ACORDO ORTOGRÁFICO

A IMPORTÂNCIA DO ACORDO ORTOGRÁFICO PARA  O INTERCÂMBIO NO ESPAÇO LUSÓFONO

                                                              Lauro Moreira *

A língua, instrumento de comunicação, é um organismo vivo que, para existir, prescindiria de uma política específica. No caso concreto da Língua Portuguesa, a terceira em número de falantes do mundo ocidental, devemos considerar não apenas a questão de sua defesa, difusão e promoção, como também, em certos casos, de sua própria implantação  em países oficialmente lusófonos, onde o português é ainda idioma minoritário. Ou seja, devemos tratar, de um lado, de sua difusão, através da multiplicação de cursos, leitorados e cátedras em países não lusófonos; e de outro, de multiplicar esforços para ampliar, a curto e médio prazo, o número de lusófonos em países como a Guiné-Bissau ou Timor-Leste.

Entretanto, não se pode considerar a língua como um fim em si mesmo, mas sempre como um instrumento vivo de cultura e de comunicação. Nesse sentido, estaremos contribuindo fortemente tanto para a sua difusão quanto para a sua implantação, na medida em que promovemos o fortalecimento do diálogo cultural entre os países da CPLP.

Sob uma certa ótica, e para muitos usuários da língua portuguesa, não faz talvez muita diferença que ela seja ou não ortograficamente unificada. Mas, na medida em que o diálogo entre as culturas lusófonas se vai acentuando, em que suas literaturas respectivas se vão tornando reciprocamente mais conhecidas, não resta a menor dúvida de que essa unificação se torna de fato não apenas desejável, senão imprescindível.

Evidentemente não estamos nos referindo aqui a questões de natureza fonética ou vocabular, uma vez que os diversos “falares” (brasileiro, lusitano e africano) constituem uma das grandes riquezas da lusofonia. É a diversidade fonética na unidade linguística. Aliás, estatisticamente o Brasil, por si só, já garante absoluta unidade linguística para 80% do universo de lusófonos do mundo, uma vez que, de cada cinco lusofalantes, quatro são brasileiros.

Vejamos,  a título ilustrativo, o seguinte trecho extraído de uma exemplar do famoso Almanach de Lembranças Luso-Brazileiro, edição de 1900:

“Encerra este elegante volume de 382 paginas a collecção da revista quinzenal, que a illustre escriptora a srª D. Alice Pestana (Caiel) publicou durante um anno, revista consagrada aos pequenos leitores e organisada por forma a captar o interesse e o agrado, e também a promover a illustração d’este publico especial.

Alem d’uma secção anedotica e alegre, ella contêm interessantes chronicas, dando conta dos acontecimentos de cada quinzena mais próprios a dispertar o interesse da gente moça, ou a servir de thema a considerações de boa moral e proveitosos ensinamentos: uma primorosa secção de anthologia poética, em que figuram producções escolhidas dos mais apreciados auctores contemporâneos.”

Essa ortografia, que nos parece hoje tão estranha e arrevesada, era a que vigorava tanto no Brasil quanto em Portugal e suas então colônias na África e na Ásia, e que certamente continuaria em vigência até os dias de hoje, caso fosse sempre vencedora a eterna corrente dos puristas. Vigorou até os primeiros anos do século XX, quando Portugal, em 1911, logo após o advento da República, decidiu introduzir uma profunda e necessária reforma, com vistas a simplificar a ortografia da língua. O problema surgiu com o fato de o Brasil, ou seja o outro país onde se falava também o Português, não ter sido consultado sobre o assunto. A partir de então, passou a haver duas ortografias oficiais – e excludentes – para a mesma língua. O que fora sempre unificado bifurcou-se irremediavelmente, e as várias tentativas bilaterais para se corrigir a anomalia não chegaram a bom termo, senão quase oitenta anos mais tarde, em 1990.

