ANDANÇAS PELO CULTURAL

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Segundo Capítulo: Oh! que saudades que tenho de uma Cidade Maravilhosa que os anos não trazem mais…

Pois é, minha gente, retomemos nossa conversa iniciada no capítulo anterior dessas Andanças pelo Cultural, tratando agora dos meus bons tempos de estudante no Rio de Janeiro, Capital do Brasil e Cidade então Maravilhosa, para onde minha família se mudara em em princípios de 1955, época em que meu pai se elegera Deputado à Câmara Federal. Eu vinha de cinco anos de internato em São Paulo, nos Colégios S.Bento e Arquidiocesano, ou seja, às voltas com Beneditinos e Maristas, quando me matriculei no Santo Inácio, dos Jesuítas, aos quinze anos, para fazer o chamado Curso Clássico. Eu mal conhecia o Rio, onde havia estado antes apenas por alguns dias, mas confesso logo meu amor à primeira vista. Também, resistir quem há-de? Encantei-me não apenas com as celebradas belezas naturais, mas com a vida mansa que se podia levar naquele paraíso urbano de apenas dois milhões de habitantes, com praias tranquilas, tráfego rarefeito, com uma Avenida Atlântica de uma só pista (e era então suficiente!), de poucos túneis, de movimentado serviço de bondes competindo com os famosos lotações (micro-ônibus). Não havia ainda o imenso Parque de Burle Marx no Flamengo, mas apenas um aterramento que se iniciava para abrigar o grande evento da época, o 36º Congresso Eucarístico Internacional. A Barra da Tijuca era apenas um sitio ermo e distante para prolongados piquiniques. É claro que as favelas já habitavam os morros, mas delas vinham apenas alguma malandragem e grandes sambas que animavam os Carnavais e o desfile das Escolas na avenida. Tudo sem maiores violências, sem balas perdidas, sem o terror das milícias e sem as futuras inacreditáveis barbáries perpetradas pelo narcotráfico, sustentado por um conluio criminoso, habitual e hipócrita com consumidores endinheirados, e que hoje mantêm a cidade quase como refém.

Sei que para os mais jovens tudo isso parece incrível, restos talvez de um incurável saudosismo de tempos idos e vividos. Mas atentem, por exemplo, para o que se passava na área da cultura. Basta lembrar que só de jornais diários os cariocas dispunham naquele tempo de mais de duas dezenas, entre matutinos e vespertinos, como o Correio da Manhã, Jornal do Comércio, Diário de Notícias, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, O Globo, Última Hora, O Jornal, O dia, Luta Democrática, Jornal dos Sports, etc., com uma imensa variedade de articulistas e colaboradores, do nível de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Paulo Mendes Campos, Carlos Lacerda, Bárbara Heliodora e Clarice Lispector. O movimento teatral, por sua vez, era efervescente, motivando a criação de novos grupos a cada dia, e inaugurando uma nova estética e um novo patamar de qualidade, introduzidos por renomados diretores estrangeiros, como Ziembinski, Adolfo Celli e Gianni Ratto. Foi assim que surgiram agrupamentos como a Companhia Tônia-Celli-Autran, o Teatro dos Sete (com Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Sérgio Brito e Ítalo Rossi), a Companhia de Sandro e Maria Della Costa, o TCB de Cacilda Becker, Ziembinski e Walmor Chagas, e vários outros grupos profissionais e amadores, revelando intérpretes, cenógrafos, músicos e diretores. Para não falar no gênero popularíssimo do chamado Teatro-Revista, também muito presente em Portugal na época, que lotava as salas da Praça Tiradentes e no qual sobressaía a indefectível figura de Walter Pinto, com suas sátiras políticas e suas vedetes do rebolado. Cada jornal, cada revista tinha o seu crítico teatral especializado, sempre de alto nível e grande conhecimento do métier, que praticamente a cada dia publicava sua análise crítica de espetáculos que lotavam as salas da cidade. (Aliás, vai aqui um parêntese para a sentida homenagem póstuma a uma dessas grandes figuras do ensaio e da crítica teatral, Sábato Magaldi, tão representativo dessa época, e que acaba de falecer em sua cidade de São Paulo, aos 82 anos).

Tudo acontecia no Rio daqueles anos dourados, inclusive a presença marcante de consagrados ficcionistas, poetas, músicos, compositores, cantores, pintores, gravadores, etc. Apenas a título ilustrativo: Pixinguinha, Ary Barroso, Tom Jobim, Portinari, Di Cavalcanti, Drummond, Bandeira, Clarice, Jorge Amado, Adonias Filho, Rachel de Queiróz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego…E justamente no ano de 1955, Guimarães Rosa, deixa estupefactos leitores e críticos com a publicação simultânea do monumento intitulado Grande Sertão:Veredas e das oito novelas que compõem os dois volumes do Corpo de Baile. Na música popular, a Bossa Nova estava nascendo em fevereiro de 1958, com a gravação de Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, na voz de Elizeth Cardoso e com a inovadora batida do violão de João Gilberto. Aliás, dois anos antes estreava no Teatro Municipal do Rio a peça Orfeu da Conceição, justamente com texto de Vinicius e música de Antônio Carlos Jobim, transformada em 1959 no filme Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Enfim, meus amigos, essa foi a cidade em que me coube viver durante treze dos mais movimentados anos de minha passagem por este tal de vale de lágrimas. Cidade que se preparava, com bastante relutância, é verdade, para abdicar da coroa que ostentava desde 1763, quando recebeu da Bahia o privilégio de substituí-la como Capital do Brasil-Colônia. Por outro lado, é verdade também que se vivia em todo o país um momento de euforia, de otimismo, de afirmação nacional, incutido e induzido pela Administração vibrante e realizadora do recém-eleito Presidente Juscelino Kubitschek. Era a época das grandes obras públicas espalhadas pelo território nacional, da abertura e pavimentação de extensas rodovias, das potentes hidrelétricas, da implantação de um moderno parque indústrial, da marcha para o Oeste (de um país que vivera 450 anos praticamente no litoral), da ocupação do território, da interiorização do progresso. Vivíamos a chamada Era JK, comandada por um Presidente Bossa-Nova que planejava realizar “50 Anos em 5”, e cujas metas ambiciosas tinham na construção de Brasília, a nova Capital do novo país, a sua síntese perfeita.

Não custa lembrar também que, ao lado de toda essa movimentação frenética de grandes obras públicas, o brasileiro elevava sua auto-estima e começava a se distinguir no plano internacional em vários outros campos até então insuspeitados. Como o esportivo, por exemplo, ao vencer por duas vezes seguidas o Campeonato Mundial de Basquete; a Copa do Mundo de Futebol na Suécia em 58 (finalmente!), com Pelé, e depois no Chile, em 62, com Garrincha; ao vibrar com as seguidas vitórias da campeoníssima Maria Esther Bueno em Wimbledon e de Éder Joffre nos ringues de box mundo a fora. E, last but not least, foi a época do surgimento do Cinema Novo, liderado pelo gênio de Glauber Rocha e o talento de vários de seus colegas, que lograram fazer do cinema brasileiro um constante ganhador de prêmios internacionais.

Ora, respirar essa atmosfera efervescente e inebriante logo ao sair da adolescência foi algo que, reconheço, me fez um bem enorme e marcou-me para sempre. Minha vida estudantil começou logo a mesclar-se com uma imensa variedade de atividades extra-curriculares. O Santo Inácio era reconhecidamente um colégio de primeiríssimo nível, considerado mesmo o melhor do Rio de Janeiro, que propiciava aos alunos os instrumentos necessários à formação de uma ampla base cultural. As aulas consumiam as manhãs de seis dias por semana e eram ministradas por professores de excelente nível. Mas confesso que o que mais me atraía eram sobretudo as atividades extra-curriculares, como a Academia de Letras (ALSI), os artigos que escrevia para a revista Vitória Colegial, a Associação Cultural da Juventude (ACJ) com seu jornalzinho Voz da Juventude e um programa radiofônico semanal, etc. Mas, muito especialmente, atraíu-me o teatro amador, em que passei a atuar com total dedicação ao longo de oito anos, três de colégio e cinco de universidade.  Tudo isso será evocado oportunamente nessas Andanças.

