BALANÇO ANUAL

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AGENDA QUINCASBLOG: BALANÇO ANUAL

                                                Lauro Moreira

Os meus  parcos porém fieis leitores sabem desde sempre que este nosso Quincasblog não se interessa muito por atos e fatos da atualidade, pela vida que corre no presente, pelas manchetes dos jornais de hoje, estando de preferência voltado para o exercício de resgate da memória pessoal, da evocação de um tempo ido e vivido. Mas por vezes acontecimentos da atualidade nos golpeiam de tal modo, que não há como escapar. E o pior é que são em geral tristes, até lutuosos, esses acontecimentos. O desaparecimento, súbito ou não, de pessoas que marcaram sua passagem pelo mundo – e cujo convívio, e até amizade, tive o privilégio de cultivar – não está para mim no rol dos “acontecimentos da atualidade”, mas sim da eternidade. A morte do Presidente Mário Soares no início deste ano, a partida do poeta Manuel (Manolo) Graña e do cineasta Manuel de Oliveira há dois anos, por exemplo, tiveram um grande impacto para todos que os conhecíamos. Por isso estão evocados com saudade em matérias publicadas neste Quincasblog.

Agora, retomando contato com os leitores após mais um período de preguiçosa inatividade – ou seria de simples desânimo, fruto de amarga frustração provocada pela “atual conjuntura brasileira”? – decidi (re)começar com algo muito simples, quase estatístico, que no fundo serve mais a mim que aos pacientes leitores, reconheço. Será apenas um olhar retrospectivo e resumido de minha agenda dos últimos doze meses de atividades na área cultural, passados em temporadas alternadas entre Brasil e Portugal. Na verdade, desde que deixei o Posto de Embaixador em Lisboa e retornamos em definitivo ao Brasil (já lá se vão sete anos, mon Dieu!) minha mulher e eu temos passado regularmente duas temporadas anuais em Portugal, país e povo aos quais me sinto cada dia mais chegado.

O que segue agora são apenas algumas notas esquemáticas que eu já havia tomado há algum tempo, acrescidas da necessária atualização dos eventos ocorridos posteriormente.

PORTUGAL: março/abril/maio de 2016

Escrevi na época: “De volta ao Brasil, depois de mais uma temporada de dois meses e tanto em terras portuguesas. Uma maravilha, como sempre. Cercado de amigos, de gente simpática, respirando cultura e deliciando-me com as belezas de Lisboa e de todo o país. E além de tudo, cumprindo como sempre uma rica agenda de atividades culturais, envolvendo palestras, recitais de poesia, seminários, etc. Enfim, coisas que que só me dão prazer. Recapitulando, tive a oportunidade de realizar nesta temporada as seguintes atividades:

21/03/16 – Recital de poesia no Palácio Foz, em Lisboa: À sombra das mangueiras de Belém do Pará”, com obras dos mais importantes poetas paraenses, por mim selecionadas. A convite da historiadora Professora Maria Adelina Amorim, Coordenadora das Comemorações em Homenagem aos 400 anos da cidade de Belém.

22/03/2016 – Palestra na Sociedade de Geografia de Lisboa, a convite do IV Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo Movimento Internacional Lusófono e a SGL, sobre o tema “A CPLP e a Cidadania Lusófona”

10/05/2016 – Palestra em curso promovido no âmbito do Consulado Geral do Brasil em Lisboa sobre o tema “Quatro séculos de Poesia no Brasil”

18/05/2016 –  “Poesia em Concerto: Poetas de Brasil e Portugal “ – Recital com o poeta e romancista Mário Máximo, no Teatro Amélia Rey Colaço, Algés, Lisboa.

24/05/2016 – “Vozes Poéticas da Língua Portuguesa” – Recital com o escritor Mário Máximo, na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, Lisboa, reunindo poemas de autores dos oito países de Língua Portuguesa.

RECITAL CPLP

26/05/2016 –  “Inovação, Modernidade e Universalidade da Obra de Machado de Assis”, conferência pronunciada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O tema dessa e de outras palestras sobre Machado de Assis, eu venho há anos desenvolvendo, como sabem os leitores, em Portugal,  Brasil e outros países lusófonos (como Cabo Verde), com uma aceitação  muito estimulante.

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BRASIL:  junho/julho/agosto/setembro

14/06/2016 – Palestra sobre   “A Poesia de Marly de Oliveira”, a convite da Oficina Cultural Cândido Portinari, no âmbito da Feira do Livro de Ribeirão Preto.

24/08 – Apresentação no Teatro Basileu França, em Goiânia, do recital “Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo”, baseado em meu CD homônimo, gravado com a voz do próprio Poeta, em minha residência no Rio de Janeiro, no final dos anos de 1960. Participação da soprano Ângela Barra e dos  músicos Carlos Costa e componentes do Goiás Piano Quartet.Manuel Bandeira

28/08 – Palestra-recital na Academia de Letras de Itaberaí, Goiás,  da qual sou membro efetivo, sob o título de “Um Panorama da Poesia Brasileira”.

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PORTUGAL: Outubro/novembro/dezembro/2016

 18/10 –  Eleito Presidente do Conselho Diretivo do OLP-Observatório da Língua Portuguesa, com sede em Lisboa.

 09/11 – Nova apresentação da conferência intitulada “Inovação, Modernidade e Universalidade da Obra de Machado de Assis”, agora no Salão da Biblioteca Nacional de Portugal.

Conferência _ Inovação, Universalidade e Atualidade da obra de Machado de Assis _ 9 nov. | 18h00-4-2

17/11/2016 – Conferência na Universidade Lusófona de Lisboa, sob o título  “A Construção da Lusofonia”, no âmbito do Seminário “Democracia e Identidade Cultural nos Países de Língua Oficial Portuguesa”, promovido pela Associação Mares Navegados.

19/11/16  –Meu novo espetáculo, intitulado “Três Epopeias Brasileiras”, estreado hoje no palco da Biblioteca Municipal de Alcobaça, com meu amigo Professor Rui Rasquilho. Como já mencionei em matéria publicada neste Quincasblog, há  tempos namorava a ideia de apresentar um recital reunindo três poemas épicos de largo fôlego da literatura brasileira. Seriam eles o Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac. Além de constituírem o que há de melhor em nossa poesia épica, eles evocam três dos mais importantes aspectos da formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e o alargamento do território pelos Bandeirantes e, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano escravizado. Da fusão étnica e cultural dessas três raças básicas nasce o Brasil.

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25/11/16 –  Reapresentação de “Três Epopeias Brasileiras” em Trás-os-Montes, a convite da Douro Generation – Associação de Desenvolvimento, com a participação da atriz e querida amiga Paula Castelar, no Conservatório de Música de Vila Real.

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23/11/16 – Nova apresentação do recital de poesia À sombra das mangueiras de Belém do Pará”, desta vez no Salão da Biblioteca Nacional de Portugal.

05/12 – Nova apresentação do espetáculo “Três Epopeias Brasileiras”, no prestigioso Teatro A Barraca, em Lisboa, tendo o poeta Mário Máximo como leitor-narrador dos textos introdutórios.

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BRASIL: janeiro/fevereiro/março/abril de 2017

 

24/03/2017  –  De volta ao Brasil, em princípios de janeiro. Comentários que anotei no Livro de Visitas do projeto “Caminho de Letras e Árvores”, inaugurado na presença de mais de uma centena de pessoas, na histórica Cidade de Goiás, berço e primeira Sede de meu Estado natal:

“Senti-me orgulhoso e feliz por ter participado – através da interpretação de “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira – dessa linda, simples e comovente cerimônia de inauguração do “Caminho de Letras e Árvores”. Este é um projeto de largo alcance cultural, destinado a reavivar e preservar a memória de grandes vultos das letras de Goiás, e que só a sensibilidade, generosidade e determinação de minha querida amiga Maria das Graças Fleury poderia conceber e realizar, e com tanto sucesso. Um magnífico presente para a cultura e a ecologia de Goiás e do Brasil.”

Comentário mais que generoso da Professora Graça Fleury em sua página no Facebook:

  Lauro Moreira, sua presença lá, declamando nosso Manoel, Bandeira dos nossos corações e do Brasil, me encheu de emoção. A inauguração teve seu brilho, que é único!

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12/05/17 –  Estreia no Brasil do espetáculo “Três Epopeias Brasileiras”, na Sala Meira Júnior do magnífico Theatro Pedro II, de Ribeirão Preto, onde felizmente repetiu-se (modéstia às favas!…) o êxito que havia alcançado nas três cidades portuguesas. Narração de textos introdutórios a cargo da atriz e Professora Renata Martelli.

Alguns comentários recebidos de pessoas por quem tenho grande apreço intelectual:

        “O embaixador Lauro Moreira, já não é mais surpresa para Ribeirão Preto, deu um show de interpretação poética baseada em clássicos da nossa poesia, declamando o Y Juca Pirama de Gonçalves Dias, O Caçador de Esmeraldas de Olavo Bilac e o Navio Negreiro de Castro Alves, no Theatro Pedro II dia 12 do corrente. A habilidade do Lauro para nos transportar ao contexto do Brasil colônia, aos nossos ancestrais tupis guaranis, quase dizimados, os negros e os portugueses que formataram a base da nossa raça, impressiona. (…) Parabéns Lauro pela colaboração à cultura da nossa cidade.  (Marcos Zeri, escritor, Presidente da Academia de Letras de Ribeirão Preto)

 Prezado Lauro,

     Assistimos (eu e a minha esposa, Matilde) ao seu recital no Auditório Meira Júnior , na noite do dia 12, ontem. Simplesmente maravilhoso! A carga emocional foi de uma intensidade tocante. (…) Nós e outras poucas pessoas o aplaudimos de pé. Todos deveriam fazê-lo em retribuição ao seu talento interpretativo. O seu movimento de mãos, a entonação, o envolvimento…. Tudo perfeito. Aceite as nossas congratulações!!!
Com o abraço fraterno do

Gilberto Andrade de Abreu  (Professor de Literatura, poeta, romancista, ex-Vereador e ex-Secretário de Cultura de Ribeirão Preto)

 Caro Lauro,

 Em nome do Conselho Diretor da SOLEBRARP / Biblioteca Padre Euclides agradeço o seu inestimável apoio e generosidade para com a nossa entidade. O recital foi maravilhoso e o retorno do público, tanto na saída como em manifestações por telefone hoje, não poderia ter sido melhor.

