O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

                        

                O DISCURSO QUE NÃO ACONTECEU

 

                                                       Lauro Moreira    

 

Palácio do Itamaraty, Rio

 

         Ao escrever recentemente sobre meu convívio com o escritor e Embaixador João Guimarães Rosa, mencionei aos queridos leitores que em 21 de dezembro de 1962,  três dias após concluir  o curso de Direito na PUC/Rio, dei início à maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, e amigos de toda a vida, entre eles o nosso magnífico poeta Chico Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim.    

 

        Primeiro obstáculo: a escolha do Paraninfo

         Uma novela bastante desagradável para mim, e que veio a ter consequências imprevistas, começou no entanto a desenrolar-se logo nas primeiras semanas de nosso ingresso na Carrière. Teve a ver com a apresentação do discurso do representante da turma na cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco (IRB). Por escolha dos colegas coube-me a arriscada honra de pronunciá-lo. Arriscada, porque o golpe militar de 31 de março de 1964 havia colhido nossa turma já no último ano do Curso, e a situação política do país não era, digamos, das mais tranquilas. Os primeiros passos desta novela que lhes vou narrar deu-se no final do ano, com o impasse criado pela resistência do Diretor do IRB ao nome do Paraninfo que havíamos escolhido, ninguém menos que o respeitado Professor Alceu de Amoroso Lima, um consagrado escritor, intelectual e líder católico, cujo único defeito seria talvez o de não ter aprovado o golpe militar e ter o mau hábito de por vêzes criticá-lo…Esse capítulo arrastou-se por longo tempo, até que finalmente, já ingressados na Carreira, resolvemos substituir o Paraninfo, convidando então uma das mais ilustres figuras do Itamaraty, um pioneiro da diplomacia econômica, um ex-Ministro da Indústria e do Comércio no Governo João Goulart, um economista doutorado pelo MIT-  Massachussets Technological Institute, o Embaixador Otávio Dias Carneiro, que a essas alturas se encontrava encostado no DEC, ou seja, marginalizado no famoso Departamento de Escadas e Corredores do Ministério, após sub-chefiar a delegação do Brasil à importante reunião da UNCTAD em Genebra, em 1964, justamente na época da assunção do governo militar, do qual ele naturalmente divergia.

        Após muita insistência, conseguimos que o Embaixador finalmente acedesse ao nosso apelo. O convite foi-lhe feito por uma comissão de colegas em uma sala do Palácio, e nosso diálogo eu o tenho na memória até hoje, ipsis verbis: “Meus caros, disse ele, esta é a maior homenagem que recebi até hoje no Itamaraty, e estou profundamente grato a vocês, mas sinceramente não posso aceitar. Acho que vocês não sabem o que estão fazendo, não conhecem bem minha situação atual”.  Ao que logo replicamos: “Embaixador, sabemos perfeitamente; conhecemos sua situação hoje e o estamos convidando justamente por isso, para reparar uma grande injustiça”. A emoção foi grande, de parte a parte. E assim, após um longo desgaste, concluímos o primeiro capítulo da novela, o do Paraninfo. Mas enquanto nesse ínterim, eu sofria com as dores do parto de um  discurso cada vez mais improvável, num verdadeiro malabarismo de ideias, conceitos, palavras, na busca de formas palatáveis que pudessem preservar um mínimo do que pretendia dizer, em um momento bastante adverso. Eu nem o havia concluído, quando certo dia recebo um telefonema da Secretaria do IRB com instruções de entregar o texto ao Gabinete do Ministro naquela mesma tarde, pois o Presidente da República precisaria conhecê-lo de antemão, uma vez que, como de praxe, a solene cerimônia de formatura contaria com a presença de Sua Excelência. Expliquei que só poderia entregar no dia seguinte, e enquanto corria para dar os últimos retoques à obra, encarecia à minha dedicada secretária Christiana datilografar o texto o mais rápido possível, em espaço 2 e 3, de modo a facilitar-me a leitura. Tarefa cumprida (e comprida!), discurso entregue.

                Uns dez dias depois avisam-me para comparecer urgente ao Gabinete do Ministro de Estado. Lá chegando, meio ofegante, encontro na ante-sala o Embaixador Dias Carneiro, que muito amavelmente me explica que o Senhor Ministro havia “lido e gostado muito do texto” que eu havia preparado, mas que, com 16 páginas, achava-o demasiado longo para a cerimônia, contrastando inclusive com as 6 páginas do discurso preparado pelo Paraninfo… Ou seja, pediam-me apenas para encurtá-lo…(Será?). Tratei então de conseguir uma Lettera 22 da Olivetti, maquininha excelente de letrinha miúda, rebati o texto em espaço 1 e 2, com margem mínima (como no texto do Paraninfo) e voltei a entregar o discurso ao Gabinete do Ministro, só que agora com apenas 7 páginas. E passamos a aguardar a marcação do dia da formatura…

              Segundo obstáculo: o texto do discurso 

         …E nada! Até que uma tarde, depois de uns dois meses de trabalho rotineiro daquela nossa turma do Rio Branco “que não se formava nunca”, fui novamente chamado ao Gabinete do Ministro de Estado. Esperava-me agora o nosso já mencionado provecto e respeitável  Embaixador Diretor do Instituto Rio Branco, que, sem saber dos antecedentes de minha última conversa com o Paraninfo, começou por repetir tudo, dizendo que o Ministro de Estado havia lido o discurso, que tinha gostado muito, etc, etc. Acrescentou ainda que ele, Diretor, não o havia lido e portanto não podia opinar (velada censura por eu não ter-lhe enviado antes o texto), mas que o discurso “parecia ser muito profundo e portanto não apropriado para uma cerimônia de amenidades como deve ser uma formatura. Aliás, se o senhor quiser, poderá até apresentá-lo como uma conferência aos alunos do Rio Branco…” O pior dessa longa e difícil conversa porém estava por vir, sobretudo para um jovem recém ingressado na carreira diplomática de seu país: Embaixador, disse-lhe eu com todo respeito, o senhor me desculpe, mas o que pretendi com este discurso foi apenas traduzir uma certa ordem de preocupações, minhas e da minha turma. E ele: Veja, é muito natural que o senhor, com seus vinte e poucos anos, tenha essa ordem de preocupações, mas olhe, sinceramente, ninguém está interessado nisso… Ninguém. Chocado e triste com o que estava a ouvir, disse-lhe apenas que eu não sabia fazer ‘discurso de amenidades’, mas que o problema era de fácil solução: eu pediria aos colegas que, do mesmo modo que me escolheram para representá-los, elegessem um outro colega como orador. E assim o fiz, apesar da indisfarçável preocupação do velho embaixador. Em reunião com a presença dos treze colegas, li o discurso em voz alta (era a primeira vez que o fazia coletivamente) e ao final pedi os comentários sinceros por parte de cada um. Depois da aprovação elogiosa e unânime, revelei-lhes os detalhes da novela do discurso, que eles desconheciam por completo, e encareci-lhes que indicassem outrem para substituir-me. Foi um bafafá geral!… Ninguém aceitou a sugestão  e todos decidiram solicitar uma audiência ao Ministro de Estado, o  Embaixador Vasco Leitão da Cunha, a fim de que uma comissão de quatro representantes pudesse expor nossas ponderações. E viva o Cavaleiro da Triste Figura!…

         Fomos recebidos – participei da comissão, claro, na qualidade de autor do delito – não pelo Ministro em pessoa, mas por seu Gabinete, incluindo o Embaixador Mozart Gurgel Valente (cunhado da escritora e amiga Clarice Lispector) e o então Conselheiro Dário Castro Alves, que viria mais tarde a ser um grande amigo e uma figura muito querida em Portugal, onde foi Embaixador e viveu vários anos. A reunião durou horas, de quatro as sete da tarde, e ao final, do outro lado da mesa só restava o nosso Conselheiro Dário que, com paciência monástica, continuava a nos ouvir e a tentar romper um impasse complicado, em que eu simplesmente reclamava o direito de não pronunciar um discurso, enquanto a turma se negava a escolher um substituto. Até que finalmente foi-me dito que em absoluto não era necessário que eu fizesse um novo texto (de amenidades?…), bastando apenas que atenuasse o tom de certas passagens, pois sempre haveria o risco, arrematava nosso interlocutor, de que no dia seguinte ao da formatura o Correio da Manhã, jornal importante e opositor ferrenho do governo, extraindo uma frase do contexto, publicasse algo como “Jovem diplomata dá aula ao Presidente da República mostrando que democracia social é o caminho para o Brasil”... Depois de intermináveis  discussões sobre essa questão de explorar uma frase fora de contexto (até do Padre Nosso, dizia eu, se pode fazer isso, enquanto meu futuro amigo Dário observava com humor: é, talvez o Pão Nosso de cada dia nos dai hoje…) e de eu prometer que faria um esforço especial para atenuar algumas passagens do discurso, como queriam, fui para casa, voltei de novo ao texto, mas, confesso sem qualquer arrependimento, limitando-me apenas a inverter a ordem de alguns parágrafos e substituir uma ou outra palavra, sem mudar praticamente nada do sentido original. O texto revisto foi então entregue ao Gabinete do Ministro no dia seguinte. Passados 53 longos anos, os colegas já hoje aposentados (alguns já falecidos) continuamos pacientemente aguardando a realização da formatura da turma de 1964 do Instituto Rio Branco…

Embaixador Dário de Castro Alves

Interior do Palácio do Itamaraty, Rio

                Mas não custa reiterar, sobretudo aos leitores mais jovens, que os tempos de então estavam de fato bicudos. Veja-se por exemplo este trecho extraído dos arquivos do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, referente à instalação, no dia 17 de novembro de 1965, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, da II Conferência Interamericana Extraordinária (II CIE): À chegada do presidente Castelo Branco no momento da abertura da Conferência, foram presos diante do hotel oito intelectuais que se manifestavam contra o regime militar. Faziam parte do grupo que ficou conhecido como “Os 8 da OEA” os escritores Antônio Calado e Carlos Heitor Cony, os cineastas Gláuber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, o diretor de teatro Flávio Rangel, o jornalista Márcio Moreira Alves e o diplomata Jaime de Azevedo Rodrigues. Alguns dias depois foi também detido o poeta Tiago de Melo. Todos permaneceriam presos por cerca de duas semanas e seriam enquadrados na Lei de Segurança Nacional depois de responderem a um inquérito policial-militar (IPM).” Protestavam eles, antecipadamente, contra as bases da nova política externa brasileira, que seriam inauguradas a partir daquele momento, segundo as diretrizes ideológicas do movimento armado de 1964. Como escreveu mais tarde o historiador Manuel Maurício de Albuquerque (por coincidência nosso professor no Curso do Instituto Rio Branco): “Através do Itamarati, o governo brasileiro propunha que o conceito de soberania passasse do critério de espaço nacional demarcado por limites, para se basear no das fronteiras ideológicas. Isto significava o direito de intervenção para sustentar um governo, aceito como democrático, que fosse ameaçado por movimentos dominados por ideologias consideradas não-democráticas.”  

 

Tópicos do discurso

        Consequências duradouras…

        Retomando porém o nosso assuntinho irrelevante, a verdade é que se o discurso ficou impronunciado, seus efeitos perduraram por largo tempo, sobretudo para seu autor… Decorrido um ano, com a mudança do Ministro de Estado e a assunção de um Secretário-Geral linha-dura, como se dizia, o assunto voltou à tona, e eu, que além de tudo, estudava russo e trabalhava na Divisão dos países da chamada Cortina de Ferro (!)  passei a ser observado através de lentes especiais… Vivíamos tempos complicados, o mundo bipolarizado, a situação interna se radicalizando cada vez mais. Confesso, confesso que nada disso chegava a   preocupar-me em demasia. Exercia normalmente minhas   funções no trabalho, mantendo as convicções pessoais que estavam claramente expressas nas páginas do famigerado discurso – e que coincidiam com as linhas gerais da doutrina social da Igreja, do Bonum Comune de S.Tomás de Aquino à Rerum Novarum de Leão XIII, da Mater et Magistra de João XXIII às teses renovadoras de Jacques Maritain. Por outro lado, eu tinha consciência de que se tratava de um discurso um pouco incômodo para certas autoridades da Casa, sobretudo as mais conservadoras, pois aos olhos do governo militar da época, as ideias ali expostas não gozavam de grande simpatia… Ao mesmo tempo, o que dizia o discurso me parecia tão lógico, tão evidente e tão sensato, que eu não conseguia entender a oposição que ele enfrentava. Lembro-me que um dia, indo para o trabalho, ocorreu-me de repente uma formulação curiosa para explicar essa situação que tanto me afligia. Ao parar o carro em um semáforo anotei a frase que me viera à cabeça e que mais tarde acabei usando como epígrafe nas cópias do discurso que ofereci aos colegas de turma: Pode parecer às vezes mais vantajoso defender a quadratura da Terra; mas nem por isso ela deixa de ser redonda…

     Primeira missão no exterior

              Minha principal tarefa no primeiro ano de trabalho na DOr/COLESTE – siglas da Divisão da Europa Ocidental/ Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu – foi a de preparar a participação inédita do Brasil na tradicional Feira Internacional de Leipzig, evento que já datava de mais de oitocentos anos. Só para lembrar: Leipzig estava situada na então República Democrática Alemã – RDA,  país comunista do bloco soviético, com o qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas, considerando-o oficialmente como “Zona de Ocupação Soviética da Alemanha”, na linha da chamada Doutrina Hallstein, adotada pela RFA (Alemanha Ocidental) e segundo a qual, só ela tinha o direito exclusivo de representar internacionalmente a nação alemã.  A política comercial do Governo Castelo Branco, no entanto, enfatizava a necessidade de incrementar o comércio exterior do Brasil, ampliando sua participação nas principais feiras comerciais e industriais do mundo, inclusive as do bloco soviético, como Plovdiv, Poznan, Zagreb e Leipzig. Após meses de preparação, e quase às vésperas de partir para minha primeira viagem à Europa – onde, além da estada na RDA, eu deveria, por proposta de meu Chefe direto, visitar Moscou, por razões de trabalho e para conhecer de perto o principal posto diplomático da área – voltei a passar por momentos difíceis.

 

   O almoço de trabalho…

        Certo dia, para minha surpresa, recebi um convite super-honroso para almoçar com o Sub-Secretário Geral para Assuntos de Europa Oriental, Ásia e Oceania, o escritor e então Ministro J.O. de Meira Penna, um dos futuros expoentes do pensamento conservador brasileiro, de quem vim a ser depois amigo, até sua recente morte em Brasília, aos 100 anos de idade! (Que descanse em paz).  A razão para o inesperado convite de uma alta autoridade a um Terceiro-Secretário com apenas um ano de Casa seria, ao que me informaram, para uma troca de ideias e dados a respeito da participação brasileira em Leipzig. O almoço, nunca me esqueço, foi no restaurante do Museu de Arte Moderna, um dos melhores e mais simpáticos do Rio naquele tempo. A conversa fluiu muito bem até à sobremesa, quando meu amável anfitrião, como quem não quisesse nada, perguntou-me vagamente a respeito de um certo discurso de formatura que eu teria eventualmente escrito, e que fôra objeto de comentários que lhe chegaram aos ouvidos. Por incrível que pareça, não me espantei diante da situação: quase que já esperava por ela. Apenas observei ao meu interlocutor que lhe ficava muito grato por ter sido tão amável em questionar-me pessoal e diretamente sobre um assunto que eu julgava inteiramente superado, após tantos meses transcorridos. E passei a narrar-lhe minuciosamente cada etapa da novela do discurso, que ele ouvia com toda atenção.

