CINEMA

                                            Nos tempos do Super-8

                                                              Lauro Moreira                             

Não, não foi por causa do filme homônimo do Steven Spielberg e do J.J. Abrams, atualmente nas telas brasileiras, que me lembrei dos meus tempos de cineasta amador, ou menos pretenciosamente, dos meus dias de super-oitista ou, talvez mais chic, de um super-8 filmmaker. Aliás,  era esse o nome de uma excelente revista mensal editada nos Estados Unidos, exclusivamente dedicada à multidão de cultores daquele formato de tanto sucesso e que fora vilmente assassinado pelo aparecimento do video-cassete, muito mais prático e infinitamente mais barato, embora de resultados nitidamente inferiores… Guardo hoje ainda vários exemplares daquela publicação, de que era assinante e fiel leitor.

Na verdade,  interessei-me por cinema desde cedo. Nos meus tempos de colégio interno em São Paulo, dos dez aos quase quinze anos, chegava a assistir a uma média de três filmes por semana,  dois aos domingos e um às quartas-feiras, no próprio Colégio. Naquela época em que a televisão mal nascia no Brasil, os cinemas de São Paulo se multiplicavam em número e qualidade. Numa cidade de dois milhões e pouco de habitantes, havia mais de duzentas salas de cinema! No Centro, era uma sala em frente ou ao lado da outra, sobretudo na área das Avenidas São João, Anhangabaú, Ipiranga, e em suas ruas transversais. Sem falar nas Praças Bandeirantes e da República. Cine Pedro II, Oásis, Broadway, Art-Palácio, Avenida (um pulgueiro que mais tarde cedeu lugar ao luxuoso Olido, onde uma numerosa orquestra entretinha o público antes do início do filme), Ipiranga, Marabá, Ópera, Jussara, Bandeirantes, República (com sua tela gigante), o Metro , mais embaixo na São João…

Lembro-me da inauguração do Cine Marrocos, com sua entrada monumental, e seu vasto interior forrado de espesso tapete vermelho (acho que então não se usava a palavra carpete): um luxo  das arábias! Todas essas salas, literalmente todas –  com exceção talvez de uma, a do Cine Jussara, na Rua D. José de Barros, que quase só exibia filmes proibidos para menores de 18 anos, em geral franceses – eu frequentei ao longo de cinco anos e com incrível regularidade. Aliás, curiosamente, quando me lembro de muitos desses filmes a que assisti, recordo-me quase sempre das salas em que foram exibidos: Uma Aventura na África (The African Queen), no Cine Marrocos, Iwo Jima, no Art Palácio, David e Betsabá, no Cine Marabá, Grandes Esperanças, no Colégio São Bento, O Maior Espetáculo da Terra, no Colégio Arquidiocesano (onde cursei as duas últimas séries do Ginasial), e assim por diante. E, ainda mais curiosamente, hoje em dia não consigo ter sequer ideia da minúscula sala de shopping-center onde vi aquele filme no mês passado…

Ao mudar-me com a família para o Rio, dei início a uma vida  bastante diferente daquela que vivera em São Paulo, quando estava só, interno em um colégio, longe dos pais, dos parentes e da terra natal. E Goiás, minha terra ensolarada, tão diferente da Pauliceia fria,nevoenta e garoenta, naquele tempo estava tão longe quanto a Lua, inclusive para os paulistas, que um dia estiveram por lá, como bandeirantes desbravadores. E na verdade distante para mim também, já que os contatos com a família só se faziam por carta semanais ou, in extremis (casos urgentes, de doença, etc.), por telegramas lacônicos. Moral da história: acabei me transformando em especialista na correspondência epistolar…