É claro que as modificações adotadas por Portugal em 1911, por mais justificadas que fossem, receberam inúmeras críticas por parte dos entendidos da época, que não admitiam escrever senão phosphoro, pharmacia, litteratura, ella, sahir, lyrismo, accepção, adhesão, ethnica, sciencia Ou seja, tal como hoje, os conservadores, contrários a qualquer mudança que viesse a afastar a língua de suas raízes etimológicas latinas ou gregas, se enfureciam diante de semelhantes desatinos… Mas o tempo passou e tudo voltou à calma, como agora passará, e dentro de algum tempo ninguém mais em Portugal estranhará escrever afeto, tato ou ator, e, no Brasil, enjoo, plateia ou feiura, como exigem as novas regras do Acordo Ortográfico assinado em 1990 pelos então sete países de língua oficial portuguesa, e posteriormente pelo Timor Leste independente. Embora ratificado por Portugal já em 1991 e pelo Brasil quatro anos mais tarde.a verdade é que o novo Acordo atravessou um longo período de hibernação, do qual só despertou muito recentemente, abrindo os olhos diante de um acalorado debate refletido na imprensa dos dois países.

As reações às novas regras ortográficas não se têm limitado apenas a Portugal, evidentemente. Muita crítica tem sido levantada também no Brasil; algumas procedentes, outras fruto do mais completo desconhecimento do assunto. Sabe-se que um acordo ideal, que promova uma total unificação na maneira de escrever, jamais poderá ser alcançado, em virtude da própria variedade fonética que se observa na língua falada no Brasil ou em Portugal. Além disso, é preciso não confundir unificação com uniformidade, e ter em mente que não existe nenhuma ortografia sacralizada pela tradição e que várias reformas ortográficas foram introduzidas nos últimos cem anos.

Por outro lado, não há igualmente como negar que o novo Acordo trará uma simplificação benéfica para todos aqueles que usam ou desejam aprender o Português, além de eliminar essa absurda duplicidade ortográfica, uma anomalia que tanto prejuízo tem causado ao idioma, em todos os sentidos. As diferenças sintáticas, lexicais ou fonológicas surgem naturalmente nas diversas latitudes em que a língua é falada – enriquecendo-a no mais das vezes – porém as variantes ortográficas só lhe causam dano. E o Português, como língua de cultura e expressão de um universo de mais de 240 milhões de usuários espalhados por quatro Continentes, não poderia continuar a padecer de semelhante anomalia.

Por aproximar a língua escrita da língua falada, por reduzir drasticamente as diferenças ortográficas, por estimular o intercâmbio cultural no espaço lusófono, por facilitar enfim a aprendizagem do Português como língua estrangeira e sua introdução nos organismos internacionais, este é um acordo mais que bemvindo, a despeito de suas eventuais e inevitáveis deficiências.

Felizmente prevaleceu o bom senso e, após prolongados debates públicos, sobretudo em Portugal, afastaram-se finalmente os últimos obstáculos legais para a entrada em vigor do novo diploma. O Brasil adiantou-se e fixou um cronograma a ser observado ao longo de três anos – já inaugurado pela imprensa escrita do país desde janeiro de 2009 – enquanto Portugal deverá em breve iniciar a adoção das novas regras. Santo Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste, que também já concluíram o processo legislativo de ratificação , deverão logo segui-los, o mesmo se esperando dos demais países lusófonos: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