ACADEMIA DE LETRAS (ALSI)

Lembro-me bem da noite de uma quarta-feira, logo no início de meu primeiro ano letivo, quando os alunos dos chamados cursos Clássico e Científico reuniram-se para discutir a criação de uma Academia de Letras do Colégio. Depois de infindáveis debates, escolheram-se dois candidatos de cada uma das três séries dos cursos para a disputa dos cargos de Presidente e Vice-Presidente do novel sodalício, como diriam alguns mais entusiasmados. Não sei por que cargas d´água fui escolhido para compor a chapa do 1º ano Clássico e disputar a Vice-Presidência. A eleição far-se-ía (o assunto aqui, por sua gravidade, merece uma mesóclise, certo?) mediante uma disputa de teses a serem apresentadas pelos seis candidatos, versando sobre alguma obra do respectivo Patrono. E foi aí que aconteceu algo que me marcou de maneira indelével. Antes de escolher o escritor para Patrono de minha cadeira, eu só pensava em José de Alencar, autor preferido de minha adolescência em São Paulo, época em que lia bastante no colégio interno e assinava a famosa Coleção Saraiva, da livraria-editora que distribuía um romance por mês, e graças à qual travei também conhecimento com autores estrangeiros como Charles Dickens, o polonês Henryk Sienkiewicz (de quem li Quo Vadis e No Campo de Glória), o italiano Emilio Salgari e muitos outros, dos quais já nem me lembro. Confesso que naquela altura me encantavam as novelas indianistas de Alencar, a beleza poética de Iracema, “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longo que seu talhe de palmeira”, ou as aventuras dos bravos Peri e Ubirajara. Entretanto, e retomando o fio da meada, um colega de série mais adiantada antecipou-se na escolha de meu autor preferido, obrigando-me a eleger um outro escritor, um autor que eu só conhecia, como diria ele mesmo, de “vista e de chapéu”, ou seja, de antologias escolares e das interessantes dissertações de meu professor de Português no Arquidiocesano. Estamos falando de Machado de Assis, é claro. Comprei o D. Casmurro e decidi escrever minha tese sobre as agruras ciumentas de Bentinho e os olhos de ressaca de Capitu, oblíquos e dissimulados.

Pronto! O choque foi forte e definitivo. Apaixonei-me pelo Bruxo do Cosme Velho, como já disse e escrevi tantas vezes. Encantei-me por sua originalidade, seu estilo enxuto, avesso aos arroubos retóricos dos românticos (a essas alturas, pobre Alencar – mudaria ele ou mudei eu?), por suas entrelinhas, por seu humor fino, por seu constante debruçar-se sobre os mistérios da alma humana, e até por seu desencanto filosófico, tão desconcertante para um jovem de quinze anos e esmerada educação católica… A partir de então, e lá se vão décadas, Machado passou a ser minha companhia constante, querida, admirada, estudada, lida nos momentos de alegria e de aflição, fonte inesgotável de prazer estético e intelectual. Tudo nele me atrai – até mesmo sua quase insípida trajetória biográfica – e cada vez mais com o passar dos anos, como se fôra um ente da família, um velho tio-avô íntimo, culto, sereno, inteligente, irônico, divertido e muito querido. Na verdade, muito mais isso, com todo respeito, que o austero “Bruxo do Cosme Velho”. Mas sobre este assunto voltaremos a falar em outras oportunidades neste Quincasblog, tal como já fizemos em inúmeras outras ocasiões, como sabem os leitores.

Com o trabalho apresentado (em que defendi com unhas e dentes a inocência de Capitu…) fui eleito Vice-Presidente, e pouco depois, com a renúncia do titular, Presidente da Academia de Letras do Santo Inácio, função exercida por dois dos três anos em que lá permaneci. Foi um período extremamente rico para a formação cultural de todo aquele grupo, que incluía colegas que vieram a destacar-se bastante na vida cultural do Brasil, entre eles o cineasta Carlos (Cacá) Diegues e o escritor, jornalista e também cineasta Arnaldo Jabor. As reuniões semanais não podiam ser mais animadas, com instigantes trabalhos apresentados pelos “Senhores Acadêmicos” (esse era o tratamento vigente) e acaloradas discussões, que muitas vezes ultrapassavam o horário das reuniões e as paredes da Sala da ALSI para terminar nos bares e botequins da vizinhança, lá pelas duas da manhã. Nenhum daqueles colegas se esquecerá nunca de uma incrível polêmica, que certa vez ocupou nada menos de três reuniões seguidas, envolvendo um debate interminável sobre Eça de Queiróz versus Machado de Assis. E tudo porque eu havia inocentemente encomendado ao Senhor Acadêmico Arnaldo Jabor uma palestra sobre o seu ídolo português, e ele, valendo-se da ocasião, resolveu atacar injustamente o meu Mestre dos Mestres, com base na famosa crítica que este havia feito ao Primo Basílio, em 1878… E o mais interessante é que até hoje o agora super-conhecido cronista e jornalista Arnaldo Jabor continua proclamando sua irrestrita fidelidade ao “pobre homem de Póvoa do Varzim”, sustentando sempre sua antiga preferência e sua quase nenhuma afinidade com a obra do nosso Bruxo genial. Enfim, verdade seja dita: exatamente como eu, só que em sentido contrário… Mas, brincadeiras à parte, embora conservando o necessário tom acadêmico, que sorte maravilhosa a nossa, a de poder contar com essas duas figuras inexcedíveis no panteão da Língua Portuguesa.

Finalmente, convido os amigos leitores a observarem que todas essas peripécias acadêmicas eram vividas com grande entusiasmo, seriedade e circunspecção por um grupo de jovens estudantes entre seus quinze e dezessete anos… Realmente, mirabile visu! como diria o mestre Dutra, nosso professor de Latim. E eu acrescento: in illo tempore em que ainda se aprendia essa língua dita morta, mas imprescindível para o conhecimento do nosso idioma materno.

Para não cansar porém os nossos parcos mas generosos leitores, concluímos por aqui este segundo capítulo do imperdível seriado Andanças pelo Cultural, prometendo (ou ameaçando?) retornar em breve, com o capítulo referente às nossas notáveis aventuras nos palcos teatrais da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

**********************

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Andanças pelo Cultural

Captura de Tela 2016-07-01 às 20.20.13

Drummond e Alceu de Amoroso Lima

ANDANÇAS PELO CULTURAL

Lauro Moreira

Diante de uma inexplicável ausência de quase seis meses (!), confesso que nem sei mais como (re)começar essas mal digitadas linhas aqui em nosso Quincasblog.

Talvez o pior no entanto seja a falta que aparentemente não fiz aos generosos leitores que me acompanham desde o começo de nossa caminhada em 2012, pois ninguém pareceu notar esse misterioso sumiço. Ninguém perguntou: por que parou? Parou por quê?…(brincadeirinha). Na verdade, de admirar seria se essa ausência tivesse sido acusada por algum observador mais atento, em vista da enxurrada incessante e caudalosa de assuntos tratados hoje nas redes sociais, que afoga todo mundo o tempo todo. Enfim, cá estamos nós outra vez, com o propósito de retomar a regularidade que mantivemos durante mais de três anos de conversa amistosa com nossos amigos e amigas deste Quincasblog, falando sempre de tudo um pouco. Menos de coisas muito atuais, como se sabe, e mais daquelas que já passaram por nossa vida e deixaram marcas no coração e na memória. Esta é a minha matéria. Nesse caso, reconheço não estar em total sintonia com Drummond, quando proclama categórico em um de seus poemas mais fortes:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente””
(Mãos Dadas

Assim sendo, não há como não reconhecer que este nosso Quincasblog se ajusta mais à frase do Professor Alceu de Amoroso Lima, quando dizia que “o passado não é aquilo que passa. É o que fica do que passou”.

Para evitarmos novas descontinuidades neste (para mim) agradável bate-papo, resolvi adotar, digamos, um formato muito em voga no cinema atual, ou seja, tratar um assunto por capítulos seguidos, formando uma série – o que na verdade em tempos idos e vividos já existia, como sabemos, com o nome de seriado, diversão máxima das crianças nas matinées de domingo. Meus coleguinhas de geração devem se lembrar muito bem do misterioso Fu-Manchu e do lendário Flash Gordon, do Maravilhoso Mascarado e de Nyoka, a Rainha da Selva, como qualquer cidadão de hoje está mais que ciente dos Outlander ou dos House of Cards da vida.

Depois deste pinoquiano nariz de cera, entremos propriamente em matéria. O seriado que agora lhes proponho tem por título Andanças pelo Cultural, e pretende contar-lhes em capítulos, infelizmente talvez menos eletrizantes que os do Flash Gordon, um pouco de minhas atividades e vivência na área da cultura, tanto no plano pessoal quanto sobretudo na área profissional, ou seja, tanto na fase anterior ao meu ingresso no Itamaraty, quanto nos longos anos de Carreira Diplomática em que busquei sempre promover e divulgar nos vários países em que servi, e da melhor maneira possível, o que há de mais significativo na cultura brasileira.