Embaixador J.O. de Meira Penna

        Quando terminei, surpreendeu-me  ele de novo, afirmando que… já tinha lido o discurso! E mais: que na verdade as ideias e teses que dele constavam constituíam objeto de sua “preocupação diária”. Só que… faltavam palavras de condenação explícita aos regimes totalitários, etc. Argumentei, concluindo, que as reflexões do discurso estavam situadas no plano do Zollen e não no plano do Sein, ou seja, no plano do Ideal, do que deve ser, e não no plano da realidade presente, do que é. Em outras palavras, não havia lugar para condenações, mas apenas proposições para se chegar a um mundo mais justo, mais equânime, mais humano, tanto em termos das sociedades domésticas quanto no âmbito da sociedade internacional. Daí o título que cheguei a dar ao texto – Justiça Social e Desenvolvimento – concluindo com o destacado papel e imensa responsabilidade que caberiam ao funcionário diplomático nesse contexto, como cidadão e como representante de seu país na cena internacional.

        Ao retornarmos ao Itamaraty naquela tarde, tomei logo conhecimento de um despacho do Embaixador Pio Correia, Secretário-Geral do Ministério, no Memorando encaminhado pelo Chefe de minha Divisão, Conselheiro Celso Diniz, nos seguintes termos (textuais): “Suprimo a ida do Secretário Lauro Moreira a Moscou. Determino que em sua viagem de volta de Leipzig, via Europa Ocidental, vá até Berlim Ocidental, onde deverá redigir um relatório narrando as suas experiências pessoais da viagem.”

          Ou seja, provavelmente convencido pelo Ministro Meira Penna da inconveniência de cancelar minha ida a Leipzig, depois de quase um ano de trabalho, o Secretário-Geral houve por bem, uma vez concluída minha missão na Feira, cancelar a solicitada visita a Moscou e determinar uma excursão, digamos, “didática”, a Berlim Ocidental, para que eu, conhecendo então os dois lados da moeda (ou do mundo), fizesse a opção correta…Ocioso falar sobre o relatório que escrevi nas dependências do nosso Consulado-Geral em Berlim Ocidental, narrando e comentando em forma de diário os rigores do inverno europeu, os primeiros sinais da primavera, a maravilhosa apresentação da Paixão Segundo São Mateus ouvida em Leipzig, na própria Thomas Kirsch, Igreja onde meu ídolo J.S.Bach está enterrado, e outros assuntos do mesmo quilate, todos de grande relevância para a política externa do país…

 

Embaixador João Guimarães Rosa

         E se a Terra não for redonda?…

        Em meio a essa novela, quando após meses de calmaria e já de certeza de que não haveria mais formatura, houve um momento em que fiquei aflito. Foi quando recebi um chamado do Embaixador Guimarães Rosa ao seu Gabinete, para “contar-lhe a história de  um discurso que eu teria escrito, e que parece ter gerado uma certa confusão na Casa,” etc. E concluía: Lauro, eu quero ler esse discurso. Você pode me trazer uma cópia? Gelei. Pensei logo: tudo menos isso; politicamente o meu amigo era um tanto conservador e não iria gostar nada do que leria; e além disso eu tinha, claro, um indisfarçável constrangimento de mostrar qualquer texto meu ao gênio do Grande Sertão. Deixei passar uns dias, e ele sempre me cobrando. Não houve jeito. Acabei levando-lhe uma cópia, calculadamente às 12:45hs, ou seja, quase à hora de ele sair para o almoço. Mesmo assim, resolveu começar a leitura ali mesmo, e ao deparar com a mencionada epígrafe (Pode às vezes parecer mais vantajoso,etc) olhou-me pensativo e exclamou: Mas, Lauro, e se a Terra não for redonda…? Ao que eu emendei: mas para mim, ela é redonda! Ele soltou aquela gargalhada sonora e, para meu supremo alívio, decidiu sair para o almoço. Julguei o assunto liquidado, na  esperança de que ele logo o esqueceria. Mas ao final daquela mesma tarde, durante uma cerimonia de posse no Gabinete do Ministro de Estado, volto a ver o Embaixador Guimarães Rosa, que me acena de longe com sinais de que queria falar-me. Fiquei novamente incomodado. Saímos os dois em direção ao seu Gabinete e o que me disse ele em poucas palavras deixou-me sinceramente surpreso, alegre e até hoje orgulhoso: “Lauro, li o seu discurso. O seu discurso é ma-ra-vi-lho-so. Ninguém de boa-fé pode ser contra esse discurso.” Vindas de quem vinham, essas palavras amigas e generosas, escandidas com ênfase, compensavam largamente toda a luta inglória e frustrante que tive de enfrentar por conta de um simples discurso que não chegou jamais a ser pronunciado.

         Meninos, eu vi!

          Enfim, e voltando um pouco atrás, agora para retomar e concluir esta novela patética de um discurso não pronunciado e de uma formatura não acontecida, caberia apenas agregar que a partir  daquela época, dezembro de 1964, e por longos anos, não mais houve no Itamaraty a realização de cerimônia naqueles moldes tradicionais, com intervenção de paraninfo e orador de turma, resumindo-se o evento apenas a um almoço com a presença do Presidente da República e um discurso sobre política externa pronunciado pelo Chanceler.

         Um belo dia, já na Administração Collor, (1990-92), vinte e seis anos portanto mais tarde, fui procurado em minha sala em Brasília por dois formandos do Instituto Rio Branco, que instigados pelo fato de não terem descoberto nada  em suas pesquisas sobre a o motivo da ausência de formatura no ano de 1964, pediam-me esclarecimentos sobre o mistério e me informavam sobre a recente decisão do Instituto Rio Branco de se restabelecer a antiga tradição, há tantos anos abandonada. Viajei no tempo – e confesso que com saudosa lembrança – ao rememorar para os jovens futuros colegas as peripécias vividas por mim e meus treze companheiros dessa bonita aventura quixotesca. E, como o velho timbira do Y-Juca Pirama, arrematei: Meninos, eu vi!

        E hoje possivelmente ainda completaria: E vivi, e sobrevivi…   

Séculos depois…

                               

                                                                                                                          (Pano rápido)

 

 

                                                                                                                   **********************

 

       

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Arquivado em CRONICAS DO QUOTIDIANO

ROSA DO SERTÃO

ROSA DO SERTÃO

Lauro Moreira

“Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão.”

“(…) nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens.”

“(…) Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, (…). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua.” (JGR)

(…)

(…) “João era fabulista fabuloso fábula? /Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? /(…) “Projetava na gravatinha a quinta face das coisas / inenarrável narrada? /Um estranho chamado João /para disfarçar, para farçar / o que não ousamos compreender?” /(…) João era tudo? / tudo escondido, florindo / como flor é flor, mesmo não semeada? /(…) Por que João sorria / se lhe perguntavam / que mistério é esse? /E propondo desenhos figurava /menos a resposta / que outra questão ao perguntante? /(…) Ficamos sem saber o que era João / e se João existiu / de se pegar.

(Carlos Drummond de Andrade: “Um chamado João”)

 

        Os generosos leitores deste Quincasblog – ultimamente aliás um tanto preguiçoso – já devem ter percebido que ao longo de minha vida, sobretudo quando jovem, fui premiado com a ventura de conhecer pessoalmente e em muitos casos conviver regularmente com algumas figuras admiráveis da literatura brasileira do século vinte. Personalidades como Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Augusto Meyer, Cecília Meireles, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Hollanda, Marly de Oliveira, Nélida Piñon, Guimarães Rosa e inúmeros mais, enriqueceram-me a vida desde a juventude, não apenas por suas obras como também por sua honrosa amizade. De certo modo, e como já disse antes, o relacionamento com boa parte desses escritores se deveu ao fato de eu ter sido casado por quase vinte anos com a poeta Marly de Oliveira, admirada aliás por todos eles. A grande exceção no caso foi o meu conhecimento e depois a minha amizade com João Guimarães Rosa, sem dúvida o mais importante escritor da língua portuguesa no Brasil no século vinte. E é sobre o autor de Sagarana que eu gostaria de conversar hoje com minhas amigas e amigos do Quincas.

                                                                                                                                                                      

        O que lhes prometo de saída é não tentar fazer um exercício de hermenêutica de Grande Sertão: Veredas – essa monumental epopeia sertaneja, imantada ao mesmo tempo do mais puro lirismo – ou de qualquer outra obra do autor, não só por faltar-me o instrumental crítico para a aventura, como sobretudo por não ser este o propósito de nossa conversa aqui. Ao contrário, quero apenas relatar-lhes alguns episódios nascidos de um inesquecível convívio de poucos anos, convívio que nasce antes de meu ingresso no Itamaraty em 1964, onde ele, Embaixador de Carreira, dirigia a Divisão de Fronteiras. Na verdade, seu reconhecimento como escritor absolutamente genial – este é o adjetivo que lhe cabe – já era enorme em todo o país, com a publicação de Sagarana, em 1946, e especialmente , de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, ambos editados dez anos mais tarde. E quanto mais passava o tempo, mais interesse despertava essa obra, tanto junto à crítica especializada e ao mundo acadêmico, quanto junto aos leitores brasileiros e estrangeiros, com traduções que se sucediam, em inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, catalão, quase sempre com a supervisão direta do autor poliglota, que dominava oito línguas e lia em seis outras. Suas duas últimas obras surgiram em 1967: Primeiras Estórias e Tutaméia (Terceiras Estórias), esta, uma coletânea de 43 contos curtos, resultado de uma colaboração regular para o jornal Pulso, editado pela classe médica (como sabemos, Rosa formou-se em medicina e clinicou algum tempo no interior de Minas, antes de ingressar na carreira diplomática).                                                                                                                                         

        Ao final de uma tarde de domingo, 19 de novembro desse mesmo ano de 1967, João Guimarães Rosa, no ápice de sua carreira de ficcionista e apenas três dias após sua longamente adiada posse na Academia Brasileira de Letras, morria de enfarto em seu apartamento em Copacabana, aos 59 anos de idade. Nascera portanto em 1908, justamente no ano da morte de Machado de Assis, o primeiro gênio absoluto de nossas letras, como que chegando ao mundo para recolher o bastão das mãos do criador de Capitu. Esse belo capricho do destino impressiona-me até hoje.

 

Bruna Lombardi (Diadorim) e Tony Ramos (Riobaldo) na TV

Rosa nas telas

        Há pouco mais de um mês, e com o deslumbramento de sempre, concluí a terceira ou quarta leitura de Grande Sertão:Veredas. Coincidentemente, a televisão Globo iniciava a reapresentação da série adaptada do romance, realizada em 1985 e desde então não mais mostrada. Trata-se de uma das melhores e mais ambiciosas realizações da televisão brasileira, uma produção cuidada, digna, sensível e respeitosa de uma obra literária monumental e complexa, sustentada por um elenco admirável, com roteiro final e direção do saudoso Walter Avancini. Aliás ocorre-me agora que o talento de Avancini foi igualmente responsável, em

1981, pela memorável transposição para a tv de outro clássico da literatura brasileira, o celebrado Auto de Natal Pernambucano de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. Várias outras estórias de GR foram também adaptadas para o cinema, cabendo mencionar especialmente, a obra-prima A Hora e a Vez de Augusto Matraga, dirigida por Roberto Santos, a única das adaptações aprovada diretamente pelo próprio Rosa. No extremo oposto, não para lembrar mas de preferência para esquecer, está a versão hípica do Grande Sertão (prometeram-me uma versão épica e me trouxeram uma versão hípica, onde só têm cavalos, indignou-se o escritor), dirigida pelos irmãos cineastas Renato e Geraldo Santos Pereira, lançada em 1965. Uma lamentável adaptação, que resultou num dos desastres mais rotundos do cinema brasileiro, e num verdadeiro massacre da obra original.

 

Cartaz da peça

JGR e JK : Posse na ABL em 1967

Rosa no palco

        No já publicado terceiro capítulo de nossa série intitulada Andanças pelo Cultural, trato de episódios de minha vida de estudante no Rio de Janeiro, com especial destaque para as atuações na área do teatro amador, no período anterior ao ingresso na Universidade. Pois ao entrar para a PUC/Rio, em 1958, mergulhei como nunca nas aventuras do palco, começando por fundar o TEPUC – Teatro Experimental da Pontifícia Universidade Católica, e depois encenando nada menos de dez peças em três anos de excitante atividade. Confesso que se não alcancei a fama de um artista global (!!!), acabei por ficar bem conhecidinho na limitada arena teatral do Rio daquela época, em virtude da generosa cobertura que nos davam os jornais, as rádios e por vezes a televisão. E nesse contexto, o que mais talvez tenha ajudado foi minha escolha pelo jornal Diário de Notícias para o Quadro de Honra de Universitário do Ano na área de Teatro, com direito a solene cerimônia no salão nobre do Ministério da Educação e Cultura, quando recebi medalha e diploma das mãos consagradas de Mme. Henriette Morineau, ex-atriz da Comédie Française, que

desde os anos 40 pontificava nas telas e nos palcos brasileiros.

Cobertura da imprensa carioca (JB)

Foi nesse período que me chegou o convite do jornalista e escritor Léo Gilson Ribeiro – recém-chegado de uma temporada de onze anos de estudos de teatro e literatura na Alemanha, Itália e Estados Unidos – para participar da montagem de uma adaptação teatral que ele, inteiramente arrebatado pelo gênio de Guimarães Rosa, havia feito de um dos contos de Sagarana, intitulado Traços biográficos de Lalino Salãthiel, ou A volta do marido pródigo. Caberia a mim a responsabilidade de encarnar o tal marido pródigo… Seria a primeira montagem teatral de um texto de Rosa, bem diferente do que se passou mais tarde, quando vários de seus contos tem sido encenados, alguns com grande sucesso, como o fantástico Meu Tio o Iauaretê, um diálogo monologado (a mesma técnica narrativa de GS:V) que representa “o estágio mais avançado de seu experimento com a prosa”, na opinião de Haroldo de Campos. E por grande coincidência, acabo de ler hoje nos jornais do Rio que “o livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e suas inúmeras possibilidades de análise, serviram de inspiração para a diretora Bia Lessa, que adaptou o texto para o teatro. O espetáculo, homônimo, entra em cartaz neste domingo (28 fevereiro), no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil). Ele não será encenado, no entanto, em um do teatros do espaço cultural, e sim na rotunda, dentro de uma instalação criada e montada exclusivamente para a peça.” Ou seja, 62 anos após sua publicação em livro, chegou ‘a hora e a vez’ de o romance colossal de Guimarães Rosa subir ao palco (ou à rotunda…).