*Embaixador do Brasil junto à CPLP

Lisboa , 2010

Anúncios

1 comentário

22 de maio de 2012 · 1:18

Uma resposta para “ACORDO ORTOGRÁFICO

  1. João Carlos Reis

    Prezado sr. Lauro Moreira,

    li com atenção a sua opinião, mas também gostaria de chamar a sua atenção para alguns aspectos. Digo alguns porque muitíssimos outros haveria para serem considerados, mas não desejo enfastiá-lo com tal.
    Diz o sr. a dado passo da sua opinião que, e passo a citar, “Por outro lado, não há igualmente como negar que o novo Acordo trará uma simplificação benéfica para todos aqueles que usam ou desejam aprender o Português, além de eliminar essa absurda duplicidade ortográfica,…”. Como certamente o sr. saberá muito melhor do que eu, pois sou apenas um humilde autodidacta neste assunto da Língua Portuguesa (escrevi com inicial maiúscula para mostrar o meu respeito pelo Idioma, ao contrário do que faz este famigerado acordo que pretende que se escreva com uma redutora minúscula inicial, não honrando nem dignificando a Língua Portuguesa), a eliminação da duplicidade ortográfica é uma total e completa falácia. Não lhe dou nenhum exemplo nesta altura, pois irei fazê-lo, embora com pouquíssimos exemplos numa brevíssima análise que fiz a este desprestigiante acordo para a Língua Portuguesa e que após esta breve introdução irei pôr. No que respeita àqueles que desejam aprender o Português, qual vai ser a norma que se lhes vai ensinar: a brasileira ou a dos restantes países Lusófonos??? Ou será que lhes vão ensinar todas as diferenças ortográficas que existem entre as duas grafias??? Isto sem falar na diferente gramática e nas palavras completamente diferentes para designar algo, como por exemplo “autocarro/ô(ó)nibus” ou “fato/terno”…
    No parágrafo seguinte o sr. escreve o seguinte: “Por aproximar a língua escrita da língua falada, por reduzir drasticamente as diferenças ortográficas,”. Também aqui, como já se deve ter apercebido, o problema é que com a supressão de consoantes mudas e de alguns acentos, dentro em breve a língua falada se vai aproximar, na esmagadora maioria dos vocábulos alterados, da língua escrita, como já temos o exemplo histórico da reforma ortográfica de 1943 no Brasil e da de 1945 nos restantes países Lusófonos em que a supressão de consoantes mudas e de acentos em algumas palavras alterou a pronúncia da esmagadora maioria dos vocábulos alterados… Como vemos também este argumento é uma falácia… excepto se quisermos continuar a alterar a verbalização das palavras que vão tendo a sua grafia alterada com as sucessivas reformas ortográficas… No que respeita às diferenças ortográficas, elas também não vão ser drasticamente reduzidas, pois se nalgumas vai haver aproximação, noutras vão passar a existir divergências… Apesar de se pretender unificador, este acordo muito pouco faz na prática para que haja a tão propalada união, pois o que antes era excepção (a dupla grafia em cada uma das ortografias) agora vai passar a regra… Bem… como todos nós sabemos, a norma é que quando uma excepção passa a regra a qualidade diminui drasticamente…
    Ainda em relação a este aspecto, gostaria de sublinhar que mais nenhum idioma no mundo (que eu saiba) fez três grandes reformas ortográficas em menos de um século. Isto, como é óbvio, não abona em nada a Honra e a Dignidade que a Língua Portuguesa deve ter, não só internamente, como em especial junto da comunidade internacional. Independentemente disto, se este acordo ortográfico for efectivamente posto em prática, os reformistas vão ficar rejubilantes, pois dentro de pouco tempo vamos precisar de… outra reforma… Eu não sou purista, mas também não sou nada a favor deste frenesim reformista que tem varrido o Idioma neste último século e que, em vez de o prestigiar, o vem desprestigiando cada vez mais ao nivelá-lo por baixo…
    No que respeita à quantidade, também gostaria de dizer que, como o senhor certamente saberá melhor do que eu, quantidade não é sinónimo de qualidade. Antes pelo contrário: por norma, em certos e determinados temas, é sinónimo de degradação…
    Também gostaria de o informar que li com muito agrado o seu texto “Se Calhar…”. Gostei muito do texto, mas no entanto, se me permite, gostaria de dizer que o seu “Glossário providencial” não seria necessário se houvesse intercâmbio cultural de Portugal para o Brasil. Como tal não acontece, existem tantas diferenças vocabulares que chegam ao ponto de alguns substantivos serem masculinos, mas no Brasil são femininos, outros são femininos, mas no Brasil são masculinos… Quanto ao mais, analisando o texto ortograficamente, decerto que reparou que a grafia usada confirma o que acima escrevi… Só uma curiosidade: “Durex” é uma marca de preservativos…
    Agora, finalmente, vou transcrever o texto que enviei a diversas entidades, o qual foi resultado duma breve análise às intenções do acordo.