Curiosamente – e disso me dei conta muitos anos antes de dependurar as chuteiras profissionais (ou digamos melhor, de descalçar as luvas de pelica da diplomacia…) – embora eu tenha trabalhado a maior parte de meus 45 anos de Itamaraty na chamada área econômica, acabei sendo sobretudo conhecido e identificado entre meus pares como um profissional da cultura. E confesso que desse carimbo sempre me orgulhei. Aliás, os leitores não desconhecem passagens dessa minha vida, digamos, dupla, distribuídas aleatoriamente nas diversas publicações deste Quincasblog. Sabem que logo ao ingressar no Itamaraty trabalhei por mais de três anos no chamado Grupo de Coordenação do Comércio com os Países do Leste Europeu, e que depois de quatro anos servindo no Consulado-Geral em Buenos Aires, fui transferido para a Delegação Permanente do Brasil junto aos Organismos Internacionais em Genebra, onde voltei a me ocupar de assuntos econômicos, lidando todo o tempo com matérias de tarifas e comércio (GATT). Ao retornar ao país, após sete anos de exterior, fui indicado pelo Ministro de Estado Azeredo da Silveira, nosso sempre lembrado Silveirinha, para assumir o cargo de Chefe da Assessoria do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, a convite do Ministro da Indústria e Comércio, o saudoso Severo Gomes, cargo em que permaneci por cinco anos.

th-1

Embaixador Azeredo da Silveira

th-2

Ministro Severo Gomes

Com o início da nova Administração do país, em 1979, deixei novamente o Itamaraty, convidado pelo Ministro da Fazenda para chefiar a área de Comércio Exterior e, pouco depois, a própria Assessoria Internacional do Ministério. (As peripécias dessa fase estão narradas neste Quincasblog , com o título de Da Arte de se fazer um Coordenador.) Dois anos mais tarde, decidi dar um passo bastante ousado, digamos, em termos itamaratianos: pedi uma licença temporária do Governo para tratar de interesses particulares, mudei-me de Brasília para São Paulo e assumi o cargo de Superintendente de uma importante trading-company brasileira (COMEXPORT), especializada sobretudo em comércio com os então oito países do Leste Europeu, ou seja, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, República Democrática Alemã, Iugoslávia, Bulgária e Albânia. Valeu-me bastante a longa experiência acumulada na área específica e peculiar das relações comerciais com aquela parte da Europa, então ainda chamada por alguns de Cortina de Ferro, “Iron Curtain”, na definição original de Churchill logo no pós-guerra, mais precisamente em um famoso discurso feito no Missouri em março de 1946. Aliás, o meu envolvimento profissional com essa área foi tanto e tão longo, quer no Governo, quer no setor privado, que enquanto me encontrava na COMEXPORT, aproveitei para escrever minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty sobre exatamente “Relações Econômico-Comerciais Brasil-Leste Europeu no período 1961-1981”. Na verdade, uma tese, como se vê, quase autobiográfica…

Depois de pouco mais de um ano na COMEXPORT, decidi dar outro passo ousado, criando com meu primo e advogado Reginaldo Oscar de Castro – que veio mais tarde a ocupar a Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil – a empresa de consultoria na área de comércio exterior Lauro Moreira & Castro, com sede em São Paulo e um escritório em Brasilia.

Ao cabo de dois anos e meio em São Paulo, e tendo que decidir definitivamente se voltaria ou não à Carreira, minhas dúvidas foram dissipadas por um amável e surpreendente convite do Embaixador Sérgio Corrêa da Costa, que depois de vários anos como Embaixador junto às Nações Unidas, acabava de ser designado para a Embaixada em Washington e propunha-me integrar sua equipe no novo Posto, como responsável pela área de Política Comercial. Pois foi então que se deu, com perdão pela comparação, minha conversão definitiva, meu Caminho de Damasco, minha passagem de Saulo a Paulo… Após um ano de exercício na área comercial, numa labuta diária, cansativa e um tanto inglória, levando bordoadas de countervaling duties e anti-dumpings aplicados sobre a exportação de vários produtos brasileiros, como aços e calçados, e tudo restringido à monotonia de um só país (para quem estava habituado a lidar até então com inúmeros países ao mesmo tempo) – decidi pleitear junto ao Embaixador Corrêa da Costa a minha mudança de área e de ares, fazendo-lhe ver que meu trabalho poderia render muito mais se me transferisse para o lugar de um colega que estava justamente deixando o Setor Cultural… Dito e feito! A partir desse momento, minha vida foi um labutar ainda maior, só que num terreno onde sempre me senti à vontade e, como diz o provérbio português, feliz como pinto no lixo. Mas esses momentos profissionais inesquecíveis que vivi em Washington, marcados por projetos de grande alcance e de inegável complexidade, serão devidamente tratados no capítulo que lhe couber neste seriado que agora se inicia.

AGUARDEM O PRÓXIMO CAPÍTULO, INTITULADO : Oh! que saudades que tenho
de uma Cidade Maravilhosa, que os anos não trazem mais…

***************************

5 Comentários

2 de julho de 2016 · 20:17

Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um comboio do metrô de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.100 vezes em 2015. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

   A INILUDÍVEL INDESEJADA DAS GENTES

                                                    Lauro Moreira

Consoada                    

As Parcas

As Parcas

Quando a Indesejada das gentes chegar
(N
ão sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Al
ô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortil
égios.)
Encontrar
á lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar. 

                                                                                                                                        (Manuel Bandeira)

 

Ontem acordei pensando na morte. E até me surpreendi, pois embora esteja hoje, pela chamada ordem natural das coisas, bem mais próximo dela do que já estive, confesso que não tenho hábito de dar-lhe, digamos, uma atenção muito demorada. Mas, na verdade, acordei pensando não na minha morte, mas na morte de tanta gente amiga e querida, pessoas que se vão  desvanencendo de nossa vida, como vultos subitamente apagados de uma foto de família. Uma cruel desvantagem de se ficar velho é que nem todos os companheiros continuam ao nosso lado nessa inexorável caminhada rumo ao desconhecido, ao hamletiano “undiscovered country, from whose bourne no traveller returns.” Vários se apressam em retirar-se logo de cena, alguns inexplicavelmente cedo, deixando-nos mais sós – e incrédulos. Como Manuel Bandeira – que desde muito jovem passou a conviver intimamente com a Indesejada das gentes – ao saber do desaparecimento do amigo Mário de Andrade:

                                                  Anunciaram que você morreu.                    

M. Bandeira por Portinari

M. Bandeira por Portinari

Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

(…)

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

                                                  Você não morreu: ausentou-se.

                                                  (…)

(A Mário de Andrade Ausente)

 

         Não tenho a rabugice nem o pessimismo irônico de Bentinho (D.Casmurro), para afirmar que  “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos.”  – mas não há dúvida de que boa parte dos meus tem tido o mau gosto de antecipar de muito a partida e, pior, num ritmo cada vez mais acelerado. Amigos de infância, de adolescência, de colégio, de universidade, do teatro amador, da carreira diplomática, muitos dos quais afastados pelas distância física e pelos azares da vida, mas que muito enriqueceram minha afanosa e já longa passagem por aqui. Não exagero quando repito que nos últimos dois ou três anos esta safra aziaga não me tem poupado. Parentes próximos, amigos como Saroldi, Pedro Camargo,  Celina, Bambino, Euclydes Mattos e tantos outros têm partido recentemente sem se despedir…

Meu amigo Pedro Camargo

Meu amigo Pedro Camargo

Mas para além do desaparecimento individual das pessoas conhecidas e queridas, sempre uma tragédia, o que também vemos hoje é a morte coletiva e anônima, que não chega a configurar senão uma fria estatística. É ligar a televisão e ser invadido pelas sequências intermináveis de destruição de vidas humanas, ceifadas em desastres ecológicos, terremotos, tsunamis, vulcões. E como se não bastasse, o homem – animal feroz e primitivo (Les hommes sont des brutes, Madame, como dizia Ghandi a Cecília Meirelles) – o homem se encarrega de completar o trabalho da natureza em fúria, engendrando guerras, acirrando conflitos, insuflando a violência urbana em todas as suas formas (da loucura do tráfego de veículos à insanidade do tráfico de drogas), multiplicando atos terroristas, promovendo enfim essa verdadeira hecatombe a que hoje assistimos da poltrona da sala, impotentes, e, o que é mais grave, já quase insensibilizados. Como dizia meu amigo Arnaldo Jabor em recente crônica sobre o cinema atual, as mortes incessantes são mostradas até em videogames para normalizar, exorcizar a própria ideia de morte. Por outras palavras, vivemos a era da banalização completa da morte provocada, ou da banalização do Mal, como percebeu Hannah Harendt diante do Holocausto e do julgamento de Adolfo Heichmmann.