 

Lalino e Maria Rita (eu e Maria Lúcia Carvalho)

        Quanto aos detalhes desta nossa grande aventura do Marido Pródigo, com as peripécias da encenação, a generosa cobertura da imprensa (criando inclusive uma expectativa quase impossível de se atender), os incidentes na noite de estreia no Teatro da Maison de France, a presença de toda a numerosa e impiedosa crítica teatral carioca da época, que não perdoou as deficiências da adaptação e da montagem, a presença na plateia de personalidades como Cecília Meireles, Clarice Lispector e a Senhora Aracy

Guimarães Rosa (representando o marido, que sempre evitava frequentar eventos de grande afluência pública), a pré-estreia off- Broadway em Nova Friburgo, a posterior apresentação em Belo Horizonte, etc. – tudo isso deixaremos para o próximo capítulo das Andanças Culturais, já que aqui falaremos apenas dos contatos pessoais com o gênio criador de Riobaldo e Diadorim.

Convidado pelo Instituto Italiano de Cultura do Rio, Léo Gilson Ribeiro, que havia inclusive acompanhado em Milão a montagem de alguns espetáculos do grande diretor Giorgio Strehler, no Piccolo Teatro, criou um grupo amador com o objetivo de apresentar alternadamente peças brasileiras e italianas, iniciando com a adaptação do mencionado conto de Guimarães Rosa. Mais tarde, porém, deixou o Instituto e acabou criando a Equipe de Teatro do Rio de Janeiro para concluir a empreitada. Com total dedicação, suprindo em parte sua quase nenhuma experiência prática, foi ele aos poucos formando o elenco e selecionando colaboradores de talento nas diferente áreas, como o jovem cenógrafo José Luiz Ripper, os figurinistas Dirceu e Marie Louise Nery, e a respeitada musicóloga e compositora Geni Marcondes, discípula de Hans-Joachim Koellreutter, o grande compositor, maestro, educador e esteta alemão, que viera para o Brasil nos anos de 1930, exercendo papel decisivo na renovação da cena musical do país. Para apresentar pessoalmente o projeto ao Embaixador Guimarães Rosa, tive a sorte de acompanhar Léo Gilson em uma ida ao Palácio do Itamaraty, na Rua Marechal Floriano, Rua Larga para os íntimos. Foi quando avistei o criador de Augusto Matraga pela primeira vez: os olhos miúdos e vivos detrás dos grossos óculos de tartaruga, os ombros levantados, a gravatinha borboleta no pescoço empinado, uma prosódia diferente, um sentido de humor natural e uma grande cordialidade.

A peça em Belo Horizonte

        Com o avanço dos ensaios da peça, realizados normalmente no palco do Colégio Santo Inácio (afinal eu continuava sendo de casa, embora já estivesse há algum tempo na Universidade),

decidimos convidar o autor para assistir a um deles. Coube-me a satisfação de buscá-lo de carro em sua residência em Copacabana, na Rua Francisco Otaviano. Ao retornarmos, disse-lhe que lamentava muito o fato de o ensaio justamente naquela noite não ter saído a contento, especialmente no tocante ao meu desempenho. E ele emendou logo: Mas o que é isso? Achei ótimo! E quer saber de uma coisa? O seu Lalino está melhor que o meu!… Rimos muito, e a partir daquele dia, para ele fiquei sendo sempre o Lalino.

 

Palácio do Itamaraty no Rio
Lago dos Cisnes (1965)

 

 

 

Com o colega Guimarães Rosa

        Em 18 de dezembro de 1962 concluí o curso de Direito, e três dias depois iniciei a maratona de provas para ingresso no Instituto Rio Branco. Mais dois anos, e eis-me no Itamaraty, no belo casarão da Rua Marechal Floriano, já nomeado Terceiro Secretário da Carreira de Diplomata, ao lado de meus treze colegas de turma, todos amigos, entre eles o nosso magnífico poeta Francisco Alvim, além daquele que viria ser mais tarde um de nossos mais duradouros Ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim. Logo em nosso primeiro dia de trabalho, quando a turma incorporada foi convidada a cumprimentar os Chefes da Casa, visitamos também, claro, o Diretor da Divisão de Fronteiras, meu conhecido de outros carnavais… À saída, o Embaixador Guimarães Rosa me dá um caloroso abraço e pergunta em que setor eu estava lotado. Respondi-lhe que na Divisão da Europa Oriental. Ele olhou-me fixo e, entre sério e divertido, exclamou: Sim senhor, hein? Que maravilha: Goiás e Europa Oriental!… Essa e outras várias passagens em nossos encontros frequentes a partir de então, davam-me a sensação de que no âmago, para além de qualquer outra consideração, Rosa via em mim um conterrâneo goiano de seu sertão, seu sertão físico, geográfico, mineiro-goiano, mas também místico e mítico. Afinidade de uma cultura atávica, de uma herança comum? Lembrando Afonso Arinos, eu não era das Gerais, mas dos Gerais. E não era fácil encontrar, no ambiente urbano e cosmopolita da Carreira, colegas que tivessem essa extração, essa procedência que o deixava tão à vontade, que ele tanto prezava. Sua confissão ao crítico e tradutor Gunter Lorenz diz tudo: Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreensíveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas.

Note-se que no Itamaraty daqueles idos de 1960, a quase totalidade dos diplomatas era de cariocas ou paulistas. De Goiás, havia apenas três, entre eles o meu amigo William Agel de Mello, lotado no Gabinete do Embaixador Rosa, e eu. Removido mais tarde para Barcelona, William Agel, também escritor, manteve assídua e divertida correspondência epistolar com seu ex-Chefe e amigo, reunida mais tarde no livro “João Guimarães Rosas: Cartas a William Agel de Mello”, onde se lêem passagens divertidas como esta: “RESSUSCITOU MANÉ D’EBRÉIA [personagem de Epopeia dos Sertões, livro do meu conterrâneo]. Já telefonei ao Lauro (Lalino Salãthiel) comunicando a fausta ressureicionice!

Ou esta outra:

Goiás, terra trefasta, enfiada, sem nenúfares,

Goiás, comprido caranguejo em-pé, carajamente!

Goiás atrás,Goiás pajaz, Goiás à frente,

Goiás de Lauro, Goiás de Mauro (…

                                                                                                               

        Um exemplo hilário de exercício de virtuosismo linguístico está em uma outra correspondência de Rosa, desta vez respondendo ao seu colega Jorge Cabral, que servia no Consulado em Frankfurt, e ele no de Hamburgo. São cartas trocadas em 1940, momento em que a Europa vivia então debaixo dos terríveis bombardeios da Segunda Guerra Mundial. A longa missiva de Rosa compunha-se exclusivamente de palavras começadas pela letra c (Caro colega Cabral..) e acabou mais tarde publicada na imprensa carioca. Os leitores deste nosso Quincasblog possivelmente se lembrarão do post que publiquei em novembro de 2014, sob o título “Apenas um erro de Cabral”, em que trato desse assunto em detalhe, incluindo o próprio texto de JGR, e comento um equívoco primário de uma matéria publicada com grande destaque pelo Jornal do Brasil em fevereiro 1987, segunda a qual o correspondente J. Cabral não seria outro senão o nosso também colega João Cabral de Melo Neto, que a essas alturas nem sequer havia ingressado na Carreira diplomática… Os eventuais interessados em ler ou reler o divertido post poderão fazê-lo aqui no Quincas pelo título ou pela data da matéria.

 

Convívio amiudado

Meu sempre lembrado convívio regular com o amigo Guimarães Rosa foi breve no tempo – do início de 1965 até sua morte em fins de 1967 – mas intenso, divertido, prazeroso e muitíssimo proveitoso para mim. E cada vez que me punha ao seu lado, usufruindo daquela conversa sempre interessante, informal, descontraída, não perdia jamais a consciência de que eu estava diante de um gênio absoluto das letras, convivendo portanto com a própria posteridade. Aliás, lembro-me bem de uma tarde em que ele me mostrou um exemplar do jornal Die Welt, que acabara de receber de Hamburgo, com a resenha crítica sobre Grande Sertão: Veredas, recém-publicado com grande sucesso na Alemanha , escrita por um dos mais respeitados ensaístas do país, que afirmava textualmente tratar-se de um autor que, no século vinte, só encontraria paralelo em Joyce, Proust, Thomas Mann e Faulkner. Ao traduzir para mim alguns trechos dessa crítica, Rosa interrompeu emocionado: Lauro, você sabe que isso me assusta?!

Grande Sertão:Veredas – a Obra do século

Muito mais assustado fiquei eu, entretanto, numa certa manhã em que ele me pediu para dar um pulo ao seu Gabinete, e perguntando se eu dispunha de algum tempo, entregou-me logo

uma daquelas pastas castanhas de trabalho do Itamaraty, contendo uma boa quantidade de páginas datilografadas, que eu julguei, no primeiro momento, tratar-se de algum documento oficial. Quando abri, topei no centro da primeira página com a palavra TUTAMEIA, em caixa alta. Respirei fundo, mas fui logo negando o que ele me pedia: ler e opinar ali, em uma mesa de seu Gabinete, os originais inéditos de seu próximo livro, que levava o subtítulo de Terceiras Estórias. Senti-me de fato incomodado com aquele pedido, ao mesmo tempo que extremamente lisonjeado com esse gesto de confiança e amizade. Sem ter como recusar suas instâncias, acabei por ceder e passar o resto do dia debruçado sobre aqueles originais, tão diferentes de suas obras anteriores, e ainda mais, com a solene promessa de marcar tudo que eu não aprovasse , como exigia ele. Era evidente para mim, uma vez mais, que não se tratava, claro, de submeter sua nova obra inédita a meu pouco especializado juízo crítico, mas simplesmente de uma homenagem ao meu lastro atávico de “goianidade” sertaneja…

                                                                             

Dedicatória do Grande Sertão:Veredas

Em nossos bate-papos tratávamos de tudo um pouco. De literatura, mineirices, goianidades, diplomacia, filosofia, religião, etc. Cheguei a anotar regularmente muito do que ele me dizia, os casos que contava, os livros que comentava, mas infelizmente acabei perdendo tudo em meio a tanta mudança de casa e de país. Falava-me agora sobre o Bhagavad Gita ou sobre Lobsang Rampa e seu livro A terceira visão (“a realidade está no plano espiritual”) para em seguida comentar com admiração e entusiasmo os contos de Ermos e Gerais, do goiano Bernardo Élis, obra publicada em 1945 e saudada por Monteiro Lobato. Certo dia, abriu a gaveta de sua mesa de trabalho, apanhou uma página de um exemplar do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de meados do século dezenove e mostrou-me um anúncio em destaque que dizia mais ou menos o seguinte: Vende-se uma negra de 22 anos. Boa saúde, bons dentes. Tantos mil réis. Acompanha-a uma cria. Foi a primeira vez que tive consciência exata do horror da escravidão, diria mesmo que mais forte que aquele que sentia ao ler os poemas de

Castro Alves, como A Cruz da Estrada ou O navio Negreiro. Fiquei chocado, como chocado estava meu amigo. Outra vez, disse-me que acabara de reler encantado a obra poética de Marly de Oliveira, acrescentando: Há muita gente jovem e boa fazendo poesia hoje no Brasil, mas em geral são vozes um pouco indistintas, muito parecidas; Marly é diferente, é uma voz original, única, uma poesia do pensamento. E arrematava com graça: Ela me parece poeta de país desenvolvido!…

 

        Passados tantos anos, não creio estar cometendo uma inconfidência muito grave ao recordar aqui uma outra conversa que tivemos, desta vez sobre um poeta e diplomata, também chamado João (aquele que, segundo se dizia, não gostava de música…). Estávamos falando sobre poesia, quando Rosa de repente me pergunta: Você gosta da poesia de João Cabral? Respondi que sim, e mais, que a estética cabralina tinha a meu ver um papel importante como antídoto à retórica derramada de que padece às vezes a nossa poesia. Uma ‘educação pela pedra’ só poderia fazer bem… Ele continuou: “O problema é que o João Cabral me fez um dia justamente essa pergunta! E eu disse logo: mas meu caro, que pergunta é essa, você é um dos maiores poetas do Brasil! E ele insistiu: Rosa, eu estou perguntando outra coisa, quero saber se você gosta da minha poesia. E eu não tive coragem de dizer que gostava! Foi muito desagradável. Aliás, penso que aquela dor de cabeça diária do João vem de seu poema Uma faca só lâmina… A assepsia buscada pelo Cabral para sua poética é tão rigorosa que chega a matar até os germens da criatividade…” Notem que Rosa começou escrevendo e publicando poesia (Magma), depois é que passou para a ficção. E é dele esta afirmação feita em uma entrevista em 1965: “Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana. “

 

        Observações como essas, no entanto, não devem constituir surpresa para leitores e admiradores dessas duas grandes figuras, cujas obras estão nas antípodas, sob qualquer ângulo de apreciação. De um lado, o barroquismo arrebatado e arrebatador de um encantador de palavras, do re-criador de uma linguagem nova e de uma poesia própria para exprimir seu mundo mítico; de outro, a educação pela pedra, a busca incessante do despojamento total, do osso, da palavra seca, da expressão exata, “sem perfumar sua flor/sem poetizar seu poema”. Feliz da língua que consegue abrigar dois escritores coetâneos tão diferentes e tão extraordinários.

 

No tocante a essa questão da linguagem e da língua, duas citações extraídas da famosa entrevista de JGR a Gunter Lorenz em Gênova (Diálogos com Guimarães Rosa,1965) merecem destaque especial:

 

(…) o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. (…) Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.”

“...sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.”

 

        A paixão de JGR pela questão da língua era tal, que um dia me contou que um conhecido seu havia feito uma pesquisa curiosa, ao contar e cotejar o número de consoantes encontradas em

páginas de Jorge Amado e em textos seus. Descobriu com surpresa que em Rosa havia sempre mais consoantes que no autor de Gabriela. Explicação de Rosa: é natural, pois Jorge é da Bahia, da costa atlântica, onde predominou a língua tupi, muito vocálica, ao passo que ele, Rosa, vinha do interior do país, onde o idioma principal era do grupo Gê, ou Tapuia, língua muito mais consonantal que a dos tupis. Simples assim… E acrescentava que além disso o tupi é mais suave e mais descritivo, citando como exemplo, entre outras, a expressão pori-pori ema, para descrever o-salto-o-salto da ema, designação dos tupis para a Serra da Borborema.

 

Fernando Pessoa (por Almada Negreiros)

Uma obra cibernética?

Um dos momentos mais interessantes de minhas conversas com JGR foi quando lhe disse que, à parte a genialidade presente na criação de Grande Sertão:Veredas, a obra me impressionava também pelo número de personagens que se entre-cruzavam em mil estórias diferentes, tudo mesclado com frequentes observações sobre vida, religião, fauna e flora, num incrível emaranhado de mais de 570 páginas, sem pausa, sem respiro, sem capítulos para dividi-las, dando ao leitor (ao menos a mim) a sensação de estar diante de uma obra cibernética, escrita de um só jato, sem interrupção. E então perguntei-lhe como tinha sido o seu processo de criação. Explicou-me que foi num período de férias em casa, ao escrever mais um conto para Corpo de Baile, começou a sentir-se estranhamente tomado por um impulso que o levava a escrever sem cessar, por horas a fio, deitado no tapete da sala, num processo que parecia meio mediúnico e que ele não entendia bem. Ao ouvir aquilo, lembrei-me logo da famosa carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, (meses antes da morte do Poeta), em que explicava a origem de seus heterônimos. Rosa não sabia da existência da carta, mas era impressionante a similitude das situações. Basta lembrar esse trecho:

“(…) Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe- me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.”

