a respeito da lusofonia como um todo e da língua portuguesa em particular. 

 Conceitos como o de que existe uma só língua mas vários falares, num prodigioso processo de enriquecimento vocabular e sintático; de que ao lado dessa pluralidade, tornava-se fundamental a existência de uma unificação ortográfica (não uma impossível uniformização), como aconteceu até 1911, quando Portugal levou adiante uma profunda reforma ortográfica de maneira unilateral, sem consulta prévia ou tentativa de acordo com o outro país que, deste lado do Atlântico, também falava e fala a mesma língua…

  Ou seja, o que era unido, bifurcou-se irremediavelmente, e passamos então a uma fase de plena esquizofrenia ortográfica, mantendo, para uma só língua, duas ortografias oficiais e excludentes! Essa aberração completou um século no ano passado, e o Acordo que poderia finalmente eliminá-la, assinado em 1990, continua a provocar uma lamentável e interminável discórdia, sobretudo em Portugal e Angola. Minha opinião sobre o assunto – que defendi com unhas e dentes enquanto Embaixador do Brasil junto à CPLP, em Lisboa – está esmiuçada no texto intitulado A importância do Acordo Ortográfico para o intercâmbio no espaço lusófono, postado em outra parte deste blog.

 Dito isso, passemos a uma brincadeirinha linguística que resolvi bolar, mostrando algumas diferenças entre o falar lusitano e o falar brasileiro. Ou seja, com o texto a seguir procuro evidenciar propositalmente as maneiras distintas do uso quotidiano do Português neste e no outro lado do Atlântico. O próprio título que escolhi – Se Calhar…- já denota uma certa diferença de acepções, uma vez que no Brasil a expressão é sinônimo de ocorrer ao mesmo tempo, coincidir, ocorrer no tempo oportuno, etc., enquanto em Portugal ela é sobretudo sinônimo muito usado de talvez, pode ser que…, etc.  Por outro lado, as disparidades são por vêzes tão acentuadas, que achei melhor acrescentar ao final do texto um glossário para o melhor entendimento dos utentes brasileiros da última flor do Lácio… Bom proveito! 

Mas, volto a repetir, essas variantes lexicais e até sintáticas só fazem enriquecer o idioma de Camões, ao contrário daquela absurda e inadmisssível duplicidade ortográfica inaugurada em 1911, que tanto prejuízo tem trazido a todos nós. 

SE CALHAR

Em Lisboa, Manuel encontra-se um dia com António, seu antigo colega e amigo de Coimbra:

Manuel – Olá António, muito gosto em vê-lo. Há imenso tempo não nos encontrávamos! E veja lá a coincidência: na semana próxima vamos fazer uma reunião do nosso grupo a Coimbra, sabias? Se calhar, podias vir também. Eu gostava muito de conversar com o António com mais calma, a relembrar nossos velhos tempos de estudantes.

António –  Ó pá, tenho muito pena, mas não creio que possa, pois estou agora a trabalhar numa gelataria, que me consome todo tempo. Uma maçada! Entretanto, eu também gostava de vê-lo logo, pois creio que temos imensas coisas a conversar. Inclusive desejava contar-lhe umas passagens engraçadas que vivi nos últimos meses, quando ainda trabalhava na agência de viagens e lidava amiúde com turistas brasileiros em digressão por Portugal. São simpáticos esses brasileiros, pá, mas de língua portuguesa não percebem nada.

Manuel– Pois não é? Também eu tenho imensas histórias com esses brasileiros, que vêm passear a Portugal e muitas vezes acabam por não perceber o que estamos a dizer. E ainda nos acusam de ter um “sotaque” difícil. Ora, pá, acento tem eles, pois a língua nasceu cá e se chama portuguesa…E os gajos a reclamar de nosso “sotaque” e de nossas palavras e expressões que eles não conseguem perceber…Tem piada tudo isso! Pois imagine que quando lhes dizia coisas como multibanco, pastilha elástica, penso rápido, dorido, fita-cola, verniz de unhas e pica no rabo, eles me “corrigiam”, dizendo tratar-se, no Brasil,  de caixa eletrônico, chicletes, esparadrapo (veja que loucura!), dolorido, durex (essa é muito boa), esmalte e injeção na nádega (essa, então, é ótima, não achas?).

António – Pois, pois. Eu cá também já tive essa experiência curiosa em minhas várias viagens ao Brasil. Os advogados cariocas, meus interlocutores, não percebiam quando lhes falava sobre pessoa singular ou pessoa coletiva, ou, quando ao telefone, lhes perguntava “Está lá?”. Nem quando eu mencionava palavras como auscultador, sinal de marcar, atendedor de chamada, impedido, ou serviço automático.