Muitíssimo obrigada. Grande abraço,

Fatu Antunes  (Diretora da centenária Biblioteca Pe. Euclydes, de Ribeirao Preto, SP)

(…)     Foi uma viagem pelo tempo, onde o narrador coloca o contexto histórico do momento em que se desenvolve a ação, e como num filme o espectador vai sendo conduzido pelos sons, da floresta, do mar…Uma belíssima interpretação de três períodos da história do Brasil na poesia de Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Castro Alves. Parabéns caro amigo, Embaixador Lauro Moreira, foi uma noite de sonhos e reflexões. (Professora Bertha Maria Ferreira)

 

E mais alguns comentários em redes sociais, como esses:

Áurea Laguna Lauro, realmente a sua performance foi maravilhosa. Abs.

Alvaro Lania Sem duvida alguma foi com muita emoção que em todos os três poemas vc mostrou sua alma. Parabéns. Lauro, foi perfeito, com muita emoção. Uma aula de poesia. Parabéns!

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PORTUGAL: abril/maio/junho/2017

 19/04/17 –     De volta a Portugal. Como podem ver os queridos leitores e leitoras deste nosso Quincas,  tenho tido uma vida bem mais ativa em Portugal que no Brasil…  Logo no dia seguinte ao de minha chegada a Lisboa fiz uma breve palestra no Colóquio internacional da COLUFRAS, uma ONG internacional de que participo há alguns anos, oficialmente criada em 2007, com sede em Montréal, Canadá, e que atua na área dos serviços públicos de saúde, envolvendo um conjunto de países de língua francesa e portuguesa. Colabora diretamente com a OMS, a OPAS e a CPLP. O importante tema do Colóquio deste ano em Lisboa  foi “Estratégias de comunicação para a prevenção dos acidentes de trânsito e redução de seu impacto sobre os serviços de saúde”. Como naturalmente minha área de atuação em nossas reuniões periódicas é a da Língua Portuguesa, coube-me palestrar sobre “Convergências e Desafios da Lusofonia”. (O programa do Seminário encontra-se no site abaixo).

quincasblog.files.wordpress.com/…/colufras-20171.pdfCOLUFRAS 2017

Maio/2017 –   Hoje é o primeiro dia de maio, mês em que devo atender a vários compromissos aqui em Portugal, começando pelo dia 8, quando participarei de um evento bastante diferente e já tradicional na programação do Teatro A Barraca. Trata-se dos chamados “Encontros Imaginários”, criados e escritos pelo ator, diretor e dramaturgo Hélder Costa, com diálogos dos mais surpreendentes,  promovendo a cada quinzena um encontro absolutamente improvável de personagens da história antiga e recente do mundo. Exemplo? Um bate-papo descontraído – e muitas vezes divertido – entre Mao Tsé-Tung, Jesus Cristo e  Goebbels. Ou entre o Padre António Vieira, Maquiavel e Nero. Ou ainda entre Gandhi, Hitler e Maria Antonieta…A verdade é que esse verdadeiro happening tem sido um grande sucesso junto à intelectualidade e ao público em geral de Lisboa, contribuindo para isso a escolha dos atores que representam os personagens, selecionados pelo autor entre figuras destacadas da sociedade portuguesa. Temos então em cena uma mescla de políticos, embaixadores, empresários, banqueiros, atrizes e atores, escritores, poetas, etc., muitos deles conhecidos do grande público local e que, com louvável espírito de humor, aceitam participar do jogo, que no fundo acaba ensinando e divertindo a uma sempre numerosa plateia.

No meu caso particular, acabei sendo convidado por Hélder Costa para participar do Encontro Imaginário do próximo dia 8 de maio, para encarnar ninguém menos que o nosso genial e brasileiríssimo Millôr Fernandes.  Estarei contracenando com o meu amigo e ex-Embaixador de Portugal no Brasil Francisco Seixas da Costa, que fará o papel de Hernán Cortez, o controvertido Conquistador do México e famigerado destruidor de Tenochtitlán, a Capital azteca, e a Professora Lúcia Amante, que se apresentará na pele de Gloria Swanson, a grande atriz do cinema mudo e a inesquecível intérprete da personagem Norma Desmond do filme Sunset Boulevard, de Billy Wilder.

Ainda neste mês de maio deverei participar, a partir do dia 5, da VI Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas.  Ao aceitar o amável convite para voltar a integrar sua Comissão de Honra e elaborar um texto para o Catálogo do evento, manifestei ao Presidente da Câmara Municipal o meu entusiasmo por ver a continuação de um projeto admirável, gestado e mantido por aquela comunidade ao longo de vários anos, e que vem produzindo importantes resultados, a ponto de fazer de Odivelas uma verdadeira Capital da Lusofonia em Portugal. Tanto por minha devotada militância na área lusófona, quanto pelo fato de haver participado desde o primeiro momento desse magnífico projeto da Bienal de Culturas Lusófonas, sem ter falhado a qualquer de suas Edições, sinto-me duplamente homenageado pela gentileza do convite. E ainda neste contexto, deverei atender ao honroso convite do Forum da Lusofonia, para pronunciar a Oração de Sapiência em sua abertura, no dia 19 de maio.

Finalmente, e encerrando mais esta temporada em terras lusíadas, viajarei para Vila Real, a convite da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Douro Generation – Associação de Desenvolvimento, e da Associação de Desenvolvimento da Rede de Aldeias Vinhateiras do Douro, para participar do Encontro Internacional de Patrimônios da Humanidade da UNESCO, a realizar-se entre 8 e 10 de junho   no Alto Douro Vinhateiro, nas cidades de Lamego e Vila Real, quando me caberá dissertar sobre o tema A Cultura e as Industrias Criativas no âmbito da Cooperação – Sociedade, Economia e Globalização.

           Mas antes disso, no dia 3 de junho, terei outro compromisso que me deixa igualmente  entusiasmado: uma apresentação no Algarve, no belo Teatro Municipal de Faro, de nosso recital Três Epopeias Brasileiras, com o valioso apoio do Consulado Geral do Brasil naquela cidade, e a participação de meu parceiro-poeta Mário Máximo.

RECITAL EM FARO

Retornando ao Patropi em meados de junho, sigo dias depois para Brasília, onde farei a apresentação do mesmo recital no meu simpático e velho conhecido palco da Embaixada de Portugal. Dois dias depois, 30 de junho, será o momento de estrear essas epopeias em minha terra natal, Goiânia/Goiás, onde (também) canta a jandaia nas frondes da carnaúba … (apenas para lembrar a doce Iracema de nosso grande José de Alencar). E para concluir a nova temporada no Brasil, no dia 1º de outubro estarei novamente em Goiânia, para mais um recital: Uma Geografia Poético-Musical do Brasil, com a participação da Orquestra Sinfônica dirigida pelo Maestro Eliseu Ferreira da Silva e com poemas e músicas das várias regiões do Brasil.

Fora isso, acho que só caberia mencionar, se bem me lembro, duas longas entrevistas que dei à televisão, uma à RTP- África, em Lisboa, e outra ao meu admirável amigo Professor Antônio Cassoni, em Ribeirão Preto, no Brasil, falando de tudo um pouco, ou seja, seguindo à risca o slogan deste nosso Quincasblog.

Obrigado a todos pela paciência, um abraço e até ao próximo post.

Lauro Moreira

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Uau

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Comentários

Áurea Laguna Lauro, realmente a sua performance foi maravilhosa. Abs.

Curtir · Responder · 1 · 13 de abril às 12:31

Alvaro Lania Sem duvida alguma foi com muita emoção que em todos os três poemas vc mostrou sua alma. Parabéns

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Alvaro Lania Lauro foi perfeito com muita emoção. Uma aula em poesia,  parabéns

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EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                    

Morreu hoje o Presidente Mário Soares.

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Portugal acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, um dos maiores políticos europeus de sua geração e de seu tempo, um líder incontrastável, e seguramente o principal responsável pela trilha democrática adotada pelo país após o Movimento de 25 de Abril de 1974.

O Brasil, irmanado nesse luto a toda a Comunidade Lusófona espalhada pelos quatro continentes, assiste com imensa tristeza à partida de um amigo fiel e leal, um de seus mais vigorosos defensores, e um dos paladinos da batalha de criação da CPLP, ao lado de seu fraterno companheiro José Aparecido de Oliveira.

Para mim, pessoalmente, que o conheci há mais de vinte anos e que tive o privilégio de contar modestamente entre seus inumeráveis amigos e admiradores, fica-me o desalento de não mais poder visitá-lo em sua Fundação a cada viagem minha a Lisboa. Mas fica-me também o orgulho de ver sua partida reverenciada por pessoas e povos que o conheceram e o respeitaram, em sua imensa luta cotidiana por um mundo melhor e mais justo. RIP 

(Comentário que postei no Face Book no dia 07/01/2017).

 

                                                                                                             

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

                   EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                                                             Lauro Moreira

 

TRATANDO DE CLIMA E SATÉLITES

 

No início do segundo semestre de 1994, deixei a cidade de Barcelona , onde por quatro anos havia sido Cônsul Geral, e voltei ao Brasil, convidado pelo Ministro Celso Amorim para o cargo de porta-voz do Itamaraty. Poucos meses depois, com a posse do novo Governo, transferi-me para o Ministério de Ciência e Tecnologia, atendendo a convite do titular da Pasta, Professor José Israel Vargas, que eu então mal conhecia, mas que veio a ser depois um amigo muito querido, merecedor até hoje de minha maior admiração e respeito intelectual. Com ele pessoalmente, e com alguns de seus dedicados colaboradores, aprendi muito sobre uma área na qual me sentia inteiramente jejuno, uma vez que em toda minha carreira até então, eu jamais chegara a lidar com assuntos de natureza científica. E lá estava eu, de repente, tratando de “cooperação e cumprimento de acordos internacionais relativos aos assuntos de ciência e tecnologia, especialmente os programas espacial, nuclear e de bens sensíveis.”