Curioso que só anos depois tomei conhecimento do teor de uma carta em que Rosa confessava ao seu colega, amigo e compadre, Embaixador e mais tarde Ministro das Relações Exteriores, Antônio Azeredo da Silveira:“Eu passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo eternamente. Foi uma experiência transpsíquica, eu me sentia um espírito sem corpo, desencarnado – só lucidez e angústia.”

 

Aracy de Carvalho, Senhora Guimarães Rosa

A morte pressentida

        Eu me pergunto sempre se esse espírito sem corpo não teria sido o responsável pelo lúcido e angustiado pressentimento da chegada da morte, que durante pelo menos quatro anos perseguiu João Guimarães Rosa. Seu desaparecimento repentino e prematuro, no auge de uma vida que não chegaria aos 60 anos, está envolto em mistério, ao menos para os que desconheciam certos estranhos antecedentes. Em 1957 Rosa candidata-se à Academia Brasileira de Letras, um acalentado sonho de muitos anos, mas não alcança os votos necessários para eleger-se. Em 1963, após uma empenhada campanha feita pessoalmente junto a cada Acadêmico, é aceito por unanimidade. Está exultante, mas inexplicavelmente recusa-se a fixar uma data para sua posse. A insistência natural de seus pares aumenta-lhe a angústia e obriga-o a inventar desculpas aparentemente inconsistentes, como excesso de trabalho no Ministério ou algum problema de saúde. Em 1966, seu amigo e

tradutor Curt Meyer-Clason, que dois anos antes havia traduzido Grande Sertão:Veredas para o alemão sob a supervisão direta do autor, avisa-lhe que está prestes a concluir a tradução do restante de sua obra, o que lhe traz grande alegria.

 

Talvez mais animado com o sucesso de sua obra no exterior, Rosa marca finalmente a data da posse na ABL: 16 de novembro, uma quinta-feira, só que do ano seguinte! A angústia aumenta a cada dia. Seus desabafos com amigos chegados eram sombrios. A alguns dizia que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. Augusto Meyer nota-lhe um “terror pueril nos olhos” e a Otto Lara Rezende, Rosa declara que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. E durante os ensaios protocolares da véspera, confidenciou: “A Academia é demais para mim. Tenho medo de falhar, de chorar, não suportar a emoção”. Eu, de minha parte, cheguei a ouvir uma frase dita por Marly de Oliveira que nunca mais esqueci: a obra do Rosa vale por toda uma Academia, indignava-se ela, e a insistência com essa posse pode acabar por matá-lo!

 

Rosa, JK, Austregésilo de Athayde e Josué Montello na noite de 16 de novembro de 1967 na ABL

Chega finalmente o dia 16 de novembro, quinta-feira, data de um evento inexplicavelmente adiado por quatro anos. Pelos depoimentos posteriores do também escritor Geraldo França de Lima, conterrâneo e íntimo amigo de Rosa desde a década de 1930 em Minas Gerais, sabemos que este passara a manhã e a tarde em silêncio tenso e agoniado, recusando até alimentar-se. Apreensiva, Dona Aracy telefona ao amigo Geraldo, explicando a situação e pedindo-lhe que viesse ajudá-la a distrair e tranquilizar seu marido. Ele veio em seguida, e depois de acalmar um pouco o velho companheiro, inclusive a escolher os sapatos que melhor se ajustassem ao fardão acadêmico, acompanhou-o no carro oficial do Itamaraty até a sede da ABL, no Centro da cidade. No transcurso da viagem, impressionado com o silêncio e a ansiedade do amigo, resolveu animá-lo dizendo tratar-se de uma simples cerimônia de posse, onde ele estaria cercado de amigos e admiradores, e até de confrades médicos, como Peregrino Júnior, conforme se previra no ensaio da ante-véspera. Foi nesse momento que, ao tocar-lhe a mão, notou que ela estava gelada. Ouviu então uma voz grave e assustada dizer-lhe com todas as letras: Geraldo, você não está entendendo; eu não passo deste ano…

 

        Com grande expectativa e debaixo de uma forte tempestade que alagava as ruas da Rio, cheguei ao Salão Nobre da ABL por volta das 19hs e já o encontrei lotado. À mesa, dirigindo a cerimônia, o Presidente da Casa, Austregésilo de Athaíde, ao lado do ex-Presidente J.K. e do Acadêmico e também mineiro Afonso Arinos de Mello Franco, designado para receber o novo colega. A tensão de Rosa ao se dirigir à tribuna era sentida por todos os presentes. Mas a leitura de um discurso impecável e absolutamente “roseano” foi perfeita. Os momentos finais foram de grande emoção, com citação do Bhagavad Gita e, em seguida, com a hoje famosa locução: A gente morre é para provar que viveu. E ainda: Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

 

        Ao concluir sua ingente missão, nosso amigo estava radiante, esfuziante, recebendo e retribuindo abraços de uma quantidade de admiradores, rindo todo tempo, feliz, e, finalmente aliviado do peso das toneladas que carregara por quatro anos. No dia seguinte, sexta-feira, ao final do expediente no Itamaraty, no momento em que eu saía do elevador no segundo andar, para grande surpresa minha dou de cara com o meu Embaixador agora Acadêmico, que tinha ido trabalhar normalmente e estava se retirando, ao lado de sua amiga e secretária Maria Augusta. Ao dar-lhe um abraço e reiterar-lhe como havia sido maravilhosa sua festa, ele perguntou logo, já de dentro do elevador: E o discurso, gostou? E a apresentação, foi boa? Ao responder-lhe que sim, claro, ele virou- se logo para a secretária: o Lauro, Lalino, é o meu consultor para assuntos teatrais!… Em seguida a porta do elevador fechou-se. E foi essa a última visão que tive de meu pranteado amigo. Dois dias depois, domingo, 19 de novembro, ao final da tarde, eu conversava com um tio meu em um bar na Avenida Atlântica em Copacabana, contando tudo isso que acabo de narrar aos meus amigos leitores, quando naquele exato momento, a menos de cem metros de distância, em sua casa na Rua Francisco Otaviano, onde um belo dia fui buscá-lo para um ensaio de teatro, João Guimarães Rosa partia para sempre. Partia para a eternidade, para a posteridade, para a memória do Brasil e dos leitores de todo o mundo.

 

 

 

As pessoas não morrem, ficam encantadas

JGR

     
                                                                                                                                                                           LM, 9/02/18
                                                                             ****************************          

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ANDANÇAS PELO CULTURAL (3)

            ANDANÇAS PELO CULTURAL : no palco do Santo Inácio (3)

                                                                                          Lauro Moreira

 

         Nossa empolgante série (uau!) intitulada Andanças pelo Cultural foi, como se viu, momentaneamente interrompida em seu segundo capítulo, em janeiro último, para tratarmos de um tema triste: a morte do Presidente Mário Soares, uma das grandes figuras europeias da segunda metade do século vinte, com quem tive o privilégio de conviver por alguns anos. Em seguida, postamos uma espécie de balanço comentado das atividades em que estive envolvido ao longo de 2016, tanto no Brasil quanto em Portugal. E agora, finalmente, proponho aos meus queridos leitores a retomada da série que pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente menos eletrizantes, como já lhes disse, que os do Flash Gordon, “um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo no profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática, em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.” Ao concluir o segundo capítulo dessas Andanças, prometi (ou ameacei?) retornar com uma nova matéria referente às nossas aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E aqui estamos para cumprir a solene promessa.

        Nossos fieis leitores já sabem que estamos em 1955, e eu matriculado, com quinze anos, no primeiro ano do Curso Clássico do Colégio Santo  Inácio, no Rio de Janeiro. Após um período de cinco anos de internato em São Paulo, onde havia concluído o Curso Ginasial, a vida no Rio, de novo ao lado da família, era uma festa só. O ambiente do Santo Inácio, bastante arejado, possibilitava aos alunos uma série de atividades extra-curriculares, como participar da Academia de Letras (a nossa já conhecida ALSI), escrever artigos para a revista Vitória Colegial, praticar  esportes (leia-se futebol) e, mais importante que tudo, fazer teatro!

        Confesso que participei de tudo. Das lides acadêmicas os nossos leitores já sabem por terem lido o primeiro capítulo desta série (hopefully…); dos esportes não haveria muito o que contar, além do futebol; mas do teatro, só posso dizer que preencheu grande parte de minha vida de estudante secundário e, mais tarde, universitário. Participei da montagem de várias peças (na verdade, de todas) naquele saudoso palco do Santo Inácio, do qual me senti íntimo desde o primeiro momento que lá cheguei. Foram três anos de comédias, farsas, dramas históricos,  e até dramalhões pra ninguém botar defeito. Havia apenas um fator limitante: os personagens só podiam ser masculinos… Ou seja, as peças escolhidas tinham que atender a esse pequeno requisito, pois elencos mistos, nem pensar! Apesar disso, havia sempre textos interessantes a serem encenados. Em minha primeira participação como ator, fiz o papel de um sexagenário (!) chamado Felício, em uma peça intitulada Primeiro de Maio. Depois vieram outras, ao menos uma montagem por semestre, e entre elas os dramas históricos  Xeque Mate, sobre a Revolução Farroupilha e seu heroi Bento Gonçalves (encarnado por seu criado aqui), e  A Bandeira de Fernão Dias. O interessante era o entusiasmo com que nos jogávamos todos nessas aventuras teatrais, certos de que seríamos recompensados pelos aplausos generosos e insuspeitos (!) de uma grande plateia composta quase inteiramente por nossos pais, irmãos, tios, primos e amigos… O sucesso era garantido de antemão.     

Estreia no palco: o sexagenário Felício.

         Outro aspecto curioso é que os atores e demais participantes (contra-regra, cenógrafo, iluminador, ponto, etc.) eram todos alunos dos Cursos Clássico e Científico. Ou seja, os fedelhos ginasianos só teriam acesso a toda essa glória depois de chegarem ao chamado segundo ciclo. Caberia mencionar também a presença atuante de nosso Professor de Literatura Portuguesa e Brasileira, Maurício Leite, que tinha alguma vocação e um forte gosto pelo palco, atuando sempre como diretor  e/ou ator em nossas montagens. Do mesmo modo, alguns desses colegas participantes tornaram-se mais tarde figuras conhecidas em outras áreas, como Arnaldo Jabor (o Tenente Chacel, do melodrama  A borda do abismo), que veio a ser o cineasta de vários filmes destacados do Cinema Novo e um dos cronistas mais populares do país. Desse delicioso palco de nosso tempo, partiram mais tarde para a cena diplomática, além de mim, os atuais Embaixadores Luiz Filipe de Macedo Soares Guimarães e João Gualberto Marques Porto Júnior. Pelas fotos dos programas de sala, como se diz em Portugal, pode-se ver que os quatro participamos, entre outras peças, da comédia em dois atos Advogado em apuros, e eu desta vez na pele do criado Crispim…

 

      Página da Vitória Colegial

   

 

  Por outro lado, ao preparar há pouco meu mais recente recital de poesia, intitulado Três Epopeias Brasileiras, reunindo os poemas Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac, veio-me logo à memória minha participação no papel de José Dias, um dos filhos do lendário Bandeirante, no mencionado drama histórico A Bandeira de Fernão Dias, que acabou condenado à forca pelo próprio pai, ao insuflar uma rebelião contra a determinação paterna de seguir adiante após anos e anos de sofrimento na selva, em busca das pedras verdes. Lembro-me bem da cena de meu enforcamento, realizada com a ajuda de alguns recursos cênicos de luz e sombra, e que causou enorme impacto em nosso público cativo e generoso…

 

     

A Bandeira dos Embaixadores…

        Ao evocar tudo isso, e com bastante precisão, não ignoro que, talvez para a quase totalidade de meus colegas de então, essas aventuras teatrais já se perderam na poeira dos tempos, decorridos mais de meio século. Em mim, ficaram porém marcadas para sempre, pelo simples fato de que, de todo aquele grupo, eu era certamente o mais apaixonado pelo que fazia. E tanto é verdade que aquela fase de peças colegiais balizou apenas o início de um exercício de oito anos consecutivos de palco, só terminando quando concluí o quinto e último ano da Faculdade de Direito, ingressando logo em seguida na diplomacia, através dos exames para o Instituto Rio Branco. Logo no segundo ano de Clássico resolvi fazer um curso teórico de teatro, entrando depois para a recém-criada Associação Cultural da Juventude (ACJ). A ACJ, que ocupou boa parte de meu tempo, atuava em três áreas diferentes: a artística, com  o seu Teatro da Juventude e um programa semanal na Rádio Roquete Pinto; a de jornalismo estudantil, com o nosso jornal A Voz da Juventude, e a de esportes e lazer. Eu comandava a área artística, dirigindo e atuando em inúmeras peças teatrais, além do programa radiofônico semanal. E como fosse pouco, era também diretor-redator-chefe de nosso jornalzinho. E por falar em jornal, acho que vale a pena refrescar a memória dos leitores para o  o que escrevi no primeiro capítulo desta série de Andanças pelo Cultural, quando mencionei que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O Dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector.

Página de rosto do número 1 de A Voz da Juventude

         Lembram-se? Pois o que até hoje me impressiona era a facilidade de acesso que tínhamos nós, estudantes secundários, a todos esses importantes órgãos da imprensa carioca. Quantas visitas em grupo chegamos a realizar a O Globo, ao Diário de Notícias, ao Correio da Manhã, ao Jornal do Brasil, etc. solicitando uma cobertura para nossas atividades culturais! E, pasme-se, éramos sempre atendidos. A título ilustrativo aqui estão estampadas algumas matérias e fotos publicadas por esses jornais, ora noticiando um Congresso de Jornalismo Estudantil que iríamos realizar na Bahia, ora a realização de um de nossos Juris Históricos Simulados em um velho cinema na rua Jardim Botânico, ora um Salão de Artes Plásticas em Copacabana, ora a apresentação de peças encenadas pelo Teatro da Juventude que, diga-se de passagem, procurava ocupar todos os palcos disponíveis de salas paroquiais da cidade, como o da Matriz de São João Batista, em Botafogo, e de Colégios como o Santo Agostinho, no Leblon, o Santa Santa Rosa, também em Botafogo, e até do Liceu de Artes e Ofícios, na Gávea. Ou seja, nosso tempo maior era ocupado por atividades culturais extra-escolares, que acabavam recebendo sempre um bom público, graças à divulgação gratuita que nos ofertava a grande imprensa carioca.

                                                                                         

Jornalismo estudantil.
Visita à Redação de O Globo

         Enquanto isso, em nosso jornalzinho A Voz da Juventude, no qual eu ocupava as funções de Diretor-Redator-Chefe, cabendo a Direção-Geral ao meu amigo José Augusto Guilhon de Albuquerque, hoje respeitado Catedrático de Sociologia da USP, publicávamos reportagens, crônicas e artigos assinados pelos demais sócios da ACJ e colaboradores eventuais. Entre estes, lembro-me bem a grande impressão que me causou uma análise crítica escrita por Fernando Guimarães Reis, (hoje Embaixador, já aposentado, como todos nós daqueles idos de 1955) ao filme Vidas Amargas, baseado no romance East of Eden, de John Steinbeck, dirgido por Elia Kazan e estrelado por James Dean em sua estreia no cinema. O texto de meu amigo Fernando Reis ficou-me sempre como uma das mais inteligentes colaborações que tivemos em nosso jornal, no qual cheguei a publicar artigos sobre assuntos variados, como sobre a cidade de Goiânia, naquela época ainda tão remota e desconhecida pelos brasileiros do litoral quanto a Lua e, muito especialmente, algumas matérias defendendo a tese da mudança da Capital para Brasília, cidade em início de construção no Planalto Central do país, ou seja, na minha terra natal… Por aí se vê que eu, proveniente do centro geográfico do Brasil, estava mais que imbuído da firme convicção de que era fundamental e urgente promover a integração do país através da efetiva ocupação de seu vasto território interior.                             

