PÉ DE PORTINARI…

      Tempus fugit, para não dizer que voa! Já lá se vai quase um ano de um escorregão de mau gosto que me deixou com duas fraturas na perna esquerda. Meus amigos se lembram bem, pois os maltratei com uma crônica/e-mail em forma de notícia, ou vice-versa, e em seguida com uma outra, bem mais otimista. Ei-las abaixo. 

Hoje estou em plena forma, embora jamais pronto pra outra…

CAMINHEMOS…

Partindo de Ribeirão Preto, havíamos finalmente chegado à fazenda  no sudoeste de Goiás, depois de uma viagem de oito horas de carro e  mais de setecentos kilômetros em estradas de qualidade nunca vista na história deste país…

Não era nossa primeira visita à fazenda da Patrícia, minha enteada, e de seu marido Vladimir, agora residentes na cidade de Rio Verde, a cem kilômetros dali. Em duas outras ocasiões já havíamos desfrutado do conforto daquela casa, da beleza da paisagem e, sobretudo, da contemplação de um céu límpido,  onde à noite  as estrelas de tão próximas pareciam cair sobre nossa cabeça, numa emocionante  reprise das noites goianas de minha infância em Itaberaí.

Chegamos sexta à noite, e já no domingo estava eu decidido a dar minha caminhada costumeira, sem a qual, ao cabo de poucos dias, começo a me sentir enferrujado e impaciente. Combinei com Patrícia, minha parceira regular nesses exercícios desde os tempos em que morávamos em Washington e depois em Barcelona, e lá fomos nós a subir e descer morros pela fazenda a fora. A hora não era das melhores – onze e meia – e o sol escaldava. Caminhamos até o asfalto da estrada para Jataí, andamos por ele durante uns quarenta minutos mais, e decidimos retornar em seguida, já que o sol não estava de brincadeira. E foi aí que se deu a epopeia… De repente, não mais que de repente.

Vínhamos os dois conversando animadamente, eu contando meus causos com a ênfase exagerada com que Deus me aquinhoou, pontuados pela generosa gesticulação de sempre. E eis senão quando, ao começarmos a descer um declive mais acentuado da estradinha cascalhada, senti que meu pé direito deslizava sobre as pedrinhas, indo pra frente, enquanto o esquerdo ficava pra trás, até que me desequilibrei por completo e caí sobre ele com todo o peso do corpo. Foi tudo rápido e tudo muito doloroso. Quando consegui retirar o pé de debaixo do corpo, constatei horrorizado que ele estava completamente deslocado para o lado direito. Tentei movê-lo em vão , até que, meio desnorteado,  puxei-o de volta com as mãos e recoloquei o teimoso em seu lugar. E disse para uma Patrícia  desnorteada, coitada:- Quebrou! Vá correndo buscar socorro, que não consigo nem mexer. Quebrou!

Ela saíu em disparada, venceu rápido os mil e poucos metros até a casa, enquanto eu gemia de dor e, de cara para o sol, deitava no cascalho vermelho de poeira, aguardando sem muita esperança um desfecho menos infeliz para o drama. Chegaram, carregaram-me até a caminhonete e me levaram para casa.

A partir daí, foi só gelo e dor, sem parar. Era domingo, estávamos a mais de hora de carro de Rio Verde, ninguém ali conhecia nenhum ortopedista, e faltava-me coragem para levantar daquela cama. Me deram um antinflamatório providencial e Liana concorreu com uns comprimidos de 1g de Novalgina, o que me permitiu não dar mais tanto vexame naquele quadro de dor excruciante. E, erroneamente, me permitiu também retardar minha ida a um hospital na cidade, ao menos para certificar a extensão do dano, já que a essas alturas eu começava ingenuamente a achar que talvez, quem sabe, não tivesse havido fratura, mas apenas uma forte luxação… embora o pé já estivesse tão inchado  que mais parecia um Portinari. Ou um Botero. Ou, melhor ainda, um escuro pão de forma.