E uma certa vez minha mulher entrou numa loja de roupas em São Paulo e, aproveitando os saldos, pediu umas cuecas castanhas para ela, mas de tamanho mais pequeno que as da montra…. E, como prendas de Pai Natal, quis comprar para mim   um fato de linho, uma camisola e uma gabardine, e para os miúdos, algumas calças de ganga, dois fatos-macaco, umas peúgas, três fatos-de-banho, etc. Depois, pediu ao atendente que embrulhasse tudo para oferta e metesse num saco. O gajo não percebeu nada… Aliás, como era uma loja grossista, saiu tudo por uma bagatela. Pena que os fatos-macaco dos putos não lhes assentaram nada bem.

Doutra feita, como pretendíamos oferecer um jantar a uns amigos, no apartamento que havíamos arrendado por uns meses no Jardim Paulista, fomos às compras ao Mercado Municipal – e novamente tivemos algumas dificuldades linguísticas. Tudo começou quando passamos pelo talho para comprar uns kilos de carne de borrego, vitela e lombo, além de umas febras, já que pretendíamos preparar uma barbacoa, com umas bifanas e uns bifes empanados e uns pregos… Passámos em seguida a procurar hortaliças, grelos, filetes, gambas, fiambre e espargos. De entrada, pretendíamos oferecer um esparregado, um esparguete e uns pastéis de bacalhau com batata a murro e batata salteada, ao molho de piri-piri. De sobremesa, umas frutas, como dióspiro, ananás e alperce, além de doces conventuais, pastéis de nata e leite-creme. Como bebida, vinho verde tinto, espumante e um bom bagaço. Pois saiba que quase tivemos que voltar à casa de mãos vazias, resignados a servir aos convidados apenas uns ovos escalfados, uns joaquinzinhos que tínhamos ao  frigorífico, umas tostas mistas e umas sandes de fiambre. E o escândalo maior deu-se quando passamos pela padaria e pedimos um cacete e uma carcaça. Os gajos quase morriam de rir, e nós não conseguíamos perceber a razão de todo esse gozo.

Manuel – Muito boa essa! Pois isso lembra-me também uma vez que acompanhei outra malta de brasileiros aldrabões cá em Lisboa. Chegaram ao aeroporto queixando-se do voo, das hospedeiras da TAP, do atraso na descolagem e na aterragem, da ementa, de tudo. Mais tarde, decidiram apanhar o eléctrico e viajaram em grande algazarra até a estação de comboios, e nem deram atenção ao picas, quando este lhes pediu um pouco de silêncio. Em seguida, alguns foram a uma paragem de autocarro, entraram no rabo da bicha e apanharam uma lagarta, enquanto outros acharam que, se calhar, o melhor  era subir a uma carrinha de aluguer e dar um passeio pela cidade. Os restantes desceram ao metro, picaram o módulo e não deixaram de se impressionar com a educação dos utentes. Os da carrinha queixaram-se dos travões, do preço do gasóleo, das motas, das coimas, das bermas estreitas e do alcatrão da autoestrada para Cascais, de um furo inesperado, do preço da portagem, do trânsito infernal na hora de ponta, dos peões que pediam boleia, da falta de passadeiras e de parques para o veículo.

No hotel, a malta  dirigiu-se à receção, ao rés-do-chão, para registar-se. Entregaram os passaportes, declinaram nome,  apelido e morada de cada qual, pediram quarto no sétimo piso, com casa de banho, subiram ao ascensor, carregaram no botão e foram todos tomar um duche. Ao cabo de minutos, um deles chama à receção para queixar-se do autoclismo, que estava sem água.

Uma hora depois, já estavam no bar do hotel, na cave, onde pediram ao empregado de mesa água fresca, natural, e lisa, umas boas girafas de imperial, além de umas tapas e umas espetadas, porque estavam cheios de fome. Ao fim, cansados, estiraram-se todos nos maples da cave e adormeceram sem almofadas.

Ao dia seguinte, após o pequeno almoço, uma das raparigas veio perguntar-me onde poderia comprar “esmalte, batom, uns cadarços e um grampeador”. Só depois de algum tempo percebi que ela queria mesmo era verniz de unhas, lápis de lábio, uns atacadores e um agrafador…

E olha, pá, que se trata da mesma língua!…

Lauro Moreira

Lisboa, 16/12/09

              

                 GLOSSÁRIO PROVIDENCIAL…

gelataria = sorveteria

fazer uma reunião a Coimbra, estudar a Coimbra = em Coimbra

eu gostava de vê-lo = eu gostaria de vê-lo

imensas coisas – muitas coisas

em digressão por Portugal = em turnê por Portugal

não percebem nada = não entendem nada

veio passear a Portugal = veio passear em Portugal

tem piada tudo isso = é muito engraçado tudo isso

arrendar um apartamento = alugar

durex = camisinha

pessoa singular = pessoa física

pessoa coletiva = pessoa jurídica

Ao telefone

está lá? = alô!