Mas sempre encarei de modo muito positivo essa minha temporada paulistana, decisiva para a formação de minha personalidade. Ao chegar ao Rio, acho que senti logo que os cinco anos anteriores me haviam adestrado bastante bem para essa nova etapa: aos quinze anos, já me sentia homem feito. Foi então a época do curso Clássico no Santo Inácio e depois o de Direito na PUC. Época esfusiante da Academia de Letras do colégio, da leitura de vários escritores novos para mim, da descoberta definitiva da obra de Machado de Assis (até hoje meu autor de cabeceira e meu herói incontrastável), dos cursos de cinema e de teatro,  dos vários grupos e das inúmeras peças encenadas,  das atividades da nossa ACJ – Associação Cultural da Juventude, do jornalismo estudantil, da dedicação ao estudo de línguas, enfim, de uma etapa decisiva de minha vida, que acabou confluindo na escolha de minha profissão definitiva, com a prestação dos exames para a Carreira diplomática, dois dias após a formatura no Curso de Direito.

Agora, com esse atrevido resumo de quinze anos de vida em dois ou três parágrafos, podemos voltar ao Super-8. Para acrescentar que foi justamente depois de me ter feito diplomata é que me apaixonei pela realização de ensaios e documentários naquela bendita bitola. Claro que, a exemplo dos Lumières, o cinema também para mim nasceu como álbum de família… Ao nascer Mônica,  primeira filha, tomei emprestado ao meu irmão uma filmadora Eumig, que ele havia trazido da Europa, e dei início à minha primeira mega-produção. Sim, mega, porque começou com a cena do primeiro banho do bebê, no Rio de Janeiro, e só terminou quatro horas e sete anos depois, em Genebra, após uma passagem de quatro anos em Buenos Aires, onde a protagonista aprendeu a falar, andar e fazer suas primeiras gracinhas.

Não preciso dizer que ao chegar à Argentina, primeiro posto para onde fui removido, tratei logo de importar o que havia de mais sofisticado em matéria de máquinas e equipamentos para  Super-8, todos da Bolex, sinônimo suíço de qualidade. Com um belo projetor sonoro, uma premiada câmera,  moviola, coladora, cola especial, lentes, tripés, e outras parafernálias do gênero, senti-me o próprio Orson Welles, e dei continuidade ao meu álbum familiar. A essa obra, por definição interminável (na verdade decidi concluí-la porque, como disse, a certa altura a protagonista já estava ficando uma senhorita de sete anos), comecei a agregar outras de menor fôlego e melhor qualidade, fruto da crescente experiência que ía adquirindo  na solitária e prazeirosa tarefa de lidar com todos esses equipamentos de primeira linha.

E assim vieram ao mundo obras várias, que só uma modéstia irredutível e granítica como essa minha me impede de classificá-las como imorredouras… Obras definitivas, como Pela Fronteira, hoje um verdadeiro clássico mundial, que retrata a vida fronteiriça argentino-brasileira; Duas Cidades, uma visão justaposta de um Brasil colonial (Vila Boa de Goiás) e o país do futuro (Brasília – calma lá, estávamos ainda em em 1970) e, sobretudo, o celebrado México 70, um longa de hora e meia – sim senhor, é isso mesmo – em que o futebol entra como pretexto ou pano de fundo para uma apresentação do país azteca e de sua riquíssima cultura. Isso tudo, sem falar de Fervor de Buenos Aires, com textos extraídos da obra poética homônima de meu parceiro Jorge Luis Borges…Muitos anos depois, minha amiga (vê-se logo!) e super-criativa atriz Denise Stocklos insistiu em correr o risco de aproveitar algumas sequências desse filme em seu espetáculo em torno da figura do grande escritor argentino – um dos literatos mais injustiçados pelo Nobel até hoje, diga-se de passagem.