Na quarta-feira, ou seja no terceiro dia de sofrimento atroz, decidi que não caberia mais postergar aquela situação em que a única certeza era a dor que não me deixava: tomamos o carro e fomos para o hospital em Rio Verde. Vã esperança! As radiografias liquidaram com as dúvidas, e da pior maneira possível: duas fraturas na fíbula (aquele osso da perna, companheiro da tíbia,  que até há pouco tempo se chamava perôneo, lembram-se?, e que agora, para nossa surpresa, mudara de nome), uma na parte superior, perto do joelho, e outra na inferior, na junção com o calcanhar. Prescrição médica: colocação imediata de uma tala ortopédica para aguardar o necessário desinchaço (coisa de umas duas semanas) e depois imobilizar por completo, engessando por sessenta dias…

Mas isso não era tudo, acrecentava o jovem doutor, pois muito provavelmente eu teria rompido alguns ligamentos do calcanhar, em vista da violência da torção, o que exigiria é claro uma imediata intervenção cirúrgica. Felizmente, nesse ponto ele foi mais pessimista que eu, pois a ecografia constatou  que meus ligamentos estavam em ordem, a despeito de alguns estragos (pequenos derrames e algumas tendinites) observados. Ou seja, o meu velho hábito de caminhar, que mantenho há mais de trinta anos, e que desta vez me ocasionou esse inesperado dissabor, foi também o responsável pelo excelente estado e incrível resistência dos tendões e ligamentos de meu pé…

Hoje, passados oito dias do escorregão fatal, voltei a Ribeirão Preto e, sobretudo, à minha cama, onde a dor tem sido mais suportável, e aos meu livros, companheiros indefectíveis de toda a vida e lenitivos inigualáveis em momentos dolorosos como esses. Com eles, e armado de muita paciência e alguns analgésicos, encaro serenamente os meus próximos sessenta dias…

Abraços,

Lauro

Ribeirão Preto, 1/08/11

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CONTINUEMOS A CAMINHAR…

Minha gente, meus amigos,

Há cerca de um mês, enviei aos parentes e alguns amigos uma notícia em forma de crônica a respeito de um acidente banal, mas de consequências não tanto, envolvendo uma fratura dupla de minha perna esquerda e um estrago de consideráveis proporções em meu pé idem, o qual, ao cabo de dois dias já estava mais para um Botero ou um Portinari. Ou seja, nada menos que um imenso e escuro pão de forma. Concluía dizendo que os meus próximos três mêses seriam dedicados apenas à cama, à cadeira de rodas, à paciência e aos livros…

Volto agora a vocês, para agradecer a cada um pela afetuosa solidariedade com que me envolveram, traduzida em palavras carinhosas de estímulo, e preces e votos de uma breve recuperação. Alguns tiveram a amabilidade de enviar como sugestão listas de livros  e de filmes para meu deleite particular, outros me mandaram CDs e vídeos, vários telefonaram pessoalmente, e não foram poucos os que chegaram até a incentivar-me a que perseverasse no caminho da literatura, sugerindo-me  o aproveitamento do tempo de imobilidade forçada para a produção de novos textos… De preferência (pensei logo) menos aterrorizantes, por supuesto, que o dramático e traumático Caminhemos. E, por favor, todos em prosa, com vistas a evitar o aparecimento desagradável de algum verso de pé quebrado, pois isso equivaleria a falar de corda em casa de enforcado, não é mesmo?

Essa corrente positiva que vocês criaram beneficiou-me de tal modo, que ao voltar ao médico agora para a retirada do gesso, nova revisão e, caso estivesse tudo em ordem, calçar uma ansiada bota ortopédica por trinta dias (já me imaginava com uma bota de sete léguas e com pernas pra que te quero, depois de tanto tempo de engessada imobilidade), tivemos todos, ou seja, minha mulher, o médico e eu, a grande surpresa do milagre operado: tíbia e fíbula novinhos em folha, devidamente colados, sem vestígio de fratura!  Aleluia! Aleluia! Hamdulilah! Só não caí duro de alegria porque felizmente estava sentado na bendita cadeira de rodas.

Queimada a etapa da bota (galicismo que o Professor Vianinha, do Santo Inácio, fulminaria logo com um merecido zero), começo hoje a fase da fisioterapia, para tratar sobretudo de um pé que ainda está longe de recuperar sua flexibilidade e aparência mínima de normalidade. Mas tudo bem.  Pra frente é que se anda. Caminhemos, pois!

Um abraço muito afetuoso e agradecido do

Lauro

Ribeirão Preto, 05/09/11                                      

 

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