Congresso de Jornalismo Estudantil na Bahia

        E assim, participando com entusiasmo de todas essas atividades extraescolares, além de manter minhas aulas particulares de Francês e Inglês com minha inesquecível Mrs. Williams (sobre quem ainda voltaremos a falar), atravessei os três anos de Santo Inácio. Em fevereiro de 58 fiz o vestibular para Direito na PUC, onde me esperava uma roda-viva de cinco anos no palco muito mais agitada que a anterior. É o que veremos no próximo capítulo dessas andanças Culturais.

     

O Congresso na Bahia. Matéria do jornal A Tarde

Repercussão na Província

Desabafo do goiano…

 

E por falar em Bahia…

Juri Simulado: maneira inteligente de aprender História

Artigo em A Voz da Juventude. Salve Brasília!

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BALANÇO ANUAL

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AGENDA QUINCASBLOG: BALANÇO ANUAL

                                                Lauro Moreira

Os meus  parcos porém fieis leitores sabem desde sempre que este nosso Quincasblog não se interessa muito por atos e fatos da atualidade, pela vida que corre no presente, pelas manchetes dos jornais de hoje, estando de preferência voltado para o exercício de resgate da memória pessoal, da evocação de um tempo ido e vivido. Mas por vezes acontecimentos da atualidade nos golpeiam de tal modo, que não há como escapar. E o pior é que são em geral tristes, até lutuosos, esses acontecimentos. O desaparecimento, súbito ou não, de pessoas que marcaram sua passagem pelo mundo – e cujo convívio, e até amizade, tive o privilégio de cultivar – não está para mim no rol dos “acontecimentos da atualidade”, mas sim da eternidade. A morte do Presidente Mário Soares no início deste ano, a partida do poeta Manuel (Manolo) Graña e do cineasta Manuel de Oliveira há dois anos, por exemplo, tiveram um grande impacto para todos que os conhecíamos. Por isso estão evocados com saudade em matérias publicadas neste Quincasblog.

Agora, retomando contato com os leitores após mais um período de preguiçosa inatividade – ou seria de simples desânimo, fruto de amarga frustração provocada pela “atual conjuntura brasileira”? – decidi (re)começar com algo muito simples, quase estatístico, que no fundo serve mais a mim que aos pacientes leitores, reconheço. Será apenas um olhar retrospectivo e resumido de minha agenda dos últimos doze meses de atividades na área cultural, passados em temporadas alternadas entre Brasil e Portugal. Na verdade, desde que deixei o Posto de Embaixador em Lisboa e retornamos em definitivo ao Brasil (já lá se vão sete anos, mon Dieu!) minha mulher e eu temos passado regularmente duas temporadas anuais em Portugal, país e povo aos quais me sinto cada dia mais chegado.

O que segue agora são apenas algumas notas esquemáticas que eu já havia tomado há algum tempo, acrescidas da necessária atualização dos eventos ocorridos posteriormente.

PORTUGAL: março/abril/maio de 2016

Escrevi na época: “De volta ao Brasil, depois de mais uma temporada de dois meses e tanto em terras portuguesas. Uma maravilha, como sempre. Cercado de amigos, de gente simpática, respirando cultura e deliciando-me com as belezas de Lisboa e de todo o país. E além de tudo, cumprindo como sempre uma rica agenda de atividades culturais, envolvendo palestras, recitais de poesia, seminários, etc. Enfim, coisas que que só me dão prazer. Recapitulando, tive a oportunidade de realizar nesta temporada as seguintes atividades:

21/03/16 – Recital de poesia no Palácio Foz, em Lisboa: À sombra das mangueiras de Belém do Pará”, com obras dos mais importantes poetas paraenses, por mim selecionadas. A convite da historiadora Professora Maria Adelina Amorim, Coordenadora das Comemorações em Homenagem aos 400 anos da cidade de Belém.

22/03/2016 – Palestra na Sociedade de Geografia de Lisboa, a convite do IV Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo Movimento Internacional Lusófono e a SGL, sobre o tema “A CPLP e a Cidadania Lusófona”

10/05/2016 – Palestra em curso promovido no âmbito do Consulado Geral do Brasil em Lisboa sobre o tema “Quatro séculos de Poesia no Brasil”

18/05/2016 –  “Poesia em Concerto: Poetas de Brasil e Portugal “ – Recital com o poeta e romancista Mário Máximo, no Teatro Amélia Rey Colaço, Algés, Lisboa.

24/05/2016 – “Vozes Poéticas da Língua Portuguesa” – Recital com o escritor Mário Máximo, na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, Lisboa, reunindo poemas de autores dos oito países de Língua Portuguesa.

RECITAL CPLP

26/05/2016 –  “Inovação, Modernidade e Universalidade da Obra de Machado de Assis”, conferência pronunciada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O tema dessa e de outras palestras sobre Machado de Assis, eu venho há anos desenvolvendo, como sabem os leitores, em Portugal,  Brasil e outros países lusófonos (como Cabo Verde), com uma aceitação  muito estimulante.

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BRASIL:  junho/julho/agosto/setembro

14/06/2016 – Palestra sobre   “A Poesia de Marly de Oliveira”, a convite da Oficina Cultural Cândido Portinari, no âmbito da Feira do Livro de Ribeirão Preto.

24/08 – Apresentação no Teatro Basileu França, em Goiânia, do recital “Manuel Bandeira: o Poeta em Botafogo”, baseado em meu CD homônimo, gravado com a voz do próprio Poeta, em minha residência no Rio de Janeiro, no final dos anos de 1960. Participação da soprano Ângela Barra e dos  músicos Carlos Costa e componentes do Goiás Piano Quartet.Manuel Bandeira

28/08 – Palestra-recital na Academia de Letras de Itaberaí, Goiás,  da qual sou membro efetivo, sob o título de “Um Panorama da Poesia Brasileira”.

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PORTUGAL: Outubro/novembro/dezembro/2016

 18/10 –  Eleito Presidente do Conselho Diretivo do OLP-Observatório da Língua Portuguesa, com sede em Lisboa.

 09/11 – Nova apresentação da conferência intitulada “Inovação, Modernidade e Universalidade da Obra de Machado de Assis”, agora no Salão da Biblioteca Nacional de Portugal.

Conferência _ Inovação, Universalidade e Atualidade da obra de Machado de Assis _ 9 nov. | 18h00-4-2

17/11/2016 – Conferência na Universidade Lusófona de Lisboa, sob o título  “A Construção da Lusofonia”, no âmbito do Seminário “Democracia e Identidade Cultural nos Países de Língua Oficial Portuguesa”, promovido pela Associação Mares Navegados.

19/11/16  –Meu novo espetáculo, intitulado “Três Epopeias Brasileiras”, estreado hoje no palco da Biblioteca Municipal de Alcobaça, com meu amigo Professor Rui Rasquilho. Como já mencionei em matéria publicada neste Quincasblog, há  tempos namorava a ideia de apresentar um recital reunindo três poemas épicos de largo fôlego da literatura brasileira. Seriam eles o Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac. Além de constituírem o que há de melhor em nossa poesia épica, eles evocam três dos mais importantes aspectos da formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e o alargamento do território pelos Bandeirantes e, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano escravizado. Da fusão étnica e cultural dessas três raças básicas nasce o Brasil.

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25/11/16 –  Reapresentação de “Três Epopeias Brasileiras” em Trás-os-Montes, a convite da Douro Generation – Associação de Desenvolvimento, com a participação da atriz e querida amiga Paula Castelar, no Conservatório de Música de Vila Real.

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23/11/16 – Nova apresentação do recital de poesia À sombra das mangueiras de Belém do Pará”, desta vez no Salão da Biblioteca Nacional de Portugal.

05/12 – Nova apresentação do espetáculo “Três Epopeias Brasileiras”, no prestigioso Teatro A Barraca, em Lisboa, tendo o poeta Mário Máximo como leitor-narrador dos textos introdutórios.

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BRASIL: janeiro/fevereiro/março/abril de 2017

 

24/03/2017  –  De volta ao Brasil, em princípios de janeiro. Comentários que anotei no Livro de Visitas do projeto “Caminho de Letras e Árvores”, inaugurado na presença de mais de uma centena de pessoas, na histórica Cidade de Goiás, berço e primeira Sede de meu Estado natal:

“Senti-me orgulhoso e feliz por ter participado – através da interpretação de “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira – dessa linda, simples e comovente cerimônia de inauguração do “Caminho de Letras e Árvores”. Este é um projeto de largo alcance cultural, destinado a reavivar e preservar a memória de grandes vultos das letras de Goiás, e que só a sensibilidade, generosidade e determinação de minha querida amiga Maria das Graças Fleury poderia conceber e realizar, e com tanto sucesso. Um magnífico presente para a cultura e a ecologia de Goiás e do Brasil.”

Comentário mais que generoso da Professora Graça Fleury em sua página no Facebook:

  Lauro Moreira, sua presença lá, declamando nosso Manoel, Bandeira dos nossos corações e do Brasil, me encheu de emoção. A inauguração teve seu brilho, que é único!

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12/05/17 –  Estreia no Brasil do espetáculo “Três Epopeias Brasileiras”, na Sala Meira Júnior do magnífico Theatro Pedro II, de Ribeirão Preto, onde felizmente repetiu-se (modéstia às favas!…) o êxito que havia alcançado nas três cidades portuguesas. Narração de textos introdutórios a cargo da atriz e Professora Renata Martelli.

Alguns comentários recebidos de pessoas por quem tenho grande apreço intelectual:

        “O embaixador Lauro Moreira, já não é mais surpresa para Ribeirão Preto, deu um show de interpretação poética baseada em clássicos da nossa poesia, declamando o Y Juca Pirama de Gonçalves Dias, O Caçador de Esmeraldas de Olavo Bilac e o Navio Negreiro de Castro Alves, no Theatro Pedro II dia 12 do corrente. A habilidade do Lauro para nos transportar ao contexto do Brasil colônia, aos nossos ancestrais tupis guaranis, quase dizimados, os negros e os portugueses que formataram a base da nossa raça, impressiona. (…) Parabéns Lauro pela colaboração à cultura da nossa cidade.  (Marcos Zeri, escritor, Presidente da Academia de Letras de Ribeirão Preto)

 Prezado Lauro,

     Assistimos (eu e a minha esposa, Matilde) ao seu recital no Auditório Meira Júnior , na noite do dia 12, ontem. Simplesmente maravilhoso! A carga emocional foi de uma intensidade tocante. (…) Nós e outras poucas pessoas o aplaudimos de pé. Todos deveriam fazê-lo em retribuição ao seu talento interpretativo. O seu movimento de mãos, a entonação, o envolvimento…. Tudo perfeito. Aceite as nossas congratulações!!!
Com o abraço fraterno do

Gilberto Andrade de Abreu  (Professor de Literatura, poeta, romancista, ex-Vereador e ex-Secretário de Cultura de Ribeirão Preto)

 Caro Lauro,

 Em nome do Conselho Diretor da SOLEBRARP / Biblioteca Padre Euclides agradeço o seu inestimável apoio e generosidade para com a nossa entidade. O recital foi maravilhoso e o retorno do público, tanto na saída como em manifestações por telefone hoje, não poderia ter sido melhor.

Muitíssimo obrigada. Grande abraço,

Fatu Antunes  (Diretora da centenária Biblioteca Pe. Euclydes, de Ribeirao Preto, SP)

(…)     Foi uma viagem pelo tempo, onde o narrador coloca o contexto histórico do momento em que se desenvolve a ação, e como num filme o espectador vai sendo conduzido pelos sons, da floresta, do mar…Uma belíssima interpretação de três períodos da história do Brasil na poesia de Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Castro Alves. Parabéns caro amigo, Embaixador Lauro Moreira, foi uma noite de sonhos e reflexões. (Professora Bertha Maria Ferreira)

 

E mais alguns comentários em redes sociais, como esses:

Áurea Laguna Lauro, realmente a sua performance foi maravilhosa. Abs.

Alvaro Lania Sem duvida alguma foi com muita emoção que em todos os três poemas vc mostrou sua alma. Parabéns. Lauro, foi perfeito, com muita emoção. Uma aula de poesia. Parabéns!

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PORTUGAL: abril/maio/junho/2017

 19/04/17 –     De volta a Portugal. Como podem ver os queridos leitores e leitoras deste nosso Quincas,  tenho tido uma vida bem mais ativa em Portugal que no Brasil…  Logo no dia seguinte ao de minha chegada a Lisboa fiz uma breve palestra no Colóquio internacional da COLUFRAS, uma ONG internacional de que participo há alguns anos, oficialmente criada em 2007, com sede em Montréal, Canadá, e que atua na área dos serviços públicos de saúde, envolvendo um conjunto de países de língua francesa e portuguesa. Colabora diretamente com a OMS, a OPAS e a CPLP. O importante tema do Colóquio deste ano em Lisboa  foi “Estratégias de comunicação para a prevenção dos acidentes de trânsito e redução de seu impacto sobre os serviços de saúde”. Como naturalmente minha área de atuação em nossas reuniões periódicas é a da Língua Portuguesa, coube-me palestrar sobre “Convergências e Desafios da Lusofonia”. (O programa do Seminário encontra-se no site abaixo).

quincasblog.files.wordpress.com/…/colufras-20171.pdfCOLUFRAS 2017

Maio/2017 –   Hoje é o primeiro dia de maio, mês em que devo atender a vários compromissos aqui em Portugal, começando pelo dia 8, quando participarei de um evento bastante diferente e já tradicional na programação do Teatro A Barraca. Trata-se dos chamados “Encontros Imaginários”, criados e escritos pelo ator, diretor e dramaturgo Hélder Costa, com diálogos dos mais surpreendentes,  promovendo a cada quinzena um encontro absolutamente improvável de personagens da história antiga e recente do mundo. Exemplo? Um bate-papo descontraído – e muitas vezes divertido – entre Mao Tsé-Tung, Jesus Cristo e  Goebbels. Ou entre o Padre António Vieira, Maquiavel e Nero. Ou ainda entre Gandhi, Hitler e Maria Antonieta…A verdade é que esse verdadeiro happening tem sido um grande sucesso junto à intelectualidade e ao público em geral de Lisboa, contribuindo para isso a escolha dos atores que representam os personagens, selecionados pelo autor entre figuras destacadas da sociedade portuguesa. Temos então em cena uma mescla de políticos, embaixadores, empresários, banqueiros, atrizes e atores, escritores, poetas, etc., muitos deles conhecidos do grande público local e que, com louvável espírito de humor, aceitam participar do jogo, que no fundo acaba ensinando e divertindo a uma sempre numerosa plateia.