Mas voltemos à nossa simples morte individual, natural – controlada pelas Parcas romanas ou as Moiras da mitologia grega – que ocorre no momento em que se rompe o frágil fio da vida, seccionado pela tesoura de Átropo, depois de tecido por Cloto e estendido por Láquesis. Sobre esse tema fatal é que gostaria de falar um pouco mais. Para dizer que nos tempo de jovem universitário e um pouco mergulhado em estudos de filosofia, a questão filosófica da morte me atraía bastante, mas sempre como algo fora de mim,  uma pura abstração, quase um exercício de retórica. Debatíamos sobre aquela que, por sua importância metafísica, é a musa inspiradora dos poetas, a que alimenta as mentes imersas em reflexões e ávidas de uma explicação, como queria Schopenhauer.

Por essa época (segunda metade dos anos 1950) vim a ler uma obra que me calou fundo: Lições de Abismo, romance do escritor e pensador católico Gustavo Corção, publicada poucos anos antes, em 1951. Livro admirável, muito celebrado então e bastante esquecido hoje – como tudo aliás neste nosso país desmemoriado.

O romance de Gustavo Corção

O romance de Gustavo Corção

A resenha da editora traduz com fidelidade a temática do romance, que “é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida, e logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade e o ciúme”. E foi sob o impacto dessa leitura que vim a conhecer depois a novela de Tolstoi A morte de Ivan Ilitch, muito citada pelo personagem de Corção e hoje bastante publicada e conhecida no Brasil e em todas as línguas cultas do mundo.

Nessa extraordinária novela de Tolstoi (consagrada por W.Nabokov, o autor de Lolita, como um dos momentos supremos da criação literária), fica evidenciada a patética discrepância entre o natural e racional entendimento da morte do outro e a terminante recusa de a pessoa racionalmente  entender e aceitar a naturalidade da própria morte. Não resisto à tentação de reproduzir uma breve mas decisiva passagem da novela, quando Ivan Ilitch, um dedicado cidadão e correto Juiz de Direito, se vê, como o Professor e intelectual de Lições de Abismo, condenado por uma moléstia incurável:

L. Tolstoi

L. Tolstoi

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a ideia, como não a compreendia mesmo – uma incapacidade absoluta de compreendê-la. O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter  – Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal– sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais.

        Será que o tranquilo Epicuro – autor de aforismos como “O homem sereno procura serenidade para si e para os outros” e, sobretudo, “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais” – terá guardado toda essa serenidade e absoluta aceitação em seu instante final? E já que estamos navegando por antigos mares, caberia lembrar o sempre citado verso da Ode horaciana, que me parece menos filosófico e bem mais pragmático: Carpe diem, quam minimum credula postero, ou seja, aproveite o hoje e confie o mínimo possível no amanhã. Como falamos em mar e em poeta, lembremos ainda a frase de Fernando Pessoa, escrita em inglês, no dia 29 de novembro de 1935, exatamente na véspera de sua morte: I know not what tomorrow will bring.

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Parece evidente que nossa reação diante do “termo fatal”(cf. Gonçalves Dias) vai variar, e muito, segundo o grau da crença ou descrença que sustenta o espirito de cada um. Nesse sentido, a fé inabalável de um cristão, por exemplo, dá-lhe o conforto de que seu comboio está partindo desta estação para uma outra, definitiva e infinitamente mais aprazível, digamos. Já as dúvidas essenciais de um agnóstico, ou até mesmo de um filósofo estóico e racional como Sêneca ou Marco Aurélio, só tenderão a acrescer-lhes a aflição e a inquietude no momento da travessia final. E dos ateus materialistas  abstenho-me de falar, pois me parecem pertencer a uma casta soberba de ousadia sem limites… Enfim, de presunção e água benta cada um toma o que quer.

No plano subjetivo – e já me desculpando junto aos queridos leitoras e leitores deste Quincasblog por decidir navegar nestas águas de natureza bastante pessoal – confesso que no tocante ao tema em pauta minha trajetória não tem sido das mais consoladoras. Nasci e cresci numa família de católicos praticantes, o que fez de mim, até certa altura da vida, uma criatura de fé inabalável e sólidos princípios religiosos, para quem a morte era tão só o começo de uma nova vida. Mais: era para mim algo tranquilo e distante, fosse por meus verdes anos de então, fosse por não ter com ela qualquer intimidade. E de um momento a outro, e da maneira mais brutal, ela veio a se tornar minha íntima companheira, intimidade que, suponho, acompanha-me desde então, décadas decorridas.

Meus Pais

Meus Pais

Pai, mãe e quatro filhos (eu o mais velho) compúnhamos uma família saudável e unida na mais completa harmonia. Até que, em meados dos anos ’60, a iniludível tesoura de Átropo resolveu intervir sem ser chamada, cortando o fio da vida de metade desse grupo familiar. E tudo em menos de dois anos. Primeiro, a irmã caçula, aos 14 anos, depois o pai, aos 62, e quarenta dias mais tarde, a mãe, com apenas 54. Enfim, a morte deixava de ser para mim, de modo tão violento e de uma vez por todas, algo distante, objeto de estudo e elucubrações filosóficas, ou musa de poetas que eu tanto admirava. O abalo nos três sobreviventes da família não poderia ser maior, claro. De repente nos vimos sós e diante de um deserto sem fim. Para mim, uma terrível secura interna, que tardou muito a se esvanecer. E foi  justamente a estrutura emocional que nos legaram nossos pais, estou certo, que nos deu força suficiente para seguir caminho – e caminho não tão curto, pois hoje já ultrapasso em mais de quinze anos a idade com que morreu meu pai. Só que infelizmente não mais com a fé dos vinte anos, substituída que foi por um sereno agnosticismo. Ao faltar a graça da fé, sobra a incerteza do conhecimento (ou do desconhecimento).

Pronto, acho que falei demais, confidenciando agora o que nunca disse antes… Só mesmo apelando para o nosso Drummond para me sair dessa enrascada:  Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo.

Por outro lado, não desejaria concluir essas notas com um tom crepuscular. Por isso, retorno a dois outros poetas de minha grande estima e admiração. O primeiro, como não podia deixar de ser, é Manuel Bandeira, meu querido e sempre lembrado amigo e padrinho de casamento. Uma sucessão de tragédias familiares  –  perda da irmã, da mãe e do pai em um curtíssimo espaço de  tempo (notem a coincidência) – e a luta diária contra a enfermidade, marcaram a vida e a obra de Bandeira. O sofrimento está sempre presente, mas neutralizado por uma aceitação  tranqüila, filosófica. O vazio, as ausências, as perdas, as separações e a morte são seus temas recorrentes. A recordação saudosa dos mortos queridos habita seus versos e consola o poeta em sua solidão. Para Assis Barbosa, foi a morte que deu vida à poesia bandeiriana. O amor unido à morte – eis a poesia de Bandeira. E eis alguns títulos de seus poemas: Preparação para a morte; Morte absoluta; Canção para minha morte; Programa para depois de minha morte – todos de uma beleza serena que toca fundo a alma de qualquer mortal…

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

Bandeira e a afilhada Marly de Oliveira

O segundo nome a que quero referir-me é o de Marly de Oliveira, outro admirável poeta, uma das vozes mais altas da língua portuguesa no entender de Antônio Houaiss, e que nos deixou prematuramente em 2007.  Como pessoalmente a conheci e com ela convivi desde cedo, tendo podido seguir de perto a evolução de sua obra, registro aqui o que já tenho dito e escrito em várias oportunidades: desde seu livro de estréia – Cerco da Primavera – publicado em 1957, quando era ainda uma jovem universitária, Marly de Oliveira surpreendeu a leitores e críticos com uma obra que nasceu pronta, definitiva, “como Atenas, da cabeça de Júpiter”, na expressão de Alceu de Amoroso Lima, e que mereceu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, do Instituto Nacional do Livro. A despeito da juventude da autora, ali já estão presentes seus temas essenciais, reiterados nos 16 livros publicados desde então e resumidos numa permanente indagação filosófica sobre os mistérios e a fragilidade da vida. O primeiro verso, do primeiro poema, do primeiro livro já traduz a atitude reflexiva de alguém voltado para o conhecimento de si e do mundo que o cerca:

Eu. E diante da vida (…)

Trata-se da obra de uma jovem artista perplexa ante os mistérios do mundo, acreditando a princípio no poder da poesia como chave para abrir esses mistérios, mas que em seguida se dá conta da insuficiência da arte para apreender e desvendar o mundo, a vida, a morte. O máximo a que a poesia poderia aspirar seria então refletir, em termos estéticos, esta busca permanente e a consequente perplexidade diante do mistério insondável.         Mas essa impotência para entender o mundo não detém o tempo, em seu fluir incessante.   E esse fluir incessante vai desembocar naturalmente no não-ser, na morte. Ou seja, o amor e a morte são os temas básicos do Cerco da Primavera e de toda a obra de Marly de Oliveira. Em seu segundo livro, Explicação de Narciso, o tema se adensa e se aprofunda, já que Narciso é o ser que caminha inelutavelmente para a solidão e para a morte, na ânsia permanente de captar o sentido da vida em seu fluir. O terceiro poema do livro diz tudo:

Diante de mim, nestas águas,

quem sou, que não me preciso?

Ai, que sonho tão temível

assim me turva o sorriso?

Que amor, que presságio cingem

a cabeça de Narciso?

A que secretos poderes

se confia minha sorte,

se o que frágil vejo na água,

em mim se torna mais forte,

e onde sei que está a vida

encontram todos a morte?

Entre mistérios tão vastos

que breve instante que somos!

De repente descobrimos

que estamos. Mas onde? e como?

Por mais que nós nos dobremos

sobre nós e o que já fomos,

à inútil pergunta nossa

somente o eco responde.

E diante outra vez de nós

estamos. Há quem nos sonde?

E de que espaço ou que tempo

nosso eco responde? de onde?                                                                                                            

Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

E é finalmente a própria autora que confessa: “Ainda adolescente, o grande terror era o da morte, só compensado pela idéia do amor. Amor e morte são os temas fundamentais desse livro, que pretende por medo da dissolução, uma afirmação da minha identidade, a sensação penosa de uma solução que ainda é desafio e orgulho.”

Para concluir, vejam este breve poema de seu primeiro livro, onde se explicita o delicado tema de nossa conversa de hoje.

EPIGRAMA

Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.

 

Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranquilo

diante da vida ou da morte.

***********************************************

 

         

          

         

 

 

6 Comentários

Arquivado em LITERATURA, Reflexões, Uncategorized

A CECÍLIA MEIRELES QUE CONHECI

                   A CECÍLIA MEIRELES QUE CONHECI

                                                          Lauro Moreira

                                  images                   Unknown

Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa.  Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo…A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”  Paulo Rónai

   Em crônica publicada neste Quincasblog há cerca de um ano (5/09/14), intitulada  Falemos um pouco de Poesia, que tratava sobretudo de Manuel Bandeira e de meu CD O Poeta em Botafogo, escrevi textualmente:

               “Eu tive o privilégio, embora não sendo poeta mas gostando tanto da Poesia, de viver sempre muito próximo dela e de vários de seus cultores e criadores, alguns de altíssima linhagem. Entre eles, Cecília, Drummond, Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral, para citar apenas aqueles que já partiram. Além disso, fui casado por dezessete anos com Marly de Oliveira, mãe de minhas filhas, e uma das vozes mais sensíveis, eruditas e requintadas da poesia em Língua Portuguesa, como proclamavam Antônio Houaiss e a unanimidade da crítica nacional.””

     Pois hoje eu gostaria de conversar um pouco com minhas leitoras e leitores sobre Cecília Meireles. Não para tratar de sua obra altíssima, que a situa entre as vozes mais cristalinas da poesia lusófona, mas para evocar essa figura humana admirável que tanto fez pela educação e pela cultura em nossa terra. Essa mulher bonita, especial, fascinante, de um charme envolvente, que em qualquer encontro ou roda social acabava logo por se tornar o centro de atenção dos presentes. Por sua beleza física, porte altivo, dicção perfeita, sorriso luminoso e profundos olhos verdes no rosto moreno,  inteligência viva, sentido de humor e cultura invejável. Uma das presenças mais marcantes que tive o privilégio de encontrar em toda minha vida. E a despeito de tudo isso, tida por alguns como um tanto inacessível…Unknown-1

     A poetisa Marly de Oliveira, por já haver publicado seu primeiro livro, Cerco da Primavera (ainda como aluna do Curso de Letras da PUC/Rio), estreia saudada com entusiasmo pela crítica especializada e vencedora do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, do Instituto Nacional do Livro, tinha e teve sempre por Cecília Meireles uma admiração incondicional. E foi através de Marly que tive eu o privilégio de iniciar um convívio inesquecível com a autora de Vaga Música, de 1961 até sua morte, no dia 9 novembro de 1964, em um hospital do Rio de Janeiro, dois dias após haver completado 63 anos de idade. Esse período de convívio  foi portanto breve, porém intenso, incluindo visitas frequentes a sua bela casa no Cosme Velho, a que se chegava depois de escalar um  terreno íngreme, coberto por um magnífico jardim – na verdade, uma mansão parecida com a própria dona… Além dessas visitas, lembro-me bem de alguns contatos marcantes para mim, como sua presença no Teatro da Maison de France, no Rio, para assistir à estreia da peça A Volta do Marido Pródigo, uma divertida dramatização feita por Léo Gilson Ribeiro do conto homônimo de Guimarães Rosa, na qual eu fazia o papel do marido em questão.

  Outro momento de que não me esqueço, foi quando Marly a convidou para fazer uma conferência aos seus alunos da PUC  – a essas alturas, Marly já tinha concluído seu curso e passado mais de ano com uma bolsa de estudos em Roma, aprofundando os conhecimentos de Língua e Literatura Italiana, e estava agora como Professora- Assistente de Literatura Hispano-Americana e titular de Língua e Literatura Italiana na Faculdade de Nova Friburgo, no interior do Estado. Eu descera para receber Cecília no térreo do edifício, junto aos pilotis, acompanhado do Professor Raul Léllis, autor conhecido de livros didáticos e já, digamos, não muito moço. Quando os apresentei, já que aparentemente não se conheciam, o Professor Léllis foi logo proclamando que havia sido aluno de Cecília, ao que ela prontamente emendou, entre irônica e séria: Não me diga, Professor! Mas enfim é possível, pois várias vezes tive alunos bem mais velhos que eu…

Unknown-2

   Em pouco tempo, nosso relacionamento com Cecília estendeu-se também ao marido, Heitor Grilo, um homem inteligente, culto e muito simpático, professor e engenheiro agrônomo, que nutria pela esposa a mais entusiástica e ostensiva admiração – o que, confesso, era até bonito de se ver. Ficamos também amigos da irmã e do cunhado do Dr. Heitor, um casal já mais velho, com uma filha única, portadora da síndrome de Down, a adolescente Maria Alice, criada com tal carinho e sabedoria, que veio a se tornar uma fonte permanente de encanto para a família, para Marly e para todos os amigos. Cecília e Heitor Grilo tinham-se casado em 1940, cinco anos após a morte de Fernando Correia Dias, artista plástico português, com quem Cecilia se havia unido em 1922, e com quem tivera três filhas, uma delas a conhecida atriz Maria Fernanda. 