Depois de um breve estágio inicial, por iniciativa própria, nos principais órgãos do Ministério, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Agência Espacial Brasileira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Nacional de Tecnologia, o Observatório Nacional, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a Nuclebrás, etc., mergulhei nos assuntos afetos à Assessoria Internacional por mim chefiada. Foram quase três anos de descoberta de um mundo novo e fascinante, onde me cabia tratar de assuntos que iam das consequências do efeito estufa sobre a vida do planeta a negociações para o lançamento de satélite brasileiro pelo foguete chinês Longa Marcha… Aprendi muito, repito, sobretudo para quem sabia tão pouco, e guardo as melhores lembranças de um convívio inexcedível com amigos que retenho na memória e no afeto. Vargas, Oskar Klingl, Mônaco, Márcio Barbosa, Lindolfo de Carvalho, José Tundisi, Antônio Teixeira, Lélio Fellows… Pessoas amigas, estimadas, de quem os azares da vida acabam às vezes por nos afastar. Uma pena.

 

Min.IsraelVargas & Staff

Min.IsraelVargas & Staff

 

 

Mas hoje quero falar especialmente de Mário Soares, do Presidente e meu Amigo Mário Soares, de como o conheci, de quanto o admirei, de como fui sempre devedor de sua generosa atenção, e de como os azares do destino, nesse caso, felizmente não nos afastou, apenas nos uniu. E foi graças ao Ministro Israel Vargas que vim a conhecer pessoalmente o meu personagem de hoje, personagem que acaba de se retirar deste palco terreno há menos de uma semana.

NAVEGANDO PELOS OCEANOS

Em dezembro de 1995 foi lançada a Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos (CMIO), na sequência de uma proposta apresentada pela delegação de Portugal e aceita pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) com vistas à organização de uma grande conferência internacional sobre o mar. A iniciativa foi igualmente acolhida pela UNESCO e pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cabendo ao então Presidente da República de Portugal, Mário Soares, presidir a referida comissão e apresentar um Relatório independente sobre os oceanos, em 1998, no âmbito de celebração do Ano Internacional dos Oceanos.

Logo no início de 1996, o Professor Vargas, em sua qualidade de destacado cientista, recebeu do Presidente Mário Soares o honroso convite individual para integrar a CMIO, ao lado de quatro dezenas de outras conhecidas personalidades internacionais ligadas à questão do mar, entre elas a Dra. Elisabeth Mann Borgese, filha mais nova do escritor Thomas Mann, e o ex-Primeiro Ministro da Holanda de 1982 a 1994, Ruud Lubbers. No caso do Brasil, o Ministro Vargas decidiu criar imediatamente a CNIO, ou seja, uma Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos, reunindo altos representantes de 17 instituições brasileiras especializadas no assunto, com vistas a preparar nossa contribuição para o Relatório final a ser apresentado à ONU pela CMIO, em 1998.

Na qualidade de Chefe da Assessoria Internacional, e convocado desde o início pelo meu Ministro, passei a trabalhar intensamente no âmbito de ambas as Comissões, ou seja, tanto nas reuniões nacionais quanto nas internacionais, ao lado de meu amigo e colega de Ministério, o Comandante da Marinha Antônio José Teixeira. A primeira delas realizou-se em Tókio, com a presença de todos os membros e o apreciado apoio  do Governo japonês. Foi então nessa oportunidade que tive o prazer de conhecer de perto o prestígio internacional, a simpatia e a grande experiência diplomática do Presidente Mário Soares, com quem, inclusive, realizei a viagem de volta até Lisboa.

 

Em reunião da CMIO

Em reunião da CMIO

A segunda reunião internacional teve lugar no Rio de Janeiro, cabendo-nos portanto a honra e o imenso esforço de organizá-la…Felizmente, parece que não decepcionamos, e tudo correu nos trilhos previstos. E foi aqui no Brasil, ao longo dos cinco ou seis dias do encontro, que tive a chance de conviver mais de perto com o Presidente Mário Soares, acompanhando-o inclusive a vários encontros não oficiais, como uma visita à tradicional ABI -Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908, onde o visitante homenageado proferiu um vibrante improviso para uma plateia entusiástica; ou uma cerimônia na sede da Biblioteca Nacional para o lançamento da edição brasileira de Portugal, livro de crônicas de seu amigo e grande poeta do Douro Miguel Torga, prefaciado pelo próprio Mário Soares; ou ainda uma passagem pela famosa Livraria Camões, no Centro do Rio, aberta em 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa, e que lamentavelmente viu-se na contingência de fechar suas portas em 2012.

Acompanhei-o ainda em caminhadas pelas ruas centrais do Rio, quando, sem maiores surpresas, observei como ele era notado e imediatamente reconhecido por uma boa quantidade de transeúntes, o que me levou a propor-lhe que se candidatasse logo a um posto eletivo no Brasil, de preferência ao de Presidente da República! Rimos muito e ele ficou de pensar no assunto… Em meio a uma agenda de mil compromissos diários, ainda encontrou jeito para viajar a São Paulo – quase perdemos o avião – apenas para dar uma entrevista (outro grande sucesso) ao programa do Jô Soares.

Aliás, cabe lembrar aqui uma passagem do comovente artigo publicado ante-ontem em Lisboa por meu amigo António Valdemar, destacado jornalista português, amigo e ex-aluno de Mário Soares, sobre o gosto de nosso personagem por livros e escritores. Diz ele em seu texto Soares, tal e qual :

 Mario Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mario Cesariny ou Luis Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

       Mas, voltando a navegar nas águas da Comissão sobre o Oceanos, cabe acrescentar que a  terceira reunião realizou-se na Holanda, em Rotterdam, e a seguinte em Genebra. Compareci a ambas, assessorando sempre nosso Ministro Vargas e aproximando-me mais e mais do Presidente Soares. Pouco depois, em meados de 1997 e antes que se realizasse a última reunião, desta vez no Marrocos, (onde, quem diria, quatro anos depois eu viria ser o  Embaixador brasileiro), voltei  ao Itamaraty para assumir o Departamento Cultural e, cumulativamente, a Presidência da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Mas qual não foi minha surpresa quando, meses depois, recebo uma carta pessoal do Presidente Mário Soares, em nome da CMIO, convidando-me a comparecer a Lisboa para participar da entrega oficial do Relatório da Comissão ao Secretário-Geral das Nações Unidas, em cerimônia realizada no âmbito da Expo-98. O documento, intitulado “O Oceano: Nosso Futuro”, apresentava importantes recomendações à comunidade internacional para a salvaguarda da riqueza dos oceanos, chamando a atenção para a sua relevância no progresso social e económico do planeta.

VOLTA AO ITAMARATY

Meu retorno ao Itamaraty marcou, com certeza, a fase mais entusiasmante e, em seguida, a mais frustrante de toda minha vida profissional, quando participei intensamente da construção de um sonho formidável, para assistir depois ao seu irreparável naufrágio. (Este comentário só se intrometeu aqui, meus caros leitores, por não me ter sido possível evitá-lo, tal o peso da frustração e da tristeza de uma história que um dia contarei em letra de forma, com o sugestivo título de “Meus Quinhentos Anos…) A verdade é que nessa época não só propusemos  estimular “um momento de reflexão sobre caminhos e perspectivas do Brasil”, como se podia ler em minha página de apresentação no primeiro número de nossa revista RUMOS: Os caminhos do Brasil em debate, como chegamos a criar um riquíssimo diálogo com Portugal, incentivado pela Comissão Bilateral para as Comemorações da Viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No âmbito desta, criou-se uma Comissão de Honra, comandada, de parte a parte, pelo Presidente Mário Soares e Marco Maciel, então Vice-Presidente da República, e composta por personalidades ilustres de diferentes áreas de ambos os países, como Nélida Piñon, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, José Carlos Vasconcelos, Alçada Baptista, entre outras. Realizamos encontros regulares de ambas as Comissões, tanto no Brasil quanto em Portugal, ao longo de quase três anos em que estivemos à frente dos trabalhos. Depois, só Deus sabe o tamanho dos acertos…

 

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Após o naufrágio, e desejando sair do Brasil, aceitei convite  para chefiar a nossa Embaixada no Reino do Marrocos em 2000, onde me senti feliz e realizado com o trabalho que conseguimos levar adiante em quase quatro anos de permanência. Nessa época, tive a honra e a satisfação de ser condecorado pelo Governo de Portugal, pelas mãos de seu Embaixador em Rabat, com a Gran Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a mais alta comenda do Estado português. E fiquei alguns anos sem voltar a ver meu sempre lembrado amigo Mário Soares. Voltei à base em dezembro de 2003, por insistente convite do Ministro Celso Amorim, para assumir a chefia da Agência Brasileira de Cooperação, uma das áreas mais atuantes e desenvoltas do Itamaraty, e que muito me acrescentou em termos de experiência profissional. Em meu triênio de ABC, tive a oportunidade de lidar com uma imensa variedade de projetos de cooperação, destinados a quase todos os países latino-americanos e à totalidade de nossos países lusófonos, tanto no plano bilateral quanto no multilateral, uma vez que, neste último caso, representávamos o Brasil no órgão da CPLP responsável pela área da cooperação para o desenvolvimento. Com isso, aprofundei bastante minha vivência lusófona, inclusive visitando com frequência os cinco PALOP (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e S. Tomé e Príncipe), além do Timor Leste. Participei ainda da Cimeira de 2004, em S.Tomé, com a presença de todos os Chefes de Estado e/ou de Governo dos países membros da CPLP.