No meu caso particular, acabei sendo convidado por Hélder Costa para participar do Encontro Imaginário do próximo dia 8 de maio, para encarnar ninguém menos que o nosso genial e brasileiríssimo Millôr Fernandes.  Estarei contracenando com o meu amigo e ex-Embaixador de Portugal no Brasil Francisco Seixas da Costa, que fará o papel de Hernán Cortez, o controvertido Conquistador do México e famigerado destruidor de Tenochtitlán, a Capital azteca, e a Professora Lúcia Amante, que se apresentará na pele de Gloria Swanson, a grande atriz do cinema mudo e a inesquecível intérprete da personagem Norma Desmond do filme Sunset Boulevard, de Billy Wilder.

Ainda neste mês de maio deverei participar, a partir do dia 5, da VI Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas.  Ao aceitar o amável convite para voltar a integrar sua Comissão de Honra e elaborar um texto para o Catálogo do evento, manifestei ao Presidente da Câmara Municipal o meu entusiasmo por ver a continuação de um projeto admirável, gestado e mantido por aquela comunidade ao longo de vários anos, e que vem produzindo importantes resultados, a ponto de fazer de Odivelas uma verdadeira Capital da Lusofonia em Portugal. Tanto por minha devotada militância na área lusófona, quanto pelo fato de haver participado desde o primeiro momento desse magnífico projeto da Bienal de Culturas Lusófonas, sem ter falhado a qualquer de suas Edições, sinto-me duplamente homenageado pela gentileza do convite. E ainda neste contexto, deverei atender ao honroso convite do Forum da Lusofonia, para pronunciar a Oração de Sapiência em sua abertura, no dia 19 de maio.

Finalmente, e encerrando mais esta temporada em terras lusíadas, viajarei para Vila Real, a convite da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Douro Generation – Associação de Desenvolvimento, e da Associação de Desenvolvimento da Rede de Aldeias Vinhateiras do Douro, para participar do Encontro Internacional de Patrimônios da Humanidade da UNESCO, a realizar-se entre 8 e 10 de junho   no Alto Douro Vinhateiro, nas cidades de Lamego e Vila Real, quando me caberá dissertar sobre o tema A Cultura e as Industrias Criativas no âmbito da Cooperação – Sociedade, Economia e Globalização.

           Mas antes disso, no dia 3 de junho, terei outro compromisso que me deixa igualmente  entusiasmado: uma apresentação no Algarve, no belo Teatro Municipal de Faro, de nosso recital Três Epopeias Brasileiras, com o valioso apoio do Consulado Geral do Brasil naquela cidade, e a participação de meu parceiro-poeta Mário Máximo.

RECITAL EM FARO

Retornando ao Patropi em meados de junho, sigo dias depois para Brasília, onde farei a apresentação do mesmo recital no meu simpático e velho conhecido palco da Embaixada de Portugal. Dois dias depois, 30 de junho, será o momento de estrear essas epopeias em minha terra natal, Goiânia/Goiás, onde (também) canta a jandaia nas frondes da carnaúba … (apenas para lembrar a doce Iracema de nosso grande José de Alencar). E para concluir a nova temporada no Brasil, no dia 1º de outubro estarei novamente em Goiânia, para mais um recital: Uma Geografia Poético-Musical do Brasil, com a participação da Orquestra Sinfônica dirigida pelo Maestro Eliseu Ferreira da Silva e com poemas e músicas das várias regiões do Brasil.

Fora isso, acho que só caberia mencionar, se bem me lembro, duas longas entrevistas que dei à televisão, uma à RTP- África, em Lisboa, e outra ao meu admirável amigo Professor Antônio Cassoni, em Ribeirão Preto, no Brasil, falando de tudo um pouco, ou seja, seguindo à risca o slogan deste nosso Quincasblog.

Obrigado a todos pela paciência, um abraço e até ao próximo post.

Lauro Moreira

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Uau

Triste

Comentários

Áurea Laguna Lauro, realmente a sua performance foi maravilhosa. Abs.

Curtir · Responder · 1 · 13 de abril às 12:31

Alvaro Lania Sem duvida alguma foi com muita emoção que em todos os três poemas vc mostrou sua alma. Parabéns

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Alvaro Lania Lauro foi perfeito com muita emoção. Uma aula em poesia,  parabéns

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EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                    

Morreu hoje o Presidente Mário Soares.

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Visita ao Mosteiro de Igarassu, Pernambuco

Portugal acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, um dos maiores políticos europeus de sua geração e de seu tempo, um líder incontrastável, e seguramente o principal responsável pela trilha democrática adotada pelo país após o Movimento de 25 de Abril de 1974.

O Brasil, irmanado nesse luto a toda a Comunidade Lusófona espalhada pelos quatro continentes, assiste com imensa tristeza à partida de um amigo fiel e leal, um de seus mais vigorosos defensores, e um dos paladinos da batalha de criação da CPLP, ao lado de seu fraterno companheiro José Aparecido de Oliveira.

Para mim, pessoalmente, que o conheci há mais de vinte anos e que tive o privilégio de contar modestamente entre seus inumeráveis amigos e admiradores, fica-me o desalento de não mais poder visitá-lo em sua Fundação a cada viagem minha a Lisboa. Mas fica-me também o orgulho de ver sua partida reverenciada por pessoas e povos que o conheceram e o respeitaram, em sua imensa luta cotidiana por um mundo melhor e mais justo. RIP 

(Comentário que postei no Face Book no dia 07/01/2017).

 

                                                                                                             

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

Lançamento de livro na Embaixada de Portugal em Brasília.

                   EM TORNO DE MÁRIO SOARES

                                                             Lauro Moreira

 

TRATANDO DE CLIMA E SATÉLITES

 

No início do segundo semestre de 1994, deixei a cidade de Barcelona , onde por quatro anos havia sido Cônsul Geral, e voltei ao Brasil, convidado pelo Ministro Celso Amorim para o cargo de porta-voz do Itamaraty. Poucos meses depois, com a posse do novo Governo, transferi-me para o Ministério de Ciência e Tecnologia, atendendo a convite do titular da Pasta, Professor José Israel Vargas, que eu então mal conhecia, mas que veio a ser depois um amigo muito querido, merecedor até hoje de minha maior admiração e respeito intelectual. Com ele pessoalmente, e com alguns de seus dedicados colaboradores, aprendi muito sobre uma área na qual me sentia inteiramente jejuno, uma vez que em toda minha carreira até então, eu jamais chegara a lidar com assuntos de natureza científica. E lá estava eu, de repente, tratando de “cooperação e cumprimento de acordos internacionais relativos aos assuntos de ciência e tecnologia, especialmente os programas espacial, nuclear e de bens sensíveis.”

Depois de um breve estágio inicial, por iniciativa própria, nos principais órgãos do Ministério, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a Agência Espacial Brasileira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Nacional de Tecnologia, o Observatório Nacional, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a Nuclebrás, etc., mergulhei nos assuntos afetos à Assessoria Internacional por mim chefiada. Foram quase três anos de descoberta de um mundo novo e fascinante, onde me cabia tratar de assuntos que iam das consequências do efeito estufa sobre a vida do planeta a negociações para o lançamento de satélite brasileiro pelo foguete chinês Longa Marcha… Aprendi muito, repito, sobretudo para quem sabia tão pouco, e guardo as melhores lembranças de um convívio inexcedível com amigos que retenho na memória e no afeto. Vargas, Oskar Klingl, Mônaco, Márcio Barbosa, Lindolfo de Carvalho, José Tundisi, Antônio Teixeira, Lélio Fellows… Pessoas amigas, estimadas, de quem os azares da vida acabam às vezes por nos afastar. Uma pena.

 

Min.IsraelVargas & Staff

Min.IsraelVargas & Staff

 

 

Mas hoje quero falar especialmente de Mário Soares, do Presidente e meu Amigo Mário Soares, de como o conheci, de quanto o admirei, de como fui sempre devedor de sua generosa atenção, e de como os azares do destino, nesse caso, felizmente não nos afastou, apenas nos uniu. E foi graças ao Ministro Israel Vargas que vim a conhecer pessoalmente o meu personagem de hoje, personagem que acaba de se retirar deste palco terreno há menos de uma semana.

NAVEGANDO PELOS OCEANOS

Em dezembro de 1995 foi lançada a Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos (CMIO), na sequência de uma proposta apresentada pela delegação de Portugal e aceita pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) com vistas à organização de uma grande conferência internacional sobre o mar. A iniciativa foi igualmente acolhida pela UNESCO e pela Assembleia Geral das Nações Unidas, cabendo ao então Presidente da República de Portugal, Mário Soares, presidir a referida comissão e apresentar um Relatório independente sobre os oceanos, em 1998, no âmbito de celebração do Ano Internacional dos Oceanos.

Logo no início de 1996, o Professor Vargas, em sua qualidade de destacado cientista, recebeu do Presidente Mário Soares o honroso convite individual para integrar a CMIO, ao lado de quatro dezenas de outras conhecidas personalidades internacionais ligadas à questão do mar, entre elas a Dra. Elisabeth Mann Borgese, filha mais nova do escritor Thomas Mann, e o ex-Primeiro Ministro da Holanda de 1982 a 1994, Ruud Lubbers. No caso do Brasil, o Ministro Vargas decidiu criar imediatamente a CNIO, ou seja, uma Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos, reunindo altos representantes de 17 instituições brasileiras especializadas no assunto, com vistas a preparar nossa contribuição para o Relatório final a ser apresentado à ONU pela CMIO, em 1998.

Na qualidade de Chefe da Assessoria Internacional, e convocado desde o início pelo meu Ministro, passei a trabalhar intensamente no âmbito de ambas as Comissões, ou seja, tanto nas reuniões nacionais quanto nas internacionais, ao lado de meu amigo e colega de Ministério, o Comandante da Marinha Antônio José Teixeira. A primeira delas realizou-se em Tókio, com a presença de todos os membros e o apreciado apoio  do Governo japonês. Foi então nessa oportunidade que tive o prazer de conhecer de perto o prestígio internacional, a simpatia e a grande experiência diplomática do Presidente Mário Soares, com quem, inclusive, realizei a viagem de volta até Lisboa.

 

Em reunião da CMIO

Em reunião da CMIO

A segunda reunião internacional teve lugar no Rio de Janeiro, cabendo-nos portanto a honra e o imenso esforço de organizá-la…Felizmente, parece que não decepcionamos, e tudo correu nos trilhos previstos. E foi aqui no Brasil, ao longo dos cinco ou seis dias do encontro, que tive a chance de conviver mais de perto com o Presidente Mário Soares, acompanhando-o inclusive a vários encontros não oficiais, como uma visita à tradicional ABI -Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908, onde o visitante homenageado proferiu um vibrante improviso para uma plateia entusiástica; ou uma cerimônia na sede da Biblioteca Nacional para o lançamento da edição brasileira de Portugal, livro de crônicas de seu amigo e grande poeta do Douro Miguel Torga, prefaciado pelo próprio Mário Soares; ou ainda uma passagem pela famosa Livraria Camões, no Centro do Rio, aberta em 1972 e frequentada por escritores, professores, pesquisadores, estudantes e entusiastas da cultura e da literatura portuguesa, e que lamentavelmente viu-se na contingência de fechar suas portas em 2012.

Acompanhei-o ainda em caminhadas pelas ruas centrais do Rio, quando, sem maiores surpresas, observei como ele era notado e imediatamente reconhecido por uma boa quantidade de transeúntes, o que me levou a propor-lhe que se candidatasse logo a um posto eletivo no Brasil, de preferência ao de Presidente da República! Rimos muito e ele ficou de pensar no assunto… Em meio a uma agenda de mil compromissos diários, ainda encontrou jeito para viajar a São Paulo – quase perdemos o avião – apenas para dar uma entrevista (outro grande sucesso) ao programa do Jô Soares.

Aliás, cabe lembrar aqui uma passagem do comovente artigo publicado ante-ontem em Lisboa por meu amigo António Valdemar, destacado jornalista português, amigo e ex-aluno de Mário Soares, sobre o gosto de nosso personagem por livros e escritores. Diz ele em seu texto Soares, tal e qual :

 Mario Soares toda a vida também frequentou livrarias e alfarrabistas. Mesmo quando era Primeiro- Ministro, Presidente da Republica, deputado do Parlamento Europeu. Incluiu entre os seus amigos poetas e escritores. Uns ainda da geração do pai, como Jaime Cortesão e Aquilino;  da geração seguinte Rodrigues Migueis e Miguel Torga; outros da sua geração como Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Sophia, Natália Correia, Mario Cesariny ou Luis Pacheco. Outros ainda das gerações mais recentes.

       Mas, voltando a navegar nas águas da Comissão sobre o Oceanos, cabe acrescentar que a  terceira reunião realizou-se na Holanda, em Rotterdam, e a seguinte em Genebra. Compareci a ambas, assessorando sempre nosso Ministro Vargas e aproximando-me mais e mais do Presidente Soares. Pouco depois, em meados de 1997 e antes que se realizasse a última reunião, desta vez no Marrocos, (onde, quem diria, quatro anos depois eu viria ser o  Embaixador brasileiro), voltei  ao Itamaraty para assumir o Departamento Cultural e, cumulativamente, a Presidência da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Mas qual não foi minha surpresa quando, meses depois, recebo uma carta pessoal do Presidente Mário Soares, em nome da CMIO, convidando-me a comparecer a Lisboa para participar da entrega oficial do Relatório da Comissão ao Secretário-Geral das Nações Unidas, em cerimônia realizada no âmbito da Expo-98. O documento, intitulado “O Oceano: Nosso Futuro”, apresentava importantes recomendações à comunidade internacional para a salvaguarda da riqueza dos oceanos, chamando a atenção para a sua relevância no progresso social e económico do planeta.

VOLTA AO ITAMARATY

Meu retorno ao Itamaraty marcou, com certeza, a fase mais entusiasmante e, em seguida, a mais frustrante de toda minha vida profissional, quando participei intensamente da construção de um sonho formidável, para assistir depois ao seu irreparável naufrágio. (Este comentário só se intrometeu aqui, meus caros leitores, por não me ter sido possível evitá-lo, tal o peso da frustração e da tristeza de uma história que um dia contarei em letra de forma, com o sugestivo título de “Meus Quinhentos Anos…) A verdade é que nessa época não só propusemos  estimular “um momento de reflexão sobre caminhos e perspectivas do Brasil”, como se podia ler em minha página de apresentação no primeiro número de nossa revista RUMOS: Os caminhos do Brasil em debate, como chegamos a criar um riquíssimo diálogo com Portugal, incentivado pela Comissão Bilateral para as Comemorações da Viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. No âmbito desta, criou-se uma Comissão de Honra, comandada, de parte a parte, pelo Presidente Mário Soares e Marco Maciel, então Vice-Presidente da República, e composta por personalidades ilustres de diferentes áreas de ambos os países, como Nélida Piñon, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil, José Carlos Vasconcelos, Alçada Baptista, entre outras. Realizamos encontros regulares de ambas as Comissões, tanto no Brasil quanto em Portugal, ao longo de quase três anos em que estivemos à frente dos trabalhos. Depois, só Deus sabe o tamanho dos acertos…

 

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Com o Vice-Presidente Marco Maciel no Recife

Após o naufrágio, e desejando sair do Brasil, aceitei convite  para chefiar a nossa Embaixada no Reino do Marrocos em 2000, onde me senti feliz e realizado com o trabalho que conseguimos levar adiante em quase quatro anos de permanência. Nessa época, tive a honra e a satisfação de ser condecorado pelo Governo de Portugal, pelas mãos de seu Embaixador em Rabat, com a Gran Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a mais alta comenda do Estado português. E fiquei alguns anos sem voltar a ver meu sempre lembrado amigo Mário Soares. Voltei à base em dezembro de 2003, por insistente convite do Ministro Celso Amorim, para assumir a chefia da Agência Brasileira de Cooperação, uma das áreas mais atuantes e desenvoltas do Itamaraty, e que muito me acrescentou em termos de experiência profissional. Em meu triênio de ABC, tive a oportunidade de lidar com uma imensa variedade de projetos de cooperação, destinados a quase todos os países latino-americanos e à totalidade de nossos países lusófonos, tanto no plano bilateral quanto no multilateral, uma vez que, neste último caso, representávamos o Brasil no órgão da CPLP responsável pela área da cooperação para o desenvolvimento. Com isso, aprofundei bastante minha vivência lusófona, inclusive visitando com frequência os cinco PALOP (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e S. Tomé e Príncipe), além do Timor Leste. Participei ainda da Cimeira de 2004, em S.Tomé, com a presença de todos os Chefes de Estado e/ou de Governo dos países membros da CPLP.