    “Estou a escrever-lhe porque (…), como tal, estou certo que após ler este breve resumo (pois não lhe quero estar, para já, a tomar muito do seu tempo, dado que não estou neste texto explanar todas as consequências deste acordo) da realidade e dos aspectos práticos da implementação deste desprestigiante acordo ortográfico, irá tomar as medidas correctas para a sua alteração de modo a que o idioma Pátrio seja novamente Honrado, Respeitado e Considerado, algo que este acordo não faz nem preconiza.
    Em face disto e por estar contra este acordo (tal como está elaborado), não por razões económicas nem políticas, pois foram estes os grandes motivos apresentados em todos os debates a que assisti para a aprovação deste Acordo. A mim só me interessam as verdadeiras razões que deveriam motivar este acordo: filológicas, linguísticas, etimológicas, ortográficas, ortoépicas, gramaticais, históricas, vocabulares e de unidade.
    Eu não sou especialista em Língua Portuguesa, mas um humilde autodidacta que muito preza e venera a beleza e importância da Língua Portuguesa. Numa altura em que tanto se propaga que os Portugueses devem cultivar a Excelência, a Qualidade, a Exigência e o Conhecimento, este acordo vem deitar por terra e contrariar tais afirmações.
    Assim sendo vou aqui explanar alguns dos motivos pelos quais este acordo não deverá ser posto em prática:
    1 – o primeiro motivo é que a redacção original, e oficial, deste acordo tinha vinte e três erros ortográficos (aos quais se devem juntar outros de outra natureza) e assim foram publicados em Diário da República, algo inadmissível num documento importantíssimo, internacional e preparado por pessoas supostamente especialistas em Língua Portuguesa. Isto apenas vem confirmar o antigo provérbio: “O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mas eu ainda espero que tal provérbio não se venha a concretizar, a bem da Língua Portuguesa no Mundo;
    2 – no artigo 2º deste Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa lê-se, e passo a citar: «Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas.» Passados dezanove(!!!) anos, onde está esse vocabulário em Portugal??? (Sei que no Brasil foi publicado o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, editado em 2009, o qual viola inúmeras vezes o próprio acordo no qual se baseia. Sem comentários…) E se está a ser feito, será que prevê a resolução de vocábulos que se referem à mesma coisa, mas que são escritos (e falados) de forma diferente de ambos os lados do Atlântico??? Dou apenas alguns, poucos, exemplos: enfarte/infarto; planear/planejar, camião/caminhão, maquilhagem/maquiagem; bilião/bilhão; quotidiano/cotidiano; hidroeléctrica/hidrelétrica; maioritário/majoritário; champô/champú; golo/gol; fato/terno; hormonas/hormônios; Irão/Irã; desporto/esporte; Checo/Tcheco; câmara/câmera (máquina fotográfica); alforge/alforje; beringela/berinjela; missanga/miçanga. Isto já para não falar nas enormes discrepâncias entre termos científicos e técnicos existentes entre os dois lados do Atlântico, particularmente no que respeita à Informática;
    3 – na Base IV, no ponto 1.º, fala-se da conservação ou eliminação das consoantes mudas c e p, conforme são proferidas ou não na pronúncia das palavras. Aqui começam as grandes contradições deste Acordo:
    1ª – de unificador nada tem, pois deixa ao critério de cada um a sua prolação, grafia ou não, o que, juntamente com o exposto no ponto 2, vai aumentar exponencialmente o número de casos de múltiplas grafias;
    2ª – a sua eliminação entra em contradição com o que foi escrito anteriormente na Base II, 1.º a);
    3ª – estas consoantes eram mantidas não só por força da etimologia, mas, na esmagadora maioria dos casos, para acentuar a tonicidade da vogal anterior, ou seja: se a sua eliminação não for substituída por acento (como tem vindo a acontecer no nome Victor/Vítor), na prática o que está/vai acontecer é que muitas das palavras, além de serem escritas de forma diferente (o que contraria mais uma vez a finalidade unificadora deste acordo, pois algumas dessas consoantes são pronunciadas deste lado do Atlântico e não do outro lado e vice-versa), estão a ser/vão passar a ser pronunciadas de forma diferente em ambos os lados do Atlântico… ou então, a exemplo do que sucedeu do outro lado do Atlântico, com o tempo iremos passar a pronunciar essas vogais fechadas e não abertas como actualmente. Damos alguns exemplos: diréctor(e aberto)/dirêtor(e fechado); séctor(e aberto)/sêtor(e fechado); connosco/conosco. Aliás, o caso desta última palavra nem sequer é referida em todo o dito acordo. E depois há o seguinte caso caricato: os vocábulos “recessão” e “rece(p)ção”. Em pouco tempo, o segundo “e” da palavra “receção” irá perdendo a sua ênfase e ler-se-á tal e qual o vocábulo “recessão”… isto para não falar nas palavras “espetador” e “espe(c)tador”…;