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No Recife, com Francisco Knopfl, Embaixador de Portugal e o Senador Roberto Cavalcanti.

MERGULHO NA LUSOFONIA

 

Mas confesso que a grande surpresa que me caiu do céu foi minha designação para abrir a Missão Permanente do Brasil junto à CPLP, em 2006. Ou seja, o Brasil passava a ser o primeiro País-Membro a contar com uma representação, em nível de Embaixada, para tratar exclusivamente dos assuntos da Lusofonia, já que até então esse trabalho era realizado por nossa Embaixada bilateral junto ao Governo de Portugal, a exemplo do que ocorria com a representação dos demais países da CPLP. Não é preciso dizer que, a partir daí, os outros sete  países seguiram gradualmente os passos do Brasil, elevando assim de modo significativo o nível de suas representações. Tomei posse em Lisboa em meados de 2006, após instalar a Chancelaria e a Residência oficial, e permaneci no cargo até 2010, quando fui dispensado pela aposentadoria… Falar aqui, ainda que muito resumidamente, das atividades que conseguimos levar a cabo nesses quatro anos, seria virtualmente impossível. Assim, limito-me a reiterar agora o que disse em discurso público na Academia de Ciências de Lisboa, ao receber das mãos do Presidente Mário Soares e do Professor Adriano Moreira, o Prêmio outorgado pelo Movimento Internacional Lusófono , de Personalidade Lusófona do Ano de 1999 – ou seja, que minha descoberta essencial, traduzida em meu sentimento mais profundo, levava-me à evidência de que toda a minha vida pregressa não havia sido senão um longo exercício para finalmente cumprir a missão maior e final que me estava destinada e que era justamente  essa de engajar-me na batalha pela Lusofonia.

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Na Academia de Ciências de Lisboa: outorga do Prêmio Personalidade Lusófona de 2009. Prof. Adriano Moreira e Pres. Mário Soares.

 

Vejam que a figura de Mário Soares volta a surgir neste relato. E a verdade é que em todo meu período de Embaixador junto à CPLP essa figura passou a ter presença constante em minhas atividades, apoiando-me sempre que solicitado, prestigiando eventos promovidos pela nossa Missão, abrindo as portas de sua prestigiosa Fundação para sediar nossas palestras, exposições, seminários, etc. E aproximando-se a data do encerramento de minha missão em Lisboa, ou seja, de minha aposentadoria, após 45 anos de serviços prestados à Carreira Diplomática, ocorreu um episódio que me deixou extremamente sensibilizado, embora um tanto constrangido. Foi um telefonema surpreendente que recebi do Presidente Mário Soares, em que me dizia haver sido informado de que eu deixaria Portugal. Eu confirmei, e ele continuou: Mas o meu amigo não pode sair agora, pois este ano haverá muita coisa importante a ser tratada no âmbito da CPLP e sua saída será muito inoportuna.

Obrigado, Presidente, mas não há o que fazer, pois o processo de minha remoção já está em curso.

  • – Vai para o Brasil ou para outro Posto no exterior?
  • – Vou para a reforma
  • – Então pode ficar mais um ano aqui! Vou telefonar ao Presidente Lula e tratar desse assunto.
  • – Mas Presidente, embora tecnicamente não haja de fato impedimento de eu me aposentar no Serviço Público e continuar como Embaixador aqui, trata-se de algo muito inusitado no Itamaraty.
  • -Não, não, vou telefonar a Brasília e depois lhe falo.

A verdade é que só essa manifestação incrível de amizade e consideração pelo meu trabalho já me era mais que suficiente para inflar-me o ego… Mas sabendo bem dos obstáculos e de certo modo até dos prováveis inconvenientes que acarretaria a execução de tal plano, como tentei argumentar-lhe, tive a sensação de que meu amigo acabaria por abandonar logo a ideia. Mas quem disse que o voluntarioso Mário Soares era homem de desistir? Horas depois, no fim daquele mesmo dia, atendo telefone meu celular:

– Embaixador, liguei para o Lula, mas ele está numa reunião em Manaus. Pedi para falar com o Chefe de Gabinete, mas ele tinha viajado com o Presidente. Liguei então para o meu amigo Tarso Genro, Ministro da Justiça, que também está fora, em Zurique. Quando eu conseguir falar, dou-lhe notícias.

Fiquei abismado com essa determinação, e por mais que lhe dissesse que sua generosa atenção já era para mim mais que suficiente e que o melhor seria não insistir no assunto, não teve jeito. Três ou quatro dias passados, estava eu chegando a Guimarães com o nosso Grupo Solo Brasil (que eu havia criado anos antes, para mostrar no exterior o melhor da música brasileira, e que realizava então uma turnê por Portugal), quando volto a receber mais uma chamada do Presidente Mário Soares para informar que havia finalmente conseguido falar com o Ministro Tarso Genro, explicar-lhe a situação e pedir-lhe providências junto ao Presidente da República! E daí a poucos dias recebo um chamado do Secretário Geral (que seria, logo depois, Ministro de Estado) da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a quem eu já conhecia pessoalmente, para, referindo-se ao telefonema do Presidente Mário Soares, consultar-me sobre o que exatamente poderia ser feito para atendê-lo, ou seja, manter-me em Lisboa por mais um ano, até o final do Governo Lula.

 

Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, com a presença da Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos S. Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Dra. Maria Barroso.

Descerramento de Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, presentes, entre outros, a Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Sra. Mário Soares.

Foi então que lhe contei toda a história, todo o generoso empenho do meu amigo, e pedi-lhe que por favor não fizessem nada, não tomassem nenhuma iniciativa, nem junto ao Itamaraty nem, muito menos, junto ao Presidente da República, pois até o processo de remoção de meu substituto já estava em curso, e uma medida inusitada como essa provavelmente causaria um certo desconforto na Casa de Rio Branco… E foi assim que no dia 10 de fevereiro de 2010 entrei para o clube dos aposentados e voltei definitivamente para o Brasil. Não sem antes oferecermos, minha mulher eu, um jantar na Residência a Mário Soares e Maria Barroso, sua companheira admirável, mulher e atriz sensível e participante, minha aliada constante na luta pela Lusofonia, evento para o qual convidamos alguns dos amigos mais chegados do casal. Dias depois, foi a nossa vez de sermos homenageados por ambos, com um inesquecível jantar em sua casa, com a prestigiosa presença do Ministro de Negócios Estrangeiros, Luís Amado e do Professor Adriano Moreira, entre outros amigos e autoridades.

APOSENTADORIA EM TERMOS…

Acontece, porém, que ao voltar para o Brasil dei-me conta de que me apaixonara por Portugal, e essa paixão só fazia crescer com o tempo…Diante disso, não restou outra opção – a mim e a minha mulher, outra apaixonada pela terrinha – que a de voltar sempre que possível por lá. No princípio, íamos uma vez por ano, e alugávamos um pequeno apartamento por algumas semanas . Depois, acabamos por adquirir uma morada em Lisboa, aonde passamos a ir uma vez a cada semestre. Sentimo-nos realmente em casa, e temos aproveitado as visitas para estar com amigos e multiplicar minhas atividades, sobretudo na área cultural, participando de um sem número de eventos, não apenas em Lisboa como em várias regiões do país,  fazendo palestras sobre temas da Lusofonia, participando de programas da CPLP ou de iniciativas como a Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas, criada por meu amigo e escritor Mário Máximo, apresentando recitais com obras de poetas da Lusofonia etc. E em cada estada em Portugal, minha primeira visita era sempre ao Presidente Mário Soares.

PARTIDA

Jantar oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Jantar de despedida oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Até que um dia isso já não foi mais possível, em razão do agravamento de seu estado de saúde, o que nos deixou a todos mais que apreensivos. No último dia 7 de janeiro, aos 92 anos, alquebrado desde o grave acidente vascular que havia sofrido há cerca de dois anos e pela perda em 2015 da companheira de toda a vida, Maria Barroso, meu generoso Amigo Mário Alberto Lopes Soares fechou seus olhos no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa.

 

 

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

 

Eu havia acabado de chegar ao Brasil, de volta de mais uma estada de três meses em Portugal. Acompanhei pela televisão o féretro daquele homem que, nas palavras de um jornalista do Público, gostava de ser amado mas nunca se preocupou em ser consensual. Deixa um legado histórico à sua medida. Mário Soares cruzou a segunda metade do século XX e com ela todas as grandes derivas históricas: o fim do colonialismo, a construção europeia, a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a primeira guerra do Iraque. Em todas, Soares esteve do lado certo da história, tendo sido personagem importante em alguns desses momentos.

        Ou seja, partiu para sempre um dos vultos mais importantes da longa e rica História de Portugal. E levou muita, muita saudade nossa, de seus inumeráveis amigos e admiradores.

 

(Da Série “Meus Encontros”)

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TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

th     POESIA EM CONCERTO: TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

                                         

                                  APRESENTAÇÃO

                                                                     Lauro Moreira

          Há  tempos namorava a ideia de apresentar um recital reunindo três poemas épicos de largo fôlego da literatura brasileira. Seriam eles o Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

      Além de constituírem o que há de melhor em nossa poesia épica, os poemas evocam três dos mais importantes aspectos da formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e o alargamento do território pelos bandeirantes e, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano

th-1escravizado. Da fusão étnica e cultural dessasth-2 três raças básicas nasce o Brasil.