Mas, brincadeiras à parte, a verdade é que por longos anos me distraí bem com meus filminhos, onde atuava como câmera, editor, montador, autor dos textos, selecionador da trilha musical, etc. Ou seja, batia o escanteio e corria para tentar a cabeçada. Nos primeiros tempos, entregava ao laboratório o filme para revelar e adicionar a banda magnética, sobre a qual se gravaria o som a-posteriori (nunca cheguei a usar câmera sonora, que só apareceu no final dessa aventura do Super-8), mas quando fomos morar em Genebra, acabei adquirindo um sofisticadíssimo equipamento desenvolvido pela Bolex e a alemã Weberling, para agregar a fita magnética à película, depois de fazer um curso de três dias dentro da própria fábrica suíça. Ou seja, a partir daí, eu só dependia do laboratório para a revelação do filme.

E foi então que  ousei mais, e me arvorei em realizador de uns documentários e ensaios de maior ambição, tendo como temas alguns assuntos que me atraíam de modo especial, como a Grécia Clássica, o Renascimento, o passar das estações em uma cidade em que elas estão fortemente marcadas, como Genebra, etc.

Anos mais tarde, já morando em Washington, tive o meu canto de cisne no Super-8, ao decidir aproveitar as férias para viajar a Portugal, Espanha e Marrocos, com vistas a colher as imagens do que viria a ser meu derradeiro brinquedinho cinematográfico, o filme Mudejares e Mossárabes, no qual procurava mostrar como um povo nômade e rústico, que habitava os desertos da Arábia Saudita de hoje, havia se unificado através da pregação religiosa de um profeta, e em menos de cem anos após a morte deste, já havia conquistado militarmente todo a região vizinha, incluindo o Irã, o Egito, a Líbia, a Tunísia e o Magreb, chegando aos limites intransponíveis  do Mar Oceano. Do Marrocos, em aliança com os Bérberes, milenares habitantes daquelas terras, cruzaram o estreito conhecido até então como as Colunas de Hércules, e mais tarde como Gibraltar, em memória de Tárik, o comandante bérbere da expedição (jebel, montanha em árabe, e Tárik, resultando em Jebel al Tárik, ou seja, a montanha de Tárik).

Em em menos de sete anos os invasores concluíram a façanha de ocupação de praticamente toda a Península Ibérica, tomada então dos visigodos, que três séculos antes haviam expulsado de lá os romanos. Essa visitinha, que durou quase oitocentos anos, e que permitiu o contato, o diálogo e depois a simbiose da cultura árabe e as diversas camadas superpostas de civizações antigas da Península (iberos, celtas, fenícios, cartagineses, romanos e visigodos), acabaram gerando uma nova civilização das mais avançadas da Europa, em que as três grandes religiões monoteístas aprenderam a dialogar em paz. Com isso, as ciências e as artes, a medicina,  a astronomia, a matemática e a filosofia (não nos esqueçamos de que foram os árabes que reintroduziram o pensamento já completamente esquecido de Aristóteles na Europa), alcançaram níveis  inéditos de desenvolvimento. Tudo isso durou de princípios do século oito (711) a janeiro de 1492, quando Granada, o último reduto árabe, cai diante dos ataques dos Reis Católicos, Fernando e isabel. Mossárabes e Mudejares procura desenvolver esse tema da chamada Civilização Mourisca, para mim apaixonante, e tive grande alegria em poder realizá-lo.

É evidente, por outro lado, que todos esses  filmes em Super-8 eram produzidos quase artesanalmente, como se viu, e por isso mesmo tinham, digamos,do ponto de vista formal, um pouco da  rusticidade característica da obra artesanal. Mas o que me interessava mesmo era aproveitar esse veículo para me expressar, para me comunicar com as pessoas.