    4 – o ponto 2.º da mesma Base IV apenas e só vem reforçar o que anteriormente escrevi acerca do contínuo afastamento entre o Português de ambos os lados do Atlântico, não só graficamente como também foneticamente. Isto fará com que brevemente este acordo esteja total e completamente obsoleto e também é bem provável que o Português se cinda definitivamente se nada de concreto for feito para a sua real unificação, não só gráfica, mas também fonética;
    5 – na Obs. à alínea a) do ponto 1.º da Base VIII está escrito o seguinte, e passo a citar: “Em algumas (poucas) palavras…”. Bem… “poucas” oxítonas, mas, no contexto geral ainda há a somar as paroxítonas que constam nas Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2.º da Base IX e as proparoxítonas que constam no ponto 3.º da Base XI. Tudo isto faz com que as palavras grafadas de forma diferente não sejam assim tão “poucas”, como nos querem fazer crer, mas muitas, pois nestas Obs. e pontos apenas estão alguns exemplos, não toda a extensão da diferença. Um dos exemplos deste famigerado acordo é o que eu li há pouco tempo numa notícia editada em Portugal: era sobre alimentos transgénicos… estava escrito: “transgênicos”… Escusado será dizer que aqui está mais uma “machadada” no dito acordo ortográfico que se quer unificador;
    6 – se se puser em prática o que está no ponto 3.º da base IX, o que vai acontecer é o desvirtuamento fonético dos ditongos representados por oi, pois temos o exemplo em que o acento foi retirado dos ditongos representados por ei, em que essas palavras passaram a ser pronunciadas êi em vez de éi. Exemplo disso são também as palavras “acerca” e “inclusive” que muitas pessoas já pronunciam “acerca”(a fechado) em vez de “àcerca”(a aberto) e “inclusive”(e fechado) em vez de “inclusivè”(e aberto). Isto para ficarmos só por aqui, pois muitos outros exemplos haveria…;
    7 – com base no ponto 9.º da mesma base IX como vamos interpretar, e ler, a seguinte frase, título que há algum tempo atrás um jornal trazia na sua primeira página: “Falta de seguros pára transplantes em hospital”? Não se esqueça de que com este acordo o acento agudo é retirado do vocábulo “para”…;
    8 – na Obs. ao ponto 1.º da Base XV vamos começar a ver os primeiros “resultados” práticos deste famigerado Acordo no que respeita, por exemplo, à palavra “pára-quedas”. Para começar direi o que vi em dois dicionários de diferentes editoras: num aparecia escrito “paraquedas” enquanto noutro estava grafado “para quedas”… Bem… em que ficamos??? E este é apenas um de muitos exemplos… Depois gostaria de dizer que esta palavra com o tempo irá querer dizer “aparelho para provocar quedas” em vez do actual “aparelho em forma de guarda-chuva destinado a diminuir a velocidade de queda de um objecto ou de uma pessoa despenhada de grande altura”. Só não sei é quando é que lá se chegará, mas que chegará, chegará… Além do mais, esta supressão do hífen nalgumas palavras, bem como a supressão das consoantes mudas e de muitos vocábulos deixarem de ter acentuação gráfica, fará com que o Português perca alguma da sua beleza estética, o que o empobrecerá ainda mais com este Acordo simplista;
    9 – relativamente à Base XVI o que acontece na prática é, em vez da tão almejada simplificação, apenas e tão só a substituição dumas regras por outras…;
    10 – o ponto 2.º da Base XVII diz o seguinte: «Não se emprega o hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.». Porquê esta excepção??? Para não haver excepções não seria melhor acabar com os hífens nos verbos compostos??? “Facilitaria” muita coisa… ou complicaria??? Além do mais, esta regra vem contradizer completamente o objectivo deste acordo de aproximar a grafia da pronúncia, pois esta, no vertente caso, implica a junção das duas palavras, não a sua separação. Mas o que mais me impressiona é que a explicação para a abolição do hífen nestas palavras é… uma mentira…;