    Correia Dias, aliás, antes de vir para o Brasil, e embora bastante jovem, teve participação destacada como um dos pioneiros do movimento modernista em Portugal, que  marca seu início com a publicação da revista trimestral Orpheu (1915),  dirigida por Fernando Ferro,  com colaborações, entre outros,  de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá Carneiro, há exatos cem anos. Curiosamente, desde sua morte por suicídio em 1935, no Rio de Janeiro, a memória de Correia Dias foi sendo aos poucos apagada, e só recentemente, em 2013, uma seleção de suas gravuras guardadas na velha casa do Cosme Velho veio a publico, com o lançamento da obra “Fernando Correia Dias — Um poeta do traço” (Editora Batel), do historiador português Osvaldo Macedo de Sousa. Segundo este, “Correia Dias foi um cenógrafo da vida, seja nas artes gráficas, nas artes decorativas ou na publicidade. Foi o primeiro artista português a criar uma página publicitária para os seus serviços multidisciplinares, como caricatura, ilustração, cartazes, vitrais, cerâmica, pirogravura, marcenaria. Seu Grupo de Coimbra seria o grande motor da introdução do modernismo em Portugal.”

images-2

    Não é sem razão que tanto a vida quanto a obra de Cecília estejam embebidas da cultura e da alma portuguesas: seus antepassados eram imigrantes açorianos; sua avó, que a criou, era da Ilha de São Miguel (onde nascera também a mãe de Machado de Assis); e seu primeiro marido chega de Coimbra ao Rio de Janeiro aos 21 anos de idade, tendo seu talento de artista logo reconhecido pela intelectualidade local, a começar por Ronald de Carvalho, seu grande incentivador e diretor para o Brasil da revista Orpheu. E foi ao lado de Correia Dias, que a apresentou aos jovens vanguardistas portugueses, que Cecilia Meireles realizou sua primeira viagem a Portugal, em 1934.  Aliás, não posso de deixar de mencionar a esse respeito uma passagem bastante curiosa de um exitoso livro recentemente lançado em Portugal, intitulado “”Fernando Pessoa – O Romance”,  uma espécie de  autobiografia do poeta (ou dos poetas), escrita por Sonia Louro, na qual se registra a tentativa  (verídica) de um encontro de Cecília com Fernando Pessoa na Brasileira do Chiado, tentativa frustrada pela incrível timidez e insegurança do autor de Chuva Oblíqua, que acabou deixando a colega brasileira esperando em vão durante mais de duas hora. Enquanto ela esperava, ele passava incógnito por seu hotel e deixava o exemplar de um livro autografado… Nada a admirar, pois “Na Brasileira, no Martinho, era eu quem mais ouvia e menos falava, talvez porque o meu desejo mais profundo fosse falar largamente para o mundo todo através do que escrevia.” (Pág. 267).

    A vida de Cecília não foi nada fácil, pelo menos até seu segundo casamento, em 1940. Subitamente viúva, com três filhas pequenas para criar, teve que se dedicar de corpo e alma às atividades de professora e jornalista para sobreviver. É ela mesma quem evoca lindamente seus primeiros anos de orfandade e solidão, ao lado da lição de vida que aprenderia para sempre:

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

(…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

Unknown-5

    Cecília Meireles andou por todo o mundo. Realizou numerosas viagens aos Estados Unidos – foi inclusive Professora de Literatura e Cultura Brasileiras na Universidade do Texas – à América Latina, à Europa, à Ásia e à África, fazendo conferências e ministrando cursos em diferentes países sobre Literatura, Educação e Folclore, em cujos estudos era uma reconhecida especialista. Representou o Brasil em diversos congressos internacionais, foi condecorada pelo Chile de sua amiga Gabriela Mistral, recebeu importantes homenagens em Goa e o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Delhi. Aliás, sua afinidade com a Índia de Ghandi e Nehru era conhecida. No meu já mencionado artigo “Falemos um pouco de Poesia”, escrevi também o seguinte:

         “Ou como lembrava Cecília Meireles : ”Conviver com os homens é mais terrível que com os deuses. E ninguém conhece epopeia mais dolorosa que a de moldar, dia a dia, clara e verdadeira, a fugitiva condicão humana”. Na sua emocionada e emocionante Elegia sobre a morte de Ghandi, repetia as palavras desoladas ouvidas do próprio Mahatma: “Les hommes sont des brutes, madame.” :

“Les hommes sont des brutes, madame.”

O vento leva a tua vida toda, e a melhor parte da minha.

Sem bandeira. Sem uniformes. Só alma, no meio de um mundo desmoronado.

Estão prosternadas as mulheres da Índia, como trouxas de soluços.

Tua fogueira está ardendo. O Ganges te levará para longe,

Punhado de cinza que as águas beijarão intimamente,

Que o sol levantará das águas até as infinitas mãos de Deus.

“Les hommes sont des brutes, madame.”

   Os meus generosos leitores deste Quincasblog já conhecem um pouco de minha vida, o que me exime da tarefa de maiores explicações para contextualizar determinados aspectos destas minhas divagações. Assim que não preciso explicar-me demais quando menciono, por exemplo, minha estada de quatro anos em Barcelona, a partir de 1990, à frente do Consulado Geral do Brasil. Certo? Pois bem, nessa época havia por lá – e espero que ainda haja, claro – um certo Colégio Brasil, com mais de 600 alunos de idades aproximadas de sete a quinze anos. Sabendo que esse colégio de Brasil só tinha o nome, visitei um dia o seu Diretor para propor-lhe um plano ambicioso de divulgação de cultura brasileira no âmbito de todas as turmas da escola, a partir do material que o Consulado colocaria à sua disposição. Demos início ao projeto com uma Semana Brasil, recheada de diferentes palestras para os diferentes níveis de alunos (e à noite, uma especial para os pais), de recitais de poesia e de música, de uma apresentação de mamulengos nordestinos brasileiros que por lá se encontravam, e até de um campeonato de futebol entre os alunos, cuja Taça Brasil seria entregue  ao vencedor por ninguém menos que Romário, àquela altura ídolo absoluto do Barça. Por outro lado, ao tomar conhecimento de que a cada ano todos os alunos de todas as turmas estudavam um determinado poeta (espanhol, naturalmente), acabei convencendo o Diretor a adotar para o ano seguinte um poeta brasileiro. E propusemos justamente Cecília Meireles, que foi aceita e estudada ao longo de todo o ano de 1993, com textos de poemas para crianças e adultos traduzidos por nós para o espanhol e até mesmo para o catalão. Um sucesso e uma imensa alegria. E vale acrescentar que ainda em meu período de Barcelona, criei um grupo de jograis para apresentar um espetáculo com obras de poetas brasileiros, um recital que repetimos em vários colégios e centros culturais da Catalunha, e que tinha por título “Canción de un Camino España”, nome em Português de um lindo poema de Cecília Meireles… 

    Por esse tempo, Cecília Meireles era uma poeta mais que admirada em sua terra, e em várias outras, para cujas línguas seus poemas iam sendo cada vez mais traduzidos. Compositores populares como Raimundo Fagner musicavam seus versos, que passavam a ser cantados por um público crescente. E em 1989, uma cédula de 100 Cruzados Novos foi lançada com a efígie da grande poetisa brasileira. Pena que a inflação galopante da época acabou logo por engolir não apenas Cecília, como Drummond, Portinari e até o nosso Mestre dos Mestres, Machado de Assis… No site do Banco Central podem-se ler hoje os detalhes daquela cédula de Cecília, que reproduz inclusive um desenho de sua autoria: 

Anverso:

Retrato de Cecília Meireles (1901-1964), tendo à esquerda, a reprodução de desenho de sua autoria, ao qual se sobrepõem alguns versos manuscritos extraídos de seus “Cânticos”.

Reverso:

A gravura, à esquerda, representa o universo da criança, suas fantasias e o momento da aprendizagem. O painel é completado, à direita, com a reprodução de desenhos feitos pela escritora, representativos de seus estudos e pesquisas sobre folclore, músicas e danças populares.

Unknown-3

    Confesso aos amigos e amigas que deixei para o fim desta narrativa a parte mais tocante para mim, e por isso mesmo aquela que nunca mais me saíu da memória afetiva. Em 1963, Marly de Oliveira e eu havíamos decidido marcar nosso casamento para o início do ano seguinte. Convidamos para nos apadrinhar os amigos Manuel Bandeira e Clarice Lispector, além do ex-Presidente Juscelino Kubitschek, amigo de meu pai. Todos aceitaram, com grande alegria para nós. Mas uma coisa nos penalizou muito: a ausência de uma madrinha que tanto queríamos mas não podíamos convidar, por haver adoecido seriamente naquela época. Essa enfermidade incomplacente impediu-nos a alegria de tê-la conosco no dia 20 de janeiro de 1964, na cerimônia realizada no Rio, na Igreja do Outeiro da Glória. Na verdade, Cecília fora operada no Hospital do Câncer em São Paulo logo no início daquele mesmo mês de janeiro. Depois do casamento, Marly e eu viajamos para Campos do Jordão, e de lá, uma semana depois, para São Paulo, tão só com o fim de visitá-la. Encontrâmo-la muito bem, ainda no hospital, mas já se preparando para sair. Queria descansar um pouco em Serra Negra, uma agradável estância hidromineral e climática, a 150 quilômetros da Capital. Poucos dias depois, Marly e eu fomos também para Serra Negra, de onde Cecília decidiu retornar conosco  para São Paulo em meu pequeno mas valente Volkswagen, enquanto o Dr. Heitor e a enteada Maria Matilde seguiam de ônibus. E o mais extraordinário foi o momento em que tivemos um pneu furado! Tenho ainda guardada comigo, só não descubro onde, uma pequena foto das duas poetisas ao lado do Fusquinha, no acostamento da rodovia, aguardando o habilidoso chofer aqui concluir a troca de pneus…

    Menos de um ano depois, como vimos, em novembro de 1964, falecia nossa querida e tão admirada amiga em um hospital no Rio de Janeiro. E o Brasil, e a Língua de Camões, perdiam uma de suas vozes mais límpidas.