      Seria seguramente um espetáculo inédito em seu formato e concepção. Ou melhor: seria, não, será, pois o projeto já está em seus finalmentes, e pretendo estreá-lo em Portugal nas próximas semanas. À guisa de apresentação dos temas, rascunhei os parárafos abaixo:

          O período inicial da  colonização portuguesa no Brasil foi de caráter eminentemente masculino. Não havia na nova colônia condições mínimas que permitissem a presença da família. Os homens estavam ali para enriquecer e voltar logo à terra. Desprovidos de preconceitos, os colonizadores tratavam de se mesclar às índias e, posteriormente, às africanas, que chegavam em número crescente. O aspecto portanto que mais sobressai na história da formação étnica e cultural do povo brasileiro é sem dúvida o de sua forte miscigenação, consequência desse cruzamento racial observado desde os primeiros tempos da colonização. O branco europeu, o indígena nativo e o negro africano misturaram-se de modo tão intenso, que nas veias do povo brasileiro corre hoje um sangue que claramente o distingue de outras nacionalidades e etnias. As teses tradicionais de antropólogos e sociólogos neste campo foram plenamente confirmadas por recentes pesquisas genéticas. Esta fusão racial reflete fielmente as características básicas de cada um de seus componentes originais, gerando uma cultura rica e mesclada, em que estão presentes distintos elementos da alma indígena, portuguesa e africana.

        Por outro lado, é certo que essa miscigenação não se deu de forma pacífica e harmoniosa, pois o elemento dominante, o colonizador, se impunha naturalmente pela força, submetendo os mais fracos e os reduzindo quanto possível à servidão, na luta insana para vencer os obstáculos quase intransponíveis da terra inóspita. Com o apoio da Igreja Católica, sobretudo dos jesuítas, os índios opuseram sempre grande resistência à servidão, e com isso logo a partir de meados do século 16 tem início a importação de escravos africanos, destinados aos penosos trabalhos na agricultura e nos engenhos de açúcar da região nordeste. Esse nefando tráfico negreiro levou ao Brasil, ao longo de mais de trezentos anos, nada menos de quatro milhões e meio de homens, mulheres e crianças procedentes sobretudo da costa ocidental africana, e cuja libertação só veio  a acontecer no ano de 1888, ao apagar das luzes do Segundo Império, véspera da proclamação da República. Foi a vitória final de uma longa e penosa campanha abolicionista, inaugurada ainda nos albores da Independência do país por seu Patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e continuada mais tarde por políticos e intelectuais ilustres, como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, e  o idolatrado poeta Antônio Frederico de Castro Alves, o Poeta dos Escravos. Seu famoso poema épico O Navio Negreiro narra com suprema indignação a viagem trágica de um desses barcos tristemente conhecidos como tumbeiros.

        

        Um forte movimento de penetração do imenso território tem início a partir da União Ibérica, em 1580, e  acabará por ditar uma completa reconfiguração das fronteiras coloniais. Eram as Bandeiras – expedições compostas por numerosos integrantes, que partiam em geral do pequeno vilarejo de Itapetininga – a atual cidade de São Paulo –  em busca do ouro, da pedra preciosa e do apresamento de índios. A mais famosa delas, a chamada Bandeira das Esmeraldas,  foi organizada e conduzida pelo paulista Fernão Dias Pais Leme, que a pedido da Corte portuguesa embrenhou-se com mais de quatrocentos homens pelo sertão ignoto de Minas Gerais, em busca das lendárias pedras verdes. A epopeia desse velho bandeirante foi resgatada no impressionante poema narrativo O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

         

Quando da chegada dos portugueses à terra que viria a se chamar Brasil, calcula-se que a população nativa era de cerca de quatro e meio milhões de índígenas. Atualmente, esta população está em torno de 900 mil pessoas de variadas tribos, falantes de quase 250 línguas e dialetos. Os gentios descritos por Caminha em sua carta ao Rei D. Manuel integravam o imenso e variado grupo dos Tupis, da família linguística tupi-guarani, que viviam espalhados pela  costa  atlântica,  e compunham com os Tapuias, do grupo linguístico Jê, ocupantes das matas do interior, os dois principais troncos étnico-linguísticos do território.

A língua falada pelos Tupis foi aprendida inicialmente por missionários como o Padre Anchieta, e em seguida pelos portugueses, estreitando assim o contato entre as duas culturas. Com isso, a língua portuguesa no Brasil está impregnada de palavras e expressões do idioma tupi, sobretudo para designar acidentes da topografia, da fauna e da flora, além de contribuir, ao lado de  línguas de origem africana, para tornar a fonética brasileira mais suave, mais aberta e mais vocálica. Lendas folclóricas, estórias infantis e mesmo canções indígenas e africanas povoam desde sempre o inconsciente coletivo do Brasil.

  Um dos temas centrais do movimento político, filosófico e literário do Romantismo, tanto na Europa quanto na América, foi a busca das origens da nacionalidade, como nos mostra Garret e Herculano em Portugal, ou  Walter Scott na Inglaterra. No caso do Brasil, onde o movimento romântico surge poucos anos depois da Independência, os autores foram buscar essa referência na figura do índio, o nativo original da terra idealizado como um cavaleiro medieval, criando novelas e poemas em torno de seus valores e códigos de honra. Daí a obra de ficionistas como José de Alencar (O Guarani, Iracema, Ubirajara), e de poetas como Gonçalves Dias, o poeta nacional por excelência, autor de Os Timbiras, e do famoso poema Y-Juca Pirama, (na língua tupi, Aquele que há de morrer). Um épico da Lusofonia, que narra o drama terrível de um bravo guerreiro tupi, último descendente de sua tribo em extinção, feito prisioneiro de guerra e condenado ao sacrifício fatal pela temível nação dos Timbiras.

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ANDANÇAS PELO CULTURAL

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Segundo Capítulo: Oh! que saudades que tenho de uma Cidade Maravilhosa que os anos não trazem mais…

Pois é, minha gente, retomemos nossa conversa iniciada no capítulo anterior dessas Andanças pelo Cultural, tratando agora dos meus bons tempos de estudante no Rio de Janeiro, Capital do Brasil e Cidade então Maravilhosa, para onde minha família se mudara em em princípios de 1955, época em que meu pai se elegera Deputado à Câmara Federal. Eu vinha de cinco anos de internato em São Paulo, nos Colégios S.Bento e Arquidiocesano, ou seja, às voltas com Beneditinos e Maristas, quando me matriculei no Santo Inácio, dos Jesuítas, aos quinze anos, para fazer o chamado Curso Clássico. Eu mal conhecia o Rio, onde havia estado antes apenas por alguns dias, mas confesso logo meu amor à primeira vista. Também, resistir quem há-de? Encantei-me não apenas com as celebradas belezas naturais, mas com a vida mansa que se podia levar naquele paraíso urbano de apenas dois milhões de habitantes, com praias tranquilas, tráfego rarefeito, com uma Avenida Atlântica de uma só pista (e era então suficiente!), de poucos túneis, de movimentado serviço de bondes competindo com os famosos lotações (micro-ônibus). Não havia ainda o imenso Parque de Burle Marx no Flamengo, mas apenas um aterramento que se iniciava para abrigar o grande evento da época, o 36º Congresso Eucarístico Internacional. A Barra da Tijuca era apenas um sitio ermo e distante para prolongados piquiniques. É claro que as favelas já habitavam os morros, mas delas vinham apenas alguma malandragem e grandes sambas que animavam os Carnavais e o desfile das Escolas na avenida. Tudo sem maiores violências, sem balas perdidas, sem o terror das milícias e sem as futuras inacreditáveis barbáries perpetradas pelo narcotráfico, sustentado por um conluio criminoso, habitual e hipócrita com consumidores endinheirados, e que hoje mantêm a cidade quase como refém.

Sei que para os mais jovens tudo isso parece incrível, restos talvez de um incurável saudosismo de tempos idos e vividos. Mas atentem, por exemplo, para o que se passava na área da cultura. Basta lembrar que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector. O movimento teatral, por sua vez, era efervescente, motivando a criação de novos grupos a cada dia, e inaugurando uma nova estética e um novo patamar de qualidade, introduzidos por renomados diretores estrangeiros, como Ziembinski, Adolfo Celli e Gianni Ratto. Foi assim que surgiram agrupamentos como a Companhia Tônia-Celli-Autran, o Teatro dos Sete (com Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Sérgio Brito e Ítalo Rossi), a Companhia de Sandro e Maria Della Costa, o TCB de Cacilda Becker, Ziembinski e Walmor Chagas, e vários outros grupos profissionais e amadores, revelando intérpretes, cenógrafos, músicos e diretores. Para não falar no gênero popularíssimo do chamado Teatro-Revista, também muito presente em Portugal na época, que lotava as salas da Praça Tiradentes e no qual sobressaía a indefectível figura de Walter Pinto, com suas sátiras políticas e suas vedetes do rebolado. Cada jornal, cada revista tinha o seu crítico teatral especializado, sempre de alto nível e grande conhecimento do métier, que praticamente a cada dia publicava sua análise crítica de espetáculos que lotavam as salas da cidade. (Aliás, vai aqui um parêntese para a sentida homenagem póstuma a uma dessas grandes figuras do ensaio e da crítica teatral, Sábato Magaldi, tão representativo dessa época, e que acaba de falecer em sua cidade de São Paulo, aos 82 anos).

Tudo acontecia no Rio daqueles anos dourados, inclusive a presença marcante de consagrados ficcionistas, poetas, músicos, compositores, cantores, pintores, gravadores, etc. Apenas a título ilustrativo: Pixinguinha, Ary Barroso, Tom Jobim, Portinari, Di Cavalcanti, Drummond, Bandeira, Clarice, Jorge Amado, Adonias Filho, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego…E justamente no ano de 1955, Guimarães Rosa, deixa estupefactos leitores e críticos com a publicação simultânea do monumento intitulado Grande Sertão:Veredas e das oito novelas que compõem os dois volumes do Corpo de Baile. Na música popular, a Bossa Nova estava nascendo em fevereiro de 1958, com a gravação de Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, na voz de Elizeth Cardoso e com a inovadora batida do violão de João Gilberto. Aliás, dois anos antes estreava no Teatro Municipal do Rio a peça Orfeu da Conceição, justamente com texto de Vinicius e música de Antônio Carlos Jobim, transformada em 1959 no filme Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Enfim, meus amigos, essa foi a cidade em que me coube viver durante treze dos mais movimentados anos de minha passagem por este tal de vale de lágrimas. Cidade que se preparava, com bastante relutância, é verdade, para abdicar da coroa que ostentava desde 1763, quando recebeu da Bahia o privilégio de substituí-la como Capital do Brasil-Colônia. Por outro lado, é verdade também que se vivia em todo o país um momento de euforia, de otimismo, de afirmação nacional, incutido e induzido pela Administração vibrante e realizadora do recém-eleito Presidente Juscelino Kubitschek. Era a época das grandes obras públicas espalhadas pelo território nacional, da abertura e pavimentação de extensas rodovias, das potentes hidrelétricas, da implantação de um moderno parque indústrial, da marcha para o Oeste (de um país que vivera 450 anos praticamente no litoral), da ocupação do território, da interiorização do progresso. Vivíamos a chamada Era JK, comandada por um Presidente Bossa-Nova que planejava realizar “50 Anos em 5”, e cujas metas ambiciosas tinham na construção de Brasília, a nova Capital do novo país, a sua síntese perfeita.