    11 – o parágrafo 4 do capítulo 2 do Anexo II é falacioso no que respeita à não-aceitação do acordo de 1945 por parte dos brasileiros, pois não diz que tal acordo não foi aprovado por motivos políticos e não por motivos culturais, pois a Academia Brasileira de Letras, além de ter aprovado o acordo, ficou incumbida de elaborar o Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa. Ora neste caso deve ser a cultura a impor-se e não os políticos…;
    12 – no parágrafo 7 do capítulo 2 do Anexo II falam na “tradição ortográfica portuguesa”… só não falam é no porquê da diferença da pronúncia… a qual se deve ao não intercâmbio linguístico e cultural entre ambos os lados do Atlântico bem como ao distanciamento da pronúncia original de um dos lados pelo factor atrás aduzido;
    13 – em relação ao parágrafo 4 do capítulo 3 do Anexo II, se é o critério da pronúncia que determina a supressão das consoantes mudas, então estas, para manterem a pronúncia correcta deveriam passar a ser acentuadas na vogal anterior, mas nisso este dito acordo não fala…;
    14 – sobre os parágrafos 5 e 6 deste mesmo capítulo 3, eles apenas e só vêm reforçar o que acima disse acerca das incongruências deste acordo dito “unificador”…;
    15 – relativamente ao que consta no parágrafo 2 da alínea a) do subcapítulo 4.2 do Anexo II apenas posso dizer que as comparações que se fazem é apenas e só para fazer o nivelamento do Português por baixo, a par do que se tem feito noutras áreas da vida social e económica de Portugal… e podemos constatar os resultados de, em vez de melhorarmos o nosso nível de vida, deteriorarmos a cada ano que passa o mesmo… com as devidas consequências sociais e económicas que daí têm advindo;
    16 – na alínea b) do subcapítulo 4.2 do Anexo II é é de muito mau tom quando se tenta justificar uma regra com exemplos que são a excepção. Melhor dizendo: a excepção passa a regra…;
    17 – no que respeita ao que está escrito no 2.º parágrafo da alínea c) do subcapítulo 4.2 do Anexo II eu apenas tenho quatro, por exemplo, perguntas a fazer: 1ª – Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que o plural, por exemplo, de “mão” é “mãos” e o plural de “pão” é “pães”?; 2ª – Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que, no interior duma palavra, a letra “n” antes dum “b” ou dum “p” tem que se transformar num “m”?; 3ª – Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que a letra “x” pode ser pronunciada com o som de “ch”, “is”, “s” ou “z”, por exemplo, dependendo da palavra onde se encontra? 4º – Porque é que este acordo “unificador” não resolve também estes “problemas”?;
    18 – o que está escrito na alínea d) do subcapítulo 4.2 do Anexo II nem sequer merece comentário pois, como é óbvio, lusitanistas estrangeiros vão continuar com os mesmos problemas (isto para não dizer mais nada) que têm até agora, pois apesar deste “acordo”, dito unificador, vão continuar a existir duas, ou mais, ortografias. Por exemplo: apesar de em Portugal se pronunciar “contacto”, há publicações que grafam este vocábulo sem a consoante “c”…;
    19 – em relação à alínea e) do subcapítulo 4.2 do Anexo II, não entendo como se poderá falar de “unificação ortográfica da língua Portuguesa” (mesmo com “P” maiúsculo, para dar a importância devida ao idioma, e não um redutor “p” minúsculo como este acordo faz ao idioma) se o próprio acordo não prevê essa tão propalada unificação, como acontece com o que está escrito na Base IV, ponto 1º, alíneas c) e d), no ponto 2º, na Base VIII, Obs. ao ponto 1º, na Base IX, Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2º, na Base XI, ponto 3º, o capítulo 4.4 do Anexo II, além do que está escrito no fim do ponto 2 destes motivos que aduzo para a não-aceitação deste acordo;
    20 – relativamente ao capítulo 4.3 do Anexo II, e para não dizer mais nada em relação aos parágrafos 1 e 2, remeto a minha resposta para o artigo escrito pelo brasileiro Reinaldo Azevedo publicado em 12/9/2007 na revista “Veja”. Já no que respeita ao parágrafo 3, é outra das coisas que este acordo prevê: fazer das excepções regra, a par do que está escrito no subcapítulo 4.2… ora como o senhor bem sabe, na esmagadora maioria das vezes, quando as excepções se tornam regra, a decadência entra em acção;
    21 – por tudo aquilo que já escrevi, o subcapítulo 4.4 do Anexo II nem sequer merece comentário…;
    22 – no que respeita ao que está escrito no 9.º parágrafo do subcapítulo 5.1 do Anexo II, é de muito mau tom (para não dizer parcialidade) referir que apenas “o facto de a língua oral preceder a língua escrita,…”, pois pelos poucos exemplos que já dei no ponto 2, no ponto 3, 3ª, e no ponto 6 podemos ver que não é só a língua oral precede a língua escrita, mas que o inverso também acontece(u) em muitos casos;
