CLARICE

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         A pedido de meu amigo José Carlos Vasconcellos, poeta, jornalista e figura de grande destaque em Portugal, escrevi essas notas de reminiscências sobre Clarice Lispector, para serem publicadas no Jornal de Letras, de Lisboa, em 2010.

                                                   

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Nádia Gottlib, Liana e eu, na exposição Clarice Lispector, na Casa de Fernando Pessoa, Lisboa.

 Lembrando Clarice

Lauro Moreira

Em abril do ano passado, quando me encontrava ainda à frente da Missão do Brasil junto à CPLP, tive a oportunidade de levar adiante um projeto que acalentava desde que chegara a Portugal: a realização de um Colóquio Clarice Lispector. Finalmente, contando com a parceria inestimável da Casa Fernando Pessoa e o entusiasmo de Inês Pedrosa, foi-nos possível promover um  encontro inesquecível em torno da obra de uma das maiores figuras da literatura brasileira, tal como havíamos feito, em 2008,  com a Fundação Gulbenkian, em relação à obra de Machado de Assis, por ocasião do centenário de sua morte.

Os dois dias dedicados a Clarice contaram com a contribuição de destacados estudiosos e admiradores de sua obra, como Nádia Gotlieb, da Universidade de São Paulo, Carlos  Mendes de Sousa, da Universidade do Minho e autor de um alentado estudo analítico sobre a homenageada, Francisco José Viegas, Clara Rowland, Inês Pedrosa, Maria Antónia Fiadeiro, Ana Paula Tavares e Patrícia Lino, entre outros. Além disso, apresentamos  uma rica exposição intitulada Clandestina Felicidade, organizada por Cristina Elias, com fotos extraídas da Fotobiografia de Clarice, lançado na ocasião por sua autora, Nádia Gotlieb; a encenação do  monólogo Que mistérios tem Clarice, pela atriz brasileira Rita Elmor e, finalmente, a projeção do premiado filme de Suzana Amaral A Hora da Estrela, apresentado pelo não menos laureado cineasta Lauro António. Tudo isso, contando com a merecida cobertura por parte da imprensa local, em um grande contributo para a maior divulgação da obra clariciana junto ao leitores portugueses.

Confesso que fiquei extremamente feliz por haver conseguido realizar esse encontro em Lisboa. E não apenas como um Embaixador do Brasil promovendo a cultura de seu país e da língua portuguesa, mas também como alguém que teve um dia a sorte de privar da amizade da homenageada. Por vêzes,no decorrer  do encontro, a figura da amiga sobrepunha-se à da escritora, em uma evocação dominada pela emoção e pela saudade de um tempo recuado, povoado de imagens familiares, de momentos conviviais jocosos (Clarice tinha, sim, um humor surpreendente), de contatos com a família, e até de eventos tristes e dramáticos (como o do incêndio em seu apartamento, que quase a levou à morte e que tanta dolorosa sequela deixou em seu corpo e sua alma).

Imagens de seu apartamento no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, de seus retratos pintados por De Chirico e Carlos Scliar, da máquina de escrever ao colo, do cigarro sempre aceso, dos dois filhos ainda crianças e depois adolescentes, das irmãs Tânia e Elisa (esta também uma excelente romancista, que acabou tendo sua curta obra ensombrecida pelo gênio da irmã mais nova), dos vários fins de semana em Petrópolis e Teresópolis (onde vi nascer literalmente as primeiras passagens de A Paixão segundo G.H. , ditadas pela autora a sua amiga querida e grande poeta Marly de Oliveira, com quem eu me havia  casado há pouco,  tendo justamente Clarice e Manuel Bandeira por padrinhos), o jantar em casa de nosso amigo e meu colega de diplomacia José Guilherme Merquior, ao lado de Murilo Mendes, a viagem  dela anos depois a Brasília, quando lá residíamos, para participar de um Congresso de escritores, e onde Clarice uma vez mais mostrou sua incrível timidez e sua aversão por encontros do gênero…

Toda essa sequência de imagens tão nítidas de um passado de mais de quarenta anos teimavam em aflorar em minha lembrança, a cada momento desses dois dias em Lisboa dedicados à grande escritora brasileira, cuja obra está a ganhar um contingente  cada vez maior de admiradores em todo mundo. O que me traz uma grande alegria.

RIo de Janeiro, setembro de 2010

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2 Comentários

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2 Respostas para “CLARICE

  1. Rosângela

    Sempre cheio de emoção e vida, muita vida, em tudo que escreve.. parabéns!!!

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