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No Recife, com Francisco Knopfl, Embaixador de Portugal e o Senador Roberto Cavalcanti.

MERGULHO NA LUSOFONIA

 

Mas confesso que a grande surpresa que me caiu do céu foi minha designação para abrir a Missão Permanente do Brasil junto à CPLP, em 2006. Ou seja, o Brasil passava a ser o primeiro País-Membro a contar com uma representação, em nível de Embaixada, para tratar exclusivamente dos assuntos da Lusofonia, já que até então esse trabalho era realizado por nossa Embaixada bilateral junto ao Governo de Portugal, a exemplo do que ocorria com a representação dos demais países da CPLP. Não é preciso dizer que, a partir daí, os outros sete  países seguiram gradualmente os passos do Brasil, elevando assim de modo significativo o nível de suas representações. Tomei posse em Lisboa em meados de 2006, após instalar a Chancelaria e a Residência oficial, e permaneci no cargo até 2010, quando fui dispensado pela aposentadoria… Falar aqui, ainda que muito resumidamente, das atividades que conseguimos levar a cabo nesses quatro anos, seria virtualmente impossível. Assim, limito-me a reiterar agora o que disse em discurso público na Academia de Ciências de Lisboa, ao receber das mãos do Presidente Mário Soares e do Professor Adriano Moreira, o Prêmio outorgado pelo Movimento Internacional Lusófono , de Personalidade Lusófona do Ano de 1999 – ou seja, que minha descoberta essencial, traduzida em meu sentimento mais profundo, levava-me à evidência de que toda a minha vida pregressa não havia sido senão um longo exercício para finalmente cumprir a missão maior e final que me estava destinada e que era justamente  essa de engajar-me na batalha pela Lusofonia.

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Na Academia de Ciências de Lisboa: outorga do Prêmio Personalidade Lusófona de 2009. Prof. Adriano Moreira e Pres. Mário Soares.

 

Vejam que a figura de Mário Soares volta a surgir neste relato. E a verdade é que em todo meu período de Embaixador junto à CPLP essa figura passou a ter presença constante em minhas atividades, apoiando-me sempre que solicitado, prestigiando eventos promovidos pela nossa Missão, abrindo as portas de sua prestigiosa Fundação para sediar nossas palestras, exposições, seminários, etc. E aproximando-se a data do encerramento de minha missão em Lisboa, ou seja, de minha aposentadoria, após 45 anos de serviços prestados à Carreira Diplomática, ocorreu um episódio que me deixou extremamente sensibilizado, embora um tanto constrangido. Foi um telefonema surpreendente que recebi do Presidente Mário Soares, em que me dizia haver sido informado de que eu deixaria Portugal. Eu confirmei, e ele continuou: Mas o meu amigo não pode sair agora, pois este ano haverá muita coisa importante a ser tratada no âmbito da CPLP e sua saída será muito inoportuna.

Obrigado, Presidente, mas não há o que fazer, pois o processo de minha remoção já está em curso.

  • – Vai para o Brasil ou para outro Posto no exterior?
  • – Vou para a reforma
  • – Então pode ficar mais um ano aqui! Vou telefonar ao Presidente Lula e tratar desse assunto.
  • – Mas Presidente, embora tecnicamente não haja de fato impedimento de eu me aposentar no Serviço Público e continuar como Embaixador aqui, trata-se de algo muito inusitado no Itamaraty.
  • -Não, não, vou telefonar a Brasília e depois lhe falo.

A verdade é que só essa manifestação incrível de amizade e consideração pelo meu trabalho já me era mais que suficiente para inflar-me o ego… Mas sabendo bem dos obstáculos e de certo modo até dos prováveis inconvenientes que acarretaria a execução de tal plano, como tentei argumentar-lhe, tive a sensação de que meu amigo acabaria por abandonar logo a ideia. Mas quem disse que o voluntarioso Mário Soares era homem de desistir? Horas depois, no fim daquele mesmo dia, atendo telefone meu celular:

– Embaixador, liguei para o Lula, mas ele está numa reunião em Manaus. Pedi para falar com o Chefe de Gabinete, mas ele tinha viajado com o Presidente. Liguei então para o meu amigo Tarso Genro, Ministro da Justiça, que também está fora, em Zurique. Quando eu conseguir falar, dou-lhe notícias.

Fiquei abismado com essa determinação, e por mais que lhe dissesse que sua generosa atenção já era para mim mais que suficiente e que o melhor seria não insistir no assunto, não teve jeito. Três ou quatro dias passados, estava eu chegando a Guimarães com o nosso Grupo Solo Brasil (que eu havia criado anos antes, para mostrar no exterior o melhor da música brasileira, e que realizava então uma turnê por Portugal), quando volto a receber mais uma chamada do Presidente Mário Soares para informar que havia finalmente conseguido falar com o Ministro Tarso Genro, explicar-lhe a situação e pedir-lhe providências junto ao Presidente da República! E daí a poucos dias recebo um chamado do Secretário Geral (que seria, logo depois, Ministro de Estado) da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a quem eu já conhecia pessoalmente, para, referindo-se ao telefonema do Presidente Mário Soares, consultar-me sobre o que exatamente poderia ser feito para atendê-lo, ou seja, manter-me em Lisboa por mais um ano, até o final do Governo Lula.

 

Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, com a presença da Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos S. Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Dra. Maria Barroso.

Descerramento de Placa da Homenagem que me foi prestada pela Câmara de Odivelas, presentes, entre outros, a Presidente Susana Amador, o Poeta e Vereador Mário Máximo, o Sec. Exec. da CPLP, Domingos Pereira, o jornalista A. Valdemar, o Emb. A. Russo Dias e a Sra. Mário Soares.

Foi então que lhe contei toda a história, todo o generoso empenho do meu amigo, e pedi-lhe que por favor não fizessem nada, não tomassem nenhuma iniciativa, nem junto ao Itamaraty nem, muito menos, junto ao Presidente da República, pois até o processo de remoção de meu substituto já estava em curso, e uma medida inusitada como essa provavelmente causaria um certo desconforto na Casa de Rio Branco… E foi assim que no dia 10 de fevereiro de 2010 entrei para o clube dos aposentados e voltei definitivamente para o Brasil. Não sem antes oferecermos, minha mulher eu, um jantar na Residência a Mário Soares e Maria Barroso, sua companheira admirável, mulher e atriz sensível e participante, minha aliada constante na luta pela Lusofonia, evento para o qual convidamos alguns dos amigos mais chegados do casal. Dias depois, foi a nossa vez de sermos homenageados por ambos, com um inesquecível jantar em sua casa, com a prestigiosa presença do Ministro de Negócios Estrangeiros, Luís Amado e do Professor Adriano Moreira, entre outros amigos e autoridades.

APOSENTADORIA EM TERMOS…

Acontece, porém, que ao voltar para o Brasil dei-me conta de que me apaixonara por Portugal, e essa paixão só fazia crescer com o tempo…Diante disso, não restou outra opção – a mim e a minha mulher, outra apaixonada pela terrinha – que a de voltar sempre que possível por lá. No princípio, íamos uma vez por ano, e alugávamos um pequeno apartamento por algumas semanas . Depois, acabamos por adquirir uma morada em Lisboa, aonde passamos a ir uma vez a cada semestre. Sentimo-nos realmente em casa, e temos aproveitado as visitas para estar com amigos e multiplicar minhas atividades, sobretudo na área cultural, participando de um sem número de eventos, não apenas em Lisboa como em várias regiões do país,  fazendo palestras sobre temas da Lusofonia, participando de programas da CPLP ou de iniciativas como a Bienal de Culturas Lusófonas de Odivelas, criada por meu amigo e escritor Mário Máximo, apresentando recitais com obras de poetas da Lusofonia etc. E em cada estada em Portugal, minha primeira visita era sempre ao Presidente Mário Soares.

PARTIDA

Jantar oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Jantar de despedida oferecido em nossa Residência ao casal Mário Soares e Amigos.

Até que um dia isso já não foi mais possível, em razão do agravamento de seu estado de saúde, o que nos deixou a todos mais que apreensivos. No último dia 7 de janeiro, aos 92 anos, alquebrado desde o grave acidente vascular que havia sofrido há cerca de dois anos e pela perda em 2015 da companheira de toda a vida, Maria Barroso, meu generoso Amigo Mário Alberto Lopes Soares fechou seus olhos no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa.

 

 

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

Jantar em nossa Residência. Senhora Maria Barroso ao lado do Emb. António Franco.

 

Eu havia acabado de chegar ao Brasil, de volta de mais uma estada de três meses em Portugal. Acompanhei pela televisão o féretro daquele homem que, nas palavras de um jornalista do Público, gostava de ser amado mas nunca se preocupou em ser consensual. Deixa um legado histórico à sua medida. Mário Soares cruzou a segunda metade do século XX e com ela todas as grandes derivas históricas: o fim do colonialismo, a construção europeia, a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a primeira guerra do Iraque. Em todas, Soares esteve do lado certo da história, tendo sido personagem importante em alguns desses momentos.

        Ou seja, partiu para sempre um dos vultos mais importantes da longa e rica História de Portugal. E levou muita, muita saudade nossa, de seus inumeráveis amigos e admiradores.

 

(Da Série “Meus Encontros”)

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TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

th     POESIA EM CONCERTO: TRÊS EPOPEIAS BRASILEIRAS

                                         

                                  APRESENTAÇÃO

                                                                     Lauro Moreira

          Há  tempos namorava a ideia de apresentar um recital reunindo três poemas épicos de largo fôlego da literatura brasileira. Seriam eles o Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

      Além de constituírem o que há de melhor em nossa poesia épica, os poemas evocam três dos mais importantes aspectos da formação histórica e cultural do Brasil, ou seja, a forte presença do índio nativo, a conquista e o alargamento do território pelos bandeirantes e, finalmente, a imensa e sofrida contribuição do negro africano

th-1escravizado. Da fusão étnica e cultural dessasth-2 três raças básicas nasce o Brasil.

      Seria seguramente um espetáculo inédito em seu formato e concepção. Ou melhor: seria, não, será, pois o projeto já está em seus finalmentes, e pretendo estreá-lo em Portugal nas próximas semanas. À guisa de apresentação dos temas, rascunhei os parárafos abaixo:

          O período inicial da  colonização portuguesa no Brasil foi de caráter eminentemente masculino. Não havia na nova colônia condições mínimas que permitissem a presença da família. Os homens estavam ali para enriquecer e voltar logo à terra. Desprovidos de preconceitos, os colonizadores tratavam de se mesclar às índias e, posteriormente, às africanas, que chegavam em número crescente. O aspecto portanto que mais sobressai na história da formação étnica e cultural do povo brasileiro é sem dúvida o de sua forte miscigenação, consequência desse cruzamento racial observado desde os primeiros tempos da colonização. O branco europeu, o indígena nativo e o negro africano misturaram-se de modo tão intenso, que nas veias do povo brasileiro corre hoje um sangue que claramente o distingue de outras nacionalidades e etnias. As teses tradicionais de antropólogos e sociólogos neste campo foram plenamente confirmadas por recentes pesquisas genéticas. Esta fusão racial reflete fielmente as características básicas de cada um de seus componentes originais, gerando uma cultura rica e mesclada, em que estão presentes distintos elementos da alma indígena, portuguesa e africana.

        Por outro lado, é certo que essa miscigenação não se deu de forma pacífica e harmoniosa, pois o elemento dominante, o colonizador, se impunha naturalmente pela força, submetendo os mais fracos e os reduzindo quanto possível à servidão, na luta insana para vencer os obstáculos quase intransponíveis da terra inóspita. Com o apoio da Igreja Católica, sobretudo dos jesuítas, os índios opuseram sempre grande resistência à servidão, e com isso logo a partir de meados do século 16 tem início a importação de escravos africanos, destinados aos penosos trabalhos na agricultura e nos engenhos de açúcar da região nordeste. Esse nefando tráfico negreiro levou ao Brasil, ao longo de mais de trezentos anos, nada menos de quatro milhões e meio de homens, mulheres e crianças procedentes sobretudo da costa ocidental africana, e cuja libertação só veio  a acontecer no ano de 1888, ao apagar das luzes do Segundo Império, véspera da proclamação da República. Foi a vitória final de uma longa e penosa campanha abolicionista, inaugurada ainda nos albores da Independência do país por seu Patriarca José Bonifácio de Andrada e Silva e continuada mais tarde por políticos e intelectuais ilustres, como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, e  o idolatrado poeta Antônio Frederico de Castro Alves, o Poeta dos Escravos. Seu famoso poema épico O Navio Negreiro narra com suprema indignação a viagem trágica de um desses barcos tristemente conhecidos como tumbeiros.

        

        Um forte movimento de penetração do imenso território tem início a partir da União Ibérica, em 1580, e  acabará por ditar uma completa reconfiguração das fronteiras coloniais. Eram as Bandeiras – expedições compostas por numerosos integrantes, que partiam em geral do pequeno vilarejo de Itapetininga – a atual cidade de São Paulo –  em busca do ouro, da pedra preciosa e do apresamento de índios. A mais famosa delas, a chamada Bandeira das Esmeraldas,  foi organizada e conduzida pelo paulista Fernão Dias Pais Leme, que a pedido da Corte portuguesa embrenhou-se com mais de quatrocentos homens pelo sertão ignoto de Minas Gerais, em busca das lendárias pedras verdes. A epopeia desse velho bandeirante foi resgatada no impressionante poema narrativo O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac.

         

Quando da chegada dos portugueses à terra que viria a se chamar Brasil, calcula-se que a população nativa era de cerca de quatro e meio milhões de índígenas. Atualmente, esta população está em torno de 900 mil pessoas de variadas tribos, falantes de quase 250 línguas e dialetos. Os gentios descritos por Caminha em sua carta ao Rei D. Manuel integravam o imenso e variado grupo dos Tupis, da família linguística tupi-guarani, que viviam espalhados pela  costa  atlântica,  e compunham com os Tapuias, do grupo linguístico Jê, ocupantes das matas do interior, os dois principais troncos étnico-linguísticos do território.