Não custa lembrar também que, ao lado de toda essa movimentação frenética de grandes obras públicas, o brasileiro elevava sua auto-estima e começava a se distinguir no plano internacional em vários outros campos até então insuspeitados. Como o esportivo, por exemplo, ao vencer por duas vezes seguidas o Campeonato Mundial de Basquete; a Copa do Mundo de Futebol na Suécia em 58 (finalmente!), com Pelé, e depois no Chile, em 62, com Garrincha; ao vibrar com as seguidas vitórias da campeoníssima Maria Esther Bueno em Wimbledon e de Éder Joffre nos ringues de box mundo a fora. E, last but not least, foi a época do surgimento do Cinema Novo, liderado pelo gênio de Glauber Rocha e o talento de vários de seus colegas, que lograram fazer do cinema brasileiro um constante ganhador de prêmios internacionais.

Ora, respirar essa atmosfera efervescente e inebriante logo ao sair da adolescência foi algo que, reconheço, me fez um bem enorme e marcou-me para sempre. Minha vida estudantil começou logo a mesclar-se com uma imensa variedade de atividades extra-curriculares. O Santo Inácio era reconhecidamente um colégio de primeiríssimo nível, considerado mesmo o melhor do Rio de Janeiro, que propiciava aos alunos os instrumentos necessários à formação de uma ampla base cultural. As aulas consumiam as manhãs de seis dias por semana e eram ministradas por professores de excelente nível. Mas confesso que o que mais me atraía eram sobretudo as atividades extra-curriculares, como a Academia de Letras (ALSI), os artigos que escrevia para a revista Vitória Colegial, a Associação Cultural da Juventude (ACJ) com seu jornalzinho Voz da Juventude e um programa radiofônico semanal, etc. Mas, muito especialmente, atraíu-me o teatro amador, em que passei a atuar com total dedicação ao longo de oito anos, três de colégio e cinco de universidade.  Tudo isso será evocado oportunamente nessas Andanças.

ACADEMIA DE LETRAS (ALSI)

Lembro-me bem da noite de uma quarta-feira, logo no início de meu primeiro ano letivo, quando os alunos dos chamados cursos Clássico e Científico reuniram-se para discutir a criação de uma Academia de Letras do Colégio. Depois de infindáveis debates, escolheram-se dois candidatos de cada uma das três séries dos cursos para a disputa dos cargos de Presidente e Vice-Presidente do novel sodalício, como diriam alguns mais entusiasmados. Não sei por que cargas d´água fui escolhido para compor a chapa do 1º ano Clássico e disputar a Vice-Presidência. A eleição far-se-ía (o assunto aqui, por sua gravidade, merece uma mesóclise, certo?) mediante uma disputa de teses a serem apresentadas pelos seis candidatos, versando sobre alguma obra do respectivo Patrono. E foi aí que aconteceu algo que me marcou de maneira indelével. Antes de escolher o escritor para Patrono de minha cadeira, eu só pensava em José de Alencar, autor preferido de minha adolescência em São Paulo, época em que lia bastante no colégio interno e assinava a famosa Coleção Saraiva, da livraria-editora que distribuía um romance por mês, e graças à qual travei também conhecimento com autores estrangeiros como Charles Dickens, o polonês Henryk Sienkiewicz (de quem li Quo Vadis e No Campo de Glória), o italiano Emilio Salgari e muitos outros, dos quais já nem me lembro. Confesso que naquela altura me encantavam as novelas indianistas de Alencar, a beleza poética de Iracema, “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longo que seu talhe de palmeira”, ou as aventuras dos bravos Peri e Ubirajara. Entretanto, e retomando o fio da meada, um colega de série mais adiantada antecipou-se na escolha de meu autor preferido, obrigando-me a eleger um outro escritor, um autor que eu só conhecia, como diria ele mesmo, de “vista e de chapéu”, ou seja, de antologias escolares e das interessantes dissertações de meu professor de Português no Arquidiocesano. Estamos falando de Machado de Assis, é claro. Comprei o D. Casmurro e decidi escrever minha tese sobre as agruras ciumentas de Bentinho e os olhos de ressaca de Capitu, oblíquos e dissimulados.

Pronto! O choque foi forte e definitivo. Apaixonei-me pelo Bruxo do Cosme Velho, como já disse e escrevi tantas vezes. Encantei-me por sua originalidade, seu estilo enxuto, avesso aos arroubos retóricos dos românticos (a essas alturas, pobre Alencar – mudaria ele ou mudei eu?), por suas entrelinhas, por seu humor fino, por seu constante debruçar-se sobre os mistérios da alma humana, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos e esmerada educação católica… A partir de então, e lá se vão décadas, Machado passou a ser minha companhia constante, querida, admirada, estudada, lida nos momentos de alegria e de aflição, fonte inesgotável de prazer estético e intelectual. Tudo nele me atrai – até mesmo sua quase insípida trajetória biográfica – e cada vez mais com o passar dos anos, como se fôra um ente da família, um velho tio-avô íntimo, culto, sereno, inteligente, irônico, divertido e muito querido. Na verdade, muito mais isso, com todo respeito, que o austero “Bruxo do Cosme Velho”. Mas sobre este assunto voltaremos a falar em outras oportunidades neste Quincasblog, tal como já fizemos em inúmeras outras ocasiões, como sabem os leitores.

Com o trabalho apresentado (em que defendi com unhas e dentes a inocência de Capitu…) fui eleito Vice-Presidente, e pouco depois, com a renúncia do titular, Presidente da Academia de Letras do Santo Inácio, função exercida por dois dos três anos em que lá permaneci. Foi um período extremamente rico para a formação cultural de todo aquele grupo, que incluía colegas que vieram a destacar-se bastante na vida cultural do Brasil, entre eles o cineasta Carlos (Cacá) Diegues e o escritor, jornalista e também cineasta Arnaldo Jabor. As reuniões semanais não podiam ser mais animadas, com instigantes trabalhos apresentados pelos “Senhores Acadêmicos” (esse era o tratamento vigente) e acaloradas discussões, que muitas vezes ultrapassavam o horário das reuniões e as paredes da Sala da ALSI para terminar nos bares e botequins da vizinhança, lá pelas duas da manhã. Nenhum daqueles colegas se esquecerá nunca de uma incrível polêmica, que certa vez ocupou nada menos de três reuniões seguidas, envolvendo um debate interminável sobre Eça de Queiróz versus Machado de Assis. E tudo porque eu havia inocentemente encomendado ao Senhor Acadêmico Arnaldo Jabor uma palestra sobre o seu ídolo português, e ele, valendo-se da ocasião, resolveu atacar injustamente o meu Mestre dos Mestres, com base na famosa crítica que este havia feito ao Primo Basílio, em 1878… E o mais interessante é que até hoje o agora super-conhecido cronista e jornalista Arnaldo Jabor continua proclamando sua irrestrita fidelidade ao “pobre homem de Póvoa do Varzim”, sustentando sempre sua antiga preferência e sua quase nenhuma afinidade com a obra do nosso Bruxo genial. Enfim, verdade seja dita: exatamente como eu, só que em sentido contrário… Mas, brincadeiras à parte, embora conservando o necessário tom acadêmico, que sorte maravilhosa a nossa, a de poder contar com essas duas figuras inexcedíveis no panteão da Língua Portuguesa.

Finalmente, convido os amigos leitores a observarem que todas essas peripécias acadêmicas eram vividas com grande entusiasmo, seriedade e circunspecção por um grupo de jovens estudantes entre seus quinze e dezessete anos… Realmente, mirabile visu! como diria o mestre Dutra, nosso professor de Latim. E eu acrescento: in illo tempore em que ainda se aprendia essa língua dita morta, mas imprescindível para o conhecimento do nosso idioma materno.

Para não cansar porém os nossos parcos mas generosos leitores, concluímos por aqui este segundo capítulo do imperdível seriado Andanças pelo Cultural, prometendo (ou ameaçando?) retornar em breve, com o capítulo referente às nossas notáveis aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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Andanças pelo Cultural

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Drummond e Alceu de Amoroso Lima

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Lauro Moreira

Diante de uma inexplicável ausência de quase seis meses (!), confesso que nem sei mais como (re)começar essas mal digitadas linhas aqui em nosso Quincasblog.

Talvez o pior no entanto seja a falta que aparentemente não fiz aos generosos leitores que me acompanham desde o começo de nossa caminhada em 2012, pois ninguém pareceu notar esse misterioso sumiço. Ninguém perguntou: por que parou? Parou por quê?…(brincadeirinha). Na verdade, de admirar seria se essa ausência tivesse sido acusada por algum observador mais atento, em vista da enxurrada incessante e caudalosa de assuntos tratados hoje nas redes sociais, que afoga todo mundo o tempo todo. Enfim, cá estamos nós outra vez, com o propósito de retomar a regularidade que mantivemos durante mais de três anos de conversa amistosa com nossos amigos e amigas deste Quincasblog, falando sempre de tudo um pouco. Menos de coisas muito atuais, como se sabe, e mais daquelas que já passaram por nossa vida e deixaram marcas no coração e na memória. Esta é a minha matéria. Nesse caso, reconheço não estar em total sintonia com Drummond, quando proclama categórico em um de seus poemas mais fortes:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente””
(Mãos Dadas

Assim sendo, não há como não reconhecer que este nosso Quincasblog se ajusta mais à frase do Professor Alceu de Amoroso Lima, quando dizia que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.