    23 – em relação ao subcapítulo 5.2 do Anexo II, este apenas vem reforçar o que já foi dito acerca da dupla grafia. No que respeita ao sub-subcapítulo 5.2.4 só se pode considerar, no mínimo, o argumento aqui aduzido como falacioso. É que separadamente até parecem poucas palavras, mas juntando este exemplo ao que está no subcapítulo 4.1 e ao que eu exponho no ponto 2 são muito mais de 2.000 vocábulos. Outro dos factos que os autores do acordo omitem é que um falante médio utiliza cerca de 10.000 palavras e não o corpus de 110.000 aqui aduzido. Ou seja: na prática o que vai acontecer é que muito mais de 20% dos vocábulos usados no dia-a-dia da esmagadora maioria dos falantes de Português vão ter dupla grafia;
    24 – relativamente ao argumento utilizado na alínea b) do subcapítulo 5.3 do Anexo II, “Eventual influência da língua escrita sobre a língua oral, …”, já é interessante a conveniência da utilização deste argumento. Mas nem mesmo com o exemplo que vem do outro lado do Atlântico, a alteração fonética da esmagadora maioria das palavras às quais retiraram as consoantes mudas não proferidas, os supostos eruditos em língua Portuguesa aprenderam que não é benéfico para o idioma a supressão das consoantes mudas. Conveniências…;
    25 – na alínea c) do mesmo subcapítulo 5.3 do Anexo II está mais um motivo para a não supressão de acentos gráficos ou consoantes mudas. Como são palavras que um falante médio rarissimamente irá ler e/ou pronunciar ao longo da sua vida, decerto que as vai ler e/ou pronunciar incorrectamente…;
    26 – é duma insensatez tal (para não utilizar outro adjectivo) aduzir o argumento que está na alínea d) do subcapítulo 5.3 do Anexo II quando quase tudo o que está neste acordo vem prejudicar essa aprendizagem. É precisamente por este motivo (entre outros) que no Brasil já quase ninguém pronuncia (ou escreve) a conjunção “mas”, mas usa o vocábulo “mais”… alguém pensou nisto???;
    27 – o pôr em prática a alteração que é comentada no sub-subcapítulo 5.4.1 do Anexo II apenas e só vem agravar o que referi nos três pontos anteriores;
    28 – no ponto 24 falei do exemplo que vem do outro lado do Atlântico. No sub-subcapítulo 5.4.2 do Anexo II vou falar do exemplo Português, em que a supressão do acento agudo do ditongo ei fez com que todas as palavras singulares contendo aquele ditongo se pronunciassem com a vogal “e” fechada. Não saberão os ditos peritos em língua Portuguesa que, se tivessem aprendido com o passado, num futuro breve a esmagadora maioria dos vocábulos com o ditongo oi passarão a ser pronunciados com o timbre fechado e não aberto como é actualmente???;
    29 – em relação ao capítulo 6, apenas tenho a reforçar o que aduzi no ponto 8 em que apenas há a substituição dumas regras por outras, as quais, apesar de pretenderem ser “claras, sucintas e simples”, apenas e só provocam os problemas de que dei um pequeno exemplo no já referido ponto 8.
    Como considerações finais, tenho a dizer que não é mau, mas sim péssimo para o Idioma Pátrio que este tenha sofrido três grandes alterações ortográficas a par de outras tantas mais reduzidas em menos de um século. Melhor dizendo: os bisavós escreveram duma maneira, os avós de outra, os filhos de outra e os netos ainda vão escrever de outra… e, sem grande esperança, espero que fiquemos por aqui… Além disso, e como ficou provado, mais de 20% (contas por baixo) dos vocábulos usados por um falante médio vão poder ser grafados à vontade de cada qual, o que em nada abona o Português junto da Comunidade Internacional, antes pelo contrário, contribui para o seu descrédito. Este descrédito é tanto mais evidente quanto em lado nenhum leio que este acordo é para honrar o Idioma Lusitano…
    Também gostaria de dizer que só agora estou a enviar estes factos, pois tenho estado a observar a pequena fracção que me chega às mãos do que tem vindo a acontecer com a degradação do Português, começando por este famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa até ao acima citado Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, isto para ficarmos só por aqui…

    Cordialmente,
    João Carlos Cardoso da Silva Reis.”

    P. S. – Para reforçar o “brio” profissional, académico e intelectual dos feitores deste degradante acodo, aqui lhe deixo uma notícia que bem enfatiza o que acima escrevi: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1320040.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s