A língua falada pelos Tupis foi aprendida inicialmente por missionários como o Padre Anchieta, e em seguida pelos portugueses, estreitando assim o contato entre as duas culturas. Com isso, a língua portuguesa no Brasil está impregnada de palavras e expressões do idioma tupi, sobretudo para designar acidentes da topografia, da fauna e da flora, além de contribuir, ao lado de  línguas de origem africana, para tornar a fonética brasileira mais suave, mais aberta e mais vocálica. Lendas folclóricas, estórias infantis e mesmo canções indígenas e africanas povoam desde sempre o inconsciente coletivo do Brasil.

  Um dos temas centrais do movimento político, filosófico e literário do Romantismo, tanto na Europa quanto na América, foi a busca das origens da nacionalidade, como nos mostra Garret e Herculano em Portugal, ou  Walter Scott na Inglaterra. No caso do Brasil, onde o movimento romântico surge poucos anos depois da Independência, os autores foram buscar essa referência na figura do índio, o nativo original da terra idealizado como um cavaleiro medieval, criando novelas e poemas em torno de seus valores e códigos de honra. Daí a obra de ficionistas como José de Alencar (O Guarani, Iracema, Ubirajara), e de poetas como Gonçalves Dias, o poeta nacional por excelência, autor de Os Timbiras, e do famoso poema Y-Juca Pirama, (na língua tupi, Aquele que há de morrer). Um épico da Lusofonia, que narra o drama terrível de um bravo guerreiro tupi, último descendente de sua tribo em extinção, feito prisioneiro de guerra e condenado ao sacrifício fatal pela temível nação dos Timbiras.

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ANDANÇAS PELO CULTURAL

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Segundo Capítulo: Oh! que saudades que tenho de uma Cidade Maravilhosa que os anos não trazem mais…

Pois é, minha gente, retomemos nossa conversa iniciada no capítulo anterior dessas Andanças pelo Cultural, tratando agora dos meus bons tempos de estudante no Rio de Janeiro, Capital do Brasil e Cidade então Maravilhosa, para onde minha família se mudara em em princípios de 1955, época em que meu pai se elegera Deputado à Câmara Federal. Eu vinha de cinco anos de internato em São Paulo, nos Colégios S.Bento e Arquidiocesano, ou seja, às voltas com Beneditinos e Maristas, quando me matriculei no Santo Inácio, dos Jesuítas, aos quinze anos, para fazer o chamado Curso Clássico. Eu mal conhecia o Rio, onde havia estado antes apenas por alguns dias, mas confesso logo meu amor à primeira vista. Também, resistir quem há-de? Encantei-me não apenas com as celebradas belezas naturais, mas com a vida mansa que se podia levar naquele paraíso urbano de apenas dois milhões de habitantes, com praias tranquilas, tráfego rarefeito, com uma Avenida Atlântica de uma só pista (e era então suficiente!), de poucos túneis, de movimentado serviço de bondes competindo com os famosos lotações (micro-ônibus). Não havia ainda o imenso Parque de Burle Marx no Flamengo, mas apenas um aterramento que se iniciava para abrigar o grande evento da época, o 36º Congresso Eucarístico Internacional. A Barra da Tijuca era apenas um sitio ermo e distante para prolongados piquiniques. É claro que as favelas já habitavam os morros, mas delas vinham apenas alguma malandragem e grandes sambas que animavam os Carnavais e o desfile das Escolas na avenida. Tudo sem maiores violências, sem balas perdidas, sem o terror das milícias e sem as futuras inacreditáveis barbáries perpetradas pelo narcotráfico, sustentado por um conluio criminoso, habitual e hipócrita com consumidores endinheirados, e que hoje mantêm a cidade quase como refém.

Sei que para os mais jovens tudo isso parece incrível, restos talvez de um incurável saudosismo de tempos idos e vividos. Mas atentem, por exemplo, para o que se passava na área da cultura. Basta lembrar que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector. O movimento teatral, por sua vez, era efervescente, motivando a criação de novos grupos a cada dia, e inaugurando uma nova estética e um novo patamar de qualidade, introduzidos por renomados diretores estrangeiros, como Ziembinski, Adolfo Celli e Gianni Ratto. Foi assim que surgiram agrupamentos como a Companhia Tônia-Celli-Autran, o Teatro dos Sete (com Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Sérgio Brito e Ítalo Rossi), a Companhia de Sandro e Maria Della Costa, o TCB de Cacilda Becker, Ziembinski e Walmor Chagas, e vários outros grupos profissionais e amadores, revelando intérpretes, cenógrafos, músicos e diretores. Para não falar no gênero popularíssimo do chamado Teatro-Revista, também muito presente em Portugal na época, que lotava as salas da Praça Tiradentes e no qual sobressaía a indefectível figura de Walter Pinto, com suas sátiras políticas e suas vedetes do rebolado. Cada jornal, cada revista tinha o seu crítico teatral especializado, sempre de alto nível e grande conhecimento do métier, que praticamente a cada dia publicava sua análise crítica de espetáculos que lotavam as salas da cidade. (Aliás, vai aqui um parêntese para a sentida homenagem póstuma a uma dessas grandes figuras do ensaio e da crítica teatral, Sábato Magaldi, tão representativo dessa época, e que acaba de falecer em sua cidade de São Paulo, aos 82 anos).

Tudo acontecia no Rio daqueles anos dourados, inclusive a presença marcante de consagrados ficcionistas, poetas, músicos, compositores, cantores, pintores, gravadores, etc. Apenas a título ilustrativo: Pixinguinha, Ary Barroso, Tom Jobim, Portinari, Di Cavalcanti, Drummond, Bandeira, Clarice, Jorge Amado, Adonias Filho, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego…E justamente no ano de 1955, Guimarães Rosa, deixa estupefactos leitores e críticos com a publicação simultânea do monumento intitulado Grande Sertão:Veredas e das oito novelas que compõem os dois volumes do Corpo de Baile. Na música popular, a Bossa Nova estava nascendo em fevereiro de 1958, com a gravação de Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, na voz de Elizeth Cardoso e com a inovadora batida do violão de João Gilberto. Aliás, dois anos antes estreava no Teatro Municipal do Rio a peça Orfeu da Conceição, justamente com texto de Vinicius e música de Antônio Carlos Jobim, transformada em 1959 no filme Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Enfim, meus amigos, essa foi a cidade em que me coube viver durante treze dos mais movimentados anos de minha passagem por este tal de vale de lágrimas. Cidade que se preparava, com bastante relutância, é verdade, para abdicar da coroa que ostentava desde 1763, quando recebeu da Bahia o privilégio de substituí-la como Capital do Brasil-Colônia. Por outro lado, é verdade também que se vivia em todo o país um momento de euforia, de otimismo, de afirmação nacional, incutido e induzido pela Administração vibrante e realizadora do recém-eleito Presidente Juscelino Kubitschek. Era a época das grandes obras públicas espalhadas pelo território nacional, da abertura e pavimentação de extensas rodovias, das potentes hidrelétricas, da implantação de um moderno parque indústrial, da marcha para o Oeste (de um país que vivera 450 anos praticamente no litoral), da ocupação do território, da interiorização do progresso. Vivíamos a chamada Era JK, comandada por um Presidente Bossa-Nova que planejava realizar “50 Anos em 5”, e cujas metas ambiciosas tinham na construção de Brasília, a nova Capital do novo país, a sua síntese perfeita.

Não custa lembrar também que, ao lado de toda essa movimentação frenética de grandes obras públicas, o brasileiro elevava sua auto-estima e começava a se distinguir no plano internacional em vários outros campos até então insuspeitados. Como o esportivo, por exemplo, ao vencer por duas vezes seguidas o Campeonato Mundial de Basquete; a Copa do Mundo de Futebol na Suécia em 58 (finalmente!), com Pelé, e depois no Chile, em 62, com Garrincha; ao vibrar com as seguidas vitórias da campeoníssima Maria Esther Bueno em Wimbledon e de Éder Joffre nos ringues de box mundo a fora. E, last but not least, foi a época do surgimento do Cinema Novo, liderado pelo gênio de Glauber Rocha e o talento de vários de seus colegas, que lograram fazer do cinema brasileiro um constante ganhador de prêmios internacionais.

Ora, respirar essa atmosfera efervescente e inebriante logo ao sair da adolescência foi algo que, reconheço, me fez um bem enorme e marcou-me para sempre. Minha vida estudantil começou logo a mesclar-se com uma imensa variedade de atividades extra-curriculares. O Santo Inácio era reconhecidamente um colégio de primeiríssimo nível, considerado mesmo o melhor do Rio de Janeiro, que propiciava aos alunos os instrumentos necessários à formação de uma ampla base cultural. As aulas consumiam as manhãs de seis dias por semana e eram ministradas por professores de excelente nível. Mas confesso que o que mais me atraía eram sobretudo as atividades extra-curriculares, como a Academia de Letras (ALSI), os artigos que escrevia para a revista Vitória Colegial, a Associação Cultural da Juventude (ACJ) com seu jornalzinho Voz da Juventude e um programa radiofônico semanal, etc. Mas, muito especialmente, atraíu-me o teatro amador, em que passei a atuar com total dedicação ao longo de oito anos, três de colégio e cinco de universidade.  Tudo isso será evocado oportunamente nessas Andanças.

ACADEMIA DE LETRAS (ALSI)

Lembro-me bem da noite de uma quarta-feira, logo no início de meu primeiro ano letivo, quando os alunos dos chamados cursos Clássico e Científico reuniram-se para discutir a criação de uma Academia de Letras do Colégio. Depois de infindáveis debates, escolheram-se dois candidatos de cada uma das três séries dos cursos para a disputa dos cargos de Presidente e Vice-Presidente do novel sodalício, como diriam alguns mais entusiasmados. Não sei por que cargas d´água fui escolhido para compor a chapa do 1º ano Clássico e disputar a Vice-Presidência. A eleição far-se-ía (o assunto aqui, por sua gravidade, merece uma mesóclise, certo?) mediante uma disputa de teses a serem apresentadas pelos seis candidatos, versando sobre alguma obra do respectivo Patrono. E foi aí que aconteceu algo que me marcou de maneira indelével. Antes de escolher o escritor para Patrono de minha cadeira, eu só pensava em José de Alencar, autor preferido de minha adolescência em São Paulo, época em que lia bastante no colégio interno e assinava a famosa Coleção Saraiva, da livraria-editora que distribuía um romance por mês, e graças à qual travei também conhecimento com autores estrangeiros como Charles Dickens, o polonês Henryk Sienkiewicz (de quem li Quo Vadis e No Campo de Glória), o italiano Emilio Salgari e muitos outros, dos quais já nem me lembro. Confesso que naquela altura me encantavam as novelas indianistas de Alencar, a beleza poética de Iracema, “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longo que seu talhe de palmeira”, ou as aventuras dos bravos Peri e Ubirajara. Entretanto, e retomando o fio da meada, um colega de série mais adiantada antecipou-se na escolha de meu autor preferido, obrigando-me a eleger um outro escritor, um autor que eu só conhecia, como diria ele mesmo, de “vista e de chapéu”, ou seja, de antologias escolares e das interessantes dissertações de meu professor de Português no Arquidiocesano. Estamos falando de Machado de Assis, é claro. Comprei o D. Casmurro e decidi escrever minha tese sobre as agruras ciumentas de Bentinho e os olhos de ressaca de Capitu, oblíquos e dissimulados.

Pronto! O choque foi forte e definitivo. Apaixonei-me pelo Bruxo do Cosme Velho, como já disse e escrevi tantas vezes. Encantei-me por sua originalidade, seu estilo enxuto, avesso aos arroubos retóricos dos românticos (a essas alturas, pobre Alencar – mudaria ele ou mudei eu?), por suas entrelinhas, por seu humor fino, por seu constante debruçar-se sobre os mistérios da alma humana, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos e esmerada educação católica… A partir de então, e lá se vão décadas, Machado passou a ser minha companhia constante, querida, admirada, estudada, lida nos momentos de alegria e de aflição, fonte inesgotável de prazer estético e intelectual. Tudo nele me atrai – até mesmo sua quase insípida trajetória biográfica – e cada vez mais com o passar dos anos, como se fôra um ente da família, um velho tio-avô íntimo, culto, sereno, inteligente, irônico, divertido e muito querido. Na verdade, muito mais isso, com todo respeito, que o austero “Bruxo do Cosme Velho”. Mas sobre este assunto voltaremos a falar em outras oportunidades neste Quincasblog, tal como já fizemos em inúmeras outras ocasiões, como sabem os leitores.

Com o trabalho apresentado (em que defendi com unhas e dentes a inocência de Capitu…) fui eleito Vice-Presidente, e pouco depois, com a renúncia do titular, Presidente da Academia de Letras do Santo Inácio, função exercida por dois dos três anos em que lá permaneci. Foi um período extremamente rico para a formação cultural de todo aquele grupo, que incluía colegas que vieram a destacar-se bastante na vida cultural do Brasil, entre eles o cineasta Carlos (Cacá) Diegues e o escritor, jornalista e também cineasta Arnaldo Jabor. As reuniões semanais não podiam ser mais animadas, com instigantes trabalhos apresentados pelos “Senhores Acadêmicos” (esse era o tratamento vigente) e acaloradas discussões, que muitas vezes ultrapassavam o horário das reuniões e as paredes da Sala da ALSI para terminar nos bares e botequins da vizinhança, lá pelas duas da manhã. Nenhum daqueles colegas se esquecerá nunca de uma incrível polêmica, que certa vez ocupou nada menos de três reuniões seguidas, envolvendo um debate interminável sobre Eça de Queiróz versus Machado de Assis. E tudo porque eu havia inocentemente encomendado ao Senhor Acadêmico Arnaldo Jabor uma palestra sobre o seu ídolo português, e ele, valendo-se da ocasião, resolveu atacar injustamente o meu Mestre dos Mestres, com base na famosa crítica que este havia feito ao Primo Basílio, em 1878… E o mais interessante é que até hoje o agora super-conhecido cronista e jornalista Arnaldo Jabor continua proclamando sua irrestrita fidelidade ao “pobre homem de Póvoa do Varzim”, sustentando sempre sua antiga preferência e sua quase nenhuma afinidade com a obra do nosso Bruxo genial. Enfim, verdade seja dita: exatamente como eu, só que em sentido contrário… Mas, brincadeiras à parte, embora conservando o necessário tom acadêmico, que sorte maravilhosa a nossa, a de poder contar com essas duas figuras inexcedíveis no panteão da Língua Portuguesa.

Finalmente, convido os amigos leitores a observarem que todas essas peripécias acadêmicas eram vividas com grande entusiasmo, seriedade e circunspecção por um grupo de jovens estudantes entre seus quinze e dezessete anos… Realmente, mirabile visu! como diria o mestre Dutra, nosso professor de Latim. E eu acrescento: in illo tempore em que ainda se aprendia essa língua dita morta, mas imprescindível para o conhecimento do nosso idioma materno.

Para não cansar porém os nossos parcos mas generosos leitores, concluímos por aqui este segundo capítulo do imperdível seriado Andanças pelo Cultural, prometendo (ou ameaçando?) retornar em breve, com o capítulo referente às nossas notáveis aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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