Para evitarmos novas descontinuidades neste (para mim) agradável bate-papo, resolvi adotar, digamos, um formato muito em voga no cinema atual, ou seja, tratar um assunto por capítulos seguidos, formando uma série – o que na verdade em tempos idos e vividos já existia, como sabemos, com o nome de seriado, diversão máxima das crianças nas matinées de domingo. Meus coleguinhas de geração devem se lembrar muito bem do misterioso Fu-Manchu e do lendário Flash Gordon, do Maravilhoso Mascarado e de Nyoka, a Rainha da Selva, como qualquer cidadão de hoje está mais que ciente dos Outlander ou dos House of Cards da vida.

Depois deste pinoquiano nariz de cera, entremos propriamente em matéria. O seriado que agora lhes proponho tem por título Andanças pelo Cultural, e pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente talvez menos eletrizantes que os do Flash Gordon, um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo na área profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.

Curiosamente – e disso me dei conta muitos anos antes de dependurar as chuteiras profissionais (ou digamos melhor, de descalçar as luvas de pelica da diplomacia…) – embora eu tenha trabalhado a maior parte de meus 45 anos de Itamaraty na chamada área econômica, acabei sendo sobretudo conhecido e identificado entre meus pares como um profissional da cultura. E confesso que desse carimbo sempre me orgulhei. Aliás, os leitores não desconhecem passagens dessa minha vida, digamos, dupla, distribuídas aleatoriamente nas diversas publicações deste Quincasblog. Sabem que logo ao ingressar no Itamaraty trabalhei por mais de três anos no chamado Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu, e que depois de quatro anos servindo no Consulado-Geral em Buenos Aires, fui transferido para a Delegação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra, onde voltei a me ocupar de assuntos econômicos, lidando todo o tempo com matérias de tarifas e comércio (GATT). Ao retornar ao país, após sete anos de exterior, fui indicado pelo Ministro de Estado Azeredo da Silveira, nosso sempre lembrado Silveirinha, para assumir o cargo de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, a convite do Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes, cargo em que permaneci por cinco anos.

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Embaixador Azeredo da Silveira

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Ministro Severo Gomes

Com o início da nova Administração do país, em 1979, deixei novamente o Itamaraty, convidado pelo Ministro da Fazenda para chefiar a área de Comércio Exterior e, pouco depois, a própria Assessoria Internacional do Ministério. (As peripécias dessa fase estão narradas neste Quincasblog , com o título de Da Arte de se fazer um Coordenador.) Dois anos mais tarde, decidi dar um passo bastante ousado, digamos, em termos itamaratianos: pedi uma licença temporária do Governo para tratar de interesses particulares, mudei-me de Brasília para São Paulo e assumi o cargo de Superintendente de uma importante trading-company brasileira (COMEXPORT), especializada sobretudo em comércio com os então oito países do Leste Europeu, ou seja, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, República Democrática Alemã, Iugoslávia, Bulgária e Albânia. Valeu-me bastante a longa experiência acumulada na área específica e peculiar das relações comerciais com aquela parte da Europa, então ainda chamada por alguns de Cortina de Ferro, “Iron Curtain”, na definição original de Churchill logo no pós-guerra, mais precisamente em um famoso discurso feito no Missouri em março de 1946. Aliás, o meu envolvimento profissional com essa área foi tanto e tão longo, quer no Governo, quer no setor privado, que enquanto me encontrava na COMEXPORT, aproveitei para escrever minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty sobre exatamente “Relações Econômico-Comerciais Brasil-Leste Europeu no período 1961-1981”. Na verdade, uma tese, como se vê, quase autobiográfica…

Depois de pouco mais de um ano na COMEXPORT, decidi dar outro passo ousado, criando com meu primo e advogado Reginaldo Oscar de Castro – que veio mais tarde a ocupar a Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – a empresa de consultoria na área de comércio exterior Lauro Moreira & Castro, com sede em São Paulo e um escritório em Brasilia.

Ao cabo de dois anos e meio em São Paulo, e tendo que decidir definitivamente se voltaria ou não à Carreira, minhas dúvidas foram dissipadas por um amável e surpreendente convite do Embaixador Sérgio Corrêa da Costa, que depois de vários anos como Embaixador junto às Nações Unidas, acabava de ser designado para a Embaixada em Washington e propunha-me integrar sua equipe no novo Posto, como responsável pela área de Política Comercial. Pois foi então que se deu, com perdão pela comparação, minha conversão definitiva, meu Caminho de Damasco, minha passagem de Saulo a Paulo… Após um ano de exercício na área comercial, numa labuta diária, cansativa e um tanto inglória, levando bordoadas de countervaling duties e anti-dumpings aplicados sobre a exportação de vários produtos brasileiros, como aços e calçados, e tudo restringido à monotonia de um só país (para quem estava habituado a lidar até então com inúmeros países ao mesmo tempo) – decidi pleitear junto ao Embaixador Corrêa da Costa a minha mudança de área e de ares, fazendo-lhe ver que meu trabalho poderia render muito mais se me transferisse para o lugar de um colega que estava justamente deixando o Setor Cultural… Dito e feito! A partir desse momento, minha vida foi um labutar ainda maior, só que num terreno onde sempre me senti à vontade e, como diz o provérbio português, feliz como pinto no lixo. Mas esses momentos profissionais inesquecíveis que vivi em Washington, marcados por projetos de grande alcance e de inegável complexidade, serão devidamente tratados no capítulo que lhe couber neste seriado que agora se inicia.

AGUARDEM O PRÓXIMO CAPÍTULO, INTITULADO : Oh! que saudades que tenho
de uma Cidade Maravilhosa, que os anos não trazem mais…

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2 de julho de 2016 · 20:17

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.100 vezes em 2015. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

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A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

   A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

                                                    Lauro Moreira

Consoada                    

As Parcas

As Parcas

Quando a Indesejada das gentes chegar
(N
ão sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Al
ô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortil
égios.)
Encontrar
á lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

                                                                                                                                        (Manuel Bandeira)

 

Ontem acordei pensando na morte. E até me surpreendi, pois embora esteja hoje, pela chamada ordem natural das coisas, bem mais próximo dela do que já estive, confesso que não tenho hábito de dar-lhe, digamos, uma atenção muito demorada. Mas, na verdade, acordei pensando não na minha morte, mas na morte de tanta gente amiga e querida, pessoas que se vão  desvanencendo de nossa vida, como vultos subitamente apagados de uma foto de família. Uma cruel desvantagem de se ficar velho é que nem todos os companheiros continuam ao nosso lado nessa inexorável caminhada rumo ao desconhecido, ao hamletiano “undiscovered country, from whose bourne no traveller returns.” Vários se apressam em retirar-se logo de cena, alguns inexplicavelmente cedo, deixando-nos mais sós – e incrédulos. Como Manuel Bandeira – que desde muito jovem passou a conviver intimamente com a Indesejada das gentes – ao saber do desaparecimento do amigo Mário de Andrade:

                                                  Anunciaram que você morreu.                    

M. Bandeira por Portinari

M. Bandeira por Portinari

Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

(…)

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

                                                  Você não morreu: ausentou-se.

                                                  (…)

(A Mário de Andrade Ausente)

 

         Não tenho a rabugice nem o pessimismo irônico de Bentinho (D.Casmurro), para afirmar que  “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos.”  – mas não há dúvida de que boa parte dos meus tem tido o mau gosto de antecipar de muito a partida e, pior, num ritmo cada vez mais acelerado. Amigos de infância, de adolescência, de colégio, de universidade, do teatro amador, da carreira diplomática, muitos dos quais afastados pelas distância física e pelos azares da vida, mas que muito enriqueceram minha afanosa e já longa passagem por aqui. Não exagero quando repito que nos últimos dois ou três anos esta safra aziaga não me tem poupado. Parentes próximos, amigos como Saroldi, Pedro Camargo,  Celina, Bambino, Euclydes Mattos e tantos outros têm partido recentemente sem se despedir…

Meu amigo Pedro Camargo

Meu amigo Pedro Camargo

Mas para além do desaparecimento individual das pessoas conhecidas e queridas, sempre uma tragédia, o que também vemos hoje é a morte coletiva e anônima, que não chega a configurar senão uma fria estatística. É ligar a televisão e ser invadido pelas sequências intermináveis de destruição de vidas humanas, ceifadas em desastres ecológicos, terremotos, tsunamis, vulcões. E como se não bastasse, o homem – animal feroz e primitivo (Les hommes sont des brutes, Madame, como dizia Ghandi a Cecília Meirelles) – o homem se encarrega de completar o trabalho da natureza em fúria, engendrando guerras, acirrando conflitos, insuflando a violência urbana em todas as suas formas (da loucura do tráfego de veículos à insanidade do tráfico de drogas), multiplicando atos terroristas, promovendo enfim essa verdadeira hecatombe a que hoje assistimos da poltrona da sala, impotentes, e, o que é mais grave, já quase insensibilizados. Como dizia meu amigo Arnaldo Jabor em recente crônica sobre o cinema atual, as mortes incessantes são mostradas até em videogames para normalizar, exorcizar a própria ideia de morte. Por outras palavras, vivemos a era da banalização completa da morte provocada, ou da banalização do Mal, como percebeu Hannah Harendt diante do Holocausto e do julgamento de Adolfo Heichmmann.