auscultador = fone

marcar um número = discar

atendedor de chamadas = secretária eletrônica

impedido = ocupado

serviço automático = discagem direta

Na loja

cuecas castanhas = calcinhas beges

mais pequenas que as da montra = menores que as da vitrine

prendas de Pai Natal = presentes de Papai Noel

um fato de linho= um terno de linho

uma camisola e uma gabardine = uma camiseta e uma capa de chuva

para os miúdos = para as crianças

calças de ganga = calças jeans

dois fatos-macaco = dois macacões

umas peúgas = meias de homem

três fatos de banho = três maiôs (para homem ou mulher)

pedir ao atendente = pedir ao vendedor

embrulhar para oferta = embrulhar para presente

loja grossista = atacadista

fatos-macaco dos putos = macacões para crianças

No mercado

talho = açougue

carne de borrego = carne de carneiro

lombo = filé mignon

febras = carne desossada, músculo

preparar uma barbacoa = fazer um churrasco

bifanas = carne de porco

bifes empanados = bifes à milanesa

pregos = sanduiches de carne

hortaliças = verduras

grelos = uma verdura semelhante à couve

esparguete = spaghetti, espaguete

pastéis de bacalhau = bolinhos de bacalhau

batata a murro = batata assada inteira e amassada

batata salteada = batata refogada

esparregado = guisado de verdura cozida

passámos em seguida a… = passamos… (pret. perfeito)

ao molho de piri-piri = ao molho de pimenta

dióspiro (ou diospiro) = caqui

ananás = abacaxi

alperce = damasco

doces conventuais = doces típicos portugueses

leite-creme = crême-brulé; crema-catalana

bagaço = aguardente feito de uva

ovos escalfados = ovos cozidos na água (pochê)

joaquinzinhos = peixinhos

tosta-mista = misto-quente

umas sandes de fiambre = uns sanduíches de presunto

um cacete = uma baguette, um filão

Turismo

alta de brasileiros aldrabões = grupo de brasileiros falastrões

hospedeiras da TAP = comissárias da TAP

descolagem e aterragem = decolagem e aterrissagem

ementa = cardápio, menu

apanhar o eléctrico = tomar o bonde

estação de comboios = estação de trem

o picas = funcionário do trem que picota os bilhetes

paragem de autocarro = parada de ônibus

entraram no rabo da bicha = entraram no fim da fila

uma lagarta = ônibus comprido e flexível

carrinha de aluguer = uma van de aluguel

picaram o módulo = picotaram o bilhete

utentes = usuários

travões = freios do veículo

gasóleo = óleo diesel

motas = motocicletas, motos

coimas = multas

bermas = acostamentos das estradas

alcatrão = asfalto

de um furo = de um pneu furado

portagem = pedágio

peões que pediam boleia = pedestres que pediam carona

passadeiras = faixas de pedestre

parques para veículos = estacionamentos para carros

receção = recepção

rés-do-chão = andar térreo

registar-se = registrar-se

nome, apelido e morada = nome, sobrenome e endereço

sétimo piso = sétimo andar

casa de banho = banheiro

carregaram no botão do ascensor = apertaram o botão do elevador

tomar um duche = tomar banho de chuveiro

autoclismo = descarga da privada

cave = sub-solo

água fresca e lisa = água gelada e sem gás

girafas de imperial = copos com cerveja (tulipa)

tapas = tira-gostos, aperitivos

espetadas = espetinhos

empregado de mesa = garçon

cheios de fome = com muita fome

estiraram-se nos maples = deitaram-se nos sofás

almofadas = travesseiros

uma das raparigas = uma das moças

multibanco = caixa eletrônico

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6 Comentários

Arquivado em LUSOFONIA

6 Respostas para “SE CALHAR

  1. Graciema C. E Silva

    Muit bom , Lauro! Vc conseguiu uma bela lista esclarecedora. Parabéns. Bjs.

  2. Pingback: SE CALHAR… |

  3. Roldão Simas Filho

    É por isso que escrevi o “Dicionário Lá & Cá – Português – Português.
    Parabéns pela lista.

  4. Roldão Simas Filho

    Gostaria de obter esse texto para imprimi-lo.

    • Senhor Simas,
      Obrigado pelos comentários. Mas o importante de tudo isso é que temos uma só língua, a despeito das inúmeras variantes lexicais, que só a enriquecem.
      O Senhor tem toda a liberdade para imprimir o meu texto “Se calhar”.Basta copiar do blog e colar.
      Cordialmente,
      Lauro Moreira

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