    Volto agora momentaneamente ao hospital em São Paulo, onde a estávamos visitando após a cirurgia. Logo depois de chegarmos a seu apartamento, ela pede ao Dr. Heitor que apanhe no armário o “presente de casamento dos meninos”. Era um embrulho lindo, tipicamente ceciliano, uma delicada caixa amarrada com fitas e  envolta em papel encarnado.. Ao abrí-lo, deparei com algo ainda mais ceciliano, mais simbolizante daquela autora de títulos sugestivos como Mar Absoluto ou Viagem: era um pequeno e delicado barco veleiro de madrepérola, acompanhado por dois versos decassílabos especialmente criados para a ocasião  e escritos numa linda caligrafia  que conhecíamos tão bem:

    Ventos felizes para quem embarca

    Por mar de rosas e nave de nácar…

images

    Esta foi a Cecília Meireles que conheci e quis compartilhar com meus amigos do Quincasborba.

     E se quiserem conhecer ou recordar um pouco mais dessa figura ímpar da literatura em língua portuguesa, cliquem por favor no YOU TUBE e e entrem em DVD Maos Dadas: Lauro Moreira interpreta Cecilia Meireles. São apenas quatro minutos…

Ou cliquem em Videos, no alto desta página, e poderão ver este e outros trabalhos nossos colocados no You Tube.

 

 

       *******************************************************

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR…

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Karlos Rischbieter, Ministro da Fazenda (1979-1980)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1979-1985)

Ernane Galvêas, Ministro da Fazenda (1980-1985)

Mailson Nóbrega e Lauro Moreira em almoço oferecido ao Ministro GalvêasMailson Nóbrega e Lauro Moreira em jantar oferecido ao Ministro Galvêas (1980)

Meus Amigos e Amigas do Quincasblog,

Os parcos porém fiéis leitores deste Quincasblog – que hoje já se espalham por territórios de Oropa, França e Bahia, e com destaque para Portugal, onde tenho a alegria de contar com um bom número deles – já conhecem um pouco de minha vida e das atividades (profissionais ou não)  que andei exercendo nesse longo trajeto. Aliás, no alto da página deste blog os mais curiosos poderão clicar em Quem sou: um Perfil e entrar em um generoso e detalhado texto biográfico  escrito por um jornalista brasileiro, que vivia em Lisboa no tempo em que eu também tinha essa sorte e exercia as funções de Embaixador junto à CPLP, de 2006 a 2010.

Em 1974, removido de Genebra para Brasília, fui cedido temporariamente pelo Itamaraty ao Ministério da Indústria e Comércio, para ocupar o cargo de Chefe da Assessoria Internacional do então Ministro e saudoso amigo Severo Gomes, bem como da Assessoria  do Conselho Nacional do Comércio Exterior – CONCEX, cuja presidência a ele cabia. Fiquei afastado do Itamaraty por cinco anos, voluntariamente, a despeito da penalização que esse afastamento acarretava para minha progressão na Carreira Diplomática, obrigando-me a uma agregação imposta por lei. Após três anos, com a saída um tanto conturbada (por notórias divergências políticas) do Ministro Severo Gomes, fui convidado por seu sucessor, Ângelo Calmon de Sá, a permanecer no cargo. Ao final da Administração do Presidente Geisel, em 78, voltei ao Itamaraty para ser imediatamente promovido a Conselheiro. Fato curioso foi que, em decorrência de gestões do Ministro Calmon de Sá junto ao Presidente, e com a óbvia anuência do Ministro das Relações Exteriores Azeredo da Silveira, introduziram-se modificações na Lei da Agregação de diplomatas, estabelecendo que funcionários “a partir do nível de Conselheiro” poderiam ser cedidos a outros Ministérios, sem qualquer prejuízo para suas respectivas carreiras. Ou seja, posso alegar que contribuí para essa necessária mudança legal, mas que felizmente dela não usufruí em absoluto, pois naquele momento meu nível funcional não era ainda o de Conselheiro, mas o de Primeiro Secretário.

Na Administração do Presidente Figueiredo, inaugurada em março de 1979, voltei a deixar o Itamaraty para atender a convite do novo Ministro  da Fazenda, Karlos Rischbiter (1927-2013), para assumir a sub-chefia da Coordenadoria de Assuntos Internacionais, no momento chefiada pelo meu colega e querido amigo Embaixador Álvaro Alencar, grande figura humana e grande funcionário, prematuramente falecido em 2006. Aliás, em 2009 a Fundação Alexandre de Gusmão, do Itamaraty,  publicou uma obra em sua homenagem intitulada “Álvaro Alencar: um diplomata na luta contra o subdesenvolvimento”, em cujo prefácio o então Ministro Celso Amorim recorda que  “os depoimentos de seus amigos dão testemunho dos muitos predicados que ele fez por merecer: profissional sério, dedicado, honesto, competente, um dos grandes diplomatas de sua geração, um verdadeiro servidor da pátria, um amigo leal, caloroso e humano”. A despeito de tudo isso, no entanto, foi curta a permanência do meu amigo à frente da CAI, onde foi substituído por outro colega, o Embaixador Oscar Lorenzo Sotto Fernandez, continuando eu na sub-chefia. Mas os tempos estavam um tanto agitados na economia mundial e sobretudo brasileira (marcada pela segunda crise do petróleo, em 1978, a crise financeira de 79, a inflação fugindo ao controle, o perigoso desequilíbrio da balança comercial, os juros estratosféricos da crescente dívida externa, etc.), e em janeiro de 1980 cai o Ministro Rischbieter, substituído pelo então Presidente do Banco Central, Ernane Galvêas, que eu mal conhecia. E aí tem início uma semana de articulações por parte de vários amigos meus do Governo e do setor privado, que me queriam ver finalmente à frente da Coordenadoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. E eu nada tinha a opor…

Foram dias para mim de muita efervecência e alvoroço, que culminaram felizmente com um happy end, e que me permitiram depois viver uma das experiências mais  enriquecedoras de minha vida profissional, além de um contato pessoal com um Chefe competente, respeitável e até hoje grande  amigo, o Ministro Ernane Galvêas. A efervecência daqueles poucos dias, pouco mais de uma semana, levou-me a registrar os acontecimentos vividos em uma espécie de diário,  sob o título de “Da arte de se fazer um Coordenador” Isso tudo aconteceu há 35 anos! Há dias encontrei em meus guardados uma cópia do original desse registro, já um tanto esmaecido pelo tempo, e que agora passo às mãos deste Quincasblog, na esperança de pelo menos divertir um pouco os meus generosos leitores.

“Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

Ao vencedor as batatas! E viva o nosso eterno Bruxo do Cosme Velho!

**************

Notas – Como nem todas os personagens mencionados no texto a seguir são do conhecimento dos leitores – afinal já se passaram mais de três décadas! –  achei interessante situá-los de modo sumário nestas Notas, por ordem de entrada em cena:

  1. Jacques Elluf – Empresário paulista, proprietário de uma trading company;
  2. Eimar Avillez – Ex-Chefe da Assessoria Internacional do Banco Central e grande amigo, que veio mais tarde a trabalhar comigo na gestão do Embaixador Sotto Fernandez;
  3. Ari Pinto – Ex- Chefe da CAI na gestão de Mário Henrique Simonsen no Ministério da Fazenda;
  4. Arthur Goldlust – Presidente da trading COMEXPORT, na qual tempos depois, e licenciado do setor público, vim a trabalhar por um curto período como Superintendente de Operações Externas;
  5. Luiz Américo Medeiros – Empresário, Presidente do Conselho Nacional da Indústria Têxtil;
  6. Fernão Bracher – Inicialmente Diretor e mais tarde Presidente do Banco Central; Sônia Bracher, sua esposa;
  7. Samy Kohn – Empresário, amigo do Ministro Galvêas
  8. Berardinelli – Chefe de Gabinete do Ministro Galvêas
  9. Paulo Tarso Flecha de Lima – Embiaxador, Chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty;
  10. Carlos Langoni – Presidente do Banco Central;
  11. Adimar Shivelbein – Funcionário do Ministério da Fazenda, lotado na CAI;
  12. Francisco Dornelles Vargas – Á época, Secretário da Receita Federal;
  13. Beijoca – Jogador de futebol do Flamengo, que se notabilizou por estrear no Maracanã num jogo em que entrou em campo aos 43 minutos do segundo tempo e foi expulso aos 45;
  14. Roberto Abdenur – Embaixador, à época Assessor do Gabinete do Ministro Saraiva Guerreiro no Itamaraty;
  15. Flávio Perri – Idem;
  16. José Botafogo Gonçalves – Embaixador, Chefe da Assessoria Internacional na gestão do Ministro Delfim Netto no Ministério do Planejamento;
  17. Embaixador Sérgio Corrêa da Costa – À época, Representante do Brasil junto à ONU. De 1983 a 1986, meu Chefe na Embaixada em Washington:
  18. Eduardo Carvalho – Secretário-executivo do Ministério da Fazenda;
  19. Luiz Suplicy Haffers – Empresário da área agrícola;
  20. Benedicto Moreira – Diretor-Geral da CACEX, Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil;
  21. Luiz Felipe Lampreia – Embaixador, à época, em Washington;
  22. Rui Nogueira – Embaixador, Assessor do Ministro Delfim Netto.

*****************************

PARA MELHOR LEITURA, CLICAR SOBRE CADA PÁGINA.

DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR 1 (dragged)DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR  2(dragged) (dragged) 1DA ARTE DE SE FAZER UM COORDENADOR (dragged)DA ARTE DE SE FAZER UM CORDENADOR 4(dragged)5678

9 Comentários

Arquivado em SÉRIE MEUS ENCONTROS, Uncategorized

ODIVELAS E A LUSOFONIA

ODIVELAS E A LUSOFONIA          FORUM 1 FORUM 3 Retornando a um dos temas prediletos deste nosso Quincasblog, publicamos hoje um texto que escrevi para o Catálogo da V Bienal da Lusofonia, organizada pela cidade portuguesa de Odivelas (ao lado de Lisboa) e que teve lugar durante o mês de maio último. Na verdade, era intenção minha postar essa matéria ainda no mês de maio, quando me encontrava em Portugal, participando das diversas etapas e diferentes eventos da Bienal, sobretudo do IV Forum, que contou com a presença de ilustres personalidades do mundo lusófono, e do V Encontro de Escritores, ao qual estiveram presentes mais de quarenta autores dos vários países da CPLP. O Brasil esteve muito bem representado pelo poeta, escritor e ensaísta Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e pelo poeta Iacyr Anderson Freitas, cuja obra eu não conhecia e que, confesso com alegria, surpreendeu-me por sua alta qualidade.  Ao final do texto que se segue, os queridos leitores e leitoras poderão encontrar, como de costume, o endereço no You Tube de mais dois Poetas constantes de meu DVD Mãos Dadas. Desta vez, ainda dentro da fase do Romantismo brasileiro, teremos as notas biográficas e uma amostra da obra de dois grandes nomes da poesia em Língua Portuguesa, bastante distintos em suas vivências, mas ambos desaparecidos muito precocemente: Álvares de Azevedo, aos 21 anos, e Castro Alves, o Poeta dos Escravos, aos 24.  Bom proveito!                    ********************************************************                          MINHA V BIENAL DA LUSOFONIA                                                           Lauro Moreira          ESCRITORES 1            Com imensa satisfação venho acompanhando, desde sua gênese em 2007, a trajetória vitoriosa da Bienal de Culturas Lusófonas, cuja evidente consolidação faz hoje de Odivelas uma verdadeira Capital Cultural da Lusofonia.            Ao longo de todos esses anos, pude testemunhar de muito perto o esforço ingente da Câmara Municipal de Odivelas, na pessoa de sua Presidente, Suzana Amador, e de meu admirável amigo Mário Máximo, escritor, poeta, incansável animador cultural e reconhecido militante da Lusofonia. Em verdade, mais que apenas testemunhar, ouso afirmar que tive o privilégio de participar do nascedouro e desenvolvimento dessa iniciativa, ao longo das quatro Edições anteriores – duas delas na qualidade de Embaixador do Brasil junto à CPLP – proferindo palestras, organizando e participando de espetáculos de música e teatro, propiciando a inclusão de artistas brasileiros nas exposições de arte, ademais de ter tido a honra de receber homenagens especiais que me tocaram profundamente o coração lusófono.    ESCRITORES 3         Acercamo-nos agora da V Bienal de Culturas Lusófonas 2015, a realizar-se no ano em que celebramos os 8 Séculos da Língua Portuguesa, contados a partir do Testamento de Afonso II, em geral considerado o primeiro documento escrito em nosso idioma.           Os tempos que correm não têm sido fáceis, como sabemos, e a própria Lusofonia atravessa uma certa área de turbulência, refletida em debates polêmicos na media internacional e no próprio âmbito da CPLP, organismo onde se observa atualmente uma certa apatia por parte de alguns de seus membros. Assuntos velhos e revelhos como o do Acordo Ortográfico de 1990 esperam até hoje a ratificação (25 anos depois de assinado por todos os participantes!) para sua entrada em vigor em países ainda relutantes, quando em outros, como o Brasil, já constitui fato consumado desde janeiro de 2009. Há muita gente que ainda confunde uma desejada unificação ortográfica com uma insensata e indesejável uniformização ortográfica.       ESCRITORES 2              Mas, na verdade, o ideal pelo qual lutamos e que chamamos de Lusofonia é algo que transcende a questão linguística. Repetindo palavras minhas reiteradas em tantas oportunidades, ressalto que podem alguns dos nossos países comunitários não ser povos exclusivamente lusófonos, mas são também lusófonos. Quer queira-se, quer não, vale repetir, há um espaço lusófono ocupado por esses países, e há sobretudo um espírito lusófono, gerado por uma convivência e uma miscigenação tecida ao longo de quinhentos anos. E esse diálogo intercultural e inter-étnico (e não multi-cultural!) que se estabeleceu entre descobridor e descobertos, entre colonizador e colonizados – e sem entrar aqui em qualquer juízo de valor sobre essa colonização – acabou também fazendo da língua uma “construção conjunta”, na expressão de José Eduardo Agualusa, onde aspectos sintáticos, fonéticos e lexicais acusam uma grande variedade, em um processo de permanente enriquecimento do idioma original de Gil Vicente. Por isso mesmo, Mia Couto diz muito bem, parafraseando Fernando Pessoa (Bernardo Soares) que “minha pátria é a minha língua portuguesa”. Ou seja, desse rico patrimônio imaterial, forjado a partir da experiência vivida no cruzamento desse triângulo Portugal-Brasil-África (enriquecida pela presença do Timor Leste) ao longo de cinco séculos, emerge aquilo que chamamos hoje de Lusofonia,uma construção que teve um dia para começar, mas que não tem uma data para acabar. Algo em permanente evolução, um fenômeno in fieri.         Por isso mesmo, ao liderar o processo de criação da CPLP, nascida finalmente em 1995, o inesquecível Embaixador José Aparecido de Oliveira reconhecia que o novo organismo internacional seria sobretudo a moldura jurídica de uma realidade linguística e cultural pré-existente. São palavras suas:       “A primeira das nossas preocupações na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi a de instituir uma sociedade rigorosamente entre iguais, de tal maneira que as dimensões físicas e políticas dos países participantes não influíssem na formação do grupo nem na sua orientação futura. Há, em nosso entendimento, um fator transcendental, que nos iguala e elimina preocupações de hegemonia: a alma comum fundada pela nossa língua”.           Palavras bem-vindas, que a Bienal das Culturas Lusófonas de Odivelas tem procurado, e com grande sucesso, transformar em atos concretos de largo alcance, contribuindo assim para a consecução do ideal maior de todos nós, que é o de ver uma Comunidade (por ora) de Estados Membros transformada em uma Comunidade de Cidadãos Lusófonos.   Lisboa, maio de 2015  Clicar nos links abaixo:    http://youtu.be/0DmtYNiO3bI  ou MÃOS DADAS – ÁLVARES DE AZEVEDO interpretado por Lauro Moreira     http://youtu.be/-LR_1vwz6yk     ou  MÃOS DADAS – CASTRO ALVES interpretado por Lauro Moreira          

2 Comentários

Arquivado em LITERATURA, LUSOFONIA