E aí vem a pergunta inevitável: que pessoas? Qual era exatamente o público, a plateia desses seus filmes? Bom, acho que nunca cheguei a bater recordes de bilheteria, hélàs,  mas somando uma projeção aqui outra acolá, uma apresentação num centro cultural ou numa biblioteca pública (fiz muito isso em Buenos Aires), aproveitando alguns documentários para ilustrar conferências (geralmente sobre a realidade brasileira), frequentes exibições domésticas para amigos, parentes e outros valentes interessados – não posso me queixar da falta de espectadores…

Interessante observar que depois desse filme realizado em 1984, aposentei todo meu equipamento e nunca mais voltei ao assunto. Mas é verdade também que durante a lenta agonia do Super-8, acabei cedendo um pouco à tentação e  fazendo algumas incursões não muito animadoras  pela nova atração, que era o VHS. Não gostei nada, pois para mim a imagem eletrônica, não de película, não era cinema, mas um novo veículo, de qualidade técnica altamente duvidosa. Mesmo com o passar dos anos e o avanço incrível da imagem digital, continuo me sentindo um viúvo, ou talvez melhor, um órfão do Super-8.

Creio que a traição mais bem sucedida à memória do meu parceiro de tantos anos aconteceu justamente quando eu estava como Embaixador no Marrocos e, com anos de atraso, resolvi viajar à Espanha (onde servira na primeira metade dos anos noventa) e fazer com minha pequena Sony digital um filme de quase duas horas sobre uma das cidades que mais aprecio no mundo: Barcelona. Confesso que fiquei satisfeito com o resultado, mas nem por isso resolvi insistir no assunto.

Muito bem, mas qual a razão desse papo todo sobre cinema, e sobretudo, o que me teria levado a realizar toda essa incursão ao passado? Pois vou confessar: neste momento, meados de setembro de 2011, ainda na tentativa de recuperar-me da fratura dupla de minha perna esquerda, consequência de uma queda idiota e banal ocorrida há quase dois meses, estou passando uns dias em Araxá, Minas Gerais. Fazendo o quê? Fisioterapia, e participando do  filme  Vazio Coração,  primeiro longa-metragem de meu amigo Alberto Araújo, poeta, romancista, roteirista e agora diretor de cinema. Pois é, primeiro fui chamado para dar uma espécie de consultoria itamaratyana, já que um dos protagonistas é nada menos que um Embaixador brasileiro, vivido pelo nosso excelente Othon Bastos. Há ainda vários outros importantes atores participando do projeto, como o Murilo Rosa, o Oscar Magrini e o Lima Duarte, a Bete Mendes, a Larissa Maciel e a Patrícia Naves. Com toda essa equipe dando corpo a um roteiro sensível e inteligente, estou convencido de que o filme ficará muito bom.

E no meu caso particular, a coisa depois evoluiu, pois recebi um segundo convite, e agora, entre os outros nomes menos cotados,  estou eu… Que tal? E fazendo o papel do… Embaixador Lauro Moreira. Já pensaram? Coisas do Alberto! Tomara que dê certo, pois vai ser muito duro se alguém vier dizer que sou um canastrão de tal ordem, que não consigo representar direito nem o meu próprio papel…

THE END

Bastidores de Vazio Coração

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3 Comentários

Arquivado em CINEMA, FOTOS

3 Respostas para “CINEMA

  1. João Moreira Coelho

    Querido Lauro,
    Apesar de ser hoje apenas mais um nome no seu catálogo de endereços (Não sei o motivo porque você se silenciou para comigo há alguns anos), fiquei felicíssimos de ler seu blog e deliciar-me com seu estilo, seu poder de comunicação e de partilhar suas lembranças do passado – eu também me lembro de assistir a filmes no majestoso Cine Marrocos, embora morasse em Campinas naquela época e não em São Paulo.
    Ficarei feliz de ler tudo que jorrar de sua pena prodigiosa.
    Um grande abraço,
    João

  2. Mara Publio de Souza Veiga Jardim

    Um cidadão tão completo, com tantas habilidades, merecia ser imortalizado no cinema. Adorei as suas cenas. Um abração. Mara Publio de Souza Veiga Jardim – Secretaria de Cultura da Cidade de Goiás

  3. Caro embaixador!
    ADOREI!
    Vou ter muito gosto de ler o seu BLOG.
    Um forte abraço,
    Regina

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