Mas voltemos à nossa simples morte individual, natural – controlada pelas Parcas romanas ou as Moiras da mitologia grega – que ocorre no momento em que se rompe o frágil fio da vida, seccionado pela tesoura de Átropo, depois de tecido por Cloto e estendido por Láquesis. Sobre esse tema fatal é que gostaria de falar um pouco mais. Para dizer que nos tempo de jovem universitário e um pouco mergulhado em estudos de filosofia, a questão filosófica da morte me atraía bastante, mas sempre como algo fora de mim,  uma pura abstração, quase um exercício de retórica. Debatíamos sobre aquela que, por sua importância metafísica, é a musa inspiradora dos poetas, a que alimenta as mentes imersas em reflexões e ávidas de uma explicação, como queria Schopenhauer.

Por essa época (segunda metade dos anos 1950) vim a ler uma obra que me calou fundo: Lições de Abismo, romance do escritor e pensador católico Gustavo Corção, publicada poucos anos antes, em 1951. Livro admirável, muito celebrado então e bastante esquecido hoje – como tudo aliás neste nosso país desmemoriado.

O romance de Gustavo Corção

O romance de Gustavo Corção

A resenha da editora traduz com fidelidade a temática do romance, que “é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida, e logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade e o ciúme”. E foi sob o impacto dessa leitura que vim a conhecer depois a novela de Tolstoi A morte de Ivan Ilitch, muito citada pelo personagem de Corção e hoje bastante publicada e conhecida no Brasil e em todas as línguas cultas do mundo.

Nessa extraordinária novela de Tolstoi (consagrada por W.Nabokov, o autor de Lolita, como um dos momentos supremos da criação literária), fica evidenciada a patética discrepância entre o natural e racional entendimento da morte do outro e a terminante recusa de a pessoa racionalmente  entender e aceitar a naturalidade da própria morte. Não resisto à tentação de reproduzir uma breve mas decisiva passagem da novela, quando Ivan Ilitch, um dedicado cidadão e correto Juiz de Direito, se vê, como o Professor e intelectual de Lições de Abismo, condenado por uma moléstia incurável:

L. Tolstoi

L. Tolstoi

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a ideia, como não a compreendia mesmo – uma incapacidade absoluta de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter  – Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal– sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais.

        Será que o tranquilo Epicuro – autor de aforismos como “O homem sereno procura serenidade para si e para os outros” e, sobretudo, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” – terá guardado toda essa serenidade e absoluta aceitação em seu instante final? E já que estamos navegando por antigos mares, caberia lembrar o sempre citado verso da Ode horaciana, que me parece menos filosófico e bem mais pragmático: Carpe diem, quam minimum credula postero, ou seja, aproveite o hoje e confie o mínimo possível no amanhã. Como falamos em mar e em poeta, lembremos ainda a frase de Fernando Pessoa, escrita em inglês, no dia 29 de novembro de 1935, exatamente na véspera de sua morte: I know not what tomorrow will bring.

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Parece evidente que nossa reação diante do “termo fatal”(cf. Gonçalves Dias) vai variar, e muito, segundo o grau da crença ou descrença que sustenta o espirito de cada um. Nesse sentido, a fé inabalável de um cristão, por exemplo, dá-lhe o conforto de que seu comboio está partindo desta estação para uma outra, definitiva e infinitamente mais aprazível, digamos. Já as dúvidas essenciais de um agnóstico, ou até mesmo de um filósofo estóico e racional como Sêneca ou Marco Aurélio, só tenderão a acrescer-lhes a aflição e a inquietude no momento da travessia final. E dos ateus materialistas  abstenho-me de falar, pois me parecem pertencer a uma casta soberba de ousadia sem limites… Enfim, de presunção e água benta cada um toma o que quer.

No plano subjetivo – e já me desculpando junto aos queridos leitoras e leitores deste Quincasblog por decidir navegar nestas águas de natureza bastante pessoal – confesso que no tocante ao tema em pauta minha trajetória não tem sido das mais consoladoras. Nasci e cresci numa família de católicos praticantes, o que fez de mim, até certa altura da vida, uma criatura de fé inabalável e sólidos princípios religiosos, para quem a morte era tão só o começo de uma nova vida. Mais: era para mim algo tranquilo e distante, fosse por meus verdes anos de então, fosse por não ter com ela qualquer intimidade. E de um momento a outro, e da maneira mais brutal, ela veio a se tornar minha íntima companheira, intimidade que, suponho, acompanha-me desde então, décadas decorridas.

Meus Pais

Meus Pais

Pai, mãe e quatro filhos (eu o mais velho) compúnhamos uma família saudável e unida na mais completa harmonia. Até que, em meados dos anos ’60, a iniludível tesoura de Átropo resolveu intervir sem ser chamada, cortando o fio da vida de metade desse grupo familiar. E tudo em menos de dois anos. Primeiro, a irmã caçula, aos 14 anos, depois o pai, aos 62, e quarenta dias mais tarde, a mãe, com apenas 54. Enfim, a morte deixava de ser para mim, de modo tão violento e de uma vez por todas, algo distante, objeto de estudo e elucubrações filosóficas, ou musa de poetas que eu tanto admirava. O abalo nos três sobreviventes da família não poderia ser maior, claro. De repente nos vimos sós e diante de um deserto sem fim. Para mim, uma terrível secura interna, que tardou muito a se esvanecer. E foi  justamente a estrutura emocional que nos legaram nossos pais, estou certo, que nos deu força suficiente para seguir caminho – e caminho não tão curto, pois hoje já ultrapasso em mais de quinze anos a idade com que morreu meu pai. Só que infelizmente não mais com a fé dos vinte anos, substituída que foi por um sereno agnosticismo. Ao faltar a graça da fé, sobra a incerteza do conhecimento (ou do desconhecimento).

Pronto, acho que falei demais, confidenciando agora o que nunca disse antes… Só mesmo apelando para o nosso Drummond para me sair dessa enrascada:  Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.

Por outro lado, não desejaria concluir essas notas com um tom crepuscular. Por isso, retorno a dois outros poetas de minha grande estima e admiração. O primeiro, como não podia deixar de ser, é Manuel Bandeira, meu querido e sempre lembrado amigo e padrinho de casamento. Uma sucessão de tragédias familiares  –  perda da irmã, da mãe e do pai em um curtíssimo espaço de  tempo (notem a coincidência) – e a luta diária contra a enfermidade, marcaram a vida e a obra de Bandeira. O sofrimento está sempre presente, mas neutralizado por uma aceitação  tranqüila, filosófica. O vazio, as ausências, as perdas, as separações e a morte são seus temas recorrentes. A recordação saudosa dos mortos queridos habita seus versos e consola o poeta em sua solidão. Para Assis Barbosa, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana. O amor unido à morte – eis a poesia de Bandeira. E eis alguns títulos de seus poemas: Preparação para a morte; Morte absoluta; Canção para minha morte; Programa para depois de minha morte – todos de uma beleza serena que toca fundo a alma de qualquer mortal…

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

O segundo nome a que quero referir-me é o de Marly de Oliveira, outro admirável poeta, uma das vozes mais altas da língua portuguesa no entender de Antônio Houaiss, e que nos deixou prematuramente em 2007.  Como pessoalmente a conheci e com ela convivi desde cedo, tendo podido seguir de perto a evolução de sua obra, registro aqui o que já tenho dito e escrito em várias oportunidades: desde seu livro de estréia – Cerco da Primavera – publicado em 1957, quando era ainda uma jovem universitária, Marly de Oliveira surpreendeu a leitores e críticos com uma obra que nasceu pronta, definitiva, “como Atenas, da cabeça de Júpiter”, na expressão de Alceu de Amoroso Lima, e que mereceu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, do Instituto Nacional do Livro. A despeito da juventude da autora, ali já estão presentes seus temas essenciais, reiterados nos 16 livros publicados desde então e resumidos numa permanente indagação filosófica sobre os mistérios e a fragilidade da vida. O primeiro verso, do primeiro poema, do primeiro livro já traduz a atitude reflexiva de alguém voltado para o conhecimento de si e do mundo que o cerca:

Eu. E diante da vida (…)

Trata-se da obra de uma jovem artista perplexa ante os mistérios do mundo, acreditando a princípio no poder da poesia como chave para abrir esses mistérios, mas que em seguida se dá conta da insuficiência da arte para apreender e desvendar o mundo, a vida, a morte. O máximo a que a poesia poderia aspirar seria então refletir, em termos estéticos, esta busca permanente e a consequente perplexidade diante do mistério insondável.         Mas essa impotência para entender o mundo não detém o tempo, em seu fluir incessante.   E esse fluir incessante vai desembocar naturalmente no não-ser, na morte. Ou seja, o amor e a morte são os temas básicos do Cerco da Primavera e de toda a obra de Marly de Oliveira. Em seu segundo livro, Explicação de Narciso, o tema se adensa e se aprofunda, já que Narciso é o ser que caminha inelutavelmente para a solidão e para a morte, na ânsia permanente de captar o sentido da vida em seu fluir. O terceiro poema do livro diz tudo:

Diante de mim, nestas águas,

quem sou, que não me preciso?

Ai, que sonho tão temível

assim me turva o sorriso?

Que amor, que presságio cingem

a cabeça de Narciso?

A que secretos poderes

se confia minha sorte,

se o que frágil vejo na água,

em mim se torna mais forte,

e onde sei que está a vida

encontram todos a morte?

Entre mistérios tão vastos

que breve instante que somos!

De repente descobrimos

que estamos. Mas onde? e como?

Por mais que nós nos dobremos

sobre nós e o que já fomos,

à inútil pergunta nossa

somente o eco responde.

E diante outra vez de nós

estamos. Há quem nos sonde?

E de que espaço ou que tempo

nosso eco responde? de onde?                                                                                                            

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

E é finalmente a própria autora que confessa: “Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho.”

Para concluir, vejam este breve poema de seu primeiro livro, onde se explicita o delicado tema de nossa conversa de hoje.

EPIGRAMA

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranquilo

diante da vida ou da morte.

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